“Tenho 56 anos, o meu pai entrou na política aos 58… Hoje não tenho qualquer intenção de o fazer, mas olhando para o futuro, não posso excluir que um dia possa dizer: porque não? Seria um desafio completamente novo.” Com estas palavras, ao aceitar falar sobre a possibilidade de um dia seguir os passos do seu pai na política, Pier Silvio Berlusconi, presidente do conselho de administração da Mediaset – e herdeiro de uma das mais poderosas dinastias mediáticas da Europa –, quebrou um tabu familiar não escrito. Nunca antes um membro da família Berlusconi tinha considerado abertamente a hipótese de entrar na política.O comentário foi feito durante a apresentação anual da nova temporada televisiva da Mediaset, em julho passado, na sede envidraçada da empresa em Cologno Monzese, nos arredores de Milão. Numa sala cheia da elite da televisão italiana, o tom calmo de Berlusconi mudou instantaneamente a atmosfera. O que tinha começado como um ritual empresarial transformou-se numa questão de especulação política. As suas palavras repercutiram-se muito para lá das paredes da empresa, ecoando nas redações e nos talk shows. Comentadores e observadores políticos dissecaram o comentário, vendo-o como uma forma de testar a reação do público, sem assumir um compromisso formal. Com esta declaração, Pier Silvio Berlusconi – presidente executivo da MFE, MediaForEurope, a holding sediada em Amesterdão que controla a Mediaset e opera em Itália, Espanha e Alemanha, com um olho agora em Portugal – posicionou-se mais uma vez na encruzilhada do poder mediático e político. Mas Pier Silvio não é o seu pai. Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano do pós-guerra que mais tempo esteve no poder, foi um magnata dos média que transformou a televisão numa arma política e governou o país através do carisma e do espetáculo. O seu filho prefere atuar nos bastidores.

Casal mediático Pier Silvio vive com Silvia Toffanin, apresentadora de Verissimo, um dos programas mais populares da TV italiana, com quem tem dois filhos

Onde Silvio procurou as luzes da ribalta, Pier Silvio controla-as. Onde o pai construiu um partido, o filho constrói sistemas de influência. A sua linguagem é de gestão, o seu estilo é comedido e tecnocrático, mas plenamente consciente do seu alcance.

Nesta reflexão aparentemente casual – não agora, mas talvez um dia – reside a essência do projeto de Pier Silvio: poder sem partido, domínio dos média sem política.

Origens de um herdeiro da média

Pier Silvio Berlusconi nasceu em Milão a 28 de abril de 1969, o segundo filho de Silvio Berlusconi, então um empresário imobiliário em ascensão que mais tarde se tornaria uma das figuras mais poderosas da média e da política europeia, e de Carla Dall’Oglio, a sua primeira mulher.

Cresceu ao lado da irmã mais velha, Marina, numa família que depois se expandiria com mais três irmãos – Barbara, Eleonora e Luigi – nascidos do segundo matrimónio de Silvio, com a atriz Veronica Lario, com quem se casou em 1990.

A sua mãe, uma presença discreta e tradicional, protegeu Pier Silvio dos holofotes enquanto o pai construía o seu império. Dela ele herdou um sentido de moderação e privacidade; dele, um instinto para a comunicação e o controlo.

Depois de estudar Filosofia na Universidade de Milão – curso que nunca concluiu –, Pier Silvio ingressou nos negócios da família, no início dos anos 1990, justamente quando a Mediaset se expandiu para Espanha e começou a desafiar a RAI, emissora pública estatal italiana e há muito tempo a instituição televisiva dominante no país.

O seu primeiro cargo foi na Publitalia ‘80, a poderosa agência de publicidade que financiou e impulsionou a revolução televisiva de Berlusconi. Mais do que uma agência de vendas, a Publitalia era o verdadeiro motor do sistema Berlusconi, uma máquina sofisticada que transformava anúncios em persuasão, fazendo da televisão uma ferramenta para moldar os hábitos de consumo, os valores e a imaginação política de Itália.

Mais tarde, mudou-se para a RTI – Reti Televisive Italiane, que geria os principais canais de televisão do grupo Mediaset. Lá, aprendeu a mecânica da programação, estratégia de audiência e produção de conteúdo, desenvolvendo uma visão gerencial da televisão focada menos na personalidade e mais na estrutura e na sustentabilidade.

De herdeiro a executivo

Em 2000, Pier Silvio Berlusconi tornou-se vice-presidente executivo da Mediaset, a maior emissora privada de Itália – uma rede que remodelou a cultura nacional desde a década de 1980 e rivalizou durante muito tempo com a gigante pública RAI.

Ao seu lado estava Fedele Confalonieri, presidente da Mediaset e um dos aliados mais próximos de Silvio Berlusconi, orientando Pier Silvio no delicado equilíbrio de entretenimento, comércio e política que definia a marca da família.

A sua ascensão coincidiu com um período turbulento. A Sky Italia, propriedade de Rupert Murdoch, estava a revolucionar a televisão por assinatura, enquanto o início da era digital começava a corroer o modelo de publicidade que financiava o império de Berlusconi há décadas.

Impresa

A solução da venda

Prejuízos acumulados e a subida da dívida estão na base da entrada do clã Berlusconi no capital da Impresa

Estando a Impresa numa situação financeira bastante fragilizada, a venda de uma posição de controlo no seu capital surge como uma das melhores soluções para resolver os problemas com que o grupo da família Balsemão se vem debatendo ao longo dos últimos anos e para manter a atividade da proprietária da SIC e do Expresso.

No ano passado, a Impresa registou um prejuízo de 66,2 milhões de euros, que, segundo as explicações da própria empresa, resultaram em grande parte de registos de imparidades no valor de 60,7 milhões de euros, relacionadas com a televisão e a Infoportugal. Este valor acabou por deteriorar a autonomia financeira que passou de 156 milhões para 90 milhões de euros, colocando a Impresa numa situação complicada em termos de estrutura financeira.

E o problema agravou-se ainda mais nos primeiros seis meses do ano. Na apresentação de contas do primeiro semestre, o grupo de comunicação social voltou a apresentar prejuízos de 5,1 milhões de euros. A dívida líquida continuou a subir, ascendendo aos 148,2 milhões de euros, mais 3,8% do que em igual período do ano passado.

Em junho deste ano, falhou a venda do seu edifício-sede, em Oeiras, ao BPI por um valor na ordem dos 37 milhões de euros. Ao longo dos últimos meses, o grupo tentou alienar uma parte do seu capital à Jerónimo Martins, mas o negócio acabou por não se concretizar.

Assim que surgiram os primeiros rumores sobre o potencial negócio com a família Berlusconi, as ações da Impresa praticamente duplicaram o seu valor em bolsa, passando de €0,13 para €0,25, o valor mais alto dos últimos quatro anos, passando de uma valorização de aproximadamente 21 milhões para mais de 40 milhões em apenas um dia.

Em resposta, Pier Silvio reestruturou a Mediaset com foco na eficiência e na disciplina industrial. Simplificou as operações, introduziu métricas de desempenho, integrou as filiais italiana e espanhola e, gradualmente, neutralizou as conotações políticas da marca, direcionando-a para uma identidade mais europeia e tecnocrática.

Nomeado diretor-executivo da Mediaset em 2015, lançou uma ampla reforma interna: digitalizou todos os canais, desenvolveu plataformas de streaming próprias, renovou o investimento em ficção e entretenimento e impôs um controlo financeiro mais rigoroso.

Dois anos depois, expandiu-se para lá da televisão ao adquirir o Finelco Group e criar a RadioMediaset, que consolidou o domínio da empresa em todas as plataformas e a tornou a maior rede de rádio de Itália.

O seu princípio orientador era a modernização através da integração: preservar a força da televisão aberta enquanto se expandia para a rádio, o streaming e plataformas online. A mudança reforçou o seu objetivo de longo prazo de construir um ecossistema integrado e multimédia capaz de competir no futuro digital da Europa.

De emissora familiar a participante continental

Sob a liderança de Pier Silvio, a Mediaset evoluiu para uma empresa mais industrial e orientada para o digital, com ambições europeias claras.

O ponto de viragem ocorreu em 2021 com a criação da MFE – MediaForEurope, uma holding com sede em Amesterdão e cotada em Milão e Madrid. A mudança, motivada pela flexibilidade regulatória e os benefícios fiscais, marcou uma redefinição decisiva, de uma emissora familiar para um grupo de média pan-europeu que quer competir com gigantes globais como Netflix e Disney.

No topo deste sistema está a Fininvest, a holding familiar que detém cerca de 48% das ações com direito a voto da MFE. Criada em 1975 como o suporte financeiro dos empreendimentos de Silvio, a Fininvest continua a ser um dos conglomerados privados mais poderosos de Itália, com ativos de cerca de cinco mil milhões de euros.

Ela controla as participações da família na MFE – MediaForEurope, na Arnoldo Mondadori Editore, a maior editora de Itália, e na Banca Mediolanum, uma empresa financeira e de investimentos líder, com Marina Berlusconi atuando como presidente e Pier Silvio à frente da MFE.

A estratégia da MFE tem dois pilares: consolidar os seus mercados históricos em Itália e em Espanha, e expandir-se para o Norte através da aquisição gradual da alemã ProSiebenSat.1, uma das principais emissoras privadas da Europa Central.

Em 2024, a MFE registou receitas consolidadas de 2,95 mil milhões de euros, um aumento de 4,9% em relação ao ano anterior, e um lucro líquido de 137,9 milhões de euros. A publicidade permanece a principal fonte de receitas do grupo, apresentando um crescimento sólido ao longo do ano.

A expansão da Mediaset em Espanha remonta a 1989, quando Silvio Berlusconi ajudou a lançar a Telecinco, um dos primeiros canais de televisão privados do país. Duas décadas depois, o seu filho concluiu esse projeto: sob a direção de Pier Silvio, a Telecinco fundiu-se com a Cuatro, formando a Mediaset España Comunicación, atualmente a principal rede comercial de Espanha.

Na Alemanha, porém, a iniciativa foi inteiramente sua. A aquisição gradual da ProSiebenSat.1 – realizada entre 2019 e 2025, até que a MFE se tornou a sua maior acionista, com mais de 30% dos direitos de voto – marcou um avanço estratégico e simbólico, estendendo a influência de Berlusconi para lá do sul da Europa, pela primeira vez.

A aquisição decorreu sob escrutínio político em Berlim e ceticismo da imprensa alemã, cautelosa com a expansão de um grupo familiar italiano no seu panorama mediático. “A independência editorial é de importância central – não deve ser tocada”, alertou o presidente da ProSiebenSat.1, Andreas Wiele, refletindo as preocupações regulatórias da Alemanha.

O sindicato dos jornalistas alemães (DJV) chegou a exortar os investidores a não venderem as suas ações à MFE, alertando que a empresa italiana poderia impor uma “agenda populista de direita” à emissora.

Para aliviar as tensões, a MFE comprometeu-se publicamente a salvaguardar a independência editorial e a proteger os empregos locais e os centros de produção.

Pier Silvio articulou claramente a sua ambição: “O nosso objetivo é o de criar um grupo pan-europeu de radiodifusão e comunicação social capaz de enfrentar os gigantes tecnológicos globais e competir com eles.”

“Sou viciado em exercício físico e desporto”

Numa carta enviada ao La Repubblica, em junho de 2023, a procurar corrigir um perfil que o jornal tinha publicado a seu respeito, Pier Silvio acabou por revelar alguns pormenores da sua vida

Com uma série de “comentários educados e concisos”, Pier Silvio acabou por traçar uma espécie de “retrato íntimo”, na opinião do La Repubblica. E que, na verdade, complementou o artigo no qual o jornal tinha procurado narrar, tanto na vida pública quanto na privada, os cinco herdeiros da dinastia Berlusconi, na sequência da morte do antigo primeiro-ministro italiano e fundador de um vasto império empresarial.

Nessa carta, Pier Silvio começa por esclarecer que, ao contrário do que o jornal tinha afirmado, ele “não é obcecado pelo seu físico”, apesar de ter aceitado, no passado, ser capa da revista Men’s Health e tantas vezes o seu corpo musculado ser chamariz para os paparazzi e as revistas de sociedade. Para o presidente da Mediaset, a questão é mais profunda: “Sou viciado em esforço físico, e sou assim desde criança. Eu alimento-me de esforço. O exercício é libertador para mim.” E explica de que forma sente essa liberdade: “Quando pratico stand up paddle no inverno na esperança de avistar um grupo de golfinhos, ou quando corro na Córsega entre o mar, a floresta de pinheiros e o deserto, sinto uma liberdade que quase se torna uma experiência espiritual.”

O milionário afirma-se ainda “um tipo antiquado” em relação aos instrumentos que usa para aperfeiçoar o físico. Diz que não utiliza aparelhos para contar passos ou medir calorias e que usa, nas suas deslocações, nomeadamente na sua casa de praia em Portofino, uma bicicleta “estritamente não elétrica”.

No entanto, o mais atlético dos cinco herdeiros do cavaliere desmente ser algo parecido com um asceta: “Não sou um tipo super-saudável. Fumo charutos e, enquanto estou a praticar exercício físico, já estou a pensar no que vou comer a seguir: vinho tinto, chocolate, amendoim…”

Nos seus comentários e “correções” ao jornal, Pier Silvio também se olhou ao espelho, em relação ao que considera a sua forma de ser: “Sou reservado, sim, mas tímido não. Onde quer que vá, faço amizade com todas as pessoas. Os meus filhos até costumam dizer: ‘Agora o pai vai puxar um assunto de conversa e ficar a falar durante uma hora.’”

Em termos sociais, escreveu, diz seguir os mesmos passos do pai, um italiano de classe alta que foi extremamente popular nas classes baixas: “Não é que eu não goste da alta sociedade, mas adoro interagir com as pessoas comuns. Gosto muito de conversar com as pessoas e isso anima-me. Isto porque, de facto, sou filho do meu pai.”

Esse modelo está agora a expandir-se para oeste. Nos últimos dias de setembro, a MFE anunciou planos para adquirir uma participação na Impresa, proprietária da SIC e do Expresso, um dos meios de comunicação social mais respeitados de Portugal.

Em conjunto, estas medidas sinalizam uma profunda redefinição do legado de Berlusconi. A MFE já não é apenas uma empresa familiar italiana em expansão no estrangeiro, mas um sistema de comunicação social europeu – integrado, multiplataforma e concebido para exercer influência além-fronteiras.

Como Silvio Berlusconi transformou o entretenimento em ideologia

Para compreender Pier Silvio Berlusconi, é preciso primeiro voltar ao seu pai, Silvio Berlusconi, o empresário e figura política que transformou a televisão italiana numa ferramenta de influência e autoridade.

Na década de 1980, ele construiu um império televisivo privado que remodelou não só o que os italianos viam, mas também a sua forma de pensar. A sua visão era simples, mas radical: a televisão não servia para informar os cidadãos, mas para os entreter e tranquilizar.

Os seus canais vendiam um sonho de felicidade da classe média, povoado por famílias brilhantes, risos fáceis e conforto aspiracional, oferecendo não a realidade, mas uma visão idealizada da vida quotidiana, onde o consumismo e o entretenimento substituíam a informação e a reflexão.

“O público italiano não é composto apenas por intelectuais, o telespectador médio é como um miúdo do Ensino Básico que nem sequer se senta na primeira fila. É com eles que tenho de falar”, disse Silvio Berlusconi em 2004, explicando a linguagem populista que há muito definia tanto a sua televisão como a sua política.

Exatamente dez anos antes, em 1994, Berlusconi fundou o Forza Italia, um partido de centro-direita que misturava liberalismo pró-negócios com energia populista, e venceu as eleições gerais, tornando-se primeiro-ministro de Itália.

A sua vitória não foi surpresa: as bases do seu sucesso político já haviam sido construídas ao longo de anos de domínio televisivo. Quando entrou na política, Berlusconi não se apresentava como um novato, mas falava para um público que já o conhecia – e confiava nele – a partir das suas salas de estar.

Como o primeiro-ministro italiano com mais tempo de serviço no pós-guerra, Silvio Berlusconi governou enquanto era proprietário das maiores redes privadas do país – um conflito de interesses sem precedentes na Europa. Os seus canais de televisão moldaram a agenda pública e normalizaram a sua persona, transformando a política num espetáculo.

O peso de um nome

De acordo com a Forbes, o património líquido de Pier Silvio Berlusconi está estimado em 2,5 mil milhões de dólares em 2025, tornando-o um dos executivos de comunicação social mais ricos da Europa. No entanto, apesar da sua fortuna e do seu poder, Pier Silvio leva uma vida notavelmente privada, longe do espetáculo que outrora definiu o seu pai.

Ele raramente dá entrevistas, evita comícios políticos e vive longe do barulho de Roma, dividindo o seu tempo entre Milão e Portofino – a cidade litorânea da Ligúria onde possui uma villa com vista para o porto e vive com Silvia Toffanin, sua parceira há muito tempo, embora os dois não sejam casados.

Toffanin apresenta o Verissimo, um talk show de longa data da Mediaset, lançado em 1996, que mistura entrevistas com celebridades e histórias de interesse humano e continua a ser um dos programas de fim de semana mais assistidos em Itália. O casal tem dois filhos, enquanto Pier Silvio tem mais uma filha, nascida em 1990, de um relacionamento anterior.

A sua vida privada não poderia ser mais diferente da dos anos extravagantes do seu pai, repletos de festas, manchetes em tabloides e política. Em vez disso, ele cultiva uma imagem reservada de disciplina – um gestor que protege a sua família e a sua empresa com determinação silenciosa.

Líder Todos os anos, Pier Silvio apresenta a nova grelha dos seus canais. E, de vez em quando, aproveita a ocasião para falar sobre política

Mas a discrição não o isolou da sombra do seu apelido. Como todos os herdeiros de um império construído com base na visibilidade e no poder, Pier Silvio foi afetado pela turbulência que rodeou a família Berlusconi durante décadas.

O primeiro episódio importante ocorreu com o julgamento da Mediaset no início dos anos 2000, relativo à compra de direitos televisivos através de empresas offshore. Juntamente com o pai, Pier Silvio e a sua irmã Marina foram brevemente investigados por alegada lavagem de dinheiro, mas acabaram por ser absolvidos em 2006 por falta de provas.

Um segundo caso, a investigação Mediatrade iniciada em 2010, acusou a Mediaset de inflacionar o custo dos direitos de filmes para criar fundos offshore e sonegar impostos. Em 2016, Pier Silvio e o presidente da Mediaset, Fedele Confalonieri, foram condenados a 14 meses de prisão, mas o Supremo Tribunal da Itália posteriormente anulou o veredicto, absolvendo totalmente ambos.

Para muitos italianos, esses episódios lembraram a saga judicial de décadas de Silvio Berlusconi, que enfrentou mais de 30 processos criminais, desde corrupção e suborno até fraude fiscal e abuso de poder. Apesar desse histórico, ele foi condenado apenas uma vez, em 2013, por fraude fiscal no caso Mediaset – uma decisão que o impediu temporariamente de exercer cargos públicos, mas pouco afetou a sua influência política ou o mito em torno do seu nome.

Entre influência e independência

Após a morte do pai, em junho de 2023, Pier Silvio Berlusconi herdou não apenas um vasto império mediático, mas também um legado político – o do centro-direita italiano, há muito moldado pelo carisma e pelo domínio televisivo de Silvio Berlusconi.

Nas semanas após o funeral, o nome de Pier Silvio Berlusconi ressurgiu nos círculos políticos, com alguns a sugerir que ele poderia um dia seguir os passos do pai.

Ele descartou essa possibilidade com firmeza, descrevendo a política como “uma profissão séria que deve ser estudada e aprendida”, ao mesmo tempo que enfatizou o dever de se concentrar na transformação da Mediaset e expressou apoio à primeira-ministra de direita, Giorgia Meloni: “Tenho grande respeito por Giorgia Meloni”, disse ele. “Ela é jovem, determinada e séria.”

Ainda assim, embora Pier Silvio insista em ficar fora da política, a influência da MFE no discurso público italiano continua a ser considerável. Os seus canais de televisão refletem frequentemente narrativas de direita – particularmente em questões como imigração, segurança e identidade nacional –, enquanto a família Berlusconi continua a exercer uma influência discreta no espaço liberal-conservador outrora dominado pela Forza Italia.

O frágil equilíbrio com o governo de Giorgia Meloni foi posto à prova em 2023, quando Andrea Giambruno, jornalista da Mediaset e companheiro da primeira-ministra, foi flagrado em gravações fora do ar fazendo comentários sexistas e inadequados a colegas mulheres.

Os vídeos, transmitidos pelo Striscia la Notizia – um programa satírico de longa data do Canale 5 – tornaram-se virais em poucas horas, forçando Meloni a terminar publicamente a sua relação sentimental e alimentando críticas à cultura interna da Mediaset e à sua proximidade com o poder político.

Pier Silvio Berlusconi reagiu rapidamente, suspendendo Giambruno dos programas da Mediaset, mas sem chegar a demiti-lo. A decisão foi amplamente vista como um ato calculado de independência: uma medida para defender a credibilidade da empresa, ao mesmo tempo que sinalizava que a sua lealdade está com a Mediaset, e não com o governo.

Para muitos observadores, o escândalo também expôs tensões subtis entre Pier Silvio e Meloni, uma lembrança de que, sob a sua liderança, a Mediaset ainda pode moldar narrativas políticas, mesmo aquelas que envolvem as figuras mais poderosas do país.

Futebol A entregar o troféu da Taça Berlusconi. A família vendeu a participação no AC Milan, mas comprou o AC Monza

No entanto, a MFE também reacendeu questões sobre a concentração dos meios de comunicação e a democracia. A Comissão Europeia citou, em várias ocasiões, Itália como um caso de estudo em potenciais conflitos de interesses entre o poder político e o poder dos meios de comunicação.

De acordo com a própria descrição da MFE, o grupo define-se como “uma empresa europeia fundada na transparência e no pluralismo”, mas a sua própria estrutura continua a incorporar a intricada sobreposição de meios de comunicação, negócios e influência política.

30 anos após a entrada dramática do seu pai na política, Pier Silvio Berlusconi encarna uma forma de poder mais discreta e tecnocrática.

Nesse sentido, a influência de Berlusconi não terminou, simplesmente evoluiu – o seu tom é mais suave, os seus métodos mais subtis, mas o seu alcance permanece inalterado, continuando a moldar a forma como milhões de europeus veem, pensam e acreditam através do brilho de um ecrã.

Se um dia Pier Silvio decidir entrar na política, fá-lo-á apoiado numa das máquinas de comunicação mais poderosas da Europa – um império que já foi usado para transformar a televisão em domínio político.

Um movimento desse tipo reacenderia as questões sobre democracia e liberdade de imprensa – num país como Itália, que atualmente ocupa a 46ª posição no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2024, refletindo preocupações crescentes com a interferência política nos meios de comunicação social.

Pequena históriade um grande grupo

A MFE, liderada por Pier Silvio, é uma das companhias do Grupo Fininvest, fundado por Silvio Berlusconi, e que se estende a vários setores

1963 Após concluir a universidade, Silvio Berlusconi funda a Edilnord e torna-se empresário da construção civil, construindo blocos de apartamentos em Milão.

1976 Berlusconi compra a Telemilano, uma televisão por cabo que operava apenas em Milão.

1977 Recém-agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito no Trabalho, pelo Presidente de Itália, Berlusconi compra uma participação relevante na empresa proprietária do jornal Il Giornale, fundado em 1974.

1978 A Telemilano passa a emitir em sinal aberto para toda a região da Lombardia. Berlusconi adquire o histórico Teatro Manzoni, um dos principais palcos de Milão.

1980 A Telemilano muda o nome para Canal 5 e passa a transmitir para todo o país.

1984 Com a aquisição da Retequattro, o grupo passa a deter três canais de TV, tantos quanto a televisão estatal.

1986 Berlusconi compra o clube de futebol AC Milan, no mesmo ano em que a Fininvest funda o canal La Cinq, em França, iniciando a sua internacionalização.

1990 A Fininvest participa na fundação do canal Telecinco, em Espanha.

1991 Aquisição da Mondadori, a grande empresa editora de Itália.

1995 Fundação da Medusa, empresa de produção e distribuição de filmes.

1997 Lançamento do banco Mediolanum, que expande, nos anos seguintes, a sua atividade para outros países europeus.

2005 A Fininvest entra no setor da rádio, com a aquisição da emissora nacional R101, através da Mondadori.

2010 A Telecinco é transformada em Mediaset España, tornando-se o maior canal de TV de Espanha, com a aquisição do canal Cuatro.

2017 O grupo vende a sua participação no AC Milan.

2018 O grupo volta ao setor do futebol, com a aquisição do Monza FC.

2019 A Mediaset lança a MFE – Media for Europe, um projeto internacional, que visa criar uma emissora europeia em canal aberto, capaz de competir com as maiores do mundo.

2021 A Mediaset muda o nome para MFE – Media for Europe. O Grupo Fininvest regista lucros recorde e, pela primeira vez numa década, distribui dividendos pelos acionistas.

2022 A MFE aumenta a sua participação no canal alemão ProSiebenSat.1. O AC Monza é promovido à série A de Itália.

2023 Morre Silvio Berlusconi. O grupo passa a ser dirigido pelos filhos mais velhos, Marina e Pier Silvio, que assumem o controlo indireto da Fininvest. A MFE conclui a fusão com a Mediaset España. A Mondadori aliena uma série de revistas e outras publicações.

2025 A 4 de setembro a MFE anuncia que passa a deter a maioria da alemã ProSiebenSat (com 75,61% das ações) e, poucos dias depois, são conhecidas as negociações para a compra do Grupo Impresa, detentor da SIC e do Expresso.

Palavras-chave:

A campanha eleitoral para as eleições autárquicas de 2025 já está em curso, num processo que se destaca pela pluralidade sem precedentes, marcado não só pela renovação institucional e pela reposição de centenas de freguesias, mas também pela emergência de um novo ecossistema comunicacional capaz de transformar profundamente a forma como a política é feita e vivida em Portugal. Em 2025, a saída de sensivelmente 89 presidentes por limite de mandatos em cidades emblemáticas, como Faro, Évora, Sintra, Cascais, Porto ou Braga, combinada com a reposição de 302 freguesias, devolverá ao território mais proximidade democrática e alimentará uma competição eleitoral sem precedentes, tornando a qualidade da comunicação política num vetor estratégico imprescindível.

A presente eleição é singular devido ao elevado número de listas e grupos de cidadãos que se apresentam, ultrapassando as barreiras tradicionais e convidando a uma reflexão mais profunda. Neste contexto, os órgãos de comunicação social regionais, designadamente jornais e estações de rádio locais, assumem um papel de destaque ao atuarem como guardiões do pluralismo, da informação rigorosa e do escrutínio contínuo. Como tal, os intervenientes em questão são responsáveis por clarificar as competências autárquicas recentes, detalhar os procedimentos eleitorais e fomentar o debate comunitário. Ademais, contribuem para a resolução de dúvidas e a mitigação da tendência persistente de abstenção, que, lamentavelmente, ainda afeta muitas autarquias.

A inovação tecnológica e mediática impõe, igualmente, novos formatos de comunicação política. A recém-criada plataforma Conta Lá emerge como uma inovação significativa na cobertura eleitoral, assegurando a realização de debates em todos os 278 municípios do continente, promovendo o acesso e a visibilidade das candidaturas. Esta operação sem paralelo proporciona ao cidadão uma transparência e um envolvimento que reforçam a democracia local, aproximando eleitos e eleitores e descentralizando o debate político.

Concomitantemente, no contexto digital, as redes sociais emergem como um espaço crucial para a divulgação e debate das campanhas autárquicas. O sucesso de figuras como Isaltino Morais, que obtém um elevado grau de notoriedade na aplicação TikTok e na rede social Instagram através de uma comunicação descontraída, informal e humorística, demonstra que a política local incorpora atualmente uma “realidade aumentada”, na qual o contacto bilateral e a construção de marca pessoal — veja o candidato com “marca registada” em Oeiras — transformam a relação entre o político e o eleitor. No entanto, esta celeridade e viralidade impõem igualmente uma necessidade de prudência, uma vez que a propensão de conteúdos breves e emocionalmente intensos pode comprometer a profundidade e a rigidez, facilitando a emergência de simplificações e discursos menos ponderados.

Neste contexto, o infotainment assume uma posição de destaque: a par da romaria ao programa de Júlia Pinheiro e dos programas da manhã, o regresso do “Bom Partido”, apresentado por Guilherme Geirinhas, evidencia a reinvenção da política para interagir com os públicos mais jovens, recorrendo ao humor e à irreverência para gerar interesse e empatia. O programa subverte o paradigma convencional da campanha, enfatizando a autenticidade e o diálogo descontraído, e consolida um novo espaço de envolvimento cívico, no qual o entretenimento serve a informação e a participação.

Além disso, partidos como o Chega, a Iniciativa Liberal e o Livre, que nas últimas eleições legislativas ampliaram significativamente o seu eleitorado, apostam nestas Eleições Autárquicas para consolidar e ampliar a sua influência ao nível local, mobilizando estratégias digitais e comunicacionais marcantes que desafiam o statu quo e prometem alterar a geografia política tradicional.

O grande desafio destas eleições é assegurar que a comunicação política funcione como pavimento seguro para a participação informada, o debate rigoroso e a rejeição das fake news. Para tal, é crucial que todos os intervenientes — candidatos, comunicação social e eleitores — valorizem o rigor, a transparência e o pensamento crítico. A democracia local apenas se consolida e fortalece se a comunicação for um espaço coletivo de construção de cidadania consciente.

Deste modo, as eleições autárquicas de 2025 poderão representar uma mudança significativa na democracia portuguesa. Se a comunicação for bem-sucedida, será possível reverter o desinteresse e a abstenção, renovar laços sociais e políticos e afirmar um modelo de governação baseado na proximidade, na autenticidade e no compromisso efetivo com os cidadãos. E, no epicentro desta transformação, emerge uma comunicação contemporânea, integrada nos órgãos de comunicação social regionais, nas redes sociais, no infotainment e nas novas formas de envolvimento democrático, que poderá assumir o papel de principal protagonista desta eleição histórica.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Nesta semana final da campanha autárquica no Porto, houve de tudo: drag queens, um burro, sopa, concertos e arruadas. Apesar disso, não houve muita animação nas ruas. Mas Pedro Duarte aparece mais solto do que nunca e Manuel Pizarro, ao lado de José Luís Carneiro, não conseguiu animar.

Sérgio Aires, candidato do BE, leva o prémio de mais original, com uma ação de campanha que durou até às duas da manhã no Bar Lusitano com um espetáculo de drag queens, que serviu para chamar a atenção para os problemas da discriminação. Mas nem a escolha do local levou muitos bloquistas a sair para a rua.

A arruada na Praça do Marquês com Mariana Mortágua, apesar de tudo, animou um pouco mais, muito à custa de uma boa escolha do local (uma zona muito animada) e com muita gente a saudar a coragem da coordenadora do BE por ter estado na flotilha humanitária rumo a Gaza.

Também muito original foi o Chega, que foi buscar um burro para denunciar a forma como o Metrobus tem a via pronta, mas não funciona por faltarem as carruagens.

Miguel Corte-Real andou com o burro ao lado e chamou-lhe Metroburro. Mas não teve muita gente, apesar da originalidade.

Filipe Araújo, candidato independente, tem feito uma campanha muito mais discreta, muito pelos bairros do Porto e almoçou na Associação dos Moradores do Bairro de Francos, onde comeu sopa do lavrador e mousse de bolacha.

Pedro Duarte também tem andado muito pelas ruas, mas acabou a noite no jardim de Arca D’água com um concerto de uma banda Némanus, com umas centenas de pessoas. Muito mais solto do que nos primeiros dias de campanha, o candidato do PSD parece ganhar ânimo, mesmo com algumas sondagens a mostrar o PS ligeiramente à frente.

Manuel Pizarro andou na arruada de Santa Catarina com José Luís Carneiro. Os dois socialistas deram um grande abraço, apesar de historicamente haver uma rivalidade entre eles. Mas a ação não foi tão animada como as sondagens podiam antever.

Hélder Sousa, do Livre, tem feito uma campanha mais discreta, muito à base de conferências em locais fechados. Mas a caravana do Livre já teve um episódio complicado. Foram tacados no Bairro do Viso por um grupo de miúdos do Chega, na quinta-feira à hora de almoço.

Já Diana Ferreira, da CDU, andou pela Rotunda da Boavista, sobretudo a falar com comerciantes, ouvindo queixas.

Os vídeos aparecem em catadupa. Uns a seguir aos outros. Não há hierarquia. Muitas vezes, os temas saltam sem lógica aparente. Os conteúdos são rápidos, pensados para motivar uma reação instantânea, intuitiva, emocional. O cocktail perfeito para a propaganda. Um terreno difícil para a informação que requer tempo, pensamento, cruzamento de fontes, explicações. O TikTok é hoje usado por 4,2 milhões de portugueses, sendo que 30% destes utilizadores estarão entre os 18 e os 25 anos (isto apesar de a empresa não dar dados sobre segmentos etários). Ou seja, fazem parte de uma das fatias de eleitorado mais difícil de alcançar pelos meios tradicionais. Daí que não seja surpreendente que cada vez mais partidos recorram a esta rede social, tentando usar os truques necessários para cair nas boas graças do algoritmo e alcançar o maior número de seguidores. Quase todos já lá estão, nem todos com os mesmos resultados. E, nestas autárquicas, o TikTok até promete combater a desinformação que por aí possa correr. Mas, afinal, como é que isso tudo funciona?

Pedro Pinto

Tem quase nove mil seguidores. Sendo candidato à Câmara Municipal de Faro, era de esperar que tivesse muitos vídeos sobre o concelho, mas não é esse o menu principal do seu feed. No vídeo que está na imagem, está a falar da Nazaré. Na maior parte dos outros, aparece como líder parlamentar do Chega.

A resposta não é fácil de obter. O TikTok está interessado em divulgar este seu “centro eleitoral” como “um hub na aplicação onde os utilizadores em Portugal poderão aceder a informação fiável sobre as eleições nas próximas semanas”. E até assegura querer “oferecer um espaço respeitador, onde as pessoas possam expressar-se e construir comunidade”. Mas a empresa não disponibiliza alguém que possa ser questionado de viva voz sobre o tema, mesmo depois da insistência da VISÃO perante um comunicado escrito para publicitar este “compromisso” com a luta à manipulação num período eleitoral. Sem possibilidade de falar com um porta-voz do TikTok, aceitámos enviar as perguntas por escrito, através da agência de comunicação que trabalha para a empresa. Na volta do correio não vieram as respostas às perguntas enviadas, mas apenas alguns dados que o TikTok achou por bem partilhar.

André Ventura

Com mais de meio milhão de seguidores, é a grande estrela política do TikTok. Ataca os adversários, dança e canta, partilha informação falsa. Um exemplo? Usa como capa de um vídeo uma imagem do jornal do Chega, a Folha Nacional, com grafismo idêntico ao do Público para dizer que “em mais de 65% dos municípios há traficantes de droga e criminosos violentos com direito a casas públicas”. Quando se clica na imagem, aparece no meio de apoiantes a cantar “Isto não é o Bangladesh”.

Segundo o TikTok, há todo um sistema ativo nesta rede social para detetar informação falsa ou conteúdos que incitem ao ódio ou mostrem cenas de violência. Há uma “abordagem multicamadas”, que combina “tecnologia avançada com competência humana”. “Os nossos modelos de segurança e de deep learning trabalham de forma proativa em segundo plano para detetar conteúdos potencialmente nocivos – como discurso de ódio ou desinformação – antes mesmo de serem reportados pelos utilizadores”, explica fonte oficial da empresa, frisando que detém “sistemas de deteção de objetos para identificar imagens prejudiciais, como símbolos de ódio, que são então encaminhadas para moderadores humanos especializados”. Quem são estes “moderadores humanos especializados” e quantos estão ao serviço em Portugal para filtrar os conteúdos que chegam aos mais de quatro milhões de portugueses que todos os meses usam esta rede social? O TikTok é vago na resposta. “A nossa equipa dedicada à integridade eleitoral reúne especialistas em democracia, eleições, sociedade civil e tecnologia. Esta equipa identifica e mitiga riscos com base no contexto local, histórico e nas ameaças emergentes. O seu trabalho assegura que o TikTok esteja preparado e resiliente durante as eleições.” Não sabemos como são recrutados estes especialistas.

Rita Matias

Tem mais de 92 mil seguidores. Os vídeos curtos são quase sempre de apelo à indignação, seja contra os jornalistas, os comentadores ou os influencers que lhe fazem frente. Filma-se no carro ou em ações políticas. Partilha muitos conteúdos com André Ventura. E aproveita para partilhar as suas intervenções na Now, onde é comentadora.

O TikTok garante que remove conteúdos falsos em períodos eleitorais, mas a forma como descreve essa ação deixa no ar a ideia de que a remoção tem mais que ver com as questões de funcionamento do ato eleitoral do que com os conteúdos políticos que podem ou não sustentar-se em informações falsas ou na deturpação de factos. “Removemos ou limitamos a difusão de afirmações falsas ou enganosas sobre votação, registo, elegibilidade de candidatos ou procedimentos eleitorais. Recorremos à tecnologia, a moderadores humanos e parceiros de verificação de factos para atuar rapidamente perante conteúdos prejudiciais. Quando as afirmações não são verificadas, podemos rotulá-las, reduzir o seu alcance ou alertar os utilizadores antes de as partilharem.” Nesta verificação de factos, o TikTok tem em Portugal uma parceria com o site Polígrafo, para ajudar a destrinçar o verdadeiro do falso. “Neste âmbito, trabalhamos com mais de 20 organizações acreditadas pela IFCN, incluindo 12 na Europa e uma em Portugal (Polígrafo), com quem desenvolvemos e publicámos vídeos de literacia mediática. Estes vídeos estão disponíveis no nosso Centro Eleitoral e ajudam os utilizadores a identificar melhor a desinformação online”, nota a mesma fonte.

A vida fora do feed é mais difícil

Uma reportagem da SIC sobre a campanha de Rita Matias em Sintra tornou-se viral nas redes sociais. As imagens mostram a candidata do Chega à Câmara Municipal de Sintra a ser mal recebida durante uma ação de campanha. Portas que se fecham, eleitores que recusam a propaganda. A rua não correu bem nesse dia. Mas nas redes sociais a conversa é outra. E há quem aposte que o TikTok pode ser mais poderoso sobretudo nas zonas periféricas junto de populações menos instruídas e jovens. O que valerá mais? A internet ou a arruada? A prova dos nove tira-se no dia 12 com o resultado nas urnas.

Essa vigilância, assegura a empresa, é particularmente apertada quando são detetadas “operações de influência” nesta rede social. “Mantemo-nos altamente vigilantes perante tentativas de comprometer interações autênticas no TikTok, contando com equipas dedicadas a tempo inteiro à deteção e à interrupção de comportamentos enganosos. Proibimos tentativas coordenadas de influenciar de forma enganosa o debate público sobre questões sociais relevantes e não permitimos personificações nem aumentos artificiais de interação através de engagement falso.”

As receitas para viralizar

Todas essas redes de verificação não impedem, porém, que esteja no feed de André Ventura um vídeo (com mais de 174 mil interações) a cantar “isto não é o Bangladesh, prepara-te que vamos limpar Portugal”. O ataque à comunidade imigrante é claro, mas não o suficiente para ser travado pelos filtros do TikTok. De resto, o registo provocatório, as dancinhas e algum humor contribuíram para fazer de André Ventura o político com mais influência nesta rede social. Tem mais de 560 mil seguidores. Muito à frente dos 92 mil de Rita Matias, outra deputada do Chega, que em termos etários está muito mais próxima dos seguidores desta rede social. E que partilha vídeos a defender-se dos ataques de que foi alvo depois de dizer que uma menina de 12 anos que fosse violada e engravidasse devia ser convencida a levar a gravidez até ao fim ou a mostrar-se a distribuir rosas brancas “pelos moradores portugueses” da Rua do Benformoso, em Lisboa. Rita Matias está em plena campanha como candidata à Câmara Municipal de Sintra, mas olhando para as publicações mais recentes que fez, percebe-se que há mais conteúdos sobre a atualidade nacional e até internacional (contra “ditadura judicial” no Brasil ou a morte do influencer de extrema-direita Charlie Kirk) do que sobre temas que tenham que ver com o concelho. Os vídeos são muitas vezes em tom de provocação, com um texto pensado para gerar indignação, escolhendo alvos diretos (como o comentador da CNN Filipe Santos Costa) ou só insinuando vagamente os destinatários. Em todos os casos, a emoção é o combustível para aumentar as interações, daquela que muitas vezes é descrita como “a rainha do TikTok” da política portuguesa.

Ana Mendes Godinho

A candidata do PS a Sintra tem uns modestos 3 800 seguidores, mas percebeu que em Sintra a campanha passa pelo TikTok. Tem apostado em vídeos onde aparece a dançar, em ações de campanha ou naqueles jogos de “isto ou aquilo”, claramente tentando dar a volta ao algoritmo. Outro candidato a Sintra: Marco Almeida (do PSD) não vai além dos 1 225 seguidores, mas também tem multiplicado os vídeos nesta rede social.

E o que é que o TikTok nos diz sobre o que é que faz disparar o alcance dos vídeos que aí se postam? “O nosso sistema de recomendação é composto por diferentes modelos de machine learning”, começa por explicar a empresa, que diz que há uma “seleção de vídeos para recomendação, que envolve a recolha de um grande número de vídeos que já passaram pelos nossos processos iniciais de moderação de conteúdo”, que é feita de acordo com a “probabilidade de o utilizador gostar, partilhar, comentar ou ignorar determinado vídeo”. A avaliação dessa probabilidade traduz-se numa pontuação “adicionando ao feed Para Si os vídeos com melhor classificação, desde que passem numa verificação final de similaridade antes de serem recomendados”. Ou seja, quanto mais vemos um determinado tipo de vídeos, mais provável é que outros do mesmo género nos sejam recomendados. E depois ainda há “regras de recomendação”, mas a empresa abre pouco o jogo sobre essas regras, limitando-se dizer: “Por exemplo, temos regras que asseguram que o feed Para Si inclua conteúdos de criadores da região do utilizador.”

Mariana Mortágua

É uma das estrelas do TikTok. Está com 177 mil seguidores, naquele que é um dos piores momentos eleitorais de sempre do BE. No seu feed, os conteúdos mais recentes têm todos que ver com a sua participação na flotilha humanitária com destino a Gaza. Para se ter uma ideia, Mariana Leitão, líder da IL (com muito mais votos do que o BE) não chega aos 1 900 seguidores nesta rede social. Rui Tavares, do Livre, tem 2 800. Paulo Raimundo não está no TikTok, onde o PCP é seguido por pouco menos de 8 500 utilizadores.

Talvez essa regra de recomendação explique o sucesso de políticos que partilham no TikTok vídeos inspirados na moda do momento. Carlos Moedas é um deles. Na véspera de um debate para a campanha eleitoral, partilhou imagens em que se mostra a pôr a gravata e a vestir o casaco, com a legenda “GRWM”. Esse conjunto de letras significa “Get Ready With Me” e é uma tendência popular nas redes sociais. No fundo, são vídeos em que alguém se mostra a preparar-se antes de uma saída. Graças ao domínio deste tipo de truques, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa tem já mais de 21 mil seguidores, mais até do que os 17 mil de Isaltino Morais, que é muito popular no Instagram (onde tem 113 mil seguidores), mas ainda não tem a mesma tração que Moedas nesta rede mais jovem.

A promessa do TikTok para estas eleições é a de que irá remover a desinformação que os seus mecanismos (digitais e humanos) detetarem. E fonte oficial do TikTok lembra que esses mecanismos já estiveram ativos nas legislativas de maio.

Carlos Moedas

Tem mais de 21 mil seguidores. Desde que chegou à Câmara Municipal de Lisboa tem apostado forte nesta rede social. Mostra os bastidores da autarquia, faz vídeos com as tendências do momento e já chamou para o seu feed uma das mais populares políticas da direita espanhola, Isabel Ayuso.

Nessa altura foram removidos quase 600 conteúdos em Portugal. Porquê? “Por violarem as nossas políticas de integridade cívica e eleitoral, desinformação e conteúdos gerados por IA, sendo que mais de 95% foram removidos proativamente, antes mesmo de serem reportados.” Mais: as equipas especializadas do TikTok “neutralizaram uma pequena rede de influência encoberta composta por nove contas (com 4164 seguidores), que procurava promover o PS e prejudicar o PSD”. Não foi dada informação sobre se algum outro partido foi apanhado em tentativas semelhantes nas últimas legislativas.

Isaltino Morais

Tem 17 mil seguidores. Dança, canta, fala diretamente para a câmara e até já partilhou um vídeo com um cão fofinho, apelando a que os utilizadores do TikTok tentassem adivinhar-lhe o nome, um truque clássico para aumentar as interações nas redes sociais. O presidente da Câmara Municipal de Oeiras e recandidato com o apoio do PSD está um perfeito influencer.

As consequências para quem é apanhado são duras. “Aplicamos regras específicas a contas de governos, políticos e partidos políticos. O conteúdo que viole as regras é removido, mas em vez de eliminar permanentemente as contas após reincidências, podemos restringir o seu alcance (por exemplo, suspender a recomendação nos feeds durante 90 dias). Em períodos de alto risco, como eleições, podemos impor restrições adicionais, incluindo proibições temporárias de publicação. Violações graves, como incitação à violência, continuam a resultar em remoção imediata”, assegura o TikTok, relembrando que “é proibida toda a publicidade política paga, incluindo anúncios, conteúdos patrocinados ou funcionalidades de monetização”.

Susana Garcia

A candidata do PSD à Câmara Municipal da Amadora tem mais de 34 mil seguidores e um feed que mistura as suas intervenções como comentadora televisiva de crimes nos programas da manhã com conteúdos feitos a pensar na corrida às autárquicas. “Vamos erradicar a Cova da Moura” é um dos seus vídeos, com imagens suas dentro de uma retroescavadora à porta do bairro, com a promessa de arrasar as habitações que lá estão e construir aí casas para a classe média.

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O comunicado da PSP descreve um crime insólito. “O Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, através da 5.ª Divisão Policial, no dia 07 de outubro, pelas 19H05, na freguesia das Avenidas Novas, em Lisboa, deteve um homem, de 29 anos de idade, durante uma manifestação que se encontrava a decorrer em frente ao Centro Comercial El Corte Inglês, por ser suspeito da prática do crime de roubo por esticão”, lê-se no e-mail enviado às redações. A descrição faz parecer que um leitor criminoso não tinha resistido ao impulso de roubar uma obra que ansiava ler. Mas a história é bem mais complicada do que o comunicado oficial faz parecer.

O caso aconteceu no dia 7 de outubro, em frente ao El Corte Inglés, para onde vários coletivos de apoio à causa palestiniana tinha convocado uma concentração de protesto. Lá dentro, Henrique Cymerman apresentava o livro “O Enigma de Israel”, numa sala a que só puderam aceder convidados ou jornalistas devidamente identificados.

Patrícia Baptista Nabiço, ativista do Occupy for Gaza tinha pensado entrar na sala para confrontar Cymerman – há décadas correspondente da SIC e da TVE em Israel – com o que considera serem erros no que escreveu. A impossibilidade de entrar na sala e a longa fila para autógrafos fizeram-na mudar de planos. Mas ainda comprou o livro de Henrique Cymerman antes de se juntar à concentração, que tinha sido comunicada à Câmara de Lisboa, como determina a lei.

Quando chegou à porta do centro comercial, conta Patrícia Baptista Nabiço à VISÃO, viu “uma mulher brasileira a insultar” quem discursava. “Começou a gritar “terroristas, é Israel quem nos vai salvar”. A ativista diz que nenhum dos 10 polícias que nesse momento faziam um cordão na zona se aproximou para intervir. Dois dos manifestantes, com megafones na mão, foram para perto da mulher gritar palavras de ordem pela Palestina.

Foi, então que segundo Patrícia, uma segunda mulher, “com um livro de autoajuda na mão”, se aproximou de um ativista e “o agrediu com o livro”. Patrícia Baptista Nabiço assegura que a reação do ativista foi calma. “Não foi agressivo. Tirou-lhe o livro das mãos, para não continuar a ser agredido e foi colocá-lo junto a uma árvore, no chão”. A ativista garante que estava a uns dois metros da cena e que nenhum polícia se aproximou para impedir as agressões com “o calhamaço” de autoajuda.

Apesar disso, a ativista garante que nesse momento apareceram mais uns 10 agentes, dessa vez da Polícia da Intervenção, e que “um polícia à paisana começou a puxar os cabelos do ativista e a gritar ‘este gajo vai preso’”.

No meio da confusão ainda houve quem se tivesse aproximado da senhora a quem pertencia o livro para o devolver. Mas ela terá recusado recebê-lo das mãos de manifestantes. “Ninguém roubou um livro”, assevera Patrícia Baptista Nabiço.

A versão do comunicado é esta: “O suspeito foi intercetado em flagrante delito por um polícia empenhado no policiamento da manifestação, após ter sido observado a puxar um livro da mão de uma transeunte que passava pelo local. O suspeito tentou de seguida ocultar o objeto roubado, escondendo-se entre os restantes participantes na manifestação, tendo sido imediatamente intercetado e detido pelos polícias no local. O objeto furtado, um livro, foi recuperado e restituído à legítima proprietária”.

Livro rasgado foi comprado

Patrícia Baptista Nabiço continuou na concentração. Pegou no livro de Cymerman que comprou e do qual tem recibo e leu uma passagem sobre a proclamação do Estado de Israel, que defende estar errada por se tratar de uma declaração que deu origem a uma ocupação do território palestiniano. Depois de a ler, rasgou a página dessa passagem e convidou quem estava presente a rasgar o que quisesse do livro que tinha comprado. “Foi só isso que aconteceu. O livro é meu. Consultei todas as leis. Não há nada que diga que isso é ilegal”.

Segundo o comunicado da PSP, o suspeito do tal roubo por esticão “recolheu às salas de detenção desta Polícia, a fim de ser presente à Autoridade Judiciária, para sujeição a 1.ª interrogatório Judicial e aplicação das respetivas medidas de coação, foi-lhe aplicada a medida de coação de Termo de Identidade e Residência”.

Segundo confirmou a agência EFE no terreno, a retirada gradual das tropas permitiu que a população regressasse a bairros da Cidade de Gaza, como Tal al-Hawa e Sheikh Radwan, mas o movimento do sul para o norte do enclave continua proibido, com ataques de artilharia dissuasivos e vigilância por drones.

As tropas continuam estacionadas em zonas militares como o Corredor Netzarim, que divide Gaza em duas partes, desde o Kibutz Beeri até ao Mediterrâneo, o Corredor Filadélfia e o Eixo Morag, a sul.

Esta retirada inicial deixa ainda cerca de 53% da Faixa de Gaza sob controlo israelita, cobrindo uma área de aproximadamente 185 quilómetros quadrados. Durante a ofensiva, Israel controlou — quer como zona militar, quer sob ordem de evacuação forçada — mais de 80% do enclave.

O Governo israelita ratificou na quinta-feira o acordo de paz inicial com o Hamas, que inclui a libertação de todos os reféns israelitas e a retirada parcial do Exército de Israel da Faixa de Gaza.

A ratificação do acordo era o último passo esperado para implementar os mecanismos previstos nesta primeira fase do plano lançado por Trump, que o Hamas também aceitou na madrugada de quinta-feira.

Pelo seu “incansável trabalho na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e pela sua luta para conseguir uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”. O Comité Nobel justifica assim a decisão de atribuir a María Corina Machado o Prémio Nobel da Paz 2025

No fim de semana que se aproxima terão lugar mais umas eleições autárquicas em Portugal que, na sua essência, constituem uma das mais expressivas manifestações do princípio da soberania popular. Com efeito, sem diminuir a importância fundamental de todos os atos eleitorais, designadamente daqueles que se destinam à escolha da nossa representação nacional ou europeia, nas autárquicas é o poder local que está em causa, isto é, aquele que mais próximo está dos cidadãos, que conhece melhor os seus problemas e que, no final do dia, tem maior capacidade para responder às suas necessidades imediatas. Aliás, esta proximidade constitui a principal característica que confere às eleições autárquicas uma importância vital e que não pode ser subestimada, ou seja, o facto de constituir a base da democracia participativa de uma forma verdadeiramente enraizada no território.

De facto, é com este instrumento vital de exercício da cidadania que é conferida aos cidadãos a possibilidade de livre e diretamente escolherem os seus representantes nos órgãos municipais e de freguesia, nomeadamente nas câmaras municipais, assembleias municipais e assembleias de freguesia. Para além de um momento de participação cívica, as eleições autárquicas constituem uma oportunidade concreta de intervenção na gestão da vida quotidiana de cada comunidade. É aqui que se decidem questões tão fundamentais para o dia-a-dia das pessoas como a mobilidade, a recolha de resíduos, os transportes, a habitação, o urbanismo, os espaços verdes, a educação de proximidade, o desporto, o associativismo ou a cultura local.

Esta relevância do poder autárquico tem por base uma arquitetura do Estado assente numa estrutura descentralizada, devidamente estribada em municípios e freguesias dirigidas por órgãos democraticamente eleitos em sufrágio direto e universal. Trata-se de um desenho constitucional que visa, pelo menos em abstrato, conferir uma maior aproximação do poder das populações, tornando-o mais eficiente, fiscalizável e sensível às realidades e particularidades locais.

No entanto, a eficácia deste modelo depende de uma premissa básica: a confiança dos cidadãos no processo eleitoral. E e precisamente aqui que se destaca o papel do juiz nas eleições. Uma função que, embora muitas vezes discreta aos olhos do público, se afigura fundamental para garantir a lisura e a credibilidade de todo o processo eleitoral. Com efeito, o juiz é o responsável por assegurar o cumprimento da legalidade durante todo o processo eleitoral, desde a apresentação de candidaturas até à apuramento final dos resultados. Cabe ao juiz decidir sobre a admissibilidade das candidaturas, apreciar a regularidade do processo, a autenticidade dos documentos e a elegibilidade dos candidatos, determinar a afixação das listas apresentadas, decidir sobre a tramitação do procedimento eleitoral de apresentação das listas de candidatos, apreciar e decidir as reclamações apresentadas, presidir ao sorteio das listas, receber as desistências apresentadas, receber as indicações sobre o horário previsto para as emissões relativas ao exercício do direito de antena e efetuar, por sorteio, a distribuição dos tempos de antena, apreciar e decidir sobre os recursos dos locais de funcionamento das assembleias de voto e a designação dos membros das mesas, efetuar a receção dos boletins de voto e apreciar as reclamações sobre as provas tipográficas, determinar a guarda e conservação dos boletins de voto utilizados e não utilizados, ordenar a destruição dos boletins e apreciar e decidir as reclamações sobre o recenseamento eleitoral.

Trata-se de uma panóplia discreta, mas fundamental, de atos que quase passam despercebidos ao cidadão em geral, mas sem os quais não estaria assegurada a legalidade do ato eleitoral enquanto momento fundamental da nossa vivência coletiva em democracia. Neste domínio, o juiz atua, portanto, como árbitro imparcial, zelando pelo equilíbrio entre os concorrentes e pelo respeito pelas regras do jogo democrático e que culmina na presidência das assembleias de apuramento geral onde são, além do mais, decididas as reclamações e protestos, determinada a distribuição de mandatos e proclamados os resultados finais.

É importante compreender que todo este envolvimento do juiz nas eleições autárquicas decorre da lei, não constituindo a sua ação uma intervenção de cariz político, mas sim jurídico e institucional. A sua presença garante a independência do processo eleitoral relativamente aos poderes executivo e legislativo, reforçando a separação de poderes e protegendo a integridade do sufrágio. Este papel é ainda mais relevante num tempo em que as democracias enfrentam desafios globais — da desinformação à abstenção, da polarização política ao desinteresse cívico. A confiança no sistema eleitoral é a primeira linha de defesa da democracia e essa confiança constrói-se, em larga medida, através da garantia de que o processo é justo, transparente e controlado por entidades independentes, como os tribunais.

A título simbólico e prático, o juiz representa a neutralidade do Estado no processo eleitoral. Ele não é parte interessada nos resultados, não defende programas ou partidos, mas assegura que todas as candidaturas sejam tratadas de forma igual, que todos os votos contem da mesma forma e que todas as regras sejam respeitadas. O juiz é, neste contexto, o guardião da democracia. Neste quadro, o papel do juiz afigura-se como verdadeiramente central, isto é, de verificador da legalidade que garante que o ato de votar se traduz efetivamente em representação democrática. A sua intervenção, discreta mas estrutural, técnica mas carregada de significado cívico, permite que as eleições autárquicas cumpram a sua função essencial: renovar democraticamente o poder local, reforçar a cidadania ativa e consolidar a confiança dos cidadãos nas instituições.

Num tempo em que a democracia não pode ser dada como adquirida, valorizar as eleições autárquicas e o papel dos juízes nesse processo é reconhecer que a democracia se constrói não só com votos, mas também com regras, com justiça e com instituições que merecem — e inspiram — confiança, numa engrenagem escrutinável e transparente aos olhos da comunidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Lisboa já foi desaparecida. Era a Lisboa inalcançável dos livros da Marina Tavares Dias. Aquela dos postais impossíveis, bela demais para continuar viva. Cantei sobre isso no meu disco Os Perdedores, de 2022. Na canção “Nem fome, nem mundo”, nomeio os lugares que percebi amar quando os perdi: o King, a Sol e Mar, o Londres ou o Estádio da Luz. A cada um que é nomeado ouve-se a voz samplada do meu filho Sebastião a perguntar “e agora pai?” E eu, sem saber muito bem a quem respondo, digo: “Acabou.”

Porém, o que sinto agora é outra coisa. Lisboa passou do lamento à náusea; e já nem sei se é da cidade ou de mim. O que resta é o silêncio depois do enterro, o zumbido da maquinaria, o cheiro a cimento fresco. Chamo a isso pós-melancolia: quando ter saudades em vez de doer, cansa. Já não se trata de querer o regresso do “genuíno”, mas de aceitar o estado civil de uma cidade pós-desaparecida, exaurida, resignada ao que resta de si própria.

Lisboa tornou-se um mau lugar para viver: um sítio caro, triste, onde o demasiado limpo e o demasiado sujo convivem sem se estranharem um ao outro. Uma monstruosidade ordeira, tresandando a sabão químico. Como se a cidade se tivesse transformado num desses serviços de internet, nos quais a menos que se tenha dinheiro para subscrever, estamos condenados a levar com os anúncios ubíquos, ciclópicos, indecentes.

Alguns, apanhados pelo acaso do tempo que lhes coube, compraram antes da febre de popularidade lisboeta ter alastrado pelo mundo. Deram uma ninharia por um apartamento na Estrela e venderam-no quatro vezes mais caro a brasileiros endinheirados. Lisboa foi o melhor negócio das suas vidas. E o pior para Lisboa. Dormem tranquilos, claro. E bem. Os que vieram depois de 2012, a menos que tenham dois milhões para dar por um T3, acordam nos subúrbios e sonham em partir. Que remédio.

Conheço um pai de uma dessas famílias inaceitáveis de tão numerosas que, num destes dias, foi admoestado pelo vizinho. A cena é trivial: pizas, gritos, sol, uma varanda. Os miúdos engalfinham-se entre mãos e facas e garfos e queijo derretido. Seis impertinências e oito irritações mais tarde — quando um homem já se enerva do próprio facto de estar enervado — o pai explode e manda dois berros. Talvez três, não interessa. É então que o vizinho aparece da janela em frente e sentencia “Monsieur, ça suffit!”. Assim mesmo, na língua de Baudelaire e de Montaigne. O pai cala-se. E a cidade suspiraria, não fosse ficar ela própria surpreendida por descobrir que, até ali, naquele bairro médio burguês igual a tantos outros, até ali estava o forasteiro. Foi como se as zangas de Lisboa já não lhe pertencessem.

Dizer que Lisboa está cheia de estrangeiros é tão trivial que já não ofende ninguém. O que resta é esta espécie de topografia do absurdo: os muito-muito-ricos, os muito-muito-pobres, e no meio nós, lisboetas, povo mitológico, espécie em vias de extinção. A tentar respirar no metropolitano às seis da tarde, fazendo contas para um folhado de salsicha e um Compal a sete euros no café da esquina. Sustendo a respiração para não ter de inalar o fedor a urina na Estação do Oriente. E se me lê do resto do País, aceite o conselho: não venha. Fique onde está.

Domingo há eleições autárquicas. Convém votar em alguém que faça do gesto um ensaio mínimo de utilidade plebiscitária. Alguém que não seja nem Moedas, nem Leitão.

O Moedas é aquele rapaz estudioso que passou a vida a querer ser popular. Depois de eleito passou o mandato a tentar resolver o trauma. Andou de causa em causa, como quem muda de gravata (caso as usasse), aproximando-se sempre daquilo que lhe parecia mais estiloso em cada momento. Abanou as bandeirinhas woke, acreditou nos unicórnios, depois deixou de acreditar nos unicórnios, e acabou a falar de segurança porque era o tema do dia. É um político que só sabe reagir ao que brilha. Tipo traça. O que para alguém que deve liderar é — digamos — curto. Está sempre um passo atrás do rumor, de dedo babado ao vento a tentar perceber para onde sopra o mundo. Numa espécie de situacionismo de quem já é a situação.

E depois há o oposto do Moedas. Ah, a Alexandra Leitão! A encarnação da bazófia. Um portento de confiança em si mesma. Óptimo para mandar bocas no parlamento e na televisão. Péssimo para a relação tu-cá-tu-lá do quotidiano local. É-lhe impossível fazer-nos acreditar que não passa de uma ministra disfarçada de vizinha. Das que acredita no Estado e desconfia do povo. Por isso ninguém a segue verdadeiramente; apenas a ouve (ouve?) com a piedade possível para a retórica socialista do costume. Não inspira, não perturba, não arde; assusta.

É tramado, eu sei. Também estou assim, sem fazer ideia em quem votar no Domingo. A cada um o seu inferno eleitoral, caro vizinho lisboeta. Amanhã é o dia de reflexão. Aproveitemos para contemplar as faluas do Tejo, as bicicletas vagando pela Almirante Reis, o lixo um pouco por todo o lado. Apesar de cada vez mais feia, Lisboa continua linda; claro. E, depois de desaparecida como nos postais de Marina Tavares Dias, ainda sobrevive. Nós é que já cá não moramos.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Este domingo temos eleições autárquicas pela 14ª vez em democracia desde 1976. Estas eleições são a grande festa da democracia pela variedade das disputas em 3259 assembleias de freguesia e 308 câmaras e assembleias municipais, envolvendo a eleição de perto de 40 mil autarcas de entre cerca de 300 mil candidatos.

Como sempre, irá discutir-se em cada resultado qual o peso relativo das tendências políticas nacionais e do fator proximidade que valoriza o conhecimento dos candidatos sobre o emblema com que concorrem. Apesar das recorrentes campanhas de descrédito e de uma sobranceria centralista sobre a decisão local, todos os estudos de opinião indicam uma maior confiança das populações nos seus autarcas do que nos distantes governos.

É esse reconhecimento baseado no trabalho desenvolvido que justifica a vantagem que é apontada à maioria dos autarcas em funções, e que leva a considerar como muito mais disputadas as eleições nos casos em que a limitação de mandatos impede a recandidatura para lá do ciclo de 12 anos de funções.

As eleições locais também já serviram algumas vezes, sobretudo nas áreas urbanas, para manifestação do descontentamento com os Governos. Por outro lado, quer para o PS quer para o PSD, a forte base autárquica reforçada com figuras com projeção política nacional foi o que permitiu o enraizamento social durante períodos de longa permanência na oposição, como sucedeu com o PS durante os dez anos do cavaquismo e com o PSD ao longo do século XXI.

Para além do balanço global que passará pelo número de presidências de câmara e a liderança da ANMP, os resultados nos maiores municípios, a liderança das áreas metropolitanas ou das capitais de distrito, estas eleições têm fatores de incerteza que as tornam as mais imprevisíveis de sempre.

Que dimensão local terá o apelo populista do Chega, que como partido de um homem só é o mais centralista de todos, sem qualquer pensamento conhecido sobre descentralização ou o papel das autarquias?

Tanto mais quando assenta a sua rede de expansão nas autarquias em trânsfugas dos outros partidos de direita, em candidatos instrumentais sem nenhuma ligação aos territórios onde concorrem e em várias figuras locais com percursos pessoais pouco recomendáveis. Tendo vencido em maio em 60 municípios e em centenas de freguesias, é natural que o Chega se estreie na experiência de gestão local mas se ficar abaixo dos 10 a 15 concelhos conquistados terá uma amarga decepção face às expectativas criadas.

O PCP e o CDS, ainda que este se esconda na maioria dos casos em coligações na mochila do PSD, jogam a sua sobrevivência como partidos com implantação territorial na defesa das 19 câmaras comunistas ou das 6 dos antigos democrata-cristãos.

E temos finalmente o caso muito especial de Lisboa em que se testa a salvação da cidade capital do pior presidente da democracia. Carlos Moedas perante a falta de obra e a degradação da cidade envolta em lixo, excesso de trânsito e colapso na habitação, adotou sempre uma estratégia assente na propaganda, na agressividade política descompensada e na permanente lamúria e desresponsabilização de tudo. Como seria um sopro de ar fresco nestes tempos sombrios o regresso da Lisboa otimista, solidária e cosmopolita dos tempos de Jorge Sampaio agora em versão feminina.

A única certeza que temos é que um Governo, que misturou de propósito a data das eleições locais com a apresentação do Orçamento e multiplicou uma gestão governamental de curto prazo para favorecer os objetivos eleitorais do PSD, nunca fará o que Francisco Balsemão fez em 1982 ou António Guterres em 2001 depois de noites eleitorais autárquicas infelizes.

Igualmente sabemos que Luís Montenegro, levado inesperadamente ao poder pela estrada aberta pela coligação de Marcelo Rebelo de Sousa com Lucília Gago, tudo fará para adiar respostas ou se furtar a esclarecimentos sobre a compatibilidade entre a sua vida política e a empresarial e não aplicará jamais a si próprio, ou aos que lhe são próximos, os critérios éticos que proclamava relativamente a terceiros.

A proposta de Orçamento do Estado, ontem apresentada por Miranda Sarmento para preencher tempo de antena, é reveladora do final dos 18 meses de espírito de campanha eleitoral dos governos de Montenegro, e de como quase tudo o que era simpático ou politicamente relevante já tinha sido anunciado ou acordado com o Chega, pelo que é provavelmente o documento do género mais descafeinado de sempre.

A partir de segunda-feira, face ao esgotamento da margem de manobra orçamental e do baú das promessas, vamos entrar na segunda fase do montenegrismo, marcada pela preocupação com o total domínio do aparelho de Estado, pela limitação do escrutínio político, comunicacional e judicial e pela resistência à degradação da economia, olhando para o sonhado longo prazo de vários anos sem eleições. Tudo isto, claro, salvo se mais uma vez uma qualquer grande surpresa nos faça cair o céu na cabeça.

Pela apresentação de um Orçamento sem chama, que demonstra a ausência de uma estratégia para lá da mera sobrevivência do Governo, e dele próprio no poder, o prémio Laranja sem Sumo de hoje vai para Luís Montenegro.

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