De um lado, um novo clube, ali para os lados do Lumiar, com campo próprio, balneários de água quente e bolas a estrear a cada jogo. Do outro, na zona do Restelo, o Sport Lisboa, desesperadamente à procura de um sítio para treinar e jogar, de preferência sem “vestiários” ao relento nem banhos de alguidar com água do poço, ainda que, à primeira vista, não faça tanta diferença assim que a bola seja levada pelos próprios jogadores.
A não ser que, de um dia para o outro, os irmãos Rosa Rodrigues, fundadores do clube e donos da dita cuja, fiquem de castigo e impedidos pelo pai de praticar futebol. No campo das Salésias, casa emprestada do Sport Lisboa, os imprevistos acontecem. Ora o terreno é invadido pela cavalaria ao serviço da monarquia, transformando-o numa espécie de “batatal”, ora a juventude mais irrequieta o atravessa, indiferente às correrias daqueles outros humanos atrás do objeto redondo. E é num desses atrevimentos que um dos irmãos Catatau, como são mais conhecidos, choca com um “intruso” e lhe parte a perna, com a polícia a ser chamada ao local. Consequência: o castigo familiar de uns termina com a interrupção da atividade futebolística no clube.

É neste impasse que entra em cena o Sporting Clube de Portugal, o tal que se instalara no Lumiar com condições acima da média, pela mão de José Holtreman Roquette, neto do visconde de Alvalade. Corre o ano de 1906, e o assédio aos jogadores do Sport Lisboa, que em breve acrescentaria Benfica ao nome, convence oito a mudarem de ares, incluindo os irmãos Catatau, mas não Cosme Damião. “Os tipos do Sport Lisboa levaram a mal e abre-se a primeira rivalidade entre os dois clubes”, sustenta o jornalista e escritor Afonso de Melo, autor do livro Pior do que Inimigos, Eram Irmãos (ed. Prime Books), um desfiar de histórias sobre os primórdios do derby eterno, com base em jornais e livros da época.
As coisas aquecem logo nos anos seguintes, dentro e fora de campo, mas ao longo da história, perpetuada nas chuteiras dos “Cinco Violinos”, de Eusébio, Simões e companhia “magriça”, de Yazalde, João Pinto e tantos outros, sobejam episódios por contar de uma rivalidade saudável. É o caso da saída apressada do benfiquista Humberto Coelho e do sportinguista João Laranjeira do quartel da tropa, obviamente fardados, transportados no mesmo carro diretamente para o estádio. Ou dos duelos nas máquinas de basquetebol, durante as férias em Vilamoura, entre Carlos Xavier e Rui Costa, adiante relatados na primeira pessoa, nas vésperas de o derby lisboeta voltar a concentrar atenções, em dose dupla, no campeonato e na Taça de Portugal, como não se via há 51 anos, desde 1974.
O chá e as bolas
A bola a cheirar a novo não exibe todo o seu esplendor sem um chá a condizer após o apito final, para servir às senhoras presentes. Depois de um jogo com o Carcavellos, a maior potência de então, à custa dos ingleses com jeito nos pés e a trabalhar por cá nos cabos submarinos, o visconde de Alvalade convida jogadores, dirigentes e imprensa para um banquete na casa dele.
No Restelo, Félix Bermudes e Cosme Damião juntam os cacos para reerguer o Sport Lisboa – é o primeiro, mais tarde presidente do Benfica, atleta olímpico e dramaturgo, quem oferece a nova bola. A 1 de dezembro de 1907, o primeiro derby da História opõe os antigos companheiros de equipa, em lados opostos da barricada. Vence o Sporting, por 2-1, com chuva a potes. Escreve o jornal Os Sports, citado na obra de Afonso de Melo: “O Sport Lisboa esteve bem, mas com muita infelicidade e talvez esta motivada pelo estado de enervação do Sport Lisboa, por se encontrar com um grupo formado por antigos irmãos cuja recordação é um fel.”
Duas decisões em números
Campeonato e Taça vão ficar na capital e tudo se resolve em duas semanas
49 vitórias do Benfica em casa
Em 90 derbies para o campeonato com os encarnados no papel de anfitriões, o triunfo sorriu-lhes em 54% das vezes. Já o Sporting só venceu em 16 ocasiões (18%), alcançando 25 empates (28%), dois resultados que o beneficiariam na partida deste sábado.
61 jogos com golos do Sporting
Os leões marcam na maior parte das visitas ao rival em encontros da liga – foi assim em 61 dos 90 jogos (68%). No entanto, é raro o derby em que não sofrem golos. O Benfica só ficou em branco em nove ocasiões, festejando, pelo menos uma vez, nas restantes 81, o que corresponde a 91% do total.
90 títulos de campeão nacional
O Benfica lidera a lista, com 38 troféus, seguido de FC Porto (30) e Sporting (20), sendo que Belenenses e Boavista também já celebraram, uma vez. No sábado, 17, o mais tardar, saber-se-á onde vai parar o 91º, mas só se águias e leões não levarem a melhor no derby, no caso das águias por dois golos de diferença mínima.
1996 ano do último derby na final da Taça
Duas semanas depois do jogo que pode decidir o campeonato, a 25 de maio é a vez de os rivais lisboetas disputarem, no Estádio Nacional, a final da Taça de Portugal. É apenas a nona decisão entre Benfica e Sporting, em 85 edições da prova, e acontece após um interregno de 29 anos. O emblema da Luz soma 26 conquistas, enquanto o de Alvalade coleciona 17.
A mágoa há de perdurar, mas dá-se a fusão com o Sport Clube de Benfica, em 1908, e os encarnados desatam a ganhar jogos, já nas novas instalações, ao rival verde e branco, que desiste em duas edições consecutivas do Campeonato de Lisboa, com críticas à arbitragem e à organização da prova. No ano seguinte, em abril de 1911, o Benfica-Sporting termina ainda antes do intervalo, por falta de segurança, na sequência de um golo polémico validado aos anfitriões.
“O público envolve-se em zaragatas. Há cenas de pugilato entre espectadores e os combates entornam-se para dentro do campo. Ouvem-se gritos. Vislumbra-se o aço das lâminas das navalhas”, lê-se no livro de Afonso de Melo.
Dois meses passam, e o Sporting recusa voltar a medir forças com o Benfica, que vence sem jogar. Chegam as férias, pazes feitas. Novo confronto em abril de 1912, o benfiquista Artur José Pereira é expulso por reclamar com o árbitro, mas nega-se a sair de campo. Farto, quem desaparece é o homem do apito. É chamado outro, antigo jogador do Sporting, que reverte a ordem de expulsão do seu antecessor, qual VAR em viagem ao passado.

Em 1914, ainda sem troféus no Campeonato de Lisboa, o Sporting aproveita uma insubordinação de Artur José Pereira, com direito a suspensão por seis meses, para desafiar um dos craques do rival: 36 escudos por mês e “preferência no uso do banho quente”, benefício que se mantinha na vanguarda dos mais procurados. Com ele seguem mais dois na direção do Lumiar, e o Sporting acaba por fazer, no ano seguinte, sob o leme de Francisco Stromp, a festa do primeiro de 18 títulos em Lisboa.
De tempos a tempos, o caldo entorna-se. Na decisão do Regional de 1919, novos desacatos dentro e fora das quatro linhas. Três jogadores são expulsos, dois por se agredirem mutuamente, e há relatos de revólveres entre os adeptos. Alguns terão chegado a invadir o campo.
Peyroteo e Eusébio
O derby que também é clássico em Portugal segue vivo e de boa saúde para as décadas seguintes, rumo à eternidade. Aproxima-se a hegemonia de Peyroteo, Albano, Jesus Correia, Vasques e Travassos, coroada com sete títulos de campeão nacional em oito temporadas (1946/47 a 1953/54), feito único na história do Sporting, só ao alcance dos “Violinos”. Fernando Peyroteo, com 336 golos em 12 épocas, é o máximo goleador de sempre do campeonato e fica diretamente colado à conquista de 1947/48, a do “pirulito”, quando um só golo dita a diferença para o Benfica.
É por esta altura, em 1952, que um hat-trick de Rogério Pipi leva a Taça de Portugal para os encarnados, num 5-4 cheio de cambalhotas no marcador, mas os verdadeiros tempos gloriosos do clube hão de chegar na década de 1960. Eusébio da Silva Ferreira, desviado do Sporting de Lourenço Marques para a Luz, tem grandes responsabilidades nessa folha de serviço, também assinada à cabeça por José Águas, Coluna, Simões, José Augusto e José Torres. Entre 1960 e 1977, juntando-lhe a geração de Toni, Humberto Coelho, Vítor Batista, Bento e Nené, o Benfica arrecada 14 títulos de campeão contra apenas quatro do rival lisboeta, cavando um fosso a seu favor onde ele não existia.

São tempos, ainda assim, de forte desportivismo entre adversários, com uma exceção aqui e acolá. “Eu era muito amigo do Damas e muito amigo do Yazalde, tal como ainda hoje sou amigo do Hilário. Claro que dentro de campo havia rivalidade, mas depois era normal os jogadores de Benfica e Sporting almoçarem uns com os outros”, partilha Humberto Coelho, sublinhando que as presenças na seleção ajudavam na aproximação.
Por outro lado, o antigo capitão dos encarnados considera que a exposição mediática de hoje, intensificada pelas redes sociais, “cria um ambiente mais hostil, que antes não existia”, promovendo “estados de espírito, por vezes, completamente exagerados”. Dá um exemplo inverso, de descontração plena. Estava ele de castigo na tropa, por causa do cabelo comprido, em semana de derby, não se recorda bem em que época, certamente anos 1970, e o Benfica conseguiu que o libertassem à última hora. “O Laranjeira, do Sporting, também lá estava no quartel, de castigo, e fomos os dois a conversar o caminho todo, fardados, enquanto nos transportavam de carro para o estádio. Chegámos e já estavam as duas equipas a aquecer, só com dez jogadores, à nossa espera”, rebobina, divertido.
Nesses jogos grandes, acrescenta, era habitual o prémio de vitória aumentar. E Humberto Coelho admite que, por “não haver salários astronómicos como os de agora”, os jogadores sentiam ainda mais a importância de dar o litro, para levarem mais uns cifrões para casa. O incentivo extra, no seu caso, nunca poderia era hipotecar a noção de fair play, bem patente numa mensagem trocada com Manuel Fernandes, antes de um derby na Luz, em 1983, já com o Benfica campeão, e que corre no YouTube. “Não são discursos ensaiados, são palavras que saem no momento, do coração”, garante, sobre a resposta daquele dia ao capitão leonino, outra das amizades que lhe deu o rival lisboeta.
“As melhores iscas do mundo”
Na reta final da carreira de futebolista, Humberto Coelho ainda viu um jovem Carlos Xavier conquistar pelo Sporting o título de campeão em 1981/82, antes da primeira grande travessia do deserto do clube de Alvalade, a fechar o século XX. O médio depois adaptado a lateral direito revela que, nos anos 1980, sobrevivia o espírito de manter amizades com adversários do outro lado da Segunda Circular.
Álvaro, Veloso, Shéu e Chalana eram alguns dos mais próximos, mas é para um encontro fortuito na estrada, com o sueco Mats Magnusson, goleador do Benfica entre 1987 e 1992, que a memória o leva. “Um dia estou no trânsito para o treino em Alvalade e vejo uma pessoa que me parecia aflita, como se estivesse atrapalhada para chegar a algum lado. Reconheço-o, faço sinais de luzes e digo-lhe para seguir atrás de mim. Eu sabia os atalhos todos, meto-me pelos caminhos de Monsanto que ele não conhecia e chegou a horas”, descreve Carlos Xavier. “Ainda hoje somos muito amigos, trocamos mensagens no Facebook e, quando ele cá vem, procura-me sempre.”

O bar de Paulo China, em Vilamoura, era um ponto de encontro bem mais provável para os futebolistas, nos idos anos de 1980 e 1990, em período de férias. O empresário até costumava organizar uma “peladinha” entre todos, em modo descompressão, seguido de momentos de confraternização. De repente, o antigo capitão leonino lembra-se do óbvio, com dois Benfica-Sporting à porta. “Quando começou a haver muita confusão, deixei de fazer férias em Vilamoura, mas apanhei muitas vezes o Rui Águas e o Rui Costa. Havia lá aquelas máquinas de basquetebol e entrava numa competição tremenda com o Rui Costa para ver quem batia o recorde. Em Moçambique, tinha jogado basquetebol quando era miúdo e, então, era sempre a pôr moedas na máquina. Claro que ganhava sempre eu”, ri-se, inspirado pelos dérbis de lançamentos com o atual presidente do Benfica.
Eram “tempos saudáveis” salienta, pelo menos na relação entre jogadores. A esse propósito, mesmo antes de terminar, pede para voltarmos a contactar Humberto Coelho. Explica que gosta muito de culinária e adianta que o benfiquista não perde uma oportunidade de lhe telefonar quando sabe que há iscas na ementa. Ficamos de perguntar ao Beckenbauer português que tal é a iguaria do sportinguista. “São as melhores iscas do mundo”, ouvimos de imediato. “O Carlos Xavier é um dos meus melhores amigos”, remata Humberto.

Amigos, amigos, negócios à parte. Ao cabo de 51 anos, Benfica e Sporting voltam a decidir entre si os dois principais troféus nacionais. É verdade, não acontecia desde 1974, quando Héctor Yazalde carregou os leões às costas até ao título de campeão, anotando um recorde de 46 golos, e Marinho consumou a dobradinha no Jamor, já durante o prolongamento.
Ángel di María e Viktor Gyökeres, dois animais competitivos, habituados a resolver, estão pouco se marimbando para estes detalhes e o mesmo se aplica a todos os que vão pisar o relvado, do Estádio da Luz ou do Estádio Nacional. Como eles, já estiveram em tempos Humberto Coelho e Carlos Xavier, Eusébio e Peyroteo, Cosme Damião e Francisco Stromp. São sempre os próximos capítulos do derby que importam. E ainda mais quando o grande duelo entre os velhos rivais está de volta à ribalta.
O duelo nas academias
Chalana, Rui Costa e Bernardo Silva contra Futre, Figo e Ronaldo. Benfica e Sporting sempre foram viveiros do melhor talento nacional e, nas últimas décadas, tornaram-se fornecedores privilegiados das grandes ligas europeias. Os cofres agradecem

Desde que o futebol europeu, nos anos 1980, começou a abrir portas a mais jogadores estrangeiros e, sobretudo, após a Seleção Nacional de sub-20 se ter sagrado bicampeã do mundo, no arranque da década seguinte, o sucesso dos jovens formados em cada clube passou a ser tópico obrigatório, em matéria de rivalidade entre Benfica e Sporting.
A Fernando Chalana e Paulo Futre, dois pioneiros a desbravar caminhos além-fronteiras, na senda de João Alves e Vítor Damas, seguiram-se os não menos distintos Rui Costa e Luís Figo, líderes de uma geração de ouro que catapultou o futebol português, como um todo, para outras ambições e para outros campeonatos.
De repente, com a entrada em vigor da chamada Lei Bosman, na segunda metade dos anos 1990, a livre circulação de futebolistas nos países da União Europeia alargou o mercado como nunca se vira, com inevitáveis repercussões no campo desportivo, mas também financeiro. Forjar novos talentos tornou-se um modo de vida para clubes fora das ligas mais endinheiradas, e Benfica e Sporting depressa perceberam o que fazer numa era de globalização e concorrência feroz: apostar na formação para reforçar o plantel e o orçamento.
No início do novo século, ainda antes da construção das academias dos grandes rivais lisboetas, em terrenos da margem sul do Tejo, surgiu o fenómeno Cristiano Ronaldo. Chegado a Alvalade com 12 anos, o madeirense viveu debaixo das bancadas do antigo estádio, no chamado lar do jogador, e é o principal responsável pelo facto de, nos últimos 20 anos, o Sporting ser o terceiro maior fornecedor do mundo das cinco ligas mais cotadas (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França).
Segundo um relatório do Observatório do Futebol, divulgado em fevereiro, José Fonte, João Moutinho, Eric Dier e Mário Rui completam o top 5 dos futebolistas formados em Alvalade que acumularam mais tempo de jogo, nos referidos campeonatos, desde a época 2005/06. Rui Patrício, Rafael Leão, Nani, Miguel Veloso, Simão Sabrosa, Luís Boa Morte, William Carvalho ou Adrien Silva são outros nomes mencionados, mas não o de Ricardo Quaresma, um virtuoso da escola leonina que não vingou no Barcelona, no Inter de Milão nem no Chelsea.
Milhões em caixa
Entre os grandes abastecedores externos das melhores ligas, os leões são superados pelo Ajax e pelo River Plate, neste critério do tempo de utilização. Se prevalecer, antes, o total de talentos exportados para esses destinos, ficam apenas atrás dos neerlandeses (73 contra 64). Já o Benfica, 13º e quinto classificado (45) nestes dois rankings que refletem dados acumulados de duas décadas, lidera globalmente nos proveitos obtidos com jogadores formados em casa (mínimo de três anos passados nos escalões jovens, entre os 15 e os 21 anos, indica o citado observatório, sediado na Suíça).
Na mais recente atualização, que engloba o período de dez anos entre o início de 2014 e o final de 2023, a academia do Seixal é apresentada como a mais rentável do mundo, graças a uma faturação de €516 milhões neste período. Além do recordista João Félix (€126 M), Rúben Dias aproximou-se da fasquia dos €70 milhões, enquanto Renato Sanches e Gonçalo Guedes atingiram a casa dos €30 milhões.
Os nomes de Bernardo Silva e João Cancelo, transferidos por €15M antes de se afirmarem na equipa principal, também não podem ser esquecidos quando se fala em talento forjado na Luz, assim como os de Gonçalo Ramos e João Neves, que renderam tanto como Félix, mas, uma vez que as suas transferências só se concretizaram no verão passado, não estão contabilizados no relatório.
O mesmo é válido para Geovany Quenda e Dario Essugo – futuros jogadores do Chelsea, a troco de €73M –, o que não impede o Sporting de ocupar o sétimo lugar na lista de academias que mais faturam no mundo, num total de €306 milhões (2014-2023). Uma autêntica galinha dos ovos de ouro para continuar a alimentar, nos dois lados da Segunda Circular.
Como nasceram e evoluíram as maiores rivalidades
O mau perder e a interferência política, as lutas regionais e de classes, a vizinhança e as posições de princípio, a violência e até o remo estão na base dos grandes despiques do futebol mundial

Barcelona x Real Madrid
Vitórias em jogos oficiais: 103-105 (52 empates)
Primeiro, o Barcelona não gostou que, ao eliminar o adversário nas meias-finais de um torneio organizado pelo Madrid, em 1905, o clube anfitrião tenha improvisado um jogo (não previsto) para a atribuição do terceiro lugar. Depois, em 1908, em visita à Catalunha, foram as queixas do árbitro num jantar conjunto das duas equipas, após nova derrota perante o Barça.
O que começou mal nunca se endireitou. Com a chegada do ditador Franco ao poder, em 1939, a rivalidade desportiva invadiu o campo político. O grande clube da capital simbolizava o desprezo pela região catalã, cuja língua foi proibida. Verdadeira ou não, alimentou-se a ideia de que, por ordem de Franco, os árbitros favoreciam os da capital. Desde então, o Real é conotado com a Espanha centralista e monárquica e o Barcelona com os independentistas da Catalunha e os republicanos.
Dentro de campo, houve hegemonia de ambos os lados: o Real de Di Stefano e de Hugo Sánchez, o Barça de Cruijff e de Guardiola. E, claro, os inesquecíveis duelos entre Cristiano e Messi para apimentar a história. Pelo meio, Figo trocou de barricada e foi o que se viu. Em títulos de campeão nacional, o Real está na frente, com 36 contra 27, mas em 1990 estava 25-10.

Liverpool x Manchester United
Vitórias em jogos oficiais: 72-83 (61 empates)
Os homens da cidade dos Beatles andaram quase sempre na frente, no que respeita a conquistas do campeonato – no caso inglês, já vem desde o século XIX –, e distanciaram-se do rival nos anos 1970 e 1980, sob o comando de Bob Paisley e de Kenny Dalglish.
Foi então que surgiu um tal de Alex Ferguson que, em duas décadas, recuperou 11 troféus de atraso e posicionou o Manchester United na dianteira, superando, também, o Everton e o Arsenal. Schmeichel, Cantona, Roy Keane, Scholes, Giggs, Rooney e Ronaldo ajudaram à reviravolta.
Nesta temporada, o Liverpool voltou a empatar uma contenda (20-20) que ferveu na década de 1960, entre os pupilos de Bill Shankly e Matt Busby, mas cujas origens ultrapassam o futebol. Separadas por pouco mais de 50 quilómetros, no Noroeste de Inglaterra, pelo menos desde a Revolução Industrial que as duas cidades já competiam economicamente e por tudo e mais alguma coisa, porque, em última análise, joga-se o estatuto de capital do Norte.

AC Milan x Inter de Milão
Vitórias em jogos oficiais: 91-82 (71 empates)
Apesar de ter sido fundado, em 1899, por uma dupla de ingleses, o AC Milan só admitia italianos na equipa. A regra levou à dissidência de um grupo de adeptos, que decidiu criar o Internazionale, por cá conhecido como Inter de Milão. Tal como o nome original indicia, podiam representar o clube jogadores de todas as origens.
A rivalidade acentuou-se, sobretudo, a partir da década de 1950, quando os dois emblemas de Milão já partilhavam o Estádio San Siro e o derby passou a designar-se “della Madonnina”, nome da estátua da Virgem Maria situada no topo da catedral da cidade.
A Juventus predomina nos títulos de campeão (36), enquanto o Inter soma 20 e o Milan 19. É normal jogadores vestirem as cores de ambos, como são disso exemplos Giuseppe Meazza, Roberto Baggio, Ibrahimovic, Seedorf, Pirlo ou Ronaldo, o brasileiro. Paolo Maldini é recordista de presenças no derby, com 56.

Flamengo x Fluminense
Vitórias em jogos oficiais: 166-142 (147 empates)
O Fla-Flu, ou o clássico das multidões, como lhe chamou o jornalista brasileiro Mário Filho, é muito mais do que um derby do Rio de Janeiro – onde, em 2012, ano do centenário, ganhou estatuto de património imaterial. Em dezembro de 1963, no Estádio Maracanã, compareceram 194 603 espectadores, um recorde mundial até hoje, num duelo a contar para o campeonato estadual.
Foi nesta competição, durante muitos anos a prova-rainha nos vários estados e ainda hoje muito popular, que cresceu o antagonismo entre Flamengo e Fluminense, mas ele existe desde sempre. Isto porque o Flamengo era um clube dedicado ao remo, até criar o departamento de futebol em 1911. Os responsáveis? Nove jogadores do Fluminense, sendo o principal instigador da cisão Alberto Borgerth, que era, ao mesmo tempo, remador no Fla e futebolista no Flu.
Assim nascia aquele que é hoje um dos clubes de futebol mais populares do mundo, ainda atrás do rival no que toca a campeonatos estaduais conquistados – mas com um avanço considerável nos nacionais (16-5). Zico, com 19 golos, ídolo do Flamengo, é o rei dos goleadores.

Boca Juniors x River Plate
Vitórias em jogos oficiais: 92-88 (84 empates)
O superclássico de Buenos Aires, impregnado de sangue latino, é uma loucura social. Nascidos no mesmo bairro da capital argentina, o operário La Boca, cedo os dois clubes tiveram de separar-se para evitar confrontos entre adeptos. Corria 1920 quando o River se mudou para Belgrano, no lado norte da cidade, mais aburguesado, abandonando o Sul.
Pior a emenda do que o soneto: a rivalidade assumiu contornos de “povo contra a elite”, numa mistura explosiva que já provocou algumas tragédias, ainda que, com o tempo, o contraste entre apoiantes se tenha diluído. Basta dizer que são os dois emblemas do país com mais adeptos – estima-se que aglutinem mais de 70% do total.
O La Bombonera, do Boca, e o Monumental, do River, são dois estádios que proporcionam ambientes escaldantes. Em junho de 1968, o segundo foi palco do dia mais mortífero do futebol argentino, quando 71 pessoas morreram esmagadas ao tentarem abandonar o recinto após um superclássico sem golos. No plano desportivo, o River leva vantagem nos títulos de campeão nacional: 38-35.
