Os portáteis sem portas de rede, mas com portas USB de alto desempenho, são cada vez mais comuns. Mas por vezes é mesmo necessário recorrer a uma ligação cablada, sobretudo quando se pretende acesso à rede de alto débito. Terá sido a pensar neste tipo de máquinas e utilizadores que a QNAP expandiu a gama de produtos com o lançamento dos adaptadores de rede da série QNA.

Estes adaptadores USB 4 Tipo-C permitem a ligação a redes 10 GbE em computadores Mac e Windows equipados com portas USB 4 ou Thunderbolt 3/4. Compactos e sem ventoinha, os adaptadores QNA são projetados para garantir uma conectividade de alta velocidade sem ruído, ideal para utilizadores que necessitam de transferir ficheiros grandes ou trabalhar em projetos colaborativos que exigem uma largura de banda significativa.  

“Os adaptadores QNA USB 4 permitem que computadores sem portas de rede dedicadas se conectem a redes de alta velocidade”, afirmou Andy Chuang, gestor de produto da QNAP. “Os utilizadores podem desfrutar de transferências eficientes de ficheiros de grandes dimensões e fluxos de trabalho colaborativos 10GbE sem dificuldades de configuração”, acrescentou o responsável, de acordo com o comunicado de imprensa.   

Os adaptadores QNA oferecem velocidades de transferência até 10 Gbps, facilitando a gestão de backups de dados, transferências de ficheiros e edição de vídeo. São compatíveis com Windows, macOS e Linux, garantindo uma ligação de rede rápida e estável para uma variedade de utilizadores, desde profissionais a utilizadores domésticos. A instalação é simples: basta ligar o adaptador a uma porta USB 4 Tipo-C e configurar o controlador.  

A série QNA USB 4 inclui atualmente os modelos QNA-UC10G1T (com porta NBASE-T 10GbE e controlador AQC113) e QNA-UC10G1SF (com porta SFP+ 10GbE e controlador AQC100S). Ambos os modelos incluem um cabo USB 4 de 1 metro. Estes aparelhos tem um custo anunciado de cerca de 280 euros.

A QNAP anunciou ainda o lançamento futuro de modelos de porta dupla: o QNA-UC10G2T (com duas portas NBASE-T 10GbE) e o QNA-UC10G2SF (com duas portas SFP+ 10GbE).

Palavras-chave:

O primeiro Citroën C3 elétrico já tem, acreditamos, um lugar marcado na história. Isto porque consideramos tratar-se de um dos 100% elétricos mais importantes lançados até agora. A par de modelos como o Nissan Leaf, o Tesla Model 3, o Dacia Spring ou o Renault R5. Pela comparação já deve ter percebido que não estamos a referir-nos a aspetos como desempenho ou tecnologia. Mas sim pelo impacto que, por diferentes razões, os referidos modelos tiveram ou estão a ter no mercado.

O Citroën ë-C3 não chega como o 100% elétrico mais acessível. Esse lugar continua a pertencer ao Spring. Mas traz uma conjugação de habitabilidade, sofisticação, incluindo imagem de marca, e autonomia nunca vista neste segmento preço. Adiantando já a conclusão, o Citroën ë-C3 não se limite a cumprir com as expectativas. Supera-as.

É tão confortável!

O ë-C3 apresenta um design compacto, mas com um toque de elegância e robustez. As linhas fluidas e a altura elevada inspirada nos SUV conferem-lhe uma presença marcante. O interior apresenta materiais convincentes e um design funcional. Um destaque especial para a suspensão Advanced Comfort, que garante uma condução suave e agradável, mesmo em pisos irregulares. É de elogiar a utilização deste sistema num carro de um segmento

 O que é reforçado pelo silêncio do motor elétrico, afinado para ser progressivo, pelos bons bancos confortáveis e pela ausência de ruídos parasitas – só mais uma prova que houve muita boa engenharia e inovação no desenvolvimento e fabrico deste ‘não-assim-tão-pequeno-carro’.

Há espaço q.b. para uma família de três ou quatro. Os bancos dianteiros oferecem bom apoio e regulação, enquanto os bancos traseiros acomodam dois adultos altos, sem que sintam os joelhos esmagados pelos bancos da frente ou as cabeças a roçar do teto. O banco do meio até permite um terceiro adulto, embora não seja recomendável. A bagageira tem capacidade para o uso diário e viagens ocasionais, mas não se pode designar por generosa. A capacidade pode ser enganadora porque há espaço em altura, mas não em profundidade.

Tecnológico q.b.

O painel de instrumentos digital, numa posição elevada, a que a Citroën chama, de forma enganadora, Head-Up Display, e o ecrã táctil de 10,25 polegadas fornecem informações claras e acesso fácil a diversas funcionalidades, como navegação, entretenimento e conectividade. Além disso, o carro conta com Apple CarPlay e Android Auto, com suporte para ligação sem fios, característica ainda ausente em carros de segmento superiores. E, claro, diversos sistemas de assistência à condução que se tornaram obrigatórios, como travagem automática para evitar choques frontais e alerta de transposição involuntária de faixa de rodagem – e, boa notícia, há um botão para desativar este alerta. É verdade que muitas das funcionalidades tecnológicas não estão disponíveis na versão de entrada (You), mas a versão intermédia (Plus, mais €2200) já tem uma lista extensa de equipamento de série, incluindo faróis LED, barras de tejadilho e a muito popular pintura ‘bi-tom’.

Os sistemas Apple CarPlay (na imagem) e Android Auto sem fios são suportados

Voltando à versão base, a mais acessível, a falta ecrã central é, em parte, compensado pela Smartphone Station onde se encaixa o smartphone, que pode, na prática, funcionar como computador de bordo e fonte de entretenimento. Uma solução prática e eficiente. O acesso remoto para controlo de carregamento também é de série, através da app MyCitroën. Na versão de topo (Max) esta app também permite controlar a climatização à distância.

Os botões físicos, incluindo os botões e sticks no volante, descomplicam a utilização. Aliás, sentimos que este é sempre um carro simples de utilizar, o que ajuda a reforçar a tal experiência de tranquilidade que sentimos a bordo. Mas há dois detalhes que nos irritaram: a chave tradicional para ligar o carro, mesmo na versão de topo, que nos remete para os anos 90 do século passado; e a falta de indicação de autonomia no painel de instrumentos (só é mostrada a percentagem da bateria).

Autonomia dá para ‘ir à terra’?

A Citroën optou por uma bateria de fosfato de ferro-lítio (LFP) de 43,7 kWh para o ë-C3. Uma química que oferece um bom compromisso entre durabilidade, custo e segurança, dispensando metais raros mais dispendiosos. A bateria garante uma autonomia de até 320 km (ciclo WLTP), permitindo uma condução despreocupada em ambientes urbanos e suburbanos. Uma autonomia que também é q.b. para viagens longas ocasionais. Até porque suporta carregamento rápido em corrente contínua até 100 kW, permitindo recuperar 60% (dos 20% aos 80%) da carga em menos de meia hora. Ainda assim, como medimos uma autonomia real em autoestrada de cerca de 200 a 240 km, as viagens acima dos 300 km vão ser penalizadas por tempos de carregamento relevantes.  Para carregamento doméstico, o carro utiliza um carregador de 7 kW, que leva cerca de 7 horas para uma carga completa.

Estes pequenos apontamentos coloridos podem ser trocados para personalizar o aspeto do carro

O motor elétrico ë-C3 entrega 113 cavalos de potência e 125 Nm de binário. Valores que estão entre os mais baixos do mercado. O carro acelera de 0 a 100 km/h em 11 segundos, mas a resposta imediata do motor elétrico proporciona uma sensação de maior agilidade no trânsito. A tração dianteira garante boa estabilidade e controle em diversas condições de condução.

Veredicto

Este é um carro que fazia falta no mercado. A conjugação entre as características e o preço faz com que o ë-C3 seja a solução de mobilidade que muitas famílias procuravam. A autonomia e a funcionalidade oferecidas adequam-se perfeitamente à realidade diária de muitos portugueses e, como referimos, o ë-C3 vai surpreender muita gente em aspetos como design, espaço interior, conforto, tecnologia e agilidade. Continua a ser mais caro que a as versões com motor a combustão, mas a diferença de custo inicial é facilmente compensada pelas poupanças acumuladas ao fim de alguns anos de utilização. E ficamos a aguardar a chegada da versão com bateria menor, que deverá democratizar ainda mais o acesso à mobilidade elétrica.

Tome Nota
Citroën ë-C3 – Desde €23.300

citroen.pt

Autonomia Satisfatório
Infoentretenimento Bom
Comunicações Bom
Apoio à condução Bom

Características Potência e binário 83 kW (113 cv), 120 Nm ○ Acel. 0-100 km/h: 11,5 s ○ Vel. máx. 135 km/h ○ Bateria: 45 kWh (44 kWh usáveis) ○ Autonomia WLTP 320 km ○ Potência de carregamento: 7,4 kW em AC e 100 kW em DC (10-80%: 32 min) ○ 1,813×1,568×4,015 m (LxAxC)

Desempenho: 4
Características: 4,5
Qualidade/preço: 5

Global: 4,5

O clima de tensão entre a Europa e os EUA já estava elevado devido à reunião bilateral entre russos e norte-americanos sobre a Ucrânia, mas, esta noite, madrugada em Portugal, Donald Trump conseguiu colocar mais umas achas na fogueira.  

O presidente norte-americano não gostou que Volodymyr Zelensky, tenha vindo a público criticar a reunião e que juntou na mesma mesa diplomatas russos e americanos, deixando a Ucrânia de fora das conversações sobre o fim da guerra. 

“Estou muito decepcionado, ouvi dizer que eles estão chateados por não terem assento [nas negociações]”, disse Trump, quando questionado sobre a reação ucraniana. E foi mais longe, quase acusando Kiev pela invasão russa, afirmando que a Ucrânia poderia ter feito um acordo para evitar a guerra, chamando Zelensky de um negociador “incompleto” que poderia ter chegado a um acordo há anos “sem a perda de muitas terras”.

Este artigo é exclusivo para assinantes. Clique aqui para continuar a ler.

Um texto do Segundo Livro de Reis, livro veterotestamentário histórico, reza assim:

 “E, voltando Eliseu a Gilgal, havia fome naquela terra, e os filhos dos profetas estavam assentados na sua presença; e disse ao seu servo: Põe a panela grande ao lume, e faze um caldo de ervas para os filhos dos profetas.
 Então um deles saiu ao campo a apanhar ervas, e achou uma parra brava, e colheu dela enchendo a sua capa de colocíntidas; e veio, e as cortou na panela do caldo; porque não as conheciam.
 Assim deram de comer para os homens. E sucedeu que, comendo eles daquele caldo, clamaram e disseram: Homem de Deus, há morte na panela. Não puderam comer. Porém ele disse: Trazei farinha. E deitou-a na panela, e disse: Dai de comer ao povo. E já não havia mal nenhum na panela” (4:38-41). 

Em época de fome, o profeta Eliseu voltou a Gilgal e mandou fazer uma sopa com as ervas que alguém colheu (colocíntidas), e todos acabaram intoxicados… A colocíntida é um fruto amargo e venenoso na forma de parra brava, nascido em trepadeira, encontrado nalgumas zonas do Médio Oriente, e não tem cheiro.

Este episódio do Antigo Testamento é muito elucidativo se considerarmos que a panela pode simbolizar a vida de cada pessoa, sendo a sopa o resultado daquilo que introduz e cozinha dentro de si.

Tal como havia fome naquele tempo, também existe hoje uma fome espiritual no mundo, que leva muita gente e colocar qualquer coisa na sua “panela”, mesmo “ervas” desconhecidas (“porque não as conheciam”). Se elas parecerem bem e não tiverem cheiro as pessoas arriscam a colhê-las para fazer sopa, mas depois percebem que o resultado é intragável, amargo e ficam doentes. Todos sabemos que as aparências iludem e o pior mal é aquele que parece bem.

Uma velha máxima do Islão diz que o crente que recita o Corão é como a laranja, porque cheira bem e sabe bem; o crente que não recita o Corão é como a tâmara, que não tem cheiro mas é doce; mas o hipócrita que não recita é como a colocíntida, que não tem cheiro mas é amarga e venenosa. No fundo, é tão perigosa como o gás inodoro que, uma vez libertado, não é detetado pelo olfato humano mas é altamente tóxico.

Afinal, que efeitos produz a “sopa” que se cozinha na vida? Por um lado pode destruir (“Homem de Deus, há morte na panela!”), e, por outro lado, produz esterilidade espiritual (na época a colocíntida era usada como anticoncecional no Egito). Portanto, a “sopa” que cada um cozinha dentro de si não só pode matá-lo espiritualmente como impedi-lo de se reproduzir na vida de outros.

Note-se que bastou apenas uma pessoa para fornecer as tais ervas venenosas para a sopa. Do mesmo modo não é necessário mais do que uma pessoa para intoxicar a vida de alguém com influências negativas. Acresce que a ignorância é uma coisa perigosa, e foi o que levou a uma colheita de plantas sem critério, pois o texto bíblico afirma que eles “não as conheciam”. Quantas vezes se introduz toxicidade na “panela”, isto é, na vida, por desconhecimento da natureza dessas “ervas”.

Mas, entretanto, algo sucedeu que mudou por completo aquela situação aflitiva. Foi a farinha lançada na panela. Do ponto de vista da fé, e sabendo-se que é deste ingrediente que se faz o pão, é inevitável associar a ideia de que Jesus é o “pão vivo que desceu do céu”, o verdadeiro antídoto para os males do homem. A toxicidade da “sopa” foi então neutralizada. Resolvido o problema era necessário “dar de comer ao povo” a fim de saciar a sua fome (“Dai de comer ao povo”), mas agora um alimento saudável e nutritivo.

Depois disso, o Deus do profeta Eliseu ainda providenciou grande abundância: “E um homem veio de Baal-Salisa, e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de cevada, e espigas verdes na sua palha, e disse: Dá ao povo, para que coma. Porém seu servo disse: Como hei-de pôr isto diante de cem homens? E disse ele: Dá ao povo, para que coma; porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará. Então lhos pôs diante, e comeram e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor” (42-44).

Cada um é que confeciona a “sopa” que há-de comer e dar aos outros a partir dos ingredientes que coloca na panela da sua vida. Por isso, fica a exortação paulina: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8). Eu sei que é cada vez mais difícil nos tempos que correm e com os exemplos públicos que se observam, mas o desafio mantém-se.

MAIS ARTIGOS DESTE AUTOR

+ O teste do algodão

+ O último estertor do homem branco americano

+ Eu é que sou o dono da bandeira!

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Nos últimos quatro anos, o Departamento de Justiça foi politizado como nunca antes”, declarou, na terça-feira, Donald Trump na Truth Social, a rede social que fundou, para justificar a demissão de “todos os procuradores remanescentes da era Biden” e a necessidade de “limpar a casa imediatamente e restaurar a confiança” no poder judicial.

É comum para um novo Presidente dos Estados Unidos substituir os 93 procuradores federais nomeados pelos antecessores. Vários dos procuradores escolhidos por Biden não esperaram pela mudança de presidência para abandonar os cargos.

No final de janeiro, o Procurador-Geral interino demitiu vários funcionários que tinham trabalhado com o procurador especial Jack Smith, que investigou os dois processos criminais federais contra Donald Trump – ambos arquivados após a eleição do republicano, em novembro.

“Não se podia confiar neles para implementar fielmente a agenda do Presidente, devido ao seu papel significativo na acusação do Presidente”, afirmou.

Trump tem atribuído os processos contra si à “instrumentalização da justiça” pela anterior líder Joe Biden.

Nos últimos anos, o dinamismo e o alcance internacional de Tiago Rodrigues – desde 2022 o primeiro diretor não francês do prestigiadíssimo Festival de Teatro de Avignon – impressiona. No primeiro semestre deste ano, há nada menos do que nove peças suas em circulação pelo mundo.

Depois de ter trazido Hécuba, não Hécuba, com a Comédie Française, ao CCB no início de janeiro, Tiago Rodrigues regressa agora, desta vez ao palco da Culturgest, com uma peça que faz todo o sentido representar em Lisboa. No Yogurt for the Dead (uma produção da companhia NTGent, que estreou a 23 de janeiro em Gante, na Bélgica) parte dos últimos dias de vida do pai de Tiago, o jornalista Rogério Rodrigues, quando estava internado no Hospital Fernando da Fonseca, onde morreu a 8 de outubro de 2019.

Se é comum as peças de Tiago Rodrigues incorporarem ligações à realidade quotidiana e do seu autor (By Heart baseava-se na relação com a avó Cândida), aqui essa aproximação é óbvia, íntima, pessoal. Mas, como sempre, isso não significa que não há espaço para o humor e a dessacralização do ritual teatral.

Já muito doente, Rogério Rodrigues (que passou pel’O Jornal, antepassado da VISÃO, e foi fundador do Público), na sua cama de hospital, pediu ao filho um bloco e uma caneta. Na capa colocou o título para esse derradeiro texto ou conjunto de apontamentos: “Os mortos já não comem iogurte.” Quando Tiago, já depois da morte do pai, pegou nesse caderno, descobriu que só esse título tinha palavras legíveis, no resto das páginas havia apenas rabiscos. “Talvez ele julgasse que estava a escrever, num estado sonhador, mas nada realmente saiu para o papel”, escreveu o dramaturgo e encenador num texto a propósito da peça.

Entre factos e ficção, entre “jornalismo e teatro”, “entre a vida e a morte”, com quatro atores em palco (Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves, dos Clã, Beatriz Brás e Lisah Adeaga), No Yogurt for the Dead é o conteúdo desse caderno vazio, construído pelos olhos e a imaginação de um filho, Tiago.

No Yogurt for the Dead > Culturgest > R. do Arco do Cego, 50, Lisboa > 19-21 fev, qua-sex 21h, 22 fev, sáb 15h30 e 19h, 23 fev, dom 17h > €20 > Theatro Circo > Av. da Liberdade, 697, Braga > 27-28 fev, qui-sex 21h30 > €15

Se tivéssemos de pensar no itinerário poético de Maria Teresa Horta (MTH), facilmente destacaríamos do conjunto da sua obra esse livro de impacto internacional (e a questão política que se lhe associou no quadro do fascismo), Novas Cartas Portuguesas (1972) escrito com Maria Isabel Barreno (1939-2016) e Maria Velho da Costa (1938-2020).

A questão autoral é, quanto a esse livro, indissociável do projecto híbrido de uma escrita feita a três e do que, revolucionariamente, esse livro contém de disrupção dos códigos literários, pois que tudo nele é pretexto para questionar verdades anquilosadas, as sexuais, as políticas, as sociais e as da policiada linguagem.

Sempre com a questão feminina como alegoria e símbolo da opressão que os poderes exercem sobre os corpos e as ideias, as palavras e os comportamentos, o que essas “novas cartas” inauguram é um fazer verbal absolutamente novo, prolongando o diálogo entre os anos 60 e 70 e as vanguardas de início de novecentos, num processo de fabricação de uma estranha, e por isso criativíssima expressão lírico-romanesca que, como bem viu Eduardo Lourenço, fez da geração que se revela literariamente nos anos de 1960, essa que o ensaísta crismou como “os filhos de Álvaro de Campos”.

Maria Teresa Horta não pedia menos à existência do que o ela ser uma vida com os olhos postos na verdadeira vida num algures iluminado pelo signo poético

De entre os quatro ou cinco autores verdadeiramente revolucionários e inovadores das formas de disrupção do literário – Almeida Faria (1943), Luiza Neto Jorge (1939), Fiama (1938-2007), Gastão Cruz (1941-2022) – MTH foi a que mais radicalmente encarnou, no contexto dos anos de 1960-1970, forma de estar na vida que, como o seu lido e relido Rimbaud, não pedia menos à existência do que o ela ser uma vida com os olhos postos na verdadeira vida num algures iluminado pelo signo poético.

A sua obra reflete, por isso mesmo, as imbricadas relações entre uma escrita e uma biografia.

Será sempre redutor catalogá-la em função de qualquer forma de feminismo, pois MTH, como deixou escrito em inúmeras entrevistas, testemunhos, textos, intervenções, não fez dessa bandeira de afirmação do corpo e da sexualidade, do papel social da mulher numa sociedade cujas formas de dominação foram e são concretizadas por uma ideologia concentracionária de poder masculino, um discurso contra os homens.

O seu percurso de poeta é, como bem viu Maria João Reynaud em prefácio à edição de Poesia Reunida (Dom Quixote, 2009), inseparável de uma ética que é fundada numa estética.

Essa estética não a quis nunca MTH transformar numa afirmação de um sexo contra o outro, buscando antes uma complementaridade, mesmo se é evidente a dimensão intimista do seu discurso.

Poética no epicentro de uma revolução linguística

Mesmo podendo ser confessional, a sua lira não alinha na exasperação sentimental, preferindo antes uma depuração que se vê nessa “imaginística geometrizante” e nessa “valorização prosódica em alto grau” do que, vindo dos anos de 1950, tinha sido a procura de uma expressão a um tempo arquitetural e material da palavra.

A sua poética inscreve-se, desde 1960, quando publica em edição própria, Espelho Inicial, precisamente no epicentro de uma revolução linguística que se não compreende fora do combate moral dos corpos, do amor e do desejo.

Se esse combate é um combate por Eros, é-o porque é a escrita da poesia se faz combate pela vida num tempo de recrudescimento de novos paternalismos. MTH perseguirá sempre a palavra vivificadora, cantabile, cultivando uma brevidade que espelha bem quanto a sua voz não era compatível com grandiloquências e retóricas declarações de princípio.

Perseguirá sempre a palavra vivificadora, cantabile, cultivando uma brevidade que espelha bem quanto a sua voz não era compatível com grandiloquências e retóricas declarações de princípio

Uma poesia musical, sem dúvida, com uma criatividade verbal assente em subtis jogos fonomelódicos tentando, pelo ludus de um corpo a corpo entre palavra dita e palavra escrita, palavra da polis e palavras da intimidade, responder, desafiando-os, a esses paternalismos.

Nessa colectânea de 1960, nas vésperas de um guerra que ceifou as vidas de milhares de jovens e roubou o amor e a liberdade de mulheres e homens jovens, a Poeta erguiar essa palavra contra o um país fechado em si mesmo, adormecido e morte pela longa noite do fascismo: “seguimos / ampliados de vontade / contra o tempo” (PR, 47).

Com os seus companheiros de aventura editorial da Poesia 61 (Fiama, Casimiro de Brito, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge), não hesitará em gravar o erotismo dos beijos na cidade asfixiante como mandamento (leia-se o “Poema para Noite”).

Fazer seu o tema do corpo e do sexo, exclamar a fruição dos sentidos é um gesto que – com consequências práticas na vida da autora, vítima da violência dos esbirros da PIDE, perseguida, cobardemente sovada, numa rua de Lisboa, por homens que detestavam a sua palavra e acção livres; interrogada, sempre olhada de lado já mesmo em tempo de democracia por ter a coragem de apontar o dedo aos “capitalistas das palavras” (expressão de Sophia que poderia ter sido dita por Teresa) – a evolução da sua obra erige-se contra a ordem simbólica da linguagem da opressão.

Nesse sentido, a sua poesia um grito de libertação (a presença o magistério teórico-poético de Ramos Rosa foi, de resto, muito claramente seguido por MTH) também contra a instituição falocrática do sistema literário; poesia-tatuagem de forma a ficar inscrita a sua voz na pele do corpo social, tatuagem impossível de apagar, de remover.

Só cortando, ferindo seria possível anular a presença dessa voz de combate que é poético e político, mas não panfletário, antes consciente fazer da poesia como inscrição, palavra marmórea, experiência estética sentida e pensada até ao osso: “Ossifico a dor/ o dia// Tatuagem/ de tatuar o espaço/ livre” (PR, 123).

Em 1971, depois dos decisivos livros da década anterior onde o eco das albas e das barcarolas é resgatado (e nisto muito lhe deve a poesia medieval, relida com enorme originalidade pelas três poetas maiores de 1960 – Fiama, MTH e Luiza Neto Jorge), aprofunda-se o diálogo com a figura do anjo, ou o tema do angelismo que, de resto, era ainda uma forma de filiação de MTH com certas zonas da nossa poesia da década de 50 (penso em Echevarría e sua espiritualidade).

Espiritualidade do corpo

Obsessiva presença, a de Rilke, mas também de certa tradição mística que passa por Hildegarda de Bingen e vem até Emily Dickinson, o angelismo originalíssimo da autora de Mulheres de Abril (1977) tem, em 1980, com a publicação de Os Anjos (Litexa, 1983) a sua mais plena estesia.

De certo modo, nesse livro se cristaliza uma determinada codificação da poesia, isto é, um código “maria teresa horta” por meio do qual a poesia se associa à espiritualidade e ao corpo.

Um código de livre circulação de imagens fálicas com imagens poético-esotéricas: em MTH a aventura dos sexos que não dispensará nunca a metafísica desses sexos. Entre 1971 e 1983, portanto, consolida-se em definitivo uma forma de linguagem que será inimitável.

MTH faz da escolha de certas palavras do campo da sexualidade feminina (clítoris, vagina, metáforas como “boca do corpo”, “púbis”, “líquido”), uma via de democratização do que seria, mesmo depois de 1974, julgado por demais heterodoxo.

Esse angelismo sexual, essa erótica verbal (que é a poesia, disse-o Octavio Paz), chega até um dos mais importantes livros já neste século, Poesis (Dom Quixote, 2017) onde MTH reafirma a sua profissão de fé no poder criador e vidente das poetisas.

Percurso de enorme coerência estética e ética, depois de volumes tão relevantes como Tatuagem (plaquete de Poesia 61), Cidadelas Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Candelabro (1964), Cronista não é recado (1967), publicados sempre na Guimarães Editores, chancela relevantíssima à época, sublinhe-se.

E atinge com Minha Senhora de Mim o zénite absoluto e, como disse anteriormente, com esse livro se funda um código inteiramente seu.

Há, com efeito, versos desse livro – na sua concisão e desenho vertical, na sobriedade e economia métrica e versificatória, na sábia modulação entre o dizer o erotismo e o sugerir outros veios do lirismo tradicional – que são lapidares e que hoje, em 2025, continuam a surtir enorme efeito (é ler em voz alta poemas de Teresa e ver a reação dos ouvinte, entre o fascínio e o incómodo).

Livro essencial, pois: para dizer o tópico da tristeza, a saudade, o motivo da mãe, o amor como vício e veneno, de camoniana linhagem; para reequacionar os lugares do lírico escrito pelo feminino, os textos desse livro põem em funcionamento um eu introspetivo (“Regresso para mim/ e de mim falo”), em conflito com a cisão (“e desdigo de mim/ em reencontro”) que, necessariamente, tem de se posicionar perante aquele “falar” masculino em poesia que, por ser fala, é o símbolo – o falo da fala – a enfrentar.

Maria Teresa Horta – a voz que, já depois do 25 de Abril escreve o libelo mais impressionante contra a violência doméstica em Portugal […] sempre soube que a luta pela liberdade (valor absoluto para ela) é uma luta pela palavra livre dita por um corpo igualmente livre.

Um poema exemplar deve ser lembrado: “Comigo me desavim/ minha senhora/ de mim // sem ser dor ou ser cansaço/ nem o corpo que disfarço” (reedição, Dom Quixote, 2015).  Um lirismo, pois, que é, sobretudo, um lirismo da linguagem porque é a língua para uma outra poesia o que MTH incessantemente procurou e, procurando essa outra língua para a poesia, procurou-se na poesia: “desperta a causa/ e desperta a língua/ a procurar o meu prazer/ na ferida” (idem).

Os inúmeros pontos de intersecção deste livro marcante da sua obra com o temário do mors amor da tradição cancioneiril (a sábia absorção do tópico dos olhos tristes que, dos cantares de amor medievais, pejados de coita, a João Roiz de Castel-Branco e Sá de Miranda, passando pelo motivo da “menina”, vindo de Bernardim, tudo isso é tratado, magistralmente, pela poeta), essa entrega a um ofício quase mágico da palavra de que é a oficiante inspirada por um Daimon (feminino, natureza naturada e natureza naturante), estas e outras chaves de leitura devem ser relacionados com o que de Júlia Kristeva e de Simone de Beauvoir MTH aprendeu.

Há um aspecto essencial a ter em conta para voltar a lê-la, e que, a meu ver, deriva dessa teia de relações ora subtis, ora mais evidentes, entre a construção dos seus livros e textos e a conceção da literatura como um grande corpo de textos a fruir e a conhecer, prazerosamente, com o júbilo de uma aventura amorosa.

Maria Teresa Horta – a voz que, já depois do 25 de Abril escreve o libelo mais impressionante contra a violência doméstica em Portugal, corpo de textos atualíssimo pelo dramatismo das cenas poéticas, pela imaginação dos poemas-relato, pela forte carga do lirismo trágico feito a partir de notícias de jornais – sempre soube que a luta pela liberdade (valor absoluto para ela) é uma luta pela palavra livre dita por um corpo igualmente livre.

Se quisermos reaprender a ler Maria Teresa Horta é essa ideia de texto-trama-tecido que, como ofício realizado por uma Penélope anunciadora, teremos de compreender.

A autora de Feiticeiras (2006) sempre soube que é a cultura ocidental e as suas tramas emaranhadas da História o que está em causa ler e desfiar. Apostando todas as fichas na dedicação à arte da palavra – a poesia – podia igualmente ter feito seu o verso de Jorge de Sena: “Fiel dedicação à honra de estar vivo”.

Uma fidelidade que se sente mesmo nos seus últimos livros – lembro As Palavras do Corpo (2012), A Dama e o Unicórnio (2013), ou Anunciações (2016) – e que, pelo gozo das formas poéticas, pela manipulação verbal que era um corpo a corpo com a poesia e a sua historicidade, só como gesto político, sem entrar em modas e sem ceder ao fácil, pode ler-se.

Palavras-chave:

Para a maior parte dos grandes museus e instituições culturais, o mês de fevereiro assinala o momento em que se começam a inaugurar as primeiras exposições do ano. Porém, importa não esquecer que nem só de museus vive o tecido expositivo nacional.

As galerias de arte têm vindo a desempenhar um papel determinante na apresentação do trabalho tanto de artistas com uma longa carreira como de artistas emergentes, bem como o diálogo entre ambos. Prova disso são, por exemplo, as duas exposições que, até aos primeiros dias de março, encontram-se patentes na Galeria Francisco Fino e na Kubikgallery Lisboa.

Ressuscitar a arte perdida de mentir

Fundada há 13 anos, e com um portefólio do qual fazem parte nomes como Gabriel Abrantes, João Penalva ou Vasco Araújo, a Galeria Francisco Fino apresenta agora, até dia 8 de março, Holbein Syndrome, uma exposição coletiva dedicada ao trabalho das jovens artistas Joana Coelho, Inês Mendes Leal, Maria Máximo e Inês Raposo, com curadoria de Francisca Portugal.

A mostra vai buscar o nome a Hans Holbein, pintor renascentista imortalizado por inserir uma perturbadora vanitas no seu The Ambassadors, acrescentando camadas de leitura ao que seria apenas um retrato oficial.

A ideia era que, inspiradas por este gesto, as artistas criassem obras capazes de interrogar “os limites da ilusão e da mentira, fazendo uso de perceções e de truques de vocabulário”, explica a curadora.

Em Holbein Syndrome, a ilusão toma formas variadas. Pode ser o Cavalo de Tróia de Maria Máximo, que é completamente transparente, mas também a pintura a óleo de Inês Raposo, que mimetiza uma parede de madeira, as composições em grafite de Joana Coelho, nas quais o desenho nasce do que se apaga da folha de papel, ou ainda a instalação de Inês Mendes Leal, onde o ribombar de trovões, apesar de parecer real, é uma imitação desse mesmo som feita por uma bateria.

Em Forecast, instalação de Inês Mendes Leal, o ribombar de trovões, apesar de parecer real, é uma imitação desse mesmo som feita por uma bateria

Em suma, Francisca Portugal desafiou as artistas a “ressuscitar a arte perdida de mentir”, como diria Oscar Wilde no revolucionário O Declínio da Mentira, fazendo de Holbein Syndrome um espaço onde, inevitavelmente, ecoam algumas das mais importantes ideias da teoria estética do autor de O Retrato de Dorian Gray.

Isto é, “a arte nunca exprime outra coisa que não seja ela própria”, devendo por isso existir livre do contexto histórico, da ditadura do realismo e com permissão para continuar a criar “mentiras” que despertem na vida a vontade e a necessidade de imitá-la.

Uma ode ao Tempo

Já a portuense Kubikgallery, após ter aberto também na capital, em setembro de 2024, com uma exposição que colocava em diálogo artistas portugueses e brasileiros, propõe agora, sempre no espaço lisboeta, um diálogo inter-geracional.

Até 1 de março, a galeria apresenta YEPSEN(S), termo inglês medieval que designa a medida de volume equivalente ao que cabe dentro das mãos quando colocadas em concha, com obras de Pedro Tudela [1962] e Sérgio Fernandes [1985].

“Há uma seleção das obras mais recentes dos dois artistas, mas não é uma seleção curatorial. É algo mais próximo de um ponto de situação de cada um deles, daquilo que estão a viver neste momento”, explica João Azinheiro, fundador da Kubikgallery.

YEPSEN(S) reflete sobre diversas ideias de tempo

Apesar de não haver curadoria, o galerista aponta “uma tentativa de se falar sobre o tempo”. A referência mais evidente será a obra TEMPO, de Tudela, na qual as letras da palavra surgem impressas em cinco bandeiras balneares cuja cor foi comida pelo sol, ou o tempo meteorológico, e as fibras de tecido desfizeram-se com a passagem dos anos, época balnear após época balnear, um tempo muito bem definido dentro dos nossos calendários.

Talvez devido à extensa investigação sonora que pauta a sua prática artística, Pedro Tudela remete-nos depois para uma outra conceção de tempo – o musical – seja através de instalações como % (static), constituída por dois discos de vinil que reproduzem o som do momento em que a agulha está prestes a poisar, ou de desenhos onde se intuem as linhas de uma pauta musical, a qual parece ganhar vida e movimento na escultura ~~~~~.

Os movimentos, ritmos e sons sugeridos pelas obras de Tudela definem uma espécie de partitura invisível, lida por Sérgio Fernandes e interpretada em diversas pinturas a óleo sobre tela.

Como se de numa verdadeira sonata se tratasse, Heartbeat surge qual allegro feito da mistura pujante de encarnados, pretos e castanhos, dando lugar, depois, aos movimentos lentos de Adágio, tela de dimensões contidas e exemplo de um jogo de luz e sombra semelhante ao de certas cenas noturnas de Rambrandt. Triunfante, enérgico, ritmado, o scherzo irrompe, por fim, sob a forma de explosões de preto sobre amarelo, em il n’a pas de mouvement sans rythme.

A conversa, ou peça a quatro mãos, como lhe quisermos chamar, propaga-se pelas paredes da galeria e, quem sabe, pelo tempo que ainda está para vir.

E se o teatro fosse capaz de vencer a morte? Em No Yogurt for the Dead, que se estreia na Culturgest a 19 de fevereiro, e a 27, no Theatro Circo, em Braga, Tiago Rodrigues, ator, encenador, dramaturgo e produtor português, atualmente Diretor do Festival d’Avignon, em França, tenta alcançar esta vitória.

A peça “traz de volta à vida” o jornalista Rogério Rodrigues, pai do encenador, baseando-se no último episódio da sua vida. Tiago imaginou as palavras que, apesar de já não ter conseguido, o pai gostaria de ter escrito nos seus últimos dias, passados num hospital, criando um relato entre a realidade e a ficção, o jornalismo e a poesia, daquilo que é a experiência da doença terminal.

Tiago imaginou as palavras que, apesar de já não ter conseguido, o pai gostaria de ter escrito nos seus últimos dias, passados num hospital

Com uma carreira de 40 anos, ao dar entrada no hospital, pouco tempo antes de morrer, Rogério Rodrigues pediu ao filho que lhe levasse um caderno, pois queria documentar “a sua experiência desumanizante naquele lugar, bem como as histórias dos outros pacientes, médicos e visitas”.

“O jornalismo era a sua forma de morrer”, contou o encenador numa entrevista ao NTGent, co-produtor do espetáculo juntamente com a Culturgest.

Porém, após a morte do pai, ao abrir o caderno, Tiago encontrou apenas o título No Yogurt for the Dead seguido de algumas linhas, pontos e rabiscos impercetíveis.

Misturando factos e ficção, deu forma a um espetáculo que defende ser, mais do que um tributo ao pai, uma tentativa de “encontrar conforto, humanidade e até alegria no ato de recordar aqueles que amamos”.

Num cenário onírico, entre a realidade e a ficção

O cenário assemelha o de um sonho, não demasiado abstrato, não demasiado concreto. Duas camas de hospital, que têm exatamente o aspeto que se espera de uma cama de hospital, encontram-se num vale que tanto poderia ser uma cratera lunar como a dobra de um lençol feito para alguma criatura gigante.

Deitado numa das camas, Rogério passa os dias entre as trivialidades hospitalares e as grandes questões filosóficas que assolam, com igual intensidade, quem está destinado a uma morte a curto prazo. O ritmo é marcado pelas conversas, discussões e recordações trocadas com os médicos, os filhos, o vizinho de cama e “a pior enfermeira do mundo”.

A narrativa corre para frente e para trás, entre passado e presente, até nos esquecermos o que é facto e o que é ficção, o que são recordações dos filhos e o que são recordações da “pior enfermeira do mundo”, o que são histórias contadas pelo próprio Rogério e o que são histórias que os que o conheceram contram sobre ele.

A peça marca o regresso de Tiago Rodrigues à Culturgest, quase um ano após ter feito subir ao mesmo palco Na Medida do Impossível, espetáculo transformado agora num livro editado pela Tinta da China, que será lançado a 20 de fevereiro, às 18h30, no Auditório 2 da Culturgest, com a presença do autor.

Culturgest > R. do Arco do Cego, 50, Lisboa > 19-21 fev, qua-sex 21h, 22 fev, sáb 15h30 e 19h, 23 fev, dom 17h > €20 // Theatro Circo > Av. da Liberdade, 697, Braga > 27-28 fev, qui-sex 21h30 > €15

Palavras-chave:

Aprendi a ler sozinha, comigo mesma, menina magrinha, mãos de fuso no tecer das páginas dos livros indevidos para a pouca idade, que às escondidas, subindo as escadas da biblioteca do meu pai, tirava das estantes, para depois, aninhada no chão, mal soletrando, tentar seguir linha após linha, a querer desvendar histórias a maior parte das vezes para mim sem sentindo, mas das quais, sem saber porquê, ficava suspensa.

“Palavras de manso linho”, ouvia ao longe cantar minha avó, distraindo-se de mim, afinal mais secreta do que eu escondida na penumbra do escritório, ela com os seus segredos de sufragista clandestina, comigo apenas por testemunha calada, sem perceber o significado das reuniões a que me levava: mãos dadas as duas, estugando o passo, vento descendo a querer desfazer os laços das tranças atiradas para trás das costas do meu casaco de fazenda inglesa azul escura com golinha de veludo. Aragem a tornar-se mais forte na subida, a fazer desequilibrar o chapéu de feltro preto mal preso por dois pregos de minúsculas pedrarias negras nos seus cabelos muito brancos.

“Vá Teresinha, que chegamos atrasadas” – apressava-me, baixinha e delgada, olhar de violeta aceso, ao empurrar com os dedos afuselados, parecendo feitos de papel de seda, o portão de ferro forjado da Casa-Jardim, onde se reunia com fascinantes mulheres no início de algumas tardes.

E apesar de curiosa e atenta, de imediato me resguardava na sua anca a defender-me, cara escondida no seu fato de seda com cheiro a alfa- zema. Mas logo elas me disputavam, pegando-me por baixo dos braços, a sentarem-me nos colos macios e perfumados ou nos joelhos luzidios das meias de seda, entoando com riso alto nas vozes ora estridentes ora suaves, “Ó menina, ó menina dos olhos azuis!”

E eu, envergonhada, de imediato os fechava, sentindo-me um pouco tonta e perdida, mas sem susto; enquanto elas continuavam a passar-me de umas para as outras, até que por fim a minha avó me chamava para si, indagando: “Não falas à Maria?”

E quando, anos mais tarde, a Maria Lamas me afirmou “Andei consigo ao colo”, de imediato me lembrei do seu então jovem olhar entornado de mel, e do leve cheiro a pelica das luvas tiradas com vagares de cuidado, para me dar os rebuçados guardados para mim nos seus bolsos.

Era a altura de abrirem as pequenas caixas de cartolina fraca, os embrulhos onde se acomodavam os bolos que algumas traziam para o lanche, e o momento de eu adivinhar qual era o livro da colecção Joaninha que a minha avó me havia comprado.

Em seguida esquecia-me pela berma daquele manso rio, dividida entre a margem maravilhosa da escrita no seu deslindar palavra a palavra e a margem de onde observava subir a maré empolgada das vozes femininas, feita com a espuma do sonho, enquanto elas iam arquitetando o futuro.

Esquecia-me pela berma daquele manso rio, dividida entre a margem maravilhosa da escrita no seu deslindar palavra a palavra e a margem de onde observava subir a maré empolgada das vozes femininas, feita com a espuma do sonho, enquanto elas iam arquitetando o futuro

Se no entanto interpelavam minha avó – “Porquê Camila? Explica!” –, levantava o rosto inclinado para olhá-la, tão delicada e segura no responder, serenidade tranquila e lisa, mas igualmente de conforto e agasalho. Depois, voltava a mergulhar naquele que sempre foi o meu universo, dependente desse vício mágico.

“A menina já lê?” – admiravam-se ao princípio, e eu hesitava na resposta, não destrinçando entre aquilo que lia e aquilo que inventava, numa mistura de prazer infinito im- possível de explicar aos outros.

“Palavras de manso linho”, ouvia cantar à distância minha avó, som abafado pelas carpetes das salas, os tapetes dos quartos, as passadeiras do corredor pequeno e do corredor comprido, ignorando ela assim a minha ausência, enquanto eu espiava no escritório do meu pai, para onde me escapava quando era possível, a deleitar-me quer com o cheiro dos livros, mistura almiscarada de papel e de pele das encadernações, quer com a descoberta dos títulos das lomba- das, instável no cimo da escada de madeira encerada a escolher um deles, para ir enroscar-me no sofá de veludo perto da janela entreaberta, passando e repassando pelo sentido das frases, e assim aprendendo a lê-las, alinhando-as umas a seguir às outras, através da história.

Volumes grossos a custo retidos nas mãos pequenas, dificilmente a mantê-los direitos, apoiados nos joelhos subidos, descalça, pernas encolhidas na maciez do assento. E ainda sei alguns dos seus títulos, nessa altura para mim tão difíceis: Uma Família Inglesa, Olhai os Lírios do Campo, Dom Quixote de la Mancha, A Filha do Regicida, A Cidade e as Serras.

E eu ali me demorava as horas que me olvidavam.

Continuando neste momento a ver surgir minha mãe por entre os cortinados que tapavam a porta, vestido de cetim a moldar-lhe as coxas altas, pele de uma transparência de cristal de rocha, e de tão loura – luz.

A empurrar-me com o tom áspero da sua permanente insatisfação e ressentimento: “Nunca largas os livros? Vai para o quintal brincar com as tuas irmãs rapariga, vai brincar!” Mas ficava satisfeita quando era a minha avó a reclamar-me, num murmúrio baixo, jeito cúmplice a aproximar-nos mais uma da outra – “Depressa Teresinha, é dia de irmos” –, e eu já sabia aonde, coração aos pulos, alvoroçada.

Ficava satisfeita quando era a minha avó a reclamar-me, num murmúrio baixo, jeito cúmplice a aproximar-nos mais uma da outra – “Depressa Teresinha, é dia de irmos” –, e eu já sabia aonde, coração aos pulos, alvoroçada

E lá seguíamos de eléctrico, misteriosas, como nos filmes do Éden ou do Politeama: heroínas enigmáticas a despistarmos quem nos seguia – esmerava-me no imaginar – e quando regressávamos a casa, a horas de roçar o crepúsculo, não me lembro de alguma vez a minha avó ter esclarecido o meu pai, seu filho, sobre o lugar de onde vínhamos. Deixando nebuloso o sítio, a morada, e todos os nomes daquelas surpreendentes amigas.

“Anda, anda, que não começam sem termos chegado”, entusiasmava-me ao transformar-me numa delas, e eu, passo miúdo, quase corria a seu lado, pulso fininho agarrado pela sua mão seca, tépida e terna, num fechar de pulseira.

E desse modo, asinhas, lá nos íamos esgueirando pelo Verão ou pelo Inverno, bolos de creme e baunilha num pacote atado com laço azul celeste, oculto sob uma das abas-asas da sua capa escura, erguendo-se à cadência transparente do andar alado, a reforçar-lhe o ar de fada que na realidade era.

Não me lembro de alguma vez a minha avó ter esclarecido o meu pai, seu filho, sobre o lugar de onde vínhamos. Deixando nebuloso o sítio, a morada, e todos os nomes daquelas surpreendentes amigas […] “Anda, anda, que não começam sem termos chegado”, entusiasmava-me ao transformar-me numa delas, e eu, passo miúdo, quase corria a seu lado, pulso fininho agarrado pela sua mão seca, tépida e terna

E quando nos atrasávamos demais, mal abríamos o portão e o sininho pendurado do lado de dentro tocava num som metálico e alegre, logo elas corriam ao nosso encontro, por entre os jacarandás, as rosas rubras e a magnólia do jardim, reclamando aliviadas: “Ainda bem que chegaram, vêm tão tarde, demoraram tanto”, falando ao mesmo tempo e fazendo-me festas.

Ainda gosto de relembrar aquela agitação, aquela espécie de esvoaçar pela casa, numa confusão harmoniosa de perfumes misturados: gardénia e madressilva, de água de rosas, de colónia, de pó-de-arroz e rouge, onde me perdia escutando o roçagar das écharpes de chiffon e das saias de tafetá escarlate das mais novas, lábios carmim, unhas compridas pintadas de vermelho e cabelos puxados ao alto, à refugiada.

“Porque não trazes a tua nora?”, indagavam admiradas, e a minha avó disfarçava desviando a conversa, sem querer confessar estarmos ambas ali às escondidas, nem o facto de a minha mãe preferir por certo e por hábito ir tomar chá às pastelarias da Baixa, indiferente ao que acontecia no mundo.

E por- que quase todas entendiam o súbito mal-estar, passavam à frente, a iniciarem outra daquelas discussões compridas e melodiosas aos meus ouvidos, apesar de permanecerem difusas nas recordações guardadas.

Nunca porém as reuniões começavam antes de me ser entregue o livro dessa tarde: depois da coleção Joaninha, a Manecas, e meses mais tarde Os Desastres de Sofia e As Meninas Exemplares, da Biblioteca das Raparigas. Um dia deram- me As Pupilas do Senhor Reitor, reclamando outra, condoída: “Coitadinha da menina, não vai perceber nada”.

Mas ao lê-lo, pressenti um dissonante travo adulto, a sobressaltar-me. Por isso, jamais desligo esses inesperados, ousa- dos e arriscados encontros feministas, no auge do Estado Novo, ao singular fusionamento dos universos moralistas da Condessa de Ségur e do Júlio Dinis.

Em perfeita sintonia.

Pelo avesso um do outro.

In JL 918, de 7 de dezembro de 2005