“Tenho 56 anos, o meu pai entrou na política aos 58… Hoje não tenho qualquer intenção de o fazer, mas olhando para o futuro, não posso excluir que um dia possa dizer: porque não? Seria um desafio completamente novo.” Com estas palavras, ao aceitar falar sobre a possibilidade de um dia seguir os passos do seu pai na política, Pier Silvio Berlusconi, presidente do conselho de administração da Mediaset – e herdeiro de uma das mais poderosas dinastias mediáticas da Europa –, quebrou um tabu familiar não escrito. Nunca antes um membro da família Berlusconi tinha considerado abertamente a hipótese de entrar na política.O comentário foi feito durante a apresentação anual da nova temporada televisiva da Mediaset, em julho passado, na sede envidraçada da empresa em Cologno Monzese, nos arredores de Milão. Numa sala cheia da elite da televisão italiana, o tom calmo de Berlusconi mudou instantaneamente a atmosfera. O que tinha começado como um ritual empresarial transformou-se numa questão de especulação política. As suas palavras repercutiram-se muito para lá das paredes da empresa, ecoando nas redações e nos talk shows. Comentadores e observadores políticos dissecaram o comentário, vendo-o como uma forma de testar a reação do público, sem assumir um compromisso formal. Com esta declaração, Pier Silvio Berlusconi – presidente executivo da MFE, MediaForEurope, a holding sediada em Amesterdão que controla a Mediaset e opera em Itália, Espanha e Alemanha, com um olho agora em Portugal – posicionou-se mais uma vez na encruzilhada do poder mediático e político. Mas Pier Silvio não é o seu pai. Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano do pós-guerra que mais tempo esteve no poder, foi um magnata dos média que transformou a televisão numa arma política e governou o país através do carisma e do espetáculo. O seu filho prefere atuar nos bastidores.

Onde Silvio procurou as luzes da ribalta, Pier Silvio controla-as. Onde o pai construiu um partido, o filho constrói sistemas de influência. A sua linguagem é de gestão, o seu estilo é comedido e tecnocrático, mas plenamente consciente do seu alcance.
Nesta reflexão aparentemente casual – não agora, mas talvez um dia – reside a essência do projeto de Pier Silvio: poder sem partido, domínio dos média sem política.
Origens de um herdeiro da média
Pier Silvio Berlusconi nasceu em Milão a 28 de abril de 1969, o segundo filho de Silvio Berlusconi, então um empresário imobiliário em ascensão que mais tarde se tornaria uma das figuras mais poderosas da média e da política europeia, e de Carla Dall’Oglio, a sua primeira mulher.
Cresceu ao lado da irmã mais velha, Marina, numa família que depois se expandiria com mais três irmãos – Barbara, Eleonora e Luigi – nascidos do segundo matrimónio de Silvio, com a atriz Veronica Lario, com quem se casou em 1990.
A sua mãe, uma presença discreta e tradicional, protegeu Pier Silvio dos holofotes enquanto o pai construía o seu império. Dela ele herdou um sentido de moderação e privacidade; dele, um instinto para a comunicação e o controlo.
Depois de estudar Filosofia na Universidade de Milão – curso que nunca concluiu –, Pier Silvio ingressou nos negócios da família, no início dos anos 1990, justamente quando a Mediaset se expandiu para Espanha e começou a desafiar a RAI, emissora pública estatal italiana e há muito tempo a instituição televisiva dominante no país.
O seu primeiro cargo foi na Publitalia ‘80, a poderosa agência de publicidade que financiou e impulsionou a revolução televisiva de Berlusconi. Mais do que uma agência de vendas, a Publitalia era o verdadeiro motor do sistema Berlusconi, uma máquina sofisticada que transformava anúncios em persuasão, fazendo da televisão uma ferramenta para moldar os hábitos de consumo, os valores e a imaginação política de Itália.
Mais tarde, mudou-se para a RTI – Reti Televisive Italiane, que geria os principais canais de televisão do grupo Mediaset. Lá, aprendeu a mecânica da programação, estratégia de audiência e produção de conteúdo, desenvolvendo uma visão gerencial da televisão focada menos na personalidade e mais na estrutura e na sustentabilidade.
De herdeiro a executivo
Em 2000, Pier Silvio Berlusconi tornou-se vice-presidente executivo da Mediaset, a maior emissora privada de Itália – uma rede que remodelou a cultura nacional desde a década de 1980 e rivalizou durante muito tempo com a gigante pública RAI.
Ao seu lado estava Fedele Confalonieri, presidente da Mediaset e um dos aliados mais próximos de Silvio Berlusconi, orientando Pier Silvio no delicado equilíbrio de entretenimento, comércio e política que definia a marca da família.
A sua ascensão coincidiu com um período turbulento. A Sky Italia, propriedade de Rupert Murdoch, estava a revolucionar a televisão por assinatura, enquanto o início da era digital começava a corroer o modelo de publicidade que financiava o império de Berlusconi há décadas.
Impresa
A solução da venda
Prejuízos acumulados e a subida da dívida estão na base da entrada do clã Berlusconi no capital da Impresa
Estando a Impresa numa situação financeira bastante fragilizada, a venda de uma posição de controlo no seu capital surge como uma das melhores soluções para resolver os problemas com que o grupo da família Balsemão se vem debatendo ao longo dos últimos anos e para manter a atividade da proprietária da SIC e do Expresso.
No ano passado, a Impresa registou um prejuízo de 66,2 milhões de euros, que, segundo as explicações da própria empresa, resultaram em grande parte de registos de imparidades no valor de 60,7 milhões de euros, relacionadas com a televisão e a Infoportugal. Este valor acabou por deteriorar a autonomia financeira que passou de 156 milhões para 90 milhões de euros, colocando a Impresa numa situação complicada em termos de estrutura financeira.
E o problema agravou-se ainda mais nos primeiros seis meses do ano. Na apresentação de contas do primeiro semestre, o grupo de comunicação social voltou a apresentar prejuízos de 5,1 milhões de euros. A dívida líquida continuou a subir, ascendendo aos 148,2 milhões de euros, mais 3,8% do que em igual período do ano passado.
Em junho deste ano, falhou a venda do seu edifício-sede, em Oeiras, ao BPI por um valor na ordem dos 37 milhões de euros. Ao longo dos últimos meses, o grupo tentou alienar uma parte do seu capital à Jerónimo Martins, mas o negócio acabou por não se concretizar.
Assim que surgiram os primeiros rumores sobre o potencial negócio com a família Berlusconi, as ações da Impresa praticamente duplicaram o seu valor em bolsa, passando de €0,13 para €0,25, o valor mais alto dos últimos quatro anos, passando de uma valorização de aproximadamente 21 milhões para mais de 40 milhões em apenas um dia.
Em resposta, Pier Silvio reestruturou a Mediaset com foco na eficiência e na disciplina industrial. Simplificou as operações, introduziu métricas de desempenho, integrou as filiais italiana e espanhola e, gradualmente, neutralizou as conotações políticas da marca, direcionando-a para uma identidade mais europeia e tecnocrática.
Nomeado diretor-executivo da Mediaset em 2015, lançou uma ampla reforma interna: digitalizou todos os canais, desenvolveu plataformas de streaming próprias, renovou o investimento em ficção e entretenimento e impôs um controlo financeiro mais rigoroso.
Dois anos depois, expandiu-se para lá da televisão ao adquirir o Finelco Group e criar a RadioMediaset, que consolidou o domínio da empresa em todas as plataformas e a tornou a maior rede de rádio de Itália.
O seu princípio orientador era a modernização através da integração: preservar a força da televisão aberta enquanto se expandia para a rádio, o streaming e plataformas online. A mudança reforçou o seu objetivo de longo prazo de construir um ecossistema integrado e multimédia capaz de competir no futuro digital da Europa.
De emissora familiar a participante continental
Sob a liderança de Pier Silvio, a Mediaset evoluiu para uma empresa mais industrial e orientada para o digital, com ambições europeias claras.
O ponto de viragem ocorreu em 2021 com a criação da MFE – MediaForEurope, uma holding com sede em Amesterdão e cotada em Milão e Madrid. A mudança, motivada pela flexibilidade regulatória e os benefícios fiscais, marcou uma redefinição decisiva, de uma emissora familiar para um grupo de média pan-europeu que quer competir com gigantes globais como Netflix e Disney.
No topo deste sistema está a Fininvest, a holding familiar que detém cerca de 48% das ações com direito a voto da MFE. Criada em 1975 como o suporte financeiro dos empreendimentos de Silvio, a Fininvest continua a ser um dos conglomerados privados mais poderosos de Itália, com ativos de cerca de cinco mil milhões de euros.
Ela controla as participações da família na MFE – MediaForEurope, na Arnoldo Mondadori Editore, a maior editora de Itália, e na Banca Mediolanum, uma empresa financeira e de investimentos líder, com Marina Berlusconi atuando como presidente e Pier Silvio à frente da MFE.
A estratégia da MFE tem dois pilares: consolidar os seus mercados históricos em Itália e em Espanha, e expandir-se para o Norte através da aquisição gradual da alemã ProSiebenSat.1, uma das principais emissoras privadas da Europa Central.
Em 2024, a MFE registou receitas consolidadas de 2,95 mil milhões de euros, um aumento de 4,9% em relação ao ano anterior, e um lucro líquido de 137,9 milhões de euros. A publicidade permanece a principal fonte de receitas do grupo, apresentando um crescimento sólido ao longo do ano.
A expansão da Mediaset em Espanha remonta a 1989, quando Silvio Berlusconi ajudou a lançar a Telecinco, um dos primeiros canais de televisão privados do país. Duas décadas depois, o seu filho concluiu esse projeto: sob a direção de Pier Silvio, a Telecinco fundiu-se com a Cuatro, formando a Mediaset España Comunicación, atualmente a principal rede comercial de Espanha.
Na Alemanha, porém, a iniciativa foi inteiramente sua. A aquisição gradual da ProSiebenSat.1 – realizada entre 2019 e 2025, até que a MFE se tornou a sua maior acionista, com mais de 30% dos direitos de voto – marcou um avanço estratégico e simbólico, estendendo a influência de Berlusconi para lá do sul da Europa, pela primeira vez.
A aquisição decorreu sob escrutínio político em Berlim e ceticismo da imprensa alemã, cautelosa com a expansão de um grupo familiar italiano no seu panorama mediático. “A independência editorial é de importância central – não deve ser tocada”, alertou o presidente da ProSiebenSat.1, Andreas Wiele, refletindo as preocupações regulatórias da Alemanha.
O sindicato dos jornalistas alemães (DJV) chegou a exortar os investidores a não venderem as suas ações à MFE, alertando que a empresa italiana poderia impor uma “agenda populista de direita” à emissora.
Para aliviar as tensões, a MFE comprometeu-se publicamente a salvaguardar a independência editorial e a proteger os empregos locais e os centros de produção.
Pier Silvio articulou claramente a sua ambição: “O nosso objetivo é o de criar um grupo pan-europeu de radiodifusão e comunicação social capaz de enfrentar os gigantes tecnológicos globais e competir com eles.”
“Sou viciado em exercício físico e desporto”
Numa carta enviada ao La Repubblica, em junho de 2023, a procurar corrigir um perfil que o jornal tinha publicado a seu respeito, Pier Silvio acabou por revelar alguns pormenores da sua vida

Com uma série de “comentários educados e concisos”, Pier Silvio acabou por traçar uma espécie de “retrato íntimo”, na opinião do La Repubblica. E que, na verdade, complementou o artigo no qual o jornal tinha procurado narrar, tanto na vida pública quanto na privada, os cinco herdeiros da dinastia Berlusconi, na sequência da morte do antigo primeiro-ministro italiano e fundador de um vasto império empresarial.
Nessa carta, Pier Silvio começa por esclarecer que, ao contrário do que o jornal tinha afirmado, ele “não é obcecado pelo seu físico”, apesar de ter aceitado, no passado, ser capa da revista Men’s Health e tantas vezes o seu corpo musculado ser chamariz para os paparazzi e as revistas de sociedade. Para o presidente da Mediaset, a questão é mais profunda: “Sou viciado em esforço físico, e sou assim desde criança. Eu alimento-me de esforço. O exercício é libertador para mim.” E explica de que forma sente essa liberdade: “Quando pratico stand up paddle no inverno na esperança de avistar um grupo de golfinhos, ou quando corro na Córsega entre o mar, a floresta de pinheiros e o deserto, sinto uma liberdade que quase se torna uma experiência espiritual.”
O milionário afirma-se ainda “um tipo antiquado” em relação aos instrumentos que usa para aperfeiçoar o físico. Diz que não utiliza aparelhos para contar passos ou medir calorias e que usa, nas suas deslocações, nomeadamente na sua casa de praia em Portofino, uma bicicleta “estritamente não elétrica”.

No entanto, o mais atlético dos cinco herdeiros do cavaliere desmente ser algo parecido com um asceta: “Não sou um tipo super-saudável. Fumo charutos e, enquanto estou a praticar exercício físico, já estou a pensar no que vou comer a seguir: vinho tinto, chocolate, amendoim…”
Nos seus comentários e “correções” ao jornal, Pier Silvio também se olhou ao espelho, em relação ao que considera a sua forma de ser: “Sou reservado, sim, mas tímido não. Onde quer que vá, faço amizade com todas as pessoas. Os meus filhos até costumam dizer: ‘Agora o pai vai puxar um assunto de conversa e ficar a falar durante uma hora.’”
Em termos sociais, escreveu, diz seguir os mesmos passos do pai, um italiano de classe alta que foi extremamente popular nas classes baixas: “Não é que eu não goste da alta sociedade, mas adoro interagir com as pessoas comuns. Gosto muito de conversar com as pessoas e isso anima-me. Isto porque, de facto, sou filho do meu pai.”
Esse modelo está agora a expandir-se para oeste. Nos últimos dias de setembro, a MFE anunciou planos para adquirir uma participação na Impresa, proprietária da SIC e do Expresso, um dos meios de comunicação social mais respeitados de Portugal.
Em conjunto, estas medidas sinalizam uma profunda redefinição do legado de Berlusconi. A MFE já não é apenas uma empresa familiar italiana em expansão no estrangeiro, mas um sistema de comunicação social europeu – integrado, multiplataforma e concebido para exercer influência além-fronteiras.
Como Silvio Berlusconi transformou o entretenimento em ideologia
Para compreender Pier Silvio Berlusconi, é preciso primeiro voltar ao seu pai, Silvio Berlusconi, o empresário e figura política que transformou a televisão italiana numa ferramenta de influência e autoridade.
Na década de 1980, ele construiu um império televisivo privado que remodelou não só o que os italianos viam, mas também a sua forma de pensar. A sua visão era simples, mas radical: a televisão não servia para informar os cidadãos, mas para os entreter e tranquilizar.
Os seus canais vendiam um sonho de felicidade da classe média, povoado por famílias brilhantes, risos fáceis e conforto aspiracional, oferecendo não a realidade, mas uma visão idealizada da vida quotidiana, onde o consumismo e o entretenimento substituíam a informação e a reflexão.
“O público italiano não é composto apenas por intelectuais, o telespectador médio é como um miúdo do Ensino Básico que nem sequer se senta na primeira fila. É com eles que tenho de falar”, disse Silvio Berlusconi em 2004, explicando a linguagem populista que há muito definia tanto a sua televisão como a sua política.
Exatamente dez anos antes, em 1994, Berlusconi fundou o Forza Italia, um partido de centro-direita que misturava liberalismo pró-negócios com energia populista, e venceu as eleições gerais, tornando-se primeiro-ministro de Itália.
A sua vitória não foi surpresa: as bases do seu sucesso político já haviam sido construídas ao longo de anos de domínio televisivo. Quando entrou na política, Berlusconi não se apresentava como um novato, mas falava para um público que já o conhecia – e confiava nele – a partir das suas salas de estar.
Como o primeiro-ministro italiano com mais tempo de serviço no pós-guerra, Silvio Berlusconi governou enquanto era proprietário das maiores redes privadas do país – um conflito de interesses sem precedentes na Europa. Os seus canais de televisão moldaram a agenda pública e normalizaram a sua persona, transformando a política num espetáculo.
O peso de um nome
De acordo com a Forbes, o património líquido de Pier Silvio Berlusconi está estimado em 2,5 mil milhões de dólares em 2025, tornando-o um dos executivos de comunicação social mais ricos da Europa. No entanto, apesar da sua fortuna e do seu poder, Pier Silvio leva uma vida notavelmente privada, longe do espetáculo que outrora definiu o seu pai.
Ele raramente dá entrevistas, evita comícios políticos e vive longe do barulho de Roma, dividindo o seu tempo entre Milão e Portofino – a cidade litorânea da Ligúria onde possui uma villa com vista para o porto e vive com Silvia Toffanin, sua parceira há muito tempo, embora os dois não sejam casados.
Toffanin apresenta o Verissimo, um talk show de longa data da Mediaset, lançado em 1996, que mistura entrevistas com celebridades e histórias de interesse humano e continua a ser um dos programas de fim de semana mais assistidos em Itália. O casal tem dois filhos, enquanto Pier Silvio tem mais uma filha, nascida em 1990, de um relacionamento anterior.
A sua vida privada não poderia ser mais diferente da dos anos extravagantes do seu pai, repletos de festas, manchetes em tabloides e política. Em vez disso, ele cultiva uma imagem reservada de disciplina – um gestor que protege a sua família e a sua empresa com determinação silenciosa.

Mas a discrição não o isolou da sombra do seu apelido. Como todos os herdeiros de um império construído com base na visibilidade e no poder, Pier Silvio foi afetado pela turbulência que rodeou a família Berlusconi durante décadas.
O primeiro episódio importante ocorreu com o julgamento da Mediaset no início dos anos 2000, relativo à compra de direitos televisivos através de empresas offshore. Juntamente com o pai, Pier Silvio e a sua irmã Marina foram brevemente investigados por alegada lavagem de dinheiro, mas acabaram por ser absolvidos em 2006 por falta de provas.
Um segundo caso, a investigação Mediatrade iniciada em 2010, acusou a Mediaset de inflacionar o custo dos direitos de filmes para criar fundos offshore e sonegar impostos. Em 2016, Pier Silvio e o presidente da Mediaset, Fedele Confalonieri, foram condenados a 14 meses de prisão, mas o Supremo Tribunal da Itália posteriormente anulou o veredicto, absolvendo totalmente ambos.
Para muitos italianos, esses episódios lembraram a saga judicial de décadas de Silvio Berlusconi, que enfrentou mais de 30 processos criminais, desde corrupção e suborno até fraude fiscal e abuso de poder. Apesar desse histórico, ele foi condenado apenas uma vez, em 2013, por fraude fiscal no caso Mediaset – uma decisão que o impediu temporariamente de exercer cargos públicos, mas pouco afetou a sua influência política ou o mito em torno do seu nome.
Entre influência e independência
Após a morte do pai, em junho de 2023, Pier Silvio Berlusconi herdou não apenas um vasto império mediático, mas também um legado político – o do centro-direita italiano, há muito moldado pelo carisma e pelo domínio televisivo de Silvio Berlusconi.
Nas semanas após o funeral, o nome de Pier Silvio Berlusconi ressurgiu nos círculos políticos, com alguns a sugerir que ele poderia um dia seguir os passos do pai.
Ele descartou essa possibilidade com firmeza, descrevendo a política como “uma profissão séria que deve ser estudada e aprendida”, ao mesmo tempo que enfatizou o dever de se concentrar na transformação da Mediaset e expressou apoio à primeira-ministra de direita, Giorgia Meloni: “Tenho grande respeito por Giorgia Meloni”, disse ele. “Ela é jovem, determinada e séria.”
Ainda assim, embora Pier Silvio insista em ficar fora da política, a influência da MFE no discurso público italiano continua a ser considerável. Os seus canais de televisão refletem frequentemente narrativas de direita – particularmente em questões como imigração, segurança e identidade nacional –, enquanto a família Berlusconi continua a exercer uma influência discreta no espaço liberal-conservador outrora dominado pela Forza Italia.
O frágil equilíbrio com o governo de Giorgia Meloni foi posto à prova em 2023, quando Andrea Giambruno, jornalista da Mediaset e companheiro da primeira-ministra, foi flagrado em gravações fora do ar fazendo comentários sexistas e inadequados a colegas mulheres.
Os vídeos, transmitidos pelo Striscia la Notizia – um programa satírico de longa data do Canale 5 – tornaram-se virais em poucas horas, forçando Meloni a terminar publicamente a sua relação sentimental e alimentando críticas à cultura interna da Mediaset e à sua proximidade com o poder político.
Pier Silvio Berlusconi reagiu rapidamente, suspendendo Giambruno dos programas da Mediaset, mas sem chegar a demiti-lo. A decisão foi amplamente vista como um ato calculado de independência: uma medida para defender a credibilidade da empresa, ao mesmo tempo que sinalizava que a sua lealdade está com a Mediaset, e não com o governo.
Para muitos observadores, o escândalo também expôs tensões subtis entre Pier Silvio e Meloni, uma lembrança de que, sob a sua liderança, a Mediaset ainda pode moldar narrativas políticas, mesmo aquelas que envolvem as figuras mais poderosas do país.

No entanto, a MFE também reacendeu questões sobre a concentração dos meios de comunicação e a democracia. A Comissão Europeia citou, em várias ocasiões, Itália como um caso de estudo em potenciais conflitos de interesses entre o poder político e o poder dos meios de comunicação.
De acordo com a própria descrição da MFE, o grupo define-se como “uma empresa europeia fundada na transparência e no pluralismo”, mas a sua própria estrutura continua a incorporar a intricada sobreposição de meios de comunicação, negócios e influência política.
30 anos após a entrada dramática do seu pai na política, Pier Silvio Berlusconi encarna uma forma de poder mais discreta e tecnocrática.
Nesse sentido, a influência de Berlusconi não terminou, simplesmente evoluiu – o seu tom é mais suave, os seus métodos mais subtis, mas o seu alcance permanece inalterado, continuando a moldar a forma como milhões de europeus veem, pensam e acreditam através do brilho de um ecrã.
Se um dia Pier Silvio decidir entrar na política, fá-lo-á apoiado numa das máquinas de comunicação mais poderosas da Europa – um império que já foi usado para transformar a televisão em domínio político.
Um movimento desse tipo reacenderia as questões sobre democracia e liberdade de imprensa – num país como Itália, que atualmente ocupa a 46ª posição no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2024, refletindo preocupações crescentes com a interferência política nos meios de comunicação social.
Pequena históriade um grande grupo
A MFE, liderada por Pier Silvio, é uma das companhias do Grupo Fininvest, fundado por Silvio Berlusconi, e que se estende a vários setores

1963 Após concluir a universidade, Silvio Berlusconi funda a Edilnord e torna-se empresário da construção civil, construindo blocos de apartamentos em Milão.
1976 Berlusconi compra a Telemilano, uma televisão por cabo que operava apenas em Milão.
1977 Recém-agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito no Trabalho, pelo Presidente de Itália, Berlusconi compra uma participação relevante na empresa proprietária do jornal Il Giornale, fundado em 1974.
1978 A Telemilano passa a emitir em sinal aberto para toda a região da Lombardia. Berlusconi adquire o histórico Teatro Manzoni, um dos principais palcos de Milão.
1980 A Telemilano muda o nome para Canal 5 e passa a transmitir para todo o país.
1984 Com a aquisição da Retequattro, o grupo passa a deter três canais de TV, tantos quanto a televisão estatal.
1986 Berlusconi compra o clube de futebol AC Milan, no mesmo ano em que a Fininvest funda o canal La Cinq, em França, iniciando a sua internacionalização.
1990 A Fininvest participa na fundação do canal Telecinco, em Espanha.
1991 Aquisição da Mondadori, a grande empresa editora de Itália.
1995 Fundação da Medusa, empresa de produção e distribuição de filmes.
1997 Lançamento do banco Mediolanum, que expande, nos anos seguintes, a sua atividade para outros países europeus.
2005 A Fininvest entra no setor da rádio, com a aquisição da emissora nacional R101, através da Mondadori.
2010 A Telecinco é transformada em Mediaset España, tornando-se o maior canal de TV de Espanha, com a aquisição do canal Cuatro.
2017 O grupo vende a sua participação no AC Milan.
2018 O grupo volta ao setor do futebol, com a aquisição do Monza FC.
2019 A Mediaset lança a MFE – Media for Europe, um projeto internacional, que visa criar uma emissora europeia em canal aberto, capaz de competir com as maiores do mundo.
2021 A Mediaset muda o nome para MFE – Media for Europe. O Grupo Fininvest regista lucros recorde e, pela primeira vez numa década, distribui dividendos pelos acionistas.
2022 A MFE aumenta a sua participação no canal alemão ProSiebenSat.1. O AC Monza é promovido à série A de Itália.
2023 Morre Silvio Berlusconi. O grupo passa a ser dirigido pelos filhos mais velhos, Marina e Pier Silvio, que assumem o controlo indireto da Fininvest. A MFE conclui a fusão com a Mediaset España. A Mondadori aliena uma série de revistas e outras publicações.
2025 A 4 de setembro a MFE anuncia que passa a deter a maioria da alemã ProSiebenSat (com 75,61% das ações) e, poucos dias depois, são conhecidas as negociações para a compra do Grupo Impresa, detentor da SIC e do Expresso.








