Depois de Faro e do setor do Turismo, as ESG Talks estarão de seguida em Évora, para discutir a sustentabilidade e o setor agrícola. Durante uma manhã, trataremos de temas como o agronegócio sustentável, o papel da tecnologia e os desafios – muitos deles globais – que se colocam a esta atividade, essencial para as economias e para a sociedade.

Esta é a terceira edição das ESG Talks – iniciativa promovida pelo novo banco, pela VISÃO e pela EXAME, em parceria com a PwC.

Este encontro decorre a 20 de junho, durante a manhã, no auditório do Parque Alentejo de Ciência e Tecnologia, na cidade alentejana de Évora. Contamos com uma dúzia de oradores qualificados, que nos guiarão pelos vários temas que marcam o setor, a meio de um processo de transição mas que lhe coloca desafios até de sobrevivência.

Pode inscrever-se para participar através deste link.

Consulte abaixo o programa completo.

Uma bombeira atualmente no quadro de reserva da corporação dos Voluntários de Pedrógão Grande foi detida pela Polícia Judiciária (PJ) por ser suspeita de dois crimes de incêndio florestal.

“A Diretoria do Centro da Polícia Judiciária, com a colaboração do Grupo de Trabalho para a Redução de Ignições em Espaço Rural e da GNR, deteve, ontem, uma mulher, de 43 anos, pela presumível autoria de dois crimes de incêndio florestal, ocorridos a 02 de junho, em Pedrógão Grande”, lê-se em comunicado.

A suspeita, “presumivelmente com uso de chama direta, ateou os incêndios na floresta, em zona com vasta mancha florestal, povoada com eucaliptos, carvalhos, sobreiros e mato, confinante com uma zona urbana”. O comunicado refere ainda que o incêndio acabou por não assumir proporções mais gravosas devido à intervenção dos meios de combate dos bombeiros de Pedrógão Grande e da Sertã, auxiliados por três meios aéreos.

A atuação da mulher colocou “em perigo a integridade física e a vida de pessoas, de habitações e a da mancha florestal com centenas de hectares”. Esta vai ser presente a primeiro interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação.

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Professor universitário, cocoordenador da licenciatura de Filosofia, Política e Economia da FCH-Católica, Michael Baum, norte-americano há 31 anos a residir em Portugal, é também membro do Conselho Executivo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), nomeado pela Embaixada dos EUA. Nesta entrevista, porém, faz questão de sublinhar que fala como professor universitário e não como representante da FLAD ou do governo dos EUA. As ameaças à construção europeia, a ascensão da extrema-direita, os novos temas de Defesa, impostos pela invasão russa da Ucrânia, e os riscos da vitória de Donald Trump para a democracia norte-americana – e as consequências na Europa – foram os temas abordados numa longa conversa com a VISÃO, de que se faz, nestas páginas, o resumo: “Se Trump ganhar, a Ucrânia vai provocar a divisão da Europa.”

Nesta eleição europeia, a extrema-direita e as questões da Defesa (ausentes anteriormente) são os temas mais falados. Porquê?
Sim, é verdade. As eleições europeias também refletem os assuntos do dia, e nomeadamente a Ucrânia está a mobilizar as atenções gerais. Uma sondagem europeia recente demonstrou que a Defesa também era um dos temas mais importantes em Portugal. Aliás, a imigração não tinha tanta expressão em Portugal, nem na Europa, como certos partidos gostariam…

E a Defesa ou a preocupação com a Ucrânia varia entre os países?
Sim. Nos países que estão mais, digamos, geograficamente na frente, a preocupação surge à cabeça. Em Portugal, os dois assuntos mais citados eram a guerra na Ucrânia e a situação internacional, de uma forma genérica, sobretudo as consequências na economia, na inflação e no custo de vida. A imigração era um assunto mais importante em países como a Alemanha e os Países Baixos.

Extrema-direita “Eles estão lá porque foram eleitos e têm direito a fazer parte do jogo, desde que não entrem no sistema para o destruírem”



Pergunto-lhe como professor: parece que os jovens votam bastante em partidos populistas; outros abraçam agendas extremistas, no campo wokista. Ora, diz-se que esta geração é a mais qualificada de sempre, mas estas opções polarizadas não revelam baixa qualificação em Humanidades, no estudo da Filosofia ou no conhecimento da História?…
É uma boa reflexão. Talvez isto reflita uma crescente polarização, que é geral nas nossas sociedades. Está a acontecer nos EUA, está a acontecer na Europa – e no Brasil, na Índia, etc. Uma explicação fácil é a influência das redes sociais, os social media e os echo chambers [câmaras de eco]. A informação vem do “nosso” campo ideológico e o centro desertifica-se, o que contradiz, de facto, a questão da qualificação, porque as pessoas mais qualificadas deviam ter mais capacidade de filtrar a informação, oriunda de vários pontos de vista. Mas todos somos animais propensos a seguir os outros, o caminho mais fácil. É a força do nosso grupinho e o reforço da nossa perspetiva.

E a participação cívica dos mais jovens em atos eleitorais?
Nas últimas eleições europeias, houve um momento significativo de turn off, que contrariou o que vinha de trás: houve mais participação eleitoral dos jovens, em eleições europeias – curiosamente, não em Portugal. Pode acontecer, nesta eleição, um aumento de participação do eleitorado jovem português. É a sensação que eu tenho a partir da minha sala de aula… É verdade que, na Universidade Católica, os alunos estão mais virados para as causas dos partidos à direita, mas há um crescente interesse pelas eleições europeias.

Os partidos fazem campanha nas instalações da universidade?
Houve aquele caso com o Chega e o jornalista do Expresso, na Católica, e alguns alunos tentaram organizar um polo local de juventude ligado ao Chega. Mas a administração da Católica quer manter o espaço ecuménico e isento.

Entretanto, no campo da esquerda, vemos também os campus universitários a serem tomados por ativistas ligados a agendas progressistas ou, por vezes, wokistas. As questões climáticas, o #MeToo, as questões raciais, a Palestina… O exagero não torna as universidades cada vez menos tolerantes? E que mudanças isto provocará na política europeia, no futuro?
A universidade tem de ser um espaço de abertura de pontos de vista de vários quadrantes. A menos que haja uma violação da lei no incitamento ao ódio. Por exemplo: nos EUA, qualquer crítica ao governo de Israel é interpretada como um discurso antissemita. Ora, muitos destes críticos do Estado de Israel são grupos de alunos judeus norte-americanos! É de doidos! Concordo que o wokismo ou a intolerância populista está a afetar as universidades e é efeito da polarização de que estávamos a falar. Eu gostaria de pensar que o nosso papel de educadores é preparar os alunos para debater e discutir argumentos do ponto de vista de várias perspetivas. Se não conseguimos sequer ouvir os pontos de vista dos outros, estamos de facto condenados. Às vezes, na sala de aula, levamos os alunos a defender pontos de vista em relação aos quais possam estar frontalmente contra… Mas eles têm de se pôr na pele dos adversários – e é um exercício que eles detestam…

Somos animais propensos a seguir os outros. É a força do nosso grupinho, o reforço da nossa perspetiva…



A tolerância faz parte dos valores europeus. Mas como as novas gerações sentem a Europa?
Deteto tendências contraditórias. Talvez a forma como os mais novos melhor sentem a Europa seja através do programa Erasmus.

Mas é, para eles, como se tivesse sempre existido… Haverá a consciência de que o programa é uma conquista da União Europeia?
Uma conquista fundamental! Mas, sim, acho que os alunos têm essa noção. No dia a dia, tenho cerca de 20% de alunos internacionais, e o que é interessante, como educador, é ter esta mistura entre alunos europeus, chineses, norte-americanos, brasileiros… E uma das questões que mais surgem é o Estado Social. Ora, o que fica claro é que há uma certa perceção, por parte dos alunos europeus, no sentido de vincarem, perante os outros, de que “nós temos isso e vocês não”… Quer dizer, há um certo sucesso neste programa em criar uma perceção do “nós” europeu que não existia antes.

Já há, então, uma identidade “União Europeia”…
Se pensarmos no Erasmus – que serve apenas uma determinada camada social, com acesso ao estudo superior, enfim… –, eu diria que sim, e não só entre os alunos mas também no staff, docentes e administrativos das escolas e das universidades, através de visitas aos congéneres de vários países. É um sucesso. O outro lado da moeda é o que qualquer lisboeta, portuense ou algarvio sente: a pressão imobiliária. Nessa crise da habitação, já se começa a pôr a culpa no estrangeiro.

Sabe bem quando somos nós a sair, a viajar ou a decidir trabalhar noutro local, mas quando são os outros a vir para cá, aqui d’el rei? Ou seja: os jovens atribuem estas dificuldades ao espaço aberto europeu ou a políticas nacionais?
As pessoas vivem essas contradições no dia a dia. Todos nós gostamos de ter o roaming nos nossos telemóveis, mas ninguém gosta de se sentir uma espécie exótica no próprio bairro… Se formos para aqueles cafés que servem brunchs a €13 e a €14, vemo-los cheios de estrangeiros, mas os mais baratos e tradicionais estão cheios de “tugas”. E esta separação não é particularmente saudável. É isto que cria certas tensões que, em Portugal, ainda estão na “infância”, mas eu já vi este filme em muitas cidades nos EUA, entre os locais e os recém-chegados.



Há quem atribua uma ligação entre a insegurança e a imigração, o que não é confirmado pelos números, mas nós ainda estamos a começar. Noutros países, os problemas de insegurança surgiram com os de segunda geração, filhos de imigrantes que não foram devidamente integrados. Corremos o mesmo risco?
É isso. E é curioso, não é? Portugal, um país que sempre enviou o seu povo para fora… Se há povo que devia ter uma vacina contra o preconceito, devia ser o português. Mas não é bem assim. Há uma grande predisposição para o preconceito, e Portugal é um dos países onde esse sentimento mais existe. Até bem recentemente, com imigrantes em número relativamente baixo e sem grande presença islâmica, mas oriundos de PALOP, a falar a nossa língua, ainda não havia grande problema. Agora, em termos culturais começa a notar-se um confronto. Ainda assim, embora seja um assunto em crescimento, não tem a importância que certos partidos gostariam que tivesse.

Partidos como o Chega tentam insuflar um sentimento e uma perceção de que a sociedade ainda não reconhece?
Faz parte da sua agenda identitária e é um projeto de mobilização que tem tido sucesso. Antigamente, o preconceito não era ativado por nenhum grupo político. Agora, é, e a diferença é essa. O [André] Ventura é muito esperto, percebeu que havia um nicho de mercado e não teve vergonha de acionar esse botão.

Esse sentimento de anti-imigração sente-se entre os seus alunos?
Sinceramente, não vejo isso. Há um cosmopolitismo que os deixa mais confortáveis com os estrangeiros. É um bom sinal.

Europeus “A melhor forma de os mais novos sentirem a Europa é através do programa Erasmus”



Os chamados valores europeus estão a morrer ou o anúncio da sua morte é manifestamente exagerado? Depois da eleição de Trump, em 2016, uma sondagem do Eurobarómetro notou uma subida da popularidade da Europa. Essa visão da Europa e dos seus valores é pouco viável, quando é algo de abstrato, mas reativa-se quando há uma confrontação exterior. O mesmo aconteceu, quando os russos invadiram a Ucrânia. É aí que a Europa se torna mais clara. Ou seja: se Trump voltar a ganhar, é razoável esperar mais um toque a reunir em torno da bandeira europeia.

E se Trump ganhar, o que podemos esperar da Europa relativamente à Ucrânia?
Aí, será muito curioso. Vamos ver o mesmo fenómeno com que temos deparado nos EUA: uma polarização entre os que apoiam a Ucrânia e os que querem desistir. Trump vai fazer de tudo para deixar à Europa a responsabilidade pela Ucrânia, nos custos financeiros e militares, e isso para dividir a Europa. A mesma divisão que já se nota nos EUA.

Fala-se muito de valores europeus, para defender a UE, perante alguns dos governos dos próprios membros que parecem querer atacar esses valores. Não seria melhor falar do cumprimento dos tratados – e exigi-lo a todos?
Viktor Orbán deu uma entrevista a dizer: “O meu conceito de Estado de Direito não é o mesmo do que o vosso”…

Por isso mesmo é que lhe pergunto…
O problema é que o cidadão comum europeu não tem grande noção do que está nos tratados…

Mas os governos têm de ter!
Eu sei, mas o trabalho de esclarecimento, incluindo o mediático, não faz chegar o conteúdo dos tratados à rua. É algo muito distante. Portanto, os europeus conhecem melhor o conceito de valores. “Liberdade de expressão” é um conceito que toda a gente entende e, em princípio, defende.

Há ou não um défice democrático na UE?
Sem dúvida, há. A participação eleitoral é um reflexo desse sentimento. As eleições europeias são manipuladas por razões de política interna. O Parlamento Europeu tem poderes de regulação que influenciam o nosso dia a dia, na transição energética, Inteligência Artificial… Mas as pessoas sentem que são questões longínquas, e isto é um problema para a representatividade democrática.

Tenho alunos chineses, norte-americanos, brasileiros… E o Estado Social é o que faz o contraste, para que os europeus se sintam identificados com a Europa: ‘Nós temos isso, e vocês não…’



E o crescimento da extrema-direita vai levar à respetiva normalização? Há nuances entre as várias extremas-direitas? O PPE pode vir a fazer um acordo com uma parte delas…
Acho que sim. Há uma parte que está fora das linhas vermelhas que, normalmente, se estabelecem. Talvez Giorgia Meloni, que tem feito o seu caminho mainstream, seja o melhor exemplo. Isso vai ser uma das grandes questões do day after eleitoral. Também dependerá da matemática dos resultados. Mesmo com o Chega, vimos esse processo de tentativa de normalização na última campanha para as legislativas. Eles são animais políticos…

Também é verdade que a dita extrema-direita não usurpou de qualquer lugar. A representação que tem resulta de eleições livres e justas…
Verdade. Desde que não incitem à violência, eles têm todo o direito a fazer parte do jogo, e desde que respeitem essas regras e não entrem no sistema para o destruírem por dentro. Ganhar as eleições para depois mudarem as regras e garantirem que permanecem no poder – este é o grande perigo. Há muitas coisas que eu vejo nos EUA e que podem atravessar o Atlântico…

Sim, queria ouvi-lo sobre as eleições no seu país natal… As instituições democráticas da democracia mais poderosa e influente do mundo estão em risco? Ou estamos a dramatizar demais?
Não, infelizmente não estamos a dramatizar demais. Há vários pensadores e académicos de diversas vertentes ideológicas que têm dito isso. Em Portugal, falava-se, durante muito tempo, do “arco da governação”, com a ideia de que havia um certo respeito pelas regras do jogo. O que está a acontecer nos EUA é que o nível assustador de polarização faz com que os que pensem de forma diferente estejam identificados como inimigos e sem direito a existirem naquele espaço.

Mas o que acontece com os famosos checks and balances [separação de poderes]? Não resistem a isto?
Vamos ver. Ninguém garante que possam resistir. Por exemplo: pode haver quem diga que o que está a acontecer a Trump – foi condenado em tribunal – é a prova de que o sistema ainda funciona. Mas ele continua a poder ganhar, a vir a ter controlo sobre o Supremo, a ter nas mãos as duas câmaras do Congresso, a maioria dos governadores… É muito tentador, para ele, com as tendências que lhe conhecemos, reescrever as regras, fazer com que esses checks and balances deixem de funcionar. Neste cenário, o único poder contra Trump seria o da rua.

E o das Forças Armadas?
Ele não hesitaria em chamar os militares para defender a sua posição contra a rua. Se isso acontecer, estaremos num momento da História dos EUA que eu não gostaria de ver. É um perigo colossal. Acho que a Europa ainda não está perto desta situação. Mas um dos meus receios é que tudo o que estamos a ver do outro lado do Atlântico possa repercutir-se noutras democracias.

Conhecidas as linhas gerais da política imigratória que o atual Governo pretende implementar, impõe-se uma reflexão do que foi feito e do (muito) que há ainda a fazer.

Declaração prévia de interesses: não milito em nenhum dos partidos que compõem o Governo.

Isto dito não posso deixar de considerar que, por muito genérico que seja o plano agora apresentado, ele tem vários pontos fortes. Equaciona, desde logo, o problema com clareza, faz o diagnóstico e define a terapêutica. Esta pode ser discutível e, em última instância, revelar-se inadequada ou impossível de aplicar com os meios ao dispor.

Mas não há nada pior do que a incerteza e a navegação à vista que se vive atualmente.

Não há muito tempo, defendi nesta mesma coluna necessidade de se acabar com o sistema de Manifestação de Interesse alertando para o facto de, sem essa ação legislativa, ser praticamente impossível acabar com as pendências.

Tendo sido criado como um mecanismo para regularizar as dezenas de milhares de imigrantes que se encontravam em Portugal sem um título de residência deveria ter tido, desde o início, um prazo limite de vigência, pese embora o contributo para o sistema social destes emigrantes que se encontravam perfeitamente integrados no mercado de trabalho. Não foi esse o entendimento e claro que o “efeito de chamada“ deste mecanismo veio aumentar enormemente o número de indocumentados. Por isso uma saudação especial para esta primeira medida.

Mas ela só resultará com o reforço dos elementos ligados à imigração junto dos consulados, de maneira a permitir a emissão adequada de vistos de residência.

Hoje mesmo vi publicado um artigo em que se afirma que o controlo criminal aos vistos terá acabado em países de risco com o fim do SEF.

Portugal não é um país que atraia mão de obra altamente qualificada. Aliás, se assim fosse, não teríamos tantos jovens portugueses com altíssimas competências a emigrar.
Somos um país com baixos salários e esta realidade está em contracorrente com a vontade do Governo em atrair talentos

Com o enorme respeito que tenho por quem assina o artigo, devo fazer notar que os Oficiais de Ligação para a Imigração, que desde há anos estão sedeados em determinadas embaixadas, só no início do ano terminaram as suas comissões que, como é facilmente entendível, se prorrogaram para além da extinção do organismo. Portanto, a não existência de algum controlo nesses países não pode ser acatada ao fim do SEF.

Outra coisa diferente é saber se os consulados onde estão previstos esses elementos de ligação são os mais adequados ou se deveriam ser estendidos a outros países.

A capacitação dos consulados na atribuição de Vistos de residência, sobretudo para trabalho passa, porém, por outros mecanismos que há que implementar rapidamente. Desde logo a existência duma bolsa de emprego por áreas deficitárias no país.

E aqui há que ser muito claro e concluir que Portugal não é um país que atraia mão de obra altamente qualificada. Aliás, se assim fosse, não teríamos tantos jovens portugueses com altíssimas competências a emigrar.

Somos um país com baixos salários e esta realidade está em contracorrente com a vontade do Governo em atrair talentos.

Mas somos um país extremamente deficitário em áreas de baixa qualificação, como a agricultura, a pesca ou a restauração.

Portanto, não podemos ter a veleidade de pensar em criarmos uma imigração de primeira classe e outra de segunda.

De aplaudir também a ideia, que não é nova, mas que parece querer agora sair do papel, da descentralização dos serviços de documentação, envolvendo mais as autarquias e os governos locais. Não faz sentido que um imigrante se veja obrigado a viajar do Algarve até Braga para tratar da sua documentação!

A proximidade da relação entre os serviços da Administração do Estado e os imigrantes é o primeiro passo para criar, mais do que um sentimento, um estatuto de cidadania.

Porque, no fim do dia, quando falamos de integração, de acolhimento e de regularização, é disto que se trata: tornar todos os que se encontram em Portugal em cidadãos de pleno direito e deveres.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

É fácil ser um populista profissional. Candidato dessa estirpe ao Parlamento Europeu (PE)? Simples, basta sacar de uns despautérios, descontextualizar o que convém e jurar a pés juntos que, na verdade, se trata de um sítio de burocratas obedientes, que ganham um salário mensal líquido de €7 853, a que se juntam €4 950 para despesas essenciais (assessores, secretárias, material de escritório) e ainda outros €350 ao dia – desde que o eurodeputado esteja de facto presente nas duas cidades que acolhem a instituição, Bruxelas e Estrasburgo. Valores estratosféricos para os 450 milhões de habitantes que vivem na União Europeia – nomeadamente os portugueses, cujo rendimento mensal bruto ronda os €1 500. Os populistas são capazes de dizer tudo e o seu contrário, sem receio de lhes apontarem as contradições relativas ao maior projeto de paz e de prosperidade que o Velho Continente alguma vez conheceu.

Eurorrealistas e moderados?
Principais líderes dos partidos que compõem os Conservadores e Reformistas (ECR). Número atual de eurodeputados: 69

A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido neonazi que defende a remigração e outras coisas do género, alega que o PE “não serve para nada” e que deveria ser “abolido”. Até há duas semanas, esta organização eurofóbica, que elegeu sete eurodeputados há uma década (e aumentou a representação para 11, em 2019), fazia parte da Identidade e Democracia (ID), a família parlamentar que reúne os movimentos mais radicais e soberanistas do Velho Continente (ver infografia). Por decisão da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, a AfD foi expulsa, porque o respetivo cabeça de lista ao PE, Maximilian Krah, numa entrevista ao diário italiano La Repubblica, afirmou que “nem todos” os elementos das SS eram criminosos. Ou seja: as falsidades e os exageros ideológicos têm limites, e Le Pen anda há anos a “desdiabolizar-se” por acreditar que, depois de três tentativas frustradas, em 2027, será a Presidente de França.

MORDOMIAS ABSURDAS

Por razões administrativas, já não é possível retirar dos boletins de voto o nome de Krah, que promete atingir um resultado recorde, entre 15% e 17%, e ficar à frente dos sociais-democratas (SPD) do chanceler Olaf Scholz. As sondagens dão como garantido que a AfD pode mandar dúzia e meia de eurodeputados para Bruxelas. A confirmar-se, significa que Krah e os amigos sobrevivem a todo o tipo de cordões sanitários e de escândalos: um dos assessores da AfD no PE, por exemplo, é suspeito de ter passado informação classificada para a República Popular da China. Não se trata de um caso isolado. Há outros eurodeputados que podem ter feito algo de semelhante com a Rússia e os que aceitam cargos para influenciar as decisões tomadas no exercício de funções. De acordo com uma investigação realizada pela ONG Aria, pelo Le Monde e cinco outros órgãos de comunicação social, quase dois terços dos nossos representantes no PE desempenham atividades paralelas. A Transparência Internacional, no início de maio, divulgou uma lista com os nomes. Pormenor: os 25 primeiros auferem rendimentos anuais extraordinários acima dos €70 mil. Nada mal para quem já dispõe de mordomias como o direito à reforma aos 63 anos e beneficia, a partir dessa idade, de uma pensão vitalícia que pode atingir 70% do salário, em função do período em que ocupou o cargo. 

Eurocéticos e radicais?
Principais líderes das formações que integram a Identidade e Democracia (ID). Número atual de eurodeputados: 49

Assim, é natural que um dos previsíveis vencedores da maior eleição transnacional do mundo seja a abstenção. Por norma, só metade dos eleitores se digna a dirigir às assembleias de voto e, neste século, no total da UE, a taxa de participação mais elevada (50,66%) ocorreu precisamente em 2019 (ver infografia), com Portugal e vários países de Leste a ficarem muito abaixo dessa fasquia.

DANÇA DE CADEIRAS

Todas as personagens retratadas nestas páginas estão convencidas de que vão obter um resultado histórico, provavelmente, no conjunto, um quarto dos assentos do PE. Sucede que Marine Le Pen, Giorgia Meloni, Riika Purra e André Ventura estão divididos em duas famílias políticas (ID e ECR), em que os egos e os interesses domésticos se sobrepõem a quase tudo o resto. Isto para já não falar em figuras como Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria e líder do Fidesz, que abandonou o Partido Popular Europeu (PPE), em 2021, e que pode querer filiar-se nos Conservadores e Reformistas. Terão eles os meios para condicionar toda a arquitetura institucional da UE? Estes resultados eleitorais vão ditar as dinâmicas comunitárias para os próximos cinco anos. Além de um eventual alargamento do clube, que hoje conta com 27 Estados-Membros, estão em causa dossiers estratégicos como a transição energética, o papel da UE no mundo, o conflito russo-ucraniano, a gestão dos fluxos migratórios, a execução dos fundos de recuperação e resiliência (€800 mil milhões) e, claro, os cargos de topo, que têm de ser negociados já a partir da próxima semana: presidente do Conselho (António Costa?), presidente da Comissão (Ursula von der Leyen? Mario Draghi?), alto-representante para a Política Externa (Kaja Kallas? Radoslaw Sikorski?), presidente do PE (Roberta Metsola?).

Imprevisíveis?
Primeiro-ministro húngaro, após sair do Partido Popular Europeu, admite juntar-se a Meloni e ECR. Alternativa para a Alemanha foi expulsa da ID a 23 de maio


A dança das cadeiras tem uma primeira sessão agendada para 17 de junho, num jantar informal em Bruxelas, a que se segue o Conselho Europeu de 27 e 28. Nas últimas semanas, Giorgia Meloni e Ursula von der Leyen têm andado num frenesim diplomático, com a segunda a tentar recolher apoios para ser reconduzida à frente do colégio de comissários e com a primeira empenhada em federar as direitas e a mostrar disponibilidade para fazer a vontade à alemã, na condição de afastar as esquerdas dos top jobs. Marine Le Pen quer entrar nestas alianças “de patriotas”, e Geert Wilders, a eminência parda do futuro governo neerlandês, já diz que “as transferências financeiras dos países ricos do Norte para os países pobres do Sul e do Leste têm de terminar”. Num artigo pleno de ironia e de perspicácia, intitulado A Extrema-Direita Está Dividida, e então?, Wolfgang Munchau resumiu de forma antológica o atual momento: “Meloni e Orbán são conservadores no plano social. A França acaba de reconhecer o direito ao aborto na sua Constituição. Com o apoio de Le Pen. Alice Weidel, a codirigente da AfD, não esconde a sua homossexualidade e vive a tempo parcial, na Suíça, com a companheira, natural do Sri Lanka, e com os dois filhos de ambas. (…) Se há algo ainda mais difícil do que a integração europeia, é provocar a desintegração europeia.”

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Uma visita guiada aos lugares de Leonor Teles

O assassinato do pai de Leonor, Martim Teles, e a morte da sua mãe, Aldonça de Vasconcelos, levou a que a mais nova dos Teles fosse entregue aos cuidados dos tios João Afonso Telo e Guiomar Lopes Pacheco, a quem o rei D. Pedro I de Portugal concedera o mais importante condado português, o condado de Barcelos.

João Afonso, primo direito de Inês de Castro, tornou-se assim no 4º Conde de Barcelos, e no reinado seguinte mordomo-mor e embaixador do jovem rei D. Fernando, senhor de um poder enorme que, evidentemente, usou para promover a família, ajudando a abrir caminho para que a sua extraordinariamente bonita sobrinha Leonor chegasse ao trono.

E foi no paço de Barcelos — não o que ali vemos em ruínas, mas num mais antigo que não devia distar muito deste — que a futura rainha passou parte da sua infância e juventude, e provavelmente celebrou o seu primeiro casamento, com João Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro, ouvinte atenta dos relatos dos peregrinos que rumavam a Santiago e das histórias dos diabos e das bruxas, lendas antigas desta região. Mal sabendo, então, que um dia também a ameaçariam queimar na fogueira.