A vitória de António José Seguro representa mais do que um triunfo eleitoral ou circunstancial: é um gesto coletivo de reafirmação democrática num tempo em que a política europeia se encontra sob tensão permanente. Seguro venceu porque encarnou, aos olhos de uma maioria clara, uma ideia de normalidade democrática que muitos davam por esgotada: moderação sem tibieza, firmeza sem agressividade, compromisso sem oportunismo. Num mundo saturado de ruído, a escolha foi pelo tom que não grita, pela palavra que não divide, pela política que não precisa de inventar inimigos para existir.

Este resultado não deve ser lido como um regresso nostálgico ao passado nem como um automatismo partidário. Pelo contrário, é uma resposta consciente a um contexto de instabilidade internacional, em que a radicalização do discurso tem sido apresentada como solução mágica para problemas complexos. Portugal mostrou que sabe distinguir mudança de ruptura e alternativa de negação. A vitória de Seguro nasce dessa maturidade cívica: da recusa em transformar o acto democrático num referendo permanente à indignação.

Há, neste desfecho, uma mensagem clara sobre o tipo de liderança que os portugueses privilegiam quando são chamados a decidir de forma inequívoca. Não uma liderança messiânica, não um salvador autoproclamado, mas alguém capaz de representar o País inteiro, com as suas diferenças, tensões e pluralidade. A democracia não exige unanimidade; exige regras, convivência e limites. Foi isso que esteve em jogo — e foi isso que saiu vencedor.

Esse mesmo resultado ilumina, por contraste, os limites do populismo enquanto projecto político. Durante anos, André Ventura construiu a sua narrativa em torno da ideia de que seria o verdadeiro intérprete do “povo”, o único com coragem para dizer o que os outros escondiam, o rosto de uma maioria silenciosa alegadamente sufocada pelo sistema. A realidade eleitoral mostrou outra coisa: o povo não cabe num slogan, não se deixa capturar por bravatas, nem se reconhece automaticamente em quem fala mais alto.

A falácia do “candidato do povo” cai quando confrontada com o povo real — diverso, contraditório, crítico, muitas vezes desconfiado, mas ainda profundamente ligado à ideia de liberdade democrática. Ventura prospera no conflito permanente, na dramatização constante, na lógica de campanha contínua. O Chega vive de eleições como quem vive de oxigénio: precisa da tensão, da urgência fabricada, da sensação de colapso iminente. Quando a política passa do palco para a decisão, esse modelo revela-se curto.

O problema não é a crítica ao sistema — essa é legítima e necessária. O problema é a sua redução a um espectáculo de antagonismos simplificados, onde a complexidade é tratada como fraqueza e o compromisso como traição. Ventura não perdeu por denunciar problemas irreais; perdeu por não apresentar soluções credíveis. Entre a raiva e o projecto, a maioria escolheu o segundo.

A democracia portuguesa demonstrou que possui mecanismos de contenção que vão além das instituições formais. Há uma cultura política que resiste à lógica do tudo ou nada, à ideia de que só a ruptura produz resultados. Isso não significa complacência nem satisfação com o estado das coisas. Significa, isso sim, que a mudança continua a ser procurada dentro do campo democrático — e não contra ele.

Ventura confunde sistematicamente povo com plateia. Confunde voto com aclamação. Confunde democracia com plebiscito sobre a sua própria figura. Essa personalização extrema da política é típica de movimentos que funcionam melhor na excepção do que na regra, melhor na denúncia do que na construção. Quando são chamados a conviver com a normalidade institucional — com regras, contraditório e limites — sentem-se perseguidos. Não estão. Estão apenas a ser tratados como qualquer outro actor democrático.

O Chega terá agora de aceitar aquilo que sempre tentou evitar: a normalização. Terá de aprender a perder sem gritar fraude, a discordar sem incendiar, a participar sem sabotar. Terá de perceber que a democracia não é um obstáculo à vontade popular, mas o seu único veículo legítimo. E que a desinformação repetida, mesmo quando eficaz a curto prazo, acaba por ser travada quando os cidadãos são chamados a escolher com clareza.

Num cenário marcado pelo avanço de discursos autoritários e pela erosão da confiança pública, Portugal enviou um sinal que merece atenção: a polarização não é inevitável. Pode ser analisada, compreendida e contida. Não se combate com silêncio nem com moralismo, mas com escolhas políticas claras, com lideranças responsáveis e com eleitores dispostos a não abdicar da complexidade.

A vitória de Seguro não elimina o descontentamento nem resolve, por si só, os problemas estruturais do país. Mas demonstra algo essencial: a democracia portuguesa continua viva porque sabe dizer não. Não ao medo como método. Não à mentira como estratégia. Não à ideia de que gritar “povo” basta para o representar.

O que este momento político revela é simples e profundo: a democracia não precisa de heróis, nem de salvadores, nem de figuras providenciais que se arrogam intérpretes exclusivos da vontade popular. Precisa de cidadãos atentos, capazes de distinguir ruído de substância; de instituições sólidas, que resistam à pressão do medo e da simplificação; e de líderes que compreendam que governar é um exercício de responsabilidade colectiva, não um palco para vaidades pessoais. A democracia vive de limites — e é precisamente nesses limites que se protege da sua própria corrosão.

Foi essa maturidade democrática que venceu a recusa do grito como método, da bravata como programa, da desinformação como estratégia. Venceu a ideia de que o conflito permanente não é sinónimo de coragem, mas muitas vezes de vazio político. E foi essa escolha consciente, serena e maioritária que travou a falácia — a de que basta invocar o “povo” para o representar, ou erguer a voz para merecer governar. A democracia portuguesa mostrou que continua capaz de dizer não. E, ao fazê-lo, reafirmou aquilo que a mantém viva.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

As eleições de ontem não foram apenas mais um episódio do calendário democrático. Foram um momento de inflexão silenciosa, daqueles que só revelam toda a sua dimensão com o passar do tempo. O País político mudou — não por uma rutura abrupta, mas por uma inversão simbólica profunda. No centro dessa mudança está António José Seguro, durante anos subestimado, agora elevado ao topo institucional.

Durante demasiado tempo, Seguro foi tratado como figura discreta, previsível e, para muitos, politicamente ultrapassada.

Num sistema que valoriza lideranças fortes e mediáticas, foi frequentemente colocado à margem — o “patinho feio” de uma política dominada por ciclos rápidos e protagonismos intensos.

As urnas de ontem alteraram radicalmente essa perceção. Com cerca de 65% dos votos, Seguro não apenas venceu: impôs-se. E, ao fazê-lo, transformou uma longa travessia política — solitária, paciente e persistente — numa inesperada vitória de legitimidade.

Este resultado não é apenas eleitoral; é simbólico.

Representa a reabilitação de um político que durante anos foi considerado menor e que agora surge como a principal figura institucional do País. A tentativa de leitura partidária imediata, sobretudo por parte do PS, não apaga a evidência essencial: Seguro nunca renegou as suas raízes, mas o que venceu ontem foi sobretudo um percurso pessoal.

Para muitos eleitores, não triunfou um partido — triunfou um homem. E, nesse triunfo, há um sentimento claro de justiça tardia, como se o sistema político tivesse sido obrigado a reconhecer alguém que durante demasiado tempo desvalorizou.

Se a eleição consagrou Seguro, obrigou também a direita a confrontar as suas próprias limitações.

Luís Montenegro mantém a centralidade governativa e preserva a posição de referência institucional da direita moderada. O resultado não fragiliza o poder executivo, mas também não amplia o seu espaço político. O desafio passa agora por converter estabilidade governativa em liderança duradoura — tarefa exigente num campo político fragmentado.

André Ventura, com cerca de 30%, confirma-se como figura incontornável, mas fica aquém da consagração que procurava. O crescimento eleitoral sustenta a ambição de liderar todo o espaço da direita, mas a derrota impede, para já, essa hegemonia. A tensão entre força eleitoral e capacidade de convergência continuará a marcar o seu percurso político.

João Cotrim de Figueiredo, com cerca de 8% na primeira volta, tendo sido afastado da corrida final, assume um papel mais reflexivo e público, reposicionando-se estrategicamente. A passagem de potencial candidato presidencial a comentador político não é retirada, mas investimento de longo prazo — possivelmente com horizonte em 2031.

As consequências destas eleições são mais profundas do que o resultado sugere. Há sinais claros de revalorização da política institucional e de um eleitorado menos disponível para a polarização permanente.

Ao mesmo tempo, a direita permanece sem liderança unificada: Montenegro governa, Ventura mobiliza e Cotrim prepara o futuro. Nenhum domina plenamente o espaço, e essa fragmentação prolonga a disputa interna.

Mas o efeito mais relevante é, decididamente, outro: o fim da marginalização de António José Seguro.

A sua vitória demonstra que, por vezes, a persistência supera a visibilidade e que o tempo pode corrigir os julgamentos precipitados da política. Num sistema habituado a descartar rapidamente, a ascensão de Seguro surge como uma rara inversão de expectativas.

O País acorda hoje com novos equilíbrios, novas ambições e uma evidência difícil de ignorar: aquele que durante anos foi visto como “ o patinho feio da política” tornou-se, contra quase todas as previsões, a figura central da República.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Certos romances clássicos sobrevivem ao tempo porque resistem às leituras ou porque aceitam ser violentamente reinterpretados pelo cinema ou pelas artes do espetáculo. Desde 1847 que O Monte dos Vendavais, o romance de Emily Brontë, se impõe como um manancial de sentimentos extremos: amor absoluto, obsessão, classe, exclusão, desejo que corrói tudo à volta. Talvez por isso continue a seduzir cineastas com vontade de o dobrar, distorcer ou mesmo trair. A versão agora realizada por Emerald Fennell rompe, mais uma vez, com os cânones. Entra de rompante, de salto alto e eyeliner carregado, e faz do romance gótico uma ópera pop sobre o nosso tempo: um tempo em que a intensidade vale mais do que a coerência e em que o sofrimento precisa de ser “representado” para existir.

Convém dizê-lo desde já: este O Monte dos Vendavais não quer ser fiel ao romance original. Quer ser sentido. Fennell já o assumiu sem rodeios: não adaptou o livro como ele é, adaptou a forma como o livro a fez sentir. A diferença não é subtil. Onde Brontë escrevia contenção febril, Fennell filma excesso. Onde o romance deixava espaços de silêncio, o filme preenche-os com textura, cor, música e corpo. É um cinema de superfícies assumidas, de grandes emoções, de imagens que se colam à pele. Pode irritar, pode soar a indulgência estética, mas há uma honestidade brutal nessa escolha: a realizadora sabe que não está a dialogar com o século XIX, mas com um presente saturado de imagens, narcisismo e desejo de validação.

O casting tornou-se polémica muito antes da estreia, como convém a qualquer boa tragédia contemporânea. Margot Robbie surge como Cathy não por distração, mas por decisão consciente. A antiga Barbie do cinema global, símbolo máximo de uma feminilidade hiperexposta, entra aqui numa versão gótica, febril e auto-consciente, carregando consigo todo o peso da sua imagem pública. Tem 35 anos a interpretar uma personagem escrita como adolescente? Tem. E isso faz parte do gesto. A Cathy de Fennell não é ingénua, não é inocente, não é apenas vítima. É uma mulher que sabe que está a ser olhada, desejada, julgada e usa isso como arma e como prisão. O famoso quarto forrado com papel de parede inspirado na textura da sua pele, com veias e sardas impressas em seda, não é uma excentricidade gratuita: é uma ideia visual poderosa sobre a forma como o corpo feminino continua a ser cenário, decoração e território de apropriação.

Ao seu lado, Jacob Elordi surge como um Heathcliff reinventado para o nosso tempo. Já não o pária racializado e demonizado do texto original, mas um ícone de desejo tóxico, belo demais para caber na própria fúria. Elordi é menos personagem do que presença: um corpo magnético, um olhar carregado de ressentimento elegante, uma espécie de trauma premium em formato cinematográfico. A química entre os dois é real, intensa, quase indecorosa, e o filme vive muito dessa tensão física, dessa sensação constante de que o amor aqui não redime: consome. Não há romantismo casto; há suor, posse e um erotismo que flerta abertamente com o sadomasoquismo emocional e visual.

Formalmente, Fennell transforma o gótico rural num luxo artificial assumido. As charnecas dão lugar a interiores saturados, figurinos anacrónicos, tecidos exuberantes e uma mise-en-scène que parece saída de um editorial de moda em colapso nervoso. A banda sonora assinada por Charli XCX sela essa transposição: a tragédia romântica ganha batida eletrónica, sintetizadores, pulsação de pista de dança. Pode parecer um choque cultural, mas há coerência nessa escolha. O amor de O Monte dos Vendavais sempre foi excessivo, obsessivo, quase violento. Fennell limita-se a traduzi-lo para a linguagem de um século em que a dor também se consome como espetáculo e em que a intensidade emocional precisa de vir acompanhada de ritmo e volume.

Há, naturalmente, um lado um pouco auto-indulgente neste cinema. Fennell gosta do excesso, gosta de provocar, gosta de se ver a provocar. Já o demonstrara em Uma Miúda com Potencial, onde o comentário social vinha embrulhado num thriller venenoso, e em Saltburn, onde o privilégio era filmado como pornografia estética. Em O Monte dos Vendavais, esse gosto pelo choque atinge um novo patamar. Há momentos em que o filme parece enamorado de si próprio, da sua beleza, da sua capacidade de irritar puristas e incendiar redes sociais. Mas mesmo aí, mesmo quando roça o ridículo, nunca é um cinema cínico. Há crença real na força das emoções, por mais contraditórias que sejam.

As críticas vão dividir-se, como era inevitável. Uns falam de um filme hipnótico, inebriante, sensual, um novo clássico para o público contemporâneo. Outros acusam-no de superficialidade, de traição ao espírito original, de excesso vazio. Ambas as leituras são verdadeiras, e talvez o mérito do filme esteja precisamente aí: não procura consenso. Fennell filma para provocar ruído, discussão, desconforto. Num panorama cinematográfico cada vez mais domesticado, em que os remakes se comportam como visitas guiadas a museus, ver um clássico ser atirado para o centro do debate cultural com tamanha ousadia é, no mínimo, refrescante.

No fundo, O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell, é menos uma história de amor do que um ensaio visual sobre o nosso vício na intensidade. Cathy e Heathcliff não são modelos de paixão; são espelhos deformados de um tempo que confunde sofrimento com profundidade e desejo com identidade. Amam-se como quem se consome, como quem precisa de sentir qualquer coisa, mesmo que doa. E isso aproxima-os perigosamente de nós. Talvez seja essa a razão do desconforto que o filme provoca: não reconhecemos apenas Brontë ali, reconhecemo-nos a nós próprios.

Não é um filme perfeito, nem pretende sê-lo. É excessivo, discutível, por vezes descontrolado. Mas é vivo. E isso, hoje, já é uma qualidade rara no cinema feito e pensado para o grande público. Fennell não respeita o texto sagrado: colide com ele. Desenterra-o, reanima-o com o choque eléctrico do presente e devolve-nos uma criatura ou melhor uma obra híbrida, meio gótica, meio pop, totalmente intoxicante. Saímos da sala sem saber se assistimos a uma blasfémia ou a um gesto de liberdade artística. Provavelmente assistimos às duas coisas ao mesmo tempo. E é nessa ambiguidade, nessa tempestade emocional e estética, que este O Monte dos Vendavais encontra a sua razão de existir e tudo indica que será também um grande êxito junto do público.

Segundo o Comando Distrital de Leiria da Polícia de Segurança Pública (PSP), em declarações à agência Lusa, a vítima mortal tem 37 anos e o ferido, cujo estado era desconhecido, 40 anos.

Fonte da PSP adiantou que o trabalhador morreu eletrocutado e ambos trabalhavam para a empresa Canas, que está a prestar serviço à E-Redes na reparação de estruturas elétricas na sequência do mau tempo.

Também fonte oficial da E-Redes, a principal operadora da rede de distribuição de energia elétrica em Portugal Continental das redes de alta, média e baixa tensão, confirmou que as vítimas, um morto e um ferido grave, são funcionários da empresa Canas que estavam ao serviço da operadora.

A Europa apresenta-se como o continente que aprendeu com a História, como o espaço político que após duas guerras mundiais e várias outras coloniais abandonou definitivamente, no seculo XX, a lógica da dominação da exploração e da hierarquia dos povos. No entanto, como é claro para alguns, esta narrativa autoindulgente promovida pela UE e inúmeros políticos cai quando confrontada com a realidade da situação. O colonialismo europeu não é um fenómeno do passado, que se estuda nos livros de História. Ele persiste, adapta-se, muda de linguagem, mas mantém-se intacto nos seus princípios base: a negação da autodeterminação plena, a instrumentalização de territórios e populações (em inúmeros casos vulneráveis), e a recusa sistemática de assumir responsabilidades históricas.

O problema europeu com o colonialismo não é apenas o passado que não foi reparado. É o presente que continua a ser administrado com as ferramentas coloniais disfarçadas de pragmatismo, segurança, interesses nacionais e até humanitários. Os casos mais gritantes são o do Reino Unido e o da França que são exemplos claros da continuidade colonial. Cada um com as suas estruturas próprias, com o seu vocabulário, do seu próprio modo, mas ambos incapazes de romper com a lógica imperial que continua a dominar o espírito europeu.

Numa altura em que muitos na Europa olham para os EUA de Trump como o expoente máximo do imperialismo, que o é, é contudo, necessário relembrar o papel do passado próximo e atual europeu.

O Reino Unido – o Império que recusa o pôr do sol

No seu auge, entre 1920 e 1922, o Império Britânico controlava cerca de 35.5 milhões de quilómetros quadrados, ou seja cerca de 25% do mundo. Mais de cem anos depois, o estado britânico continua preso à ideia de império. A narrativa do império britânico era de uma força civilizadora, que criava instituições, comércio e estabilidade. Esta visão profundamente enraizada ainda na política inglesa, e no discurso político e mediático, ignora, no entanto, a violência sistemática, a exploração económica, os massacres, as múltiplas fomes provocadas e a destruição das estruturas sociais de outros povos.

Um dos casos mais gritantes é o de Churchill, adorado pelos políticos e opinião pública inglesa pela sua luta para salvar o Reino Unido e a Europa dos nazis. No entanto, esquecem-se que em 1943, as políticas de Churchill na Índia provocaram a “fome de 1943” em Bengala, que se estima ter causado a morte de cerca de 2 a 3 milhões de pessoas. De notar, que um estudo feito sobre seis fomes graves na India, concluiu que a “fome de 1943” foi a única que ocorreu num período em que não havia seca. Graves também são as descobertas da jornalista Madhushree Mukherjee, que concluiu, nos Cherwell Papers, que nos anos de 1943 e 1944, não obstante o Império ter 29 milhões de toneladas de trigo em reserva, Churchill e o seu governo negaram o pedido de 500 mil toneladas de trigo do Governador-Geral da India, destinadas a ajudar a combater a fome. No entanto, no final do ano de 1943, o governo inglês de Churchill tinha importado 26 milhões de toneladas de bens alimentares e produtos naturais para o povo inglês, criando uma reserva de mais de 18 milhões de toneladas, de acordo com Mukherjee, a maior reserva da história inglesa. À época, Churchill culpava o povo indiano por, nas suas palavras, “procriarem como coelhos” e também questionava a existência da fome pelo facto de Mahatma Ghandi ainda se encontrar vivo. É verdade que não podemos julgar os governos atuais ingleses por ações passadas, no entanto podemos criticar estes governos e estes políticos por exultarem Churchill, sem terem a coragem de nomear os seus erros.

O problema Inglês não termina com Churchill nem com o fim do Raj. Um caso atual e de gravidade considerável, embora com pouca cobertura mediática é o das Ilhas Chagos. As Ilhas Chagos são um arquipélago de 60 ilhas e de 7 atols a quase 10.000km de distância do Reino Unido, que pertenciam às ilhas Maurícias até 1965, quando foram separadas e compradas pelo Reino Unido por 3 milhões de libras às Maurícias que eram, ainda, à data uma colónia Britânica. Entre 1965 e 1973, o Reino Unido e os EUA expulsaram toda a população indígena, abandonando-a nas Maurícias e nas Seychelles, onde foram deixados a viver na pobreza e miséria. Mais recentemente, o Reino Unido, através do Governo das Maurícias, recompensou financeiramente alguns chagossianos e concedeu-lhes cidadania britânica. No entanto, hoje, cerca de 10.000 chagossianos ainda estão impedidos de voltar à sua terra, tendo o Reino Unido e os EUA, construído uma base militar no atol Diego Garcia, crucial para operações no Médio Oriente, no Corno de África, e no Sudeste Asiático.

Uma nota ainda para referir que na base de Diego Garcia, 64 refugiados Tamils foram encarcerados durante anos, num campo a céu aberto, guardados por seguranças privados em condições prisionais, tendo o Governo Britânico sido julgado em duas instâncias como culpado por emprisionar sem justificação e ilegalmente estes refugiados.

Em finais de 2024 e inícios de 2025, foi firmado um acordo entre o Reino Unido e as Maurícias, devolvendo a soberania das Ilhas Chagos às Maurícias, ficando o Reino Unido com um arrendamento de Diego Garcia por 99 anos, por uma renda anual de 101 milhões de libras. No entanto, este acordo que tem apoio americano, tem sido alvo de críticas e protestos do povo chagossiano, que afirmam que foram excluídos pelos Governos das Maurícias e Reino Unido das negociações e que este acordo lhes retira soberania, direitos e a sua terra. O povo chagossiano é de origem diferente do maurício, tem a sua própria língua, música e cultura, como também raízes históricas próprias. Não é só o povo chagossiano que critica este acordo, também um painel independente das Nações Unidas o critica por não garantir os direitos dos chagossianos, e por restringir o seu direito a regressar à sua terra natal.

A Commonwealth

A Commonwealth, a versão moderna do Império Britânico, é um conjunto de Nações na sua maioria com ligações diretas ao Reino Unido. Tendo a maioria dos países sido colónias britânicas, e sendo algumas ainda uma espécie de colónias, como a Austrália e o Canadá e Santa Lúcia, estados soberanos que ainda mantêm o Rei como Chefe de Estado. Os 56 países que a compõem constituem, supostamente, um espaço voluntário de cooperação entre Estados, unidos por supostos laços culturais e históricos. A Commonwealth funciona, pois, como a extensão simbólica do império marcada por uma hierarquia implícita onde o Reino Unido está claramente fixado ao centro, exemplificado pelo facto de o Rei Carlos III ser Chefe de Estado de 15 países. Grave ainda é a forma como o Reino Unido usa esta rede para manter influência política e económica, enquanto evita qualquer debate sério sobre reparações coloniais. As antigas colónias são convidadas a celebrar a herança comum, mas não podem exigir reparações nem justiça histórica.

A Commonwealth é um mecanismo de soft power, ao serviço dos governos Britânicos para os ajudar a manter a sua relevância global sem os confrontar com a sua verdadeira perda de poder, nem serem forçados a reparações e indemnizações pelos seus múltiplos crimes coloniais, nem a devolverem o património saqueado ao longo dos séculos.

O neocolonialismo britânico representado pela Commonwealth é uma resposta à perda de poder do pós-guerra, em que os Estados Unidos e a União Soviética emergiram como as duas forças hegemónicas.

O caso francês, o universalismo

A França apresenta-se como a pátria do universalismo, dos direitos humanos e da igualdade. Contudo, este universalismo é usado historicamente como uma ferramenta da negação colonialista. Ao afirmar que todos são iguais perante a República, a França recusa reconhecer as especificidades, violências e desigualdades do seu passado e presente colonial. Enquanto Macron passeia em Davos a condenar o neoimperialismo e neocolonialismo Americano em relação à Gronelândia e América do Sul, a França continua a exercer o seu controlo colonial pelo mundo.

Françafrique

A história francesa do último século é inseparável de África. Não nos podemos esquecer quando falamos da história recente colonial francesa, da Guerra da Argélia, dos cerca de 1.500.000 argelinos mortos e outros milhares torturados entre 1954 e 1962, nem dos vários testes nucleares efetuados no país entre 1960 e 1965. Recomendo a leitura de Les Damnés de la Terre (traduzido em Os Condenados da Terra) de Frantz Fanon para aprofundar sobre o tema da Guerra da Argélia.

A chamada Françafrique não é um conceito académico, é uma realidade política. Durante décadas, a França manteve e ainda mantém uma rede de controlo económico, militar e político sobre as suas antigas colónias africanas, apoiando regimes autoritários, interferindo em processos eleitorais e garantindo acesso privilegiado aos recursos naturais estratégicos, tudo isto em nome da estabilidade, da luta contra o terrorismo ou até de uma suposta cooperação. É de notar que três países que tiveram forte “apoio” militar e económico francês Mali, Burkina Faso e Níger tiveram todos golpes de estado nos últimos anos que levaram à expulsão de milhares de militares franceses, os quais ocorreram em parte devido ao alto sentimento anti França na região do Sahel.

Também no plano económico se verifica a influência francesa. O franco CFA ainda hoje é utilizado por várias antigas colónias francesas, um símbolo claro da continuidade colonial. O franco CFA está dividido em duas moedas: o XOF (franco CFA da África Ocidental) usado pelo Benim, Burkina Faso, Cote d’Ivoire, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo; e o XAF (franco CFA da África Central) usado pelos Camarões, Chade, Gabão, Guiné-Equatorial, República Central Africana, e a República do Congo. Ambos os francos CFA têm um valor de câmbio fixo com o Euro – 1 euro equivale a CFA 655.96. Adicionalmente, até 2021, os países membros que usam o XOF tinham que depositar no mínimo metade das suas reservas estrangeiras na Direção Geral do Tesouro Francês, exigência esta que se mantém para os estados-membros que usam o XAF. Por último, no plano económico é de notar que as notas usadas pelos estados africanos que pertencem ao CFA são impressas em França e que o CFA é a única moeda colonial herdada ainda em uso no mundo. O sistema monetário controlado por Paris é uma forma de controlo colonial, que limita a soberania económica de vários estados soberanos e perpetua uma relação de dependência.

Os territórios ultramarinos Franceses

Tal como o Reino Unido, a França mantém ainda hoje 13 territórios sobre o seu controlo direto, a Guiana Francesa, a Nova Caledónia, a Polinésia Francesa, Mayotte, entre outros.

Na Nova Caledónia, o povo indígena Kanak (cerca de 112.000 numa população de 300.000) luta há vários anos pela independência. Em 2024, sete líderes independentistas foram presos e levados para França (17.000km de distância) por organizarem protestos contra uma lei que daria direito de voto a 40.000 cidadãos franceses no território, diluindo assim o apoio independentista na região. A França implementou um estado de emergência no território para conter os protestos entre o dia 15 de maio de 2024 e o dia 28 de maio de 2024, no entanto manteve a proibição de protesto, recolher obrigatório, restrições a ajuntamentos, e venda de álcool até abril de 2025, restringindo o direito de protesto e de greve durante quase um ano. Adicionalmente, um dos líderes dos protestos, Christian Tein, que tinha sido preso, foi mantido durante um ano em prisão solitária em França, tendo sido libertado em 2025, mas proibido de regressar à sua terra natal pelas autoridades francesas.

Na Oceânia, a França também testou as suas bombas nucleares, testes realizados entre 1966 e 1996, nos atols Mourea e Fangataufa. O número total de testes está entre os 175 e 181 no espaço de 30 anos, detonando 193 ogivas nucleares. Estes testes afetaram a vida de cerca de 110.000 pessoas no Taiti, e deixaram um rasto de doenças, contaminação ambiental e sofrimento que nunca foram devidamente reparados. O estado Francês continua a recusar a maior parte dos pedidos de compensação pelas populações afetadas, entre 2010 e 2017, tendo 97% dos pedidos sido recusados. Em 2024, 70% dos pedidos de recompensa foram recusados, mesmo depois de uma comissão parlamentar francesa ter criticado a falta de transparência e os cortes na compensação das vitimas.

Mayotte, arquipélago localizado entre Moçambique e Madagáscar, recebeu, após a passagem do ciclone Chido, em 2024, que matou 40 pessoas e destruiu cerca de 90% dos serviços, a visita de Macron, que foi, na altura, fortemente atacado pela falta de apoio, pela falta de água, e pela falta de segurança. Em resposta às criticas, Macron respondeu dizendo que “Se não fosse a França, vocês estariam ainda mais na m…., 10.000 vezes mais”.

Estes territórios são espaços onde a soberania é limitada, onde a população local não tem poder político real e onde o Estado destrata os seus cidadãos. O colonialismo francês não terminou, foi só constitucionalizado. A outra face do problema é que os políticos franceses não se interessam por estas populações, elas são vistas como dispensáveis.

Europa – memória seletiva

Não se julgue, contudo, que o problema se circunscreve apenas a estes dois países. É um problema transversal a todos os países europeus historicamente de passado colonial.

A Bélgica, responsável por mais de 10 milhões de mortos no Congo, que sempre que uma aldeia não atingia as quotas necessárias de borracha, cortava as mãos da população, continua sem oferecer um pedido de desculpas oficial nem reparações financeiras. Numa visita à República Democrática do Congo, em 2022, o rei belga expressou somente remorsos, afirmando que as ações belgas eram injustificáveis e racistas, como se tal fosse suficiente pelos 75 anos de violações, de destruição, mortes, e crimes. A Itália, que em três dias na sua ocupação militar da Etiópia em 1937, matou cerca de 20% da população de Addis Ababa. A Dinamarca, que entre 1960 e 1991, secretamente forçou mais de 350 mulheres, jovens e crianças com menos de 12 anos kalaallit (inuítes groenlandeses) a usarem dispositivos intrauterinos, ou a serem vacinadas com hormonas de controlo de natalidade. No caso da Gronelândia, o estado dinamarquês continuou até 2025 a usar testes psicológicos sem bases científicas para remover bebés a mães kalaallit, sendo que nalguns casos, e embora o governo dinamarquês tenha já proibido tais testes, algumas crianças ainda não foram entregues às mães.

E Portugal? Não nos podemos esquecer da Guerra Colonial, da morte e destruição que causámos em Angola, Moçambique e na Guiné, nem dos séculos de controlo, pilhagem e de escravatura que promovemos no ultramar. No entanto, o Governo português mantém a linha de todos os anteriores governos, rejeita o começo de qualquer processo ou programa de reparações históricas.

Descolonizar é perder poder, é isso que a Europa teme

Verdadeiramente, descolonizar não é um exercício simbólico de reconciliação. É um processo profundamente político que implica redistribuição de poder e o fim de privilégios históricos. É por isso que a Europa resiste. Enquanto o Reino Unido se refugiar na Commonwealth, enquanto a França continuar a dominar a economia de estados soberanos, enquanto a Bélgica e Portugal continuarem a recusar pedir desculpas e a reparar as suas vítimas coloniais, o colonialismo continuará vivo.

O colonialismo europeu não é só um erro do passado, é uma escolha do presente. E enquanto esta escolha não for corrigida e revertida, a Europa continuará a falhar no teste da sua narrativa – o da coerência entre os valores que proclama e as práticas que perpétua.

A Europa enfrenta em 2026 uma escolha clara. Ou continua a esconder-se atrás de narrativas confortáveis e seletivas, ou enfrenta, com honestidade e coragem, o seu legado colonial e as suas expressões contemporâneas. Descolonizar não é retirar estátuas nem pedidos de desculpa vazios. É devolver poder, é reparar injustiças, é aceitar a perda de privilégios históricos. Enquanto não agirmos para verdadeiramente acabarmos com o colonialismo continuaremos a ser cúmplices de um sistema que dizemos já ter superado.

O colonialismo não morreu. Apenas se tornou politicamente aceitável. E essa é a sua forma mais perigosa.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“O estado do tempo em Portugal continental vai continuar a ser afetado por uma corrente perturbada de oeste, o que significa que vamos ter já a partir de hoje a influência de uma massa de ar com características tropicais, com elevado conteúdo em agua. É uma massa de ar muito húmido que vai trazer precipitação persistente, pelo menos na primeira parte da semana, pelo menos até dia 11 [quarta-feira]”, adiantou à Lusa a meteorologista Ângela Lourenço.

Segundo a meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Portugal continental vai assim ter alguns episódios de precipitação mais intensa e de forma mais contínua na terça e na quarta-feira.

“Para dia 10 [terça-feira] já foram emitidos avisos de precipitação de nível laranja para Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro e Viseu. Espera-se que haja aqui um período mais crítico, em que os valores acumulados de precipitação sejam significativos e dai o nível laranja de precipitação”, indicou.

De acordo com Ângela Lourenço, na terça-feira prevê-se que a chuva seja mais fraca no Baixo Alentejo e Algarve.

“Estes episódios com precipitação mais intensa, em particular o dia 11 [quarta-feira], poderão será acompanhados com vento. Não se espera que dia 10 [terça-feira] tenha um vento muito forte, mas em todo o caso estas situações trazem sempre rajadas mais fortes nas terras altas”, disse.

Ângela Lourenço adiantou que a partir de quinta-feira está previsto um ligeiro desagravamento.

“Mas em todo o caso vai continuar sempre a ocorrer precipitação e o vento a soprar com alguma intensidade. No fim de semana é possível que haja aqui talvez o abrandamento da ocorrência da precipitação. O deslocamento do anticiclone mais para norte vai permitir que nós não sejamos tão afetados por estas ondulações frontais e massas de ar com elevados conteúdos em agua”, disse, sublinhando que ainda há um grau de confiança baixo para este cenário.

No que diz respeito às temperaturas, segundo Ângela Lourenço, vão estar acima do normal para a época do ano, para o mês de fevereiro.

“Exatamente por predominar esta massa de ar tropical, com características tropicais, as temperaturas têm tendência para subir. Estamos a falar de mínimas junto a Lisboa da ordem dos 14/15 e máximas de 17/18 graus. No interior, zonas mais frias, prevê-se para a Serra da Estrela mínimas entre 4 e 6 graus e máximas de 09/12”, referiu.

A partir de quinta-feira, segundo a meteorologista do IPMA, está prevista uma significativa descida das temperaturas.

As eleições presidenciais foram uma grande vitória da democracia, dos 50 anos da Constituição de Abril e do Presidente eleito António José Seguro.

No meio da tempestade que submergiu a campanha da segunda volta e dos apelos à desestabilização caótica que resultaria do adiamento das eleições, os portugueses responderam de forma veemente com uma grande participação no ato eleitoral com a votação de quase 5,5 milhões de eleitores em condições que para muitos exigiram a determinação de superar as inundações, a falta de eletricidade ou de comunicações.

Os receios de uma grande abstenção devido ao mau tempo, ao resultado previsível, ao desamor de alguns que não se sentiam representados na segunda volta e ao apelo à secundarização das eleições feito por André Ventura foram derrotados por um povo que desejou votar apesar de todas as adversidades, superando em cerca de um milhão de eleitores as votações de 2016 e de 2021 que elegeram Marcelo Rebelo de Sousa.

Os portugueses disseram que os 50 anos de democracia e de valores constitucionais valem a pena e devem ser ativamente defendidos contra tudo o que dificulta as nossas vidas e também contra a permanente gritaria populista que encharca quotidianamente o espaço mediático e as redes sociais.

Mas é, sem dúvida, uma notável vitória pessoal de António José Seguro que com quase 3,5 milhões de votos, que valem 66,8%, é o Presidente eleito com o maior resultado de sempre ultrapassando a maior percentagem num primeiro mandato, que era a convergência democrática que valeu a Ramalho Eanes 61,5% dos votos em 1976, e os históricos 3,4 milhões de votos de Mário Soares na sua imperial reeleição de 1991.

O resultado é tanto mais impressionante quando António José Seguro triunfa após 11 anos de total desaparecimento da vida pública, sendo um exemplo de resiliência perante as reservas iniciais de grande parte do PS, e as sondagens que o colocavam inicialmente muito longe da probabilidade de chegar à segunda volta. A assumida moderação, a recusa da gritaria, a opção por um modelo institucional na relação com os outros candidatos e a comunicação social, acabaram por se revelar poderosos ativos fazendo um contraponto com a permanente irrequietude e o ativismo mediático do Presidente cessante.

Luís Montenegro teve tudo para ser um dos vencedores da noite eleitoral juntando a voz da liderança do PSD, que se diz social-democrata, à derrota do populista que diariamente despreza os valores dos 50 anos de democracia e que tem por objetivo assumido destruir o PSD e substituí-lo no espaço político à direita.

Pelo seu calculismo frio, pela mediocridade de fazer tudo pela sobrevivência de curto prazo na ocupação do poder e pela incompreensível equidistância entre candidatos que não podiam ser mais contrastantes nos estilos e nos valores, Luís Montenegro é o grande derrotado da noite eleitoral. Acrescentou aos desastrosos 11% do seu candidato na primeira volta a diluição do seu campo eleitoral entre a vitória clara de António José Seguro, com o apoio de cerca de 3/4 dos eleitores de Cotrim, Gouveia Melo e Marques Mendes, que poderia ter reivindicado, e os mais 300 mil eleitores que experimentaram pela primeira vez o voto na extrema-direita.

Ao contrário da democracia-cristã alemã, dos liberais e dos gaulistas franceses e da direita democrática austríaca, que ficando em segundo lugar nas eleições fez uma “geringonça” com os socialistas e os liberais, Luís Montenegro, que governa em minoria, fragilizou o seu espaço de manobra político ao ser incapaz de optar pela democracia e pelos valores da tolerância.

O Presidente António José Seguro será o maior defensor da estabilidade e do cumprimento dos calendários eleitorais, sem os repentismos dissolventes de Marcelo Rebelo de Sousa, mas a incompetência na prevenção de riscos de calamidades, o caos da saúde ou as medidas que alimentam a espiral inflacionista nos preços da habitação terão um escrutínio severo a partir do Palácio de Belém.

Já na Assembleia da República, onde, sem qualquer vantagem política, contribuiu para a crispação social com o alinhamento preferencial com o Chega em matéria de migrações, nacionalidade, habitação ou benefícios fiscais para as grandes empresas, suspeita-se que o estilo de arrogância sem chão de um governo minoritário vai ter vida cada vez mais difícil como se verá já no debate sobre a teimosa reforma da legislação laboral.

O PS, em momento de alegria, com o seu terceiro líder a atingir a Presidência, foi decisivo na primeira volta mas não terá um caminho fácil na longa caminhada pela recuperação da liderança do espaço político, condicionado entre os previsíveis apelos do novo Presidente a consensos e compromissos com o Governo, em áreas como a da saúde, e a excitação de André Ventura em tentar capitalizar o descontentamento com o desgaste de Luís Montenegro, a generalizada incapacidade da equipa governativa e o esgotamento da margem de manobra para a distribuição de saldos acumulados e de brindes orçamentais.

As eleições presidenciais foram uma grande vitória da democracia e da tolerância sobre o populismo e o discurso de ódio, mas, pela sua dupla derrota, na primeira volta pelos resultados do seu candidato e na segunda pela recusa em escolher a defesa da democracia e os valores constitucionais, o prémio Laranja Amarga da noite eleitoral vai para o acossado calculismo de Luís Montenegro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Seguimos, há poucas horas, o que os mais otimistas já sabiam, e os pessimistas desejavam: todos os votos da esquerda, a que somaram os dos centros, e muitos da direita democrática, convergiram para a candidatura de António José Seguro.

O que vimos nas últimas três semanas, após a primeira volta desta eleição presidencial, com líderes partidários de quase todo o espectro, assim como dos candidatos presidenciais derrotados, a darem o seu apoio a Seguro, não é uma simples fuga a um mal menor, como muitos preferiram interpretar.

Esse largo apoio, que Ventura tentou capitalizar afirmando que todo o sistema estava contra si, não é apenas conseguido através da grande rejeição que o líder do Chega tem na maioria da população. Seguro não é esse mal menor, a única solução possível; nem é aquele que teve a sorte de passar a uma segunda volta quando todos sabiam que quem o conseguisse, conseguiria obter a vitória.

Não. É claro que também é isso, mas é muito mais. O resultado conseguido não é apenas a soma de parte de eleitorados da primeira volta, unidos contra um adversário comum. Este adversário comum, é-o porque o que une todos, e os contrasta com Ventura, é o posicionamento face ao regime: estabilidade e aprofundamento da Democracia, mais exigente, contra uma rutura de regime, com uma postura agreste e virulenta, criadora de feridas na sociedade.

Aliás, os laivos e tiques que nos mostram um desejo de poder autocrático, integrado no mesmo movimento que grassa um pouco por toda a Europa e muito devedor de Trump, foram um dos pontos mais fortes desta eleição, através de uma tomada de consciência cidadã, da esquerda à direita. Todos, no espectro democrático, se encontraram em Seguro como a imagem do diálogo, da ponderação e do equilíbrio, por oposição ao que Ventura representa e à forma como atua.

Esta eleição não foi pela Presidência da República, mas pela posição face à política, mais que ao regime. Ventura afirmou que todo o sistema estava contra si, mas não, não foi isso que se passou: o líder do Chega conseguiu uma quase unanimidade dos democratas contra o que ele representa. Em Seguro encontraram-se os democratas, aqueles que têm como denominador comum o livre pensamento, a afirmação da diferença, e o encontro no que diverge.

Não foi uma eleição presidência, mas um referendo à Democracia. E o vencedor foi claro!

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O País tem estado a ser fustigados nos últimos tempos pelas chuvas, vento e cheias. Muitos viram as telhas a desaparecer, telhados a colapsar, a água a entrar, os bens a serem arrastados, a incerteza do amanhã a chegar diariamente. Na escuridão da falta de esperança, desconectados do mundo cibernético e sem eletricidade, a ansiedade vai ganhando espaço. 

Quem o ouviu, não esquece, o uivo grave e áspero que agarrava tudo o que podia, projetando o que podia contra as casas e contra os carros, cujos alarmes ajudavam à distopia.

No cinzento do dia, troncos de pinheiros pareciam palitos cortados ao meio por um gigante. As árvores dobradas, como se tivessem sido pisadas por Gulliver, lembravam o rasto que deixamos na erva quando passeamos.

O ser humano tem a tentação de esquecer a natureza e o meio em que vive. Há preparações impossíveis para nos aprontar para todos os eventos do meio físico, como ventos superiores a 170 km/h… Outras há que sim, são possíveis, levando a que diariamente tenhamos de planear, preparar, executar e fiscalizar.  

Não construir em linhas de água ou em cima da praia são pequenos exemplos das múltiplas normas que fomos criando na sequência da necessidade de proteção de bens jurídicos indivisíveis como o ambiente, o património cultural, a saúde pública, a qualidade de vida ou o equilíbrio urbanístico. Nestes casos, a lesão atinge a coletividade como um todo.

Por compreender a relevância da defesa para a coletividade como um todo, determina a Constituição que estas questões não têm natureza privada ou de partes. 

O que explica que, no quadro constitucional, o Ministério Público tem o dever de defesa da legalidade democrática e promoção do interesse público designadamente quando estão em causa interesses públicos especialmente relevantes, direitos fundamentais ou interesses difusos/coletivos. 

Assim se compreende a presença e relevância do Ministério Público nos Tribunais Administrativos e Fiscais, nomeadamente para efeitos de impugnar atos administrativos, pedir a declaração de ilegalidade de normas, requerer a condenação à prática de atos administrativos legalmente devidos, promover providências cautelares e recorrer,

A clássica questão do fundamento para vivermos em sociedade tem em Aristóteles, Hobbes, Locke e Rousseau justificações diferentes, mas todos evidenciam a necessidade de ordem, a necessidade de cooperação e a realização humana.

A declaração de calamidade (Lei n.º 27/2006, de 3 de junho) é uma situação de carácter excecional para prevenir, reagir e repor a normalidade das condições de vida nas áreas afetadas e irá desaparecer sem que os problemas dos cidadãos afetados possam estar integralmente resolvidos.

Por isso mesmo, o Estado tem um papel essencial no desenhar do futuro. E neste nosso caminhar coletivo, o Ministério Público, com as suas funções próprias de garantia da legalidade e de representação do interesse público tem um papel essencial na defesa dos interesses difusos.

Com tantas notícias negativos nos últimos tempos, gostaria de evidenciar o auxílio mútuo e a proteção dos mais frágeis a que temos assistido, assente em movimentos espontâneos de cidadãos anónimos, familiares distantes, vizinhos ou associações de solidariedade social sem fins lucrativos, de que é exemplo o Ministério Público Solidário. 

Evidencia o que de melhor tem a natureza humana, na sua empatia e simpatia, partilhando os recursos que dispõem e um abraço fraterno que acalma.

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Escrevo-vos enquanto o vento e a chuva lá fora nos obrigam a recolher. Como Médico de Família, a minha preocupação nestes dias vai muito para além das consultas; foca-se na vossa segurança e na forma como cuidamos uns dos outros quando o tempo se torna uma ameaça.

Para atravessarmos este período com serenidade, deixo alguns conselhos práticos e diretos:

1. Informação em segurança

  • Esteja atento, mas sem pânico: É importante acompanhar as notícias e as orientações da Proteção Civil. No entanto, recorde que a eletricidade e a internet podem falhar a qualquer momento. Tenha à mão um rádio a pilhas ou a bateria. Em situações de isolamento, este continua a ser o meio mais fiável para saber o que se passa e o que deve fazer.

2. O isolamento é o maior perigo

  • Vigilância de proximidade: Se tem familiares ou vizinhos idosos que vivem sozinhos, o risco é maior. Como as redes de telemóvel e a luz podem falhar, não confie apenas numa chamada. Se for seguro sair, faça uma verificação presencial. Às vezes, o simples facto de ouvirem a voz de alguém ou sentirem que não estão esquecidos é o melhor “remédio” contra o medo e a desorientação.

3. Proteja a sua saúde em casa

  • Cuidado com o frio e a humidade: Manter o corpo quente é essencial para não agravar problemas de coração ou de respiração. Use várias camadas de roupa e tente manter-se seco.
  • Não facilite nos movimentos: Evite sair de casa sem necessidade. A maioria dos acidentes nestes dias acontece por quedas ou objetos que voam com o vento.

4. Gestão da medicação e segurança

  • Antecipe as necessidades: Confirme se tem quantidade dos seus medicamentos habituais para os próximos 5 a 7 dias. O isolamento ou o encerramento de serviços podem dificultar o acesso à farmácia.
  • Proteja a medicação: Mantenha as embalagens num local seco e elevado, longe de possíveis infiltrações. A humidade excessiva pode comprometer a eficácia dos comprimidos.
  • A lista de emergência: Tenha sempre uma lista escrita com o nome e a dose de todos os medicamentos que toma. Se precisar de assistência médica urgente, esta informação será crucial para nós.

Nesta fase, a prevenção e a entreajuda são as nossas melhores ferramentas. Esteja atento aos seus, mantenha o rádio por perto e lembre-se que a calma é meio caminho andado para a segurança.

Protejam-se e cuidem uns dos outros.

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