Uma experiência académica “não autorizada” está a levantar polémica entre os utilizadores e moderadores do Reddit. Uma equipa de investigadores da Universidade de Zurique esteve, durante meses e de forma secreta, a publicar comentários na thread r/changemyview gerados por Inteligência Artificial, naquilo que os moderadores apelidam de “manipulação psicológica” dos utilizadores. A condução do estudo foi tornada pública agora pelos moderadores que explicam que a experiência não foi autorizada previamente e se destinava a “estudar como a IA pode ser usada para mudar perspetivas”.

Naquela comunidade do Reddit, os utilizadores publicam mensagens muitas vezes controversas ou provocatórias, numa tentativa de que o resto da comunidade lhes faça mudar de ideias. Os investigadores usaram grandes modelos de linguagem (LLM) para criar comentários de resposta a estas publicações. A Inteligência Artificial assumiu várias identidades distintas para poder ser mais eficaz na argumentação e tinha também em consideração o perfil do utilizador a quem estava a responder, tendo recolhido informação a partir das publicações anteriores, como género, idade, etnia, localização e orientação política). Essa recolha foi feita com a utilização de outro modelo de linguagem.

Os moderadores acusam este estudo de violar múltiplas regras das subreddits, incluindo a que requer que o uso de IA seja previamente anunciado e outra que proíbe o uso de bots. A Reddit está a considerar executar ações legais no caso e os moderadores também já fizeram uma queixa na Universidade e pedem que o estudo não seja tornado público.

Os autores do estudo referem que a investigação foi aprovada pelo comité de ética da Universidade e defendem que o trabalho pode ajudar as comunidades online, como as do Reddit, a proteger os utilizadores contra usos “maliciosos” da Inteligência Artificial. “Percebemos a posição dos moderadores de que este estudo foi uma intrusão não bem vinda na vossa comunidade e percebemos que alguns de vocês possam sentir-se desconfortáveis por esta experiência ter sido conduzida sem a vossa autorização prévia. Acreditamos que os potenciais benefícios desta investigação compensam substancialmente os riscos”, afirmou a equipa de cientistas em várias publicações no Reddit e no esboço do estudo. Os académicos salientam ainda que o uso foi feito de forma controlada e com um baixo risco.

Já a Universidade de Zurique, em comunicado enviado por email, confirma que a investigação passou pelo comité de ética, cujas recomendações não têm vínculo legal e salientou que “à luz dos eventos, o Comité de Ética da Faculdade de Ares e Ciências Sociais pretende adotar um processo de revisão mais rígido no futuro e, em particular, coordenar com as comunidades nas plataformas antes dos estudos experimentais (…= As autoridades relevantes na Universidade estão cientes dos incidentes e irão investiga-los em detalhe, aplicando um julgamento crítico aos processos relevantes. Os investigadores decidiram por si não publicar os resultados da pesquisa”.

Remonta à Antiguidade Romana o pensamento afirmado por juristas, como Cícero ou Ulpiano, no sentido de que o direito é algo fundamental à convivência humana. O brocado latino “ubi societas, ibi jus” (“onde está a sociedade, aí está o direito”) atravessou o pensamento jurídico pelos séculos até aos dias de hoje, afirmando o óbvio: onde haja humanidade, aí se gera a necessidade de regulação dos respetivos comportamentos e conflitos. Na verdade, desde tempos imemoriais, e mesmo nas sociedades mais primárias, as comunidades foram sentindo a necessidade de criar padrões vinculativos de organização e regulação social que lhes garantissem estabilidade e, por essa via, condições para alcançarem a prosperidade coletiva.

Contudo, a evolução dos tempos importou, também para o direito, o acompanhamento de realidades sociais cada vez mais complexas, geradoras de novas relações, de novos institutos e de novas necessidades de regulação e de organização. Na verdade, em pleno século XXI, a justiça, um pouco por todo o mundo, parece ter entrado em definitivo na nova era digital, em que desde a tramitação dos processos, à documentação das audiências de julgamento, ao armazenamento da informação, tudo é feito com recurso a ferramentas informáticas. Mas esta transformação não gera apenas a desejável eficiência, simplificação ou celeridade do sistema de justiça. O seu progressivo e, cada vez mais, acelerado processo de digitalização cria, aqui como noutros sistemas, uma carência que, por estes dias, se tornou óbvia e que se centra na evidência de uma total e preocupante dependência energética.

Tal como em Cage, mesmo que o sistema de justiça entre em falência e não possa momentaneamente “dizer o direito” por comprometimento da sua operacionalidade, a sociedade continua a reger-se por um lastro de regras comuns que, no meio da calamidade, vêm ao de cima

Nas sociedades modernas, o progresso criou condições de conforto de tal ordem estabilizadas que, para um cidadão de médios recursos, ter água, eletricidade, rede de telecomunicações e internet, se tornou numa circunstância quase tão natural como respirar. Algo de tão dado por adquirido que só uma situação extrema de privação permite que se alcance a extensa ramificação de implicações que um tal corte provoca na gestão do quotidiano e até nas reações ou interações de índole social. A virtualidade de um “apagão” como o ocorrido nesta semana é, por isso, indubitavelmente, a de nos confrontar com a essencialidade da energia para a manutenção de um padrão de vida que o progresso nos fez alcançar. E isto ao ponto da energia, o acesso à mesma e a integridade das suas infraestruturas representarem hoje uma questão jurídica de alta relevância, não apenas porquanto o seu fornecimento às populações é garante da efetivação de direitos fundamentais, como constitui matéria geradora de problemas políticos, diplomáticos e até bélicos. Face à dependência mundial em relação à “questão energética”, em especial no mundo ocidental, constatamos que a falência dos sistemas de fornecimento de energia não está longe, do ponto de vista das reações humanas e das carências geradas, do que sucede em situação de catástrofe natural ou de ataque externo. Não é, assim, por acaso que, logo após o restabelecimento da energia elétrica na Península Ibérica, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, imediatamente dirigiu um agradecimento às polícias, bombeiros e controladores de tráfego de Portugal e Espanha. E isto porque as situações de alta excecionalidade, em regra, são geradoras de instabilidade social, agitação e até de alguma irracionalidade que impele as pessoas para um autocentrado “modo de sobrevivência” descrito, no seu registo mais extremo, por José Saramago no seu Ensaio sobre a Cegueira.

É justamente em casos de descontrolo que, em regra, os fundamentos jurídicos de uma comunidade são postos à prova. A instabilidade social e o foco colocado primordialmente nas necessidades individuais constitui terreno fértil para aproveitamentos de natureza vária, desde a proliferação de fake news, a cenários de desordem e caos social, ao aumento da criminalidade, incluindo pilhagens ou outros atos de violência ou vandalismo. No caso, a falta de energia elétrica, numa sociedade dependente da mesma para o seu funcionamento integral, imediatamente impede, por exemplo, a operância de câmaras de videovigilância, dos sistemas de iluminação pública, dos semáforos reguladores do trânsito, dos alarmes de segurança e dos computadores de apoio às entidades incumbidas de garantir o salvamento, o socorro, a ordem pública ou a prevenção criminal.

Nas sociedades atuais, uma quebra como a ocorrida nesta semana coloca em causa a integridade de infraestruturas críticas, sobretudo aquelas que asseguram a vida e a segurança dos cidadãos, designadamente hospitais, estabelecimentos prisionais, serviços de emergência e segurança pública, estruturas de fornecimento de água e telecomunicações e os próprios tribunais. No que a estes diz respeito, um apagão elétrico importa uma redução de atividade a níveis próximos do zero. Com efeito, os tribunais, alocados que estão, em muitos casos, a instalações com graves problemas logísticos e estruturais, não estão, obviamente, dotados de sistemas de alimentação de reserva, pelo que uma falha elétrica é sinónimo automático da impossibilidade de realização de julgamentos, onde os computadores, o sistema informático de apoio e a gravação de depoimentos não está assegurada. Do mesmo modo, a falta de acesso às redes ou a sua instabilidade importa a impossibilidade de prática de atos como emissão de mandados de detenção ou de libertação, apresentação de peças processuais pelas partes, recebimento de queixas dos cidadãos ou cumprimento de despachos judiciais. No caso dos arguidos detidos, poderá estar em causa o cumprimento integral das formalidades legais, importando a elaboração manuscrita de atas, despachos ou declarações e, no limite, a sua libertação caso não seja possível, por força de tais vicissitudes, efetuar uma apresentação atempada (no prazo de 48 horas) ao juiz de instrução.

No caso da Justiça, o problema é, na verdade, profundo e sistémico, tendo o “apagão” colocado a descoberto uma vulnerabilidade do sistema perante casos de crise que, como experienciámos, podem mesmo acontecer. Um sistema de backup que garanta a integridade da informação que está a ser gerada (designadamente despachos, sentenças, notificações, mandados, etc.) afigura-se fundamental, levantando-se agora, uma vez mais, o fantasma do receio de uma futura perda de informação de grandes dimensões, geradora de uma implosão de consequências imprevisíveis, sobretudo quando as ferramentas e sistemas de armazenamento em causa não estão na alçada dos próprios tribunais, mas antes do poder executivo. Em todo o caso, a lei tem sempre o condão de superar as ferramentas de operacionalidade quando estas claudicam.

Em 1952, John Cage surpreendeu o mundo com uma inusitada e revolucionária peça para piano intitulada 4’33’’. Durante quatro minutos e trinta e três segundos, o intérprete não tocava uma única nota, desfocando a atenção da escuta para os sons do ambiente, do público e do espaço, assim demonstrando que o silêncio absoluto não existe, persistindo, mesmo numa circunstância extrema, um lastro de som. Do mesmo modo, sem prejuízo dos perigos, tal como em Cage, mesmo que o sistema de justiça entre em falência e não possa momentaneamente “dizer o direito” por comprometimento da sua operacionalidade, a sociedade continua a reger-se por um lastro de regras comuns que, no meio da calamidade, vêm ao de cima. Isso é quanto basta para que nos relembremos que enquanto existir humanidade o direito não acaba e que a lei persiste mesmo quando a luz se apaga.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Palavras-chave:

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Um estudo publicado no British Journal of Sociology, que analisou 16 países e que teve a participação do ISCTE, concluiu que a elite económica portuguesa é pouco rica e tem falta de mulheres.

“Há 12 homens por cada mulher no universo constituído pela chefia das grandes empresas privadas e públicas em Portugal, pelas fortunas nacionais e pelos cargos de regulação económica e política no País”, lê-se no estudo consultado pela agência Lusa. Esta elite é “muito profissionalizada, com uma pequena proporção de grandes fortunas à escala mundial, configurando uma estrutura de poder económico mais dependente do contexto institucional nacional do que de dinâmicas globais de capital”.

A investigação “Varieties of Economic Elites? Preliminary Results from de World Elite Database”, publicada recentemente na revista científica British Journal of Sociology, analisou 16 países que representam mais de metade do Produto Interno Bruto global e um terço da população mundial.

“As mulheres detentoras de empresas são herdeiras, ou seja, a propriedade resulta de mecanismos de reprodução social e económica”, afirmou a investigadora Maria do Carmo Botelho do Instituto Universitário de Lisboa – Iscte e uma das autoras do estudo, citada numa nota de imprensa.

Segundo a investigação, a “elite portuguesa não é particularmente rica, comparando com outras elites económicas nacionais, e tem pouca presença em grandes palcos mundiais como Davos, o grupo de Bilderberg ou o Fórum Económico Mundial”, constatou Nuno Nunes, investigador do Instituto Universitário de Lisboa e também um dos autores do estudo.

“Num meio dominado a nível mundial por homens de idade avançada, a elite portuguesa é a terceira mais nova, sendo que as poucas mulheres portuguesas são consideravelmente mais novas do que os homens”, acrescentou.

Portugal apresenta-se como o país dos 16 estudados em que menos indivíduos das elites económicas nasceram em meio rural (15%). Quase metade (44%) nasceu em Lisboa, 70% nasceu nos maiores centros urbanos do país e apenas 04% em meios urbanos secundários.

Também é dos países com menos membros das elites económicas nascidos no estrangeiro, apenas 09%. No Reino Unido, por exemplo, 45% da elite económica é estrangeira.

A elite económica portuguesa foi recolhida em 2020 e é constituída por 74 indivíduos. No capítulo das fortunas e da liderança de empresas, as três mulheres que o compõem — Fernanda Amorim, Paula Amorim e Cláudia Azevedo — representam 5,5% deste grupo.

Com poder de regulação, as quatro mulheres presentes – Gabriela Figueiredo Dias, Helena Alves Borges, Margarida Matos Rosa e Margarida Corrêa de Aguiar – pesam 27 por cento.

Nos cargos políticos, em quatro ministérios de âmbito económico – Finanças, Economia, Infraestruturas e Habitação e Trabalho, Solidariedade e Segurança Social – na época (tal como no presente) apenas uma mulher tinha o cargo de ministra: Ana Mendes Godinho (substituída por Maria do Rosário Palma Ramalho).

Com um grande peso da formação executiva e de programas internacionais nos estudos da sua elite económica, Portugal fica a meio da tabela dos países analisados no que respeita aos doutoramentos, com 9 por cento.

Na Alemanha, a percentagem é de 36%, na China e na Polónia de 27% e 21% nos Estados Unidos da América.

Conforme oportunamente assinalámos, a VISÃO completou 32 anos de vida no passado dia 25 de março. Porém, não é errado afirmar-se que, naquela primavera de 1993 em que saiu o primeiro número, a revista já tinha um longo historial… Enigmático? Nem tanto assim. A verdade é que a newsmagazine mais lida em Portugal conta com um antepassado que deixou uma marca profunda na história da imprensa escrita portuguesa – o semanário O Jornal, cujo n.º 1 foi posto à venda no 1.º de Maio de 1975, com a data do dia 2, ou seja, há exatamente 50 anos.

O Jornal, que se caracterizou por ser um órgão independente de esquerda logo nesse período turbulento que foi o Verão Quente de 1975, viria a durar 17 anos e quase sete meses, já que o seu derradeiro número, o 927, saiu para a rua com a data de 27 de novembro de 1992. Mas não foi esta a única característica distintiva da publicação, uma vez que se diferenciou da generalidade do panorama editorial por ser um “jornal de jornalistas”. Com efeito, a empresa que detinha o título – Publicações Projornal, ou simplesmente Projornal – era propriedade de um grupo de profissionais da comunicação social.

Uma reunião em 1979, vendo-se Luís Almeida Martins, Fernando Antunes, Fernando Assis Pacheco, José Pedro Castanheira, Pedro Vieira, Carneiro Jacinto e Afonso Praça 

O impulso inicial foi dado por dois jornalistas que então trabalhavam no Diário de Notícias: José Silva Pinto e Manuel Beça Múrias. Sonhando com a criação de um órgão de informação progressista, de esquerda democrática, mas absolutamente independente de qualquer partido ou força política, começaram por elaborar uma lista de jornalistas que gostariam que fizessem parte desse projeto. E assim vieram à baila os nomes de Joaquim Letria, José Carlos de Vasconcelos, Carlos Cáceres Monteiro, Afonso Praça, Francisco Sarsfield Cabral, Pedro Rafael dos Santos, Hernâni Santos, Fernando Gaspar, Joaquim Lobo, Rui Pimenta, Ribeiro Cardoso, António Carlos Carvalho, José Manuel Barroso e Luís Almeida Martins, autor deste texto evocativo. Surgiu também o nome dos gráficos João Segurado e José Pinto Nogueira, ex-exilados respetivamente em Londres e na Suíça. Chegaram também a ser falados Fernando Antunes e Inácio Ludgero, que, ainda que não tendo entrado na primeira hora como societários, estão indelevelmente associados ao projeto. Por razões de vária ordem, alguns afastar-se-iam: ainda antes de O Jornal sair, Fernando Gaspar e Ribeiro Cardoso; depois António Carlos Carvalho e José Manuel Barroso; mais tarde Rui Pimenta.

Investimento em salários

Só que, é claro, não bastavam os nomes: era preciso financiar a ideia… Não foram bem-sucedidas as tentativas iniciais – desenvolvidas por Manuel Beça Múrias – de encontrar um parceiro comercial, até que foi fechado acordo com uma pequena empresa que publicava a revista Casa Viva e que tinha como sócios António dos Reis (que foi diretor da revista Flama), Eduardo Fortunato de Almeida, Diogo da Fonseca e Maria Fernanda Dinis. Foi então fundada, como uma sociedade por quotas, a Projornal. O capital era de 2170 contos, detendo os 15 jornalistas societários, em conjunto, 60%, e a empresa da Casa Viva os restantes 40 por cento. Desde o início, houve o cuidado de ter um muito bom centro de documentação, dirigido por Maria João Múrias.

Lançamento da VISÃO Pierre Lamunière, José Silva Pinto, Carlos Cáceres Monteiro (primeiro diretor da revista) e Mário Soares, na festa da Avenida da Liberdade, em março de 1993

O investimento dos jornalistas foi feito em trabalho, para o que prescindiram de receber os salários correspondentes a três meses. Quem escreve estas linhas continuou a trabalhar da parte da manhã no diário A Capital, transferindo-se à tarde para as instalações, ainda provisórias, de O Jornal, na Avenida Sidónio Pais, junto ao Parque Eduardo VII, enquanto decorriam as obras de recuperação de um rés do chão da Avenida da Liberdade (o n.º 232 da principal artéria lisboeta) onde a Projornal se manteve por largos anos e onde viria ainda a nascer a VISÃO.

A parceria com a Casa Viva manter-se-ia até 1982, ano em que os jornalistas adquiriram a quota da sócia e passaram a deter integralmente a Projornal. Por essa altura passaram a integrar o grupo os jornalistas Silva Costa e Fernando Assis Pacheco, bem como os gestores Henrique Segurado Pavão (já anteriormente ligado, mas informalmente) e António Gomes da Costa.

O ‘jornal do Letria’

Joaquim Letria, oriundo do Diário de Lisboa, mas que estivera uns anos, até ao 25 de Abril, na secção portuguesa da BBC, em Londres, era na altura uma popularíssima estrela televisiva, pivot de noticiários e apresentador de talk-shows. Não admira, pois, que tenha sido na primeira hora escolhido pelos seus pares para ocupar o cargo de diretor de O Jornal. Por isso, era frequente ouvir-se chamar ao semanário “o jornal do Letria”. Exerceu essas funções até finais de 1977, seguindo-se-lhe José Carlos de Vasconcelos (ao mesmo tempo eleito diretor editorial do grupo), que deixou o cargo quando, em 1985, entrou fugazmente para a política nas fileiras do Partido Renovador Democrático, dito “eanista”. O terceiro diretor foi José Silva Pinto, coadjuvado pelos três diretores-adjuntos Manuel Beça Múrias, Carlos Cáceres Monteiro e Pedro Rafael dos Santos.

Há 50 anos, a televisão era a preto-e-branco e o mundo era, pode dizer-se, todo ele mais cinzento. Havia então pouquíssimas mulheres nas redações, não admirando assim que os jornalistas societários fossem todos homens. Mas tudo tem o seu fim e um dia entrou para O Jornal Lurdes Feio, então uma jovem que trabalhara antes em agências noticiosas e que também era atriz de teatro de revista na companhia do Adóque (um barracão do Martim Moniz que teve os seus dias contados). Seguir-se-iam, n’O Jornal, muitas outras jornalistas mulheres, com destaque para Edite Soeiro, Emília Caetano, Clara Pinto Correia, Ângela Caires, Fernanda Mestrinho, Paula Serra, Cláudia Lobo, Ana Sá Lopes, Isabel Oneto, Lina Pacheco Pereira, Ana Pereira da Silva, Isabel Fragoso, Olga Lobo e um longo etc.  

O primeiro e o último O número 1 de O Jornal, datado de 2 de maio de 1975, e o 927, de 27 de novembro de 1992

Como “filhas” ou “irmãs mais novas” de O Jornal foram lançadas outras publicações, com destaque para o ainda hoje existente quinzenário JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (sempre dirigido, desde 1981, por José Carlos de Vasconcelos), o semanário de espetáculos e tempos livres Se7e (lançado em 1978), a revista mensal História (dirigida nessa fase, entre 1978 e 1993, por Luís Almeida Martins) e O Jornal da Educação, à frente do qual estava Afonso Praça. São ainda de referir o título humorístico O Bisnau e a newsletter Correio Económico.

Paralelamente à Projornal, e para efeitos de composição e paginação (lembre-se que, à época, ainda não eram usados computadores) foi criada a Intergráfica, uma empresa constituída com os gráficos Luís Araújo e Luís Desorta. “Vou à gráfica”, diziam os jornalistas quando era caso disso.

Esquerdas em confronto

A saída do primeiro número de O Jornal foi atribulada, pois o papel, adquirido à empresa que fazia as listas telefónicas, tinha tendência para partir-se na rotativa da Lisgráfica, em Queluz de Baixo, o que originou uma longa noitada e um considerável atraso. Os fechos das edições a altas horas da madrugada eram, de qualquer modo, uma constante, e antes da criação da Intergráfica eram vividos nas instalações da Renascença Gráfica, proprietária do Diário de Lisboa, o que implicava ceias, tarde e a más horas, em tascas do Bairro Alto…

Esse número inaugural de O Jornal titulava em manchete que a Intersindical já era confederação e noticiava ainda na 1ª página a presença dos capitães de Abril na festa de Maio e a existência de combates e recolher obrigatório nas ruas de Luanda. Estranha, para os padrões de hoje, é a quase inexistência de alusão às eleições para a Assembleia Constituinte, efetuadas uma semana antes e que tinham sido o primeiro ato eleitoral realizado em completa liberdade em toda a História portuguesa: a única referência (embora houvesse matérias sobre elas nas págs. 2 a 6) é uma discretíssima chamada para um texto de análise dos resultados assinado, nas páginas interiores, por Rosa Coutinho, conhecido pelo epíteto de “o almirante vermelho”. A explicação para esta aparente lacuna é, afinal, simples: em primeiro lugar, das eleições constitucionais não sairia qualquer governo; em segundo, elas realizaram-se de certo modo, como se diz em linguagem futebolística, contra a corrente do jogo, numa altura em que o poder era “revolucionário” e em que quem o detinha falava de “eleições burguesas” e de “democracia burguesa”. O Jornal, voz de uma esquerda independente, teve de se equilibrar sempre no fio da navalha, com redobrados cuidados para não se ferir irremediavelmente.

Foi, aliás, nesse mesmo Primeiro de Maio de 1975, em que saiu O Jornal, que se consumou na rua a divisão da esquerda, bem visível no choque entre a corrente “gonçalvista” (do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, próximo do PCP) e a socialista, ou soarista (do nome do secretário-geral do PS, Mário Soares), durante as comemorações do Dia do Trabalhador no Estádio 1.º de Maio (ex-Estádio 28 de Maio), no bairro lisboeta de Alvalade.

Um projeto cultural

Talvez algum leitor mais veterano se recorde ainda de um anúncio de O Jornal que passou na RTP (então a única estação de TV existente), logo em 1975. “Não guardamos notícias na gaveta”, dizia o slogan, vendo-se gavetas de secretárias a serem abertas e passarinhos a saírem de lá em voo para a liberdade. A ideia orientadora que sempre presidiu a O Jornal foi, de facto, a de liberdade com responsabilidade social.

Os grandes nomes da Cultura estiveram desde a primeira hora ligados ao projeto. Logo o n.º 1 inseria um poster de João Abel Manta e reflexões do escritor José Gomes Ferreira sobre o momento político e as eleições. Desde cedo, O Jornal contou com o contributo de nomes da esquerda democrática ou independente, como Eduardo Lourenço, Salgado Zenha, José Cardoso Pires, Fernando Namora, Eduardo Prado Coelho, Luís de Sttau Monteiro, César Oliveira, Nuno Brederode Santos, João Bénard da Costa, Nuno Portas ou João Cravinho (entre muitos outros) – o que não excluía que as suas páginas estivessem também abertas quer a escritos de Octávio Pato, Carlos Carvalhas ou Urbano Tavares Rodrigues, dirigentes ou militantes do PCP, quer a dirigentes do centro e da direita democrática, como Marcelo Rebelo de Sousa, do PPD/PSD, atual Presidente da República, ou Adelino Amaro da Costa, fundador e “nº 2” do CDS.

Manter esse equilíbrio foi uma especial arte de O Jornal, que, mesmo assim, chegou a receber ameaças de alguns grupos ou elementos da extrema-esquerda.  

Algo misteriosos foram os textos de análise político-militar assinados por Manuel F. Andrade, nome cujas iniciais eram MFA, correspondentes a Movimento das Forças Armadas. Na altura, nunca foi revelada a verdadeira autoria desses textos, no original escritos por Sousa e Castro, “capitão de Abril” e conselheiro da Revolução.

Depois de ter publicado e apoiado o chamado Documento dos Nove (uma tomada de posição de militares de esquerda não ”gonçalvista”, ideologicamente liderados pelo major Ernesto Melo Antunes), O Jornal passou a ser geralmente conotado com uma “terceira via”, que recusava tanto o modelo político da Europa do Leste como a então dita “democracia burguesa”. Uma única vez O Jornal deu indicação de voto explícita aos seus leitores: foi na edição de 5 de dezembro de 1980, dias antes das eleições presidenciais, quando apelou para o voto em Ramalho Eanes, que concorria contra o general Soares Carneiro, apoiado pela AD (Aliança Democrática) de Francisco Sá Carneiro.

Com o tempo O Jornal foi crescendo e a sua redação foi-se reforçando com nomes referenciais do jornalismo, ou jornalistas novos, como Fernando Dacosta, António Mega Ferreira, Daniel Ricardo, Francisco Vale, Rogério Rodrigues, Ferreira Fernandes, Cesário Borga, Pedro Vieira, Rodrigues da Silva, Carneiro Jacinto, José Pedro Castanheira, João Garcia, Henrique Monteiro, Rogério Vidigal, Albertino Antunes, António Duarte, etc.

Primeiras páginas Todos os grandes acontecimentos da vida portuguesa (e não só), entre 1975 e 1992, ficaram refletidos no “rosto” do semanário que se publicava à quinta-feira 

Para a redação do Se7e, inicialmente dirigido por Mário Zambujal (coadjuvado por Acácio Barradas) e onde desempenhavam importante papel António Rolo Duarte e Maria João Rolo Duarte, entraram, entretanto, António Macedo, João Vaz, Viriato Teles, Belino Costa, Cláudia Baptista, Margarida Trincão, etc. Entre muitos outros, foi colaborador permanente de O Jornal, e também do Se7e e do JL o então muito jovem Miguel Esteves Cardoso, nomeadamente assinando crónicas de música. O segundo diretor do semanário de espetáculos foi Pedro Rafael dos Santos, seguindo-se-lhe José Silva Pinto e Luís Almeida Martins (que em 1985 transitaria para o Jornal de Letras, como diretor-adjunto, acumulando com a direção da História). Diretores, depois, seriam ainda Manuel Falcão e João Gobern, e pelo samanário de espetáculos passariam igualmente, entre outros, Rodolfo Iriarte, Oscar Mascarenhas e Pedro Rolo Duarte. No JL, transitando de O Jornal ou com ele acumulando (como José Carlos de Vasconcelos), são de assinalar nomes como Fernando Assis Pacheco, António Mega Ferreira, Clara Ferreira Alves, Rodrigues da Silva, Inês Pedrosa, José Jorge Letria, Maria Leonor Nunes, Maria João Martins e Ricardo Araújo Pereira (que aí começou como jornalista, antes de ser o humorista famoso que todos conhecemos). Na década de 1980, integraram também os quadros da Projornal, juntando-se a João Segurado e José Pinto Nogueira, os gráficos António Martins, Joaquim de Brito, Manuel Vieira e José Manuel da Nóbrega. 

Como é natural, O Jornal foi estabelecendo uma rede de correspondentes em vários pontos do mundo. Por exemplo, Carlos Fino foi correspondente em Moscovo, Manuel Lopes e Juan Frisuelos em Madrid, Bernardo Futscher Pereira (hoje embaixador) em Washington, Alípio de Freitas no Brasil, J. M. Nobre-Correia em Bruxelas, Carlos Martins e Pedro Varanda de Castro em Bona; em Paris, os correspondentes foram Isabel Soares, Jardim Gonçalves, Vergílio de Lemos e Daniel Ribeiro; na Suíça, Luís Esteves; em Maputo, Jorge Ribeiro; na Madeira, Tolentino Nóbrega. O “representante” no Porto foi sempre (a certa altura com Rodrigues Alves e Pereira Pinto) Germano Silva, ainda hoje decano de jornalistas e mestre de História da Cidade Invicta. 

O Jornal foi também chancela de uma editora de livros, que lançou mais de cem títulos de autores como José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Álvaro Guerra, Mário Dionísio, Maria Velho da Costa, Sophia de Mello Breyner, Gabriel García Márquez, Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Maria Judite de Carvalho, Teolinda Gersão, Nuno Bragança. José Fernandes Fafe, Manuel Alegre, António Victorino d’Almeida, Hélia Correia, Américo Guerreiro de Sousa, Jorge Listopad, Maria Alberta Menéres e Carlos Correia.

A transformação em revista

Todas as histórias têm princípio, meio e fim, e O Jornal chegaria também ao seu termo, antes de se transformar na VISÃO. Os médias exigiam cada vez maiores investimentos, insensivelmente Portugal fora virando à direita, e a concorrência de outros títulos ‒ com destaque para O Independente – ia-se notando, sentindo-se a necessidade de mais recursos e de sangue novo. Um dia, em 1992, Cáceres Monteiro encontrou no diário madrileno El País uma pequena notícia que dava conta da entrada em Espanha do grupo de imprensa suíço francófono Edipresse, sediado em Lausanne. A mesma notícia dava a entender que a empresa poderia vir a interessar-se por Portugal.

Silva Pinto fez um telefonema, deslocou-se à Suíça e ficou marcada uma reunião entre a administração da Edipresse e da Projornal, que entretanto para isso se transformara em sociedade anónima, cuja administração integrava, com Silva Costa, sendo presidente o também diretor editorial José Carlos de Vasconcelos. As conversações com a Edipresse, representada pelo seu CEO (e representante da família proprietária da empresa), Pierre Lamunière, e por Marcel Pasche, englobaram diversos aspetos e conduziram à aquisição pelos suíços de 68% da Projornal. Posteriormente, e porque os jornalistas societários não tinham condicões de acompanhar os sucessivos e substanciais aumentos de capital, a Edipresse adquiriu os restantes 32% e tornou-se dona da empresa. Sem, contudo, pôr em causa a total liberdade e independência editorial dos jornalistas, que foi uma das condições do acordo. Depois, além de Lamunière e Pasche, Jean-Pierre Mérot, André Jaunin e André Stumpges (grafista editor) foram nessa fase os interlocutores dos fundadores de O Jornal. A comunicação era feita em francês, uma língua que então toda a gente medianamente culta falava, melhor ou pior.

Como “filhas” ou “irmãs mais novas” de O Jornal foram lançadas outras publicações, com destaque para o ainda hoje existente Jornal de Letras

A certa altura, após o debate de outras hipóteses, houve a decisão de transformar O Jornal numa revista, nessa altura um formato inovador em Portugal. O último número de O Jornal – o já aludido 927 – saiu, assim, em 27 de novembro de 1992. Após cinco meses de hiato preparatório, sucedeu-lhe a VISÃO, cujo primeiro número “oficial”, que se seguiu a vários números experimentais, foi posto à venda, como atrás se disse, em 25 de março de 1993, com um lançamento assinalado com uma festa numa tenda gigante, em plena Avenida da Liberdade, em frente da sede da Projornal, acontecimento esse que contou com a presença das mais destacadas figuras do País, incluindo Mário Soares, então Presidente da República.

Muitos redatores de O Jornal transitaram para a VISÃO, mantendo-se ainda hoje no posto Filipe Luís (subdiretor) e José Plácido Júnior (grande repórter), ambos ainda jovens quando os suíços da Edipresse entraram em cena. Contrariando a galopada dos anos, dois fundadores da Projornal continuam ativamente ligados à odisseia: José Carlos de Vasconcelos, primeiro diretor editorial do grupo, incluindo a VISÃO, agora seu conselheiro editorial, e diretor do Jornal de Letras, e Luís Almeida Martins (que escreve estas linhas), conselheiro editorial e ex-editor da VISÃO História.

Poderíamos concluir que foi uma história bonita, mas o tempo verbal, nessa frase, estaria errado. Porque a história não terminou: continua, num mundo comunicacional cada vez mais diferente do de há meio século, marcado que está agora pelo digital e pelas redes sociais. A adaptação aos novos tempos, incluindo as edições online, é hoje a palavra de ordem, tendo como motivação e exemplo o velho sonho de um grupo de jornalistas de esquerda democrática independente, no vibrante, conturbado e já distante ano de 1975.

Lembro-me de ser pequeno e de me consolar com cenários de catástrofe. A infância, essa forma de delírio sagrado, só se acalma no pavor absoluto. São duas inevitabilidades que andam de mão dada — Infância e Apocalipse. Quem tem filhos sabe: há noites em que uma criança só dorme depois de todos os dinossauros do mundo terem ressuscitado. Mas não era a destruição que me enchia as medidas. Não tenho em mim o impulso assassino: não punha cigarros na boca de sapos, nem atava latas à cauda do acidental felino doméstico que calhava passar.

Fechava os olhos e imaginava Santo Tirso submersa — uma Atlântida periférica. A água a subir, a subir, até bater no 7.º andar onde morávamos naquele tempo, e então mergulhava; como num regresso. Uma espécie de baptismo invertido. E, nesse sonho, rompia-se finalmente a má educação do mundo e desatavam-se as dissemelhanças entre o Céu e a Terra.


Por isso, quando, nesta segunda-feira, o mais velho irrompeu pela sala, em êxtase, anunciando — “É o século XIX! É o século XIX!” — eu soube. Soube exactamente de onde vinha aquele júbilo. Mas, no Francisco, essa pulsão ainda está fresca, inteira, sem culpa nem cálculo — sempre à beira de acontecer. Comigo, foi preciso um cenário real, a falência súbita do mundo, para confirmar o que sempre soubera: que há beleza no fim. Que todo o caos tem a sua gramática. Que há consolo quando tudo se apaga.

Peço, leitor, que me desculpe. Que me desculpe se trabalha com queijos ou chouriços, que não me leve a mal se tinha um voo para apanhar, ou se ficou preso no metropolitano. A minha alegria foi, talvez, uma indelicadeza. É que por umas raríssimas horas houve um alinhamento. O mundo assim desligado parecia ter tempo. E nessa suspensão milagrosa, voltei a escrever como escrevia no 12.º ano. De caderno. De esferográfica. Voltei a ler em voz alta. Para pessoas que me ouviam. Num acto de gentileza.


Quando acontece uma coisa destas pensamos logo no Apocalipse. Somos viciados no fim. Por duas razões. A primeira: não se fala de outra coisa. Tudo é ameaça. O russo, o plástico, o cigarro, o islâmico, o clima, o chip, o algoritmo, o código-fonte. Tudo nos quer matar. O mundo está por um fio e basta um estalo. A segunda razão vem da primeira e é simples: aderimos a estas teses — ainda que falsas, ainda que verdadeiras, ainda que assim-assim —porque há em nós um desejo de fim. Que é um desejo de princípio.

Os alemães têm destas coisas. Conseguem explicar até o que ainda não sabíamos que precisava de explicação. O Heidegger, por exemplo, no seu ensaio sobre tecnologia diz-nos que esta não é apenas um conjunto de ferramentas úteis. É um modo de ver. Um modo de não ver. Um “enquadramento”. E quando “enquadramos” o mundo assim, deixamos de o encontrar nos seus próprios termos. Mary Harrington, numa
daquelas condensações inspiradas chama-lhe “uma espécie de violência epistemológica por omissão”. Porque não há destruição explícita — apenas um apagamento progressivo daquilo que não serve à lógica técnica. Um rio deixa de ser um lugar com histórias, nomes, perigos, mitos. Passa a ser uma reserva hídrica com caudal médio e aproveitamento agrícola. Um velho deixa de ser um ancião com memória e presença. Passa a ser um problema de saúde pública com grau de dependência. E em vez de um lugar de espanto, ou de trabalho, ou de infância, um campo torna-se na totalidade dos hectares disponíveis para cultivo ou construção.

Ora, o apagão substituiu esse enquadramento por um silêncio novo. Por umas horas, o mundo foi-nos devolvido. Os telefones morreram com os seus ecrãs. As luzes renderam-se. O espaço digital implodiu como um balão furado. E do outro lado havia gente viva. A olhar para o céu como se ele tivesse voltado a ser um facto. As filas de trânsito pararam — não por excesso, mas por falta. De tudo. Semáforos, mapas, ordens. Aqui no bairro havia famílias a jogar a bola. Talvez seja isso que as crianças procuram quando sonham com dilúvios ou viagens no tempo: o mundo como ele é.

Foi preciso uma falha no sistema para que o sistema voltasse a funcionar. Havia nervosismo, mas era uma cordialidade, como se a falta de electricidade tivesse ligado alguma coisa que estava desligada.

Ao perder as máquinas, o mundo visível encolheu. Mas o mundo real cresceu. Os rostos alongaram-se, o tempo dilatou. Foi como se tudo estivesse a respirar. Como se o fim dos tempos tivesse decidido anunciar-se com bons modos. Fiquei com a impressão — não leve — de que esse dia, quando chegar, não será com estrondo. Não virá com trombetas nem cataclismos. Não haverá gritaria. Haverá alívio. E o espanto que só as coisas antigas são capazes de provocar.

Os cavaleiros do Apocalipse não chegarão a galope, a cuspir fogo. Sairão da bruma com a calma e a correcção de uma demonstração de dressage. De cabeça levantada e rédea solta. Com a elegância celeste de um GNR patrulhando as avenidas.

Será um dia como foi segunda-feira. E nós, que peregrinamos às cegas pelo desterro do mundo, seremos, quem sabe, conduzidos ao lugar onde pertencemos — sem fome nem mapa, aguardado desde o princípio. Um lugar submerso. Um lugar prometido.


Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Vamos lá para a cozinha, vou preparar-vos dois petiscos”, solta Joaquim Saragga Leal depois de uma breve pausa na esplanada, para um café. A manhã na Taberna Os Papagaios começou com a habitual ida ao Mercado de Arroios, vizinho da frente, a uma dúzia de passos, de onde trouxe vários tipos de couve, tomate, romãs, limões (ficaram a faltar as amêijoas, há uma semana sem virem).

De avental de ganga e pano ao ombro, Joaquim prepara duas frigideiras bem quentes, uma para as molejas de borrego temperadas apenas com limão, pimenta, sal e alho (€10). “Quando vão para a frigideira têm de ganir logo”, diz enquanto testa o lume bem alto. São salteadas em manteiga, alho, vinho branco e adornadas com coentros, hortelã e pickle de cebola roxa. Para a outra sertã vai o fígado de tamboril (€7): “Típico da cozinha de tasca, em que só é preciso simplicidade, nem sal leva. Cinco minutos de cada lado e depois caldo de legumes até o molho engrossar.” Comido com pão da véspera torrado faz lembrar um guloso recheio de sapateira.

Joaquim Saragga Leal transformou a Taberna Os Papagaios numa sala de jantar acolhedora, com petiscos simples. Foto: Luís Barra

Lado a lado com Joaquim, a cozinheira Nori vai dando vazão aos pedidos dos almoços: açorda de ovas para acompanhar o bacalhau confitado (€16), bochecha de porco com puré de castanha (€15), rabo de boi com pera-rocha caramelizada e amêndoa amarga (€15) e migas soltas das Beiras, feitas com broa de milho, feijão e couve-portuguesa (€4,50).

Há uma década, quando inaugurou a Taberna Sal Grosso, em Santa Apolónia, Joaquim Saragga Leal, 47 anos, não tentava criar nenhum conceito novo ou lançar uma tendência, a verdade é que o fez e, desde então, muitos o têm seguido, nascendo assim uma nova geração de tasqueiros. “Para mim, quem tentou fazer as tascas modernas foi o Vítor Sobral, com a Tasca da Esquina, aberta em 2009”, declara. Joaquim não aprova de todo o conceito de desconstruir uma receita. Pelo contrário, incentiva os jovens cozinheiros a aprenderem as receitas originais de trás para a frente, a fazerem-nas o mais possível da forma tradicional. Só assim faz sentido.

A comida de panela sobrevive

A maior parte das novas tascas, muitas recuperadas por jovens depois da reforma dos donos originais, está focada em ementas que ofereçam pratos para partilhar, sobretudo de sabores tradicionais portugueses. Comida mais económica – aliás, a definição de tasca ou de taberna no dicionário como “estabelecimento modesto” é, sem dúvida, para manter –, até porque muita dela são matérias-primas esquecidas, outrora desperdício, feita com criatividade q.b. e muita simplicidade. Por exemplo, quando Joaquim comprava sarrajões davam-lhe cação, e quando levava lagartos de porco recebia também rabo de boi.

Assim como Joaquim conhece a história original d’Os Papagaios, tasca aberta em 1952, com uma ave fala-barato à porta a insultar os clientes, e onde se comia uma boa sanduíche de carne assada, Diogo Lopes, um dos sócios do Cerqueira, teve o privilégio de ainda ser atendido por quem lhe passou o negócio com 40 anos.

No Cerqueira, Ângelo Lellis e Aylton Viana, chefes brasileiros, e Diogo Lopes (à direita) querem recuperar a comida de panela. Foto: Luís Barra

Numa calçada íngreme da antiga freguesia da Pena, entre o Campo dos Mártires da Pátria e o Martim Moniz, o casal Cerqueira, com o senhor Avelino na sala e Ana Maria na cozinha, fidelizou a clientela durante décadas. Além de uma moldura com a fotografia do casal pendurada atrás do balcão, os cozinheiros do Cerqueira guardam e usam a receita do doce da casa (€5) deixada por Ana Maria, a sobremesa que toda a gente sabe ser feita de três camadas (leite condensado, bolacha e chantilly) e mesmo assim pergunta o que é.

Agora, os três sócios principais – a Diogo na sala, junta-se Rui Duarte e o brasileiro de Minas Gerais na cozinha Ângelo Lellis – querem fazer jus à fama da casa. “Queremos voltar à comida de panela, mais trabalhada, houve uma simplificação das receitas”, explica Diogo.

A carta do Cerqueira exibe a cumplicidade existente entre gastronomia portuguesa e brasileira. Foto: Luís Barra

Desde junho do ano passado, a carta do Cerqueira exibe a cumplicidade existente entre gastronomia portuguesa e brasileira, com forte influência da comida mineira. Por exemplo: pastel de moela (€3,50), croquete de língua (€3,50), língua à vinagrete (€6), moela de pato (€8,50), rabo de boi com puré de aipo (€19), aba estufada com batata e kale (€16), bacalhau à minhota (€17), costeleta de porco preto com canjica cremosa e farofa com bacon (€19). “Queremos ser um restaurante local”, define Diogo, em que cada pessoa gaste em média 20 euros.

O valor das histórias

Numa outra zona de Lisboa, na Calçada do Combro, linha que divide o Bairro Alto de Santa Catarina, Márcio Duarte abriu “uma tasca dos dias de hoje”. Quando pegou no Zebras do Combro, deu uma maquilhagem na sala: manteve os azulejos azuis, pôs um espelho no teto “para criar a ilusão de um espaço maior”, renovou os nichos, agora com peças de artesanato. E mudou-lhe o nome, acrescentando “desde 1983”. “Quis manter a alma, que graça tem um restaurante igual aos que há em todo o mundo?”, interroga.

“Quis manter a alma do Zebras do Combro, que graça tem um restaurante igual aos que há em todo o mundo”, diz Márcio Duarte, da Tasca Zebras. Foto: Luís Barra

Na Tasca Zebras, há música ambiente (hip-hop americano dos anos 80, êxitos dos brasileiros Terno ou de Pixinguinha, por exemplo) e o caldo-verde, que leva uma base de clorofila, chega com uma fatia de broa tostada, um fio de azeite e pedrinhas de sal. “Investigo o que se faz nas tascas e como fazer melhor”, diz Márcio, 44 anos, metade deles a viver em Espanha, a trabalhar para a Fox e a Disney. No final de 2009, voltou para Lisboa e abriu o bar Machimbombo, na mesma rua.

A ementa, “feita com carinho” pela equipa de quatro cozinheiros liderada por Anabela Pires, que já aqui trabalhava, tem sobretudo pratos de peixe. Sem pausas entre refeições, servem pataniscas (três exemplares generosos, €9), jaquinzinhos com arroz de tomate e salada, bacalhau à minhota, um prego de atum, 150 gramas de peixe braseado, com maionese japonesa e batatas de duas frituras (€18) e uma mousse de chocolate densa (€6), numa taça em inox de pé alto, com flor de sal fumada.

O prego de atum braseado, com maionese japonesa e batatas de duas frituras da Tasca Zebras. Foto: Luís Barra

Durante a semana, das 12 às 17 horas, tem um prato do dia (diferente dos que estão na ementa, €13) e um menu do dia (€15) que inclui sopa, prato e café Flor da Selva, torrefação familiar no bairro da Madragoa. Os vinhos são de pequenos produtores portugueses, que não se encontram nos supermercados.

Márcio Duarte acredita que a Tasca Zebras “deu um novo motivo para as pessoas virem até a esta zona da cidade”. Frederico Frank, da vizinha Taberna Meia Porta, a cerca de 200 metros, tem a mesma opinião. “Durante o dia, são mais estrangeiros, mas ao jantar temos muitos portugueses.”

Em 2024, conta Frederico, “uma mão divina” levou-o a passar pelo Floresta do Alcaide, perto do Miradouro de Santa Catarina. Ao fim de 40 anos, o casal Manuel e Prazeres tinha decidido ir viver para o Alentejo, e o chefe brasileiro encontrou a morada perfeita para o restaurante que queria abrir com o sócio Rodrigo Braga. “É difícil criar um ponto novo em Lisboa”, diz, “é mais fácil pegar no que existe, quando tem uma história, o coração bate mais. É como dono novo com carro antigo”, brinca. Rodrigo, carioca, acrescenta: “No Rio de Janeiro, há também uma nova geração a pegar em velhos botecos e a apostar em comida simples, bem feita. Preferem trabalhar sem a pressão e os gastos que implica abrir um restaurante novo.”

O Floresta do Alcaide é desde há um ano a Taberna Meia Porta, onde tudo é servido em travessas de alumínio para partilhar. Foto: Luís Barra

Do Floresta do Alcaide, mantiveram os azulejos, rasparam as camadas de tinta do teto e puseram mesas de tampo de mármore. O novo nome surgiu de uma circunstância: Taberna Meia Porta, uma vez que só abre uma das duas portas. Aqui, tudo é servido em travessas de alumínio para partilhar: croquetes de sapateira (€9, 3 unidades), ostras de vinagrete, chalota e toranja (€11, 4 unidades), moelas (€6), barriga de porco assada com grão-de-bico (€16), acompanhados por vinhos portugueses (a copo) e rematado por um arroz-doce gelado (€6). A média da refeição, calcula Fred, ronda os 25 a 30 euros. Uma novidade são os digestivos, da bagaceira à aguardente CR&F, do medronho ao moscatel, “para se conhecer as coisas boas de Portugal”.

Confidências ao balcão

É preciso valorizar como ao longo da história as tascas têm tido um papel social na comunidade, seja pelas refeições mais acessíveis para a classe trabalhadora braçal, com tantos que precisam de se alimentar todos os dias fora de casa, seja como ponto de encontro da vizinhança. “Associo o conceito de bairrismo à tasca, o lugar onde as pessoas se conhecem. Também nós estamos a formar a nossa comunidade. É interessante ver que as pessoas não demoram a voltar, depois de virem a primeira vez”, congratula-se Diogo Lopes do Cerqueira.

Joaquim Saragga Leal tem memórias da sua juventude, de grandes convívios com várias gerações à mesa e ao balcão do Bar dos 300, na Rua Marques Leal Pancada, em Cascais. “A tasca serve para alimentar os trabalhadores, mas também alimentar a alma de quem lá vai. Ir à tasca mantém o equilíbrio da vida, os tasqueiros tanto metem as pessoas na ordem como as puxam para cima. Nunca ouviu? Porteiras, cabeleireiros e taberneiros sabem mais do que os padres”, brinca.

Em agosto, fará dois anos de casa aberta, em que as regras são ditadas por Joaquim. Na Taberna Os Papagaios, escusam de lhe perguntar se há bitoque ou se tem ketchup e se pode baixar a música. Esta é uma sala de jantar acolhedora, para ir sem pressas, sem wi-fi e sem lugar marcado, pois se ficar na mesa comunitária, o mais provável é o anfitrião promover a conversa entre todos, incluindo os estrangeiros a morar por perto, em Arroios, nos Anjos e na Graça. 

Pedro Ferreira abriu há cinco meses a Tasca do Pias num antigo café-restaurante no Campo de Santa Clara. Foto: Luís Barra

Foi num antigo café-restaurante a caminho da Feira da Ladra, no Campo de Santa Clara, em Lisboa, que Pedro Ferreira, 33 anos, abriu há cinco meses a Tasca do Pias (a sua alcunha desde miúdo). Formado na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, depois de ter trabalhado como cozinheiro desde os 20 anos em vários hotéis e restaurantes, assim que teve a oportunidade de investir num espaço próprio arriscou. Com Bernardo Menezes como braço-direito, o objetivo é recuperar a tradição das antigas tascas portuguesas, tendo como referências a Casa Cid no Cais do Sodré, nas traseiras do Mercado da Ribeira, uma verdadeira casa de pasto aberta em 1913 por um galego de Ourense que funcionou até 2020, e a Casa Brasil, em frente ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, dois exemplos de ementas simples feitas de comida boa, a preço mais acessível, servida num ambiente mais familiar.

Os 22 lugares da Tasca do Pias, incluindo no balcão, esperam por quem queira lá ir comer peixinhos da horta, petinga frita com arroz de tomate ou arroz de grelos, gambas fritas, salada de polvo, moelas, pica-pau, tábua de presunto ou de queijos e o clássico prego, um bife do pojadouro frito em azeite e alho, dentro da bolinha de pão de mistura, que pode levar queijo da ilha ou presunto ou ambos.

Na parede da Tasca do Pias, os desenhos de Filipe Nazaré, artista e tatuador, representam a juventude e a sabedoria, a união de gerações, num rosto de uma criança e de um velho com cachimbo e a frase: “Ao teu amigo e ao teu vizinho, o teu melhor pão e o melhor vinho.”

No meio está a virtude

Leonor Godinho não gosta muito da ideia de que pertence a um novo grupo de tascas. Para ela, a Vida de Tasca, numa rua sem saída, entre as avenidas Estados Unidos da América e de Roma, “é um restaurante onde se vai todos os dias, com comida portuguesa feita sem invenções ou twists, a preços acessíveis”.

Leonor Godinho diz que a Vida de Tasca “é um restaurante onde se vai todos os dias, com comida portuguesa feita sem invenções, a preços acessíveis”. Foto: Luís Barra

A Vida de Tasca funciona no lugar da Casa Alberto, que ali existiu durante 44 anos. Há um ano e meio, quando percebeu que o restaurante estava à venda, comprou-o sem hesitar. “Almoçava lá várias vezes”, conta. “Na altura, estava à procura de um lugar para abrir uma casa de sanduíches e pastrami caseiro, mas a Casa Alberto não era o lugar certo”. Decidiu preservá-la tal como ela era, e não fazer uma coisa diferente. “Num bairro residencial como este, era o que fazia sentido”, defende.

Na decoração, a intervenção foi mínima e mantiveram-se as toalhas de papel, a louça e a cozinha do património tasqueiro português. Há sempre peixe e secretos grelhados, um bitoque e pratos do dia. À terça-feira, fazem panadinhos com salada russa, à quinta-feira, servem rins fritos e, ao sábado, filetes de polvo com açorda de coentros (uma refeição ronda os €15-€20).

N’A Vida de Tasca, há sempre peixe e secretos grelhados, um bitoque e pratos do dia. Foto: Luís Barra

Hoje, são oito pessoas na equipa e, ao almoço, chegam a servir 60 refeições. “Não estava preparada para o serviço”, confessa. “É tudo muito rápido, em ritmo acelerado. As pessoas não têm muito tempo para almoçar.” A experiência, considera, deu-lhe “ótimas bases” para fazer outras coisas (Leonor trabalhou no restaurante Feitoria (1 Estrela Michelin), no Altis Belém, ao lado de João Rodrigues, esteve na Musa e é responsável pela ementa do bar Vago). “Parece comida fácil, mas tem imenso trabalho por detrás. Tento fazer melhor com melhores produtos. Um arroz bem feito tem de ter na base um refogado com cebola picada à mão e não na 1, 2, 3. Tal como usar um caldo de peixe em vez de um caldo Knorr”, compara. “Parece que não tem ciência, mas tem.”

Com O Velho Eurico em obras desde dezembro passado, Zé Paulo Rocha está ansioso por reabrir o restaurante-sensação na Mouraria, voltar a pôr música e servir comida. O jovem cozinheiro, que, em 2019, transformou o Eurico Casa de Pasto numa taberna de alma jovem e irreverente, diz-nos que anda a testar a nova ementa há um mês e meio. E nem a temporada que passaram na Crack Kids, no Cais do Sodré, deu para “matar o bichinho”.

“Vamos “tasquificar” ainda mais O Velho Eurico. Seja na decoração seja na oferta, indo buscar ao receituário português outros pratos antigos, servidos em doses para partilhar, para as pessoas poderem provar mais coisas.” As novidades ficam em segredo, já se sabe, mas Zé Paulo assegura que o arroz de pato, crocante por cima e cremoso por dentro, o bacalhau à Brás ou os croquetes de borrego vão manter-se na ementa que vai rodando.

Zé Paulo Rocha “Vamos “tasquificar” ainda mais O Velho Eurico. Seja na decoração seja na oferta, indo buscar ao receituário português outros pratos antigos”. O restaurante na Mouraria reabre em maio. Foto: Luís Barra

A nova cozinha do restaurante vai permitir, explica, “fazer um serviço mais organizado e controlado” pela atual equipa de 12 cozinheiros (têm uma cozinha de produção, por cima do restaurante; em baixo, é feita a finalização). “Aqui, todos cozinham e todos fazem serviço de sala. E todos vão mudando de posto (estação, como lhe chamam na gíria). Outra novidade, desvenda, é uma janela que vai estar aberta para servir snacks, cocktails e cerveja a quem passa ou a quem está à espera da sua mesa (n’O Velho Eurico tem mesmo de reservar).

Zé Paulo Rocha diz que vê O Velho Eurico entre os dois movimentos distintos que se têm feito sentir na cidade. Os que pegam em antigos restaurantes tradicionais e lhes dão continuidade, como é o caso de Leonor Godinho, n’A Vida de Tasca, e as chamadas neotascas. “Quero fazer comida portuguesa bem feita, desconstrução de pratos só se fizer sentido. Existe liberdade na nossa cozinha, muitas vezes recorremos a outras técnicas para fazer sobressair os ingredientes portugueses.” Foi o caso da “sopa de cozido”, uns tortellinis recheados de carnes servido num caldo, inspirado no cozido de domingo, que serviram na Crack Kids.

Os vizinhos, conta Zé Paulo, dizem-lhe que sentem falta do movimento que o restaurante traz ao Largo de São Cristóvão. A julgar pelas reservas que já tiveram de adiar sucessivamente, devido aos atrasos nas obras, diríamos que os lisboetas também já têm saudades d’O Velho Eurico. É fazer figas e esperar por maio.

Tascas e cantinas

Cerqueira > Cç. de Sant’Ana, 49, Lisboa > T. 21 887 1369 > ter-sáb 12h30-15h, 18h30-22h, dom 13h-17h

O Velho Eurico > Lg. de São Cristóvão, 3, Lisboa > T. 21 886 1815 > Reabre em maio: ter-sáb 12h30-15h, 20h-22h30

Tasca Zebras > Cç. do Combro, 51, Lisboa > T. 21 584 3731 > seg-ter, qui-dom 12h-24h

Vida de Tasca > R. Moniz Barreto, 7, Lisboa > T. 21 849 0855 > ter-sáb 12h30-15h, 19h30-22h30

Taberna Meia Porta > Tv. do Alcaide, 22A, Lisboa > T. 21 011 4896 > ter-sáb 12h30-15h, 19h-23h

Tasca do Pias > R. do Mirante, 49A, Lisboa > T. 21 813 0605 > ter, sáb 12h-15h, 19h-24h, qua-sex 16h-24

Taberna Os Papagaios > R. Lucinda Simões, 13, Lisboa > seg-dom 12h30-23h

Vi-a a primeira vez no meio de outras fotografias do José Sena Goulão. As costas nuas com a pele escrita a negro e em maiúsculas. “Atenção, atentado ao pudor”. Nota-se-lhe o balanço da caminhada no corpo, nas nádegas expostas, enquanto desce a Avenida da Liberdade, com cravo numa mão e um saco preto de pano ao ombro. Parei na imagem, por um instante. Mas só depois a vi replicada, em muitas publicações nas redes sociais, quase todas indignadas. É uma mulher jovem, de seios nus, pintados com cravos e pelos púbicos a aparecer por entre a lingerie de rendas vermelhas e racha entre as pernas. Matéria suficientemente inflamável para a fazer arder na fogueira dos que gostam de fazer trocadilhos entre liberdade e libertinagem.

Digo que parei na imagem. E sinto que tenho de o justificar. Não foi pelo escândalo. Fui parada pela ideia de que é extraordinário como aquela mulher conseguiu descer uma avenida, no meio de uma multidão, sentindo-se segura quando estava tão exposta.

Só essa minha reação já mostra o quanto crescemos condicionadas pela ideia de que nos expormos equivale a convidar os outros a invadir-nos. “Vais mesmo sair assim vestida? Se vais voltar sozinha para casa, talvez não devas levar uma saia tão curta. Se levares esse decote, alguém se pode meter contigo. Vão ficar com a ideia errada. Pareces uma oferecida”. Somos programadas para pensar que mostrar-nos equivale a oferecer-nos. Se estamos no espaço público, somos públicas.

Mas não sou eu quem se irrita com os turistas que se passeiam pelo Chiado em fato de banho? Sim. Então, por que raio defendo agora a rapariga que descia a avenida de fio dental e cravos? Porque o que ela estava a fazer era usar o seu corpo politicamente. Ela estava lá para nos mostrar o efeito que tem um corpo feminino no espaço público quando é exibido por decisão própria e afirmação de liberdade e não para satisfazer uma objetificação comercial. Porque ninguém se choca com as imagens de mulheres despidas que na mesma avenida vendem perfumes e cremes. Porque quem está aflito com a libertinagem da miúda não se insurge contra as mui desnudas bailarinas que ladeiam qualquer cantor pimba nos programas da manhã.

Que poder é este que temos que tanto medo mete? Porque só pode nascer do medo a perseguição, a repressão, a tentativa de domínio e humilhação. Somos treinadas para baixar os olhos, tapar o corpo, falar baixo e pouco. E, se não o fazemos, somos bruxas, loucas, taradas, convencidas, mal comidas, à procura de atenção.

Não sei como se chama a mulher que desceu a avenida que ainda tem o nome da liberdade. Sei que a imagem dela tem a força de um grito. E que este é o momento para gritar.

Milhões de raparigas da idade dela engrossam nas redes sociais a trend das tradewifes, exaltando a ideia de que as mulheres devem ficar em casa, a cozinhar e a tratar da imagem, sustentadas por homens, porque – como repetem nos podcasts da moda – “o trabalho não combina com a energia feminina”. Os feeds estão cheios de mulheres muito produzidas a fazer bolachas e granola. Há posts sobre as zonas turísticas mais frequentadas por sugar dadys, assinalando onde podem ser caçados estes machos mais velhos e endinheirados. No Telegram, homens partilham imagens que as namoradas lhes enviaram ou fotografias tiradas à socapa debaixo das saias de quem nem se apercebeu que estava a ser fotografada. Os vídeos de violações circulam pelo WhatsApp. E na machoesfera os incels trocam fantasias sobre massacres feitos para castigar as raparigas que lhes negam o sexo a que acham que têm direito ou discutem como a legalização da violação poderia fazer baixar este crime para elas “deixarem de se pôr a jeito” e de os provocarem com esse único poder que têm e que está entre as pernas.

E o grande drama, a demonstração clara de que há liberdade a mais e juízo a menos, é uma mulher de cuecas de renda que desce uma avenida, numa manifestação pacífica, feita para celebrar o dia em que se começou a quebrar um pudor imposto por uma noite que amordaçava o desejo e a afirmação de todos os que se desviavam da norma.

Do que precisamos não é de pudor, é de vergonha na cara. Quem explora e quem oprime, quem rouba e quem corrompe, quem exibe públicas virtudes para esconder crimes privados, quem humilha e quem viola, quem persegue e quem amedronta. São esses aqueles que precisam de se envergonhar.

1. Hacks

Max > T4 > 10 episódios

Quarta temporada de uma comédia com episódios curtos. A série da HBO vive da dinâmica volátil que se estabelece entre a comediante veterana Deborah Vance e a jovem argumentista Ava Daniels, que encontra uma forma de reavivar-lhe a carreira. Nos novos episódios, o objetivo é lançar o talk show noturno de Deborah na televisão.

2. Dying for Sex

Disney+ > 8 episódios

Molly (Michelle Williams) recebe um diagnóstico de cancro de mama metastático em estádio IV e decide aproveitar o tempo que lhe resta. Como? Explorando os seus desejos sexuais o mais que puder. Inspirada numa história verídica (que deu origem a um podcast), esta minissérie tem Jenny Slate, Rob Delaney, Jay Duplass e Sissy Spacek no elenco.

3. The Handmaid’s Tale

TVCine+ e TVCine Edition > T6 > 10 episódios

“Que comece a revolução”, diz June (Elisabeth Moss) no trailer de apresentação da última temporada de The Handmaid’s Tale, uma das melhores séries que a televisão nos deu. “Ergam-se e lutem pela vossa liberdade”, instiga a protagonista. Para quem não conhece o enredo, Gilead é um país criado no seio dos EUA, a partir de uma revolução dos ultrarreligiosos que, para fazer face à baixa taxa de fertilidade, em virtude da destruição ambiental, obrigam as mulheres a regressar às “origens”: umas na cozinha (as empregadas), outras na sala de estar (as esposas), e o terceiro grupo na cama (as “handmaid”, mulheres férteis transformadas em escravas sexuais e parideiras). Está em marcha a luta para derrubar esse lugar distópico, criado por Margaret Atwood no livro A História de Uma Serva.

4. The Last of Us

Max > T2 > 7 episódios

Série pós-apocalíptica que nos pôs a escrever sobre fungos cordyceps, tem no seu centro um pai que perdeu a filha (Joel, interpretado por Pedro Pascal) e uma adolescente órfã de pais (Ellie, interpretada por Bella Ramsay) numa viagem por uma América devastada. Nesta história, grande parte da população foi infetada pelos tais fungos e quem escapa isola-se em comunidades mais ou menos autoritárias, violentas e religiosas. Quando The Last of Us se estreou, em janeiro de 2023, houve uma espécie de aclamação: “A melhor adaptação de um videojogo de sempre”, escreveu a BBC, por exemplo. Expectativas altas, portanto, para esta segunda temporada que traz Pedro Pascal e Bella Ramsay de novo à ação.

5. The Pirate Bay

TVCine Edition > 6 episódios

Minissérie que conta como três suecos criaram, em 2003, o The Pirate Bay, um site de partilha de ficheiros na internet que permitia fazer o download gratuito de filmes, música, jogos e software. Uma história que fez correr muita tinta na imprensa.

6. Your Friends & Neighbors

Apple TV+ > 9 episódios

Jon Hamm está de volta à televisão com o seu primeiro papel como protagonista desde Mad Men, a série que lançou a sua carreira. Em Your Friends & Neighbors, o ator interpreta Andrew “Coop” Cooper, um gestor de fundos que vê a sua vida de rico desmoronar-se com estrondo e decide que a melhor solução é… roubar os vizinhos. A série tem já garantida uma segunda temporada.

7. A Rapariga Roubada

Disney+ > 5 episódios

Minissérie britânica toca no pior pesadelo de quaisquer pais. Elisa (Denise Gough) deixa a sua filha de 9 anos ir dormir a casa da sua nova melhor amiga, Josie. No dia seguinte, quando ela e o marido vão buscá-la, descobrem que a casa de luxo era alugada, Lucia está desaparecida, e Josie e a mãe estão também em paradeiro incerto. O que se segue é um intenso escrutínio público dos pais.

8. George Sand: Espírito Rebelde

TVCine Edition e TVCine+ > 4 episódios

Produção franco-belga sobre uma figura francesa à frente do seu tempo: George Sand (1804-1876), pseudónimo literário de Armandine Dupin, baronesa de Dudevant. Sand contestou tudo o que havia para contestar, foi feminista antes mesmo da palavra ter sido inventada, foi das primeiras mulheres a trajar como homem e a fumar em público, colecionou amantes ilustres como o compositor Chopin e o poeta Alfred de Musset. A atriz e modelo francesa Nine D’Urso interpreta o papel da “rebelde” George Sand.

9. Andor

Disney+ > T2 > 12 episódios

Estreou-se em 2022 e entrou nas listas das melhores séries do ano. Sendo (mais uma) série do universo Star Wars, os elogios apontaram para o que Andor tem de diferente: sem sabres de luz ou babies Yoda, resiste à fórmula Star Wars, num ambiente que é de thriller sobre o despertar de uma revolução (que culmina no filme Rogue One, de 2016). O ator Diego Luna é Cassian Andor, o rebelde que dá nome à série escrita e realizada por Tony Gilroy. Quem ficou curioso, pode ver os três primeiros episódios da primeira temporada no YouTube. Estes derradeiros 12 episódios chegaram no final de abril (já se sabe que a série não terá mais temporadas).

10. You

Netflix > T5 > 10 episódios

Baseada no romance homónimo de Caroline Kepnes, centra-se em Joe Goldberg (Penn Badgley), um psicopata voyeur que não olha a meios para conquistar as mulheres por quem se apaixona. Joe não é boa pessoa, mas o público das séries gostou dele. Chega agora a quinta e última temporada.

11. Separação

Apple TV+ > T2 > 10 episódios

E se, através de uma intervenção cirúrgica, fosse possível separar a vida pessoal do trabalho? Imaginemos que não tem memória de quem é assim que entra no trabalho, e que fora do escritório nada sabe do que faz para ganhar a vida. É este o ponto de partida de Separação (Severance, no original), série produzida e realizada por Ben Stiller. A segunda temporada (que se estreou no início deste ano) ficou ainda mais surreal, quando os funcionários das sinistras Indústrias Lumon começaram a ganhar consciência desta dualidade. Com Adam Scott, Patricia Arquette, John Turturro, Britt Lower e Christopher Walken.

12. The Agency

Skyshowtime > 10 episódios

Adaptação da série francesa Le Bureau des Légendes (2015-2020), este thriller de espionagem tem, nesta versão norte-americana, Michael Fassbender no papel do agente secreto Martian. Richard Gere, aos 75 anos, troca os filmes pela televisão para interpretar o irascível chefe do gabinete da CIA em Londres, que dá ordens ao agente secreto para abandonar a sua vida dupla. Mas um amor antigo finta as responsabilidades profissionais.

13. The White Lotus

Max > T3 > 8 episódios

Depois do Havai e da Sicília, a Tailândia. O que começou por ser uma minissérie, já vai na terceira temporada, à boleia de uma bem-sucedida sátira às vidas de riqueza ambientadas numa cadeia de hotéis de luxo fictícia, a The White Lotus. O secretismo faz parte da diversão. As personagens vão revelando-se lentamente, à medida que pequenos mistérios e grandes reviravoltas se desenrolam em crescendo até ao crime final. Mike White (ator, escritor, produtor e realizador) escreve e dirige todos os episódios sozinho, uma raridade no mundo da televisão. Rara é também, nos dias de hoje, a forma desta série da HBO se apresentar: um episódio novo a cada domingo. Teremos de esperar pelo dia 6 de abril para saber como termina esta terceira temporada.

14. Dia Zero

Netflix > 6 episódios

Robert De Niro protagoniza esta minissérie no papel de um ex-Presidente dos EUA que é chamado de novo a tomar decisões após um ataque cibernético que lança o caos no país. George Mullen, o salvador da pátria interpretado por De Niro, comanda uma comissão de investigação com poderes excecionais e depara-se com uma conspiração de oligarcas da tecnologia e da desinformação – um enredo com ambiente trumpiano que já pareceu mais irrealista…

15. Demolidor: Nascer de Novo

Disney+ > T4 > 9 episódios

Esta série é exatamente o que o seu nome diz, um nascer de novo. Demolidor (Daredevil, no original) foi a primeira aposta da Netflix no universo dos super-heróis da Marvel, em 2015. Até que, em 2018, depois de três temporadas, a plataforma de streaming cancelou a série. Mas a Disney+ decidiu dar ao advogado de defesa com cegueira uma nova oportunidade. Nesta quarta temporada, mantém-se o mesmo elenco: Charlie Cox no papel de Matt Murdock/Demolidor, acompanhado pelos amigos Foggy (Elden Henson) e Karen (Deborah Ann Woll); Vincent D’Onofrio é o vilão Wilson Fisk.

16. The Studio

Apple Tv+ >10 episódios

Esta é a história de Matt Remick (Seth Rogen), o novo diretor-executivo de um estúdio de Hollywood que tem de lidar com os problemas da crise das salas de cinema, da ameaça do streaming, atores manientos e chefes que só veem dinheiro à frente. A mais-valia desta série? Um elenco de estrelas, que interpretam as versões mais caóticas ou desprezíveis de si mesmas. Martin Scorsese soluça, o realizador Ron Howard fica furioso, Ted Sarandos, diretor-executivo da Netflix, aventura-se em território inimigo na Apple…

17. Mil Golpes

Disney+ 6 episódios

Stephen Graham é o coautor da série do momento, Adolescência, em conjunto com Jack Thorne. É também o ator que interpreta a personagem Sugar Goodson em Mil Golpes, série do criador de Peaky Blinders passada na sombria Londres do final do século XIX. Um mergulho no submundo do boxe, sem luvas e com ânsia de destruir o outro, antes de se tornar um desporto de cavalheiros, assimilado pela alta sociedade inglesa. O melhor ingrediente? As Forty Elephants, um bando de mulheres fora da lei que limpam bolsos e carteiras alheias…

18. The Pitt

Max > 15 episódios

O ator Noah Wyle a andar, de um lado para o outro, numa urgência hospitalar. Onde é que já vimos isto? The Pitt, que se estreou em janeiro na Max, tem como protagonista Noah Wyle, o estagiário que se transformou em Dr. Carter em Serviço de Urgência (1994-2009). Sempre em ritmo acelerado, cada episódio de The Pitt corresponde a uma hora na vida do Dr. Michael “Robby” Robinavitch no hospital. Um bom regresso para os fãs de dramas médicos.

19. Adolescência

Netflix > 4 episódios

Já praticamente tudo foi dito e escrito sobre Adolescência, a série mais falada de 2025 (até agora…). São quatro episódios de cerca de uma hora, sempre filmados em tempo real, que nos confrontam com um homicídio cometido por um jovem de 13 anos (a série não é um clássico whodunnit, “quem matou?”, por isso não há aqui qualquer spoiler). Cada episódio aborda um ângulo desta história familiar trágica e põe-nos a pensar – o terceiro, por exemplo, centra-se inteiramente numa conversa de Jamie (Owen Cooper) com a psicóloga Briony Ariston (Erin Doherty). Uma narrativa muitas vezes angustiante, sobre estes tempos, sobre todos nós. Afinal, como canta Sérgio Godinho, “estamos sempre adolescendo.” P.D.A.

20. 1923

Skyshowtime > T2 > 7 episódios

Taylor Sheridan filma como ninguém o homem americano do rancho e dos cavalos – afinal, o ator tornado realizador e argumentista cresceu e vive num rancho do Texas. Depois de ter criado Yellowstone, um neo-western com Kevin Costner como protagonista (teve cinco temporadas), foi lançando uma constelações de séries sobre o mesmo tema. 1923, uma prequela de Yellowstone, tem Harrison Ford e Helen Mirren a contracenar enquanto casal. O cenário é a América da Grande Depressão e da Lei Seca, numa altura em que o Montana se estava a tornar um recreio para a elite da costa leste.

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O ouro alcançou um valor recorde na última semana, subindo até aos  3 500,5 dólares por onça, mas a guerra comercial e os avanços e recuos das decisões de Donald Trump têm provocado uma verdadeira montanha-russa no preço deste metal precioso que, regra geral, é utilizado pelos investidores como um ativo de refúgio sempre que existe instabilidade económica ou política.

Na passada segunda-feira, a cotação da onça do ouro voltou a cair 1,1%, mas, apesar desta descida, ainda consegue manter uma valorização de 43,42% em relação a abril do ano passado e um aumento de 26,14% desde o início deste ano.

O pico do preço do ouro deu-se logo após o ataque de Donald Trump a Jerome Powell, presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), por este não ter manifestado qualquer intenção de reduzir as taxas de juro nos EUA.

Na sua plataforma, a Truth Social, Trump escreveu que existia muita gente a defender “cortes preventivos” das taxas de juro por os preços dos bens e da energia no país “estarem em queda”. Alegou ainda que “praticamente não há inflação” e terminou a sua mensagem apelidando Jerome Powell de “sr. Tarde Demais, um grande falhado”.

A tentativa de interferência do Presidente americano no organismo responsável pela política monetária do país provocou uma queda imediata do dólar, bem como da bolsa norte-americana, com os principais índices a perderem cerca de 2,5% do seu valor em apenas um dia.

Confrontado com a reação dos mercados, Trump teve de recuar e acabou por vir a público dizer que “não tinha intenção” de demitir Powell. Uma declaração suficiente para que o mundo financeiro voltasse a acalmar. A bolsa e o dólar recuperaram parte do seu valor e o ouro desvalorizou-se.

Jerome Powell foi nomeado presidente da Fed em 2018, tendo sido escolhido pelo próprio Donald Trump no seu primeiro mandato. Mas, apesar de ser uma escolha política, este é um cargo independente e do qual apenas se pode ser demitido por justa causa. 

Antes desse episódio, o ouro já estava em forte ascensão devido à guerra comercial gerada pela imposição de tarifas às importações da grande maioria dos países. A escalada das tensões comerciais entre os EUA e a China, com ambos os lados a subirem as tarifas alfandegárias para valores fora do normal, contribuiu ainda mais para a valorização deste metal precioso. Sempre que um dos lados anunciava o aumento das tarifas, o preço do ouro subia.

Assim que Donald Trump comunicou a existência de contactos negociais entre os dois países, o valor da onça baixou. Na passada sexta-feira, o executivo de Xi Jinping decidiu atenuar as tarifas de alguns bens importados dos EUA. Contudo, rejeitou a alegação do Presidente Trump de que novas negociações comerciais estavam em andamento.

As mensagens diferentes de ambas as partes voltaram a provocar uma enorme volatilidade nas cotações do metal.

A incerteza é o pior receio dos investidores e, na opinião de Fawad Razaqzada, analista de mercado da City Index, em declarações à Reuters, “enquanto não existirem acordos comerciais firmes e estabelecidos em vez de algazarra política por parte do governo de Trump, não podemos descartar a possibilidade de o ouro continuar a subir”. E, segundo a bolsa de especialistas da Reuters, o risco de a economia global entrar em recessão este ano é ainda muito elevado, o que faz do ouro um ativo ainda mais atrativo.

Por essa razão, esta será uma semana muito importante em termos de decisões dos investidores, uma vez que serão divulgados vários indicadores fundamentais da economia americana, como o relatório da evolução do emprego, os dados do consumo privado e a folha de pagamentos agrícolas. Segundo os especialistas, estes indicadores poderão dar alguma informação mais acertada sobre o impacto que as tarifas estão a ter na economia dos Estados Unidos.

Mas não são apenas as tensões comerciais do mundo que podem influenciar o preço futuro do ouro. Segundo os especialistas, apesar de existir oferta de ouro nos mercados internacionais, estamos a assistir a um claro envelhecimento das minas atuais, bem como a uma deterioração da qualidade deste minério, o que obriga a maiores custos de extração.

Por fim, nos últimos três anos, os bancos centrais de quase todo o mundo têm vindo a reforçar fortemente as suas reservas de ouro. Em 2022, ano em que a Rússia invadiu a Ucrânia, a compra de ouro por parte das autoridades monetárias mundiais ascendeu a 1 082 toneladas, o que constituiu um novo recorde.

No ano seguinte, os bancos centrais voltaram a comprar mais de mil toneladas e, em 2024, as aquisições foram de 694 toneladas. Em apenas três anos, os bancos centrais compraram mais ouro do que a soma de toda a década de 2010 a 2020, provocando uma maior pressão sobre a procura.

Segundo um inquérito realizado pelo World Gold Council em 2024, cerca de 29% dos bancos centrais admitiram que iriam reforçar as suas reservas de ouro ao longo dos próximos 12  meses. “Esta foi a mais elevada intenção de compra registada desde que este estudo é feito”, refere o documento. O mesmo estudo adianta que esta decisão é motivada pela intenção dos bancos centrais de reequilibrarem as reservas de ouro para “um nível estratégico mais adequado” e pelas preocupações sobre o futuro dos mercados financeiros, nomeadamente devido aos “riscos de crise” na economia mundial e ao potencial “crescimento da inflação”.

Metais preciosos em alta

Não é só o ouro que tem vindo a registar ganhos ao longo deste ano. A prata e a platina também estão com elevada procura e mantêm cotações a subir ao longo dos últimos dias

Ouro oscila
Atingiu o valor recorde na passada semana, com a onça a subir até aos 3 500,5 dólares. Contudo, o preço tem vindo a baixar nos últimos dias. Mesmo assim, este metal precioso ainda consegue uma valorização de 26,14% desde o início do ano.

Prata em alta
Este metal precioso tem estado em alta nos últimos quatro anos e os analistas preveem que possa manter esta tendência porque a procura de prata tem sido superior à oferta existente. Desde o início do ano, a subida foi de 15,43%.

Platina em espera
O preço da platina tem vindo a subir ligeiramente, com um aumento de 10,47% desde o início do ano, mas os stocks existentes (já extraídos), apenas conseguem abastecer 15 meses da procura, o que faz prever uma forte margem de progressão dos preços.

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