“Camilo não acaba”, diz Fernando Pinto do Amaral, poeta e professor da Faculdade de Letras de Lisboa, que tem uma ligação antiga com a obra do romancista, “muito pela mão de Agustina Bessa-Luís ou de Manoel de Oliveira”. Não sendo um especialista em Camilo, lê-o desde “o final da adolescência, primeiro com a ênfase da juventude, no sucessivo frémito de novas descobertas, e mais tarde, ao longo da vida, com o desejo e a curiosidade de me aproximar do autor ou da vida aventurosa que viveu, além do prazer de ir à estante no início das férias e escolher dois ou três Camilos que nunca li”.
A preparar-se para trabalhar com os alunos Fanny Owen, romance de Agustina, onde Camilo Castelo-Branco está omnipresente, Fernando Pinto do Amaral considera que há muitas e boas razões para os jovens leitores se aventurarem na descoberta do autor oitocentista: “Pode ser muito interessante perceber, através da leitura, o quanto a sociedade era diferente, em matérias que habitualmente interessam aos mais novos: os namoros e a assunção de compromissos. Naquela época, era habitual que as pessoas se casassem sem se conhecerem intimamente, comportamento que hoje é quase inexistente.” De resto, para Fernando, importa não esquecer a finura dos retratos sociais que Camilo nos oferece: “Embora seja muitas vezes arrumado na prateleira dos românticos, Camilo foi também um realista no modo como observou e descreveu a sociedade do seu tempo.” E dá como exemplo os retratos dos chamados brasileiros de torna-viagem, na verdade, portugueses que tinham emigrado para o Brasil e regressavam com uma situação financeira invejável: “São retratos cheios de uma ironia verrinosa, que era muito característica de Camilo.”
Fernando Pinto do Amaral realça, aliás, o humor de Camilo como uma das boas razões para ler, ou reler, os livros do escritor: “Ele continua a fazer rir hoje, num mundo tão diferente daquele em que viveu. Apanhava muito bem as características das pessoas, às vezes de uma forma que hoje consideraremos politicamente incorreta.” Outra das grandes virtudes narrativas de Camilo é o facto de “ter um olhar bastante abrangente da sociedade, desde as camadas sociais mais humildes à alta burguesia, dotada de poder político e económico.” Nesse sentido, Fernando Pinto do Amaral pensa que o escritor vai mesmo mais longe do que o outro gigante literário do século XIX português: “Eu também adoro o Eça de Queirós, mas admito que se interessava pouco por meios populares e não urbanos. Tem uma ou outra boa personagem do povo, como a criada Juliana de O Primo Basílio, mas o seu interesse está concentrado na burguesia lisboeta.”
Para a escritora Isabel Rio Novo, autora das biografias de Agustina Bessa-Luís e de Luís de Camões (ambas edições da Contraponto), uma das principais razões para ler Camilo, hoje, é a riqueza do seu vocabulário: “Vivemos numa época em que o cidadão médio utiliza, quer na escrita, quer na oralidade, um vocabulário básico e reduzido, o que infelizmente é a manifestação de ideias igualmente básicas e reduzidas, cheias de simplificações perigosas.” Segundo Isabel, o que a leitura de Camilo nos oferece é justamente o contrário: “Um vocabulário de uma inesgotável riqueza. Ele usa sempre a palavra certa, conseguindo, com isso, abranger todos os significados, traduzir a complexidade dos sentimentos, as nuances de personagens e situações.” E recorda a propósito uma experiência pessoal: “Durante os anos em que estive a trabalhar na biografia de Camões, encontrei um escrito de Camilo em que ele se referia a uma obra como detençosa. Eu não conhecia a palavra, mas é notável como esta sugere extensão e arrastamento.”
A veia satírica é outra das características que Isabel Rio Novo destaca nos textos camilianos: “Está muito presente. Até em Amor de Perdição, que é uma tragédia tão grande, o autor introduz situações caricatas, que nos fazem rir. O Simão Botelho, protagonista desse livro, é um herói romântico, mas também o vemos às voltas com questões quotidianas, como os problemas de dinheiro.” Isabel Rio Novo recorda, a esse propósito, que Camilo era “conhecido por um sentido de humor corrosivo, particularmente terrível, quando se manifestava nas muitas polémicas que alimentou. Creio que os seus contemporâneos, mesmo os melhores, tinham algum medo da sua língua afiada.”
Outro aspeto destacado por Isabel Rio Novo é o facto de Camilo ter “vivido integralmente da escrita, sendo talvez o primeiro autor português a fazê-lo. Trabalhou muto em jornais, onde fez de tudo um pouco, desde escrever notícias a crónicas e artigos.” Também na literatura se lançou nos mais diversos géneros, do romance ao ensaio, passando pelo teatro e pela poesia. “Com isso, alimentou a atividade dos principais editores do Porto e de Lisboa, que o pressionavam com prazos apertados, o que, aliás, ele também fazia a si próprio, como profissional que era.”
Especialista em Camilo e professor na Faculdade de Letras de Lisboa, Ernesto Rodrigues considera que a leitura, ou a releitura, destas obras tem várias vantagens para o leitor de 2025: “Antes de mais, Camilo proporciona-nos mais conhecimento sobre vários períodos da História de Portugal, já que se debruçou sobre diversos episódios desde o século XVI até à sua época, embora com um olhar sempre condicionado pelo seu reacionarismo. É um homem a quem o comércio repugna e que tem uma péssima opinião sobre as mulheres letradas, embora Ana Plácido fosse uma delas.”
Ernesto Rodrigues considera que a grandeza literária de Camilo está também em contradições, como esta. Por outro lado, exalta a sua capacidade de “nos fornecer o retrato sociológico do mundo em que viveu, onde ainda vigorava o sistema de morgadio, em que só o filho mais velho herdava, o que forneceu muitos filhos segundos ao clero”. Do mesmo modo, não deixa de ser interessante que um homem tão conservador como este denuncie, em vários livros, “as situações de violência sofridas pelas mulheres, quer às mãos dos maridos, quer dos pais.”
O conservadorismo sócio-político do autor coexiste com a sua modernidade estética. Para Ernesto Rodrigues, “Camilo foi um autêntico mestre da intriga, capaz de criar desenvolvimentos interessantíssimos que nos deixam em suspense”. A juntar a essa capacidade, há a destacar o uso de “frases curtas, que bebeu na atividade jornalística, e o modo como procura criar familiaridade com o leitor, uma característica que quase poderíamos dizer pós-moderna”.
Ao público de hoje, pouco familiarizado com a narrativa camiliana, o estudioso lembra “a capacidade única de criar universos, com personagens de grande densidade. Só em Mistérios de Lisboa há 67 personagens e em Anátema, que é um livro mais pequeno, 33. Ele não perde uma única ao longo do texto”.
Numa obra tão extensa, por que livro deve começar um leitor, jovem ou menos jovem, de 2025? Surpresa: os nossos três interlocutores são unânimes na escolha do romance A Queda de um Anjo. Isabel Rio Novo pensa que este livro pode gerar uma boa discussão em torno da atividade política, já que o protagonista, Calisto Elói, é um deputado eleito nas Cortes, que se muda das terras em Trás-os-Montes para Lisboa, e se sente ridicularizado num meio com o qual não estava familiarizado.“Acaba por triunfar devido à substância das suas ideias.”
Também Fernando Pinto do Amaral e Ernesto Rodrigues elegem A Queda de um Anjo como chave de acesso à obra de Camilo: “É divertido e faz incidir o foco da intriga sobre a vida parlamentar, o que nos permite estabelecer pontes com a atualidade”, afirma Ernesto Rodrigues, autor de uma edição crítica deste romance escrito em 1866.
LEIA TAMBÉM:
Camilo Castelo Branco: o escritor profissional que viveu como nos romances