O nome é já todo um programa: More Pride, Less Prejudice: Jane Austen at 250 (Mais orgulho, menos preconceito: Jane Austen aos 250) faz referência a um seus dos romances mais amados, mas também às questões endereçadas por alguns críticos que apontaram a domesticidade e a voz feminina como possíveis desvantagens da autora britânica, uma autora fundamental do cânone da literatura inglesa do século XIX – apesar desses preconceitos pontuais. O congresso internacional organizado pelo Centro de Estudos Ingleses de Tradução e Anglo-Portugueses (CETAPS), na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, dedica três dias a Jane Austen por ocasião da comemoração dos 250 anos do seu nascimento, a 16 de dezembro de 1775. Aberta ao público, a programação irá debater e aprofundar o universo singular e o legado literário e social da autora inglesa, a quem o poeta Alfred Tennyson elogiava a capacidade de compreender “a pequenez da vida na perfeição”: “Era uma grande artista, igual, na sua pequena esfera, a Shakespeare.” A organização do congresso, na sua chamada a participações e papers, encorajou as “perspetivas contrastantes sobre a sua obra” e a sua repercussão na contemporaneidade e no panorama visual. Até porque o universo Jane Austen é mais do que o romantismo ou as conspirações matrimoniais da sociedade fortemente hierarquizada da sua época. As respostas foram tão entusiásticas que o congresso prolongou a sua duração de dois para três dias.
“Jane Austen é uma autora cujo impacto global se manifesta de muitíssimas formas e que está muito viva junto das gerações mais recentes de leitores. Há modalidades novas de adesão a Jane Austen. O fenómeno da fan fiction, de reescrita da sua produção literária em fóruns próprios, por exemplo, tem ganhado vulto”, sublinha Jorge Bastos da Silva, docente do Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O também coordenador do congresso More Pride, Less Prejudice: Jane Austen at 250 sublinha: “Mas nunca houve, de fato, um declínio da atenção dos leitores. Jane Austen tem conseguido manter sempre um público muito fiel e, ao mesmo tempo, uma posição muito consolidada no cânone. A uma primeira leitura, nem sempre os leitores se apercebem da grande arte desta escritora. E posteriormente, após uma terceira ou quarta leitura, é que apreendem a complexidade e subtileza dos seus efeitos literários. Jane Austen é uma autora de grande maturidade criativa.”
Austen tem sido igualmente objeto de intenso estudo académico e especializado, aprofundando áreas que extravasam largamente a mera análise literária da produção da autora inglesa, contabilizada em quase oito livros: sete romances e um livro inacabado. Por ordem de edição: Sensibilidade e Bom Senso (1811), Orgulho e Preconceito (1813), Mansfield Park (1814), Emma (1816), e os póstumos A Abadia de Northanger e Persuasão (ambos editados em 1817), a que se juntam ainda o volume epistolar Lady Susan (1871) e Sanditon (1925), livro interrompido devido à circunstância da morte precoce de Austen, aos 41 anos. Todos os livros têm conhecido várias edições por várias editoras em Portugal, estando atualmente a Editorial Presença a reeditar a sua obra completa.
Temas fortes
Serão 13 os painéis temáticos de More Pride, Less Prejudice: Jane Austen at 250, com a participação de entusiastas e especialistas na obra de Jane Austen, oriundos de países e realidades históricas e sociológicas tão diversas como Grã-Bretanha, África do Sul, Alemanha, Espanha, EUA, Índia, Itália, Polónia ou a Roménia, além de Portugal, assim demonstrando o alcance e o fascínio de uma autora que extravasou os salões elegantes do período da Regência, criando uma audiência alargada e mantendo-se como autora bestseller há duzentos anos. No Palacete Burmester, o congresso inicia-se já esta quinta-feira, 2 de outubro, às 10h, com uma comunicação inaugural de John Mullan, especialista de Literatura Inglesa Moderna na University College London, responsável por várias reedições dedicadas a Austen, e editor do The Oxford Handbook of Jane Austen (a publicar brevemente). À VISÃO, Mullan refere que, nos últimos 50 anos, “a sofisticação formal e a complexidade psicológica da sua escrita proporcionaram-lhe uma ampla aceitação como, talvez, a maior romancista inglesa”. No Porto, este académico de Oxford vai debruçar-se sobre o tema do tempo nos romances de Jane Austen.

Nesse mesmo primeiro dia de congresso, haverá lugar a temas tão diversificados como as adaptações cinematográficas e televisivas dos livros de Austen; a liberdade de discurso e os desafios das traduções dos romances; o universo da escritora inglesa entendido na perspetiva de leitores jovens; o desejo e o ódio; ou a emergência da fan fiction. A que se seguirão, no segundo dia de More Pride, Less Prejudice: Jane Austen at 250, comunicações que abordarão a obra A Abadia de Northanger, mas também a presença de Jane Austen na era digital; os diálogos com outras produções literárias (por exemplo, a do português Júlio Dinis); as influências na literatura de tradição femininista. Haverá lugar igualmente para a análise das anti-heroínas rebeldes apresentadas nos romances ‘austenianos’; a riqueza, a ansiedade, o empoderamento e o envelhecimento femininos; a presença da guerra; a importância da esfera doméstica; a sombra do império no mundo de Austen. Prolongando os fios da contemporaneidade seguidos em várias conferências, o último dia do congresso internacional dedicado à autora inglesa, a 4 de outubro, explora o legado colonial, ecológico e de género da obra de Jane Austen.
A finalizar o congresso, que remata em Portugal as vastas comemorações em torno dos 250 anos de nascimento de Jane Austen que têm decorrido em vários países ao longo do ano, a conferência final será proferida por Fiona Stafford, autora da biografia Jane Austen:A Brief Life. À VISÃO, a académica radicada em Oxford defende Austen como uma “consumada estilista da prosa”, classificando-a até como “uma versão em prosa de Shakespeare”. Diz Stafford, ecoando as palavras de Jorge Bastos da Silva: “Jane Austen foi uma escritora extraordinária, de enorme importância na história da literatura, mas é também uma figura que ainda tem muito para dizer ao público contemporâneo. Ela foi uma romancista pioneira que desenvolveu formalmente o romance, transformando-o num género cuja importância fundamental se têm mantido até hoje. A sua influência em escritores posteriores é imensa, e não dá sinais de abrandamento. Observamos a relevância das suas personagens e histórias em heroínas modernas como, por exemplo, Bridget Jones. Ou nas muitas novas adaptações dos seus romances no cinema, televisão e teatro. Jane Austen é uma escritora cujo trabalho pode ser lido, relido e lido novamente sem nunca se transformar numa narrativa estagnada ou entediante.”