Em Sven-Göran Eriksson juntavam-se várias características que o transformavam num treinador de exceção. Além dos conhecimentos futebolísticos, que foram sempre entendidos por ele, humildemente, como dinâmicos, o que revelava um espírito aberto, havia também o visionário, que aplicou há mais de 40 anos (ainda Leonid Brejnev governava a URSS!) métodos que permanecem atuais. Mas havia nele uma inteligência emocional que vou procurar retratar num episódio completamente fora da caixa.
No dia 10 de abril de 1983, em jogo da 25ª jornada do Campeonato Nacional (que tinha 30 jogos), o Benfica, que liderava com o FC Porto a quatro pontos e o Sporting a cinco, recebeu o Rio Ave, numa partida que era para ter como guarda-redes do Benfica Manuel Bento, sendo eu suplente. Porém, já na fase final do aquecimento, o Zé Luís cruzou uma bola da direita, que cabeceei para a baliza. Quis o destino que o Bento, naquele instante, fosse ajeitar uma bota e quando levantou a cabeça levou com a bola em cheio na cara. Consequência: sangue a jorros e nariz partido. Fomos para o balneário, e perante a situação passei a titular, obviamente angustiado pelo facto de ter sido o causador involuntário da lesão do Bento, e com o peso do mundo em cima dos ombros, para aquele que seria o jogo mais difícil da minha carreira. Perante este cenário, o que me fez Eriksson, depois de se ter inteirado da situação de Bento? Nada. Apenas, quando íamos começar a descer as escadas para o relvado, se acercou de mim e disse-me, com voz calma: “Keep the zero.” Ou seja, percebeu que naquele contexto um milhão de coisas, muitas delas sombrias, devia estar a passar pela minha cabeça, e optou por não me colocar mais pressão. O jogo foi um daqueles que não correram bem ao Benfica. Muito ataque e zero golos, enquanto o Rio Ave (de Quinito) ia contra-atacando com perigo. O nulo manteve-se até ao apito final do árbitro e, já na cabina, a única coisa que Eriksson me sussurrou ao ouvido foi: “Well done.” Inteligência emocional à enésima potência, não é?
*José Manuel Delgado
Antigo guarda-redes do Benfica (treinado por Eriksson) é jornalista e redator principal do jornal A Bola