Considerado o idioma predominante no hemisfério sul, a língua portuguesa é falada por cerca de 260 milhões de pessoas em nove países, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Enquanto membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Portugal tem o dever de manter o nosso idioma vivo e reafirmá-lo no panorama internacional.

Nós, enquanto cidadãos, somos a força motriz para perpetuar o “legado” da língua portuguesa. E nada nos deve impedir; nem mesmo o acelerado ritmo em que vivemos e que influenciam o modo como falamos, escrevemos e atuamos. Tal está a sentir-se também nas crianças que já estão a encurtar a forma de pensar e de falar. Prova disso são as seguintes frases — “Posso pão?” e “Posso telemóvel?” — que se tornaram frequentes no vocabulário das crianças. Mas será que esta nova forma de falar vem alterar a língua portuguesa?

Há quem defenda que é preguiça ou até mesmo falta de aprendizagem. Há quem defenda que é um fenómeno designado “economia da linguagem”, isto é, quanto mais palavras forem omitidas, mais rápido se fala e, consequentemente, se obtém aquilo que se pretende.

No entanto, uma coisa é certa: sem um verbo, a ação da frase não é transmitida, logo a mensagem não é compreendida devidamente. A omissão do verbo (auxiliar e/ou principal) confere liberdade ao recetor de atribuir qualquer significado à frase, podendo não coincidir com a intenção do emissor. Claro está que esta má comunicação não ocorre apenas quando omitimos o verbo; existem muitos outros erros que podem ter consequências menos positivas, resultando em perceções e ações erradas.

O português é uma língua viva, que se altera com o tempo. Prova disso são as várias palavras que já entraram no nosso vocabulário, outras que foram “descontinuadas” e outras até que sofreram alterações. No entanto, isto não quer dizer que devemos adotar na língua portuguesa todos os erros que, frequentemente, dizemos. Se tal continuar a acontecer, significa que, num futuro próximo, será correto dizer “há anos atrás”, “tenho que” e “para além” só porque o fazemos agora incorretamente?

Sou apologista de que não precisamos de saber as regras da língua portuguesa; apenas precisamos de as saber usar corretamente. Costumo dizer que “a sabedoria vem com meia dúzia de erros”, isto é, não nascemos ensinados; temos de errar e perceber que errámos para aprender e, mais ainda, termos interesse e curiosidade para o fazer. Só assim conseguimos ter mais conhecimento. É, por isso, fundamental consumir informação fidedigna e de qualidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Inúmeros estudos confirmam que cerca de 20% das pessoas – crianças, jovens e adultos – sofrem de uma ou mais perturbações mentais. Profissionais de saúde mental e do ensino – do pré-primário ao universitário – acham que esta estimativa está muito aquém da realidade.

Perturbações mentais existem de facto e são coisas bem reais

As “Perturbações mentais, comportamentais ou do neurodesenvolvimento”, estão perfeitamente definidas e o seu diagnóstico obedece a critérios que a Organização Mundial de Saúde expõe na sua Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados com a Saúde, na sua 11ª edição (ICD-11). Este manual é utilizado em todo o mundo, por todos os profissionais da saúde que necessitam de classificar uma doença, seja ela qual for, antes de a tratarem.

Uma criança ou um jovem que sofre de uma perturbação mental – muitas das quais se desenvolvem já no útero da mãe ou nos três primeiros anos de vida – viveu situações de desconforto agudo, sensações aflitivas e ameaçadoras como o abandono e a indiferença, que provocam enorme insegurança, angústia e pânico. O stresse que tais situações provocam na criança alteram o seu desenvolvimento neurobiológico e hormonal normal. Esta perturbação do desenvolvimento normal vai-se manifestar mais tarde, por vezes passados anos, em perceções, sensações, pensamentos e comportamentos não expectáveis e bastante perturbadores. Exemplos de perturbações mentais comuns em crianças e jovens são: Perturbações de Ansiedade ou Relacionadas com o Medo, Perturbação do Espetro do Autismo, Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, Perturbação Desafiante de Oposição, Perturbação do Desenvolvimento da Aprendizagem (leitura, expressão escrita, matemática) e Perturbações do Desenvolvimento da Fala ou da Linguagem.

A qualidade emocional do meio ambiente das pessoas, particularmente dos bebés e das crianças muito jovens, é de extrema importância para o seu desenvolvimento normal e saudável.

A criança, mesmo no útero da sua mãe, necessita sentir-se intensamente amada, acarinhada, respeitada e protegida, necessita sentir esta resposta quando se sente ameaçada, carente e insegura.

O facto de sabermos que o nosso cérebro é um órgão com uma enorme capacidade de se transformar e de se adaptar às informações que recebe – pois nunca deixamos de aprender, de refletir e de recriar quem somos – ajuda-nos a perceber porque é que as perturbações mentais são tratáveis e a compreender como fazê-lo.  Podemos influenciar a organização e o funcionamento do nosso cérebro.

Na maioria dos agregados familiares, e seguramente em todos os estratos sociais, em todos os grupos, de todas as creches, em todas as turmas, de todas as escolas e universidades encontramos crianças e jovens com perturbações mentais. Em Portugal, tal significa que dos 2 milhões de crianças e jovens entre os 3 e os 18 anos, mais de 400 mil sofrem de uma ou mais perturbações. Muitas crianças e jovens adoram falar, não se calam, são bem-dispostos e ativos, mas, para além de não conseguirem estar quietos, têm grande dificuldade em se concentrarem. Por vezes, isolam-se e zangam-se. Outros parecem ser sempre do contra: não fazem o que se lhes pede, discutem, opõem-se aos adultos, manipulam-nos, provocam-nos, desafiam-nos e insultam-nos, não suportam um “não” e acham-se injustiçados. Há pais que não se atrevem ir a uma loja com a criança. Esta, corre e desaparece, pega em tudo e quer tudo. Contrariada, faz cenas terríveis. Há crianças e jovens com tiques e preocupações permanentes que tentam esconder o que não conseguem controlar. Há crianças e jovens que têm grande dificuldade em compreender os outros, que ouvem o que mais ninguém ouve, ou que são demasiado tímidos, ou demasiado angustiados. Há muitas crianças e jovens que quase não se atrevem a falar, não percebem nada de aritmética, tentam passar despercebidos e evitam alguns lugares públicos ou espaços fechados. Há crianças e jovens que fazem mal aos outros ou que de repente explodem, atiram com cadeiras e choram, desesperados. Há crianças e jovens, de tal forma traumatizados, que regridem no seu desenvolvimento, perdem rapidamente cabelo e peso, deixam de falar e de brincar, perdem o contacto com o mundo exterior e têm de ser hospitalizados. Há jovens terrivelmente traumatizados/as porque são perseguidos/as, assediados/as, agredidos/as e vítimas de abuso sexual. Há muitos adolescentes e jovens que, frequentemente, se embriagam, consomem drogas ilícitas, se recusam a comer, têm comportamentos promíscuos, cortam-se e têm pensamentos suicidas, sem que ninguém saiba ou queira saber disto, ou do pânico e desespero das famílias. Muitos adolescente e jovens não falam, nem saem do seu quarto.

Estas crianças e jovens não podem ser culpabilizados pelo que lhes aconteceu, nem pelo que lhes acontece a todo o instante e tanto os magoa.  Ignorá-los faz-nos sentir vergonha.

No pré-primário, como no ensino básico, universitário ou em qualquer outro tipo de ensino todas estas crianças e jovens sentem que têm problemas graves e, frequentemente, dificuldades acrescidas com a leitura, a escrita, a aritmética, a oralidade, o trabalho de grupo, a organização do estudo, a motivação e o relacionamento social. Há também muitas crianças e jovens extremamente inteligentes e perspicazes, que se entediam com o ensino. Qualquer professor, com alguns anos de experiência, deteta facilmente estas crianças e jovens. No entanto, estas crianças e jovens são muito raramente diagnosticadas e tratadas, algo a que têm direito, pois sofrem de um grave problema de saúde. O Serviço Nacional de Saúde, os serviços de saúde privados e a sociedade civil não respondem às necessidades de cuidados de saúde (mental) destas centenas de milhares de crianças e jovens. O apoio pedagógico-didáctico que algumas destas crianças e jovens recebem nas escolas que frequentam não faz sentido e não tem qualquer relevância. O problema não é de ordem pedagógico-didática.

Os professores não são especialistas de saúde mental

É necessário evitar que as crianças e os jovens continuem a ser vítimas dos erros e da falta de cuidado dos adultos. Quanto às crianças e aos jovens com problemas graves de saúde, como perturbações mentais, a minha experiência profissional, de mais de 40 anos como psicólogo e fundador de uma escola em Amesterdão (Europaschool), é que estas crianças e jovens devem ser, o mais precocemente possível, assinaladas, examinadas, diagnosticadas e tratadas. É preciso ouvir os pais e os professores, ganhar a sua confiança e colocarmo-nos, incondicionalmente, ao seu lado para implorar-mos a sua ajuda. Isto porque não faria muito sentido tratar as crianças e os jovens e, no fim deste difícil percurso, “mandá-las de volta” para o mesmo meio familiar, escolar e social, que lhes afetou a saúde de forma tão grave. Estas crianças e jovens sentiram os efeitos devastadores das situações traumáticas em que foram colocados.

O diagnóstico, o tratamento e a recuperação das aprendizagens e competências escolares – o que não aprenderam deu origem a atrasos, lacunas e a uma profunda desmotivação – devem ser intervenções integradas entre si, realizadas pelo mesmo psicólogo da saúde, com formação avançada de ensino.

Vai ser preciso brincar e jogar, ler em voz alta e explorar o texto, transmitir empatia, respeito e simpatia, transmitir alguma sabedoria e senso comum, ajudar a conhecer-se, a falar de forma audível e compreensiva, a descontrair-se, a respirar e a andar de costas direitas e de cabeça levantada. Vamos ajudar a criança e o jovem a descobrirem que podem fazer tudo o que os/as outros/as fazem e que não há problema que não consigam resolver.  Até a tabuada, a biologia e a sociologia vão deixar de ser uma fonte de frustração. Muitas vezes, a disponibilidade do profissional tem de ser total. Esta forma de trabalhar vai estreitar a relação e dar o crédito necessário para pedir força de vontade, para pedir para não parar de trabalhar. Por outro lado, quanto mais profissionais trabalharem com a criança ou com o jovem, menos efetivo é o trabalho.

É igualmente necessário garantir a liberdade ético-profissional do profissional da saúde para que este possa assumir a plena responsabilidade pelo seu trabalho e colocar em primeiro lugar a saúde e os interesses da criança, do jovem e da família. O profissional de saúde – ou de qualquer outra atividade – deve ser avaliado pelo grau de satisfação da pessoa a quem presta os seus serviços (o cliente).

Atualmente, mais de 20% de todas as crianças e jovens sofrem de uma ou mais perturbações mentais, que, na sua grande maioria, não são nem diagnosticadas, nem tratadas, nem resolvidas. Centenas de milhares de crianças e jovens, com um estado de saúde deplorável, “estão abandonadas à sua sorte”. Vão perder muito do que o ensino lhes podia dar e a oportunidade de serem mais felizes, numa sociedade que, também ela, poderia vir a ser mais feliz.

É preciso tratar, mas é também preciso prevenir. São precisas, urgentemente, transformações de fundo, tanto na sociedade, como nas instituições.  Para que tal aconteça é necessário que as famílias e a sociedade civil sejam mais exigentes e tomem, elas mesmas, as iniciativas que acharem necessárias.

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O verdadeiro escritor amaldiçoa o país que escreve. Depois de o lermos, já não sabemos se ele o inventou ou se as coisas sempre foram assim. Camilo não descreveu o seu tempo — condenou-nos para sempre ao seu nome. Desde então, não somos outra coisa, senão personagens suas: trágicos, sôfregos, envergonhados. E, de tempos a tempos, há um caso que o confirma com lucidez.

Luís Montenegro é uma dessas personagens. Não por acaso — por fidelidade. Porque, em Portugal, o romance é sempre este.

O caso da empresa de Luís Montenegro foi escrito com cem anos de antecedência. O protagonista é o bacharel de província, de nome limpo, ambicioso sem pressa, educado sem subtilezas. Crente na honra — mas disposto a dobrá-la pela família. Convencido de que tudo se resolve, tudo se entende e, no fim, tudo se perdoa.

É uma história sem vilões. Em vez deles, fidalgos hesitantes, repartições indecisas, quotas mal passadas, vinho em rascunho, contratos que cheiram a papel antigo. E há o povo — que não odeia o esquema, desde que seja próximo, paternal, nortenho e venha com a melhor das desculpas: “foi pelos filhos”. Desde que não lhe custe directamente, tudo se aceita.

Ainda na semana passada, comentava o caso com o Eugénio e perguntei: — Então a empresa é para fechar?

Na pausa de rachar a lenha, bruto como o Rio Vizela, o Eugénio resumiu tudo: — Fechar? Fechar para quê? Aquilo era só facturar!

Facturar, em Portugal, é vitalidade. Sempre. Legislar, ao lado disto, é um entretém ocioso de utilidade esotérica: serve para ocupar o tempo e disfarçar o embaraço de quem acredita na força das regras.

A frase do Eugénio ficou a latejar. Não porque seja nova, mas porque ninguém a diz com vergonha. Tem aquele aroma a terra molhada, o travo do vinho novo, e o conforto da moral que já não se discute. Lisboa ouve e enternece-se. Vizela ri-se. E o País assente. O Eugénio sabe. O Eugénio é Portugal.

Camilo também sabia. Sempre soube que a nossa tragédia verdadeira não é moral — é doméstica. Que o português aceita tudo, desde que envolva uma casa, um nome de família e um sonho vagamente enológico.

Montenegro montou uma empresa. A empresa facturava. Os filhos herdaram as quotas. O PS apontou o dedo. O Chega ameaçou cortá-lo. O Governo caiu — e ninguém percebeu porquê.

A personagem está bem desenhada. Vem do Norte. É formal. É educada. Registou uma marca de vinho no meio da tempestade — com serenidade e método. Como quem sabe que o povo perdoa tudo, menos a hesitação. Não houve escândalo. Houve normalidade. O “isto resolve-se” tornado doutrina. O jeitinho como modelo de sociedade.

Montenegro é o bacharel que acredita na sua própria compostura até ao momento em que ela se torna um empecilho. A integridade, para ele, não é uma convicção: é uma herança. E, como todas as heranças, é passível de partilha, doação, adiamento ou mal-entendido.

A corrupção, aqui, não é fria nem criminosa. É morna. Caseira. Conivente. Só escandaliza se vier de Lisboa, se for tecnocrática, se falar com distanciamento. Mas se trouxer vinho, sotaque nortenho e filhos ao colo —então é outra coisa. É humanidade.

Quando Marcelo lhe chamou “rural”, não foi só um insulto de ocasião — foi o reacender da tensão entre o velho verniz liberal e a teimosia da província. Foi Eça a levantar-se do panteão, escandalizado com Camilo. Foi o Portugal elegante, estrangeirado, a olhar de cima para o Portugal trágico, bruto e afectivo. Foi a pátria dividida: azuis e brancos contra vermelhos e azuis; os que se ralam com as aparências e os que só querem que os filhos tenham o que comer.

O Governo lá caiu. Montenegro, por enquanto, não. Mas se cair, cairá de pé, entre pipas e escrituras, convencido de que fez tudo certo.

E o Eugénio, cheirando a molhado e ressoando como o barulho da enxada no granito, há-de murmurar:
— Era um dos nossos.

Está escrito. Por Camilo.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

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Ponto prévio 1: Sou a favor de tudo o que ponha as pessoas a mexer.

Ponto prévio 2: O “eu tenho tanto direito de estar aqui como vocês” não justifica tudo.

Ponto prévio 3: Não pode valer tudo para ganhar dinheiro.

Vamos então por partes. O desporto faz parte da minha vida desde sempre e sempre de forma amadora. Faz parte da minha medicação diária para esta doença crónica que é um corpo que não tem eternamente 20 anos e uma mente com o mesmo problema.

Comecei a correr regularmente apenas em 2021 e nunca me incomodou a “febre” da corrida transformada em “running” nem nunca me faltou espaço para correr no paredão – embora no tempo mais quente, ali em Carcavelos, se note aquela disputa de espaço entre escolas de surf, caminhantes, donos de cães, corredores e simples veraneantes. Cada um sente como um incómodo a ideia de ter se desviar do sítio onde quer ou onde calhou estar para deixar alguém passar. Afinal, o espaço é público e todos têm o direito de ali estar.

Ora, mais acentuada fica esta questão quando em vez de o “problema” ser o direito a estar num espaço público, se põe a questão do “eu paguei para estar aqui”. Isto para nos levar ao que parece estar a tornar-se norma: organizações de provas de corrida com cada vez maiores dificuldades em gerir as multidões dispostas a pagar valores que andam ali entre os 10 e os 25 euros para participar, tanto a correr como a caminhar.

Na última Meia Maratona de Lisboa, que atravessa a Ponte 25 de Abril, correram nas redes sociais as vozes indignadas e as imagens inacreditáveis de filas para atravessar a meta. A meta! Um congestionamento com alguns metros que impedia quem tinha acabado de percorrer 21 km de concluir a sua prova. Atenção, que estamos a falar de participantes com dorsal, não de transeuntes que inadvertidamente tenham atrapalhado a chegada dos atletas. Ou seja, o problema não pode ter sido uma enchente maior do que a prevista, porque quem estava ali foram os que conseguiram uma inscrição.

No passado domingo, foi dia de mais uma Corrida do Benfica, uma prova de 10 kms, a que se juntou a caminhada de 5 kms. As duas vertentes tinham meia hora de diferença no arranque, com a corrida a partir primeiro, o que daria tempo, em teoria, para ninguém atrapalhar ninguém. Mas não foi o caso. Porque quem ia a correr a uma média de 5’30 ou 6′ minutos por quilómetro, antes de chegar ao quinto quilómetro da prova, cruzava-se com parte da multidão caminhante que continuava a ocupar a largura da estrada, indiferente à multidão corredora. O percurso dividia-se novamente mais adiante, para se juntar mais uma vez antes da meta. Acredito que muitos dos caminhantes que não se desviaram e continuaram a andar lado a lado tiveram o pensamento “eu paguei para estar aqui, tenho tanto direito como os que estão a correr”, a outros nem sequer lhes terá ocorrido que podiam estar a perturbar a prova dos 10km. Do lado dos corredores, não faltaram gritos de “caminhada para a direita! caminhada para a direita”. Afinal, também nós tínhamos pagado para estar ali.

Todas as provas, mesmo com caixas de partida diferentes consoante a previsão de tempo de chegada, implicam uma certa confusão ao início (até porque, muitas vezes, há pouco controlo na escolha destas boxes e há quem opte pela distância de corrida quando a intenção era caminhar desde sempre) que obriga a uma gincana. O que não pode acontecer é um “engarrafamento humano”, que leva às altercações comuns no trânsito rodoviário, porque as organizações… não organizam, ou não calculam bem as provas. Não pode valer tudo.

A promoção da atividade física, que cada vez mais estudos comprovam ser fundamental para a saúde física e mental, não pode servir de desculpa para alargar as vagas disponíveis nas provas de corrida. Uma caminhada é uma atividade física que pode fazer a diferença entre a saúde e a doença, mas não pode ser confundida com desporto – uma prática estruturada e com objetivos, mesmo que num plano simplesmente amador.

Nota final: Sobre a licença que a Federação Portuguesa de Atletismo quer aplicar aos participantes das provas lá iremos mais tarde.

A Nintendo revelou durante a apresentação Direct, feita nesta quinta-feira, os Virtual Game Cards. Tal como o nome sugere, trata-se de uma adaptação das versões digitais dos jogos para um ‘cartão’ que pode ser emprestado entre membros da família ou mesmo trocado com outros jogadores.

Os utilizadores que tenham múltiplas consolas Switch podem usar este sistema em todas elas, sendo necessária uma comunicação local apenas da primeira vez e uma ligação à Internet para ‘ejetar’ ou ‘carregar’ o jogo. Não há restrições sobre o número de contas que poderão jogar com o Virtual Game Card, o que na prática equivale a dizer que é como se se tratasse de um jogo em formato físico. Recorde-se que, até aqui, os jogos em versões digitais podiam ser utilizados por todas as contas, mas apenas numa consola ou apenas pela conta do dono numa outra consola, lembra o Polygon.

Para os utilizadores com contas familiares, esta nova versão de jogo pode ser emprestada durante 14 dias, findos os quais o jogo ‘volta’ para a conta e consola do dono. Só pode emprestado um jogo por membro de família, para já.

Durante a apresentação, não houve qualquer referência à Nintendo Switch 2, estando o foco apenas nos Virtual Card Games, o que levou a comunidade a começar rumores de que estes estariam apenas disponíveis na nova versão da consola ou que todos os jogos para a Switch 2 só estariam disponíveis neste formato.

Com uma obra extensa sobre Inteligência Artificial, Timothy B. Lee publicou uma análise sobre os acidentes envolvendo carros autónomos da Waymo (empresa do universo Google) registados entre julho de 2024 e fevereiro de 2025. A conclusão? Os sistemas autónomos ‘portam-se’ melhor do que os condutores humanos na estrada.

Timothy B. Lee considerou um total de 38 acidentes nos quais se registaram, pelo menos, um ferido ou o disparo do airbag, e revela que apenas numa dessas situações a culpa pode ser inquestionavelmente atribuída ao carro autónomo. No caso em apreço, esteve envolvida uma caixa de plástico e uma motorizada. Em três situações, Lee não conseguiu apurar claramente de quem foi a responsabilidade do acidente. Dando o benefício da dúvida em favor dos humanos, apenas quatro de 38 acidentes podem ter sido culpa da Waymo, explica a publicação BoingBoing.

“Utilizando dados de acidentes com humanos, a Waymo estima que os condutores humanos nas mesmas estradas pudessem ter tido 78 acidentes graves o suficiente para ativar o airbag. Em comparação, os veículos autónomos da Waymo só tiveram 13 acidentes com airbag. Isto representa uma redução de 83% em acidentes com airbag ativado em relação aos condutores humanos”, lemos no Understanding AI.

Uma análise feita aos dados de seguradoras, com as responsabilidades a serem apuradas por terceiros, mostra que os veículos da Waymo reduzem as queixas de ferimento em 90% face aos condutores humanos.

Elon Musk, dono da rede social X e membro da administração do presidente dos EUA, Donald Trump, fez uma saudação polémica, associada com o regime nazi, em janeiro, e o gesto não foi bem recebido. Dezenas de moderadores do Reddit manifestaram-se na altura contra o ato, começando a bloquear as ligações da plataforma para a rede social X. Elon Musk queixou-se publicamente da retaliação e, sabe-se agora, terá também pressionado em privado o diretor executivo do Reddit, Steve Huffman, para silenciar os críticos do regime de Trump.

Fontes próximas do tema revelam ao The Verge que houve trocas de mensagens entre Elon Musk e Steve Huffman antes de a plataforma banir o canal r/WhitePeopleofTwitter por 72 horas. Esta comunidade tornou-se palco de violentas ameaças contra os membros da DOGE, o organismo que Musk está a dirigir para conseguir mais eficiências no governo americano, e foi também aí que surgiram mais ameaças depois de se saber de alegados roubos de informação sensível no DOGE. A comunidade acabou por ser completamente banida e não foi alvo de moderação.

Um dos moderadores ouvido afirma que “não tenho qualquer problema com a remoção de conteúdo que viole as normas (e levar a cabo as respetivas ações administrativas contra as contas), mas considero problemático que ele [Elon] seja capaz de exercer influência em instituições públicas e privadas”.

Entre as comunidades que baniram os links da X estão locais tipicamente apartidários e apolíticos como a r/NFL ou a r/Nintendo. Os moderadores da r/Military explicaram sucintamente as razões para banir os links: “Ele que se f*da”, referindo-se presumivelmente a Musk.

Elon Musk esteve durante alguns dias sem refutar ter feito a saudação nazi, mas acabou por fazê-lo alguns dias depois no podcast de produtor Joe Rogan. A verdade é que o gesto acabou por ser replicado várias vezes por diversas figuras do ambiente MAGA (Make America Great Again).

Longe vai o tempo em que Stanley Kubrick chocou o mundo com a sua Laranja Mecânica. Com cenas perturbadoras de extrema violência física e sexual, este filme de 1971 veio trazer para o grande ecrã muitos dos medos e temas sociais debatidos naquela época, particularmente centrados em fenómenos crescentes de delinquência juvenil em contextos de gangues e atuação em grupo. Não era um tempo de internet nem de redes sociais, mas em que a arte cinematográfica teve o condão de provocar o choque e de alertar para um importante problema comunitário.

Por estes dias, a série Adolescência veio trazer a milhões de espectadores um confronto direto com o contexto digital em que estão mergulhados muitos jovens, bem como para os perigos que daí podem advir. Trata-se de um verdadeiro serviço público, já sobejamente comentado, mas que impõe, agora, que façamos um exercício de mergulho na realidade. Naquela dimensão de que facilmente nos alheamos, mas em que não pagamos bilhete nem mensalidade. Aquela componente das nossas vidas que nos devia chocar verdadeiramente e que nos devia mobilizar enquanto sociedade. Apertemos, por isso, os cintos, porque os sinais não são animadores.

Durante esta semana foi noticiado que o mais recente Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) assinala a existência de crianças e jovens portugueses a serem aliciados e mobilizados por grupos de jiadistas e de neonazis, através da difusão de conteúdos extremistas on line, em plataformas de gaming, e através da presença de influencers que lideram movimentos que propagam apelos à violência geradores de uma rápida radicalização de indivíduos cada vez mais jovens. Do mesmo modo, o RASI vem colocar a descoberto a presença crescente de crianças em grupos de WhatsApp e Discord para partilha de ficheiros de conteúdo sexual, pornográfico e de violência extrema.

O mais recente Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) assinala a existência de crianças e jovens portugueses a serem aliciados e mobilizados por grupos de jiadistas e de neonazis, através da difusão de conteúdos extremistas on line, em plataformas de gaming, e através da presença de influencers que lideram movimentos que propagam apelos à violência geradores de uma rápida radicalização de indivíduos cada vez mais jovens

Tudo isto se está a passar em Portugal neste preciso momento, sendo que importa ter presente que a prática de crimes por jovens inimputáveis em razão da idade, isto é, até aos 16 anos de idade, também implica uma reação por parte do sistema de justiça, designadamente através do recurso ao Processo Tutelar Educativo, cuja medida tutelar mais gravosa consiste no internamento em centro educativo. De acordo com o relatório de Estatística Mensal dos Centros Educativos, elaborado pela DGRSP, em dezembro de 2024: a medida de internamento teve um crescimento de 33,33% nos últimos dez anos; o número de jovens internados cifrava-se em 147; a taxa de ocupação total dos centros educativos situava-se em 93,04%; os crimes mais praticados correspondiam a crimes contra as pessoas (60,77%); sendo de assinalar que as estatísticas também contam com dois crimes de homicídio voluntário consumado.

Mas se a criminalidade em contexto juvenil sempre existiu, a verdade é que, nos dias de hoje, o acesso livre e, em muitos casos, descontrolado a plataformas digitais onde reina a exaltação dos discursos de ódio, da xenofobia, da homofobia, do racismo, da misoginia, da violência sexual e dos extremismos nas suas mais variadas formas, veio generalizar a probabilidade de ocorrências graves independentemente do background de cada um. Dito de outra forma: uma desgraça pode acontecer a qualquer filho – seja como agressor, seja como vítima – e a qualquer família, por mais estruturada que se tente manter.

Na verdade, acesso não supervisionado à internet, em geral, e o uso de redes sociais, em particular, já ultrapassou em muito um potencial lesivo limitado ao ciberbullying. Ao contrário, chegam com excessiva frequência aos tribunais casos em que publicações nas redes foram a ignição para espancamentos por grupos de jovens a outros pares ou em que o diálogo com desconhecido potenciou um aliciamento para encontros sexuais por parte de crianças em idades muito precoces, com fugas de casa e saídas sem conhecimento dos pais ou até para inserção em grupos que operam autênticas “lavagens cerebrais” de radicalização infantil. Também pela mesma via, a pornografia tem vindo proliferar em idades cada vez mais baixas, sendo comuns os casos de jovens abusados ou abusadores, para quem a visão da sua própria sexualidade é já, desde muito cedo, uma imagem extrema em que se queimam irremediavelmente etapas do crescimento e da formação salutar da personalidade, obliterando-se parte da infância com passagem direta, e sem freios, para o mundo adulto na sua versão mais grotesca.

É neste contexto que, por exemplo, a Nova Zelândia lançou recentemente uma campanha pública intitulada Keep it Real Online, incentivando ao uso da internet de forma cuidadosa. Nessa campanha, o objetivo é consciencializar os pais e a comunidade educativa para a segurança das crianças e adolescentes na internet, abordando temas como o ciberbullying, o sexting, a pornografia, a privacidade e os predadores on line, incentivando a conversas abertas entre pais e filhos sobre esses assuntos. A campanha recorre a vídeos diretos e humorísticos em que personagens, representando atores de filmes para adultos, vítimas de abuso ou predadores sexuais, aparecem de surpresa na casa de uma família para a alertar sobre o perigo da utilização que os respetivos filhos estão a fazer da internet, muitas vezes a partir de casa, através quer de dispositivos próprios quer dos seus pais.

Se temos a capacidade de nos chocarmos com a ficção, então choquemo-nos também com a realidade. E se a arte e a ficção tiverem o condão de nos ajudar a perceber melhor a realidade, importa que sejamos consequentes e não deixemos que o efeito se perca. Urge que todos nós, enquanto comunidade, sejamos capazes de nos consciencializar para a necessidade de monitorização das redes sociais das nossas crianças e jovens; de educar para a defesa da privacidade e para os perigos da exposição excessiva; de definir limites de uso, incentivando atividades offline, como o desporto, a música, a leitura ou o convívio social; de estarmos sempre disponíveis para um diálogo aberto e sereno com os filhos e educandos e de incentivarmos essa comunicação; de darmos o exemplo enquanto educadores, demonstrando hábitos saudáveis no uso da tecnologia e evitando a dependência excessiva dos dispositivos eletrónicos; de estarmos atentos aos sinais de alerta e às mudanças comportamentais, como o isolamento, a ansiedade ou as alterações de humor; de criarmos condições para o reforço da auto-estima, sempre em estreita comunicação com as comunidades escolares junto das quais as crianças e jovens passam grande parte do seu tempo.

Cientes assim de que não se pode permitir que a educação seja assegurada pelo desconhecido que está do outro lado de um qualquer dispositivo, mesmo que à boleia de uma série de televisão, acordemos então para esta realidade para que nunca nos esteja reservado aquele papel final em que um pai, agarrado a um peluche do filho, lhe pede desculpas porque podia ter feito mais.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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Um terramoto de magnitude 7,7 na escala de Richter atingiu esta sexta-feira o noroeste de Myanmar, a cerca de 50 quilómetros a leste da cidade de Monywa. O forte sismo – que também foi sentido em diversas regiões do sudeste asiático – provocou a derrocada de vários edifícios e pontes, sobretudo em Myanmar e na Tailândia.

De acordo com o último balanço, divulgado durante a manhã deste sábado pela Junta militar, mais de 1 000 pessoas morreram e 2 376 ficaram feridas em Myanmar, a antiga Birmânia. As autoridades do país já apelaram à ajuda da comunidade internacional.

Na Tailândia, Chadchart Sittipunt, governador de Banguecoque, avançou que três pessoas morreram na cidade e que os serviços ferroviários no país estão suspensos.

Em Naypyitaw, a capital de Myanmar, vários templos religiosos e algumas casas ficaram danificados, segundo as autoridades no país. Em Banguecoque, perto de Chatuchak, um prédio em construção de 30 andares ruiu e pelo menos 43 trabalhadores estão soterrados, de acordo com as autoridades da Tailândia. 

De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, foi sentido um primeiro tremor de terra – de 7,7, – em Myanmar. Cerca de 12 minutos mais tarde, um segundo abalo – de magnitude de 6,4 – abalou também regiões na Tailândia.

De acordo com uma fonte da AFP, alguns feridos estão a ser tratados no exterior das urgências de um hospital em Myanmar.

Não há portugueses afetados pelo tremor de terra, já avançou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). “Estamos a contactar com a Tailândia para efetivamente saber algo mais”, referiu José Cesário, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.