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Um passa-se numa quinta alemã onde o tempo não anda para a frente; o outro, num presente americano onde tudo desaba ao mesmo tempo. Entre o silêncio herdado e o colapso imediato, os dois filmes da semana provam que o sofrimento feminino continua a ser o sítio onde a História deixa os seus destroços.
O silêncio que se herda: “Olhar o Sol”, de Mascha Schilinski
Olhar o Sol (título original Sound of Falling), segunda longa-metragem da realizadora alemã Mascha Schilinski, chega agora às salas portuguesas depois de um percurso sólido e silencioso: Prémio do Júri no Festival de Cannes 2025, presença na shortlist dos Oscars para Melhor Filme Internacional e Melhor Fotografia e nomeação para Melhor Filme Europeu. Um currículo aparentemente discreto, como o próprio filme, que nunca levanta a voz, mas também nunca nos larga da memória e do pensamento.
A ação decorre sempre no mesmo lugar: uma fazenda rural na Saxónia-Anhalt, no nordeste da Alemanha, organizada em torno de um pátio cercado por quatro edifícios. O tempo muda, os regimes políticos mudam, o país muda, mas a velha casa fica. Ao longo de quatro períodos (1910, 1940, 1980 e 2020), acompanhamos quatro raparigas e jovens mulheres: Alma, Erika, Angelika e Lenka, interpretadas por Hanna Heckt, Lea Drinda, Lena Urzendowsky e Laeni Geiseler. Mudam os vestidos, os penteados, as regras sociais. Não mudam os silêncios, nem os medos, nem a aprendizagem precoce de que o corpo feminino, naquele espaço, existe para ser controlado.
Nos anos da Primeira Guerra Mundial, Fritz perde uma perna num suposto “acidente de trabalho”: uma amputação que o transforma numa figura dependente, infantilizada, cuidada pela empregada Trudi, ela própria carregando um fardo de crueldade nunca nomeada. Alma observa tudo com uma estranha aceitação: as tradições da família, as fotografias pós-mortem dos mortos, a sensação inquietante de reconhecer o próprio rosto num passado que não viveu.
Décadas depois, Erika desenvolve uma fascinação mórbida — quase erótica — pelo agora velho “Tio Fritz” e pela mutilação, como se o trauma tivesse deixado de ser tabu para se transformar em fantasia interiorizada.
Já na antiga RDA, Angelika trabalha na fazenda, é abusada pelo tio Uwe e cresce num ambiente onde a violência masculina e a submissão feminina são tratadas como ordem natural. Quando entra numa fotografia de família em Polaroid, repete quase ritualmente a posição de Alma décadas antes. Na Alemanha reunificada, Lenka cria uma ligação intensa com Kaya, uma rapariga marcada pela morte da mãe. As histórias não se explicam. Ecoam.
O que une estas mulheres não é só a casa, mas também o rio onde nadam: um rio de fronteira, carregado de enguias repulsivas, metáfora perfeita de um país dividido e de um passado que não desaparece. Schilinski transforma este espaço num poema em prosa sombrio sobre culpa nacional, vergonha, militarismo, repressão sexual, servidão doméstica e o vazio deixado pela RDA, que trabalhou, se sacrificou e acabou descartada pela História.
Há ecos claros de O Lenço Branco (2009), o premiado filme do realizador austríaco Michael Haneke, mas sem a frieza clínica. Aqui, o horror é húmido, orgânico, quase folclórico. A câmara move-se como um fantasma, a banda sonora geme e pulsa, e cada cena parece carregada de um medo antigo, entranhado no chão. Olhar o Sol não nos diz o que pensar: mostra como o trauma se infiltra, se adapta, muda de forma e regressa.
O grito que já não cabe no corpo: “Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé”, de Mary Bronstein
Se Olhar o Sol fala da repressão acumulada, Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé mostra, no presente, o momento em que já não há espaço para conter nada. O filme da atriz e realizadora norte-americana Mary Bronstein entra em cena como um murro emocional progressivo, desses que não deixam marca visível, mas partem qualquer coisa por dentro de nós.
Linda, interpretada por Rose Byrne numa interpretação absolutamente demolidora (e com justa nomeação ao Oscar de Melhor Atriz), é uma mulher a funcionar para lá do limite. Tem uma filha gravemente doente, um marido ausente, uma casa impraticável, um emprego insustentável e uma vida reduzida à logística da sobrevivência. Vive num motel, literalmente à beira de um ataque de nervos ou do colapso, anda em piloto automático e carrega uma culpa que já não cabe no corpo.
Bronstein filma tudo a partir do interior desta mulher: a ansiedade constante, a irritação, o desespero, a exaustão moral. Não há tempo para respirar. Não há idealização da maternidade. Não há uma “força feminina inspiradora” que mereça ser destacada. Há uma mulher a tentar não cair — e a falhar muitas vezes.
Rose Byrne nunca pede empatia, nunca suaviza Linda, nunca a torna simpática. Torna-a real. E é isso que dói. Ao seu lado, o apresentador Conan O’Brien surge como ator, interpretando um terapeuta quase impotente, mais espelho do sistema do que solução. A criança, filha de Linda, nunca é plenamente mostrada, decisão crucial que deixa claro que este não é um filme “sobre uma família”, mas sobre uma mulher em colapso.
A montagem é agressiva, a fotografia recusa qualquer tentação de miséria chic e o baixo orçamento funciona como arma narrativa. Não há distrações. Só nervo. Só desgaste. Só verdade.
A mesma ferida, duas épocas diferentes
O que une estes dois filmes, afinal? À primeira vista, quase nada. Um atravessa um século de história alemã numa quinta rural; o outro comprime o presente num motel, num hospital, numa cabeça em curto-circuito. Um aposta no silêncio herdado; o outro, no grito imediato. Mas ambos falam da mesma ferida aberta: a forma como o sofrimento feminino é transmitido, interiorizado e normalizado. Olhar o Sol mostra o trauma como eco histórico, como herança que se repete sem palavras. Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé mostra o momento em que essa herança já não cabe dentro do corpo e explode. Um trabalha a repressão; o outro, a implosão. Nenhum oferece redenção. Nenhum embala o espectador.
São filmes difíceis, incómodos, profundamente humanos. Filmes que não pedem para ser gostados, mas enfrentados como desafio intelectual. E que lembram, num tempo de narrativas higienizadas e emoções embaladas a vácuo, uma verdade simples e cada vez mais rara: o cinema ainda pode — e deve — ser um lugar de desconforto, memória e confronto. Ainda bem.