​​​​​​​Segunda volta das presidenciais de 1986: Como o duelo entre Soares e Freitas fraturou o País

​​​​​​​Segunda volta das presidenciais de 1986: Como o duelo entre Soares e Freitas fraturou o País

A 16 de fevereiro de 1986, Portugal era um país dividido em duas fatias. Desde o PREC (Processo Revolucionário em Curso), em 1975, que não havia tamanha polarização nem posições tão radicais, à esquerda e à direita. Nesse dia, tinha decorrido a segunda volta das eleições, para eleger o primeiro Presidente da República civil, em 60 anos, desde Bernardino Machado, apeado pelo golpe militar de 28 de maio de 1926. Agora, em 1986, quer os apoiantes mais radicais de Diogo Pinto de Freitas do Amaral, candidato da direita, quer os partidários de Mário Alberto Nobre Lopes Soares, candidato da esquerda, esperavam o dia da desforra. Os primeiros, se pudessem, enveredariam por ajustes de contas com partidos à esquerda, a começar pelo PCP. Poucos dias antes da refrega eleitoral, a sede dos comunistas do Porto fora cercada por partidários mais triunfalistas de Freitas, que, embora dispersados pela PSP, ameaçaram que ali voltariam, dia 16, para “ajustar contas”. Do lado dos mais radicais apoiantes de Soares, a ambição teria sido a dissolução imediata da Assembleia da República, a indigitação de um governo de esquerda – que ainda era maioritária no Parlamento – e a expulsão do primeiro-ministro Aníbal António Cavaco Silva, eleito poucos meses antes, com uma periclitante maioria relativa correspondente a menos de 30% dos votos.

Na varanda do edifício-sede do MASP (Movimento de Apoio Soares a Presidente), o vencedor fazia o primeiro discurso às massas, milhares que o apoiavam, defronte, na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa. Soares vencera por menos de 140 mil votos de diferença, o que, como se disse na altura, num universo de seis milhões de votantes, correspondia a pouco mais do que “um Estádio da Luz” cheio – o antigo recinto do Sport Lisboa e Benfica podia albergar até 120 mil espectadores. Nesse momento, ele sabia que, das suas palavras, dependia o incendiar do País ou o regresso à calma. Tinha de pôr gelo na euforia e começar, nesse momento, o processo de reconciliação nacional. Oiçamos as palavras que ficaram para a História e que serviram de modelo a todos os seus sucessores:

Foto: Inácio Ludgero

O debate decisivo

Freitas esgrimiu a contradição do apoio do PCP a Soares e este contrapôs com o perigo da extrema-direita: “O radicalismo da esquerda está contido. Agora, trata-se de conter o radicalismo da direita”

A 4 de fevereiro de 1986, com um estúdio repleto de repórteres fotográficos, Soares e Freitas ocuparam os seus lugares, no estúdio da RTP, perante os moderadores Margarida Marante e Miguel Sousa Tavares. Freitas do Amaral confrontou Mário Soares com a contradição do (agora) apoio do PCP, depois de tudo o que Soares tinha dito dos comunistas e do que os comunistas tinham dito dele. Para Freitas, o grave não era Soares receber os votos de eleitores comunistas, mas ter aceitado o apoio da direção do PCP, e insinuou que os comunistas nunca dão nada sem contrapartidas. Soares não se enervou: “Se o prof. Freitas do Amaral só tem para apresentar, como argumento, um pseudoacordo meu com os comunistas, está pobre de argumentos”, referiu. E exibiu um recorte de jornal com uma afirmação de Freitas: “Nunca acusei Soares de ter acordos com o PCP.” A seguir, proclamou: “Era preciso conter o radicalismo de esquerda. Está contido. Agora trata-se de conter o radicalismo da direita, e este é grave!” Freitas insistia nas contradições do apoio comunista e nas piruetas do adversário, e este contra-atacava com a incapacidade do professor em conter a arrogância da extrema-direita. Mais, acusou Freitas de ter sido convidado para cargos, durante a ditadura – Freitas lembrou que os tinha recusado, mas Soares contrapôs que nunca a ditadura se lembraria dele próprio para fazer quaisquer convites. E levou Freitas a admitir que só despertara para a política aos 31 anos, depois do 25 de Abril. O centrista lembrou todas as agruras provocadas aos trabalhadores pela austeridade do governo do Bloco Central e Soares admitiu que os trabalhadores poderiam estar zangados com ele, mas que reconheciam que ele, ao contrário de Freitas, era “da família”. No final, a maioria dos analistas atribuíram um empate a ambos, mas, retrospetivamente, e tendo em conta o eleitorado que cada um queria atingir, a eficácia de Soares terá sido superior.

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