A Xiaomi anunciou o seu mais recente smartwatch, o Xiaomi Watch S4, que chega com a promessa de combinar estilo, saúde e produtividade num só dispositivo. Com um ecrã AMOLED de 1,43 polegadas, o Watch S4 oferece uma experiência visual nítida e vibrante, com resolução de 466×466 píxeis e brilho máximo de 1500 nits, que deverá garantir boa visibilidade mesmo sob luz solar direta.

A bateria, que promete até 15 dias de utilização normal, é um dos destaques deste smartwatch. Até porque, segundo dados da marca, bastam 5 minutos de carregamento para o Watch S4 conseguir até dois dias de autonomia.

O design do Xiaomi Watch S4 é outro ponto forte, com molduras e braceletes intercambiáveis que permitem personalizar o relógio de acordo com o estilo de cada utilizador. Os mostradores do relógio também foram pensados para oferecer funcionalidades adicionais, como o Clearheaded, que monitoriza os níveis de stress com indicadores animados, e o Wild Walker, que fornece direção e altitude em tempo real.

No que toca à saúde, o Xiaomi Watch S4 está equipado com um algoritmo atualizado que monitoriza continuamente a frequência cardíaca, oxigénio no sangue, níveis de stress e padrões de sono, com uma precisão anunciada de 98%. O relógio gera um relatório de saúde em cerca de 60 segundos e oferece cursos de treino respiratório para ajudar os utilizadores a melhorar o seu bem-estar.

Para os amantes de desporto, o Watch S4 suporta mais de 150 modos desportivos e integra um GPS avançado L1+L5, que assegura uma localização precisa durante as atividades ao ar livre.

O Xiaomi Watch S4 não se limita a ser um relógio inteligente, mas também um centro de controlo para outros dispositivos. Através do Xiaomi Smart Hub, é possível conectar smartphones, tablets, auriculares e dispositivos domésticos inteligentes para uma gestão unificada. O relógio permite ainda encontrar o telemóvel ou tablet com um simples toque, capturar fotos remotamente e ajustar as configurações dos auriculares.

A Xiaomi introduziu ainda gestos inovadores no Watch S4, como estalar os dedos para rejeitar chamadas ou dispensar notificações, tornando a utilização do dispositivo ainda mais prática.

Com um preço a partir de €159,99, o Xiaomi Watch S4 apresenta-se como uma opção atrativa para quem procura um smartwatch completo, com funcionalidades avançadas de saúde, fitness e produtividade.

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Anunciado pelo então ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, em 2022, o Museu de Arte Contemporânea/Centro Cultural de Belém carregava o peso de décadas de promessas e mal-entendidos. Afinal, Lisboa, campeã recente nas estatísticas do turismo global e histórica capital europeia com vistas atlânticas, nunca tinha tido um grande museu de arte contemporânea internacional, hoje obrigatório polo de atração em qualquer grande ou mesmo média cidade, um pouco por todo o mundo. Isso não significa que não houvesse arte moderna e contemporânea, e de qualidade, em museus. Aliás, até data de 1911 a abertura de um museu Nacional de Arte Contemporânea, em pleno Chiado. Mas ele acabaria por ser símbolo do País desfasado com a contemporaneidade que Portugal foi durante grande parte do século XX, transformando-se, mesmo, num instrumento de extremo conservadorismo nas décadas de 50 e 60, fechado a tudo o que cheirasse a “arte moderna.” Fechou, decadente, em 1988 e reabriu em 1994, afirmando-se como um espaço para arte contemporânea portuguesa, mas lutando sistematicamente com orçamentos insuficientes. E havia a Gulbenkian, claro, que em 1984 abria o seu Centro de Arte Moderna, também focado sobretudo em artistas portugueses, dando-lhes um lugar que nunca antes tinham tido.

Em 1993, um ano antes de Lisboa ser Capital Europeia da Cultura, o Centro Cultural de Belém passou, praticamente de um dia para o outro, depois de abrirem as portas, de obra polémica e assustador mamarracho que ia ofuscar os Jerónimos para farol de modernidade a iluminar um futuro radioso. Começou a fazer parte do quotidiano cultural dos lisboetas e visitantes. Em junho de 2007, aquilo que era conhecido como Centro de Exposições, por onde passaram grandes nomes da arte portuguesa e mundial, transformou-se no Museu Berardo, exclusivamente dedicado à coleção do “comendador”, como gosta de ser tratado, Joe Berardo, nascido na Madeira em 1944, construída sobretudo nos anos 90, com a orientação e sabedoria de Francisco Capelo. A qualidade desse acervo, centrado no século XX e com obras de praticamente todos os grandes nomes, europeus e americanos, do cânone das artes plásticas, fez com que o Museu Berardo (um sucesso de público, até porque durante anos a entrada era gratuita) fosse o mais próximo que Lisboa já tinha tido de um grande museu de arte contemporânea, com um estatuto internacional.

Interferências e desvios

Agora, o nome de Berardo desapareceu da designação e o Museu de Arte Contemporânea/Centro Cultural de Belém (MAC/CCB), inaugurado em 2023, é o projeto que mais configura essa ambição na capital portuguesa. Tem mesmo, desde 2024, uma diretora artística, escolhida por concurso internacional: a espanhola Nuria Enguita, chegada do IVAM, Instituto Valenciano de Arte Moderna. A grande parte do seu acervo ainda é composta pelas obras da coleção Berardo, mas juntaram-se-lhe (ver caixa) a Coleção Ellipse, a Coleção de Arte Contemporânea do Estado e a Coleção Teixeira de Freitas. Além disso, o MAC/CCB apresenta peças emprestadas por muitas outras coleções e instituições (como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Coleção da Caixa Geral de Depósitos, a FLAD e várias coleções privadas e arquivos de artistas).

E, agora sim, chegamos à exposição que abriu portas nesta quinta-feira, 27. Juntamente com Objeto, Corpo e Espaço – a revisão dos géneros artísticos a partir da década de 1960, que pode ser vista no piso -1, Uma Deriva Atlântica – as artes do século XX, no piso 2, configura uma exposição permanente que serve de âncora, entre várias mostras temporárias, ao tão sonhado Museu de Arte Contemporânea lisboeta aberto ao mundo. Dissemos “permanente”? “É uma exposição permanente em permanente transformação”, corrige-nos Marta Mestre, curadora da exposição ao lado da diretora artística Nuria Enguita e de Mariana Pinto dos Santos (assessora científica), acrescentando que pode haver entradas e saídas de obras, mas dentro da mesma lógica expositiva.

Esta Deriva Atlântica tem, aliás, uma óbvia e declarada ambição de ser uma exposição com uma identidade própria, com ideias, com uma marca forte do trabalho de curadoria. A ideia é, mesmo, escapar à dimensão “canónica” da coleção Berardo, fugir à facilidade de exibir uma série de obras agrupadas por estilos/géneros em ordem cronológica. Há uma certa cronologia, mas constantemente questionada com “interferências”, desvios, elementos que provocam reflexão e questionamento. O título da primeira sala até acaba, mesmo, com um ponto de interrogação: É Preciso Ser Cubista? É aí que encontramos a peça mais antiga desta exposição: Tête de Femme, de Pablo Picasso; mas também Amadeo de Souza-Cardoso, Modigliani e Sonia Delaunay.

Um dos desafios da curadoria foi, precisamente, colocar em comunicação, e nem sempre de forma óbvia, obras de artistas portugueses e de outras partes do mundo. Esse objetivo é claro quando se entra na penumbra da sala Sombras Readymade. No meio, numa vitrina, está uma das célebres malas de Marcel Duchamp (Boîte-en-valise série C, 1958), à sua volta, nas paredes, várias sombras de Lourdes Castro. “Com percursos e vidas que nunca se cruzaram, e com abordagens artísticas muito diferenciadas, ambos se fascinaram pela vertigem da reprodução técnica, da fotografia ao readymade, do teatro de sombras ao cinema”, lê-se. Mais à frente, o surrealista “telefone-lagosta” de Dalí convive saudavelmente com a liberdade poética de Cesariny e Mário Botas. O lado Atlântico de Lisboa celebra-se numa exposição que nos leva de Paris a Nova Iorque, com muitos desvios pelo meio, terminando no apelo do Hemisfério Sul. É preciso ser contemporâneo?

A expressão “casos e casinhos”, tão popular no governo de António Costa, parece estar a converter-se em “casas e casinos” e a ganhar proporções que podem ser desastrosas para quem tem a missão de governar e em particular liderar um governo.

Tudo começou com a revisão da “Lei dos Solos” que, grosso modo, abre um mundo de oportunidades para quem é proprietário de terrenos rústicos, muitos deles encravados entre habitações (mas a isso poderei dedicar outra crónica).

Com a eventual lei a permitir aos donos de terrenos classificados como rústicos construir casas, é natural que estes pedaços de terra se apresentem como “terras raras”. Entre estes milhares de proprietários estão, obviamente, políticos (desde presidentes de junta, passando por presidentes de câmara, indo até deputados, secretários de estado, ministros, presidente da República), que, enquanto legais representantes do povo, têm em mãos a votação das alterações ao Decreto-lei.

Até aqui nada de novo. Afinal, um político pode ser político de carreira ou estar político, mas em qualquer dos casos tem uma vida, um passado, um património. Então o que está a correr menos bem com as “casas e casinos”?

Parece-me simples, mas ao mesmo tempo nebuloso!

Simples porque bastaria ao político, no momento em que veste a pele de político, vender a empresa ou a parte que a sua família direta tem no capital. Uma opção que deveria ser obrigatória por quem é empreendedor e a determinado momento da vida entra na política.

Nebuloso porque vender uma empresa ou participação, só porque se quer abraçar a missão de servir o país, nunca levará a um corte umbilical. Eventualmente se houvesse um período de nojo entre o tempo do convite e a efetiva integração no cargo. Mas, de tão ridícula que é, esta opção nem pode ser colocada em cima da mesa.

O que sobra então? Ter um vai e vem de políticos a justificarem-se perante o eleitor? E quem se disponibiliza para tal? Que político está disponível para expor na praça pública os seus bens, muitos deles herdados?

A história mostra que, em Portugal, político que se expõe, é político que enfraquece. Veja-se o exemplo de Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia e do Emprego, que numa tentativa de acabar com os títulos a servirem de nome próprio informou que preferia que o chamassem sempre de Álvaro. A chacota foi instantânea, afinal Álvaro vinha de fora e não conhecia o país.

Voltando ao tema “casas e casinos”, creio que sobra ao primeiro-ministro fazer uma pega de caras e justificar-se aos portugueses. Só assim será e deixará uma marca de confiança num país habituado a que os políticos não abordem detalhes da vida privada.

As declarações de sábado à noite e a manobra de deixar o ónus na oposição, não chega. Luís Montenegro tem que explicar com clareza, as operações da empresa que fundou, depois de a deixar, e clarificar que entregas faz a empresa aos clientes e com que recursos, se todo o funcionamento da empresa e a produção de trabalho for realizada sem a intervenção do primeiro-ministro, tem que reconhecer que a devia ter passado logo aos filhos, fazê-lo agora, e seguir em frente.

Se o funcionamento desta empresa, a sua relação com os clientes, a entrega de trabalho e os recursos humanos que produzem o conteúdo não for clara, o primeiro-ministro perde credibilidade política e fica muito difícil para os portugueses perceberem a independência do governo.

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O fruto do morangueiro é um alimento muito apreciado em todo o mundo e utilizado nas mais variadas receitas. Ao natural, no iogurte ou batidos, doces ou compotas, sumos naturais ou apenas com açúcar, o morango possui diversos benefícios nutricionais para o organismo.

Embora seja mais consumido entre abril e agosto, o morango é produzido durante quase todo o ano, sendo os seus maiores produtores mundiais os Estados Unidos, México e China. Em Portugal, as maiores produções de morangueiros ficam no Alentejo, Algarve e Ribatejo. O seu consumo, no entanto, é especialmente recomendado dentro de época, devido à sua riqueza nutricional, que atinge o seu pico. “São uma fruta de fácil preparação e consumo, sendo facilmente integrada em lanches e snacks. Recomenda-se que sejam consumidos dentro da sua época sazonal para que os seus atributos nutricionais sejam mantidos”, pode ler-se na página do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde.

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Os morangueiros podem ser divididos em duas categorias, os remontantes – plantas que florescem várias vezes ao longo do ano – e os não remontantes – que florescem apenas uma vez. Existem várias variedades de morangos, facilmente distinguíveis pela vivacidade da cor, sementes e folhas. Destacam-se, por exemplo, a Rociera, Candela, San Andreas e Tudla.

Alguns benefícios do morango:

  • Baixo em calorias – fruto doce e aromático, o morango tem uma baixa quantidade de calorias – aproximadamente de 5 kcal por morango – e é maioritariamente composto (cerca de 90%) por água. Apresenta, no entanto, um baixo valor energético.
  • Rico em vitaminas e minerais – rico em potássio, magnésio, vitaminas A, C e complexo B, o morango é um alimento nutricionalmente muito benéfico. A vitamina A, por exemplo, ajuda a melhorar a função cognitiva e ocular. Já a vitamina C ajuda a defender o organismo e a fortalecer o sistema imunitário e a B9 e o potássio promovem a saúde cardiovascular e previnem doenças cardíacas. Os elevados nos antioxidantes presentes na composição do morango ajudam também a prevenir a oxidação celular e o ácido elágico e antocianinas – substâncias que conferem ao morango a cor vermelha – têm propriedades anticancerígenas.
  • Promovem o trânsito intestinal – as sementes do morango são muito ricas em fibra, o que ajuda a regularizar o trânsito intestinal.
  • Ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue – para além da fibra, os morangos apresentam um baixo índice glicémico, que contribuem para controlar os níveis de açúcar presentes no sangue.
  • Rico em ácido fólico – essencial na gravidez, o ácido fólico contribui para o normal desenvolvimento do feto e previne malformações para além de ser essencial na formação dos componentes sanguíneos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, devem ser consumidas diariamente  3 a 5 porções de fruta, o que equivale a 160 g de morangos – cerca de 8 unidades.

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Nunca vivemos tanto como agora. Também nunca os cientistas se interessaram tanto pela longevidade?
A coisa mais positiva dos últimos anos é que há um interesse grande em puxar a Ciência da longevidade para a prevenção das doenças relacionadas com o envelhecimento. As pessoas querem viver até aos 80 ou 90 anos, mas com qualidade. Já querer puxar a longevidade para os 100 ou os 120 anos… há muita gente reticente e eu incluo-me nesse grupo.

Porquê?
Ganharmos todos mais anos saudáveis seria o ideal, mas a Ciência que temos agora não nos permite dizer que esse é um cenário possível. O que está a acontecer é prolongar-se o período da velhice. O que vemos é que a qualidade de vida não acompanha os anos.

E vemos que continuam a valer as mesmas recomendações para a melhorar.
Há cada vez mais pressão para se adotar um estilo de vida que não faz sentido nos dias de hoje, mas já temos fármacos para compensar aquilo que o ser humano nunca evoluiu para ser. Por exemplo, a restrição calórica é uma intervenção que permitiria que a maior parte da população vivesse mais saudável durante mais anos. Ela funciona, mas é incompatível com o estilo de vida da sociedade moderna. Muitas pessoas não têm tempo para se alimentar dessa maneira.

Somos sedentários…
Tenho uma avó de 92 anos que foi sempre muito ativa e ainda hoje sobe dois ou três lances de escadas, é impressionante. Tem uma atividade que, acumulada durante o dia, lhe permite atingir o exercício físico necessário.

A alimentação da sua avó era diferente da atual.
Sim, e a começar logo pela qualidade dos alimentos. Eles já não são tão saudáveis como pensamos, e temos de ter a noção de que isso impacta o nosso envelhecimento de uma forma drástica. A quantidade que tinham de vitaminas e minerais diminuiu nos últimos 50 ou 100 anos, e muitos têm agora muito açúcar e aditivos. O ser humano não evoluiu para ser constantemente bombardeado com uma série de químicos. Daí que cada vez se notam mais desequilíbrios imunitários mais tarde na vida.

Em termos de longevidade, quais são as linhas de investigação mais promissoras?
Embora não se saiba como vão funcionar no ser humano, há quatro intervenções que podem vir a ter algum benefício: a rapamicina e a metformina, que são dois fármacos, a remoção das células senescentes e a terapia anticorpos monoclonais. E há uma quinta, sobre a qual ainda é prematuro falar, mas que é uma hipótese.

A rapamicina já foi testada em animais com bons resultados, não foi?
Aumentou a longevidade e a qualidade de vida em todos, mas a aplicação ao ser humano é mais complicada. Esse composto foi pensado para ser utilizado após um transplante, porque inibe o sistema imunitário de rejeitar o órgão, e aí a dose era muito mais elevada do que é necessária para a longevidade.

A metformina também parece ter potencial.
Tinha-se notado que em pessoas obesas ou com diabetes tipo 2 também retardava o envelhecimento das células. Em testes com animais, tem efeitos promissores de melhorar a longevidade e a qualidade de vida. O problema é que todos os estudos de humanos foram baseados em indivíduos com uma doença ativa. Portanto, não se sabe se terá efeitos positivos em pessoas saudáveis.

E a ideia de remover as células senescentes, que criam um ambiente inflamatório?
Em estudos com ratinhos, a remoção dessas células pode melhorar o processo de envelhecimento. Agora, se isso é algo que nós queremos fazer, se é uma avenida que queremos seguir… Não sabemos, porque parece que essas células também evitam certos tipos de cancros. Com fármacos, nada vem de graça, há sempre efeitos secundários.

Também referiu a neutralização de anticorpos monoclonais
Num estudo publicado na Nature [em 2024], uma equipa liderada por uma investigadora de Singapura conseguiu aumentar a longevidade dos ratinhos. O mecanismo básico dessa terapia é reduzir a inflamação de uma forma considerável. Não se sabe se vai melhorar a longevidade humana, mas ela já é usada em várias doenças.

E a quinta intervenção, que disse ser prematuro…
Essa é mais hipotética: fala-se de compostos como o Ozempic, que controlam a diabetes tipo 2, em que as pessoas perdem peso e mantêm-se mais saudáveis. Não se conhece o efeito a longo prazo, porque ainda não há estudos com animais, mas com aquele tipo de perfil fisiológico é possível que as pessoas vão ter um impacto claro no envelhecimento.

É um mundo. E há um mercado imenso.
Numa conferência em que estive no ano passado, que reuniu investigadores, médicos e donos de startups da área do envelhecimento, encontrei médicos, sobretudo norte-americanos, que queriam aprender sobre a Ciência básica para montar uma empresa e administrar fármacos, como a rapamicina e a metformina, e mais uma série de coisas mais experimentais. As pessoas querem isso. Há uma procura imensa.

Que tipo de pessoas?
Um médico disse-me que o caso típico são homens com muito dinheiro, da alta finança, que querem um quick fix [uma reparação rápida] e estão dispostos a pagar seja o que for. E contou-me que também vão a casa das pessoas, por exemplo, mudar o sistema de purificação do ar. É incrível! Acho prematuro, mas ao mesmo tempo interessante. Não me parece que seja o modo certo de o fazer, embora, por exemplo, a metformina possa ser eficaz e os efeitos secundários não são importantes. Estamos num mundo em que as coisas avançam a um ritmo alucinante. Os próximos dez anos vão ser muito interessantes.

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Em cima da bancada da casa de banho de Bryan Johnson, no primeiro andar da sua mansão em Los Angeles, há um monte de cremes de beleza e um termómetro. Todos os dias, antes de o despertador tocar pelas 5h da manhã, o multimilionário norte-americano levanta-se, toma os três comprimidos deixados de véspera na mesa de cabeceira e mede a temperatura corporal num ouvido, frente a uma caixa de luz que imita a exposição solar.

O termómetro é pequeno, aparentemente vulgar, e dá o resultado em segundos, vemos no início do documentário Imortal: O Homem que Quer Viver para Sempre (2025). Nada de mais, não fosse o protagonista estar em tronco nu para todos nós apreciarmos a sua boa forma física, pouco habitual numa pessoa com 47 anos, e não o acompanhássemos depois até ao rés do chão virado para o jardim, ao estilo californiano, para assistir à rotina diária que segue meticulosamente.

O documentário Imortal… narra a busca obsessiva do multimilionário norte-americano pela longevidade

Na cozinha, Johnson tem uns frascos com mais 54 comprimidos, incluindo metformina e rapamicina (já lá iremos), que engole com uma bebida a que chama “gigante verde”. Só após uma hora de treino no seu ginásio é que come uma grande travessa de legumes variados e temperados. E a última refeição do dia, uma refeição nutritiva à base de frutos frescos e secos, é tomada logo às 11h da manhã, juntamente com mais 34 comprimidos.

Pelo meio, e até se deitar, sempre às 8h30 da noite, o homem que se autodenomina “o ser humano mais comedido do mundo” faz uma série de terapias, obedecendo a um protocolo rígido, desenhado pelo jovem médico e investigador britânico Oliver Zolman, que tem um orçamento anual de dois milhões de dólares para tentar reverter o envelhecimento biológico do seu paciente e parceiro de negócios. “Não poderia existir melhor cobaia”, diz Zolman, e rapidamente se percebe porquê.

Quando Johnson anunciou o projeto Blueprint, em outubro de 2021, disse que já tinha resultados para mostrar porque a sua jornada começara um ano antes, ao “despedir” o “Bryan Notívago”. Multimilionário desde que vendera, em 2013, a Braintree, uma empresa de pagamentos eletrónicos, não estava a gozar a sua fortuna de 100 milhões de dólares porque se sentia a caminho de uma morte prematura. Decidira, então, atingir a idade biológica mais baixa possível e estava disposto a fazer sacrifícios.

RECEBER PLASMA DO FILHO

Os primeiros três anos de Blueprint foram passados a dominar o básico: sono, dieta, exercício. Só depois Zolman avançou com as intervenções menos ortodoxas. No documentário, vemos Johnson a ser constantemente monitorizado pela equipa médica e a fazer a sua primeira terapia genética, afirmando que já reverteu a idade biológica em cinco anos. “A minha velocidade de envelhecimento é de 0,69 – ou seja, a cada 12 meses, envelheço oito meses.”

O dia a dia de Bryan Johnson é assumidamente um projeto científico para ver quantos anos vai conseguir manter-se vivo e saudável. Não tem sequer um limite na mira. Cem anos? Cento e vinte? Há um ano, numa entrevista à revista Fortune, disse que a sua própria mortalidade não está em causa. O seu objetivo é provar que os seres humanos têm uma “cláusula de exclusão para o aparentemente inevitável [a morte]” – se estiverem dispostos a afastar-se da norma. “Não sabemos até onde isto [a vida] pode ir. É um fim em aberto.”

Viver mais anos é naturalmente um sonho perseguido por muitos, já há muito tempo, e a tentativa de travar o envelhecimento esteve durante séculos nas mãos de mentes muito criativas. O rodapé que temos nas páginas seguintes faz uma resenha das teorias da longevidade mais estranhas que foram surgindo, desde comer cérebro de macaco até à vasectomia a que Sigmund Freud se submeteu alegadamente para retardar um cancro no maxilar. Uma linha do tempo que termina nos anos 1930, quando um homem chamado Giocondo Protti anunciou ter conseguido rejuvenescer velhos através de transfusões de sangue de dadores jovens.

Luísa Lopes Dois ou três cafés por dia previnem a disfunção cognitiva, lembra a neurocientista que estuda a neurobiologia do envelhecimento

Quase um século mais tarde, Johnson recebeu plasma sanguíneo do seu filho Talmage, hoje com 19 anos, mas Zolman concluiu que não valia a pena. É possível que algumas substâncias existentes no sangue jovem, como a taurina, possam ter um efeito rejuvenescedor, mas o mais provável é ele dever-se à remoção de detritos. Em 2020, investigadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, verificaram esse mesmo efeito quando substituíram metade do sangue de um ratinho velho por albumina (uma proteína do sangue) e uma solução salina. Talvez haja vantagens em filtrar e diluir o sangue mais velho, sugeriram então.

Entre as teorias estapafúrdias com que o Homem andou a tentar enganar a morte ao longo dos tempos, não encontramos a restrição calórica – severa –, a única intervenção que, entretanto, a Ciência demonstrou que poderá ser capaz de retardar o envelhecimento em vários animais, incluindo nos primatas.

Em experiências realizadas com macacos mantidos em restrição calórica desde a década de 80, na Universidade de Wisconsin e no Instituto Nacional do Envelhecimento, nos EUA, verificou-se que têm menos doenças relacionadas com a idade, como cancro e diabetes, e que vivem até mais 20 anos. Em seres humanos, foi já há uma década que se colocou um grupo de voluntários a comer 25% menos do que seria normal, durante dois anos, e os resultados foram animadores, mas manter pessoas a vida inteira numa dieta tão parca não é exequível nem desejável.

O STRESSE DE PASSAR FOME

O próprio Bryan Johnson aumentou a ingestão de calorias ao fim de dois anos (de 1 950 para 2 250), porque perdera tanta gordura, incluindo na cara, que as pessoas começaram a compará-lo com a atriz Tilda Swinton. “Apesar dos excelentes biomarcadores, olhavam para mim e diziam: ‘Este tipo está velho.’ Era uma questão de perceção. Mas também era doloroso para mim, porque estava sempre em défice e com fome”, admitiu.

É sabido que o stresse mental de se estar sempre com fome pode levar à depressão, o exercício físico pode tornar-se impossível e a libido diminui. “A restrição calórica pode acrescentar alguns anos à vida, mas não será uma vida que valha a pena ser vivida”, acredita João Pedro de Magalhães, professor de Biogerontologia Molecular no Instituto de Inflamação e Envelhecimento da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, onde trabalha na reprogramação e no rejuvenescimento das células.

As 4 linhas de investigação mais promissoras (+ 1)

Entre os vários fármacos e terapias que já demonstraram ter efeitos positivos na longevidade e na qualidade de vida de ratinhos, estes são os que têm mais potencial

RAPAMICINA
É utilizada como imunodepressor para prevenir a rejeição de órgãos transplantados. Estudos realizados em ratinhos de meia-idade aumentaram o seu tempo de vida saudável em 60%. Ela inibe a enzima mTOR, que acelera a divisão celular. Laboratórios e empresas estão agora a tentar atingir zonas a jusante dessa via para desenvolver medicamentos antienvelhecimento que não deixem o sistema imunitário desprotegido, como acontece com a rapamicina.

METFORMINA
É um antidiabético oral indicado para o tratamento da diabetes tipo 2, que foi utilizado pela primeira vez na década de 1950, em França. Chegou aos EUA nos anos 90 e, desde então, os investigadores documentam várias surpresas, incluindo uma redução do risco de cancro. Por ser barato, as farmacêuticas não apostam na investigação que o relacionam com a longevidade. Nos EUA, espera-se financiamento para avançar com o Ensaio TAME, seis anos de ensaios em 14 instituições, envolvendo três mil pessoas, para testar se aquelas que tomam metformina sofrem um atraso no desenvolvimento ou na progressão de doenças crónicas relacionadas com a idade.

REMOÇÃO DAS CÉLULAS SENESCENTES
Em estudos com ratinhos, demonstrou-se que remover as chamadas células zombies, que criam um ambiente inflamatório, pode melhorar o processo de envelhecimento. A senescência é um estado em que as células deixam de se dividir, acabando a segregar substâncias químicas que prejudicam as outras à sua volta. O grande senão de as remover é que essas células também evitam certos tipos de cancros.

NEUTRALIZAÇÃO DE ANTICORPOS MONOCLONAIS
É uma terapia, já usada em várias doenças, que reduz a inflamação de uma maneira considerável. Num estudo publicado na Nature, em 2024, investigadores descobriram que o bloqueio de uma proteína chamada IL-11 pode prolongar significativamente o tempo de vida saudável de ratinhos em cerca de 25%.

OZEMPIC E SEMELHANTES
Os recentes fármacos antidiabéticos, que têm a semaglutida como princípio ativo e atuam também na perda de peso, reduzem a morte por todas as causas. Faz sentido, uma vez que as pessoas ficam drasticamente mais saudáveis, mas ainda não se conhece o seu efeito a longo prazo. A farmacêutica Lilly, que produz um deles, está já a monitorizar várias pessoas, para tentar perceber o seu impacto na longevidade.

E a verdade é que os estudos não são conclusivos. “Existe a hipótese de a restrição calórica não retardar o envelhecimento humano, embora possa ter alguns benefícios para a saúde e proteger contra algumas doenças relacionadas com a idade, em particular o cancro, e possa prolongar ligeiramente o tempo de vida”, escreve o investigador no seu site. “Pessoalmente, só consideraria submeter-me [a ela] se tivesse cancro, e mesmo isso teria de ser cuidadosamente ponderado e discutido com o meu médico.”

RAPAMICINA EM PEQUENAS DOSES

Ainda assim, em cima da mesa dos investigadores encontram-se agora medicamentos que parecem produzir efeitos semelhantes aos da restrição calórica. Não são (ainda?) comprovadamente pílulas milagrosas, mas já há quem os tome off label, por sua conta e risco. É o caso da rapamicina, um imunodepressor utilizado em transplantes de órgãos, e da metformina, um fármaco contra a diabetes tipo 2, que estão a ser estudados com grande afinco [Ver caixa As 4 linhas promissoras (+1)]. 

Foi já em 2009 que se descobriu que a administração de rapamicina a ratinhos de meia-idade prolonga o tempo de vida em 9% a 14%. Dois anos depois, um estudo com ratinhos mais jovens viu o seu tempo de vida prolongado em 10% a 18%. E, em 2014, num pequeno ensaio clínico, melhorou a imunossenescência (processo de deterioração gradual do sistema imunológico decorrente do envelhecimento natural do organismo) em voluntários idosos.

Há um ano, dados preliminares de um estudo realizado na Universidade do Texas, nos EUA, sugeriram que a rapamicina também funciona nos nossos “primos” saguis. Embora o estudo ainda não tenha terminado, o seu autor principal disse na reunião anual da Associação Americana do Envelhecimento que os animais que receberam o medicamento mostraram um aumento de aproximadamente 10% na esperança de vida.

João Pedro de Magalhães tem colegas investigadores que tomam rapamicina, em pequenas doses. “Eu não recomendo, do ponto de vista profilático, porque tem efeitos imunodepressores”, lembra. “E, realmente, há, por exemplo, pessoas que dizem que têm mais úlceras na boca…”

Quanto à metformina, a comunidade científica está suspensa no arranque de um grande ensaio nos EUA, o TAME, que durante seis anos envolverá mais de três mil indivíduos, entre os 65 e os 79 anos. Na Universidade de Wake Forest, na Carolina do Norte, que será o centro coordenador, aguarda-se que a FDA, o regulador norte-americano do medicamento, reconheça o envelhecimento como uma condição tratável. Se isso acontecer em breve, este ensaio marcará uma mudança de paradigma: passa de tratar cada doença médica relacionada com a idade separadamente para tratar essas doenças em conjunto, visando o envelhecimento per se.

Mais recentes, e ainda a serem falados como uma hipotética boa surpresa na área da longevidade, são os medicamentos para a diabetes que começaram a ser usados contra a obesidade, como o Ozempic, que têm o efeito secundário de fazer perder massa muscular, o que leva habitualmente a uma longevidade mais baixa (referidos na mesma caixa sobre as linhas promissoras). Não consta que a cobaia-Johnson tenha tomado o remédio de emagrecimento da moda, mas a verdade é que faz tratamentos regulares para ganhar volume na cara…

+ SAÚDE IGUAL A + LONGEVIDADE

Certo é que são já várias as “empresas da longevidade” a celebrar contratos de prestação de serviços com clientes que assinam termos de responsabilidade e embarcam em tratamentos que ainda não têm evidências claras em seres humanos. “O caso típico são homens com muito dinheiro, a trabalhar na alta finança, que querem um quick fix [uma reparação rápida] e estão dispostos a pagar seja o que for”, ouviu recentemente Filipe Cabreiro, investigador do Imperial College, em Londres, no Reino Unido, e da Universidade de Colónia, na Alemanha, a um médico norte-americano (Ver entrevista).

Olhar para o que já se provou cientificamente funcionar e tentar alcançar um fim idêntico sem sacrifícios associados é um dos caminhos que os investigadores estão a trilhar, como já se viu. Um outro é o desenvolvimento dos medicamentos que sejam capazes de eliminar as células senescentes, corriqueiramente chamadas “zombies”.

Foto: Zerbor/ Dreamstime.com

Com a idade, os mecanismos de reparação e os meios de eliminação enfraquecem, e essas células acabam a prejudicar as que as rodeiam. Já existem medicamentos senolíticos, que as matam, mas, por enquanto, ainda não se descobriu uma maneira de não afetar todas as outras nesse processo. Até agora, os ensaios clínicos com células senescentes em pessoas não correram particularmente bem.

João Pedro de Magalhães lamenta que não haja tanto dinheiro a ser canalizado para a investigação na área da longevidade como há, por exemplo, para o cancro e as doenças degenerativas. “Vai cem vezes mais dinheiro para o cancro, mas não se consegue ter boa saúde sem aumentar a longevidade, porque as pessoas doentes não duram muito”, lembra, não ironicamente.

PESSOAS MAIS FELIZES

“Se conseguirmos abrandar o envelhecimento nem que seja um bocadinho, terá um impacto a nível de várias doenças. E, pelo menos em modelos animais, em minhocas, já se consegue mudar um só gene e aumentar a longevidade dez vezes. Em ratinhos, consegue-se aumentar a longevidade 50%”, sublinha. “É verdade que existe uma diferença grande para os seres humanos – nos ratinhos, os investigadores passam a vida a curar o cancro, é relativamente simples, a toda a hora!”

Poderá persistir um problema de financiamento, mas a sensação que um leigo tem é a de que nunca se falou tanto, nunca se estudou tanto, nunca se investiu tanto nesta área. Os estudos multiplicam-se nas notícias, os eventos acumulam-se no calendário. Em março, até o Vaticano deverá ter uma cúpula dedicada ao envelhecimento.

Claro que outro caminho, que é potencialmente alcançável pelo comum dos mortais, passa por tentar replicar os bons exemplos – mas se o caro leitor está já a pensar naquele seu avô que fumava um maço de tabaco todos os dias e chegou aos 100 anos, pense antes de mais nada nas ditas zonas azuis, regiões do planeta onde os seus habitantes têm uma longevidade invulgar.

O fenómeno foi identificado pela primeira vez há duas décadas por Dan Buettner, um jornalista norte-americano que andou durante 15 anos a visitar populações que vivem mais do que a média. Depois de ter feito reportagens na região de Nuoro, na Sardenha (Itália), nas ilhas de Okinawa (Japão), na Península de Nicoya (Costa Rica), na ilha de Icária (Grécia) e em Loma Linda, na Califórnia (EUA), Buettner concluiu que as zonas azuis são regiões em que as pessoas vivem saudáveis durante muito tempo, sem serem propriamente comedidas.

“Não têm um estilo de vida de restrições. São pessoas felizes, com um nível de stresse muito baixo, relações sociais muito sólidas, dieta alimentar saudável e sem exageros… São o melhor exemplo de compatibilidade entre o ambiente e a longevidade”, acredita Filipe Cabreiro, que se dedica a estudar a relação entre o microbioma intestinal e a forma como envelhecemos.

Sim, a chamada flora intestinal tem influência na nossa esperança de vida. A ligação entre esses triliões de microrganismos com a longevidade foi desenvolvida há mais de cem anos por um microbiologista russo que criou o termo probiótico para as bactérias do ácido lático. Como não tinha provas para a sua tese, em 1908 escreveu um artigo intitulado O Prolongamento da Vida, a que deu o subtítulo de Estudos Otimistas.

Hoje existem provas para as suas suposições, lembra Cabreiro, nomeadamente de que a saúde e o tempo de vida podem ser drasticamente prolongados se transferirmos o microbioma de um animal mais jovem para um mais velho (através do transplante de fezes). O problema com os humanos é que o nosso microbioma está constantemente a mudar.

“Uma pessoa que esteja a consumir vegetais vai ter um microbioma muito diferente de outra pessoa que coma carne. E, se mudar a sua alimentação, o efeito verifica-se em apenas três ou quatro dias”, explica o investigador. “Para já, vamos começar por criar um conjunto de micróbios dos quais saibamos exatamente o que cada um faz e o que produz.”

Uma das boas notícias que os investigadores insistem em repetir é que há muita coisa que pode ser controlada por nós, os comuns dos mortais. O nosso estilo de vida tem influência direta na longevidade – e, sobretudo, na saúde com que eventualmente chegamos aos anos extra. “Gostávamos de ter um medicamento milagroso, porque somos preguiçosos, falta-nos disciplina, mas temos mesmo de estar atentos aos nossos hábitos de vida”, não se cansa de alertar a neurocientista Luísa Lopes, que estuda a neurobiologia do envelhecimento. 

“Vivemos mais anos sobretudo porque conseguimos ganhar às doenças infecciosas, embora tenhamos o cancro e as doenças neurodegenerativas em que o envelhecimento ainda é o maior risco”, lembra a investigadora da Fundação GIMM (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine). Mas, “numa perspetiva otimista”, vale a pena sublinhar que em grande parte está nas nossas mãos evitar algumas dessas doenças.

“Há 45% dos fatores de risco para a demência que são potencialmente modificáveis. Ou seja, temos controlo de quase metade”, frisa Luísa Lopes.

É essa a conclusão do mais recente relatório dos peritos que constituem a comissão da revista The Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados com a demência – que no verão de 2024 acrescentou o colesterol LDL elevado na meia-idade e a perda de visão na idade tardia, representando respetivamente 7% e 2% de risco, caso não sejam tratados (Ver infografia 14 Fatores de risco para a demência potencialmente modificáveis).

Também vale a pena lembrar que na demência o fator hereditário é menos de 5%. E que, se não é possível alterar os fatores de risco genético, podemos tentar controlar os riscos de que fala a Lancet.

DAR SENTIDO À VIDA

Luísa Lopes costuma também falar num outro fator de risco que ainda não está estabelecido, mas que tudo aponta para que o seja em breve: o sono. “Temos de combater a ideia de que dormimos quando morrermos. É seguro dizer que a qualidade de sono diminui o risco de demência, mas como temos muitas variáveis, é dificilmente diagnosticável.” Afinal, o sono tem um papel importante na regeneração celular, ao permitir uma “limpeza” do “lixo” no cérebro.

Na secretária do seu gabinete, reparamos num copo de café e lembramo-nos de que publicou um estudo que demonstra haver um recetor ligado à cafeína que altera o risco para a disfunção cognitiva (dois ou três cafés por dia previnem-na, para quem não tem contraindicação).

Para breve, a sua equipa tem para publicação um artigo sobre a disfunção circadiana (distúrbio do sono) como risco para a demência. “No fundo”, resume a neurocientista, “estamos a tentar perceber como podemos melhorar a nossa trajetória cognitiva. Daí a importância dos hábitos de vida, mas também de fármacos como o Ozempic. Novos estudos mostram que ele parece diminuir diretamente a demência, o que pode ser uma linha promissora.”

Noutra zona do GIMM, encontramos Joana Neves e Pedro Sousa-Victor, que estudam paralelamente a modulação imunitária para desenvolver novas terapias baseadas em células estaminais que melhorem a saúde dos idosos, através da medicina regenerativa. Um exemplo de aplicação prática? Nas cirurgias da anca, frequentes nos mais velhos.

Joana Neves e Pedro Sousa-Victor Fundaram um laboratório conjunto porque as células estaminais precisam de um bom sistema imunitário

Neste joint-lab, em que uma equipa de 12 investigadores trabalha no músculo esquelético, o sistema imunitário e as células estaminais têm de caminhar de mãos dadas, explicam. “A capacidade regenerativa dos nossos órgãos decai com a idade”, lembra Pedro Sousa-Victor. “Temos de corrigir o ambiente para que a célula estaminal funcione”, remata Joana Neves.

Todos estes avanços da Ciência para prolongar a longevidade só têm interesse se houver saúde, sublinham os investigadores entrevistados. As projeções das Nações Unidas são impressionantes (Ver infografia sobre a evolução da esperança de vida na Europa), mas convém que a vida tenha sentido, acrescenta a gerontóloga Lia Araújo.

“Quando se fazem estudos com octogenários ou centenários, um dos principais motivos que apontam para querer continuar a viver não é a saúde, são as relações sociais”, sublinha a professora na Escola Superior de Educação de Viseu e investigadora no CINTESIS, onde integra o grupo AgeingC, dedicado ao envelhecimento. “A fonte de propósito e de significado de vida são as pessoas que as rodeiam.”

No seu estudo Will to Live (vontade de viver), alguns dos centenários entrevistados diziam mesmo: “Por mim, não vivia mais”, lembra Lia Araújo. “E a maioria daqueles que queriam continuar a viver tinham amigos e família, diziam coisas como ‘Gostava de ver a minha neta casar’, o que reforça a ideia de que uma vida com qualidade é uma vida com sentido. Antes, falava-se em dar vida aos anos. Agora, fala-se em dar sentido aos anos. Foi um ensinamento.”

Há uma década, a gerontóloga participou no estudo PT100, com centenários portugueses. Em março, vai avançar o PT100 Social Care, um levantamento dos centenários que estão em todas as ERPPI (estruturas residenciais para pessoas idosas) e centros de dia ou têm apoio domiciliário. Lia Araújo e os seus colegas vão saber quantos são, qual é o género, há quanto tempo se encontram naquela resposta social e qual foi o motivo – solidão, condição frágil de saúde?

“Se cultivarmos as amizades, a probabilidade de ficarmos sozinhos em velhos é menor. Já em relação à família, a incógnita é maior, pode não estar nas nossas mãos, sobretudo se mantivermos as taxas de emigração”, alerta a gerontóloga. “Com quem iremos tomar café? A dimensão online vai ser importante nas nossas vidas. Certo é que viver mais anos, mas sozinhos, não vale a pena.”

Mesmo Bryan Johnson encontrou espaço na sua agenda para estar com amigos e, sobretudo, com o seu filho Talmage, que também começou a seguir um protocolo semelhante ao seu. A polémica mais recente, aliás, envolve a camaradagem pai-filho que muitos veem como exagerada – havia necessidade de o multimilionário revelar ao mundo quem tem mais ereções durante a noite?

Os 8 hábitos para viver mais 20 anos

Adotá-los pode adicionar 21 anos de vida às mulheres e 24 anos aos homens – mesmo na meia-idade, concluiu um megaestudo em 2024

Ser fisicamente ativo
São vários os estudos que tentam provar uma ligação entre o exercício e a longevidade. Em 2017, investigadores da Universidade Brigham Young, no Utah, EUA, descobriram que, pelo menos, 30 minutos de corrida no caso dos homens e 40 minutos no caso das mulheres, cinco dias por semana, podem retardar o processo de envelhecimento celular, ao ponto de uma pessoa parecer biologicamente nove anos mais nova. A falta de atividade física foi associada a um risco de morte 30% a 45% superior.

Não ter dependência de opiáceos
Em causa está um comportamento aditivo e não, por exemplo, a toma de medicamentos para reduzir a dor, por determinação médica. O efeito na longevidade prevista foi estimado entre 30% a 45%.

Não fumar
Num estudo publicado em 2017, em que foram analisados registos de saúde de mais de 600 mil pessoas, investigadores do Instituto Usher, em Edimburgo, no Reino Unido, concluíram que, em média, fumar um maço de tabaco por dia reduz a esperança de vida em sete anos. Quem nunca fumou na vida viu a sua longevidade prevista aumentada em 30% a 45%.

Gerir o stresse
O stresse prolongado leva à libertação contínua de cortisol, uma hormona que, em níveis elevados, contribui para problemas de saúde cardiovascular, diminuição da resposta imunitária e envelhecimento celular rápido. De acordo com um estudo do Instituto Finlandês para a Saúde e o Bem-Estar, publicado em 2020, o stresse pode reduzir o tempo de vida de uma pessoa em cerca de dois anos e oito meses. Conseguir gerir o stresse foi associado a 20% de longevidade adicional.

Ter uma boa alimentação
Um estudo de 2023, liderado por um investigador da Universidade de Bergen, na Noruega, que utilizou a base de dados do Biobanco do Reino Unido, concluiu que a esperança de vida pode aumentar até dez anos após uma mudança sustentada para regimes alimentares mais saudáveis. O efeito foi de 20% na longevidade prevista.

Não beber regularmente álcool em excesso
Alguns estudos sugerem que o consumo ligeiro a moderado de álcool pode ter um efeito positivo na longevidade. Em 2018, a neurocientista Claudia Kawas, da Universidade da Califórnia em Irvine, nos EUA, passou 15 anos a analisar a saúde e os hábitos de 1 500 pessoas com mais de 90 anos e descobriu que aquelas que bebiam um a dois copos de cerveja ou vinho por dia tinham 18% menos probabilidade de ter uma morte prematura. Evitar o consumo excessivo de álcool foi associado a 20% de longevidade adicional.

Ter uma boa higiene do sono
Em 2024, um estudo publicado na revista científica QJM, que envolveu mais de 170 mil adultos norte-americanos, concluiu que os homens que dormem o suficiente vivem cerca de cinco anos mais do que os que não dormem. Para as mulheres, são dois anos. A higiene do sono foi associada a 20% da longevidade esperada.

Ter relações sociais positivas
Qual é uma das principais conclusões de um estudo com mais de 80 anos (e ainda em curso), sobre o desenvolvimento humano na Universidade de Harvard, nos EUA? “A mensagem mais clara que retiramos deste estudo é a seguinte: as boas relações mantêm-nos mais felizes e saudáveis. Ponto final.” Ter boas relações sociais conduziu a um efeito de 5% na longevidade prevista.

Fonte: Impacto de 8 Fatores do Estilo de Vida na Mortalidade e na Esperança de Vida entre os Veteranos dos Estados Unidos, estudo realizado com mais de 719 mil pessoas, publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, em 2024

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Luís Montenegro prometeu fazer um esclarecimento sobre as suspeitas que recaíam sobre a sua vida empresarial, mas acabou por não conseguir ser elucidativo e, muito menos, clarificar o que pretende fazer politicamente.

Perante novas suspeitas sobre a sua atividade empresarial e o avolumar de diversas notícias que precisam de explicação cabal, o que o País esperava do primeiro-ministro era simples e objetivo: uma postura de total e absoluta transparência, através de um discurso claro e direto, sem direito a segundas interpretações, como é exigível numa sociedade democrática, num momento solene como o de um discurso à Nação. Essa exigência aumentou quando, ainda por cima, ele optou por se apresentar nos ecrãs, numa coreografia previamente ensaiada, acompanhado por todos os seus ministros.

Em vez disso, Luís Montenegro optou pela ambiguidade. Ao longo de 20 minutos de comunicação, reafirmou que já deu todas as explicações em relação às suspeitas que o perseguem e anunciou que vai cortar a ligação com as empresas familiares em causa. Depois, falou da família, de forma emocionada, e elencou, pasta a pasta, o que considera serem as maiores “conquistas” do seu executivo. Mas deixou para o fim, naturalmente, a mensagem que queria passar, através de uma frase que é, por si só, quase um lema para uma próxima campanha eleitoral: “A crise política deve ser evitada, mas pode ser inevitável”.

Ao enfrentar uma crise séria de credibilidade, o primeiro-ministro optou por fazer abanar o fantasma da crise política e a possibilidade de novas eleições antecipadas – que, como já se percebeu, não é a solução desejada por nenhum dos partidos com assento parlamentar.

Só que, apesar da tática ter sido muito ponderada e demoradamente avaliada, não deixou de se revelar também muito trapalhona. De tal forma que, no final do discurso, ninguém ficou a saber se Montenegro pretende mesmo apresentar ou não uma moção de confiança ao Governo, no caso de continuarem a avolumar-se as suspeitas a seu respeito.

A ambiguidade não foi, no entanto, inocente. Ela ajuda a criar incerteza e, dessa maneira, a fazer apontar as culpas sobre quem for o responsável por uma nova e suposta crise política. E, com isso, desviar o debate e as atenções. Com uma dúvida que precisa, no entanto, de ser esclarecida nos próximos dias: a moção de confiança esgrimida por Montenegro é uma arma de destruição massiva ou uma simples manobra de diversão?

Luís Montenegro acha que já deu todas as explicações sobre a sua vida patrimonial e a sociedade familiar. E não vê motivos para sair, quando “a crise política deve ser evitada”, mesmo que diga que não ficará “a qualquer custo” e que, por isso, deverá apresentar uma moção de confiança no Parlamento, se a pressão política se mantiver.

Numa declaração feita ao país em São Bento, às 20h, depois de uma muito curta reunião do Conselho de Ministros, Luís Montenegro vincou que está “em exclusividade” como primeiro-ministro, mas falou longamente sobre os serviços prestados pela Spinumviva, dando até muitos pormenores sobre a atividade da Solverde, uma das empresas que mantêm avenças com a sociedade familiar que criou e cuja quota passou à  mulher com quem está casado em comunhão de adquiridos quando chegou ao Governo.

Sem dar novas explicações sobre os clientes da Spinumviva nem apresentar informações que justifiquem a forma como pagou a pronto dois apartamentos no centro de Lisboa por 715 mil euros, mais do que tinha declarado, Montenegro optou por se vitimizar.

Lembrando os dados que revelou no debate da moção de censura, afirmou que “como já se esperava, estes elementos não foram suficientes”.

“Nunca serão suficientes”, declarou o primeiro-ministro, atacando aqueles que, em seu entender, lançaram “insinuações para que o assunto nunca se encerrasse”.

“Este é um círculo vicioso que muitos desejam e de que muitos não desejam sair”, afirmou Montenegro, defendendo a legitimidade de manter em atividade a empresa, embora passando-a para os filhos, deixando a sua mulher de ser sócia.

“Nada disto tem que ver comigo”, insistiu, dizendo ser “trabalho puro” o que foi feito pela Spinumviva, como consultora, para a qual trabalham dois juristas próximos de Hugo Soares, o seu braço-direito”

“Nunca quem não quer perceber vai dizer que entendeu a explicação”, entende Montenegro, que diz que “ninguém descobriu nada” e que “está tudo” nas suas declarações de interesses, mesmo com as dúvidas suscitadas pela manchete deste sábado do Correio da Manhã.

Para Luís Montenegro, o importante é manter “o país em movimento”, com o que considera serem os bons resultados da sua governação, até porque nada lhe pesa na consciência. “Não pratiquei ninhem crime nem tive nenhuma falha ética”.

“Temos de confiar nas pessoas e nas instituições”, defendeu.

O Governo português e os chineses da CALB anunciaram formalmente, esta semana, a construção de uma megafábrica de baterias de lítio para a indústria automóvel. O projeto ficará situado em Sines, terá um investimento total de 2 mil milhões de euros e irá criar cerca de 1 800 postos de trabalho.

Segundo o ministro da Economia, Pedro Reis, a nova fábrica receberá apoios públicos de 350 milhões de euros, no âmbito do regime europeu de incentivos à reindustrialização e aceleração da inovação.

“Isto é um daqueles big bangs de investimento que acontecem de vez em quando e que, neste momento, é tremendamente importante para Portugal”, salientou o governante.

Já para a empresa chinesa, a localização e as infraestruturas existentes em Sines foram um fator-chave para esta decisão. “Escolhemos Portugal para instalar esta megafábrica europeia devido às suas vantagens estratégicas, o forte potencial da economia e à mão de obra qualificada”, explicou Liu Jingyu, presidente da CALB.

Para a gestora, Sines “oferece uma logística excecional” devido ao seu porto de águas profundas, que pode ser operado 24 horas por dia, 7 dias por semana, ligado a uma boa rede ferroviária de carga.

“Estas são características ideais para a distribuição dos nossos produtos no mercado europeu. Além disso, a aposta portuguesa no apoio às energias verdes criam um ambiente perfeito para o sucesso da visão de longo prazo da CALB, pois o nosso objetivo é construir uma fábrica de última geração e com zero carbono de emissões”, salientou a presidente da CALB.

O processo segue agora todos os trâmites legais, nomeadamente a avaliação do AICEP, para verificar se é elegível para receber apoios públicos e deverá entrar em funcionamento em 2028.

“A contratualização tem que ocorrer em 2025, mas estes contratos levam algum tempo, porque temos de estudar, temos de discutir bem tudo o que é e o que não é elegível, as percentagens de apoio, as intensidades de apoio, e só aí conseguiremos ter uma proposta negocial acabada que passe a contratualização”, explicou a administradora da AICEP, Oliveira e Silva, que também esteve presente na cerimónia.

A polémica do lítio

Sendo o lítio a principal matéria-prima para fabricar estas baterias, o ministro adiantou que a empresa chinesa “tem certamente soluções que consideram a extração do lítio em Portugal e de outras fontes”. Mas fez questão de sublinhar que o modelo da CALB  “é autónomo e sustentável”, seja qual for a fonte da matéria-prima.

Por outras palavras, o governante deixou em aberto a possibilidade da CALB ou um dos seus fornecedores poderem iniciar novas explorações deste metal no nosso país  Afinal, trata-se de um investimento de grande dimensão que irá necessitar de enormes quantidades de lítio para abastecer a fábrica.

Segundo o relatório Informação e Estatísticas do Lítio, da US Geological Survey, Portugal tem atualmente a maior reserva da Europa deste metal e a oitava maior do mundo, com um total de 60 mil toneladas.

Existem oito zonas de prospeção de lítio, sendo que Montalegre e a serra de Arga são as regiões com maior potencial. O País tem recebido inúmeros pedidos para a prospeção deste metal, mas, como a extração é feita a céu aberto, tem existido uma forte contestação por parte das populações locais e de grupos ambientalistas.

No final do ano passado, a Galp decidiu travar o projeto de construção de uma refinaria de lítio em Setúbal. Denominado projeto Aurora, esta refinaria iria abastecer a indústria de baterias através do aproveitamento das reservas de lítio portuguesas. A decisão foi tomada após os problemas financeiros da NorthVolt que entrou em processo de falência.

Nos meses seguintes, a Galp tentou encontrar novos parceiros para o negócio, mas não “obteve sucesso”, segundo informou a empresa à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em dezembro último. Este projeto era para estar pronto em 2026. O custo total estava estimado em 700 milhões de euros e contava com vários apoios da União Europeia, nomeadamente do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Uma longa espera

O interesse pela montagem de uma fábrica de baterias para carros elétricos em Portugal já vem de longe, mas, até agora, nenhum dos projetos se tinha concretizado.

A 11 de fevereiro de 2011, chegou a ser lançada a primeira pedra para a construção de uma fábrica de baterias para a Nissan. Tratava-se de um investimento de 156 milhões de euros, em Cacia, Aveiro, que iria criar cerca de 200 postos de trabalho. Em dezembro do mesmo ano, o construtor japonês anunciou o cancelamento do investimento, alegando que, após análise detalhada do plano de negócios, “as quatro fábricas espalhadas por todo o mundo seriam suficientes para os objetivos” da empresa.

Embora não tenha sido admitido por nenhuma das partes, na altura, especulou-se que a decisão tinha sido uma reação à decisão do governo de Passos Coelho de desinvestir na promoção da mobilidade elétrica, um projeto do governo anterior. A Nissan era então liderada pelo português Carlos Tavares, que tinha apostado em Portugal para desenvolver o plano de expansão europeu dos carros elétricos.

Em 2020, a Volkswagen colocou Portugal entre as possibilidades para a instalação de uma das seis megafábricas de baterias que o grupo alemão pretendia ter na Europa. Portugal era um dos destinos privilegiados para a unidade fabril, num investimento total de 10 mil milhões de euros, que serviria para alimentar as linhas de produção de carros elétricos das fábricas espanholas de Martorell, Catalunha, e Pamplona, Navarra.

A decisão acabou por recair sobre Valência. As obras começaram em março de 2023.

A nova fábrica da CALB de baterias de lítio para a indústria automóvel deverá estar concluída em 2028 e irá criar 1 800 novos postos de trabalho

Também o grupo Stellantis, que controla 14 marcas de automóveis, como a Peugeot, Fiat, Citroën, Jeep e Opel, admitiu, em 2023, que Portugal chegou a estar na mira para a instalação de uma unidade de baterias, com uma capacidade de 50 GWh, num investimento total de 4,1 mil milhões de euros. O projeto acabou em Saragoça.

Entre avanços e recuos, Portugal teve de esperar catorze anos desde que foi lançada a primeira pedra para a construção de uma fábrica de baterias para veículos elétricos. Com este investimento da CALB, o cluster automóvel nacional, que representa quase 6% do PIB e cerca de 23% das exportações de bens transacionáveis, dá um passo largo para se renovar e acompanhar a grande revolução que este setor está a atravessar com a transição para a mobilidade elétrica.

Tal como realçou o ministro da Economia, durante a cerimónia de lançamento deste projeto: “Num momento em que o setor automóvel atravessa tantos desafios, são investimentos como este que agarram em Portugal essa cadeia de valor e dão ao setor inteiro competitividade, produtividade e tecnologia.”

Palavras-chave:

A direção do BE passou as últimas semanas a fazer reuniões em concelhias, para dar explicações sobre os despedimentos de trabalhadoras do partido que tinham acabado de ser mães. Vários dirigentes andaram pelo País, em locais como Setúbal, Oeiras, Odivelas, Cascais, Torres Vedras ou Leiria, em encontros que serviram como sessões de esclarecimento. A decisão de falar sobre o tema “cara a cara” revela que a cúpula bloquista percebeu o potencial de estrago de uma polémica que punha em causa os pergaminhos feministas e de defesa dos direitos laborais do partido, mesmo que na direção do BE se garanta, agora, que o caso está sanado e que as justificações foram convincentes. A forma como o partido dispensou, entre 2022 e 2024, quatro mulheres acabou, porém, por levar a uma demissão na Comissão Política do partido de todos os elementos da oposição interna, a Moção E.

Elisa Antunes, Gabriela Mota Vieira, Pedro Soares e Ricardo Salabert saíram da Comissão Política alegando a “indisponibilidade para continuar a ser membros de um órgão esvaziado das suas competências”, depois de terem visto chumbada a proposta de constituição de uma “Comissão de Inquérito para avaliação e apuramento de responsabilidades coletivas e individuais no processo de despedimento de funcionários”.

Francisco Louçã e Pedro Soares O primeiro escreveu no Instagram que este foi o momento escolhido para a corrente de Pedro Soares, “que recusou a posição do Bloco a condenar a invasão da Ucrânia”, avançar para a criação de um novo partido. O segundo nega: “Isso não faz sentido nenhum”

Menos de duas semanas depois, era anunciada a desfiliação de mais de 70 militantes bloquistas em Portalegre, uma distrital até aí controlada por elementos afetos à Moção E. Na carta dirigida à direção, o líder da distrital Higino Maroto anunciava a demissão de toda a estrutura, apontando o dedo à “constante violação” da democracia interna e deixando críticas ao abandono a que o distrito tem sido votado, mas também ao despedimento de trabalhadores do partido, que aconteceu depois de o BE ter visto reduzida quase para metade a subvenção estatal por ter perdido votos nas legislativas. “É com grande mágoa que assumimos a decisão de nos demitirmos de um partido que foi em tempos a esperança e uma referência em termos de ética e de moral política e que os últimos casos vindos a público sobre despedimentos das e dos, suas e seus funcionárias/os nos veio acentuar mais a descrença no Bloco de Esquerda”, lia-se no texto.

Interior abandonado?

À VISÃO, uma fonte de Portalegre conta que o processo de desvinculação de militantes foi acontecendo ao longo de vários meses, com cada vez mais aderentes bloquistas a deixarem de ter atividade partidária no distrito ou a comunicarem informalmente a intenção de se desligarem do partido. “Eram pessoas que ao longo dos meses foram entrando em contacto com dirigentes concelhios e distritais, dizendo que queriam entregar os cartões ou desistir”, esclarece a mesma fonte, explicando com o facto de esta lista já ter sido feita há algum tempo e com a idade avançada de alguns dos militantes que se desfiliaram e acrescentado o dado – apontado em comunicado da direção do BE – que entre os nomes que saíram se encontra alguém que, entretanto, morreu.

“É um subterfúgio para não aceitar a realidade”, comenta o agora ex-militante sobre os erros detetados pela direção na lista de desfiliações, notando que a última vez que um coordenador do BE esteve em Portalegre “foi a Catarina Martins e ainda havia geringonça”. Para quem está no Interior, este “abandono” é visto como uma consequência da quase impossibilidade de eleger aí um deputado, uma vez que o método eleitoral faz com que os dois lugares disponíveis fiquem quase sempre para PSD e PS. “Desde essa altura, só veio a Portalegre um membro do secretariado. Não há investimento nenhum porque não há hipóteses de eleger.” Quando o partido teve de fazer cortes internos, em Portalegre também deixou de haver o trabalhador a meio tempo que aí prestava serviço, e noutros pontos do País as concelhias deixaram de conseguir ter uma sede física.

“Uma ofensiva comunicacional”

Visto da sede nacional do BE, na Rua da Palma, em Lisboa, este anúncio de uma saída em bloco de mais de 70 militantes – sendo que apenas 14 deles efetivaram a sua desfiliação até ao momento – parece “uma ofensiva comunicacional contra o Bloco”, como assume a direção num comunicado da Comissão Política no qual não poupa críticas à Moção E, que acusa de orquestrar saídas de militantes, comunicando-as aos poucos para causar impacto. “Nas próximas semanas, vão multiplicar-se na imprensa anúncios semelhantes”, vaticina a cúpula bloquista, vincando que “nunca uma saída coletiva tinha recorrido à intoxicação política nem ao abuso do nome de aderentes, incluídos em listas de demissão contra a sua vontade”.

Além destas acusações feitas em comunicado à Moção E, vários destacados bloquistas, como Francisco Louçã, Catarina Martins ou José Manuel Pureza usaram as redes sociais para um ataque duro aos críticos internos, tentando colá-los a uma posição de defesa da Rússia na invasão da Ucrânia. “Pensei que, quando Trump e Putin dançam em cima da Ucrânia, a lição ficaria evidente. Ou ainda há quem ache que Putin se opõe a Trump? Pois foi o momento escolhido para a corrente de Pedro Soares, que recusou a posição do Bloco a condenar a invasão, avançar para a criação de um novo partido. O sectarismo nunca aprende nada”, escreveu Louçã no Instagram. “A corrente Convergência optou por não medir-se na Convenção e sair com estrondo. A sua posição de abandono da Ucrânia à Rússia nunca venceu no Bloco e ainda bem. Sair agora é mau, sair assim não faz jus à nossa história”, partilhou Catarina Martins na mesma rede social.

Na direção bloquista, acredita-se mesmo que pode estar em marcha a criação de um novo partido. Uma convicção que é fundada na forma como nos últimos dias tem circulado por WhatsApp um “Manifesto por um Portugal Livre, Justo e Solidário”, que faz “um veemente apelo à participação das portuguesas e dos portugueses na vida pública” e que assume a intenção de “intervir com uma nova resposta política” que sirva para defender “os valores de Abril”.

Há muito tempo que nas alas descontentes do BE se fala na possibilidade de um novo partido de esquerda, mas a VISÃO não conseguiu confirmar qualquer movimentação nesse sentido, para lá deste manifesto que circula sem assinaturas.

Acusações de “ostracismo”

“Isso não tem sentido nenhum”, reage Pedro Soares à VISÃO sobre um alegado plano para formar um partido, assegurando que as saídas de Portalegre não foram orquestradas pela Moção E, repudiando como “uma falsidade” a ideia de que o grupo de que faz parte alguma vez tenha hesitado em condenar a invasão da Ucrânia. “O que sempre dissemos foi ‘Putin fora da Ucrânia, NATO fora da Europa’”, afirma Soares, que explica que a sua corrente defendeu sempre que “o foco não devia ser o armamentismo, mas um processo de paz”.

Um comunicado da Comissão Política denuncia a orquestração
de saídas de militantes
“comunicando-as aos poucos, para causar impacto”

O mal-estar com aquilo a que Pedro Soares chama a “maioria monolítica no secretariado” (um órgão operacional que a Moção E acusa de, ilegitimamente, se sobrepor à Comissão Política) leva estes críticos internos a, desta vez, não irem a votos com uma moção à Convenção do Bloco, marcada para 31 de maio e 1 de junho. A opção de não concorrer aos órgãos não significa, contudo, que estejam de saída. “Vamos continuar a intervir a partir da base, a procurar influenciar a que haja uma mudança de rumo”, garante Pedro Soares, que acusa a direção de “ostracizar” as tendências que são estatutariamente permitidas no BE. “Nenhum de nós participa em listas para nada. Nem legislativas, nem autárquicas, nem grupos de trabalho, nem somos convidados para falar em comícios, nem debates, nem sessões. Nada, mas rigorosamente nada”, critica.

De resto, a Moção E condena a forma como a direção encabeçada por Mariana Mortágua vai levar à Convenção uma moção sem qualquer autocrítica. “Não tem um pingo de reconhecimento de erros, não tira lições dos insucessos eleitorais nem da aproximação ao centro, da incapacidade para polarizar à esquerda, da perda de militância e da deterioração da democracia interna. Demonstra querer que tudo fique na mesma”, escrevem os críticos no texto em que justificam a decisão de não ir a votos e no qual criticam a forma como a direção tem recusado a atualização dos cadernos eleitorais do partido e rejeitado propostas de alteração aos estatutos, o que, segundo a Moção E, “esvazia os órgãos intermédios e nacionais” e garante “lugares ad aeternum”.

No Bloco, as várias moções têm a possibilidade de eleger elementos para os órgãos do partido, de acordo com a sua representatividade, mas a Moção E entende que já não faz sentido ter assento em órgãos liderados por uma maioria com a qual as pontes se têm quebrado. “Para haver uma mudança tem de ser por ação da base. A partir dos órgãos é impossível”, conclui Pedro Soares.

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