Apesar de a Igreja Católica não ser reconhecida pelas suas políticas avançadas, o novo Papa quer que seja prestada mais atenção à Inteligência Artificial e deu conta disso mesmo na sua primeira reunião formal com os cardeais. “Nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro dos ensinamenos sociais em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da Inteligência Artificial que constituem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, afirmou Leão XIV.
O novo Papa revela que escolheu o nome Leão como sinal da intenção de seguir os passos do antecessor do nome, Leão XIII, que endereçou a “questão social no contexto da primeira grande Revolução Industrial”. Este Papa liderou a Igreja entre 1878 e 1903 e tornou-se célebre pelo texto sobre Direitos e Deveres do Capital e do Trabalho, lembra o ArsTechnica.
Também o imediato antecessor de Leão XIV, o Papa Francisco, identificara a Inteligência Artificial como um risco potencial para a Humanidade se não fosse desenvolvida e disponibilizada de uma forma ética e centrada nos humanos. Francisco escreveu que os desenvolvimentos na Inteligência Artificial “devem servir a dignidade humana e não lhe causar dano” e chegou a discursar na reunião do G7 em 2024 sobre o tema, alertando par ao risco de se provocarem grandes injustiças entre as nações em desenvolvimento e as avançadas ou entre as classes dominantes e as oprimidas.
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Sobre o posicionamento concreto de Leão XIV sobre o tema, ainda não são conhecidos quaisquer detalhes.
A Antarteintegra mais um projeto de dimensão internacional. A marca portuguesa materializou mais de quatro dezenas de peças de mobiliário para o Pavilhão de Portugalna Expo Mundial de Osaka, desenhadas pelo conceituado arquiteto japonês Kengo Kuma, que também é o autor do projeto de arquitetura do pavilhão português.
As várias tipologias de peças fabricadas pela Antarte, traduziram-se em bancos, bancos altos e mesas para o restaurante e cafetaria, assim como sofás e a mesaonde será colocado o Livro de Honra, no VIP lounge. Os materiais foram selecionados tendo em consideração a sustentabilidade, como é o caso da madeira de freixo nacional, do algodão e linho para o revestimento dos sofás, ou do aglomerado de cortiça nacional, torneado manualmente. As técnicas de produção utilizadas pela Antarte respeitaram o saber ancestral da marcenaria portuguesa.
A Antarte materializou mais de 40 peças de mobiliário para o Pavilhão de Portugal na Expo Osaka
A peça de maior destaque é a mesa onde está colocado o livro de honra do Pavilhão de Portugal. É uma verdadeira escultura composta por 177 peças de madeira de freixo nacional, de diferentes diâmetros e comprimentos. Cada uma foi torneada manualmente, num processo que implicou mais de 200 horas de trabalho manual.
A mesa onde está colocado o livro de honra do Pavilhão de Portugal é composta por 177 peças
Mário Rocha, fundador e CEO da Antarte, considera que “participar num projeto emblemático como o Pavilhão de Portugal na Expo 2025 Osaka, materializando peças desenhadas por um dos maiores vultos da arquitetura mundial como Kengo Kuma, reafirma a Antarte como um embaixador da marcenaria portuguesa em todo o mundo.”
Exemplares destas peças podem ser observados no Antarte Museum, o único museu na Europa sobre a história da marcenaria, integrado no Antarte Center, pólo industrial da marca em Rebordosa – Paredes.
Conversámos com António Trindade após o seu almoço no restaurante Aviator 6, no lounge do PortoBay Liberdade, em Lisboa, o boutique hotel de cinco estrelas perto da Avenida da Liberdade. Anfitrião nato, recebeu-nos num dia de muita chuva e anunciada tempestade, já depois de concluída a BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa. Em cinco minutos, mudou de roupa, trocando o pullover por uma camisa e um blazer. No bolso guardava pequenos cartões, mas como exímio palestrante que é, nem os consultou para dar início à nossa conversa. Uma intervenção inicial que nos deixou rendidos às suas explicações e aos seus raciocínios sobre turismo e a importância de antecipar a procura e criar boas experiências.
Foi já no fim do encontro que António Trindade recordou o seu passado e o percurso profissional. Vem de uma família madeirense de hoteleiros, do lado paterno, mas não tinha como objetivo ser um deles. No entanto, foi graças a um pedido excecional, precisamente do seu pai, Aníbal Trindade, que começou a trabalhar no ramo um ano antes do 25 de Abril de 1974 e se tornou um visionário do setor turístico. Atualmente, o turismo representa 29% do PIB da Região Autónoma da Madeira, empregando 17% da população ativa do arquipélago.
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Licenciado em Direito, na Universidade de Lisboa, exerceu a prática forense durante dois anos antes de se comprometer a aguentar o barco do grupo familiar Dorisol, após a saída de vários diretores em simultâneo. O tempo passou e em 1986, quando Portugal também entrava na CEE – Comunidade Económica Europeia, o empresário foi à procura de sócios para criar a sua marca e ter a verdadeira primeira experiência hoteleira. Aliou-se a David Caldeira, engenheiro químico que trabalhou na banca como economista, e notável da ilha, e juntos associaram-se a hotéis que ou tinham relação familiar com eles ou decidiram juntar-se ao projeto. Em 1988 abriam o Eden Mar, o primeiro hotel do grupo, um quatro estrelas com 146 quartos, inaugurando o conceito de quartos espaçosos e suítes equipadas com kitchenette.
Filho de pai português e de mãe belga, conta-nos como as viagens ao país de origem da mãe levavam horas infindáveis, ora de barco até à Bélgica, ora no regresso de comboio no Sud Express de Paris para Lisboa. Aos 77 anos, é presidente e CEO do grupo PortoBay, mas António Trindade já partilhou a vontade de se manter como chairman do grupo, entrando um novo diretor-executivo ainda este ano. Em breve, haverá novidades no grupo hoteleiro português mais premiado internacionalmente.
Correu bem a BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa? Este ano, bateu recordes com 82 mil visitantes…
Nós não temos uma grande dependência do mercado nacional. Mas foi interessante, não só porque veio muita gente de fora, mas porque os nossos habituais clientes também por lá passaram, e não estava à espera. A BTL é a última do ciclo anual das grandes feiras de turismo, depois das três grandes de referência: a World Travel Market, em Londres, em novembro, a Fitur, em Madrid, em fevereiro, e a ITB, em Berlim, logo em princípios de março.
Como pode hoje um hoteleiro ser visionário?
O grande paradoxo que se coloca atualmente na sociedade – em que temos um aumento exponencial da esperança de vida, mas os ciclos de vida dos produtos e das experiências são cada vez mais curtos – é ter de prever o que pode acontecer num espaço de tempo que ultrapasse os cinco anos. A informação que vamos recebendo é tão grande e tão maior do que era há dez ou há 15 anos, que faz com que o ciclo de vida e o ciclo de inovação sejam muito mais rápidos.
Luís Barra
Costumo comparar o meu setor com o setor da moda. Temos o exemplo típico da Inditex, dona da Zara, que quando lança uma coleção, coloca-a em lojas estratégicas durante quatro semanas, fazendo assim o teste de estímulo à procura. Depois retira-a, faz as suas contas e tem dois meses para lançar o seu produto, marcado pela imposição da procura. Quando faço um hotel, entre o início da aprovação de um projeto e abrir as portas aos meus clientes, posso facilmente demorar cinco anos. Ou seja, tenho de me adaptar numa perspetiva temporal muito maior. O grande desafio é que a evolução dos cinco anos é muito longa e faz com que tenha de me adaptar às várias vicissitudes e aos diversos ciclos de vida e de inovação.
Sou inovador quando, como detentor da oferta, estimulo a procura, e não quando reajo à procura. Porque quando estou a reagir à procura, corro o risco de perder o ritmo. Vejamos os exemplos da restauração: um restaurante passa de moda com uma facilidade incomparavelmente maior do que passava nas minhas meninice e juventude, em que era algo relativamente perene.
A burocracia também não ajuda?
Infelizmente, vivemos num país onde o setor público não é suficientemente reativo às necessidades de um setor privado ou às necessidades de uma procura. Aí corro o risco de ter os meus projetos ultrapassados no tempo, já não por uma ausência da minha capacidade de visão ou de ser visionário, mas sim por causa da grande burocracia. E isto leva-nos a ter de adaptar as tendências de oferta, correndo sempre um grande risco: quando perco algo no tempo, deixo de ser o visionário que quer estimular a procura, mas entro na fase em que estou a reagir à procura. O facto de haver instituições de regulação tão desfasadas da realidade do turismo faz com que muitas vezes estes ciclos percam o sentido.
Que boas práticas aconselha aos novos hoteleiros?
A política dos “três pês” que o grupo PortoBay defende. A grande diferenciação faz-se conjugando o melhor produto, a melhor promoção, no sentido da melhor distribuição, com as melhores pessoas. Temos uma cultura de ouvir o cliente, de beber do cliente tudo aquilo que ele possa trazer de inovação. Sou mais inovador quando estimulo a procura do que quando reajo à procura. Este é um setor feito para o cliente, de relações humanas.
A oferta customizada, feita à medida do cliente, faz cada vez mais sentido?
Sem dúvida. Há um fator na vida do turismo que é a substituição dos termos boa cama e boa mesa por boa experiência. Por isso, a qualificação das pessoas é também muito importante. Apostámos sempre mais na formação de base sobre a formação académica específica.
É dos poucos grupos hoteleiros a apostar em restaurantes com Estrela Michelin [este ano manteve as duas Estrelas no Il Gallo d’Oro, no The Cliff Bay, que também recebeu a Estrela Verde, emais três restaurantes com recomendação no Guia Michelin].
Reflete o nosso cuidado no preenchimento da experiência. Queremos ter a garantia de que a sustentabilidade da marca se faz pelas boas relações, pelos bons produtos e pelas boas experiências. Consideramos que a gastronomia é uma experiência de eleição durante a estada de um hóspede.
Foi uma estratégia pensada a longo prazo?
Não foi um acaso, nem foi um plano fortemente estruturado e trabalhado. Foi ser suficientemente versátil ao trabalhar o conceito de qualidade, ao ser capaz de diversificar a oferta que levasse o cliente a ocupar os seus tempos livres. Ganhar a Estrela Michelin não era um objetivo. O objetivo tem de ser fazer um produto suficientemente bom que seja reconhecido por qualquer guia.
Portugal tem sabido divulgar a sua gastronomia e os seus vinhos, como os espanhóis fizeram há 20 anos?
Temos de ter a consciência da dimensão de um e de outro país. A evolução da qualidade da gastronomia portuguesa é enorme. Ainda há relativamente poucos anos, um bom prato era aquele que vinha bem cheio e isso agora já não se passa. O consumidor agora tem mais mundo, é mais exigente, mas os chefes também têm mais mundo e estão mais bem preparados.
Qual é a melhor definição de turismo?
Turismo é trazer gente a consumir cá dentro, turismo é exportar cá dentro. Em vez de exportar algo ao preço do produtor, estou a trazer o consumidor cá dentro para pagar a produção, a distribuição, o fator trabalho e, muito importante, o IVA, que é a tributação. Isto tem impacto positivo em todos os setores. Neste momento, em que os Estados Unidos da América vão tributar fortemente as importações, eu digo: vamos ver se temos mais clientes norte-americanos a virem cá consumir porque nessa altura tenho a possibilidade de lhes vender mais e melhor.
O turismo em Portugal não é um só, pois não? Há vários “Portugais”?
O produto que crio está profundamente ligado às características do território. Por isso, quando se fala em pensar no turismo em Portugal, é pensar nas diferentes experiências de Portugal. Cada uma das regiões do País tem as suas características, o que me obriga como empresário a ter de me adaptar a essas mais-valias e perceber qual poderá ser o meu contributo no local. Entendo sempre que o turismo é um fenómeno, é uma indústria de base regional e inamovível. A única exceção têm sido os cruzeiros e mesmo assim têm a sua ligação ao território no interior do navio.
A que se deve o sucesso turístico da Madeira?
A Madeira era o único porto de águas profundas nas ligações marítimas entre a Europa e a África do Sul e a Europa e a América do Sul. Os navios ingleses, alemães e portugueses paravam na Madeira porque não havia a mesma capacidade frigorífica de hoje. Nos anos 20 e 30 do século XX, debandavam do porto do Funchal 20 a 30 barcos por dia. Além disso, a cidade tinha o chamariz de cinco casinos. Os ingleses quando vinham da África do Sul, de regresso a casa, ficavam uma semana para se aclimatarem àquilo que já não era África, mas que ainda não era Europa. A expressão “já chegámos à Madeira” refletia o sítio da mudança de hábitos.
Eu sabia que o empregado que me servia à mesa da Cidade do Cabo até à Madeira, vestia roupa africana em cor caqui; a partir da Madeira já era dinner jacket. A Madeira não era propriamente o destino de sol e praia, mas a ilha subtropical, onde havia um compromisso não só com as realidades tropicais, mas também uma vivência europeia.
Ainda faz sentido falar em época alta do turismo na Madeira?
Já não. Dentro da época alta, existem uns períodos mais baixos do que outros. A Madeira é um caso relativamente excecional porque, por força de várias circunstâncias, faz com que a procura se mantenha a um nível muito elevado durante todo o ano. O grupo PortoBay tem ocupações que ultrapassam os 90% da ocupação ao ano.
E, convenhamos, o Algarve também tem sabido fazer crescer o seu prazo ou os seus períodos de ocupação. E à medida que se vão aumentando as operações, agora situadas entre o final de março e o final de outubro, a pequena restauração e o pequeno comércio têm de perceber que têm de abrir o ano todo.
Com a diminuição do poder de compra, viajar voltou a ser menos democrático?
Essa é uma situação relativamente conjuntural e diz muito respeito a Lisboa. O Porto, no momento presente, tem oferta muito mais aliciante do que Lisboa, porque a capacidade de reação da oferta sobre a procura é efetivamente diferente. Lisboa tem as acessibilidades esgotadas, mas é ainda muito aliciante o preço de uma visita a Lisboa ou de uma saída de Lisboa.
O alojamento local veio redefinir o território?
O contributo do alojamento local para a requalificação urbana é indiscutível. Não era minimamente interessante requalificar imóveis para o arrendamento normal, devido à ausência de liquidez do próprio investimento. Mas tem instrumentos de regulação completamente diferentes dos da hoteleira. As facilidades que se colocam, quer em termos de projeto, quer do próprio funcionamento, não têm rigorosamente nada a ver com a hotelaria. A regulação deve ser tão próxima quanto possível, não só ao aliviar alguns constrangimentos que se colocam em termos hoteleiros, como também nalgumas exigências adicionais que se colocam ao alojamento local.
É um defensor da taxa municipal turística?
A taxa deve ser sempre considerada como uma taxa e não como um imposto. Por isso, é fundamental que seja vista como uma necessidade de contributo do turista para minimizar os impactos negativos que possa causar. Estas taxas devem ter uma abrangência que supera o próprio município e beneficia a região.
Estranharia se na Madeira houvesse manifestações contra o turismo de massa, como aconteceu nas ilhas espanholas?
O madeirense não age dessa forma porque sente que a mais-valia trazida pelo turismo compensa francamente os inconvenientes que eventualmente surjam. Há uma propensão inflacionista, em termos de habitação e dos preços de mercado, mas o que o madeirense sente é que o contributo destas 60 mil camas (metade hoteleiras e metade em alojamento local), para uma população de 250 mil habitantes, quer em termos de emprego, quer em termos de geração de riqueza, são suficientemente compensatórias no que diz respeito a ter este aumento de consumo. Repito: turismo é trazer mais gente a consumir cá dentro. O contributo do turismo é tanto maior quanto o mesmo consumidor estrangeiro possa gerar muito mais riqueza aos outros setores do que o autóctone.
Ainda é possível construir mais na Madeira?
Vou às Baleares ou vou às Canárias e o rácio entre o número de camas e o número de habitantes é em muito ultrapassado. Diria que a Madeira pode ter zonas que já estão superlotadas, sem capacidade de crescimento – a zona de expansão natural do Funchal, que tem os melhores acessos ao mar, os melhores passeios e os melhores restaurantes –, mas há um fenómeno que se passa nas diferentes regiões nacionais, que não é propriamente o alojamento local, é a compra de imobiliário por estrangeiros. A verdade é que posso voar da Madeira para 72 origens, quer dizer que as mesmas 72 origens podem ir à Madeira e ficar para sempre.
A última expansão da pista do aeroporto do Funchal aconteceu há 25 anos. Como se resolve uma nova ampliação?
A pista tem dimensão suficiente. A Madeira é uma ilha com muitas montanhas, tem uma orografia difícil e não foi fácil encontrar a melhor localização. O grande problema do aeroporto não é a sua dimensão, são os seus ventos. Tem havido um atraso enorme na dotação de equipamento para minimizar os efeitos do vento, como também em encontrar alternativas que possam servir a região. O aeroporto da ilha vizinha do Porto Santo tem servido muitas vezes para receber os aviões em momentos de dificuldade e impossibilidade. O que é importante é criar a mobilidade suficiente nas ligações interilhas.
O para-arranca nas obras de melhoria do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, está a prejudicar o turismo?
O Aeroporto de Lisboa não serve só a capital, é um grande hub de abastecimento doméstico nacional, para o Algarve, para o Porto, para a Madeira, para os Açores. Servir preferencialmente os destinos portugueses como fator de atratividade adicional, como fator de alimentação de noites nos outros destinos, é algo que tem de ser assumido como responsabilidade da transportadora nacional. Não só é preciso aumentar as estadas, mas também só deslocando alguns hubs para outros aeroportos nacionais, como Porto ou Faro, fará com que haja mais disponibilidade em Lisboa. Por exemplo, nos voos intercontinentais ou mesmo nos voos europeus, um passageiro fazer Frankfurt-Lisboa-Funchal ou Frankfurt-Porto-Funchal será exatamente o mesmo. Agora a realidade é esta: se se alimentar mais aeroportos alternativos a Lisboa, isso libertará mais lugares para servirem efetivamente a capital.
Fazer o novo aeroporto em Alcochete foi a melhor escolha?
Não sou técnico de aeronáutica, não quero discutir a localização. Alcochete deve ser considerado o grande aeroporto do futuro. Por isso, é fundamental, em primeiro lugar, que se otimize o Aeroporto Humberto Delgado. Um cliente que fique sete noites no hotel vale tanto como sete clientes que fiquem uma noite, a unidade que conta é essa. Perante constrangimentos como o de ter um aeroporto sem capacidade de crescimento, como é que posso responder em termos de oferta a solicitações crescentes da procura? Já que não tenho a possibilidade de ter clientes a mais, então tenho de trabalhar para os ter mais tempo. Este é um fator fortemente diferenciador porque ao passar de duas para três noites, só por isso tenho um aumento de 50%.
Com mais uma crise política e novas eleições legislativas, a venda da TAP volta a ficar suspensa. Como é que este dossier poderá ter seguimento?
Isto é particularmente importante e tem a ver com as opções nacionais na escolha do próximo comprador da TAP. Sou um forte defensor de que a TAP consiga preferencialmente integrar o IAG – International Airlines Group, grupo que controla companhias como a British Airways e a Iberia. Em termos nacionais, é fundamental que percebamos que a nossa capacidade de intervenção à escala europeia precisa de uma dimensão mínima nacional. O mesmo não aconteceria se assumíssemos em conjunto com Espanha uma dimensão ibérica. O caso da Escandinávia, de três pequenos países [Dinamarca, Suécia e Noruega] que souberam integrar-se numa estratégia conjunta, o próprio Benelux [união económica e aduaneira formada pela Bélgica, Holanda e Luxemburgo] e a ligação da Holanda à Alemanha, para ganhar em muitas áreas dimensões mínimas, são três exemplos que devem fazer-nos pensar a sério sobre como definir uma estratégia ibérica de afirmação.
Luís Barra
O que ganharíamos em trabalhar em conjunto com Espanha?
Nós somos um país fortemente unitário, com duas regiões insulares. As grandes decisões são sempre assumidas numa base de país unitário, mas muito dependentes da centralidade de Lisboa. E, por isso, outras regiões que não têm peso político, como o Porto ou o Algarve, por exemplo, têm sempre dificuldade em se afirmar, e isto não se passa com Espanha. A assunção do poder regional e do conceito de regionalismo em Espanha tem feito com que haja uma necessidade conjunta a todos os níveis, quer das acessibilidades, quer da afirmação do desenvolvimento económico. Todas as cidades espanholas se cruzam por ligações aéreas e ferroviárias. É esta perceção de uma visão em estrela no desenvolvimento que é preciso ter.
O aumento da oferta hoteleira tem de ser acompanhado pelo transporte aéreo, mas os limites da capacidade aeroportuária são um travão ao turismo. É um círculo vicioso.
Infelizmente. Os hotéis que estão a ser construídos agora foram pensados há cinco ou dez anos. Este ciclo de vida que é maior na oferta e totalmente desfasado do ciclo de procura é um dos grandes problemas desta adaptação em termos de turismo nacional. Aquilo a que se assiste agora no crescimento da oferta em Lisboa eventualmente não aconteceria se houvesse uma informação atual que dissesse que o próximo aeroporto só daqui a dez anos é que vai estar pronto. É fundamental que todos os stakeholders na área da mobilidade, por exemplo, tenham a mesma visão, para que a procura centrada mais em número de noites do que em número de clientes acompanhe o crescimento da oferta.
Os destinos dos voos da TAP condicionam os vossos planos de localização de um hotel?
Preferencialmente, sim. O exemplo do investimento do grupo PortoBay no Brasil [a abertura do primeiro hotel no país, no Rio de Janeiro, em 2007] foi inclusivamente uma segunda opção de investimento. Não fomos para o México, como defendia a nossa empresa parceira Thomas Cook na altura, um dos maiores operadores turísticos europeus, e o Brasil constituía um mercado particularmente importante. São 200 milhões de habitantes, mas só 10%, 20 milhões de brasileiros, viajam. Porque não ter hotéis nos sítios que são grandes geradores de tráfego turístico? Por isso, fomos para o Rio de Janeiro e para São Paulo, em 2009, com uma pequena exceção de Búzios, em 2007, uma unidade só com 20 quartos.
Em que zonas privilegia abrir novos hotéis?
A prioridade a curto prazo é consolidar a operação algarvia. Temos oito unidades hoteleiras na Madeira, tínhamos só uma no Algarve, em ambiente de cessão de exploração, o PortoBay Falésia, em Albufeira, e achámos que era o momento exato para aumentar a nossa capacidade, não só numa lógica de exploração, mas também numa lógica de investimento.
Está a falar da parceria que fez com o grupo da família Humbria Brazão?
Perguntei-lhes se havia interesse em venderem o hotel Blue Ocean, vizinho do lado do PortoBay Falésia, e são eles que nos dizem: “Queremos que sejam nossos sócios nas duas propriedades.” Passámos de 310 para 660 quartos e temos mais projetos que vão suportar o nosso plano de investimentos futuros: mais um hotel no Algarve, na zona velha de Lagos, e um outro na zona velha do Funchal. Queremos consolidar a nossa oferta, ganhar uma dimensão acrescida em termos nacionais, não sem que estejamos francamente abertos a olhar para Espanha.
Esta joint venture é uma forma de fintar os grandes fundos de investimento, responsáveis pelo aumento dos preços do imobiliário turístico?
O aparecimento dos fundos de investimento imobiliário determinou alguma mudança. A visão que tinha como investidor, alguma tolerância sobre os prazos de payback do investimento – se não conseguisse em sete ou oito anos, não perdia a hipótese de melhorar o meu produto, mesmo que o payback fosse aumentado –, fez com que começasse a olhar para o investimento de forma reativa, porque estávamos a ser ultrapassados.
As guerras obrigaram as pessoas a repensar os destinos de férias. A localização geográfica de Portugal tem-nos beneficiado? Mas até quando estaremos salvaguardados?
Enquanto as situações de guerra mais ligadas ao Leste do Mediterrâneo se mantiverem de base regional, seremos ganhadores porque há um princípio de vasos comunicantes no Mediterrâneo, sempre. A oferta turística é superior à procura turística numa base relativamente estável da Europa. Os contributos que tem havido de mercados intercontinentais, nomeadamente do dos Estados Unidos para a Europa, têm sido importantes. Estão criadas as condições para que haja uma diferenciação da nossa oferta turística. Evidentemente, há fatores que alteram esta concórdia. Em primeiro lugar, são os investimentos feitos na bacia Leste do Mediterrâneo em termos turísticos e diria com particular ênfase na Turquia, um grande concorrente da bacia ibérica.
Não podemos esquecer-nos de que a Turquia tem uma Turkish Airlines com 300 e tal aviões com uma ligação intercontinental muito grande, mas serve-se da lira turca. O turismo tem uma importância suficientemente grande para fazer com que a moeda se altere em função da evolução do tráfego para o país. Depois tem muitos exemplos de investimentos verticais, ligados ao transporte, à operação turística e ao hotel.
Alguma vez sentiu a desvantagem da insularidade?
Para um madeirense, o mar é um fator de ligação ao mundo, de libertação e de mudança. Durante muitos anos, até quase meados do século XX, a Madeira era uma região particularmente pobre e vivia das remessas de emigrantes que os barcos levavam para a Venezuela, a África do Sul e o Brasil. Não podemos esquecer-nos de que uma terra de 250 mil habitantes atualmente tem mais de um milhão de madeirenses, de primeira e segunda gerações fora da região.
B.I.
> Nome António Jorge Mammerickx da Trindade
> Vida Nasceu a 10 de fevereiro de 1948. É licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas só exerceu advocacia durante dois anos. Toca piano e fez parte do conjunto musical Sweet Lovers, em que tocava viola baixo
> Carreira Além da atividade hoteleira, tem um passado na política. Foi vereador da Câmara Municipal do Funchal, durante três mandatos, e foi deputado do Partido Socialista duas vezes na Assembleia Legislativa Regional e outras duas na Assembleia da República
Números do Grupo PortoBay
89% ocupação Taxa de ocupação média anual, em 2023 e 2024
€129 milhões Receitas em 2024, um crescimento de 11% face ao ano anterior: 116 milhões de euros em Portugal e 86 milhões de reais (14 milhões de euros) no Brasil
4 050 camas No total dos 1 689 quartos espalhados por 17 hotéis de quatro e cinco estrelas em Portugal (Madeira, Algarve, Lisboa e Porto) e no Brasil (Rio de Janeiro, Búzios e São Paulo)
5 distinções No Guia Michelin 2024: renovação das duas Estrelas Michelin e a Estrela Verde para o restaurante Il Gallo d’Oro, mais três recomendações para o Avista, o Horta e o Avista Ásia
”
Artigo publicado originalmente na Exame nº 489
No sábado, os líderes dos países mais poderosos da Europa – Alemanha, Reino Unido e França –, juntamente com o líder de um dos mais militarmente capazes de estancar a Rússia a Leste – a Polónia –, foram a Kyiv. Desta vez, não se limitaram a proferir palavras vazias. Merz, Starmer, Macron e Tusk uniram-se a Zelensky para fazer um ultimato a Vladimir Putin: ou aceita um cessar-fogo de 30 dias a começar esta segunda-feira ou a Rússia será alvo de um pacote de sanções “massivas” e a Ucrânia receberá uma nova e ininterrupta onda de apoio militar para rechaçar o invasor. Vários outros líderes juntaram-se remotamente, incluindo Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana, Mark Carney, o novo primeiro-ministro canadiano, Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, e Mark Rutte, o secretário-geral da NATO. E Donald Trump. Emmanuel Macron ligou ao presidente dos EUA para o incluir na conversa e assim vinculá-lo ao acordo. “Olá, Donald. Posso ligar-te daqui a dois minutos com o Zelensky?”, perguntou, retoricamente, o presidente da França, ao telefone com Trump, num vídeo que ele próprio partilhou no X (ex-Twitter). Com este ultimato, a Europa livre e democrática encostou Putin à parede.
O novo Papa, Leão XIV, inaugurou o seu pontificado com um apelo vibrante à paz — na Ucrânia, em Gaza, e onde quer que exista e persista. «Guerra, nunca mais!» — proclamou. E essa invocação, lançada como prece, ecoou em Moscovo e em Kiev, onde, após três anos de conflito, se prepara um encontro direto entre Putin e Zelensky, sob mediação turca. Que assim seja, por fim.
Leão XIV foi escolhido pelos cardeais para guardar as chaves de uma Igreja atribulada, num tempo de provações e interrogações. E, mais uma vez, como sucedera com João Paulo II e com Francisco, confirmou-se a velha máxima: quem entra papabile, sai cardeal.
Surpreendente foi, de facto, esta eleição, mas o Espírito designou um cardeal relativamente jovem (69 anos), oriundo de um vasto país continental, que carece de fiéis e que conhece, muito de perto, os dramas e os dilemas dos católicos espalhados pelo mundo. Não apenas nas Américas, mas também na Ásia, em África, e até nesta velha Europa, onde, contra todas as expectativas, germina um sinal luminoso: cada vez mais jovens se aproximam dos preceitos da fé, ajudam a repensar os caminhos da Igreja, e recusam deixá-la entregue à erosão das gerações anteriores.
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Esse sinal — discreto mas firme — começa também a irradiar para outros continentes. E foi a essas gerações novas, portadoras de esperança e continuidade, que Leão XIV dirigiu as suas primeiras palavras. Como João Paulo II, também ele terá de levar a Igreja ao mundo, palmilhar todos os caminhos, sem temor, sem clausura, convocando os ausentes, chamando os distantes, sem se encerrar nos muros do Vaticano.
Temos um novo Papa. Chama-se Leão — e sabe, como poucos, os caminhos que a Igreja tem de trilhar com todos. Todos. Todos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Por estes dias, Melanie Tavares, 49 anos, anda num virote. E nem a chuva persistente ou a escorregadia calçada portuguesa a impedem de se apresentar impecável, em cima de uns elegantes saltos altos. Ao trabalho de coordenação no Instituto de Apoio à Criança, às consultas que dá na margem sul do Tejo e à sua constante presença televisiva, esta psicóloga, nascida na África do Sul e criada primeiro no Brasil e, mais tarde, em Lagos, acrescenta agora os afazeres relacionados com a publicação De Tanto Sofrer, Esqueci-me de Viver [Planeta, €15,21]. O seu primeiro livro baseia-se numa experiência pessoal para tratar de um assunto tantas vezes esquecido: o trauma.
A escrita sobre o seu episódio traumático foi o ponto final no processo de superação? Foi um desafio da editora, depois de se tornar público aquilo por que tinha passado. Mas efetivamente, no final do livro, acabei por perceber que estava tudo no sítio certo e que até nem foi doloroso de reviver. Serviu sobretudo para ter a certeza de que tinha corrido bem.
Vou pedir-lhe que repita a história que conta no seu livro. Que trauma foi esse que suscitou tanta coisa na sua vida? Foi uma amiga que morreu, de repente, ao pé de nós. Éramos todos crianças, estávamos a brincar – nada fazia prever uma situação daquelas. Às tantas, ela parou de brincar, sentou-se e percebemos que não estava bem. Pedimos ajuda a um adulto (foi preciso ali alguma capacidade para pensar, e não fui eu, porque fiquei completamente paralisada, acho que entrei mesmo em choque), levaram-na para o hospital, mas já não houve nada a fazer.
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O que lhe aconteceu? Na altura, não tivemos bem a noção. Terá sido algo como um ataque cardíaco fulminante, um enfarte, um AVC ou qualquer coisa do género. Nunca soube. Acabámos por não ter muito mais contacto com a família, que viveu o luto para dentro. Nem tenho memória nenhuma do que veio a seguir.
Esse acontecimento fez com que percebesse a importância da psicologia, apesar de ter pouco mais de 10 anos? Foi logo aí. Passado algum tempo, tive muitos episódios de grande ansiedade, medo e ataques de pânico. Tudo era ameaçador, desde um procedimento simples, como ir fazer análises, até ir à praia, apanhar sol.
Que tipo de acompanhamento teve? Fui sempre acompanhada pelo meu médico de família, que é uma pessoa muito humanista e acolhedora. Deu-me algum suporte, mas depois percebeu que devia procurar a ajuda de um profissional especializado.
Como foi essa experiência? Correu tão mal… Tive a noção de que estava num desespero enorme, que precisava realmente de alguém que soubesse acolher a minha dor e trabalhá-la.
E o psicólogo não soube fazer isso? Não conseguiu estabelecer relação comigo, tratou-me como uma adulta, sendo demasiado diretivo nas perguntas e fazendo-me verbalizar e relatar tudo o que tinha acontecido. Não me deu espaço.
Então achou que deveria ser psicóloga? Foi a partir daí que comecei a desenvolver a ideia de que gostaria de ser psicóloga, pois fui percebendo a importância de ser alguém que pudesse ajudar outras crianças. Ao contrário do que seria o expectável, não foi por me identificar com aquela pessoa.
Depois, encontrou alguém, como procurava, para a ajudar no caminho? O meu médico continuou a dar-me apoio e fui a um neurologista, mas não voltei a um psicólogo. Só em adulta, já em Lisboa, é que, efetivamente, comecei a ter uma relação terapêutica com um psicólogo, numa fase em que já não tinha que ver com este trauma. Nem quando tive outro episódio traumático – a perda de um primo que era um grande suporte para mim quando já tinha uma vida social mais ou menos normal, limitada por uma educação rígida – consegui um acompanhamento como deve ser.
Como acabou por resolver o seu trauma? Tinha muitas conversas com o neurologista e com o meu médico e as coisas foram-se organizando. Depois tive um bom suporte da família, porque não fazia aquilo que era expectável numa criança: brincar, ir à praia, fazer amigos. Limitei-me muito.
Foi curioso ter conseguido cumprir esse desejo de ser psicóloga. Não foi fácil, porque no Algarve não havia o curso de Psicologia e eu estava para vir embora na altura em que perco o meu primo. Fiquei muito fragilizada e comecei a questionar se era capaz de deixar o Algarve. Voltei a ter em mim todos os medos, todas as angústias. E sair de Lagos quando tinha 18 anos, em 1994, não era bem como sair agora. Felizmente, tive o suporte de um casal de primos que vivia em Lisboa – ajudou-me muito a dar a volta e a organizar-me.
Também não se desiludiu com a profissão. Era exatamente isto que queria. Tive experiências de voluntariado e de estágios muito enriquecedoras. Cruzei-me com pessoas que ainda hoje me acompanham e são uma referência para mim. Fizeram-me acreditar que havia profissionais muito diferentes daqueles que conheci com 10 anos.
Ainda existe preconceito na procura de ajuda psicológica? Há um grande estigma social em relação à saúde mental, porque achamos que as pessoas que pedem ajuda são fracas, frágeis. No geral, associa-se a depressão, a falta de energia, a uma pessoa preguiçosa que não quer fazer nada. Desde a pandemia que há uma maior aceitação de que efetivamente pedir ajuda é um ato de coragem e não de cobardia. Existem momentos da nossa vida em que precisamos de nos rodear de quem sabe, para aprender técnicas, ganhar ferramentas, para refletirmos, questionarmos, encontrarmos o nosso caminho e voltarmos a viver sem ser apenas focados na dor.
A pandemia foi um marco na saúde mental geral global? Foi um trauma coletivo, pois ninguém estava preparado para uma adversidade daquelas, durante tanto tempo. Teve consequências graves e ainda vamos estar a vivê-las durante muitos anos, sobretudo os miúdos que não puderam ter alguns rituais de passagem, como o baile de finalistas ou a integração no primeiro ano da escolaridade. Depois, houve pessoas que tiveram de adiar projetos de vida, como um casamento. Já para não falar dos rituais como o funeral, importantíssimo para integrar um luto.
Já passaram cinco anos, mas a memória continua muito presente. Trata-se de uma herança emocional: quem viveu vai transmitir aos mais novos. Há que pensar ainda nas questões relacionadas com o contacto das famílias, das pessoas que eram figuras de referência, como os avós, em que houve o corte na relação de proximidade, dos cheiros, das rotinas. E depois a angústia que foi a possibilidade de se perder algum ente querido. Houve muita gente que sofreu calada, sobretudo nos casos de violência doméstica ou maus-tratos das crianças.
Nem toda a gente tem dinheiro para fazer terapia, o Serviço Nacional de Saúde não tem capacidade de resposta e os seguros não comparticipam. Como se resolvem essas questões pendentes? Tomam-se comprimidos? Normalmente, é o que acontece. Começa tudo pelos comprimidinhos no médico de família. A medicação efetivamente alivia o sintoma – às vezes é importantíssima. Quando uma pessoa está num sofrimento profundo, nem conseguimos conversar com ela. Só que a intervenção deveria ser interdisciplinar. Se não trabalharmos as causas, é como irmos ao dentista e pormos ali um compósito no dente, sem se limpar até à raiz – mais cedo ou mais tarde vai doer. Fico angustiada quando vejo pessoas a chegarem no limite à minha consulta.
Não se nasce com nada. Por isso é tão importante a vinculação que estabelecemos com os cuidadores. A forma como investem na criança e como lidam com as suas frustrações e expetativas
Não têm de facto alternativa… E acabam por tomar essa medicação para serem mais funcionais, para que a rotina não seja comprometida. Com o passar do tempo, o impacto financeiro nos cofres do Estado é maior porque temos imensas baixas médicas por questões de saúde mental, a produtividade baixa, os apoios sociais têm de ser acionados, quando devíamos era investir na prevenção.
As escolas vão passar a ter um psicólogo por 500 alunos, a partir do próximo ano letivo. É suficiente? O trabalho nas escolas é mais de despiste do que propriamente de tratamento. Mas é importante haver psicólogos a trabalhar as áreas da prevenção primária, nomeadamente de gestão de agressividade, violência, frustração, valores, formas de estar e de ser. E para fazer uma triagem atempada de situações que requeiram acompanhamento psicoterapêutico.
É o tipo de trabalho que faz no Instituto de Apoio à Criança, enquanto coordenadora de mediação escolar? Essa mediação operacionaliza-se nas escolas através dos Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família. Existem equipas multidisciplinares que fazem acompanhamento aos alunos, em contexto de recreio e em sala de aula, com intervenções de sensibilização para temas que tenham que ver com as necessidades daquelas crianças. Também acompanhamos as famílias, tentando ser um suporte para responsabilizar os pais nas suas funções parentais. De vez em quando, temos alguns que se demitem.
Isso é pedido pela escola? Sim. Fazemos muitas ações em escolas, quer com pais, professores ou alunos. No ano passado, acompanhámos quase sete mil meninos, de 47 agrupamentos escolares de norte a sul do País. Os problemas que diagnosticámos resolveram-se em 70% dos casos.
A série Adolescência trouxe para a ribalta a questão do cyberbullying. Em que sentido este modo de agredir veio modificar o processo? Dantes sofria-se de bullying na escola. Saímos de lá, nas férias e fins de semana, e sentíamo-nos seguros. Evitávamos o medo, a humilhação, o confronto com o agressor. Neste momento, as vítimas estão a ser alvo de bullying 24 sobre 24 horas. E enquanto que na escola identificávamos quem nos fazia mal, agora, muitas das vezes, esses bullies não têm rosto, porque, cobardes que são, acabam por arranjar perfis falsos ou até anónimos para ameaçar as vítimas. Além disso, há uma exposição que também transcende a escola. Agora, é mais difícil de identificar, mais difícil de resolver e mais difícil de recuperar a vítima. Eles têm a noção de que uma vez na internet, toda a vida na internet.
Foi preciso uma série para os pais perceberem o que se passa com os filhos? Andamos há uns 15 anos, pelo menos, a avisar que o perigo está no bolso dos miúdos. No início, dizíamos para supervisionar, para o computador estar na sala. Depois agravou-se, com a internet em qualquer sítio, a qualquer hora.
Tornou-se mais difícil de os pais supervisionarem? Criticamos os miúdos porque vivem agarrados aos tablets, aos telemóveis, mas os pais têm exatamente o mesmo comportamento. Cada um fica no seu mundo, mesmo que estejam ao lado uns dos outros, no mesmo espaço físico. Acaba-se com a relação, a comunicação e os momentos de estar em família, que implica a partilha de atividades, conversas, angústias, conquistas, sonhos, alegrias, tristezas. E zangas, que também fazem parte de uma família – é mais fácil não se zangarem continuando cada um a viver as suas coisas.
Como atuar em relação àquilo que eles têm no bolso com o mundo inteiro lá dentro? Começa, como já disse, pelos próprios pais também usarem menos o telemóvel – são os modelos das crianças, que replicam aquilo que veem. Os miúdos organizam-se pela rotina. O que os desorganiza é a falta de limites e de regras.
Há sempre os mais desafiadores… Para esses, há que ter cuidado redobrado. E, apesar de achar que temos que respeitar a intimidade dos miúdos, em tudo aquilo que ponha em causa ou risco a integridade física ou mental dos filhos, os pais têm de intervir. Se existir algum tipo de suspeita, devemos promover muito diálogo e deixar abertura para que eles também partilhem. Não criticar à primeira, tentar passar uma mensagem que seja pedagógica, estar atento a determinadas alterações de comportamento, como maior isolamento ou maior irritabilidade – tudo o que seja uma alteração àquilo que os nossos filhos são habitualmente. Se acharem que não estão a ser capazes sozinhos, procurem ajuda técnica.
Quais são os principais mitos em relação ao trauma? Que tudo passa com o tempo. Qual tempo? O tempo de quem? O tempo é o de cada um e pode ser muito mais penoso e duradouro se a pessoa decidir fazer esse percurso sozinha. Também há aquele mito do “é da tua cabeça”. Pois é, mas temos de respeitar o sofrimento do outro, sob o risco de estarmos a afundar a pessoa, a pô-la ainda mais para baixo. O que interessa é como determinado acontecimento impactou em cada um e isso tem muito que ver com a estrutura de personalidade, a educação, o contexto onde se vive, as pessoas que se tem à volta, os amigos que se foram criando ao longo da vida. Ninguém está assim porque quer. Agora, às vezes, é preciso querer muito para sair. Há sempre outra forma de ver a realidade, sobretudo se soubermos ir buscar ajuda, nem que seja de um amigo.
O seu filho de 22 anos tem necessidades especiais. Foi outro acontecimento traumático para si? Não acho que tenha sido um trauma. Se calhar consideraria como uma ferida, porque fui desacreditada naquilo que era a minha angústia, a minha premonição, o meu pressentimento. Desvalorizaram-me sempre, porque era psicóloga, porque era ansiosa. Depois tive de projetar a angústia de não ser eterna, o que obriga a uma preparação do futuro. Passado pouco tempo do diagnóstico, engravidei de novo, consciente de que se se confirmasse o mesmo problema genético, teria de fazer uma interrupção, o que veio a acontecer. Foi tudo angustiante e, nessa altura, sim, tive apoio psicológico fundamental.
A autoestima é algo com que se nasce ou trabalha-se? Não se nasce com nada. Por isso é tão importante a vinculação que estabelecemos com os cuidadores, não necessariamente a mãe ou o pai. Falo da forma como investem na criança e, depois, conforme vai crescendo, a forma como lidam com as suas frustrações e expetativas.
Confunde-se o amor próprio com egocentrismo? Gostarmos de nós não é vivermos centrados no nosso umbigo, é posicionarmo-nos no mundo como seres únicos e especiais, mas não exclusivos. Quando somos egocêntricos, o mundo gira à nossa volta, não temos a capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro ou percebermos os seus sentimentos. Quando temos autoestima, estamos a cuidar de nós próprios, mas não achamos que somos a última Coca-Cola do deserto, que só nós existimos e que os outros giram à nossa volta.
A grande competitividade entre os concorrentes voltou a ser imagem de marca da mais recente prova, o Gaia Eco Rally, do campeonato exclusivamente dedicado a veículos 100% elétricos. Após 11 provas especiais de classificação, os dois primeiros estavam separados por apenas seis décimas de segundo. Mais impressionante ainda: foi preciso descer até ao 13.º lugar da geral para encontrar uma média de erro superior a um segundo por ponto de controlo. Os 12 primeiros classificados demonstraram uma regularidade notável, com desvios médios inferiores a um segundo nos mais de 120 pontos cronometrados ao longo do percurso.
“O melhor campeonato do mundo”
No pódio final, celebrado no emblemático Cais de Gaia, subiram Emilien Le Borgne e Alexandre Stricher (Dacia Spring), seguidos por Eduardo Carpinteiro Albino e José Carlos Figueiredo (Kia EV3), e por Filipe Maia e Tiago Caio (Polestar 4). A dupla francesa, habitual participante no campeonato português, não poupou elogios: “É o melhor campeonato do mundo”, afirmou Le Borgne à Exame Informática, com Stricher a reforçar: “e o mais competitivo”. Esta foi a sua primeira vitória em provas de regularidade em solo nacional, apesar de já contarem com larga experiência internacional. “Competimos em Espanha, França, República Checa… e nenhuma outra prova tem a qualidade e o nível competitivo do campeonato português”, garantiu o piloto francês.
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A prova surpreendeu muitos dos participantes pela variedade de ritmos e exigência técnica do percurso. Por momentos, a regularidade pareceu dar lugar a um verdadeiro rali de velocidade, colocando à prova a destreza de pilotos, a precisão dos navegadores e a capacidade de resposta das máquinas elétricas.
O Eco Rally de Gaia terminou da melhor forma, com uma Power Stage no Circuito Internacional de Lousada, troféu vencido pela dupla Pedro Morais e Silvia Coutinho em Hyundai Ionic 5.
edro Morais e Silvia Coutinho em Hyundai Ionic 5. Foto: Bernardo Lúcio
Equipa PRIO – Exame Informática no top 5
João Paulo Martinho e Nuno Costa, em Peugeot e-208, alcançaram um excelente quinto lugar, depois de uma recuperação notável. Para Nuno Costa, estreante neste campeonato mas já bicampeão nacional de Regularidade Histórica (2023 e 2024), foi uma prova desafiante: “A aceleração dos elétricos, com o binário imediato, apanhou-me de surpresa”, confessou.
Foto: AIFA
Já o segundo carro da equipa, um Peugeot e-3008 pilotado por Sérgio Magno e navegado por Ana Joaquim, foi penalizado por dois erros decisivos que os relegaram para a 13.ª posição final.
Próxima paragem: E-Rally Alentejo Central
O Campeonato de Portugal de Novas Energias – PRIO prossegue com o E-Rally Alentejo Central, agendado para os dias 21 e 22 de junho. Uma nova oportunidade para confirmar o elevado nível competitivo que já se tornou marca registada deste campeonato eletrizante.
De todos os géneros literários, o diário é certamente o mais difícil de definir, o mais híbrido. E considerá-lo um género literário é já em si assumir que se escreve para ser lido, mesmo no caso de um escritor, como Vergílio Ferreira, que nunca se cansava de dizer que não escrevia para os outros, apenas para si próprio, como necessidade, modo de ser e de estar. Mas é esse diário monumental, que o ocupou de 1969 a 1992, que agora regressa às livrarias portuguesas, numa nova edição da Quetzal.
O primeiro volume, que recolhe os três tomos iniciais, foi lançado no passado mês de abril, na casa do escritor, em Melo (ver caixa nas páginas seguintes), o segundo será lançado no próximo dia 22. Em novembro encerra-se este enorme empreendimento editorial, só possível com o apoio da Câmara Municipal de Gouveia, que na sequência das comemorações do centenário do autor de Aparição, em 2016, continua empenhada na divulgação da obra do escritor mais relevante do seu concelho e aquele que melhor transportou, para os seus livros, aquela região.
“Lutar contra o esquecimento”
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Ao seu diário, Vergílio Ferreira chamou Conta-Corrente, expressão do mundo da economia que sublinhava a omnipresença da escrita. Talvez também estivesse na cabeça do escritor a vontade de distanciar estas entradas regulares, logo a partir do título, de uma literatura mais séria – o que, como muitos leitores e críticos apontaram, muitas vezes se concretizou, noutras se contrariou. Apesar de ter iniciado a prática diarista em 1969, o primeiro tomo só viria a ser publicado em 1980. A sua publicação foi um acontecimento editorial; tal como esta reedição, que o faz regressar às livrarias portuguesas depois de muitos anos inacessível, também o é.
Vergílio Ferreira era, à data, um dos autores mais prestigiados do país. Fora um autor de referência durante o Estado Novo, com obras que marcaram o panorama literário português, como Manhã Submersa (1954) e Aparição (1959), mas também pelos ensaios, sempre de pendor existencialista, como Carta ao Futuro ou Interrogação ao Destino, André Malraux. A década de 80 marcou a sua consagração, com sucessivos galardões, incluindo o Prémio Camões, em 1992.
lançamento da reedição de Conta-Corrente, em Melo. Ao lado, o Presidente da República Mário Soares condecora Vergílio Ferreira, em 1989, sob o olhar do primeiro-ministro Cavaco Silva
Além disso, se é certo que havia uma tradição diarística em Portugal, ela nunca fora muito expressiva. Quando Vergílio Ferreira começou a escrever o seu diário, havia o de Miguel Torga, iniciado em 1941 e também com enorme repercussão, fundada na relevância literária do seu autor e sobretudo na diversidade de textos aí recolhida; e o de Ruben A., a partir de 1949. Refira-se, ainda, para acrescentar mais exemplos, o de Sebastião da Gama, publicado postumamente, em 1958, o de Manuel Laranjeira, dado à estampa seis anos antes, e o de José Gomes Ferreira, que na década de 60 já tinha começado a sua aproximação ao diário, que viria a continuar, em sucessivos volumes, anos mais tarde.
Mas para se avaliar o impacto que Conta-Corrente teve, mais importante do que a genealogia em que Vergílio Ferreira se inseriu, é preciso atender à natureza do próprio diário, numa abordagem que fez escola, nomeadamente nos Cadernos de Lanzarote que José Saramago iniciou em 1994. Estas são páginas íntimas e de autointerpretação, para recorrer a uma expressão de Fernando Pessoa, mas também dos dias comuns, do quotidiano do escritor, das suas alegrias, sempre breves, e das suas irritações, nunca omitidas. É também o retrato de uma época em constante mudança, com os últimos anos da ditadura do Estado Novo, a efervescência da Revolução de 1974 e a democratização do país. Nesse sentido, é um documento único, uma cartografia de modas, tendências, novidades, recorrências e acontecimentos interpretados por um autor já formado, com sólidas bases na filosofia e no pensamento, e que usa a escrita para se compreender e compreender o outro, para se interrogar e para interpelar o mundo. “Este é o diário mais importante da literatura portuguesa”, defende Francisco José Viegas, escritor e editor da Quetzal, leitor obsessivo de Vergílio Ferreira, sobre quem escreveu por diversas vezes, incluindo nas páginas da VISÃO. “Voltar a publicá-lo é lutar contra o esquecimento, esse exército terrível e invisível.”
Desabalada e de torneira aberta
Vergílio Ferreira acabava de fazer 53 anos. Influenciado pelos autores que lera e admirara, vivia, nessa idade, o tempo da confissão, da coragem com que concretizava apelos antigos; ou, pelo menos, o tempo de deixar de se render ao pudor. E sabia as implicações e o significado de um diário de um escritor já muito lido, sobretudo quando escrito com ideia de vir um dia a publicá-lo. “Admiro os que o conseguiram, desde a juventude. Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós (é-me difícil falar de mim). Aliás, como os outros, desconheço-me”, confessa logo na primeira entrada, a 1 de fevereiro de 1969, ele que celebrara o seu aniversário a 28 de janeiro. “Serei agora capaz? Tento. Seguro-me ao argumento de que me dá prazer ler os registos dos outros. Leem-se sempre com curiosidade. Um motivo para insistir – satisfazer a curiosidade dos outros. Mas terei eu ‘outros’?”
Melo, Gouveia Na Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre vários artistas recriam obras do escritor. É o caso de Ana Biscaia, na instalação Escrever
O antecedente mais direto de Conta-Corrente na obra de Vergílio Ferreira, segundo Fernanda Irene Fonseca, professor Catedrática aposentada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que tem dedicado vários estudos ao escritor, é Invocação do Meu Corpo. Este “ensaio poético-filosófico” foi publicado em 1969 e abriu a porta para a “escrita do eu” e, não menos importante, um registo alternativo ao romance. O próprio Vergílio Ferreira viria a reconhecer e até a detalhar, com humor, a especificidade de Invocação do Meu Corpo e de Conta-Corrente. Ao contrário da ficção e da narrativa longa esta era uma escrita mais rápida, embora não menos refletida, com outro tom e toada, num encontro entre racionalidade e emoção. É, nas palavras do escritor, uma escrita “excessiva”, “desabalada”, “de torneira aberta”. Uma escrita, ao fim e ao cabo, heterodoxa, como o seu autor.
“O escritor noturno levou a sua febre de escrever, a sua euforia/agonia da escrita para o dia, para o diário”, sublinha Fernanda Irene Fonseca, no ensaio Vergílio Ferreira: A Celebração da Palavra. “Em Conta-Corrente vai expandir-se esse ‘modo pessoal e vivido’ de atravessar as grandes questões do seu tempo. Mas não só: de atravessar também as pequenas questões do seu quotidiano, os pormenores fortuitos em que é possível surpreender uma instantânea revelação.”
“Conta-Corrente”
Até ao fim do ano, estará nas livrarias a totalidade dos diários de Vergílio Ferreira, editados em três volumes. Este primeiro (Quetzal, 1 168 págs., €27,70), já lançado, engloba textos escritos entre 1969 e 1981
Uma outra escrita que não poucas vezes saturou o escritor, da mesma forma que o seduziu. Depois de cinco tomos, publicados entre 1980 e 1987, Vergílio Ferreira anunciava o fim de Conta-Corrente, publicando, pouco depois, o ensaio Pensar. Mas seria pausa de pouca dura, pois em 1993/94 lançou uma nova série do diário, com mais quatro tomos. Em excesso ou em contenção, Vergílio Ferreira ambicionava sempre o mesmo, como confessava no próprio diário: “Que bom poder escrever e ser feliz na escrita.”
Contra a morte
Para os leitores que atacam os livros com um lápis bem afiado, Conta-Corrente é uma obra tentadora. Além do domínio do aforismo, a escrita de Vergílio Ferreira é reflexiva e preenchida, como pedia Camões, com o saber de experiência feito. Experiência essa que também vinha da própria leitura e da escrita, do conhecimento e das potencialidades que o texto encerra. “Toda a obra de arte é um combate contra o tempo, contra a morte, a decadência de nós, a estupidez e a opacidade do mundo”, afirma em Conta-Corrente, como que reforçando o sentido e o significado do seu gesto literário e artístico. “A realidade imediata é pesada como a estupidez. E como ela é tirânica. Se a arte fosse um ‘refúgio’, a vida seria bem ligeira. Mas para chegar até à arte há que ultrapassar várias camadas sobrepostas de matéria grossa e espessa.”
Conta-Corrente dá-nos um extraordinário retrato do escritor – “A literatura é a minha razão de ser. Tudo o mais me ésecundário” – e revela-nos as suas opiniões fortes sobre a vida, o País, a literatura e os seus autores. Algumas passagens conseguiram pôr Vergílio Ferreira de mal com todos, incluindo no espectro político. Mas disso o escritor nunca se queixou. São vários os exemplos que podem ser citados, algum certeiros, outros cómicos (“Há três grupos de escritores: o dos bons ou muito bons, o dos razoáveis e o dos maus. Alguns não fazem parte de nenhum destes grupos.”), muitos bem atuais. E é essa a força de uma escrita que, de tão corrente, se fez contínua, abarcando a vida toda.
Escrever com Vergílio
Um programa de residências literárias convida escritores e outros artistas a inspirarem-se na mesma paisagem que moldou a obra do autor de Manhã Submersa
Um criador a inspirar outros criadores. Foi com esta filosofia que a Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, na aldeia de Melo, em Gouveia, lançou um programa de residências literárias, com curadoria de Adélia Carvalho e de Valter Hugo Mãe. Os candidatos podem escolher a duração da residência (até um mês) e beneficiar das condições únicas da casa: no sótão têm à sua disposição dois quartos e um escritório, assim como uma cozinha e uma casa de banho. Pela janela, a presença da montanha, a mesma que tanta influência teve na personalidade e na obra de Vergílio Ferreira. “A Casa abre-se para todos os lados, entra por ela à vontade todo do ar quente da tarde, os rumores longínquos da terra”, escreveu em Para Sempre, levando para a ficção a realidade concreta que tão bem conhecia. Passeando por estas divisões, os escritores aqui instalados talvez venham a sentir as mesmas sensações do protagonista desse romance de 1983: “Sozinho na velha casa, é um casarão, estou aqui. Há um grande silêncio comprimido sobre o mundo, atento escuto uma voz que não vem (…). O Silêncio em toda a casa. O silêncio dentro de mim.”
Silêncio semelhante terá sentido Rafael Gallo, escritor brasileiro, vencedor do Prémio José Saramago 2022, que aí terminou a sua residência no final do mês de abril, ainda a tempo de passar em Melo o longo apagão do passado dia 28. Tirando esse dia, aproveitou o vagar do tempo para pensar e adiantar o seu novo romance e para conhecer um autor que, inexplicavelmente, garante, é pouco divulgado no Brasil. Talvez agora se torne o seu embaixador do outro lado do Atlântico.
Como os anteriores escritores que passaram por esta residência (Gonçalo M. Tavares, Isabel Rio Novo ou Francisco Mota Saraiva) e a que a ocupará em julho (Cláudia Lucas Chéu), Rafael Gallo deixou livros seus na biblioteca da casa e escreverá um texto que será disponibilizado no festival literário de Gouveia Em Nome da Terra, que terá a sua 4.ª edição em outubro. E cumprindo o desejo dos promotores da residência, deixou uma frase no candeeiro que ilumina a grande mesa do escritório, num incentivo pessoal à criação. Eis a sua: “Escrever pelos mesmos motivos que um cão ladra.”
Voltar sempre
Ao contrário de muitas casas de escritores, a de Vergílio Ferreira não está cheia de objetos e curiosidades pessoais. É antes uma celebração da obra do autor, com recriações artísticas dos seus principais romances e temas, com destaque para a presença da montanha e a ideia de regresso
É logo na praça que se anuncia ao visitante e futuro leitor que se está perante uma obra maior, composta por várias etapas de um mesmo fluxo literário e de pensamento. Em frente à Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, em Melo, no concelho de Gouveia, abre-se um enorme largo. E a delimitar o seu contorno, pequenas lajes definem a cronologia dos livros do escritor, desde a sua estreia, em 1943, com O Caminho Fica Longe, até Cartas a Sandra, publicado em 1996, no ano da sua morte, primeira de várias edições póstumas. A enumeração, apenas o título e a data, é o primeiro convite a mergulhar num universo literário singular, que não poucas vezes se inspirou neste lugar, nesta paisagem, em vivências e memórias de infância ali passadas e reacendidas a cada regresso nas férias de verão.
Vergílio Ferreira não nasceu nesta moradia amarela, nem aqui viveu muitos anos. Em 1916, os pais moravam noutra casa (só habitariam esta muito mais tarde), a algumas ruas de distância do centro de Melo. E como três anos depois emigraram para os EUA, o futuro escritor cresceu, até ingressar aos 12 anos no seminário no Fundão, com a avó e as tias maternas. Ainda assim, esta casa, de dois pisos, imponente e de um traço elegante, tem uma simbologia especial, pois ressurge muitas vezes quer em romances do escritor, quer no seu diário, agora reeditado. Por isso, em 2016, ao encerrar as comemorações do centenário de nascimento de Vergílio Ferreira, a Câmara Municipal de Gouveia anunciou a compra da casa de família, na altura propriedade de uma sobrinha do escritor, projetando uma intervenção museológica e a abertura ao público, que se concretizou em 2024.
Feito o convite na praça principal, passa-se o portão, empurra-se a porta de entrada e descobre-se a força de uma obra que desafia novos leitores. Ao contrário de muitas casas de escritores, um conceito criado no século XVIII para celebrar grandes nomes da literatura mundial, a Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre é tudo menos convencional. Não segue o modelo habitual que procura, com maior ou menor fidelidade, reproduzir o quotidiano do escritor, às vezes com os objetos originais. Aqui não há máquinas de escrever prontas a serem usadas, nem tinteiros cheios ao lado de uma folha de papel em branco, nem uma vasta recolha de manuscritos. É, antes, uma recriação do universo do autor de Aparição, que destaca as suas obras mais emblemáticas e alguns dos conceitos-chave que percorrem romances, ensaios e outros escritos.
Essa recriação é sobretudo visual, com vários artistas a ocuparem cada uma das divisões do primeiro andar, já que no piso térreo o escritor é apresentado numa breve cronologia que esclarece as datas e os locais da sua formação, os seminários que frequentou (também o da Guarda), a sua formação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Filologia Clássica, e os liceus em que foi professor, primeiro em Faro, mais tarde em Bragança, Évora e Lisboa. Na primeira divisão, António Ramalho, bisneto da ceramista Rosa Ramalho e continuador da sua arte, apresenta, em pequenas esculturas, a “Família Literária” do escritor. “Quem me ensinou a escrever foi Eça de Queirós e quem me ensinou a refletir foi André Malraux”, costumava dizer Vergílio Ferreira. E ali estão eles, em cerâmica, ao lado de mais quatro autores (escolhidos entre muitos outros) que marcaram a sua formação: Raul Brandão, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Albert Camus.
Segue-se a sala dedicada à obra Escrever, publicada só em 2001, a partir dos manuscritos encontrados no espólio, que mostra como a escrita era um modo de ser, mas também de estar – na vida, na existência e no pensamento. É uma vida feita de papel e de palavras que a designer gráfica e ilustradora Ana Biscaia interpreta, evocando uma mão que remexe a terra, como quem lança a semente para depois colher. Numa outra sala recorda-se a relação do Vergílio Ferreira com o cinema, em particular a adaptação que Lauro António fez de Manhã Submersa. O filho do realizador, Frederico Corado, assina a curta-metragem que aí se projeta, feita a partir de fotografias tiradas durante a rodagem daquele filme e de outro material inédito. Ao lado, Paulo Neves evoca, numa escultura em madeira, a presença da montanha na obra vergiliana, montanha essa que é tanto um lugar natural, quanto metafísico. Duas outras obras são interpretadas em salas próprias: Para Sempre (o romance em que esta casa é mais evocada), por Evelina Oliveira, e Cartas ao Futuro, por Luís Silveirinha.
A Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre encerra o Roteiro Literário Vergiliano que também foi lançado nas comemorações do centenário do seu nascimento. Na aldeia de Melo, passa por 19 pontos, desde a casa onde o escritor efetivamente nasceu até esta casa amarela, passando por capelas, lojas, tabernas e várias ruas. Com a ajuda do guia “Melo e a aldeia eterna de Vergílio Ferreira” é possível ler passagens em que estes edifícios e lugares foram transportados para a ficção, em descrições muitas vezes fieis e precisas. Noutro percurso integrado no Roteiro Literário Vergiliano propõe-se uma volta maior, de nove quilómetros, pela envolvente da aldeia, onde a Natureza mais se impõe. A mesma que moldou a obra de um escritor que dizia escrever “para tornar visível o mistério das coisas”.
Paixões e irritações
Nos diários Conta-Corrente, Vergílio Ferreira revela-se sem filtros
“O português é extremamente ridículo no seu receio de ser ridículo”
“Temos 800 anos, mas somos ainda infantis. Ou somos tão coriáceos, que nada nos penetrou”
“Não te diminuas diante dos outros. Aqueles que te admiram podem sentir-se vexados”
“O ensaísta português é um sabichão. Ou um homem aterrorizado, que se esconde atrás de uma barricada de nomes e de números”
“Uma boa frase é como uma boa anedota: dá brilho a quem a inventa e sobra ainda para quem a repete”
“O presente é dos fortes, o passado é dos fracos e o futuroé dos imaginativos ou ambiciosos”
“Porque é que queres ser feliz, se não queres ser medíocre?Tens de escolher”
Um azul-esverdeado mais saturado do que qualquer cor que se possa ter visto no mundo real. “Ficámos de queixo caído.” Eis a simples descrição dos investigadores que realizaram um estudo, em que o uso de feixes de laser apontados para a pupila de um olho lhes permitiu superar os limites naturais da visão. Três dos cinco participantes eram coautores do estudo e a estes juntaram-se mais dois colegas da Universidade de Washington, que desconheciam o propósito da pesquisa.
Mas, atenção, os humanos não irão começar a percecionar novas matizes. Não vem aí um novo mundo de cores. “Este não é propriamente um aparelho destinado ao consumidor. Trata-se de ciência visual básica e um projeto de neurociência”, alerta Ren Ng, professor de Engenharia Elétrica e Ciência Informática da Universidade da Califórnia, Berkeley. E acrescenta: “Previmos desde o início que se pareceria com um sinal de cor sem precedentes, mas não sabíamos o que o cérebro faria com ele.”
As únicas cinco pessoas no mundo que conseguiram ver a nova cor entraram num laboratório escuro e permaneceram sentadas. Havia lasers, espelhos, espelhos deformadores, moduladores e detetores de luz. Cada participante teve de trincar uma barra para garantir que a cabeça e os olhos estavam imóveis enquanto o laser era disparado para a retina e viam um pequeno quadrado de luz, do tamanho de uma unha do polegar localizado a um braço de distância.
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Nesse quadrado da cor azul-esverdeada (a Cidade das Esmeraldas de O Feiticeiro de Oz, de L. Frank Baum, onde tudo parece o verde mais deslumbrante que já se viu), que foi batizada de Olo, o mais próximo que existe e que se consegue ver é o verde-azulado, representado pelo código hexadecimal #00ffcc.
Esta investigação, publicada em abril na Science Advances, revelou-se útil para lidar com questões científicas básicas sobre como o cérebro cria perceções visuais do mundo. No entanto, poderá também a vir a ter outras aplicações. Através da estimulação personalizada de células na retina, os especialistas podem aprender mais sobre daltonismo (incapacidade ou dificuldade em distinguir as diferenças de cor) ou sobre doenças que afetam a visão, como a retinite pigmentosa, patologia degenerativa da retina que causa perda de visão progressiva, podendo conduzir à cegueira.
O poder dos verdes
“Não há forma de transmitir essa cor num artigo ou num monitor. Essa não é a cor que vemos, simplesmente não é. A cor que vemos é uma versão dela, mas que empalidece completamente em comparação com a experiência do Olo”, descreve Austin Roorda, professor e investigador de Ciências Visuais da equipa.
Os cinco de Berkeley conseguiram superar uma limitação, usando lasers para aplicar com precisão pequenas doses de luz para selecionar células cone no olho humano. Existem três tipos de cones que são sensíveis a comprimentos de onda de luz longos (L), médios (M) e curtos (S), para os tons vermelhos, verdes e azuis, respetivamente.
Estima-se que o olho humano consiga ver dez milhões de variações de cores, mas há todo um mundo de tonalidades que não vemos?
Assim, começaram por mapear uma pequena parte da retina de uma pessoa para identificar as posições das células cone M, sensíveis a diferentes comprimentos de onda verdes. Após o ajuste para o movimento do olho, o laser dispara um pequeno feixe de luz para estimular a célula, antes de passar para o próximo cone. Surge uma mancha de cor no campo de visão com cerca de duas vezes o tamanho de uma lua cheia. Uma cor que está para lá da faixa natural a olho nu porque os cones M são estimulados quase exclusivamente. O nome Olo vem do binário 010, indicando que, dos cones L, M e S, apenas os cones M são ativados.
Os três tipos de cone lidam com faixas de luz sobrepostas: a luz que ativa os cones M também ativará os cones S ou L. “Não há luz no mundo que possa ativar somente as células do cone M porque, se estão a ser ativadas, com certeza um ou ambos os outros tipos também são ativados”, explica Ren Ng.
Para John Barbur, professor de Ótica e Ciências Visuais e diretor da City St. George’s, Universidade de Londres, este estudo tem um “valor limitado”, pois “não é uma cor nova”. “É um verde mais saturado que só pode ser produzido numa pessoa com mecanismo cromático vermelho-verde normal quando a única informação vem dos cones M.”
Em contraponto, para Manuel Spitschan, que estuda os efeitos da luz no comportamento humano no Instituto Max Planck de Cibernética Biológica da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, e não fez parte da nova investigação-experiência, “é um estudo fascinante, um avanço verdadeiramente inovador na capacidade de compreender os mecanismos fotorrecetores subjacentes à visão de cores. As pesquisas técnicas necessárias para alcançar isso são enormes. Uma questão em aberto é como esse avanço pode ser usado.”
Comoo cérebro interpreta a luz
A visão consegue confundir a informação que recebe
O olho humano comum, de acordo com as estimativas científicas, é capaz de percecionar um número um pouco abaixo de dez milhões de variações de cores. É quando a luz incide sobre as células sensíveis à cor na retina, os três cones sensíveis a comprimentos de onda de luz longos (L), médios (M) e curtos (S), vermelhos, verdes e azuis, respetivamente, que se abre uma infinita paleta de cores. A retina (camada de tecido sensível à luz localizada na parte posterior do olho) recebe e processa as informações visuais, convertendo a luz em sinais elétricos, transmitidos ao cérebro pelo nervo ótico, permitindo-nos ver.
Lembra-se do desafio que se tornou viral nas redes sociais, em 2015, a tentativa de descobrir se um vestido era dourado e branco ou azul e preto? Na altura, a marca garantiu que era azul e preto. O que confundia os internautas era a luz que surgia na imagem, levando os cérebros a ler a parte azul como branca e a preta como dourada.
É a quantidade de luz que atinge a nossa retina que leva o cérebro a percecionar de determinada forma a matiz. Quem via o vestido azul e preto tem os cones da retina a funcionar melhor; ver o branco e o dourado é sinónimo de não reagir bem à luz fraca.
Se fosse na ilha Pingelap, no Pacífico, seria a preto-e-branco ou em tons de cinzento, devido à acromatopsia, doença genética que afeta um em cada 12 habitantes daquele território.