A notícia de que parte dos crimes de corrupção relacionados com o empreendimento de Vale do Lobo, no âmbito da chamada Operação Marquês, estará prestes a prescrever é mais do que um episódio jurídico. É um sinal preocupante sobre o funcionamento da justiça em Portugal e sobre a perceção que os cidadãos constroem e reforçam em relação às instituições.

A prescrição não equivale a absolvição. Trata-se de um mecanismo legal que determina que, passado um certo período de tempo, o Estado perde o direito de punir e quando aplicada a processos de grande complexidade e relevância pública, como este, levanta inevitavelmente questões sobre a eficácia do sistema judicial.

O que está em causa não é apenas um detalhe técnico. Quando crimes graves, associados a suspeitas de corrupção envolvendo pessoas influentes, chegam ao fim sem julgamento efetivo devido ao decurso do tempo, instala-se a ideia, justa ou não, de que a justiça é mais lenta, mais tolerante ou simplesmente menos eficaz quando lida com os chamados “poderosos”. Essa perceção corrói um dos pilares fundamentais da democracia, a igualdade perante a lei.

É difícil explicar ao cidadão comum que pequenos delitos são julgados com relativa rapidez, enquanto processos complexos, com meios e recursos muito superiores, se arrastam durante anos até perderem relevância penal. A sensação de que existe uma justiça “parca com os fortes” não nasce do acaso, constrói-se a partir de episódios repetidos em que o desfecho parece confirmar essa desigualdade.

Este tipo de situações tem também um impacto profundo na relação entre os cidadãos e a política. Quando casos mediáticos, associados a suspeitas de corrupção ao mais alto nível, não chegam a uma conclusão clara em tribunal, alimenta-se a desconfiança. A política passa a ser vista, por muitos, como um espaço de impunidade, onde as consequências são sempre adiadas ou evitadas.

O afastamento dos cidadãos da vida pública não acontece de um dia para o outro, pois é um processo gradual, feito de desilusões acumuladas. Cada processo que termina sem resposta efetiva reforça a ideia de que participar, votar ou confiar nas instituições pode ser inútil. E essa erosão silenciosa é, talvez, uma das consequências mais graves.

Importa, por isso, olhar para além do caso concreto e refletir sobre o sistema. A complexidade dos processos, os sucessivos recursos, a escassez de meios e a própria arquitetura legal contribuem para atrasos significativos, mas reconhecer estas dificuldades não pode servir de desculpa permanente. Um sistema de justiça que não consegue responder em tempo útil a casos desta magnitude arrisca-se a falhar na sua função essencial.

Mais do que apontar culpados individuais, é necessário questionar se o modelo atual está preparado para lidar com a criminalidade económico-financeira de forma eficaz, pois a confiança dos cidadãos não se reconstrói com declarações, mas com resultados visíveis e consistentes.

No fim, o que fica não é apenas a prescrição de determinados crimes, fica a dúvida e a sensação de que a verdade nunca foi plenamente apurada. E, sobretudo, fica mais um contributo para o distanciamento entre os cidadãos, a justiça e a política, um afastamento que, se não for travado, pode ter consequências profundas na qualidade da nossa democracia.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

O montante global de 22,6 mil milhões de euros está dividido entre fundos públicos nacionais (37%), financiamento privado (34%) e fundos europeus (19%), de acordo com um documento síntese distribuído na apresentação que decorre no Pavilhão de Portugal, em Lisboa.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, indicou que o PTRR está dividido em três pilares: recuperar, proteger e responder, em 15 domínios, com 96 medidas.

“O valor global do plano são 22,6 mil milhões de euros, distribuídos por investimento público e privado. É um financiamento maioritariamente nacional, mas também absorve uma parte de fundos europeus”, explicou.

O programa “Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência” (PTRR) foi anunciado pelo primeiro-ministro em fevereiro na sequência das tempestades que fizeram 19 mortos e centenas de desalojados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

O Governo estimou prejuízos superiores a 5.300 milhões de euros devido ao mau tempo.

Sem grande surpresa, o Louvre, em Paris, foi, de longe, o museu mais visitado do mundo em 2025, liderando um top 20 em que constam cinco museus em Londres. Portugal também está no top 150 elaborado, anualmente, pelo The Art Newspaper. O Museu da Fundação de Serralves surge em 84º lugar, com 902 024 visitantes, enquanto o MAC/CCB ocupa a 119ª posição, com um total de 687 762 visitas.

No passado dia 24 de abril, em Roma, o Governo de Giorgia Meloni, depois de já ter contado com a aprovação da Câmara Alta do Senado, viu aprovado, agora na Câmara dos Deputados, um novo pacote legislativo, através do qual se tratou temas como a imigração, a segurança e a criminalidade, endurecendo mecanismos de controlo e reforçando, manifestamente, a intervenção do Estado na esfera pública.

O escândalo do pacote legislativo apresentado pelo Governo de Meloni, apesar de outras propostas claramente discutíveis, foi haver uma que, sem qualquer pejo ou disfarce, se propunha a pagar cerca de € 615,00 a advogados por cada imigrante que conseguissem – sabe-se lá de que forma ou maneira –, convencer a regressar, voluntariamente, ao seu país de origem.

Apesar de esta escandalosa proposta ter sido, a muito custo, retirada perante a Câmara Baixa dos Deputados, há, além do mais, um gesto político que não deve passar incólume.

O gesto, que nem corresponde, já, à forma descarada como alguns governos encaram a discricionariedade da Lei, nem à desconsideração crescente que fazem ao Humanismo que deu base às democracias modernas, é a expressão clara de uma nova forma imediatista, e geral, de fazer política: existe um tema complexo e exigente a legislar? Proíbe-se!

Durante uma vida inteira achou-se que “a união fazia a força”, que a humanidade só teria sobrevivido ao passar dos milénios porque se havia juntado entre si contra o destino e, agora, esta nova forma imediatista de fazer política vem substituir aquela ideia por outra, mais fria e estritamente funcional: a de que o mundo humano não se constrói em conjunto, organiza-se por manifesta exclusão.

A sensação que esta nova forma de fazer política traz é evidente não só no que diz, mas, por outro lado, talvez ainda mais, naquilo que deixa de dizer. Se antes se dizia querer conquistar o futuro e hoje apenas se diz querer manter o presente, é inevitável concluir que a política deixou de propor-se a ampliar o mundo e, discretamente, mesmo dando o dito por não-dito, começou tão só administrá-lo.

Com muita certeza, políticas assim, assentes numa forma imediatista de fazer mundo, exponenciam uma realidade apática na qual o cidadão, com olhos para ver, percebe que algo no horizonte do possível se estreitou por completo. Aliás, como se o mundo tivesse deixado de ser aquilo que podia ser, construído em comum por todos, para passar a ser aquilo que ainda vai conseguindo ser, construído tão só para alguns.

Entenda-se que o mundo humano jamais sobrevive quando se fecha em si mesmo, exigindo, precisamente para se abrir ao que realmente é, aquilo que ainda não foi sequer possível pensar. Por outras palavras, à pergunta “existe um tema complexo e exigente a legislar?”, o mundo humano, para ser enquanto mundo que é realmente, apenas pode responder: “Ouse-se!”.

Isto porque, ao contrário de uma eventual restrição imediatista, é no gesto de ousar que se consegue ir desvelando o destino do mundo, não como aquilo que nos é dado, mas como aquilo que ainda vamos a tempo-breve de construir. Qualquer política, seja ela qual for, que ponha as dificuldades debaixo do tapete, pode, no imediato, até ser sedutora por parecer apresentar o que se deseja. Contudo, quando as dificuldades deixam de poder ser evitadas, esta nova forma de fazer política revela o vazio de uma intenção que preferiu escondê-las ao invés de usar de ambição em transformá-las.

É certo que atravessamos uma fase difícil da História e não se fala, desta vez, apenas das crises humanitárias do mundo, mas, verdadeiramente, da crise do mundo humanista, onde sempre só nasceu o futuro do Humano.

Aliás, sobre este mundo em manifesta crise atual, Hannah Arendt chegou a dizer que era o único local onde nos podíamos encontrar para agir em comum, para iniciar algo novo, para romper com o que parecia dado e, acima de tudo, para concretizarmos a liberdade enquanto ação, o que, precisamente, é o contrário de uma política que, perante um problema, apenas se limita a proibir em vez de o transformar em oportunidade para criar progresso.

Hannah Arendt sabia, com a astúcia que caracteriza os grandes pensadores, que sempre que se deixa de ousar perde-se a liberdade e, em consequência disso, tudo, na esfera pública, sendo apenas administrável, faz com que a política passe a mero exercício sobre o que existe e já nunca sobre o que ainda pode existir.

Porém, o que nós sabemos e Hannah Arendt não é que o maior risco do nosso tempo já não reside apenas na perda iminente da Liberdade, mas, isso sim, na forma como aprendemos, lentamente, a viver distantes dela. Na forma que encontrámos para continuar a organizar o mundo, mesmo depois de termos deixado de o querer transformar. Na forma, muito passiva, que nunca foi nossa, mas, alguém, fez com que achássemos que sim. Na forma, talvez! Mas nunca, jamais, no conteúdo, que continua a resistir num cantinho velho do que podemos ainda, sempre, vir a ser – caso, claro, ousemos sê-lo vez alguma.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Não acham? Sinto que se vê pouca publicidade a casinos e casas de apostas, quando há espaço e tempo para muito mais. E é pena, visto que é uma coisa tão positiva para a sociedade, como vamos sabendo cada vez mais e melhor. Têm visto as reportagens sobre o assunto? Aconselho as da SIC e RTP, fáceis de encontrar na net.

Sabiam que apenas 56% da população portuguesa joga a dinheiro? Isto pode parecer preocupante, mas é importante mantermos a fé de que conseguiremos chegar aos 100%, principalmente tendo em conta que é um número que não para de aumentar. No último estudo do ICAD (foi em 2022, por isso imaginem como estará agora), havia 50.000 dependentes de jogo, e 100.000 em vias de se o tornarem, sendo que muitos começam a jogar ainda enquanto menores. Isto tem que ser encorajador para quem quer que este fenómeno se alastre ainda mais.

É que basta só mesmo mais um pouco de ainda mais desregulação e mais publicidade em todo o lado, e poderemos chegar a ser o país onde absolutamente toda a gente joga. Porquê esta ambição? Simples. É que se todos tivermos um problema de jogo, então ninguém tem um problema de jogo. Excelente, não?

Até dou já ideias. Por exemplo, quando vemos um jogo de futebol, ainda só temos publicidade a apostas no nome da competição, em todas as bancadas de diversas formas, nos separadores entre repetições, no intervalo do jogo, na camisola dos jogadores em vários sítios, em todos os suportes possíveis junto ao estádio e ainda mais, mas acho que não é o suficiente. Para quando mudar o nome das equipas, dos estádios e dos próprios jogadores? Estamos a perder oportunidades, enquanto um Sporting x Benfica em Alvalade não for um Betano Clube de Portugal vs. Sport Lisboa e Bwin, no estádio da Betclic Luz ou no Alvalade Bacana Play. E sendo eu do Sporting – ai! – Betano Clube de Portugal, claro que gostava de ver golos do Solverde (ex Trincão) e do Placard (ex Pote).

E quem diz no futebol, diz absolutamente em todo o lado, em todos os aspetos da nossa vida. Tudo o que é influenciador, apresentador, músico, humorista e até desportista, devia estar sempre a apelar ao jogo, a dizer às pessoas que confiem que vão ganhar (não vão). E cada podcast ou espetáculo que não seja patrocinado por um casino ou casa de apostas, só pode andar mesmo a dormir. Tem que haver publicidade a apostas em TODO O LADO, A TODOS OS MINUTOS, PARA TODA A GENTE, DE TODAS AS IDADES. Ao contrário do tabaco, álcool e droga, que não estão sempre acessíveis, cuja publicidade está bastante regulamentada e todos os seus malefícios são conhecidos, o vício do jogo ainda está completamente ao deus-dará, e com a vantagem de ser muito dificilmente detetado por terceiros, também ao contrário de outros vícios. Assim sendo, porque não aproveitar?

“Ó Faro, mas os estudos indicam que o vício do jogo está a destruir milhares de famílias e, ainda mais do que a droga ou álcool, é aquele em que, entre outras coisas gravíssimas, há mais propensão da pessoa viciada a ter ideação suicida!”. Temos de ser menos piegas (ou wokes, se quiserem), se queremos um país próspero, e se queremos respeitar o princípio basilar de uma sociedade: o direito ao lucro máximo dos casinos e casas de apostas. “Mas estás-te a passar, Faro? Já viste como até já há montes de menores completamente viciados?”. Vocês agarram-se muito às coisas chatas, quando o saldo é tão positivo. Principalmente o dos donos destas empresas e dos influenciadores e artistas que lhes fazem publicidade.

Portanto, o meu apelo nem é que não se faça nada (como não se está a fazer) para travar esta absoluta demência em nome do lucro (incluindo o do Estado), pelo contrário. Entre raspadinhas, casas de apostas e casinos legais e ilegais, o importante é desregular ainda mais, incentivar ainda mais, deixar que estas empresas dominem tudo.

Num país onde cada vez mais gente está desesperada para pagar a renda e as contas, para ter mínimos de uma vida decente, por favor carreguem no acelerador desta ilusão de que vão enriquecer com apostas e roleta russa. Se é para irmos quase todos para o inferno à conta do lucro de muito poucos, mais vale despachar isto.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

Cântico Negro– José Régio

Por motivos pessoais, este ano não pude descer a Avenida, curiosamente hoje transformada numa zona de luxo onde poucos portugueses se podem dar ao luxo de adquirir seja o que for. Mantenho este hábito há largos anos, quer na celebração da minha própria liberdade, quer essencialmente em homenagem aos vários responsáveis pelo Estado de Direito Democrático em que, apesar de tudo, vivemos.

Contudo, ao estar a vários quilómetros do epicentro da comemoração e, ironicamente, perto de Grândola, dei por mim a pensar que, mais do que nunca, o 25 de Abril não pode ser celebrado apenas numa única data ao longo do ano, devendo antes ser exercitado todos os dias.

Apesar de ser verdade que o atual regime nos tem dado alguns desgostos, importa cada vez mais relembrar que os valores de Abril fazem cada vez mais sentido, sobretudo numa época em que alguns “velhos do Restelo” teimam perigosamente em branquear o que foi a ditadura, procurando fazer realçar as suas (parcas ou nenhumas) vantagens e esquecendo as décadas de isolamento, obscurantismo, de ignorância e de medo.

Enaltecer as alegadas virtudes de um regime que matou jovens ao enviá-los para a guerra, que separou famílias e as impediu de conviver, prendendo e enviando para o desterro quem manifestava qualquer tipo de oposição, que considerava as mulheres inferiores aos homens e não lhes permitia sair do seu jugo é mais do que ignorar o que ocorreu. É procurar aproveitar um descontentamento que não se pode negar (antes se devendo tentá-lo perceber e corrigir o que for possível corrigir) para, a seguir, o converter em algo completamente diferente, onde os direitos que hoje temos não serão os que estarão consagrados, ao mesmo tempo que se procura, sem sequer se disfarçar, conquistar o poder pelo poder.

Cada vez mais, parece portanto relevante deixar claro que, se hoje temos liberdade de expressão, se as mulheres têm, pelo menos formalmente, os mesmos direitos do que os homens, se podemos circular e deslocar-nos, reunirmos e fazermos manifestações, se podemos ler os livros que queremos e, até, dizermos os disparates que se ouvem, o devemos não apenas aos que fizeram a Revolução mas a todos os que, de uma forma ou de outra, se foram opondo, ao longo de anos e anos, não aceitando acriticamente os grilhões que lhes impunham. Importa não esquecer que, para além dos Capitães de Abril, muitos outros, a maior parte sob o anonimato, trataram de fazer a sua parte na derrocada de um regime que nunca serviu todos e nunca foi para todos.

Para além de tudo o que já foi discutido nos últimos dias, a verdade é que a Democracia é um regime tão generoso que, inclusivamente, acaba por acolher os que, para tratarem da sua vidinha e sob a capa de terem um desígnio nacional, a querem destruir.

Nos tempos que correm, ser digno de Abril é lutar por esses valores diariamente, não fazendo a festa para logo a esquecer. É, por exemplo, saber que dizer um “não” basta para que um ato sexual seja não consentido. É, também, não aceitar branqueamentos da História e passar ao lado de polémicas sempre que estão em causa princípios fundamentais, apenas para não sermos incomodados. É igualmente sermos solidários e empáticos, quando necessário, mas não concedermos quando estejam em causa direitos, liberdades e garantias que tanto demoraram a conquistar.

Houve demasiada gente prejudicada pela Ditadura para que não se perceba os ventos que começam a surgir com cada vez mais força e para que nos limitemos a combatê-los num único dia do ano. A liberdade custou demasiadas vidas para que nos alheemos do que se passa à nossa volta, fingindo, por ser mais fácil, não ver o que se anuncia querer fazer.

Celebrar o 25 de Abril é, como tal, um exercício que deve ser quotidiano, sob pena de um dia acordarmos e ser tarde demais. Este é o repto que deixo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Querida Chéu,

Desta feita não sei se concordo inteiramente com o que escreves, e nada melhor do que uma discórdia para celebrarmos juntas Abril. Falavas na última carta do exagero que é o chorrilho de ofensas que se escrevem de cada vez que alguém desliza nalguma expressão ou diz algo mais controverso, mas já pensaste nas décadas, séculos de insultos e mentiras que calámos ou, pior, considerámos verdadeiras e aceitáveis? Compreendo que seja enlouquecedor conviver com o ruído permanente dos mexericos, das intrigas e das vulgaridades a que estamos expostas diariamente, nos meios de comunicação, nas redes sociais e por consequência, nas escolas, cafés, escritórios e lares. Mas, apesar de tudo, é preferível o barulho ao silêncio e à censura. Hoje podemos desligar um telefone, escolher ler ou não ler um jornal ou um livro, e sobretudo, podemos contradizer, e à vista de qualquer pessoa, qualquer ordinarice ou mentira que seja proclamada, ficando ainda com a vantagem de ficar toda a gente a saber o que se pensa.

É certo que num aspeto concordo contigo plenamente: “A falta de noção de algumas figuras públicas não deveria ter mais atenção mediática do que certos atos” de poesia. Arte. Literatura. De gestos solidários. Mas cabe-nos a nós dar-lhes ou tirar-lhes a luz da ribalta.

Lembro-me de passar o período da Covid-19 a medir as palavras. Desde 2020 nunca mais me despedi de ninguém sem dizer “saúde!”, ciente do que estava a dizer, e nunca mais disse “Santinho”, como a minha avó dizia, sempre que alguém espirra. Quando me perguntam: se estou bem: não digo um oficial e oco: ”Bem, muito obrigada e tu?”, nem respondo dando logo a resposta como tantas amigas da minha avó faziam, dizendo de uma vez só: “Como está, bem, muito obrigada!”, evitando assim o diálogo que, sabiam, era só protocolo exercido para ouvidos mocos. Também não são raras as vezes que ouço amigas dizerem-me, em conversas de café ou ao telefone: Ia morrendo hoje! Ou, estive a trabalhar num autêntico campo de concentração!, tudo frases que, se avaliarmos bem, não deveríamos dizer de ânimo leve, nem ouvir com complacência. Mas será melhor calar? Dizer ou ouvir um isso não se diz?

Cresci, em miúda, com um dilema que ainda não resolvi: pode-se dizer tudo mas não se pode fazer tudo? Ou pode-se fazer tudo, mas não se pode dizer tudo? O que achas, Chéu? Parece um dilema infantil e disparatado, mas basta substituir o tudo por: dizer eu mato um fascista ou matar mesmo um fascista, e apesar do grau de violência ser diferente no falar e no fazer, não consigo separar a ideia (e a possibilidade de propagar essa ideia) da possibilidade do gesto real. Nós nomeamos, nós fazemos. Ou desfazemos, não é?

Abelardo, o filósofo e teólogo medieval dizia que era na intenção que estava o pecado, mesmo que o mesmo não fosse cometido. A lei diz-nos que é o ato praticado que nos condena; se tentarmos e não conseguirmos, não somos criminosos? A invenção da liberdade de expressão diz-nos que este dilema não é para ser respondido mas praticado. Diz-nos que o que criamos com o que dizemos com regularidade em praça pública, no cinema, no teatro, na pintura ou mesmo nestas humildes e singelas crónicas desenha os contornos da realidade comum em que vivemos, informa-a, defende-a, destrói-a.

Podemos ter perdido a noção da força da linguagem, que pode partir vidros de janelas, como dizia o poeta Daniil Kharms (um escritor que morreu numa prisão na Sibéria porque a sua prosa “não fazia sentido”, de acordo com o relatório dos agentes que o prenderam). Podemos preferir não ouvir certos impropérios numa época que claramente prefere o adjetivo inflacionado ao argumento, e escolhe o superlativo ao vocabulário rigoroso. Mas nunca foi tão urgente sair para a rua aos gritos, a dizer o que nos vai na realíssima gana, enfrentando, confrontando e desarmadilhando quem tem o poder porque tem o poder da palavra!

Discutiu-se muito sobre se o debate entre Pacheco Pereira e André Ventura deveria ter existido e se valeria a pena falar com um fascista. E eu digo: vale! Mesmo saindo do debate de rastos! Da mesma maneira que já deveria ser intolerável, e completamente démodé, em democracia, alguém ainda afirmar com orgulho que deseja matar um (e ouve-se cada vez mais!) e ser aplaudido por isso. Resolver um problema à estalada não é nunca uma solução. Por isso entre defender se deveria haver um código de decência nos meios de comunicação e ouvir uma Cristina Ferreira a desculpar violadores ou um André Ventura a apelidar o dia inicial inteiro e limpo de miserável, prefiro (mesmo que infelizmente) ouvir barbaridades. Compete-nos a nós desafiar e desmontar esse discurso e afirmar que não o queremos se abafa todos os outros. É certo que para tal precisamos de estar lúcidos e em forma, na matéria física e na alma, plenas de literatura e arte que nos almofade o pensamento para aguentarmos o embate da crueldade de alguns impropérios, mas também bem nutrida de imaginação para poder ripostar, assumindo, sempre que necessário, um bartlebiano preferia não fazer (ou não ouvir), ao invés de aguardar por um qualquer líder (ou, hoje em dia, por uma celebridade), que nos salve ou nos ofenda com a sua oratória.

Aliás, talvez seja boa hora de pararmos de carpir o fim do tempo dos grandes líderes carismáticos e de grandes slogans. Talvez seja o momento certo para (re)começar a admirar profundamente a valentia de tanto João Sem Medo que salta todos os dias o muro, para descobrir a Floresta Branca, lembrando-nos que REPETIMOS ABRIL SE FOR PRECISO! Ou FASCISMO, ÉS TÃO SÉCULO XX! ou ainda: Os meus avós não se calaram para eu agora não usar a minha voz!, palavras de ordem de alguns cartazes este sábado em Lisboa.

É por tudo isto que o 25 de Abril é o dia mais inteiro da História recente do planeta e devia ser celebrado e contado em todo o mundo, como se celebra o fim de uma guerra mundial ou um Ano Novo datas que, extravasando o seu significado inicial, tornaram-se num ritual que abarca todos os fins e todos os começos. Tal como o movimento iraniano “Mulher, vida, liberdade” era muito mais do que um movimento de libertação das mulheres. Porque só somos verdadeiramente livres quando somos todas e todos e todes livres! O 25 de Abril devia ser o dia oficial da primeira madrugada futura! Porque ao contrário de outros festejos, descer a Avenida não é um desfile organizado, nem uma parada militar; não é uma exibição de força, de poder ou reflexo de uma tendência política, religiosa ou filosófica. O 25 de Abril é a celebração da Liberdade! De todas as maneiras, com todas as cores, todas as idades e muitas nacionalidades! Um exemplo vivo de como aquilo que começa com tanques só pode terminar em festa se (e só se!) houver gente na rua a cantar, e Donas Celestes a distribuir cravos que acabam pelos canos das espingardas!

Não são os líderes nem os políticos carismáticos, nem as celebridades solitárias de programas televisivos matinais que fazem as revoluções, são os seus apoiantes e espectadores que lhes dão voz e espaço ou Não! É o Povo que se revolta! É a malta que avisa a malta! É o mar de Joões Sem Medo que saiu à rua neste 25 de Abril para festejar o espanto de existirmos em liberdade!

Por isso, querida Cláudia, que esta nossa correspondência continue por muitos anos, em público e em privado, e que colha mais vozes que se queiram juntar nesta nossa vontade de empurrar, cada dia mais um bocadinho, a vergonha para o outro lado; para o lado daquele que nos tenta calar a boca, que nos aperta o pescoço ou nos obriga a apertar o cinto. Sigamos juntas, a tecer o futuro das nossas filhas adolescentes e das Liras que ainda virão (como esta aqui na foto de Natacha Campos), ocupando as ruas já no próximo 1º de Maio, em defesa dos direitos dos trabalhadores, ou seja, em defesa de um mundo inteiro que esgota os dias a fazer o próprio mundo girar.

Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela

Numa altura do ano em que muitos jovens começam a contemplar o seu futuro educativo e a tomar a decisão de continuar ou não para o ensino superior, e num tempo em que os influenciadores da internet propalam a ideia de que não serve para nada ter um curso superior, importa ver o que a ciência nos diz. E a mensagem é clara: o ensino superior importa, e muito.

Primeiro, é o grande diferenciador e determinante da produtividade das nações. Portugal, aliás, tem um déficit crónico em termos de stock de população ativa com o ensino superior, face aos demais países desenvolvidos, o que nos tem relegado para patamares de rendimento muito abaixo daquilo que conseguiríamos enquanto nação (é, até, um dos aspetos que mais beneficia os países de leste, e nos prejudica, no catching up que estão a fazer).

Depois, continua a ser um fator decisivo para se obter mais salário. As estatísticas são claras: segundo um estudo recente da OCDE, os jovens trabalhadores (entre os 25 e os 34 anos) ganham mais 58% se tiverem um licenciatura de que se não a tiverem! Este diferencial compensa rapidamente o investimento que se tenha que fazer para a obtenção do grau.

Finalmente, surgem os benefícios imateriais. Estudos que têm analisado a felicidade em função da obtenção de uma licenciatura têm chegado, muitas vezes, à conclusão de que quem tem um grau académico superior tende a ser mais feliz. Seja indiretamente, porque esse grau lhe permite melhores vencimentos, chegar a melhores postos de trabalho, melhorar a sua condição de saúde (por melhor literacia em saúde e mais cuidados) ou o seu estatuto social, seja diretamente através de benefícios cognitivos e de autoconfiança.

Apesar destes resultados poderem mostrar resultados diferenciados por género, país ou contexto do mercado de trabalho, a conclusão mantém-se. Seja a nível coletivo, seja nível individual, ainda é dos melhores investimentos que se pode fazer (tanto material como imaterialmente). E depois, se alguém quiser ser influencer, não é por ter o canudo que não o vai conseguir.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) ainda não tomou qualquer decisão sobre a classificação deste incidente”, disse à Lusa fonte oficial do regulador, acrescentando que a publicação do relatório dos peritos europeus (ENTSO-E), bem como “outra informação relevante, está a ser considerada pela ERSE na decisão a ser tomada brevemente”.

Os operadores de rede nacionais solicitaram atempadamente a classificação do incidente como evento excecional, cabendo-lhes fundamentar o pedido, acrescentou a entidade liderada por Pedro Verdelho.

A classificação do incidente pode ter impacto na eventual atribuição de compensações automáticas aos consumidores, previstas no Regulamento da Qualidade de Serviço quando são ultrapassados limites relativos ao número ou à duração das interrupções no fornecimento de eletricidade.

Estas compensações são suportadas pelos operadores de rede e, em regra, refletidas automaticamente na fatura do comercializador no início do ano seguinte à ocorrência.

A ERSE sublinha, porém, que as compensações automáticas não se confundem com indemnizações por prejuízos concretos, que dependem de decisões judiciais ou arbitrais e da prova dos danos sofridos.

Na sexta-feira, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, afirmou no parlamento que as empresas portuguesas “podem já pedir” indemnizações pelo apagão ibérico, embora falte a decisão da ERSE sobre a classificação do evento.

“Para o sistema estar completo e termos todos os elementos, falta a ERSE decidir se isto foi um evento extraordinário ou não”, disse a ministra, acrescentando que o Governo pediu ao regulador para ser “célere na resposta”.

Nos termos do Regulamento da Qualidade de Serviço, um evento pode ser considerado excecional pela ERSE, após pedido fundamentado dos operadores de rede, desde que estejam reunidas várias condições, incluindo a baixa probabilidade de ocorrência, a diminuição significativa da qualidade de serviço e a não imputabilidade aos operadores.

Questionada sobre as conclusões retiradas um ano depois do apagão, a ERSE recordou que está representada no grupo de peritos europeu e participou “ativamente” na preparação do relatório apresentado pela ENTSO-E em 20 de março.

Segundo o regulador, desse relatório “ficou claro que as causas que levaram ao incidente foram todas externas ao sistema elétrico português”.

A ERSE acrescentou que o sistema português já tinha aprovado “um conjunto de melhorias operacionais” cuja concretização permite maior resiliência face a fenómenos desta natureza.

O apagão de 28 de abril de 2025 teve origem em Espanha às 11:32:57 e propagou-se a Portugal em segundos, deixando o País totalmente sem energia elétrica a partir das 11:33:23.

O normal funcionamento do Sistema Elétrico Nacional foi reposto em menos de 15 horas, mais rápido do que em Espanha, com a conclusão do processo de reposição do abastecimento na Rede Nacional de Transporte às 23:22 de 28 de abril e a reposição total ao nível da Rede Nacional de Distribuição às 03:00 do dia seguinte.

Três meses após o incidente, o Governo apresentou um Plano de Reforço de Segurança do Sistema Elétrico Nacional, com 31 medidas distribuídas por cinco áreas, incluindo resiliência e segurança da rede, planeamento, aceleração das renováveis, resposta de infraestruturas críticas e colaboração internacional.

Entre os investimentos anunciados contam-se 137 milhões de euros para melhorar a operação e controlo da rede, um leilão de 750 Megavolt-ampere (MVA) de serviços de sistema com baterias e 25 milhões de euros para projetos-piloto.


Numa antiga casa colonial em Santa Marta, na Colômbia, onde hoje funciona o Museu do Ouro, a história da exploração europeia na América Latina cruza-se com um dos debates mais centrais da política climática atual: a reparação.

À primeira vista, pode parecer um salto temporal improvável. Mas, para muitos dos participantes na Conferência Internacional sobre a Transição para Abandonar os Combustíveis Fósseis, que decorre na cidade, a ligação é direta. A crise climática, defendem, não pode ser entendida sem olhar para o passado.

Durante séculos, a expansão europeia assentou na exploração intensiva de territórios, recursos naturais e populações. Ouro, prata, terras agrícolas e mão-de-obra foram extraídos de regiões hoje classificadas como “Sul global”, contribuindo para o desenvolvimento económico das potências coloniais.

Esse modelo de crescimento, baseado na extração de recursos e na transformação energética, evoluiu, mas manteve uma lógica semelhante: o uso intensivo da natureza para sustentar economias industriais. Hoje, essa lógica traduz-se numa dependência global de combustíveis fósseis, principal responsável pelo aquecimento do planeta.

Uma responsabilidade desigual

Os dados são claros: os países que mais contribuíram historicamente para as emissões de gases com efeito de estufa são, em grande medida, os países industrializados do Norte global.

Já muitos países do Sul global, apesar de terem contribuído menos para o problema, enfrentam impactos mais severos, desde secas prolongadas a eventos climáticos extremos que afetam diretamente populações vulneráveis.

Esta desigualdade está no centro do conceito de justiça climática e é a base de uma reivindicação crescente: a de que a transição energética não pode ser feita sem reconhecer responsabilidades históricas. Em Santa Marta, a ideia de dívida climática volta a ganhar força.

Movimentos sociais, representantes de comunidades locais e organizações internacionais defendem que os países mais ricos devem financiar a transição energética nos países em desenvolvimento, apoiar a adaptação aos impactos climáticos e contribuir para a reparação de danos já causados. Este debate não é novo, mas ganha nova relevância num momento em que a urgência climática aumenta e os mecanismos existentes se mostram insuficientes.

Apesar do reconhecimento crescente destas desigualdades, a tradução política da ideia de reparação continua a ser difícil. Nas negociações internacionais, os países divergem sobre a dimensão do financiamento necessário, os mecanismos de distribuição e a própria noção de responsabilidade histórica. Quase todos os do Norte global resistem a enquadramentos que impliquem obrigações financeiras mais claras, defendendo uma abordagem baseada em solidariedade e cooperação.

Uma transição que não é neutra

A conferência de Santa Marta surge precisamente neste contexto de tensão. Ao reunir países, comunidades e movimentos que defendem uma saída acelerada dos combustíveis fósseis, o encontro levanta uma questão inevitável: é possível fazer a transição energética sem enfrentar as desigualdades que a própria economia global criou? Para a muitos dos participantes, a resposta é clara: sem justiça, incluindo a reposição histórica, não há transição verdadeiramente justa.

Num espaço marcado pela história da colonização, o debate sobre o clima ganha uma dimensão mais profunda. A transição energética deixa de ser apenas uma questão tecnológica ou económica e passa a ser também uma questão política e histórica. E isso implica olhar para o passado, não como um capítulo encerrado, mas como uma parte ativa do problema. A forma como essa herança será reconhecida (ou ignorada) poderá definir não só a velocidade da transição, mas também quem beneficia dela.

Direção Editorial: Joana Guerra Tadeu | Reportagem: Imagens: Pedro Moura e Sílvia Moutinho | Produção em parceria com Don’t Skip Humanity.