Visão
O alerta veio do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla inglesa): a propagação de surtos de doenças transmitidas por mosquitos está a aumentar significativamente na Europa. Estes insetos são os únicos vetores do vírus de dengue (a mais importante infeção viral da atualidade) e do chikungunya, ou seja, funcionam como veículos de transmissão do agente causador da doença – já o zika também se dissemina por via sexual e vertical, isto é, entre uma mãe infetada e o feto.
Em 2023, foram registados 130 casos de dengue adquiridos localmente, em território europeu, enquanto que em 2022 foram 71 – como base de comparação, o ECDC refere que, entre 2010 e 2021, assinalaram apenas 73. Os casos importados também aumentaram, de 1 572 em 2022 para 4 900 em 2023. As perspetivas para 2024 não são mais favoráveis, já que nos primeiros meses “vários países comunicaram aumentos substanciais no número de casos importados de dengue”.

Em Portugal, esta tendência ascendente também se verifica. Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), em 2024 foram confirmados 61 casos de dengue (até ao passado dia 9), sem óbitos associados. “Todos os casos confirmados são importados de zonas endémicas para a dengue, sendo a maioria (50) com origem provável de infeção no Brasil”, acrescenta a entidade. Em 2022, tinha havido apenas 14 casos confirmados e, no ano passado, aumentaram para 40.
Em 2023, registaram-se surtos de dengue na França (8 focos), Itália (4) e em Espanha (2), provocados por um mosquito invasor, o Aedes Albopictus, com populações autossustentáveis em 13 países europeus, inclusive o nosso. “Se olharmos para o que aconteceu no resto da Europa, é inevitável que venhamos a ter em Portugal casos locais de contágio de dengue”, aponta Maria João Alves, investigadora no Departamento de Doenças Infeciosas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e coordenadora da Rede Nacional de Vigilância de Vetores (REVIVE). “Para já, temos de ficar muito atentos: tem de haver uma resposta na vigilância dos mosquitos para sabermos os que temos, onde e com que abundância; e a autoridade de saúde tem de detetar atempadamente os casos de importação de doenças, para saber onde há possibilidade de transmissão”, sublinha.
O problema das alterações climáticas
As razões para este agravamento estão identificadas. “A Europa já está a constatar como as alterações climáticas estão a criar condições mais favoráveis para que mosquitos invasores se espalhem em áreas anteriormente não afetadas e infetem mais pessoas com doenças como a dengue”, afirmou a diretora do ECDC, Andrea Ammon, num comunicado. “O crescimento das viagens internacionais a partir de países endémicos da dengue também aumentará o risco de casos importados e, inevitavelmente, também o risco de surtos locais”, acrescentou.
O facto de se aproximar o verão, mais propício à proliferação destes insetos, e a realização dos Jogos Olímpicos de Paris, com uma grande concentração de pessoas vindas de todo o mundo, levanta preocupações dos especialistas sobre um risco significativo de transmissão no nosso continente.
Se olharmos para o que aconteceu no resto da Europa, é inevitável que venhamos a ter em Portugal casos locais de contágio de dengue
Maria João Alves, investigadora
“A avaliação de risco neste tipo de doença é complexa, há um acumular de circunstâncias e um elevado grau de dados imprevisíveis, como a meteorologia, que tem influência no aumento do número de vetores”, explica Carla Sousa, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT). Sabe-se que os mosquitos exóticos que se introduziram em solo europeu têm uma elevada capacidade de colonizar novos territórios e representam um perigo para a saúde pública, dada a sua competência vetorial para transmitir os vírus de chikungunya, dengue e zika.
A nível mundial, as perspetivas não são animadoras. Se, em 2023, houve 6,5 milhões casos de dengue em 80 países, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), só nos primeiros quatros meses de 2024 foram reportados 7,6 milhões, sobretudo na América do Sul. Só o Brasil está a aproximar-se, este mês, dos seis milhões de casos de dengue confirmados e das quatro mil mortes (em 2023, tinham sido mais de 1,6 milhões casos e 1 179 mortes), naquela que é a pior pandemia da sua história.
Vigilância apertada
Já em abril, a REVIVE tinha apresentado o relatório anual referente a 2023, onde descrevia a monitorização dos mosquitos feitas ao longo do ano pela sua equipa, caraterizava as suas espécies e dava a conhecer a sua distribuição e abundância. É a partir destes dados que, depois, a DGS implementa medidas de controlo, em colaboração com o poder local.
Só no ano passado, a REVIVE identificou 40 565 mosquitos (5 102 adultos e 35 463 imaturos), em colheitas feitas em 231 concelhos de Portugal, assim como em aeroportos, portos e aeródromos – pontos de entrada de vigilância obrigatória. Confirmada ficou a presença das duas espécies invasoras: o Aedes aegypti na Madeira, com um clima temperado que favorece a dispersão deste inseto exótico, considerado o vetor mais eficiente na transmissão do vírus, pelas suas caraterísticas biológicas e comportamento; e o Aedes albopictus no Norte, no Algarve, no Alentejo e na região de Lisboa.
A presença em diferentes regiões da segunda espécie aponta “para uma situação de estabelecimento e dispersão geográfica, representando uma situação de risco acrescido para a Saúde Pública que vai exigir um esforço de monitorização constante, bem como medidas de controlo eficazes com vista à erradicação das populações detetadas e que impeçam a dispersão deste mosquito”, refere o relatório. Ressalve-se, contudo, que nenhum dos mosquitos estava infetado com o vírus.
No nosso país, não se culpem as alterações climáticas – embora, claro, levem ao aumento da população –, porque “sempre houve adequabilidade climática”, diz Carla Sousa, para a propagação destas espécies invasoras. Mesmo o Aedes aegypti, menos resistente ao frio, apesar de não ter sido identificado em Portugal Continental nos últimos anos, esteve presente no Sul até à década de 50 do século XX, onde foi erradicado, presume-se, na campanha de luta contra a malária.
Aquilo que nos deixa mais vulneráveis é que a percentagem de assintomáticos pode ser muito elevada, tanto no dengue como noutros vírus
Carla Sousa, entomologista
Na Madeira, o Aedes aegypti foi identificado pela primeira vez em 2005. Apesar das medidas de combate, conseguiu instalar-se na ilha. “O mosquito adulto é resistente a quase todos os inseticidas que existem, e podemos aplicar no espaço europeu, onde podemos atuar é nas larvas, para as quais temos biocidas com pouco impacto ambiental, e fazer aquilo que a OMS identifica como principal medida de controlo: a eliminação dos criadouros”, indica Carla Sousa.
Em 2012, houve o primeiro surto de dengue no arquipélago, o primeiro na Europa desde 1927, quando a densidade populacional do inseto era maior, graças à combinação de calor e humidade. “Conseguimos explicar quase 70% dos casos importados, olhando só para as viagens aéreas e, nessa altura, havia voos diretos do Brasil e a da Venezuela para a Madeira – agora já não, o que faz com que o risco diminua, só pelo facto de as pessoas infetadas demorarem mais tempo a chegar [o período de transmissibilidade é relativamente pequeno]”, acrescenta a entomologista.
Em três meses, registaram-se 2 164 casos de dengue, todos benignos. “Essas pessoas têm agora anticorpos para esse serótipo (existem quatro), mas deverá haver muitas mais, porque mais de 60% das pessoas infetadas são assintomáticas”, indica Maria João Alves. Mas, “se forem infetadas com outro tipo de dengue, podem ter sintomatologia mais grave, daí a necessidade de vigilância”, contrapõe.
A monitorização entomológica na ilha é apertada e há registos semanais dos vetores, a partir de armadilhas montadas no terreno, para controlar os aumentos da densidade populacional. Além disso, qualquer caso de dengue assinalado (a doença é de notificação obrigatória) leva a uma atuação mais musculada e imediata das autoridades de saúde – além do isolamento das pessoas infetadas, pode destacar-se uma equipa para desinfestar um perímetro à volta das suas casas, salvaguardando a existência de mosquitos igualmente infetados.
“Aquilo que nos deixa mais vulneráveis é que a percentagem de assintomáticos pode ser muito elevada, tanto no dengue como noutros vírus, e mesmo os sintomáticos apresentam frequentemente sintomas suaves, que muitas vezes passam por uma gripe, principalmente quando é uma primeira infeção. Isso faz com que muitos casos passem despercebidos”, alerta Carla Sousa.
Comunidade colaborante
No Continente, o primeiro registo do Aedes albopictus foi em 2017, numa empresa de recauchutagem de pneus (objetos em que é habitual estes insetos fazerem a postura dos seus ovos) do concelho de Penafiel, com comércio internacional. Conhecido vulgarmente como mosquito-tigre-asiático, não é tão eficaz na transmissão de vírus como o seu “irmão”, mas deve ser atentamente controlado, até pela sua atual dispersão geográfica no País.
Quando em setembro de 2023 foi detetado em Lisboa, a preocupação aumentou. “As áreas de grande densidade populacional estão muito mais propensas a surtos”, afirma Carla Sousa, igualmente responsável pelo Mosquito Web, projeto de ciência cidadã do IHMT que convida ao envolvimento da população em ações de vigilância de mosquitos invasores.

Aquela deteção na capital foi feita, precisamente, através do Mosquito Web, que entre 2023 e 2024 recebeu 234 submissões – 39 eram de exemplares de Aedes albopictus encontrados nos distritos de Lisboa, Faro e Beja. Qualquer pessoa pode tirar uma fotografia destas espécies, morfologicamente muito caraterísticas, e enviá-las para os especialistas para identificação.
Carla Sousa insiste na importância da monitorização do vetor, e também da população humana, para reduzir o risco de surtos. “Quanto mais finos forem os nossos dados, mais incisivas podem ser as nossas medidas de prevenção. É como se estivéssemos a olhar para uma paisagem através de uma câmara desfocada: quanto mais ajustarmos a definição e a nossa capacidade de observarmos cada detalhe, melhor é a imagem, ou seja, mais eficientes serão as nossas medidas.”
Ao mesmo tempo, podem avançar medidas de controlo vetorial. Algumas, já estão em curso. No Algarve, por exemplo, o INSA realizou um projeto para controlar o mosquito-tigre-asiático, recorrendo a machos estéreis por irradiação. Posteriormente libertados em zonas-piloto, ao acasalarem com fêmeas selvagens não geraram descendência, levando progressivamente à supressão da população de insetos. “Só é eficaz em zonas muito pequenas”, indica Maria João Alves.
“Há outras técnicas, como a impermeabilização de criadouros, para impedir a propagação deste mosquito… mas ele tem ganho sempre. É por isso que está em todo o mundo”, lamenta. “Nunca vamos conseguir eliminá-lo. Temos é de tê-lo debaixo do olho.” Por isso, antes de esmagar o irritante mosquito que ronda à sua volta, tire-lhe uma fotografia. A Ciência agradece.
Como os podemos controlar
Toda a comunidade pode adotar medidas para eliminar os criadouros, zonas de águas paradas onde os ovos e as larvas de mosquitos crescem
• Colocar no lixo os objetos que sejam para descartar e assegurar que o contentor de lixo fica tapado
• Pneus fora de uso devem ser entregues numa estação de reciclagem ou de resíduos sólidos ou mantidos secos em lugar coberto
• Pratos com vasos de plantas podem ser retirados ou virados ao contrário
• Poços, tanques e outros depósitos de água doméstica recomenda-se que sejam tapados, para impedir a entrada de mosquitos
• Piscinas devem ser tratadas e limpas, ou tapadas/esvaziadas se não estiverem a ser usadas
• Caleiras e calhas é aconselhável que sejam mantidas limpas
• Em tanques ou lagos decorativos, a criação de peixes deve ser considerada, pois estes alimentam-se das larvas de mosquito
• Bebedouros de animais e taças de alimentação podem ser lavadas uma vez por semana
Fonte: REVIVE

A Turquia pagou cara a ousadia de querer jogar olhos nos olhos com esta Seleção portuguesa. É verdade que dispôs da primeira grande oportunidade do jogo, quando, decorridos apenas seis minutos, Kerem Aktürkoğlu falhou o desvio só com Diogo Costa pela frente. Mas, daí em diante, a equipa das quinas controlou quase sempre na perfeição o ímpeto adversário, sem nunca esconder as suas ambições de vencer e fechar já as contas do Grupo F, garantindo não só a qualificação para os oitavos-de-final como a passagem no primeiro lugar. O 3-0 final no Estádio Signal Iduna Park, em Dortmund, coloca Portugal a par da anfitriã Alemanha e da Espanha como as seleções que somaram vitórias nas duas primeiras jornadas do Euro2024.
Como se esperava, Roberto Martínez alterou o figurino tático da equipa em relação ao jogo de estreia, frente à Chéquia. A linha defensiva passou de cinco para quatro jogadores, com a saída de Diogo Dalot a abrir um lugar para João Palhinha reforçar o meio-campo, o que levou à deslocação de João Cancelo para lateral direito.
Do lado da Turquia, o selecionador Vincenzo Montella preferiu abdicar dos criativos Kenan Yildiz e Arda Güler, este com problemas físicos, mantendo a aposta do médio do Benfica Orkun Kökçü no apoio mais direto ao ponta-de-lança Baris Yilmaz.
Portugal revelou as suas intenções logo aos 68 segundos, num contra-ataque pela esquerda que terminou com remate de Cristiano Ronaldo, de primeira, mas na direção do guarda-redes turco. O jogo arrancou em ritmo acelerado. Não demorou até surgir a resposta na outra grande área, na tal grande ocasião desperdiçada por Aktürkoğlu, passavam seis minutos.
Com Pepe imperial a comandar o quarteto defensivo lá atrás, as duplas Nuno Mendes/Rafael Leão, à esquerda, e João Cancelo/Bernardo Silva, à direita, foram encontrando espaços nos flancos para aproximar Portugal da baliza contrária, enquanto o trio de meio-campo assegurava uma ascendência lusa, também, na zona central do relvado.
Na primeira boa incursão de Nuno ao ataque, excelente combinação com Leão, e Bernardo, solto na área, a responder ao cruzamento rasteiro com remate fulminante, sem hipótese de defesa. O cronómetro indicava 21 minutos, e Portugal acreditou ainda mais, insistindo na pressão. Aos 28, um pau passe de Cancelo para Ronaldo foi parar ao defesa central Samet Akaydin, que atrasou mal a bola e traiu o seu guarda-redes, oferecendo o segundo golo à Seleção Nacional.
Pouco depois, Diogo Costa mostrou que também podiam contar com ele, ao defender com o pé um remate de Aktürkoğlu, que se isolou após ultrapassar Cancelo e ficar em excelente posição para marcar. Estava tudo a correr de feição a Portugal, mesmo quando a Turquia ameaçava. Não voltaria a acontecer.
No regresso do intervalo, já com Rúben Neves e Pedro Neto nos lugares de Palhinha e Leão, dois jogadores que tinham visto cartão amarelo na primeira parte, a Seleção portuguesa quis pausar o jogo, ter mais a bola e deixar o tempo correr. Até que Ronaldo apareceu isolado e, com Bruno Fernandes ao lado, assistiu o ex-companheiro de equipa no Manchester United para este sentenciar o resultado.
Faltava ainda mais de meia hora para o apito final, mas a história do jogo estava escrita, com uma exibição mais vistosa do que na primeira jornada que muito beneficiou da atitude destemida da Turquia.
Aos 63 anos, Pedro Abrunhosa está inscrito num curso de Filosofia na Universidade Católica, “à procura de mais perguntas” e não tanto de respostas. Há três décadas, com o disco Viagens a sua vida mudou e o País inteiro ficou com várias canções no ouvido, para sempre. Muito se alterou desde esse verão quente de 1994, em que o cavaquismo vivia o seu estertor. Viagem ao passado, presente e futuro, numa conversa descontraída nos estúdios do músico, em Vila Nova de Gaia. Pedro Abrunhosa pode ter uma “obsessão” com o silêncio, mas pertence a uma geração que tinha discussões infindáveis nos cafés e continua, claramente, a ter prazer em falar e debater ideias.

A sua vida divide-se em a.V., antes de Viagens, e d.V., depois de Viagens, o disco que, em 1994, o tornou uma celebridade de um dia para o outro. Aconteceu-lhe muitas vezes, no período d.V, ter vontade de voltar ao anonimato da fase a.V, quando era um músico e professor de jazz reconhecido num círculo muito pequeno?
Nem imaginas quantas vezes… Há ali um momento, uma coisa quase iniciática, ao qual se acha piada. A primeira vez que fui reconhecido na rua, pós-Viagens, foi numa pizzaria na Foz, no Porto, onde ia regularmente. Mandaram-me um bilhetinho à mesa a dar os parabéns pelo disco. Nessa altura, pensamos: “Ah, que importante que eu sou!”, acho que todos os que passaram por isso o sentiram. Há uma certa vaidade, é inevitável… À medida que o tempo passa e vais vivendo – e não o digo de uma forma modesta, é mesmo factual –, desejas cada vez mais um sítio teu, de recolhimento. Que nem é um lugar físico, é interior, silencioso. Sobretudo quando passaram 30 anos… Esse sítio é-nos dado, também, por um afastamento social, deixas de sair, de ir a eventos públicos, porque não usufruis tanto disso. Um dia, perguntei ao Tolentino [de Mendonça, cardeal e poeta] o que é o silêncio, uma obsessão minha, e ele respondeu-me: “O silêncio é um lugar.” Acho isso lindíssimo. Para mim, esse é, também, um lugar da leitura, do estudo, e este lugar aqui [aponta para o piano de cauda ao seu lado].
Passou de desconhecido a estrela pop em muito pouco tempo, uma coisa bastante rara em Portugal, ainda por cima numa era pré-internet. Talvez só tenha havido um fenómeno parecido com o Salvador Sobral…
Mas é diferente, porque aí foi a partir de um festival…
Essa rapidez teve custos, ou, na altura, foi só percecionada como uma coisa positiva?
É impossível passarmos incólumes pelo sucesso e pela morte. São dois extremos, sim, mas às vezes até parecidos… No sucesso, morre alguém em nós, e nessa perda há sempre, também, um renascer. Eu era introvertido, reflexivo, dado à investigação e ao conhecimento, era impossível que esse sucesso não me afetasse. Confrontei-me com isso logo quando escrevi para o segundo disco. Era fundamental para mim que esse sucesso não interferisse com a qualidade do meu trabalho, essa era a minha grande preocupação. No Tempo [álbum lançado em 1996] vejo esse confronto. Tem o Não Dá, que acho que é a minha pior letra, nunca escrevi nada tão mau, e também, no polo oposto, a minha melhor escrita, no Será.
Em 1994, ninguém o via muito como introvertido, tímido…
Fora do País já falei com muitos colegas meus que, curiosamente, também dizem que são tímidos… Nessa situação, de ter de lidar com o sucesso e o reconhecimento, há uma fuga para a frente. A questão dos óculos tem que ver com isso. São uma maneira de me manter um bocadinho… sozinho. É uma certa ontologia só tua. Estou aqui neste aeroporto, nesta conferência de imprensa, no meio deste festival…, mas ainda há um bocadinho de mim que não é ator, é outra coisa.
Esse ano de 1994 teve muitas tensões em Portugal, com Cavaco Silva como primeiro-ministro e Mário Soares na presidência, protestos na rua, o buzinão na ponte… Olhando à distância, sente que foi apanhado por tudo isso, ou também se vê, de certa forma, como ator desse movimento?
É uma excelente questão. Nós somos testemunhas de um tempo. Estamos lá. E o artista, e entertainer, por maioria de razão, ainda mais. Eu já trazia uma consciência política… E nessa altura havia uma certa violência instituída que vinha de trás, Cavaco já estava no poder há bastante tempo. Mais do que a situação na Ponte 25 de Abril, recordo o que aconteceu na [empresa vidreira] Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande, com uma grande carga policial. Isso chocou-me. Uma carga violentíssima sobre trabalhadores, algo que nunca mais aconteceu. Por acaso, fui tocar à Ericeira por essa altura, e falei disso em palco… Para um músico que lançou uma canção chamada Talvez Foder, em que cantava “há bombas em Belfast e em Beirute/ é preciso afinar o azimute” e “há fascistas em Berlim e em Moscovo/ é o discurso que de velho se faz novo”… aquela situação na Marinha Grande estava à minha frente, muito mais perto do que Moscovo, tinha de falar nisso, era óbvio. Atirei-me para o olho do furacão porque achei que era necessário denunciar aquilo. O Marcelo [Rebelo de Sousa], na altura era comentador na TSF e no Diário de Notícias, e comentava os meus espetáculos, o que eu dizia em palco… Quando o PSD, finalmente, perdeu as eleições, o Marcelo-cronista invocou o “fator Abrunhosa.” Portanto, eu fui puxado pelos acontecimentos mas atirei-me, também, por uma questão de consciência política.
Não fazendo parte do Viagens, a canção Talvez Foder tornou-se banda sonora desse tempo. Acha que uma canção com esse título, e esse refrão repetido como um mantra, seria mais polémica hoje do que foi em 1994?
Claro.
Não deixa de ser irónico…
Penso muitas vezes nisso, no que se está a passar, nesta censura da linguagem… A linguagem é, e tem de ser, uma coisa polissémica, com vários sentidos. Não quis que essa canção entrasse no disco porque percebi que se o fizesse ela ia funcionar como um buraco negro e não se falava em mais nada. Na altura, existia uma coisa chamada rock, não sei se te lembras [risos]… O rock era assim mesmo, muito duro, e Talvez Foder é uma canção rock. A letra era muito dura, mas se calhar a obscenidade menor até era a palavra “foder”… E o rock, hoje, desapareceu das ondas hertzianas, da rádio, não só essa força das palavras mas até as guitarras em distorção, as baterias; há uma liofilização da linguagem estético-musical para ser mais açucarada, mais facilmente assimilável. O digital embirra com a imperfeição. E a imperfeição faz parte da arte, da vida.
A grande viagem

Pedro Abrunhosa sabia que estava a preparar um disco bem diferente de tudo o que era produzido em Portugal na altura, mas, quando começou o processo de gravação de Viagens, o seu sucesso não era um dado adquirido. O groove, muito jazzy, funk e soul, e a força da secção de metais dos Bandemónio estavam longe de ser uma sonoridade comum por cá, nesse ano em que a coletânea Rapública funcionou como uma espécie de certidão de nascimento do hip-hop feito em Portugal. Talvez por isso, este que seria um dos álbuns de maior sucesso da história da música popular portuguesa foi recusado ou ignorado por várias editoras, até a Polygram (antepassada da atual Universal) decidir apostar nele devido, sobretudo, ao entusiasmo de Carlos Maria Trindade, que viu ali “um trabalho feito com grandes músicos”, com uma “linguagem estético-musical diferente da habitual” (declarações à VISÃO, em novembro de 1994).
Para a sonoridade final desse disco – recordado por temas que hoje são clássicos, como Não Posso Mais, É Preciso Ter Calma ou Socorro – contribuiu muito a banda que Abrunhosa reuniu com alunos seus, a experiência do baterista e guitarrista Mário Barreiros e o talento de Quico Serrano nos sintetizadores e programações. Mostrando que o desconhecido músico do Porto estava mesmo a apostar alto, nem faltou, em Viagens, uma estrela convidada: o saxofonista Maceo Parker, que durante anos acompanhou um dos heróis de Abrunhosa, James Brown.
Hoje poderia ser cancelado… Como olha para o extremar de posições do nosso tempo? Por um lado, parece que tudo é possível, liberdade máxima, mas, por outro, há essa tendência dos “cancelamentos” e a chamada cultura woke que tenta evitar supostos abusos e ofensas.
Convivo muito mal com isso. Sobre esse assunto, acho fundamental ler o livro da professora norte-americana de Filosofia Susan Neiman, A Esquerda Não É Woke. Ela é assumidamente de esquerda e neste livro explica porque a esquerda não é woke, lembrando vários excessos. Eu cresci a ler o Huckleberry Finn, do Mark Twain, e o Charles Dickens, que estão impregnados da cultura do final do século XIX, ainda esclavagista, racista, colonialista e patriarcal, e não fiquei propriamente a defender esses valores. Não podemos permanentemente castigar o passado e ajustar contas, até porque isso desperta o outro lado: faz reviver o passado, acordar esses fantasmas, o que é muito perigoso. Um extremo instiga o outro. Há um livro do Fukuyama, Identidades, que é lapidar quanto a isso.
No episódio recente que, no Parlamento, envolveu André Ventura, a deputada socialista Alexandra Leitão e o presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, como se posicionou? Os deputados podem ou não podem fazer generalizações como aquela do deputado do Chega sobre os turcos?
Não podem. Acho que José Pedro Aguiar-Branco esteve mal. Não foi a primeira vez que esteve mal, mas nesta qualidade, de presidente da Assembleia, foi. Já teve outros cargos, aqui no Porto, já foi ministro… Este cargo que ocupa agora exige uma persona tutelar, que eu creio que ele ainda não atingiu. É, ainda, uma questão de gravitas ‒ e aí, não sei se ainda lhe falta ou se, simplesmente, lhe falta… Julgo que tem, sobretudo, que ver com uma visão cultural do mundo, com tolerância. Mas não se deve confundir tolerância com permissividade. Há claramente limites para a liberdade de expressão, claro que há. Se não houver esses limites, há a possibilidade, e estamos a viver isso, de a democracia morrer pelas suas próprias palavras e pela sua própria tolerância. Neste caso concreto, o que foi dito foi um enorme desrespeito por um povo. A frase revelava uma grande sobranceria, que não é política, é humana. E isso não pode ser tolerado na Assembleia da República. É uma frase que pode ser dita no café, porque há liberdade de expressão, não há PIDE, não há censura… Já o Parlamento é uma instituição que se rege por um regime com regras muito claras, e ainda bem, porque é um exemplo para o País, uma montra.
Surpreendeu-o a chegada ao Parlamento, nos 50 anos do 25 de Abril, de 50 deputados eleitos por um partido como o Chega?
Surpreendeu, claro. Mas todos vimos a onda chegar. É um bocado como estar muito tempo ao sol, chegar ao fim do dia e descobrirmos que temos um grande escaldão nas costas. Surpreendeu-nos? Surpreendeu, mas… Lemos tanto sobre isso, tanto se falou do eterno regresso do fascismo, tantos avisos, tanta literatura. Não só vimos a onda, como lemos sobre a onda. Mas acho que apesar da legitimidade democrática que têm, porque há claramente uma parte da população que se revê naquilo, nos insultos, naquele “engraçadismo”, nos mugidos, nessas tiradas contra os turcos…, é preciso dizer que, com tudo isso, esse partido tenta colocar a Assembleia da República ao nível de uma taberna. E é mesmo isso que eles desejam fazer: degradar as instituições, para que nós próprios aceitemos que estão muito degradadas, que baixou a fasquia. Menos ethos, mais pathos. Menos racional, mais… mugido. E a Assembleia tem de ser o local supremo da racionalidade. Essa ordem racional tem uma certa burocracia, um certo protocolo, não tem “engraçadismos”. E para muita gente o protocolo fica sempre a perder perante as piadinhas, os apartes… A verdade é que, tanto no caso do wokismo como neste caso, não estamos a discutir o essencial, as causas sociais fundamentais nos nossos dias: laborais, da saúde, do ensino… Continuam a ser os partidos tradicionais, com diferenças ideológicas, e ainda bem, a resolver os problemas do dia a dia na pólis. Insultar nunca é um bom ponto de partida para nada.
Nestes 50 anos do 25 de Abril…
Acho que as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril estão a ser excelentes. Vi ótimos documentários, muita matéria produzida por artistas, as televisões fizeram grandes trabalhos… E mostrou-se muito bem o que era o País antes do 25 de Abril.
Tinha 13 anos. O que recorda desse dia? Sentiu a vertigem da liberdade?
Dormia com um rádio debaixo da almofada, um transístor. Adormecia a ouvir rádio. E nesse dia acordei com música clássica… Dormíamos os três irmãos no mesmo quarto e acordávamos às 7h30 para irmos para o Liceu António Nobre. Às oito da manhã desse dia já tínhamos percebido que tinha acontecido alguma coisa. Via o meu pai ao telefone… Os meus pais eram muito ligados ao MUD Juvenil, havia conversas políticas lá em casa, em que eu pressentia, com 11 ou 12 anos, qualquer coisa de clandestino. No 25 de Abril, já conseguia perceber quase tudo. Mas a primeira coisa que percebi é que não fui ao dentista nesse dia.
Nem à escola…
Claro. Mas melhor foi não ir ao dentista, que estava marcado. A medo, ainda saímos de casa e vimos passar uns chaimites. A PIDE ficava ali ao fundo da nossa rua… Os meus avós é que viviam mesmo paredes-meias com a PIDE. Durante o cerco da PIDE, o meu pai, que além de advogado era fotógrafo amador, foi para o prédio em frente. Tenho em minha casa essas fotografias, em plano picado, com os PIDES a saírem.

1 -Com os Bandemónio, banda que Pedro Abrunhosa construiu com alunos seus na Escola de Música Caiús
2 – O sucesso de Pedro Abrunhosa chegou, em 1994, no momento em que as televisões privadas davam os primeiros passos. Aqui, numa entrevista para o programa Portugal Radical, que foi um enorme êxito nos anos iniciais da SIC
3 – Fotografado, por Gonçalo Rosa da Silva, para o artigo que faria capa da VISÃO no final de novembro de 1994
Sentiu, aos 13 anos, uma maior liberdade na sua vida?
Os meus pais viajavam muito e eu já sentia esse mundo de liberdade a entrar-me em casa. Vi slides dos hippies na Oxford Street, em Londres, vi Paris, Amesterdão… Curiosamente, nesse ano, eu ia fazer a minha primeira viagem sozinho, em junho de 1974. E fui mesmo. Éramos uma família privilegiada, burguesa, se quiseres… Tinha um tio que era engenheiro químico na Suíça, apanhei o Sud-Express para Paris e fui ter com ele. Acho que ainda tenho o dossier com as marcações nos albergues de juventude.
Há pontes entre o tempo do Viagens, em 1994, e os dias de hoje. Uma delas é a guerra em território europeu. No disco ouve-se o Mais Perto do Céu, sobre a guerra na Bósnia e o cerco de Sarajevo, e hoje temos a invasão da Ucrânia… Até foi avisado pela embaixada russa para ter cuidado com o que dizia nos concertos, não foi?
Sim, hoje não é Sarajevo que “morre lenta, uma morte amordaçada”, como cantava em 1994, mas é a Ucrânia e o Médio Oriente… Apesar dos sinais todos que nos foram dados, a invasão russa foi uma surpresa. Não sou especialista em geopolítica, não sou o Nuno Rogeiro, mas, depois do que aconteceu na Crimeia, a Europa não conseguiu ter uma estratégia, criar uma certa zona de segurança, depois de haver acordos que não foram cumpridos? Falta hoje na Europa uma gravitas dos seus políticos, diria que desde Helmut Kohl, Chirac, em Inglaterra, então, isso acabou completamente… Esse peso político, de autoridade, por exemplo no diálogo com a Rússia, desapareceu. A Europa tornou-se um local muito mais burocrático do que político, e foi apanhada de calças na mão. Em tantas cimeiras e encontros, como é que os políticos não perceberam o que estava iminente?

Como lidou com essa advertência da embaixada russa?
É um bocado sinistro, não é? Estava em Évora, a comer a minha tradicional massa antes de ir para o palco, e de repente ouço o Milhazes na televisão, com a sua voz inimitável, a falar desse documento da embaixada! Fiquei perplexo. É um comunicado profundamente ameaçador. Do género: “Ouvimo-lo muito bem, vamos estar atentos ao que disser mais…” E até apelavam ao governo português para intervir. Aí, o governo esteve muito bem, o António Costa reagiu imediatamente e mostrou solidariedade institucional ao mais alto nível, o que foi fundamental para abrandar o urso. Passados uns meses, fomos tocar a Maputo. Quando cheguei ao [hotel] Polana, quem é que estava na receção? O Sergey Lavrov! Com toda a comitiva… O mundo é pequeno. Cheguei ao quarto e não bebi nada, nem água, pedi para irem buscar água fora do hotel! [Risos.]
O que mudou tudo nestes 30 anos foi a chegada das redes sociais. Olha para elas mais como uma oportunidade ou uma ameaça?
Uma ameaça não. É uma questão filosófica. Sempre que existe uma mudança global de paradigma tecnológico, e toda a Humanidade se adapta a essa nova tecnologia, existe uma transformação da perceção metafísica do mundo. Há medo, há reações… O que terá sido quando o Homem aprendeu a dominar o fogo? A introdução da imprensa na Europa, com Gutenberg, trouxe uma mudança de paradigma, com a democratização da palavra. Neste momento, há uma democratização, e banalização, da opinião. Se todos temos opinião sobre tudo, é como se ninguém tivesse opinião sobre nada… O que me interessa a mim saber a opinião do senhor da confeitaria sobre a Covid? Nada. O problema é quando a opinião desses indivíduos, dita no café, começa a fazer escola. Cientistas que passaram anos e anos a estudar o átomo, a célula, as vacinas, parece que deixam de ser relevantes porque vêm umas pessoas dizer que as vacinas têm chips e vêm alterar o nosso ADN. É a força do “eu li na internet que…”. Sinto é que não podemos viver esta mudança paradigmática de uma forma destrutiva.
Não as vê, então, como ameaça.
Não. Mas as redes sociais estão na origem, claramente, da ascensão do Trump… Todo esse fenómeno do populismo emerge nas redes sociais, que é um veículo muito rápido para chegar a toda a gente, em qualquer lugar, na praia, no autocarro, no teu bolso! A extrema-direita tem sempre uma paixão pelo controlo. E, diga-se, a extrema-esquerda também. Lembro-me de entrar em grandes discussões político-ideológicas nos cafés, no Piolho, no Pereira, no Imperial… Discutíamos, quase que andávamos à porrada, mas acabávamos todos a jogar bilhar. Isto era fundamental, e isso também mudou. Essa ligação orgânica instiga a tolerância. Ainda hoje sou muito amigo de pessoas que estavam, completamente, do lado de lá da barricada ideológica. Nas redes não há discussão, contraditório, há simplesmente antinomia.
Usa as suas redes só profissionalmente?
Sim, só profissionalmente.
Mas não é imune a polémicas que vêm de fora. Houve muitas reações à sua acusação de plágio no cartaz do Bloco de Esquerda [que dizia “fazer o que nunca foi feito”]. Arrependeu-se de ter “comprado” essa polémica?
Não me arrependi nada. Vivo muito bem com essa polémica. O facto de as pessoas acharem maioritariamente o contrário, não quer dizer que eu não tenha razão. Para mim, é óbvio que se inspiraram na minha canção, claro que houve uma apropriação, aquela frase está no nosso inconsciente há dez anos. Mas acredito que não foi por mal, que até foi por simpatia.
Outra polémica recente foi quando Ana Rocha de Sousa o desafiou nas redes, na sequência de uma entrevista sua. “Porque não te sentas à minha frente num debate público sobre os direitos das mulheres? Isso é que é uma ideia valente. Anda daí se és capaz. Vamos debater os direitos das meninas, adolescentes e mulheres em frente ao País”, escreveu a realizadora. Quer responder a esse desafio?
Está respondido.
Já respondeu?
Está respondido. Não tenho rigorosamente nada a dizer. Tenho um podcast [É Preciso Ter Calma] em que discuto com pessoas verdadeiramente fascinantes, sobre questões de fundo da contemporaneidade, como os direitos das mulheres, por exemplo. Já falei com a Lídia Jorge, a Hélia Correia, a Catarina Furtado, a Marta Temido, a Mónica Baldaque, a Irene Flunser Pimentel… Tem sido uma experiência notável.
Está inscrito num curso universitário de Filosofia…
Pois é, caí no erro de contar isso… Não devia. Vou fazendo, aos poucos, e assim já não posso parar. Eu adoro pessoas que me ensinam coisas. Sobretudo o difícil, o diferente.
Inscreveu-se porque sente que há perguntas para as quais quer respostas, ou só para fazer mais perguntas?
A Filosofia não dá respostas, por isso é que é fascinante! Vou à procura de mais perguntas, claro. Neste momento, estou a fazer um trabalho sobre filosofia da linguagem, que é das matérias mais fascinantes para mim. Voltando ao início da conversa: esse é o sítio onde gosto de estar. Mergulhar a cabeça em coisas estranhas, lucubrar… E depois morremos.
O verão quente de 1994
A música de Pedro Abrunhosa foi banda sonora de um País envolvido em grandes tensões sociais e políticas. Em 1994, vivia-se, em Portugal, um ambiente de fim do ciclo político do cavaquismo

A última edição da VISÃO em 1994 anunciava, na capa, em letras grandes: “O ano em que Cavaco encolheu.” Aníbal Cavaco Silva era o chefe do governo desde 1985 e, desgastado por quase dez anos no poder, vivia tempos difíceis. A contestação social crescia em vários setores e Mário Soares, a partir do Palácio de Belém e nas suas célebres “presidências abertas” em todo o País, era cada vez mais incómodo para o governo do PSD.
A Ponte 25 de Abril ficará como símbolo desse ano quente: em junho, com um “buzinão” que descambou em confrontos e, em setembro, com mais um bloqueio, ambos em contestação à subida das portagens (de cem para 150 escudos). No dia 24 de junho de 1994, a polícia carregou sobre os manifestantes com uma violência a que os portugueses já não estavam habituados a assistir (um jovem ficou mesmo paraplégico na sequência de ferimentos nessa refrega). As televisões privadas eram, então, uma novidade e ajudaram a amplificar esses acontecimentos, que seriam vistos como o princípio do fim do cavaquismo. No final do ano, novas cargas da polícia (Dias Loureiro era, então, o ministro da Administração Interna que dava a cara por essas decisões de uso da força) abrem os telejornais: desta vez sobre os operários da empresa vidreira Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande, que se manifestavam devido aos salários em atraso e indefinições quanto ao futuro da fábrica.
Esse era o ambiente político vivido no País no ano em que Pedro Abrunhosa se deu a conhecer aos portugueses e percorria o País em concertos lotados em que o músico não poupava nas críticas ao governo. “De repente, nós funcionámos como um escape, foi também isso que o País encontrou na minha música irreverente”, recordava Abrunhosa à VISÃO em 2006.
O ano em que Lisboa foi Capital Europeia da Cultura marcou, afinal, o fim de um ciclo político. Durante meses, Cavaco Silva alimentou o tabu sobre a sua recandidatura nas eleições legislativas de 1995. Em outubro desse ano, foi Fernando Nogueira que se apresentou como líder do PSD, perdendo as eleições para António Guterres (PS).
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Não é bem um Carnaval, mas há adeptos que levam a festa do futebol muito a sério, quando chega o dia de aplaudir a sua seleção. No Euro2024, como é habitual nestas grandes competições, a indumentária extravagante faz parte do ritual de muitos fãs, que escolhem o guarda-roupa a preceito para levar ao estádio, com as cores dos seus países e muitos adereços que são tudo menos discretos.
Ao fim da primeira semana de jogos, selecionámos uma galeria de fotografias dos melhores cromos que têm passado pelos palcos alemães, também eles protagonistas indispensáveis deste desfile do desporto-rei, disfarçado de fase final do Campeonato da Europa.