Brigitte Bardot morreu hoje, aos 91 anos. Bardot não foi apenas uma actriz, nem sequer apenas uma estrela de cinema: foi um terramoto cultural, um corpo político antes de o corpo ser política, um escândalo permanente num país que aprendeu com ela a confundir desejo com liberdade e a verdade é que nunca mais voltou atrás.

Há títulos que parecem profecias escritas a posteriori: E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim criou Brigitte Bardot, mais deu-lhe um nome mítico, um enquadramento e uma eternidade. A partir daí, o cinema francês deixou de fingir pudor, a moral burguesa começou a gaguejar, e o mundo percebeu que havia uma mulher que não representava a liberdade sexual: encarnava-a. E isso assustou meio mundo.

Nascida em Paris, em 1934, educada na disciplina do ballet clássico e empurrada para o cinema quase por acaso, Bardot chegou cedo ao ecrã, mas explodiu depressa. Em poucos anos passou de promessa a fenómeno, de actriz a ícone absoluto. Em A Verdade, de Henri-Georges Clouzot levou o julgamento moral da sociedade para dentro do tribunal e para fora da sala de cinema. Em O Desprezo, de Godard, foi ao mesmo tempo corpo mitológico e abstracção moderna, mulher amada e objecto de análise, estrela popular num filme que fingia desprezar estrelas.

Mas Bardot nunca coube inteira no cinema. Cantou — La MadragueHarley-DavidsonJe t’aime moi non plus com e de Serge Gainsbourg — como quem prolonga no som aquilo que já incendiara com a imagem. Vestiu biquínis antes de eles serem aceites, descalçou-se quando o glamour ainda exigia saltos, e transformou Saint-Tropez numa ideia antes de ser um destino turístico. Bardot foi moda, foi escândalo, foi manchete, foi poster de quarto adolescente e pesadelo de pais conservadores.

Depois, num gesto tão radical quanto a sua ascensão, saiu de cena. Abandonou o cinema cedo, aos 39 anos, quando ainda podia ser tudo. Trocar a ribalta pela militância foi a sua última provocação. Lutou pelos animais com a mesma fúria com que antes vivera o desejo — sem diplomacia, sem paciência para o politicamente correcto, sem medo de se tornar incómoda. Criou a Fundação Brigitte Bardot, enfrentou governos, incomodou causas “certinhas” e, sim, disse muitas coisas que lhe custaram o carinho de parte do público. Bardot nunca soube — nem quis — ser consensual.

Hoje morre Brigitte Bardot. Mas o mito — esse — continua de olhos abertos. Continua em cada plano onde o cinema descobriu que o corpo feminino podia ser sujeito e não apenas objecto. Continua em cada mulher que escolheu viver fora do guião. Continua no incómodo que provoca, mesmo depois do último suspiro. Deus criou Bardot. O cinema eternizou-a. E a história — essa criatura ingrata — continuará a discuti-la. Aliás, como BB gostaria.

Talvez por isso continue a ser tão francesa: contraditória, feroz, livre até ao erro. Amada e atacada, celebrada e cancelada antes de existir cancelamento. Bardot envelheceu fora de moda, fora de época e fora de tom e nisso manteve-se fiel a si própria. Nunca pediu desculpa por ter sido quem foi, nem tentou reescrever a sua biografia para caber nos manuais do presente.

Brigitte Bardot está internada há mais de dois meses, devido a uma doença grave, segundo a imprensa francesa, que avançou a notícia da morte da atriz.

Celebrizada por papéis em filmes como “The Girl in the Bikini” “E Deus Criou a Mulher”, Brigitte Bardot foi uma da maiores estrelas do cinema europeu.

Reformou-se antes de fazer 40 anos, em 1973, mas com mais de 50 filmes no currículo.


A Inteligência Artificial (IA) dotou as máquinas de capacidades humanas, que lhes permitiu evoluir independentemente como uma sociedade fortemente interligada, capaz de se adaptar, reprogramar e criar tecnologias a cada nova necessidade. O ser humano, limitado e lento, é agora refém e dependente desta que foi a sua última criação.

Será esta introdução uma passagem de uma possível distopia literária ou uma visão do nosso futuro como humanidade?

Para responder a esta questão é essencial começar não pelas máquinas, mas pelo próprio ser humano. Segundo a teoria da hierarquia das necessidades de Maslow, o ser humano move-se pela satisfação progressiva das suas necessidades básicas: fisiológicas, de segurança, de afeto, de estima e de autorrealização. Em parte, é esta procura constante que, subconscientemente, impulsiona o avanço tecnológico.


A IA surge, assim, não como uma rotura isolada, mas como uma poderosa expressão desse impulso humano. Os modelos atuais de IA, e os ainda mais capazes que se anunciam a todo o momento, provocarão um impacto profundo na sociedade, certamente mais significativo do que quaisquer outros grandes avanços tecnológicos desde a Revolução Industrial.

Este impacto torna-se particularmente evidente na forma como trabalhamos. Fala-se de uma inversão ou achatamento na pirâmide das profissões: algumas desaparecerão, outras transformar-se-ão. Tarefas rotineiras e repetitivas serão delegadas aos algoritmos inteligentes e mais eficientes. Consequentemente, competências técnicas e intelectuais que hoje distinguem profissionais, perderão relevância e serão embutidas nas ferramentas de IA, nivelando o acesso ao conhecimento e execução.

Neste novo contexto, ganham relevo as competências que nos fazem humanos, como é o caso da inteligência emocional, da capacidade de colaborar e da criatividade genuína. No entanto, estas competências humanas só se mantêm relevantes se acompanhadas de algo ainda mais fundamental: o espírito crítico. Os fundamentos técnicos e científicos continuarão a ser essenciais e constituem a base da capacidade de analisar, questionar e avaliar de forma rigorosa informações, ideias e sinais. Será em torno desta competência que se redefinirá a excelência humana.

Contrariamente à ideia de que o ser humano se tornará intelectualmente mais pobre ou que o trabalho será menos exigente, o futuro aponta para necessidades de conhecimentos mais especializados e abstratos desde fases iniciais. Um programador, por exemplo, deixará de escrever código linha a linha para passar a desenhar e especificar arquiteturas complexas, orientando as ferramentas de IA na implementação de soluções. Ora, para avaliar criticamente que o que é gerado está pronto para servir a sociedade serão indispensáveis sólidos conhecimentos de engenharia de software, lógica computacional e segurança de aplicações. A exigência
por conhecimento não diminuirá – aumentará e deslocar-se-á.

Neste cenário, a educação assume um papel central. Os sistemas educativos terão de se redefinir para integrarem estas tecnologias de forma consciente, em vez de as proibir ou ignorar. Ensinar fundamentos técnico-científicos, estimular o pensamento crítico e formar cidadãos capazes de usar IA como ferramenta – e não como substituto do pensamento – será determinante para garantir a evolução tecnológica segura e
humanizada.

Voltando às máquinas, resta analisar a questão mais inquietante. Se a tecnologia avança para responder às necessidades humanas, poderão as máquinas vir a desenvolver algo semelhante a necessidades próprias? Poderão essas necessidades e motivações ser artificialmente modeladas e injetadas como um incremento à IA, através de objetivos e restrições?

Independentemente de se ou de como isso poderá acontecer, será sempre o ser humano a iniciar o processo. A responsabilidade permanece nossa. Cabe-nos tomar as rédeas, definir limites éticos e garantir que a IA é tratada como uma ferramenta de amplificação das capacidades humanas e não como um mecanismo de abdicação coletiva.

Estará o ser humano à altura de redefinir e adaptar as suas competências e assumir o controlo consciente desta transformação? Somos frágeis e facilmente viciáveis ou corrompidos, mas também somos resilientes e adaptativos como de resto mostra a história da humanidade.

Quando a poeira da IA assentar, haverá vencedores e vencidos, mas enquanto mantivermos o espírito crítico assente em conhecimento sólido e competências exclusivamente humanas, os dividendos serão sempre a favor da humanidade e consequentemente outras criações surgirão assentes nesta que será apenas um início
e não um fim.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A democracia não é apenas um sistema de regras; é um ecossistema de atenção, informação e conflito. Durante grande parte da sua história recente, esse ecossistema organizou-se em torno da ideia de razão pública: debate mediado por instituições, imprensa e espaços comuns de deliberação. Essa arquitectura continua a ser evocada no discurso político, mas tornou-se incompleta num mundo em que os mecanismos que estruturam o debate colectivo já não são essencialmente deliberativos, mas algorítmicos.

Durante esse período, o espaço do debate público foi imperfeito e humano. Hoje, continua a existir, mas deixou de ser neutro: é governado por algoritmos que organizam a atenção, hierarquizam opiniões e moldam a percepção do consenso político.

Não elegemos os algoritmos. Não os debatemos em parlamentos. Não conhecemos os seus critérios. Ainda assim, eles determinam o que vemos, o que ignoramos, o que nos indigna e até aquilo que acreditamos ser consensual. A democracia do século XXI não está a ser derrubada por tanques nem por golpes clássicos, mas por sistemas de optimização invisíveis, desenhados para maximizar atenção, lucro e previsibilidade comportamental.

A questão central já não é se a tecnologia influencia a política — isso é um dado adquirido — mas se as democracias conseguem sobreviver quando a mediação do debate público deixa de ser humana.

As redes sociais tornaram-se o principal espaço de formação de opinião. Contudo, não funcionam como praças públicas: funcionam como mercados de atenção. Cada publicação, cada vídeo, cada polémica é avaliada não pela sua veracidade ou relevância cívica, mas pela sua capacidade de gerar cliques, reacções e tempo de permanência. A consequência é conhecida: conteúdos extremos são premiados, nuances são penalizadas e a indignação torna-se moeda corrente.

Este ambiente não cria apenas polarização; cria uma ilusão perigosa de maioria. Quando os algoritmos nos mostram repetidamente opiniões semelhantes às nossas, reforçam a sensação de que “toda a gente pensa assim”. O dissenso deixa de ser visto como parte natural da democracia e passa a ser interpretado como ameaça ou traição. A erosão da confiança não começa nas instituições — começa entre cidadãos.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial elevou este fenómeno a um novo patamar. Já não se trata apenas de amplificar conteúdos existentes, mas de produzir narrativas em escala industrial. Textos, imagens, vídeos e vozes sintéticas tornam possível fabricar consensos artificiais, simular apoio popular ou desacreditar adversários com uma sofisticação inédita. A verdade torna-se disputada não por falta de factos, mas por excesso de versões plausíveis.

Perante este cenário, a resposta política tem sido lenta e, muitas vezes, ingénua. Regulamenta-se a tecnologia como se fosse apenas mais um sector económico, quando na verdade se trata de uma infra-estrutura cognitiva. Controla-se a publicidade política, mas ignora-se o impacto estrutural dos sistemas de recomendação. Fala-se em literacia mediática, como se fosse razoável exigir ao cidadão comum que lute sozinho contra máquinas desenhadas por equipas de especialistas em psicologia comportamental.

Não está em causa uma rejeição da tecnologia. Os algoritmos não são inimigos da democracia por natureza. Podem, aliás, ser usados para ampliar a diversidade de perspectivas, reduzir desinformação e fortalecer o debate público. O problema é que, deixados exclusivamente à lógica do mercado, fazem exactamente o oposto.

A pergunta decisiva é política: quem deve controlar a arquitectura da esfera pública digital? Empresas privadas com interesses comerciais globais ou sociedades democráticas através de regras transparentes e fiscalizáveis?

Responder a esta pergunta implica aceitar que a neutralidade tecnológica é um mito conveniente. Implica reconhecer que regular algoritmos não é censura, mas uma forma moderna de separação de poderes. Tal como não aceitamos que bancos privados definam sozinhos a política monetária, não deveríamos aceitar que plataformas definam sozinhas as condições do debate democrático.

A Europa deu passos importantes com legislação como o Digital Services Act, mas ainda insuficientes. A transparência algorítmica continua limitada, a auditoria independente é rara e as sanções dificilmente acompanham a velocidade da inovação. Portugal, em particular, corre o risco de ser apenas receptor passivo de decisões tomadas noutros centros de poder tecnológico.

No fim, a democracia não desaparece de um dia para o outro. Ela desgasta-se. Perde densidade. Torna-se espectáculo. Quando damos por isso, continuamos a votar, mas já não deliberamos. Continuamos a falar, mas já não nos escutamos.

Se a democracia sempre foi um sistema imperfeito, a sua força residiu na capacidade de corrigir os próprios erros. O desafio agora é saber se conseguirá fazê-lo num ambiente onde os erros são amplificados automaticamente e a atenção é o recurso mais disputado do planeta.

A defesa da democracia, hoje, passa menos pelas urnas e mais pelo código. E isso exige que deixemos de tratar a tecnologia como destino inevitável e passemos a tratá-la como aquilo que sempre foi: uma escolha política.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A tecnologia está intrinsecamente associada ao progresso económico. Dados do estudo Impacto da Economia Digital em Portugal, desenvolvido pela ACEPI e a GoingNext, divulgados em outubro deste ano, indicam que a digitalização contribuiu com cerca de 13% para o Produto Interno Bruto (PIB) português. Consequentemente, impulsionou empregos e salários em diversos setores da economia e gerou milhões de postos de trabalho, de forma direta e indireta. Logo, a tecnologia figura entre os principais motores de competitividade e crescimento sustentável no país.

Não obstante, reduzir a importância da tecnologia somente à sua dimensão económica seria desconsiderar parte essencial do seu potencial transformador. A influência da tecnologia na sociedade ultrapassa indicadores financeiros. Quando orientada por um propósito, pode e deve ser utilizada em prol do bem comum, de modo a promover a inclusão social, a sustentabilidade ambiental, o desenvolvimento humano, a democratização do acesso à educação e a melhoria dos serviços de saúde.

Nos últimos anos, Portugal tem assistido ao surgimento de projetos que nascem fora dos grandes centros de decisão, pensados por estudantes e equipas multidisciplinares que identificam problemas concretos da sociedade e recorrem à tecnologia para lhes dar resposta. Estes projetos demonstram que a inovação não se mede apenas pelo investimento ou pela escala, mas também pela proximidade às pessoas e às suas necessidades reais.

O projeto Oficina dos Sons, criado por jovens estudantes, é um caso paradigmático a nível nacional. Através de uma plataforma digital interativa que associa sons a palavras e imagens, esta iniciativa apoia crianças com dificuldades de aprendizagem da língua e incentiva o desenvolvimento de competências linguísticas de forma acessível e inclusiva. Num país onde persistem desigualdades no acesso a recursos educativos, ferramentas desta natureza representam uma resposta escalável e com impacto direto na vida de alunos, famílias e educadores.

De forma similar, o CEiiA 2.0, também elaborado por estudantes, consiste numa pulseira inteligente que monitoriza o estado dos pacientes nas urgências hospitalares. Esta inovação evidencia como a tecnologia pode elevar a qualidade de serviços essenciais. Ao permitir uma monitorização mais eficiente e contínua, este tipo de solução tecnológica possibilita a redução dos tempos de espera e otimiza o cuidado prestado. Mais uma vez, trata-se de uma ideia que resulta da observação de um problema social e da vontade de melhorar a experiência humana através da inovação.

Num tempo em que as narrativas sobre tecnologia tendem a concentrar‑se em medo ou risco, temos exemplos de histórias com impacto positivo, que revelam como comunidades e projetos melhoram a vida das pessoas a partir de soluções tecnológicas. Se o foco for este, então a tecnologia deixa de ser um fim em si mesma e torna‑se um instrumento poderoso em benefício do bem comum.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Será que o próximo ano é, de uma vez por todas, o ano em que deixamos de falar de cibersegurança apenas quando acontece um incidente e passamos a encará-la como parte natural das decisões de negócio? A pergunta pode parecer repetitiva, mas o contexto joga a favor dessa mudança estrutural: a transposição da NIS2 para a lei portuguesa, a crescente exposição mediática dos ciberataques e a maturidade tecnológica das próprias empresas empurram o tema para um novo patamar.

Quando olho para o próximo ano, diria que a mudança não será necessariamente tecnológica, mas mental. Já não basta reforçar a firewall ou promover uma ação pontual de formação; quem quiser ser competitivo em 2026 terá de provar, na prática, que consegue proteger dados, operações e identidade digital com o mesmo rigor com que gere outras áreas do negócio.

Será 2026 o ano em que a cibersegurança passa de custo a alavanca estratégica?

Tudo aponta para que sim. A cibersegurança estará cada vez menos restringida às equipas de TI e cada vez mais no centro das decisões empresariais. A NIS2 vai obrigar mais setores a demonstrarem níveis mínimos de maturidade na área e trazer o tema para a agenda estratégica, transformando-o numa condição para participar em determinados ecossistemas de negócio, especialmente em áreas críticas.

Na prática, decisões como escolher fornecedores passarão a ter a cibersegurança como critério fundamental. Grandes empresas e operadores de serviços irão passar a impor requisitos de segurança (auditando práticas, pedindo evidências de formação e exigindo planos de resposta minimamente estruturados) aos seus fornecedores e parceiros, em particular às PMEs, ainda o elo mais fraco do tecido empresarial português.

Essa pressão top-down pode ser um dos motores mais fortes da profissionalização do setor, obrigando muitas empresas a investir em tecnologia, processos e talento na área – não apenas para evitar multas e incidentes, mas para continuarem competitivas e relevantes no mercado. Em paralelo, é expectável que comecemos a ver um número crescente de startups focadas em formação e capacitação em cibersegurança.

Será 2026 o ano em que a cibersegurança se afirma como pilar da cultura e da operação empresarial?

Também aqui tudo indica que sim, ainda que de forma gradual. A transformação passará pela forma como as equipas operam diariamente, com mais automação e IA na deteção e resposta a incidentes, e com a limitação do impacto do ataque antes de este se tornar num problema sistémico. A segmentação de redes internas, para reduzir a superfície de ataque, e a revisão das políticas de acesso – mitigando insider threats – vão ganhar protagonismo.

A escala dos ataques vai continuar a aumentar, graças a IA generativa, deepfakes e campanhas de phishing altamente personalizadas, obrigando as empresas a responder ao mesmo nível: com sistemas capazes de isolar automaticamente utilizadores e endpoints comprometidos, limitar movimentos laterais e dar tempo às equipas para avaliarem o impacto real de cada incidente. Ao mesmo tempo, ganha peso uma dimensão ainda subvalorizada: ataques em ambiente digital com impacto direto em infraestruturas físicas, como redes de energia, sistemas industriais ou transportes, onde um ciberataque pode paralisar operações ou interromper serviços essenciais.

As grandes organizações vão liderar a resposta: muitas já estão a testar soluções, a investir em exercícios de simulação, planos de continuidade de negócio e mecanismos de recuperação de dados. Começam também a treinar de forma mais consistente a sua força de trabalho, tornando a formação contínua e a cultura de segurança como parte integrante da operação diária.

Será 2026 o ano em que repensamos a dependência de gigantes tecnológicos?

Acho que será, sim, o início de uma nova abordagem. A dependência quase cega de grandes fornecedores de cloud e infraestruturas digitais começará a ser revista com mais pragmatismo. Os apagões recentes de serviços globais associados a grandes empresas tecnológicas – como Cloudflare, Microsoft e Amazon – mostraram o que acontece quando há dependência de um número muito reduzido de fornecedores.

A resposta mais provável passará por arquiteturas híbridas, diversificação de fornecedores e estratégias multi‑cloud, bem como planos de continuidade de negócio pensados para isolar e recuperar sistemas críticos em caso de falha generalizada, assumindo, desde logo, a necessidade de recuperar dados e operações a partir de fontes alternativas. Esta discussão já está até a surgir no setor público, com a criação de estruturas de crise para responder a novos incidentes de grande escala.

Será 2026 o ano em que começamos, de facto, a despedir-nos das passwords?

Talvez ainda não seja o funeral, mas será provavelmente o velório. A adoção de passkeys tem vindo a crescer, suportada nativamente pelos principais sistemas operativos e browsers, e tudo indica que esta tendência se vai consolidar tanto no contexto pessoal como profissional. A possibilidade de oferecer uma experiência de login mais simples, resistente a phishing e independente da memória e da vulnerabilidade do utilizador é demasiado apelativa para ser ignorada, sobretudo num cenário em que o custo dos incidentes de credenciais comprometidas continua a aumentar.

É possível que 2026 fique marcado como o ano em que muitas empresas dão o primeiro passo sério rumo a um futuro passwordless, pelo menos em aplicações críticas. Em simultâneo, a discussão em torno da identidade digital segura vai acelerar, com as passkeys a assumirem um papel central na transição para modelos de autenticação mais robustos e menos dependentes dos hábitos dos utilizadores.

Se, durante anos, só falávamos de cibersegurança quando algo corria mal, 2026 será o ano em que essa tendência fica para trás. A partir do momento em que a segurança passa a pesar nas decisões de negócio, cada organização terá de decidir se fica do lado dos que apenas reagem aos incidentes ou dos que abordam a cibersegurança com uma mentalidade preventiva e como argumento de confiança e de crescimento. No próximo ano, continuar a tratar a segurança apenas como um custo inevitável será, esse sim, o maior risco de todos.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A passagem de Ano é sempre o momento onde, ambiciosos, queremos mais para as nossas vidas e, por isso, definimos resoluções que nos vão fazer sentir melhor ou viver “a nossa melhor versão”: finalmente fazer a inscrição no ginásio, procurar um novo desafio profissional, marcar mais uma viagem de sonho ou comprar o último modelo de telemóvel.

Mas o que acaba por ficar fora destes objetivos são, muitas vezes, os comportamentos associados a um estilo de vida mais verde e ecológico, aqueles em que tanto a economia circular como nós, enquanto consumidores, saímos a ganhar, sobretudo quando falamos de tecnologia em casa. Por vezes, isto acontece porque não compreendemos o impacto real dessas práticas; outras vezes, porque desconhecemos alternativas sustentáveis, que nos parecem distantes e mais difíceis de adotar do que ir a três aulas de kickboxing por semana.

A verdade é que há uma série de “boas ações” que podemos pôr em prática de forma simples e, até, imediata para realmente sermos mais sustentáveis no Novo Ano no que toca à forma como escolhemos, usamos e descartamos a tecnologia. Desde logo, pensar em dar um destino adequado aos aparelhos que já não se usam e estão esquecidos “na gaveta”.

Segundo a Comissão Europeia, apenas 30% a 40% dos resíduos eletrónicos são devidamente recolhidos e reciclados na Europa, o que nos mostra como é urgente mudar o destino final que muitas vezes se dão aos aparelhos em casa. Vender o dispositivo a empresas que os reaproveitam no recondicionamento de outros aparelhos, ganhando algum dinheiro extra, ou entregar para reciclagem em pontos apropriados são as práticas mais circulares e amigas do ambiente.

Depois, se queremos comprar novos aparelhos, como telemóveis ou tablets, é mais sustentável se optarmos por modelos recondicionados, ou seja: escolher um dispositivo em excelentes condições, avaliado, funcional e com estética em ótimo estado. Para além de apresentar preços mais acessíveis que um aparelho novo, um recondicionado permite reduzir em 90% a pegada ecológica da tecnologia, tendo em conta toda a sua cadeia de valor.

Além disso, cuidar regularmente dos aparelhos e utilizá-los corretamente prolonga a sua vida útil, diminuindo a necessidade de produzir mais tecnologia e, consequentemente, a sua pegada ecológica. O mesmo se aplica aos acessórios e componentes que usamos diariamente: é fundamental optar por produtos de qualidade e certificados, que tendem a ser mais duradouros, e seguir sempre as instruções de uso.

Adotar práticas da economia circular é um passo simples, mas significativo, que todos podemos dar para reduzir a nossa pegada ambiental. Assim, contribuímos para um Ano Novo mais verde, poupamos na carteira e fortalecemos uma economia mais circular, na qual todos podemos ser agentes de mudança.

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A semana passada escrevi um texto sobre o Natal. Era um texto cabisbaixo. Tão triste e desesperançado que não podia ser de Natal. Um texto de quem já tinha fechado a alma para balanço e encontrara o saldo no negativo. Por isso chamei-lhe de Dezembro. Não podia chamar Natal àquilo que era, na verdade, apenas um capítulo prévio; um prólogo sem redenção. O relatório moral de uma certa Lisboa, num certo tempo que é o nosso, numa certa semana talvez cinzenta, talvez chuvosa; certamente culpada. Sou uma alma dada à chantagem meteorológica. Ao erro que qualquer nuvem com aspecto vagamente ameaçador exerce sobre nós.

Mas o Natal veio. Como o Natal vem sempre. Não pede licença, não respeita o meu mau humor. Veio aqui mesmo, a este lugar para onde viajámos com malas a abarrotar e crianças presas em cadeirinhas como pequenos mártires modernos. Em casa dos meus pais. Onde o tempo não passa, mas se vai acumulando. Prepararam-se as coisas e até fui buscar sobremesas a casa de uma tia que passa a consoada noutra aldeia deste Norte pós-industrial, onde as fábricas fecharam, mas os rituais resistem, teimosos como velhos comunistas.

“Consoada”. Não sei de onde vem esta palavra. É daquelas, saída de um dicionário antigo, de um dialecto perdido; com qualquer coisa de sal grosso e luz amarelada ao mesmo tempo. Tenho a certeza de que existirá, algures numa página de Facebook, um sexagenário que esta semana publicou um texto definitivo — com fontes, imagens e indignação — a explicar a sua origem. Alguém o viu? Alguém o tem? Alguém mo pode fazer chegar? Gostaria de saber de onde vem esse nome que pronunciamos, solenes e distraídos, pelo menos uma vez por ano, e que convoca um peixe específico, de águas severas, pescado sabe-se lá quando, por gente que ainda jejua, estou certo.

Arranjámo-nos. Pusemos gravatas, desenterrámos as roupas bonitas que vivem o ano inteiro no exílio do armário. Nem todos o fizeram. Há sempre os que usam polo. Como se a vida fosse uma Terça-feira permanente.

A mesa posta. Sempre a mesa. O altar da civilização portuguesa, onde se deve discutir tudo e não dizer nada que possa ferir susceptibilidades. Faça-se por não ofender. É difícil, nestes dias em que apetece mandar tudo a um certo sítio definitivo. (Mas estes dias não são, afinal, os dias de sempre? E não temos sempre vontade de atirar pedras, partir vidros, provocar uma reacção no outro, só para provar que ainda estamos vivos?) Somos criaturas miseráveis com a convicção de que sabemos. A mesa é um umbigo. Estávamos todos ali e tínhamos vindo de longe — menos os meus pais, que esperavam por nós com os cães e uma paciência que já nos esquecemos que podia existir.

As mulheres passaram a manhã a limpar tudo. Só a manhã. Também elas tinham a sua noite de Natal. Os seus bacalhaus, as suas mesas, as suas casas por limpar noutras geografias sentimentais. É bom vê-las a trabalhar. Naquele empenho involuntário de quem só sabe fazer as coisas bem feitas. Há ali uma dignidade silenciosa, meia trágica. Devíamos ser mais assim. Inevitáveis. Prontos. Sem discursos. Sem tretas.

E então chegou a hora e pusemos um disco a tocar. Rezámos antes de nos lançarmos à aventura da refeição. Havia velas encarnadas e um arranjo floral não particularmente feliz. As folhas estavam pintadas com tinta de aerossol dourada, numa tentativa honesta de enganar o mundo. Preferi não me deter no gosto duvidoso. Este Natal decidi julgar menos. Ao que parece sou rápido a condenar. Preciso de escolher melhor as batalhas, diz-me a Catarina. E tem razão — o que é sempre desafiante.

Este ano, em vez de discursar, decidi ler um texto do Ruy Belo, escrito em 1959, com 27 anos feitos. Ainda não era o que viria a ser, mas já era tudo. Estava lá tudo — e ainda mais. Talvez ainda melhor. Estavam as vidas que não viveu, as frases que não escreveu, as portas que não abriu. Como todas as possibilidades que todos temos e que depois deixamos ruir por falta de coragem. Como eu, minutos antes, que podia ter improvisado um discurso — como faço sempre — e não fiz.

Sabem qual é o texto? Aquele que diz que “temos de pôr os pontos nos ii”. Que “temos de restituir as palavras às situações, as festas ao seu significado, as cerimónias ao verdadeiro sentido”. Que “o Natal é o Natal cristão”. Que “não há outro”. Que “onde não é Cristo que nasce, não há Natal”. Que “pode a família reunir-se em volta do madeiro, rasparem as crianças o tacho do arroz-doce, encherem-se de brinquedos os sapatos na chaminé”. Que, “se Cristo não nasce, o Natal passará e nós continuaremos órfãos”. É uma navalhada, seja onde lido aonde for. Escrito com elegância e verdade, duas qualidades suspeitas. Diz tudo o que importa dizer sobre o Natal. E por isso não é fácil de ouvir. Nem de ler em voz alta — como tudo o que é escrito devia ser lido.

Somos uns tontos. Não no sentido simpático; no sentido teológico. Gente que falha, que troca Deus por embrulhos, que confunde alegria com barulho e fé com boa educação. Deus sabe e joga nisso. O Natal não acontece apesar da nossa miséria; acontece por causa dela. Como Chesterton disse, a propósito de Dickens, “(…) é o tempo em que o homem se trai a si próprio fazendo o bem”.

Um erro feliz. Um curto-circuito moral, um ponto de ordem nas coisas. Como o e-mail de um amigo muito antigo, visto mesmo antes de apagar a luz. Não dizia nada. Tinha apenas uma fotografia daquele tempo. Fora de horas e de contexto, como tudo o que nasce, quando nasce. Um ponto inicial, se tal sinal de pontuação existisse.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Camilo não acaba”, diz Fernando Pinto do Amaral, poeta e professor da Faculdade de Letras de Lisboa, que tem uma ligação antiga com a obra do romancista, “muito pela mão de Agustina Bessa-Luís ou de Manoel de Oliveira”. Não sendo um especialista em Camilo, lê-o desde “o final da adolescência, primeiro com a ênfase da juventude, no sucessivo frémito de novas descobertas, e mais tarde, ao longo da vida, com o desejo e a curiosidade de me aproximar do autor ou da vida aventurosa que viveu, além do prazer de ir à estante no início das férias e escolher dois ou três Camilos que nunca li”.

A preparar-se para trabalhar com os alunos Fanny Owen, romance de Agustina, onde Camilo Castelo-Branco está omnipresente, Fernando Pinto do Amaral considera que há muitas e boas razões para os jovens leitores se aventurarem na descoberta do autor oitocentista: “Pode ser muito interessante perceber, através da leitura, o quanto a sociedade era diferente, em matérias que habitualmente interessam aos mais novos: os namoros e a assunção de compromissos. Naquela época, era habitual que as pessoas se casassem sem se conhecerem intimamente, comportamento que hoje é quase inexistente.” De resto, para Fernando, importa não esquecer a finura dos retratos sociais que Camilo nos oferece: “Embora seja muitas vezes arrumado na prateleira dos românticos, Camilo foi também um realista no modo como observou e descreveu a sociedade do seu tempo.” E dá como exemplo os retratos dos chamados brasileiros de torna-viagem, na verdade, portugueses que tinham emigrado para o Brasil e regressavam com uma situação financeira invejável: “São retratos cheios de uma ironia verrinosa, que era muito característica de Camilo.”

Fernando Pinto do Amaral realça, aliás, o humor de Camilo como uma das boas razões para ler, ou reler, os livros do escritor: “Ele continua a fazer rir hoje, num mundo tão diferente daquele em que viveu. Apanhava muito bem as características das pessoas, às vezes de uma forma que hoje consideraremos politicamente incorreta.” Outra das grandes virtudes narrativas de Camilo é o facto de “ter um olhar bastante abrangente da sociedade, desde as camadas sociais mais humildes à alta burguesia, dotada de poder político e económico.” Nesse sentido, Fernando Pinto do Amaral pensa que o escritor vai mesmo mais longe do que o outro gigante literário do século XIX português: “Eu também adoro o Eça de Queirós, mas admito que se interessava pouco por meios populares e não urbanos. Tem uma ou outra boa personagem do povo, como a criada Juliana de O Primo Basílio, mas o seu interesse está concentrado na burguesia lisboeta.”

Para a escritora Isabel Rio Novo, autora das biografias de Agustina Bessa-Luís e de Luís de Camões (ambas edições da Contraponto), uma das principais razões para ler Camilo, hoje, é a riqueza do seu vocabulário: “Vivemos numa época em que o cidadão médio utiliza, quer na escrita, quer na oralidade, um vocabulário básico e reduzido, o que infelizmente é a manifestação de ideias igualmente básicas e reduzidas, cheias de simplificações perigosas.” Segundo Isabel, o que a leitura de Camilo nos oferece é justamente o contrário: “Um vocabulário de uma inesgotável riqueza. Ele usa sempre a palavra certa, conseguindo, com isso, abranger todos os significados, traduzir a complexidade dos sentimentos, as nuances de personagens e situações.” E recorda a propósito uma experiência pessoal: “Durante os anos em que estive a trabalhar na biografia de Camões, encontrei um escrito de Camilo em que ele se referia a uma obra como detençosa. Eu não conhecia a palavra, mas é notável como esta sugere extensão e arrastamento.”

A veia satírica é outra das características que Isabel Rio Novo destaca nos textos camilianos: “Está muito presente. Até em Amor de Perdição, que é uma tragédia tão grande, o autor introduz situações caricatas, que nos fazem rir. O Simão Botelho, protagonista desse livro, é um herói romântico, mas também o vemos às voltas com questões quotidianas, como os problemas de dinheiro.” Isabel Rio Novo recorda, a esse propósito, que Camilo era “conhecido por um sentido de humor corrosivo, particularmente terrível, quando se manifestava nas muitas polémicas que alimentou. Creio que os seus contemporâneos, mesmo os melhores, tinham algum medo da sua língua afiada.”

   Outro aspeto destacado por Isabel Rio Novo é o facto de Camilo ter “vivido integralmente da escrita, sendo talvez o primeiro autor português a fazê-lo. Trabalhou muto em jornais, onde fez de tudo um pouco, desde escrever notícias a crónicas e artigos.” Também na literatura se lançou nos mais diversos géneros, do romance ao ensaio, passando pelo teatro e pela poesia. “Com isso, alimentou a atividade dos principais editores do Porto e de Lisboa, que o pressionavam com prazos apertados, o que, aliás, ele também fazia a si próprio, como profissional que era.”

   Especialista em Camilo e professor na Faculdade de Letras de Lisboa, Ernesto Rodrigues considera que a leitura, ou a releitura, destas obras tem várias vantagens para o leitor de 2025: “Antes de mais, Camilo proporciona-nos mais conhecimento sobre vários períodos da História de Portugal, já que se debruçou sobre diversos episódios desde o século XVI até à sua época, embora com um olhar sempre condicionado pelo seu reacionarismo. É um homem a quem o comércio repugna e que tem uma péssima opinião sobre as mulheres letradas, embora Ana Plácido fosse uma delas.”

   Ernesto Rodrigues considera que a grandeza literária de Camilo está também em contradições, como esta. Por outro lado, exalta a sua capacidade de “nos fornecer o retrato sociológico do mundo em que viveu, onde ainda vigorava o sistema de morgadio, em que só o filho mais velho herdava, o que forneceu muitos filhos segundos ao clero”. Do mesmo modo, não deixa de ser interessante que um homem tão conservador como este denuncie, em vários livros, “as situações de violência sofridas pelas mulheres, quer às mãos dos maridos, quer dos pais.”

   O conservadorismo sócio-político do autor coexiste com a sua modernidade estética. Para Ernesto Rodrigues, “Camilo foi um autêntico mestre da intriga, capaz de criar desenvolvimentos interessantíssimos que nos deixam em suspense”. A juntar a essa capacidade, há a destacar o uso de “frases curtas, que bebeu na atividade jornalística, e o modo como procura criar familiaridade com o leitor, uma característica que quase poderíamos dizer pós-moderna”.  

   Ao público de hoje, pouco familiarizado com a narrativa camiliana, o estudioso lembra “a capacidade única de criar universos, com personagens de grande densidade. Só em Mistérios de Lisboa há 67 personagens e em Anátema, que é um livro mais pequeno, 33. Ele não perde uma única ao longo do texto”. 

   Numa obra tão extensa, por que livro deve começar um leitor, jovem ou menos jovem, de 2025? Surpresa: os nossos três interlocutores são unânimes na escolha do romance A Queda de um Anjo. Isabel Rio Novo pensa que este livro pode gerar uma boa discussão em torno da atividade política, já que o protagonista, Calisto Elói, é um deputado eleito nas Cortes, que se muda das terras em Trás-os-Montes para Lisboa, e se sente ridicularizado num meio com o qual não estava familiarizado.“Acaba por triunfar devido à substância das suas ideias.”

   Também Fernando Pinto do Amaral e Ernesto Rodrigues elegem A Queda de um Anjo como chave de acesso à obra de Camilo: “É divertido e faz incidir o foco da intriga sobre a vida parlamentar, o que nos permite estabelecer pontes com a atualidade”, afirma Ernesto Rodrigues, autor de uma edição crítica deste romance escrito em 1866.

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