O bem e o mal, o que é justo e o que é injusto não são aprendizagens: são sensações e perceções de ordem neurobiológica e hormonal.

Sentimo-nos bem ou sentimo-nos mal, desde o início do processo gestacional.

O bebé sente-se bem – descontraído, satisfeito e curioso – num ambiente conhecido, protetor, atentivo e gentil. O bebé sente-se mal – tenso, em estado de alerta, irritado e stressado – quando está sozinho ou num ambiente desconhecido, na presença de pessoas que o ignoram ou que, de qualquer forma, o tratam mal e não o protegem. Estas perceções atuam sobre todo o corpo do bebé.

A perceção de situações agradáveis tais como presenciar algo que nos parece bom e justo, porque não nos fere nem fere o outro, assim como a perceção de situações stressantes – ameaçadoras, maldosas, injustas – invadem continuamente o nosso cérebro, introduzem-se na nossa neurobiologia, no nosso sistema hormonal e modelam-nos.

A nossa neurobiologia e o nosso sistema hormonal, reagem ao que sentimos: a sensação de ver ou de praticar o bem e o que é justo não é a mesma que aquela que temos quando vemos ou praticamos o mal e a injustiça.

Estes processos não são exclusivos dos seres humanos, mas comuns a todos os animais e até às plantas. A semente de uma árvore sente-se bem e desenvolve-se rapidamente e é saudável, quando é bem tratada: preparada antes de ser plantada, plantada no momento adequado, em terra preparada para ela, com luz, calor e humidade cuidadosamente adaptadas às necessidades da semente. A planta é mais resistente e produtiva quando é bem tratada, quando é acarinhada e cuidada. Tal como qualquer animal.

A ditadura e o fascismo são extremadamente desagradáveis: a violência, o desrespeito, a opressão, a manipulação e o medo que incutem, assim como a proibição de pensar e de falar livremente, são perceções extremamente dolorosas e stressantes que se tornam, com o tempo, cada vez mais incapacitantes. A agressão e o medo tiram-nos o prazer da existência, o autorrespeito, a alegria, a criatividade e a produtividade.

A ditadura e o fascismo são comportamentos e estados emocionais doentios, patogénicos, porque assentam e coabitam com a agressão, a violência, a destruição e a morte não natural. O stress, a hiperativação da nossa existência ameaçada agitam e deformam a nossa neurobiologia, o nosso sistema hormonal e anti-inflamatório.

A ditadura e o fascismo não têm possibilidade de coexistir pacificamente com a nossa neurobiologia. A nossa natureza sente-os como uma ameaça e equipara-os a uma infeção. A ditadura e o fascismo são expressões comportamentais de perturbações muito graves da nossa neurobiologia.

A democracia é prazenteira, descontraída e criativa.

A democracia dá-nos satisfação, e alegria, incita-nos a procurar o outro, a perdoar e a amar. A democracia estimula a vida, dá força e saúde ao nosso sistema imunitário e hormonal, ao nosso cérebro: o centro de integração das nossas sensações e emoções.

A má democracia é uma má versão da democracia, é uma má experiência.

Temos forçosamente – mais tarde ou mais cedo – de melhorar a má democracia, por razões de ordem neurobiológica e hormonal.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“O Irão atacará as bases americanas se for atacado”, afirmou o ministro da Defesa iraniano, Aziz Nafizardeh, segundo a agência de notícias local Mehr. “Todas as bases americanas e as bases militares de outros países da região que auxiliem os EUA em ataques contra o território iraniano serão consideradas alvos legítimos”, acrescentou.

“A resposta iraniana será dolorosa para os inimigos” caso o Irão seja atacado, declarou o oficial militar.

O presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou repetidamente o regime iraniano com um ataque contra o país para defender os milhares de manifestantes que têm saído às ruas nas últimas duas semanas em protestos por toda a República Islâmica, nos quais morreram centenas de civis.

Em junho, Donald Trump atacou instalações nucleares no Irão numa ofensiva que, segundo os iranianos, matou mais de mil pessoas, a maioria civis.

Teerão respondeu com um ataque a uma base americana no Qatar, que teve pouco impacto.

A vida política anda esquisita por muitas e diversas razões. Uma delas é que antes tínhamos homens que se tornaram notáveis devido ao seu percurso político. Ou tinham lutado contra a ditadura e sofrido perseguições, prisões, exílios e campanhas negras, ou tinham acreditado que seria possível mudar o regime por dentro e tentaram-no, embora sem sucesso. Outros eram indivíduos que se destacaram pela sua notória craveira intelectual.

De há uns tempos para cá as coisas mudaram. Hoje a política é uma arena de oportunistas, corruptos, gente pouco séria e mesmo criminosos de vários tipos. A democracia tem destas coisas. É tão aberta a qualquer um que nem se sabe defender a si própria.

O problema é que antes o eleitorado sabia discernir os elementos sérios dos outros, desde logo pelo discurso. Mas hoje, mercê das redes sociais, da IA e dum certo deslaçamento da sociedade e da polarização, é muito mais difícil esse exercício de discernimento, intoxicados que estamos pelas notícias falsas e informação manipulada ou desonesta. E é por isso que os extremismos e populismos têm prosperado e confundido tantas cabeças pouco pensantes.

Estamos na última fase duma campanha eleitoral para a Presidência da República. A generalidade dos comentadores concorda que este é um tempo político novo, em termos de presidenciais, visto que já não há figuras de referência do regime democrático.

Eanes foi importante no seu tempo, enquanto militar, na transição para um regime civilista. Soares, o primeiro civil em Belém, era um dos fundadores da República saída do 25 de Abril de 1974. Sampaio vinha das lutas académicas contra o salazarismo e Cavaco tinha governado durante muito tempo. Nos últimos dez anos, o País teve um Presidente de outro patamar, já sem a gravitas dos anteriores e que aligeirou a função presidencial, quer ao vulgarizar a palavra quer ao exagerar os comportamentos na procura da popularidade.

Neste momento, temos quatro candidatos da esquerda e centro-esquerda. Três deles são representantes de pequenos partidos que não têm qualquer hipótese de passar à segunda volta. Votar neles será um desperdício de votos para quem quiser levar adiante alguém deste setor político.

Do centro-direita à extrema-direita temos outros quatro candidatos. O extremista e populista André Ventura, que tem muitos apoiantes e muitos mais ainda que o detestam. Depois vêm dois representantes de partidos ou coligações de partidos, Cotrim de Figueiredo, que procura pescar no eleitorado do PSD e CDS, e Marques Mendes, o facilitador de negócios, que uma vez eleito será um delegado do Governo em Belém.

Finalmente, temos um dito independente, Gouveia e Melo, que deu corpo ao sebastianismo tradicional da mentalidade portuguesa, mas rapidamente (logo que começou a ter que expor ideias) se percebeu que não tinha nem experiência política nem conteúdo, tendo-se tornado um catavento ideológico.

Daqui resulta que apenas António José Seguro parece ter as condições necessárias e suficientes para fazer um bom lugar em Belém. Tem experiência política, tendo trabalhado de perto com homens de referência como Mário Soares. Não é um profissional da política. Esteve afastado da política ativa nos últimos dez anos, período em que se dedicou à profissão de docente universitário e pequeno empresário.

Temos a garantia de que uma vez eleito não será uma correia de transmissão do seu partido, uma vez que, ao contrário dos outros, se apresentou sem negociar ou garantir qualquer apoio partidário. Tem sentido de Estado pois, num momento difícil da vida nacional, soube colocar o interesse geral do País à frente do interesse particular do seu partido, tendo pago um elevado preço político por tal decisão.

É alguém capaz de procurar os consensos de que Portugal precisa para introduzir as reformas necessárias e não é um homem das elites urbanas de Lisboa e Porto, mas sim do interior, que é para onde o País mais precisa de olhar. Sobretudo, não é corrupto nem tem rabos-de-palha.

Portugal não precisa de gigantes nem de anões, apenas de um homem normal e decente. Dêem-nos um homem assim.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Em Portugal, a dificuldade no acesso à habitação tornou-se gradualmente no maior obstáculo ao início de uma vida autónoma pelos jovens, à conquista de autonomia económica pela geração mais qualificada de sempre, à mobilidade territorial e à colocação de quadros qualificados, como médicos, professores ou polícias, em áreas críticas como a Grande Lisboa ou o Algarve.

A Comissão Europeia identificou uma dimensão global do problema à escala europeia, que se tornou crescente desde a crise dos mercados financeiros em 2008, que entre nós foi acentuado pela contração de rendimentos durante os anos do programa de ajustamento da troika, mas que assumiu uma dimensão dramática desde os anos da pandemia e foi agravada pela espiral inflacionista subsequente à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Aquilo que foi sempre uma questão nacional, gerida de forma descentralizada na maioria dos países pelas regiões e pelos municípios, tornou-se um problema central europeu que justificou a recente apresentação de um primeiro plano de ação europeu para a habitação. A estratégia europeia recomenda o reforço da habitação pública, que em Portugal é apenas de 2% das casas, medidas desburocratizadoras de moderação dos custos de construção e a limitação do alojamento local ou de investimentos especulativos nas grandes cidades e em zonas turísticas que provocam uma elevada pressão sobre os preços.

A Comissão Europeia mostra-se preocupada por na última década, na maioria dos estados-membros, os preços das casas terem subido acima da inflação e da variação dos salários reais. Tal sucedeu desde 2020 em 20 dos 26 países para que existem dados disponíveis e a situação agravou-se desde o final da pandemia.

No 3º trimestre de 2025, os preços subiram em 25 países, e a preocupação cresceu porque estando a inflação pouco acima de 2%, as casas aumentaram cerca de 5% em termos homólogos.

A situação média europeia seria ainda assim um sonho para os portugueses, cujo Governo, no seu desvario ideológico de liberalização do mercado, adotou sucessivas medidas que colocaram pela primeira vez a subida dos preços das casas em cadeia acima dos 4% por trimestre nos três primeiros trimestres de 2025.

As sucessivas medidas adotadas por Luís Montenegro e Pinto Luz desde o primeiro plano de emergência para a habitação, pomposamente denominado Construir Portugal e apresentado a 10 de maio de 2024, conseguiram o fantástico resultado de inverter a tendência de abrandamento dos preços da habitação, que tinha caído para os ainda assim penosos 5% anuais no início de 2024, provocando um crescimento galopante até aos 17,7% anuais no terceiro trimestre de 2025, denunciados pelo Eurostat a semana passada.

A construção nova permanece aos níveis mais baixos do século, o financiamento da habitação pelo PRR foi reduzido, as limitações ao alojamento local foram eliminadas, os objetivos de construção pública estabelecidos para 2026 foram adiados para 2030 e a nova política migratória acentuou a falta de trabalhadores enquanto os salários na construção civil, em pleno emprego, sobem acima dos 8 por cento.

Mas do lado da procura foram dados múltiplos incentivos fiscais em matéria de IMI, imposto de selo e de IMT, que rapidamente foram corroídos pelo aumento dos preços, e a banca foi incentivada a financiar casas mais caras com a garantia pública para os jovens até aos 35 anos.

As medidas de incentivo da oferta através da mobilização de solos mostraram-se ineficazes, salvo fazer saltar da toca a Spinumviva, e as medidas de simplificação dos licenciamentos urbanísticos, que em maio de 2024 eram prometidas para daí a 90 dias, ainda aguardam aprovação parlamentar sob a forma manhosa, por visar evitar o debate e o aperfeiçoamento na especialidade, de autorização legislativa.

De vez em quando brotam os anúncios gloriosos na propaganda oficial, como as 26 mil novas casas a construir pela nova empresa Parques Cidades do Tejo na área de Lisboa, que rapidamente se esfumam da agenda sem resultados conhecidos por parte de uma entidade que desde o anúncio, em março de 2025, nem sequer foi constituída.

Perante o fracasso óbvio, a opção do Governo foi insistir na mesma receita, apresentando um novo pacote assente na promoção de ganhos fiscais para as empresas de construção e para os senhorios com rendas ditas “moderadas”. A redução do IVA na construção para 6%, em casas até 648 mil euros, tem um efeito óbvio de estimular novamente o aumento das casas de preços baixos e médios, aproximando-se do novo referencial de benefício fiscal, e não existem mecanismos que obstem à incorporação da redução de imposto na margem de lucro das construtoras e das imobiliárias.

Igualmente, a medida de redução do IRS no arrendamento até 2300 euros mensais, de 25% para 10%, tem efeitos duvidosos na colocação de novas casas no mercado e sobretudo não irá provocar nenhuma generosa redução de rendas pelos senhorios com desagravamento fiscal. Pelo contrário estabelece um novo indicador para a missão impossível de aceder a uma habitação condigna em Lisboa ou no Algarve e pressiona o aumento dos preços nas restantes regiões. Tudo isto teve o apoio do PSD e dos liberais e foi viabilizado pelo Chega na plena ignorância dos seus eleitores jovens, pobres e com baixos níveis de qualificações.

A OCDE veio recentemente dizer o óbvio: Portugal tem 700 mil casas vazias, muitas delas a necessitar de obras e outras usadas muito pontualmente como segunda habitação ou para veraneio.

A prioridade absoluta deveria passar por uma grande aposta na requalificação imediata destas casas, com vantagens fiscais e apoios a fundo perdido, e na penalização acrescida dos prédios devolutos com condições de habitabilidade. Por outro lado, a proposta do PS de isenção de imposto no arrendamento de segundas habitações poderia estimular a rápida colocação de casas no mercado com um efeito positivo na regulação dos preços.

Claro que nada do que disse a Comissão Europeia ou a OCDE foi bem acolhido pela selvajaria ideológica que orienta o Governo em matéria de política de habitação, e a banda continua a tocar em glória a caminho dos moderados preços de venda de 648 mil euros e das rendas de 2300 euros, que Pinto Luz diz serem os valores aptos a apoiar a classe média que resiste à gentrificação de Lisboa.

Para compor o ramalhete, o Governo, que no plano de maio de 2024 prometera colocar no mercado de arrendamento a preços acessíveis os imóveis do Estado que estivessem desocupados, optou por ser promotor imobiliário colocando à venda a valores de mercado duas dezenas de edifícios em zonas nobres de Lisboa e arredores.

Pela sua abnegada promoção da especulação imobiliária, com aumentos de preços só superados pela Hungria de Orbán, o prémio Laranja Amarga de política setorial vai para o ministro das casas a preços “moderados” Miguel Pinto Luz.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Entre as mortes ocorridas em 15 províncias e atribuídas às forças estatais, que a organização não-governamental (ONG) verifica com base em confirmações diretas e relatórios médicos e de morgues, encontram-se 12 crianças e seis mulheres, tendo sido ainda registados milhares de feridos.

O anterior balanço da ONG com sede na Noruega, divulgado na segunda-feira, dava conta de 648 manifestantes mortos em 14 províncias no Irão desde 28 de dezembro, data do início da nova vaga de protestos contra as autoridades de Teerão.

“A HRINGO continua a receber relatos de milhares de mortos em diferentes cidades e províncias do Irão”, segundo um comunicado divulgado no seu site, apesar de não conseguir confirmar ainda a escala destes números, que a emissora Iran International coloca por sua vez em mais de 12 mil.

“Com base nos dados disponíveis e na verificação de informações obtidas de fontes fidedignas, incluindo o Conselho Supremo de Segurança Nacional e o gabinete presidencial, a estimativa inicial das instituições de segurança da República Islâmica é de que pelo menos 12.000 pessoas foram mortas neste massacre em todo o país”, indicou a emissora multilingue por satélite, com sede em Londres, na sua página ‘online’.

A HRINGO observou, no entanto, que, devido ao bloqueio total da Internet no país desde a noite de quinta-feira e às “severas restrições no acesso à informação”, a verificação independente destes números “é extremamente difícil”.

O diretor da ONG, Mahmood Amiry-Moghaddam, ressalvou que os seus números dizem respeito a informações recebidas a partir de metade das províncias do país e de menos de 10% dos hospitais.

“O número real de mortos chega provavelmente aos milhares. Como o Governo não pode ocultar um número tão elevado de mortes, é forçado a atribuir este massacre a agentes estrangeiros”, condenou o responsável citado no comunicado.

A HRINGO também estima que o número de detidos ultrapassou os 10.000 e disse ter recebido relatos de que “muitos dos mortos, alguns dos quais inicialmente feridos por balas de borracha, acabaram por falecer depois de terem sido atingidos na cabeça ou no pescoço”.

Os números de mortos variam conforme as estimativas de cada organização, com a Human Rights Activists Newes Agency (HRANA), com sede nos Estados Unidos, a indicar, por seu lado, 2.003 vítimas, das quais 1.850 eram manifestantes, 135 elementos ligados às autoridades, nove menores e outros nove sem envolvimento nos protestos.

Skylar Thompson, da Human Rights Activists News Agency, comentou à agência Associated Press (AP) que este balanço é chocante, sobretudo porque atingiu em apenas duas semanas quatro vezes o número de vítimas dos protestos após a morte de Mahsa Amini em 2022, quando estava sob custódia da “polícia da moralidade”.

“Estamos horrorizados, mas ainda achamos que o número é conservador”, declarou.

A televisão estatal iraniana reconheceu hoje pela primeira vez um elevado número de mortes, afirmando que foram registados “muitos mártires”.

A nova vaga de protestos no Irão começou a 28 de dezembro, em Teerão, impulsionada por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.

A taxa de inflação anual é superior a 42% e, durante o ano passado, o rial perdeu 69% do seu valor face ao dólar, num contexto em que a economia foi fortemente atingida pelas sanções dos Estados Unidos e da ONU devido ao programa nuclear de Teerão.

As autoridades iranianas receberam inicialmente com compreensão os protestos, mas entretanto endureceram a sua posição e repressão contra os manifestantes, que passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel, a que se juntaram entretanto relatos de condenações à morte de manifestantes detidos.

As campanhas presidenciais em curso, com eleições marcadas para 18 de janeiro, estão a revelar algo que vai muito além da disputa entre candidatos. Revelam uma transformação silenciosa — e inquietante — da política democrática: a substituição progressiva do debate político por métricas, gráficos e reações instantâneas. Nunca se mediu tanto a opinião pública. Nunca se falou tão pouco do que realmente importa.

Hoje, a campanha presidencial é conduzida por sondagens permanentes, tracking polls quase diárias e leituras algorítmicas do comportamento eleitoral. Estes instrumentos, que deveriam servir para compreender a sociedade, passaram a ditar a estratégia política. Não se trata apenas de saber o que os eleitores pensam; trata-se de decidir o que pode ou não ser dito, quando deve ser dito e — sobretudo — o que deve ser evitado.

É a agenda do algoritmo a marcar a agenda política e, sobretudo a influenciar a agenda da opinião pública o que se traduz numa clara influência do sentido de voto de cada um.

É neste cenário que a campanha de António José Seguro se tornou, para mim, politicamente relevante. Não porque ignore os dados — ninguém o faz hoje — mas porque parece recusar submeter totalmente o discurso presidencial à lógica da reação permanente aos números. Num ambiente onde cada décima percentual gera ansiedade estratégica, essa opção não é trivial: é uma escolha política.

A obsessão pelas sondagens transformou as campanhas num exercício de contenção. As tracking polls funcionam como um eletrocardiograma eleitoral: qualquer flutuação provoca correções imediatas, silêncios estratégicos, mudanças de tom ou campanhas de ataque pessoal ao adversário. A consequência é uma política cada vez mais reativa, defensiva e pobre em visão. Governa-se — ou faz-se campanha — com medo de errar no gráfico seguinte e em função do lugar que se ocupa na última tracking poll.

Esta lógica é reforçada pelo algoritmo. As redes sociais não são neutras: premiam o ataque, a simplificação e a emoção rápida e penalizam a reflexão e o pensamento estratégico. Não é por acaso que a campanha se degradou, em vários momentos, em ataques pessoais, insinuações e leituras maliciosas do passado. O ataque tornou-se uma ferramenta eficaz porque o algoritmo o amplifica.

Também aqui a campanha de António José Seguro se destaca, não por estar acima da crítica, mas por não fazer do ataque pessoal o seu motor político.

Num tempo em que a agressividade rende visibilidade, esta contenção parece quase um anacronismo. Mas talvez seja precisamente isso que nos deve fazer pensar. A eleição presidencial não deveria ser um concurso de desgaste pessoal, mas uma escolha sobre autoridade institucional, independência e sentido de Estado.

O problema maior é que esta combinação — números e ataques — tem um efeito devastador: afasta do debate os grandes temas estruturantes. Enquanto se discute quem sobe ou desce nas sondagens e quem atacou quem, uma reflexão séria sobre o papel de Portugal no mundo que está a emergir, permanece, praticamente, ausente

Vivemos uma transição global profunda. A ordem internacional está a tornar-se multipolar. África assume uma centralidade demográfica, económica e geopolítica crescente. E, ainda assim, a campanha presidencial portuguesa quase ignora esta realidade.

É particularmente sintomático o silêncio em torno da CPLP. Portugal dispõe aqui de um ativo estratégico raro: uma comunidade política e linguística que o liga profundamente a África num momento decisivo da história global.

Pensar a CPLP como plataforma de cooperação política, diplomática e económica — e Portugal como ponte entre a Europa e África — deveria ser uma questão central numa campanha presidencial. O facto de surgir apenas de forma marginal diz muito sobre o empobrecimento do debate e sobre o receio de sair da zona de conforto eleitoral.

Ao tentar recentrar o discurso em valores institucionais, visão de longo prazo e responsabilidade histórica — mesmo quando isso não rende pontos imediatos — a campanha de António José Seguro acaba por cumprir uma função que ultrapassa a sua própria ambição eleitoral: expõe os limites da política governada pelo algoritmo.

As eleições de 18 de janeiro decidirão quem ocupará o Palácio de Belém. Mas decidirão também se aceitamos definitivamente uma Presidência moldada por sondagens, tracking polls e métricas digitais, ou se ainda valorizamos a coragem de contrariar os números quando o interesse do País o exige.

Num tempo em que os dados parecem mandar mais do que as ideias, talvez esta seja a verdadeira clivagem desta eleição. E talvez seja isso — mais do que qualquer ataque ou tendência — que merecia estar no centro da campanha.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Durante décadas, o Barreiro foi visto a partir de Lisboa como margem, como território de passagem. Esse olhar condicionou decisões, investimentos e ambição. Hoje, essa leitura está desatualizada. Não por retórica, mas por estratégia.

O Barreiro está a construir uma visão integrada de desenvolvimento que articula território, economia, coesão social e capacidade institucional. Uma visão assente em planeamento e evidência, e não em anúncios. É neste contexto que importa discutir uma decisão estrutural para o futuro do concelho e da Área Metropolitana de Lisboa: a eventual instalação de uma estação de alta velocidade ferroviária.

Não se trata de um detalhe técnico. Trata-se de uma escolha estratégica.

A evidência internacional é clara: os nós ferroviários de alta capacidade alteram hierarquias territoriais, padrões de investimento e decisões de localização empresarial, como demonstram Vickerman (2015) e Banister & Hall (1993). Uma estação de alta velocidade não encurta apenas distâncias. Reposiciona territórios.

No caso do Barreiro, o impacto seria profundo. A criação de uma centralidade ferroviária a sul do Tejo permitiria quebrar décadas de dependência funcional de Lisboa e afirmar uma alternativa metropolitana real. Com ligações competitivas às principais cidades nacionais e à rede ibérica, o concelho reforçaria a sua atratividade para empresas, talento qualificado e serviços avançados.

Infraestrutura com política pública preparada

Infraestruturas, por si só, não transformam territórios. Transformam quando encontram espaço, planeamento e políticas públicas preparadas. Quando isso acontece, os resultados traduzem-se em regeneração urbana, investimento produtivo e criação de emprego qualificado, como sublinha Flyvbjerg (2014).

O Barreiro reúne essas condições. Dispõe de território disponível, processos de requalificação em curso e uma aposta clara em políticas de habitação acessível. Assume, além disso, uma estratégia de desenvolvimento económico que entende o investimento público como catalisador do investimento privado, em linha com a abordagem defendida por Mariana Mazzucato (2013).

Aqui, a estação não seria um corpo estranho. Seria parte de um desenho coerente de desenvolvimento.

Os riscos associados a grandes infraestruturas são conhecidos, em particular a pressão imobiliária e a exclusão social. A resposta do Barreiro tem sido clara: políticas de habitação integradas, combinando habitação municipal, renda acessível e reabilitação urbana. Não por ideologia, mas por pragmatismo.

Como tem sido amplamente defendido pela UN-Habitat (2020), as cidades que crescem de forma sustentável são aquelas que articulam mobilidade, habitação e planeamento desde o início.

Uma estação de alta velocidade no Barreiro não seria uma concessão à margem sul. Seria uma decisão racional de ordenamento do território nacional. Um sinal de que Portugal começa a pensar o desenvolvimento de forma policêntrica e equilibrada.

O Barreiro já não pede para ser visto. Está a posicionar-se para ser escolhido.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Durante décadas, a arquitetura moveu-se entre extremos: de um lado, a utopia artística; do outro, a eficiência económica. Pelo caminho, perdeu-se a ligação profunda entre o território, o tempo e o ser humano.

Hoje, mais do que projetar edifícios, o arquiteto é chamado a construir uma relação entre a terra e quem nela habita. Os terrenos são comprados antes de serem compreendidos, os projetos nascem antes de haver propósito e o valor é medido apenas em metros quadrados ou em rentabilidade. Tudo isto leva a que comecemos a ver subúrbios de cidades doentes e incaracterísticos, isto é, construídos sem reflexão, apenas para servir a pressa. Os mecanismos de gestão urbanística são vistos como problemas em vez de aliados pelo bem maior, quando deveriam ser ferramentas de consciência e transformação.

O arquiteto contemporâneo precisa de recuperar o papel de mediador entre a economia e o humano, bem como entre o terreno e a ideia. É nessa mediação que reside o novo humanismo da arquitetura, aquele que reconhece que a forma não é apenas consequência da função, mas também da consciência. A essência do ofício nunca foi desenhar paredes, mas compreender lugares.

O arquiteto é, antes de tudo, um tradutor que lê o território, interpreta a luz, escuta as histórias que o solo guarda, das pessoas que lá viverão, e, só depois, desenha. Num mundo dominado por algoritmos e métricas, esse gesto de escuta é, por si só, revolucionário. Hoje, a tecnologia permite-nos visualizar, simular e medir quase tudo, mas nada substitui o olhar que percebe potencial onde outros veem vazio. É esse olhar, treinado pela experiência e alimentado pela empatia, que pode reconciliar o desenvolvimento com o sentido de lugar, e é isso que faz da arquitetura uma arte ainda necessária.

Um novo humanismo arquitetónico não se constrói contra o mercado, mas a partir dele, não se trata de negar o investimento, mas de o orientar com consciência, de compreender que cada decisão urbanística tem consequências humanas, e que o território não é um bem descartável, mas sim um organismo vivo, parte da identidade coletiva.

Esta abordagem exige coragem para desacelerar onde todos correm, para dizer “ainda não” quando o mundo grita “agora” e para afirmar que a sustentabilidade não é um adereço técnico, mas uma ética de relação entre pessoas, recursos e tempo.

Portugal tem hoje uma geração de arquitetos, engenheiros e construtores com talento e visão, mas falta-lhe a ponte entre a criatividade do projeto e a realidade do território, falta-lhe uma prática que una o pensar, o fazer e o cuidar. É tempo de devolver ao arquiteto o lugar de integrador. Alguém que compreende a economia, mas que não abdica da alma, que constrói para o presente, mas em diálogo com o futuro, que sabe que o verdadeiro luxo de uma cidade não está na ostentação, mas na harmonia invisível entre o espaço e a vida que o habita.

Num mundo fragmentado, a arquitetura pode, e deve, voltar a ser uma linguagem de reconciliação, quer seja entre o humano e o natural, entre a ideia e a terra ou, até mesmo, entre o território e o ser.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Qualquer entrevista ou fórum onde se discuta a sociedade do futuro e o impacto da Inteligência Artificial não termina sem que, ao especialista – do Nobel da Economia ao bilionário de Silicon Valley –, se questione: Como preparar crianças e jovens para este mundo novo? O que ensinar? Que competências promover?

Após uns segundos de hesitação, dois momentos: primeiro, o reconhecimento de que ainda ninguém sabe quais serão os novos empregos do futuro, e um segundo, em que, sem se especificar, se fala em promover o pensamento crítico, a empatia, a liderança… 

O ano de 2025, no entanto, já consolidou o primeiro dos novos “trabalhos” do mundo do futuro. Para o mesmo não parece ser preciso ser inspirador, saber cuidar ou estudar matemática. AI slop creator, ou seja, quem cria, usando o ChatGPT ou outra ferramenta semelhante, texto, música e vídeos de baixa qualidade que invadem o espaço virtual. O feed do Insta, do TikTok, do Spotify, os links gerados numa pesquisa no Google – todos, progressivamente, dominados por “tralha”. Que cansa, mas cativa. Adormece o cérebro, mas não faz… ainda… desligar o telemóvel.

Segundo as estatísticas disponíveis, cerca de 50% da internet já é slop. Tralha que não acrescenta, mas polui. Consome recursos (água, energia) e utiliza infraestruturas, que o cidadão comum paga nas contas do telemóvel, da luz e da água.

Explora, sem pagar, o trabalho de quem criou conteúdos originais, ora utilizados para gerar textos, canções repetitivas ou filmes com gatos.

O lucro, esse, mantém-se nos donos das plataformas que transformam em euros a atenção e os dados de quem consome slop.

Quem gera slop, assim como quem nas fábricas da Ásia produz mais uma peça de roupa que usamos, duas ou três vezes, e acaba desprezada numa lixeira a céu aberto no continente africano, não fica rico. O mercado slop já representa mais de 100 milhões de dólares em receitas, mas para os slop creators, no Vietname, no Brasil ou na Índia, é apenas um meio para ganhar um punhado de dólares, um “complemento” ao baixo salário.

Com o slop, a internet perde qualidade, com os conteúdos originais e com valor ludibriados pelo slop, que conhece as manhas do algoritmo para se tornar viral. Perde-se também a confiança. Como acreditar no que vemos e lemos, se não sabemos se é verdadeiro e fiável?

Podemos confiar na sorte e esperar que, exaustos do slop, os usuários em massa migrem para sites fidedignos de jornais ou procurem informação em sites de universidades de renome. Mas o ato de fé, que constantemente nos é solicitado – que, desta abundância de alternativas, prevalecerá a qualidade e a verdade – foi o que nos conduziu ao statu quo de uma internet povoada de trolls e fake news.

Melhor seria regular a utilização de material original para treinar LLM e gerar respostas e penalizar quem usa slop nos feeds. Afinal, quem lucra deve não só pagar pelos conteúdos, como pelos recursos e infraestruturas que utiliza. A net parece gratuita, mas não é. As plataformas afirmam ser apenas um meio, mas tornaram-se os principais condicionadores do que pensamos, do que consumimos, de como votamos.

Um caminho a seguir e a melhorar vem da Austrália. Em 2021, reconhecendo que não há democracia sem imprensa livre e de qualidade, publicou legislação que obrigou o Google e a Meta a negociar com os meios de comunicação social o pagamento de compensações pela utilização de conteúdos. O resultado foi, no geral, positivo, permitindo manter meios de comunicação social diversos e fortes. Perante a recusa de renovar contratos, a Austrália discute uma versão melhorada da legislação, que abranja os motores de resposta, impondo o dever de compensação na nova realidade do ChatGPT.

A legislação australiana é um bom exemplo de como o regulador não é impotente perante as Big Tech. Na Europa, uma ação conjunta, mas, desde logo, impulsionada por cada Estado-membro, é fundamental para defender a comunicação social, sem a qual não há democracia, só slop.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A cozinha nunca é neutra. Cada prato é uma síntese do território onde nasce: do clima, do solo, da água disponível, do relevo, da vegetação espontânea e cultivada, mas também do saber acumulado pelas comunidades ao longo do tempo. Comer é, antes de tudo, um ato geográfico.

Vem isto a propósito do lançamento de um interessante projeto Sabores do Tacho com a apresentação do primeiro de sete volumes, um por região. O projeto é da Visual Factory, liderado pelo fotógrafo alentejano Jerónimo Heitor Coelho. Por esta razão natalina, o primeiro volume respeita ao Alentejo e trata da criativa cozinha alentejana fortemente influenciada e inspirada nesta terra.

Portugal é um caso exemplar. Num território pequeno, concentra-se uma extraordinária geobiodiversidade: maciços graníticos e xistosos, planícies aluviais, serras calcárias, vales férteis, zonas húmidas, litoral atlântico exposto e um interior mediterrânico seco.

Esta diversidade física traduz-se diretamente na diversidade agrícola, pecuária, piscatória e, inevitavelmente, gastronómica. Nunca esquecendo o clima, curiosamente também consequente da geologia, os solos graníticos ácidos do Minho favorecem o milho, as hortícolas e o vinho verde; os xistos do Interior sustentam o olival, a vinha e os enchidos; os calcários moldam paisagens de pastorícia e queijos; os estuários e o Atlântico fornecem peixe, sal e algas.

Nada disto é casual. A gastronomia é uma resposta adaptativa ao meio. A chamada “cozinha tradicional” não é um conjunto de receitas folclóricas, mas sim um sistema ecológico-cultural, cumulativo de saberes com milhares de anos, altamente eficiente. Pratos simples, sazonais, baseados em produtos locais, com baixo desperdício e forte integração entre agricultura, floresta e água.

Durante séculos, a alimentação foi regulada pela proximidade, pela escassez e pelo conhecimento profundo do território.

A globalização alimentar quebrou esta ligação. Ingredientes anónimos, absurdas cadeias longas, perda de sazonalidade e homogeneização do gosto fragilizam tanto o território como a cultura. Quando desaparecem as variedades locais, os modos de produção e os pratos associados, perde-se também resiliência ecológica e a identidade.

Recuperar os sabores do território não é um exercício nostálgico. É um ato político e ecológico. Significa valorizar produtos locais, circuitos curtos, cozinhas regionais vivas, antigas e inovadoras, capazes de dialogar com o presente sem romper com o lugar.

A gastronomia é um instrumento central da transição ecológica: aproxima produtores e consumidores, reforça economias locais e reconecta a alimentação aos ciclos naturais. No fundo, cada prato pode contar a história de um rio limpo, de um solo produtivo, de uma paisagem cuidada e de uma cultura viva. A escolha do que comemos é de cada um, comer bem é também cuidar do território.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.