O drama desenrola-se bem longe, em Pittsburgh, no Nordeste dos EUA, nas urgências de um sobrelotado e subfinanciado hospital universitário público especializado em cuidados de urgência e traumatismos agudos, mas ressoa a algo próximo e familiar. Até a troca de galhardetes entre a diretora do hospital e o chefe daquele serviço conhecido por the pit (o poço, em inglês), com ela a queixar-se dessa alcunha depreciativa e ele a acusá-la de querer poupar dinheiro eternizando os pacientes ali em baixo, nas urgências, por ser mais barato do que ter um número maior de médicos e enfermeiros lá em cima, no internamento.
Ao longo de 15 episódios, tantos quantas as horas de um turno liderado por Michael “Robby” Robinavitch (o ator Noah Wyle, que protagonizou ER – Serviço de Urgência) a nova série The Pitt, da HBO Max, traz-nos uma realidade feita de emergências médicas à mistura com os problemas e os dilemas dos próprios profissionais, sempre com a tónica nas limitações do sistema de saúde. Os casos sucedem-se a um ritmo frenético; o cenário de falta de meios humanos mantém-se inalterável.
É verdade que nessas urgências de ficção aplaudidas pelo seu realismo há mais gente a correr perigo de vida do que a nascer, mas por estes dias será difícil assistir a The Pitt sem lembrar aquilo que se passa no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português. As grávidas devem telefonar para a Linha SNS 24 Grávida, acessível através do número 808 24 24 24, antes de rumarem a um hospital, mas, ao terceiro fim de semana grande em que voltarão a encerrar várias urgências de Obstetrícia e Ginecologia na região de Lisboa e Vale do Tejo, convém consultarem o portal do SNS que vai atualizando a previsão dos sete dias seguintes.

Tal como aconteceu na Páscoa e no fim de semana do 25 de Abril, sabe-se de antemão quais serão as urgências que se prevê estarem fechadas no feriado de 1 de maio (três, à hora do fecho desta edição), na sexta-feira (quatro), no sábado (nove) e no domingo (oito), a maioria de Obstetrícia e Ginecologia, aqui e ali de Pediatria, com especial incidência na Margem Sul.
A falta de equipas médicas é real. No Dia do Trabalhador entra, por isso, em vigor o já habitual plano de verão, apresentado como um reforço estratégico da capacidade assistencial do SNS que, até ao fim de setembro, obriga os hospitais a comunicarem diariamente à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) a taxa de ocupação de camas e a afluência às urgências. Segundo o decreto-lei publicado em Diário da República no dia 10 de abril, esse plano de verão prevê ainda que o encerramento de uma urgência só possa acontecer com autorização prévia da DE-SNS.
Tudo ideias boas, dizem os administradores hospitalares, mas que na prática não impedirão o encerramento de urgências. A preocupação também é bem real. Ninguém quer assistir a uma sequela da Páscoa deste ano, em que o tema das urgências acampou nas notícias. Ninguém quer continuar a ver grávidas a entrar em trabalho de parto em ambulâncias – ou a esperar horas por uma vaga num hospital (ou por uma decisão de encaminhamento).
À procura do “gato”
Como no provérbio “casa roubada, trancas na porta”, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) marcou para segunda-feira, 28, o arranque de uma auditoria para apurar responsabilidades e verificar o cumprimento das normas de organização e planeamento dos serviços, incluindo os mapas de férias dos médicos e a articulação entre hospitais e outras entidades de saúde.
Não é a primeira vez que o IGAS avalia o impacto das férias na capacidade dos hospitais: em 2022, houve uma auditoria a cinco hospitais que detetou falhas, nomeadamente na aprovação dos mapas dentro do prazo legal. Agora, o período em análise será entre 13 de abril e 4 de maio, precisamente para incluir a Páscoa e os feriados do 25 de Abril e do 1º de Maio. Os alvos iniciais são o Hospital Garcia de Orta (Unidade Local de Saúde de Almada-Seixal) e o Hospital do Barreiro (ULS do Arco Ribeirinho).
Faz sentido o especial enfoque na Margem Sul. No Domingo de Páscoa, foi notícia o nascimento de um bebé dentro de uma ambulância, pelas 2h30 da madrugada, cerca de meia hora depois da chamada feita para o 112. Como o bloco de partos não estava disponível no Garcia de Orta, em Almada, a parturiente foi encaminhada para o São Francisco Xavier, em Lisboa, sendo acompanhada por uma médica do Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, mas acabando por dar à luz num veículo dos bombeiros do Seixal, ainda na Margem Sul. Miguel nasceu às 37 semanas e não precisou de cuidados especiais.
A palavra “caos” já se repetira uns dias antes, ao saber-se do caso de uma grávida, residente na Moita, uma vila pertencente ao distrito de Setúbal, que na quarta-feira, 17, terá estado cerca de três horas numa ambulância, antes de ser finalmente reencaminhada para a Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.
A grávida de gémeos com 34 semanas de gestação em situação de risco tinha sido observada de manhã no Hospital do Barreiro, onde recusara ser imediatamente transferida para um hospital com unidade de cuidados intensivos neonatais, alegando precisar primeiro de ir a casa resolver uns assuntos familiares. Foi, então, aconselhada a ligar para a linha SNS24 logo que possível. Já numa ambulância dos Bombeiros Voluntários de Alcochete, acionados pelo INEM, acabou por ter de esperar que o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) percebesse para onde deveria ser transportada.
“Pedro e o lobo”
Ainda nesse dia, a Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica (ANTEM) manifestou “sérias preocupações” sobre a articulação entre os hospitais do SNS e o INEM no acompanhamento dos casos urgentes de grávidas.
Os inspetores do IGAS poderão chegar à conclusão de que os mapas de férias dos médicos não foram bem geridos, agravando a falta de especialistas, nomeadamente de Ginecologia, Obstetrícia e Pediatria. Na região de Lisboa e Vale do Tejo, os números mais recentes deixam bem claro que a manta é curta.
A Ordem dos Médicos tem registados 1 960 ginecologistas e obstetras, mas menos de metade trabalham no SNS (748). Quanto aos pediatras, dos 2 529 registados, pouco mais de metade estão no setor público (1 325).
Na região de Lisboa e Vale do Tejo, os números mais recentes deixam bem claro que a manta é curta. A Ordem dos Médicos tem registados 1 960 ginecologistase obstetras,mas menos de metade trabalham no SNS (748)
Tanto a ordem como os sindicatos médicos já alertaram para a necessidade de fazer uma reforma profunda no setor para atrair mais profissionais. A pouca atração do SNS “tem muito que ver com as condições de trabalho”, acredita Joana Bordalo e Sá, da Federação Nacional dos Médicos, que já em março defendera que “a banalização da falta de médicos leva ao encerramento das urgências”.
O estado a que as coisas chegaram lembra a história infantil Pedro e o Lobo. A verdade é que nada disto é novo – nem sequer os avisos. Em agosto de 2018, o colégio da especialidade de Ginecologia-Obstetrícia da Ordem dos Médicos alertou para o facto de “cerca de 80% das equipas” das urgências de Obstetrícia apresentarem “um défice permanente de recursos médicos”.
O mesmo órgão calculou que, ao longo da década anterior, o “défice teórico” nos “serviços de urgência/blocos de parto” evoluíra ao ritmo de menos 20 especialistas em Ginecologia-Obstetrícia por ano. Apesar de ter havido novos contratados, o saldo foi sempre negativo por causa das passagens para o escalão com idade igual ou superior a 55 anos, idade a partir da qual estão dispensados de fazer urgências. Faltava, então, a geração intermédia, que fora atraída para os privados, ao mesmo tempo que tinha havido uma paragem de entradas no público. O futuro próximo era incerto.
O primeiro-ministro já veio lembrar que a escassez de meios humanos no SNS é um problema que vem de muitos anos. “Estamos a resolver os problemas à medida que o tempo nos permite que eles sejam resolvidos”, afiançou Luís Montenegro, no sábado, 27, à margem da 5ª edição da Maratona da Europa, em Aveiro. “Agora, não podem exigir-nos que façamos em 11 ou 12 meses aquilo que outros não fizeram em mais de 20 anos. Não foram só os oito anos que nos antecederam, o PS governou 22 dos últimos 30 anos.”
A verdade é que, a menos de dois meses de começar mais um verão, altura em que a falta de médicos naturalmente se agudiza, o problema crónico não tem melhorias à vista. Vamos chegar aos feriados de junho a pensar “onde é que já vi este filme”?



















