De um lado, um novo clube, ali para os lados do Lumiar, com campo próprio, balneários de água quente e bolas a estrear a cada jogo. Do outro, na zona do Restelo, o Sport Lisboa, desesperadamente à procura de um sítio para treinar e jogar, de preferência sem “vestiários” ao relento nem banhos de alguidar com água do poço, ainda que, à primeira vista, não faça tanta diferença assim que a bola seja levada pelos próprios jogadores.

A não ser que, de um dia para o outro, os irmãos Rosa Rodrigues, fundadores do clube e donos da dita cuja, fiquem de castigo e impedidos pelo pai de praticar futebol. No campo das Salésias, casa emprestada do Sport Lisboa, os imprevistos acontecem. Ora o terreno é invadido pela cavalaria ao serviço da monarquia, transformando-o numa espécie de “batatal”, ora a juventude mais irrequieta o atravessa, indiferente às correrias daqueles outros humanos atrás do objeto redondo. E é num desses atrevimentos que um dos irmãos Catatau, como são mais conhecidos, choca com um “intruso” e lhe parte a perna, com a polícia a ser chamada ao local. Consequência: o castigo familiar de uns termina com a interrupção da atividade futebolística no clube.

Gyokeres Desde a época passada, e ao invés de outros tempos, a ameaça sueca veste de verde; ao lado, Travassos e José Águas

É neste impasse que entra em cena o Sporting Clube de Portugal, o tal que se instalara no Lumiar com condições acima da média, pela mão de José Holtreman Roquette, neto do visconde de Alvalade. Corre o ano de 1906, e o assédio aos jogadores do Sport Lisboa, que em breve acrescentaria Benfica ao nome, convence oito a mudarem de ares, incluindo os irmãos Catatau, mas não Cosme Damião. “Os tipos do Sport Lisboa levaram a mal e abre-se a primeira rivalidade entre os dois clubes”, sustenta o jornalista e escritor Afonso de Melo, autor do livro Pior do que Inimigos, Eram Irmãos (ed. Prime Books), um desfiar de histórias sobre os primórdios do derby eterno, com base em jornais e livros da época.

As coisas aquecem logo nos anos seguintes, dentro e fora de campo, mas ao longo da história, perpetuada nas chuteiras dos “Cinco Violinos”, de Eusébio, Simões e companhia “magriça”, de Yazalde, João Pinto e tantos outros, sobejam episódios por contar de uma rivalidade saudável. É o caso da saída apressada do benfiquista Humberto Coelho e do sportinguista João Laranjeira do quartel da tropa, obviamente fardados, transportados no mesmo carro diretamente para o estádio. Ou dos duelos nas máquinas de basquetebol, durante as férias em Vilamoura, entre Carlos Xavier e Rui Costa, adiante relatados na primeira pessoa, nas vésperas de o derby lisboeta voltar a concentrar atenções, em dose dupla, no campeonato e na Taça de Portugal, como não se via há 51 anos, desde 1974.

O chá e as bolas

A bola a cheirar a novo não exibe todo o seu esplendor sem um chá a condizer após o apito final, para servir às senhoras presentes. Depois de um jogo com o Carcavellos, a maior potência de então, à custa dos ingleses com jeito nos pés e a trabalhar por cá nos cabos submarinos, o visconde de Alvalade convida jogadores, dirigentes e imprensa para um banquete na casa dele.

No Restelo, Félix Bermudes e Cosme Damião juntam os cacos para reerguer o Sport Lisboa – é o primeiro, mais tarde presidente do Benfica, atleta olímpico e dramaturgo, quem oferece a nova bola. A 1 de dezembro de 1907, o primeiro derby da História opõe os antigos companheiros de equipa, em lados opostos da barricada. Vence o Sporting, por 2-1, com chuva a potes. Escreve o jornal Os Sports, citado na obra de Afonso de Melo: “O Sport Lisboa esteve bem, mas com muita infelicidade e talvez esta motivada pelo estado de enervação do Sport Lisboa, por se encontrar com um grupo formado por antigos irmãos cuja recordação é um fel.”

Duas decisões em números

Campeonato e Taça vão ficar na capital e tudo se resolve em duas semanas

49 vitórias do Benfica em casa
Em 90 derbies para o campeonato com os encarnados no papel de anfitriões, o triunfo sorriu-lhes em 54% das vezes. Já o Sporting só venceu em 16 ocasiões (18%), alcançando 25 empates (28%), dois resultados que o beneficiariam na partida deste sábado.

61 jogos com golos do Sporting
Os leões marcam na maior parte das visitas ao rival em encontros da liga – foi assim em 61 dos 90 jogos (68%). No entanto, é raro o derby em que não sofrem golos. O Benfica só ficou em branco em nove ocasiões, festejando, pelo menos uma vez, nas restantes 81, o que corresponde a 91% do total.

90 títulos de campeão nacional
O Benfica lidera a lista, com 38 troféus, seguido de FC Porto (30) e Sporting (20), sendo que Belenenses e Boavista também já celebraram, uma vez. No sábado, 17, o mais tardar, saber-se-á onde vai parar o 91º, mas só se águias e leões não levarem a melhor no derby, no caso das águias por dois golos de diferença mínima.

1996 ano do último derby na final da Taça
Duas semanas depois do jogo que pode decidir o campeonato, a 25 de maio é a vez de os rivais lisboetas disputarem, no Estádio Nacional, a final da Taça de Portugal. É apenas a nona decisão entre Benfica e Sporting, em 85 edições da prova, e acontece após um interregno de 29 anos. O emblema da Luz soma 26 conquistas, enquanto o de Alvalade coleciona 17.

A mágoa há de perdurar, mas dá-se a fusão com o Sport Clube de Benfica, em 1908, e os encarnados desatam a ganhar jogos, já nas novas instalações, ao rival verde e branco, que desiste em duas edições consecutivas do Campeonato de Lisboa, com críticas à arbitragem e à organização da prova. No ano seguinte, em abril de 1911, o Benfica-Sporting termina ainda antes do intervalo, por falta de segurança, na sequência de um golo polémico validado aos anfitriões.

“O público envolve-se em zaragatas. Há cenas de pugilato entre espectadores e os combates entornam-se para dentro do campo. Ouvem-se gritos. Vislumbra-se o aço das lâminas das navalhas”, lê-se no livro de Afonso de Melo.

Dois meses passam, e o Sporting recusa voltar a medir forças com o Benfica, que vence sem jogar. Chegam as férias, pazes feitas. Novo confronto em abril de 1912, o benfiquista Artur José Pereira é expulso por reclamar com o árbitro, mas nega-se a sair de campo. Farto, quem desaparece é o homem do apito. É chamado outro, antigo jogador do Sporting, que reverte a ordem de expulsão do seu antecessor, qual VAR em viagem ao passado.

Festa Depois de o Benfica ter erguido, em1961, a sua primeira Taça dos Campeões Europeus, o Sporting celebrou a Taça das Taças, em 1964

Em 1914, ainda sem troféus no Campeonato de Lisboa, o Sporting aproveita uma insubordinação de Artur José Pereira, com direito a suspensão por seis meses, para desafiar um dos craques do rival: 36 escudos por mês e “preferência no uso do banho quente”, benefício que se mantinha na vanguarda dos mais procurados. Com ele seguem mais dois na direção do Lumiar, e o Sporting acaba por fazer, no ano seguinte, sob o leme de Francisco Stromp, a festa do primeiro de 18 títulos em Lisboa.

De tempos a tempos, o caldo entorna-se. Na decisão do Regional de 1919, novos desacatos dentro e fora das quatro linhas. Três jogadores são expulsos, dois por se agredirem mutuamente, e há relatos de revólveres entre os adeptos. Alguns terão chegado a invadir o campo.

Peyroteo e Eusébio

O derby que também é clássico em Portugal segue vivo e de boa saúde para as décadas seguintes, rumo à eternidade. Aproxima-se a hegemonia de Peyroteo, Albano, Jesus Correia, Vasques e Travassos, coroada com sete títulos de campeão nacional em oito temporadas (1946/47 a 1953/54), feito único na história do Sporting, só ao alcance dos “Violinos”. Fernando Peyroteo, com 336 golos em 12 épocas, é o máximo goleador de sempre do campeonato e fica diretamente colado à conquista de 1947/48, a do “pirulito”, quando um só golo dita a diferença para o Benfica.

É por esta altura, em 1952, que um hat-trick de Rogério Pipi leva a Taça de Portugal para os encarnados, num 5-4 cheio de cambalhotas no marcador, mas os verdadeiros tempos gloriosos do clube hão de chegar na década de 1960. Eusébio da Silva Ferreira, desviado do Sporting de Lourenço Marques para a Luz, tem grandes responsabilidades nessa folha de serviço, também assinada à cabeça por José Águas, Coluna, Simões, José Augusto e José Torres. Entre 1960 e 1977, juntando-lhe a geração de Toni, Humberto Coelho, Vítor Batista, Bento e Nené, o Benfica arrecada 14 títulos de campeão contra apenas quatro do rival lisboeta, cavando um fosso a seu favor onde ele não existia.

Lendas Guilherme Espírito Santo, o guarda-redes José Henrique e o capitão Mário Coluna, três nomes históricos do Benfica

São tempos, ainda assim, de forte desportivismo entre adversários, com uma exceção aqui e acolá. “Eu era muito amigo do Damas e muito amigo do Yazalde, tal como ainda hoje sou amigo do Hilário. Claro que dentro de campo havia rivalidade, mas depois era normal os jogadores de Benfica e Sporting almoçarem uns com os outros”, partilha Humberto Coelho, sublinhando que as presenças na seleção ajudavam na aproximação.

Por outro lado, o antigo capitão dos encarnados considera que a exposição mediática de hoje, intensificada pelas redes sociais, “cria um ambiente mais hostil, que antes não existia”, promovendo “estados de espírito, por vezes, completamente exagerados”. Dá um exemplo inverso, de descontração plena. Estava ele de castigo na tropa, por causa do cabelo comprido, em semana de derby, não se recorda bem em que época, certamente anos 1970, e o Benfica conseguiu que o libertassem à última hora. “O Laranjeira, do Sporting, também lá estava no quartel, de castigo, e fomos os dois a conversar o caminho todo, fardados, enquanto nos transportavam de carro para o estádio. Chegámos e já estavam as duas equipas a aquecer, só com dez jogadores, à nossa espera”, rebobina, divertido.

Nesses jogos grandes, acrescenta, era habitual o prémio de vitória aumentar. E Humberto Coelho admite que, por “não haver salários astronómicos como os de agora”, os jogadores sentiam ainda mais a importância de dar o litro, para levarem mais uns cifrões para casa. O incentivo extra, no seu caso, nunca poderia era hipotecar a noção de fair play, bem patente numa mensagem trocada com Manuel Fernandes, antes de um derby na Luz, em 1983, já com o Benfica campeão, e que corre no YouTube. “Não são discursos ensaiados, são palavras que saem no momento, do coração”, garante, sobre a resposta daquele dia ao capitão leonino, outra das amizades que lhe deu o rival lisboeta.

“As melhores iscas do mundo”

Na reta final da carreira de futebolista, Humberto Coelho ainda viu um jovem Carlos Xavier conquistar pelo Sporting o título de campeão em 1981/82, antes da primeira grande travessia do deserto do clube de Alvalade, a fechar o século XX. O médio depois adaptado a lateral direito revela que, nos anos 1980, sobrevivia o espírito de manter amizades com adversários do outro lado da Segunda Circular.

Álvaro, Veloso, Shéu e Chalana eram alguns dos mais próximos, mas é para um encontro fortuito na estrada, com o sueco Mats Magnusson, goleador do Benfica entre 1987 e 1992, que a memória o leva. “Um dia estou no trânsito para o treino em Alvalade e vejo uma pessoa que me parecia aflita, como se estivesse atrapalhada para chegar a algum lado. Reconheço-o, faço sinais de luzes e digo-lhe para seguir atrás de mim. Eu sabia os atalhos todos, meto-me pelos caminhos de Monsanto que ele não conhecia e chegou a horas”, descreve Carlos Xavier. “Ainda hoje somos muito amigos, trocamos mensagens no Facebook e, quando ele cá vem, procura-me sempre.”

Ata António Bente, do Sporting, e Vítor Silva, do Benfica, ao lado da ata da fundação do clube encarnado

O bar de Paulo China, em Vilamoura, era um ponto de encontro bem mais provável para os futebolistas, nos idos anos de 1980 e 1990, em período de férias. O empresário até costumava organizar uma “peladinha” entre todos, em modo descompressão, seguido de momentos de confraternização. De repente, o antigo capitão leonino lembra-se do óbvio, com dois Benfica-Sporting à porta. “Quando começou a haver muita confusão, deixei de fazer férias em Vilamoura, mas apanhei muitas vezes o Rui Águas e o Rui Costa. Havia lá aquelas máquinas de basquetebol e entrava numa competição tremenda com o Rui Costa para ver quem batia o recorde. Em Moçambique, tinha jogado basquetebol quando era miúdo e, então, era sempre a pôr moedas na máquina. Claro que ganhava sempre eu”, ri-se, inspirado pelos dérbis de lançamentos com o atual presidente do Benfica.

Eram “tempos saudáveis” salienta, pelo menos na relação entre jogadores. A esse propósito, mesmo antes de terminar, pede para voltarmos a contactar Humberto Coelho. Explica que gosta muito de culinária e adianta que o benfiquista não perde uma oportunidade de lhe telefonar quando sabe que há iscas na ementa. Ficamos de perguntar ao Beckenbauer português que tal é a iguaria do sportinguista. “São as melhores iscas do mundo”, ouvimos de imediato. “O Carlos Xavier é um dos meus melhores amigos”, remata Humberto.

Enchente O dérbi é jogo de casa cheia e, tal como na velha Luz, não haverá lugares vazios no estádio novo

Amigos, amigos, negócios à parte. Ao cabo de 51 anos, Benfica e Sporting voltam a decidir entre si os dois principais troféus nacionais. É verdade, não acontecia desde 1974, quando Héctor Yazalde carregou os leões às costas até ao título de campeão, anotando um recorde de 46 golos, e Marinho consumou a dobradinha no Jamor, já durante o prolongamento.

Ángel di María e Viktor Gyökeres, dois animais competitivos, habituados a resolver, estão pouco se marimbando para estes detalhes e o mesmo se aplica a todos os que vão pisar o relvado, do Estádio da Luz ou do Estádio Nacional. Como eles, já estiveram em tempos Humberto Coelho e Carlos Xavier, Eusébio e Peyroteo, Cosme Damião e Francisco Stromp. São sempre os próximos capítulos do derby que importam. E ainda mais quando o grande duelo entre os velhos rivais está de volta à ribalta.

O duelo nas academias

Chalana, Rui Costa e Bernardo Silva contra Futre, Figo e Ronaldo. Benfica e Sporting sempre foram viveiros do melhor talento nacional e, nas últimas décadas, tornaram-se fornecedores privilegiados das grandes ligas europeias. Os cofres agradecem

Desde que o futebol europeu, nos anos 1980, começou a abrir portas a mais jogadores estrangeiros e, sobretudo, após a Seleção Nacional de sub-20 se ter sagrado bicampeã do mundo, no arranque da década seguinte, o sucesso dos jovens formados em cada clube passou a ser tópico obrigatório, em matéria de rivalidade entre Benfica e Sporting.

A Fernando Chalana e Paulo Futre, dois pioneiros a desbravar caminhos além-fronteiras, na senda de João Alves e Vítor Damas, seguiram-se os não menos distintos Rui Costa e Luís Figo, líderes de uma geração de ouro que catapultou o futebol português, como um todo, para outras ambições e para outros campeonatos.

De repente, com a entrada em vigor da chamada Lei Bosman, na segunda metade dos anos 1990, a livre circulação de futebolistas nos países da União Europeia alargou o mercado como nunca se vira, com inevitáveis repercussões no campo desportivo, mas também financeiro. Forjar novos talentos tornou-se um modo de vida para clubes fora das ligas mais endinheiradas, e Benfica e Sporting depressa perceberam o que fazer numa era de globalização e concorrência feroz: apostar na formação para reforçar o plantel e o orçamento.

No início do novo século, ainda antes da construção das academias dos grandes rivais lisboetas, em terrenos da margem sul do Tejo, surgiu o fenómeno Cristiano Ronaldo. Chegado a Alvalade com 12 anos, o madeirense viveu debaixo das bancadas do antigo estádio, no chamado lar do jogador, e é o principal responsável pelo facto de, nos últimos 20 anos, o Sporting ser o terceiro maior fornecedor do mundo das cinco ligas mais cotadas (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França).

Segundo um relatório do Observatório do Futebol, divulgado em fevereiro, José Fonte, João Moutinho, Eric Dier e Mário Rui completam o top 5 dos futebolistas formados em Alvalade que acumularam mais tempo de jogo, nos referidos campeonatos, desde a época 2005/06. Rui Patrício, Rafael Leão, Nani, Miguel Veloso, Simão Sabrosa, Luís Boa Morte, William Carvalho ou Adrien Silva são outros nomes mencionados, mas não o de Ricardo Quaresma, um virtuoso da escola leonina que não vingou no Barcelona, no Inter de Milão nem no Chelsea.

Milhões em caixa

Entre os grandes abastecedores externos das melhores ligas, os leões são superados pelo Ajax e pelo River Plate, neste critério do tempo de utilização. Se prevalecer, antes, o total de talentos exportados para esses destinos, ficam apenas atrás dos neerlandeses (73 contra 64). Já o Benfica, 13º e quinto classificado (45) nestes dois rankings que refletem dados acumulados de duas décadas, lidera globalmente nos proveitos obtidos com jogadores formados em casa (mínimo de três anos passados nos escalões jovens, entre os 15 e os 21 anos, indica o citado observatório, sediado na Suíça).

Na mais recente atualização, que engloba o período de dez anos entre o início de 2014 e o final de 2023, a academia do Seixal é apresentada como a mais rentável do mundo, graças a uma faturação de €516 milhões neste período. Além do recordista João Félix (€126 M), Rúben Dias aproximou-se da fasquia dos €70 milhões, enquanto Renato Sanches e Gonçalo Guedes atingiram a casa dos €30 milhões.

Os nomes de Bernardo Silva e João Cancelo, transferidos por €15M antes de se afirmarem na equipa principal, também não podem ser esquecidos quando se fala em talento forjado na Luz, assim como os de Gonçalo Ramos e João Neves, que renderam tanto como Félix, mas, uma vez que as suas transferências só se concretizaram no verão passado, não estão contabilizados no relatório.

O mesmo é válido para Geovany Quenda e Dario Essugo – futuros jogadores do Chelsea, a troco de €73M –, o que não impede o Sporting de ocupar o sétimo lugar na lista de academias que mais faturam no mundo, num total de €306 milhões (2014-2023). Uma autêntica galinha dos ovos de ouro para continuar a alimentar, nos dois lados da Segunda Circular.

Como nasceram e evoluíram as maiores rivalidades

O mau perder e a interferência política, as lutas regionais e de classes, a vizinhança e as posições de princípio, a violência e até o remo estão na base dos grandes despiques do futebol mundial

(VISAO 398 – 26/10/2000)

Barcelona x Real Madrid
Vitórias em jogos oficiais: 103-105 (52 empates)

Primeiro, o Barcelona não gostou que, ao eliminar o adversário nas meias-finais de um torneio organizado pelo Madrid, em 1905, o clube anfitrião tenha improvisado um jogo (não previsto) para a atribuição do terceiro lugar. Depois, em 1908, em visita à Catalunha, foram as queixas do árbitro num jantar conjunto das duas equipas, após nova derrota perante o Barça.

O que começou mal nunca se endireitou. Com a chegada do ditador Franco ao poder, em 1939, a rivalidade desportiva invadiu o campo político. O grande clube da capital simbolizava o desprezo pela região catalã, cuja língua foi proibida. Verdadeira ou não, alimentou-se a ideia de que, por ordem de Franco, os árbitros favoreciam os da capital. Desde então, o Real é conotado com a Espanha centralista e monárquica e o Barcelona com os independentistas da Catalunha e os republicanos. 

Dentro de campo, houve hegemonia de ambos os lados: o Real de Di Stefano e de Hugo Sánchez, o Barça de Cruijff e de Guardiola. E, claro, os inesquecíveis duelos entre Cristiano e Messi para apimentar a história. Pelo meio, Figo trocou de barricada e foi o que se viu. Em títulos de campeão nacional, o Real está na frente, com 36 contra 27, mas em 1990 estava 25-10.

Liverpool x Manchester United
Vitórias em jogos oficiais: 72-83 (61 empates)

Os homens da cidade dos Beatles andaram quase sempre na frente, no que respeita a conquistas do campeonato – no caso inglês, já vem desde o século XIX –, e distanciaram-se do rival nos anos 1970 e 1980, sob o comando de Bob Paisley e de Kenny Dalglish.

Foi então que surgiu um tal de Alex Ferguson que, em duas décadas, recuperou 11 troféus de atraso e posicionou o Manchester United na dianteira, superando, também, o Everton e o Arsenal. Schmeichel, Cantona, Roy Keane, Scholes, Giggs, Rooney e Ronaldo ajudaram à reviravolta.

Nesta temporada, o Liverpool voltou a empatar uma contenda (20-20) que ferveu na década de 1960, entre os pupilos de Bill Shankly e Matt Busby, mas cujas origens ultrapassam o futebol. Separadas por pouco mais de 50 quilómetros, no Noroeste de Inglaterra, pelo menos desde a Revolução Industrial que as duas cidades já competiam economicamente e por tudo e mais alguma coisa, porque, em última análise, joga-se o estatuto de capital do Norte.

AC Milan x Inter de Milão
Vitórias em jogos oficiais: 91-82 (71 empates)

Apesar de ter sido fundado, em 1899, por uma dupla de ingleses, o AC Milan só admitia italianos na equipa. A regra levou à dissidência de um grupo de adeptos, que decidiu criar o Internazionale, por cá conhecido como Inter de Milão. Tal como o nome original indicia, podiam representar o clube jogadores de todas as origens.

A rivalidade acentuou-se, sobretudo, a partir da década de 1950, quando os dois emblemas de Milão já partilhavam o Estádio San Siro e o derby passou a designar-se “della Madonnina”, nome da estátua da Virgem Maria situada no topo da catedral da cidade.

A Juventus predomina nos títulos de campeão (36), enquanto o Inter soma 20 e o Milan 19. É normal jogadores vestirem as cores de ambos, como são disso exemplos Giuseppe Meazza, Roberto Baggio, Ibrahimovic, Seedorf, Pirlo ou Ronaldo, o brasileiro. Paolo Maldini é recordista de presenças no derby, com 56.  

Aerial view of the Estadio do Maracana or Maracana Stadium in Rio de Janeiro, Brazil. Host the FIFA World Cup of 2014

Flamengo x Fluminense
Vitórias em jogos oficiais: 166-142 (147 empates)

O Fla-Flu, ou o clássico das multidões, como lhe chamou o jornalista brasileiro Mário Filho, é muito mais do que um derby do Rio de Janeiro – onde, em 2012, ano do centenário, ganhou estatuto de património imaterial. Em dezembro de 1963, no Estádio Maracanã, compareceram 194 603 espectadores, um recorde mundial até hoje, num duelo a contar para o campeonato estadual.

Foi nesta competição, durante muitos anos a prova-rainha nos vários estados e ainda hoje muito popular, que cresceu o antagonismo entre Flamengo e Fluminense, mas ele existe desde sempre. Isto porque o Flamengo era um clube dedicado ao remo, até criar o departamento de futebol em 1911. Os responsáveis? Nove jogadores do Fluminense, sendo o principal instigador da cisão Alberto Borgerth, que era, ao mesmo tempo, remador no Fla e futebolista no Flu.

Assim nascia aquele que é hoje um dos clubes de futebol mais populares do mundo, ainda atrás do rival no que toca a campeonatos estaduais conquistados – mas com um avanço considerável nos nacionais (16-5). Zico, com 19 golos, ídolo do Flamengo, é o rei dos goleadores.

Boca Juniors x River Plate
Vitórias em jogos oficiais: 92-88 (84 empates)

O superclássico de Buenos Aires, impregnado de sangue latino, é uma loucura social. Nascidos no mesmo bairro da capital argentina, o operário La Boca, cedo os dois clubes tiveram de separar-se para evitar confrontos entre adeptos. Corria 1920 quando o River se mudou para Belgrano, no lado norte da cidade, mais aburguesado, abandonando o Sul.

Pior a emenda do que o soneto: a rivalidade assumiu contornos de “povo contra a elite”, numa mistura explosiva que já provocou algumas tragédias, ainda que, com o tempo, o contraste entre apoiantes se tenha diluído. Basta dizer que são os dois emblemas do país com mais adeptos – estima-se que aglutinem mais de 70% do total.

O La Bombonera, do Boca, e o Monumental, do River, são dois estádios que proporcionam ambientes escaldantes. Em junho de 1968, o segundo foi palco do dia mais mortífero do futebol argentino, quando 71 pessoas morreram esmagadas ao tentarem abandonar o recinto após um superclássico sem golos. No plano desportivo, o River leva vantagem nos títulos de campeão nacional: 38-35.

Palavras-chave:

A adesão à assinatura gratuita da VISÃO, para os jovens entre os 15 e os 18 anos, é feita através do Portal Gov.pt, mediante autenticação com Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital, que pode ser ativada na app gov.pt ou num Espaço Cidadão. Após o pedido feito, o jovem receberá um email com as instruções para ativar a sua conta e, a partir daí, poder aceder, imediatamente, aos artigos exclusivos para assinantes e à edição digital da VISÃO.

O Programa de Oferta de Assinaturas Digitais para jovens entre 15 e 18 anos, inserido no Plano de Ação para a Comunicação Social (PACS), com um investimento previsto de 5,9 milhões de euros, foi desenvolvido pelo Ministério dos Assuntos Parlamentares e pelo Ministério da Juventude e Modernização, em articulação com o Ministério da Educação, Ciência e Inovação e encontra-se em vigor até 31 de dezembro deste ano.

Esta medida insere-se no âmbito do PACS, apresentado pelo Governo em outubro do ano passado e, segundo o executivo, “tem como objetivo fomentar a literacia mediática e digital, combater a desinformação e promover o espírito crítico nos jovens”.

Para além da VISÃO, as publicações disponíveis para este programa são o Correio da Manhã, Diário de Notícias, Eco, Expresso, Jornal de Notícias, Jornal Económico, Observador, Público, Sábado e Vida Económica.

Estes órgãos de comunicação social submeteram candidatura e foram validados pela #PortugalMediaLab, tendo a sua elegibilidade sido determinada com base em critérios como periodicidade regular, registo na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), classificação e disponibilização de edição digital própria.

O Governo adiantou ainda que, para garantir a segurança e proteção dos dados pessoais dos beneficiários, foi também celebrado um Protocolo para Acesso à Plataforma dos Serviços Públicos Digitais – Gov.pt entre todos os meios que aderiram ao programa, a #PortugalMediaLab e a Agência para a Modernização Administrativa (AMA).

Muito já se escreveu sobre a importância dos contos tradicionais para a interpretação do mundo em sociedade. Estas histórias, que passam de geração em geração – por mais cruéis que possam ser – preparam crianças e adultos para o mundo, desvendando, em parte, a natureza dos seus abismos.

Talvez por isso Michel Hazanavicius tenha feito de A Mais Preciosa Mercadoria uma história cruel e bela em torno do Holocausto, uma fábula, quase ao estilo de Charles Perrault. E para melhor definir essa linguagem, escolheu a animação – que se tornou a herdeira mais eficaz dessa tradição oral.

No seu primeiro filme de animação, o realizador francês resgata o livro de Jean-Claude Grumberg. A ideia de fábula baseada em factos reais é logo construída e desconstruída no início, quando se refere ao Pequeno Polegar. Outras histórias se encaixariam neste ponto de partida: a de um casal estéril que vive isolado numa floresta e a quem um bebé cai nos braços.

O contexto, que é o que mais conta, é a II Guerra Mundial. E aquele bebé, apelidado de “a mais preciosa mercadoria”, foi, na realidade, atirado de um comboio por um pai desesperado a caminho de um campo de concentração nazi. O filme faz assim, também, justiça àqueles que tiveram a coragem de proteger os judeus perseguidos em tempos de terror.

A Mais Preciosa Mercadoria – uma animação para pequenos e graúdos – é um filme tão belo quanto comovente, com uma animação bem desenhada, que foge aos parâmetros da Disney, da DreamWorks, etc., e uma história que procura ser eficaz no seu mais nobre propósito: não apagar a memória. O que significa também estar alerta para as réplicas de desumanidade e genocídio que ainda hoje ecoam no mundo, com diferentes protagonistas.

O filme foi feito, em parte, para assinalar os 80 anos do fim da guerra que assolou a Europa e o mundo, e expôs a Humanidade a níveis bárbaros de crueldade. A Mais Preciosa Mercadoria consegue atingir um público diversificado através de uma história simples.

Esta incursão no cinema de animação não deixa de ser um passo surpreendente para Michel Hazanavicius, realizador conhecido por O Artista, filme mudo francês que foi a grande sensação dos Oscars em 2011.

A Mais Preciosa Mercadoria > De Michel Hazanavicius, com vozes de Dominique Blanc, Grégory Gadebois, Denis Podalydès, Gueule Cassée e Jean-Louis Trintignant > 81 min

As televisões e soundbars apresentadas pela Samsung na CES no início deste ano já podem ser compradas em Portugal. A fabricante anunciou que estes equipamentos integram tecnologias de Inteligência Artificial de última geração com o objetivo de proporcionar uma experiência de utilização mais personalizada e “verdadeiramente incomparável”.

A tecnologia Samsung Vision AI analisa o conteúdo exibido e o ambiente envolvente para ajustar automaticamente a imagem para garantir uma visualização sempre otimizada, por exemplo. Depois, a versão aprimorada da Glare Free (disponível em alguns modelos) minimiza os reflexos sem comprometer a intensidade dos pretos ou a nitidez da imagem mesmo em salas muito iluminadas. Também o desempenho áudio dos novos televisores surge melhorado, com a introdução do Adaptive Sound Pro, que combina som baseado em objetos com Inteligência Artificial para uma experiência sonora mais rica, imersiva e espacial. A recomendação da marca é a utilização combinada com as novas soundbars para uma “paisagem sonora harmoniosa e poderosa como nunca”.

A gama de televisões inclui soluções acessíveis como a Cyrstal UHD (com resolução 4K e cores vibrantes), variantes QLED e OLED 4K e as topo de gama Neo QLED 4K e 8K, com tecnologia Glare Free, processador potente e taxa de atualização superior. Os preços destes modelos começam nos 469€ (Crystal UHD), 749€ (QLED 4K), 1099€ (Neo QLED 4K) e nos 3499€ (Neo QLED 8K).

Destaque ainda para as The Frame e The Frame Pro, peças de design em que os televisores se transformam em obras de arte quando não estão em uso e que incluem uma caixa Wireless One Connect, que elimina os cabos visíveis e cujos preços começam nos 1349€.

A nova geração de soundbars foi desenhada para funcionar em perfeita harmonia com estes televisores e inclui tecnologias avançadas de otimização sonora como o Q-Symphony e o Dynamic Bass Control. Os preços da nova Soundbar QS700F começam nos 549,99€.

“Nas mortes das crianças, que deviam passar de cinco milhões para quatro milhões nos próximos anos – agora, a não ser que haja uma grande mudança, vamos passar de cinco para provavelmente seis milhões” afirma Bill Gates em entrevista ao The New York Times. O filantropo acusa Trump e Musk de serem responsáveis por esta situação ao terem cortado dos fundos de apoio USAID. “As reduções no USAID são impressionantes. Pensei que teríamos um corte de cerca de 20%. Em vez disso, atualmente, é um corte de 80%. E sim, não estava à espera disto. Não creio que alguém estivesse à espera”.

Os cortes nos fundos federais afetam a Fundação Gates e terão impacto na sua capacidade de prestar auxílio. Foi também nesta entrevista que Gates confirmou que vai doar 99% da sua fortuna a Fundação e que esta irá encerrar em 2045, mais cedo do que o esperado. Com esta doação, a Fundação vai acelerar as suas ajudas e prevê-se que sejam gastos mais 200 mil milhões de dólares nos próximos 20 anos.

Sobre Elon Musk, Gates refere que o czar da eficiência de Trump até pode vir a doar a sua fortuna ao Giving Pledge, mas revela um aspeto interessante: “um aspeto invulgar disso [do Giving Pledge] é que pode-se esperar até à morte e doar depois. Por isso, quem sabe? Ele [Musk] pode vir a ser um grande filantropo. Entretanto, o homem mais rico do mundo está envolvido na morte das crianças mais pobres do mundo”.

Portugal, um dos primeiros signatários do Acordo de Paris, assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2050. Apesar de avanços significativos no desempenho ambiental do nosso país (o 15º melhor entre 29 países, de acordo com o “Índice de Transição Verde” realizado pela Oliver Wyman), e das melhorias registadas na produção de eletricidade renovável, que já representa mais de 60% do total gerado a nível nacional, a nossa trajetória ainda está longe de garantir o cumprimento pleno dessas metas.

Do lado do investimento, apoios como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) têm sido fundamentais, mas a execução desses fundos nem sempre é célere ou eficaz, enfrentando muitas vezes entraves administrativos, lacunas de planeamento ou mesmo escassez de mão de obra especializada para setores-chave da economia verde.

No plano internacional, o cenário permanece igualmente desafiante: a decisão de Donald Trump de retirar os EUA — o segundo maior emissor de gases com efeito de estufa — do Acordo de Paris pela segunda vez, aumentou a pressão sobre os esforços climáticos globais.

Neste contexto, cabe muitas vezes às instituições, públicas e privadas, tomar a iniciativa e demonstrar, na prática, que esta transformação é mais tangível do que se possa pensar – hoje. No SEA LIFE Porto, por exemplo, alcançámos recentemente a meta de assegurar a operacionalização de todo o aquário 100% a partir de energias verdes certificadas. Sendo uma infraestrutura com exigências energéticas contínuas e críticas ao bem-estar animal, este passo, mais do que logístico, assume um caráter simbólico, provando que é possível evoluir para um modelo sustentável mesmo em contextos complexos.

Mas mais do que vontade e investimento, este processo exige confiança. A esse nível, destaca-se também a importância vital das entidades reguladoras independentes e dos sistemas de certificação, enquanto promotores de uma transição energética justa, viável e sustentável. Ao assegurarem o cumprimento de padrões rigorosos, a transparência nos mercados energéticos e a proteção do interesse público, estas entidades assumem-se como ferramentas de confiança que combatem o greenwashing, promovem verdadeiramente a sustentabilidade ambiental e escolhas informadas e conscientes.

Quando falamos de transição energética, é preciso considerar que nem todas as soluções são isentas de risco. A expansão das renováveis exige uma visão clara e integrada, de longo prazo. A sua implementação deve ser feita com responsabilidade, avaliando os impactos sobre a biodiversidade, os ecossistemas e as comunidades locais, promovendo um modelo justo, participativo e equilibrado. Do lado das organizações, importa investir ativamente em conhecimento para adotar, de forma sustentada e inovadora, medidas integradas que assegurem a sustentabilidade ambiental, a par da eficiência operacional, no longo prazo.

A oportunidade reside em criar uma economia verde e resiliente, onde inovação, sustentabilidade e coesão social caminhem lado a lado. Para isso, é necessário investir ativamente na literacia climática, na educação ambiental, no reforço das competências verdes e na criação de condições para que empresas, autarquias e cidadãos possam continuar a ser agentes ativos na transformação que todos desejamos.

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Pensemos em duas simples cadeiras, brancas e de plástico, lado a lado. Nem são exatamente iguais. Na maior parte dos casos, pertencem a cafés ou restaurantes populares, pelo menos no contexto português e no sul e centro-americano. Mas, quando colocadas estrategicamente à frente de um grande estádio de futebol que também pode ser usado para os maiores concertos, as cadeiras ganham outro significado: vem aí um concerto de Bad Bunny.

O porto-riquenho Benito Antonio Martinez Ocasio, conhecido como Bad Bunny, deixou os fãs em alvoroço no início desta semana, em vários países da Europa, depois de duas cadeiras terem sido colocadas à porta de vários estádios, como uma espécie de teaser, numa clara alusão ao seu mais recente álbum “Debí Tirar Más Fotos”. Depois de muita especulação entre os fãs e de várias notícias nos meios de comunicação social sobre a simbologia das cadeiras, Bad Bunny acabou por confirmar a sua nova digressão mundial nas redes sociais.

As cadeiras brancas, até aqui símbolo de uma certa simplicidade, são agora símbolo da sua nova tour – uma assinatura visual que traduz a capacidade do artista em transformar algo banal num ícone e de anunciar algo há muito esperado pelos seus fãs mais fiéis, sem necessitar de fazer nada muito exuberante. Duas cadeiras brancas de plástico e o mundo está pronto para o ver.

No universo de Bad Bunny, estas cadeiras significam popularidade, simplicidade e diversão com amigos e família, mas também a diversidade, que se reflete na sua própria música, que mistura sonoridades tradicionais do seu país-natal e o reggaeton moderno. É também uma ode à nostalgia, às memórias criadas pelo tempo passado em família, à perda das ligações afetivas para quem sai da sua terra. Através das cadeiras brancas como símbolo, Bad Bunny procura reconectar-se consigo próprio e, ao fazê-lo, liga todos os seus fãs.

Num mercado onde os consumidores de música, outro entretenimento e de outros bens, são bombardeados diariamente com milhares de mensagens é importante que algumas marcas, se não todas, se esforcem para se distinguirem, nomeadamente através do uso de simbologia. Os símbolos, na forma de logotipos, cores, formas, sons ou referências conhecidas aplicadas a um determinado contexto (como as cadeiras), são um atalho mental. Quando vistos, levam imediatamente os consumidores a pensar numa determinada marca, sentindo com aquela uma proximidade e até familiaridade.

Todos conhecemos o swoosh da Nike, mesmo que a marca já não apareça escrita e sabemos que transmite energia e movimento, ou a maçã mordida da Apple, que transmite a ideia de tecnologia de ponta associada a um design moderno.

A simbologia não é decorativa nem secundária. Pode muito bem ser uma peça determinante na construção de marcas fortes e duradouras. É assim que as empresas comunicam com os seus públicos, criando laços fortes e um reconhecimento imediato. Agora, com licença, tenho que esperar sentada (numa cadeira de plástico, branca, que alegadamente foi desenhada por um mestre do design nos anos 1940) e esperar pela minha vez de comprar bilhetes para o concerto do próximo ano.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Já há Papa. Habemus. Rosto, idade, proveniência — sabe-se tudo de D. Prevost. Mas ainda não se sabe nada de Leão XIV, a não ser o belo nome e a bela veste. É um mistério, branco como o fumo que o revelou.

E ainda há qualquer coisa inocente naquela chaminé. Como se o mundo com os seus sete mil milhões de almas e dívidas e pecados e dívidas outra vez, continuasse imóvel, à espera de a ver fumegar. Como se da chaminé pudesse ter saído não apenas um nome, mas uma coisa de outra dimensão. Como se uma coluna de fumo dissesse mais do que todos os discursos e todas as eleições e todos os diagnósticos que os jornais fazem todas as manhãs.

Nesse instante parado, o mundo tornou-se um menino. Calções esfolados, joelhos encardidos. Diante de algo que não entende — sem respirar. Como se tivesse regressado a si mesmo. A um tempo de telhados, nuvens, salas de espera. O mundo é uma sala de espera. E nesse meneio de pálpebra, pairaríamos todos — um pouco acima do chão, nem tanto. O suficiente para que a realidade se desligasse e se visse a chaminé como ela é: um dedo de Deus a desenhar coisas no céu.

Quem sabe de chaminés são as crianças. É coisa muito sua de ver. Nos prédios, nas vivendas, nas fábricas — sobretudo estas. Cilindros cor de tangerina seca, impassíveis, solenes. Expelindo espirais de vapor. Poluindo o céu como se fosse um incenso sujo, cansado, operário. Como se aquilo fosse para durar muito. Talvez sempre.

É um estado de crença. A crença de que o fumo diz qualquer coisa. De que no silêncio mora uma palavra escondida. De que, na clausura, se fica mais disponível. E de que o Espírito Santo — seja ave, seja brisa, seja susto — ainda anda por aí. Invisível. Batendo as asas por dentro das nossas dúvidas.

No metro, duas flores da nossa mocidade — lindos, lindos e completamente perdidos — discutiam eleições com a paixão que só se dá aos ingénuos e aos canalhas. Ele: o voto branco conta. Ela: não. Ele insiste, bate com a mão no joelho: se todos votássemos em branco, tudo mudava, o sistema abanava, caía, ou pelo menos tremia. E ela, prática: não serve para nada. Pior — dizia —, algum bandido ainda lhe mete a mão e faz batota. Melhor votar no menos mau e ter esperança. Uma esperança morna, fugidia. Mas esperança, anda assim — de quem aguarda por alguma coisa.

Como aqueles homens vestidos de vermelho, lá dentro da grande Capela, em Roma. Cento e trinta e três velhos sentados. No esplendor da lentidão.

Dirigindo-se. Um. De. Cada. Vez. Até. À. Urna. Colocando. O. Papelinho. E. Depois. Regressando.

Ao. Lugar. Dando. Então. A. Vez. A. Outro. Como personagens de Oliveira: O Espelho Mágico ou então uma cerimónia que é o contrário do nosso tempo — O contrário desta cidade. Da internet e sua violência.

Fazem o quê? Pensam em quê? “Se todos votassem em branco, o sistema pelo menos tremia.” — anunciara o rapaz do metro. Se cada papel fosse um nada, seria um presente. Para que, na sua legitimidade divina, o Espírito confirmasse os receios de aldrabice que preocupavam a rapariga, fazendo batota sagrada. E se não fosse isso — se não houvesse batota sagrada — que fosse então, pelo menos, o limite secreto entre a graça e a vergonha, que evita o desastre; a batota é sempre nossa.

E os de cá de fora, ainda a ver aquele cano de ferro. Um tubo de oração. Um telescópio virado ao contrário. Uma coisa vertical e comovida lançando vapor para os céus.

A espera é o último dos ritos sagrados de um tempo esgotado. Um tempo descrente e abjecto, mas que ainda é capaz de parar diante de uma chaminé. Ou numa fila do posto dos Correios. Esperando com os olhos, como círios sem pressa. Numa tristeza barroca.

O mais espantoso e mais caótico é que mesmo os que já não crêem, façam tudo como se acreditassem. `E eis que a propósito de uma conduta em Roma, os comentadores põem-se a discutir gaivotas em telhados, como se fossem mães-de-santo a ler sinais. É como se voltássemos a ser filhos. Pequenos, disparatados. Olhando para cima à espera de que o céu diga qualquer coisa. Ou então o Papa.

O mundo continua a rezar. Só já não sabe que o está a fazer. A pós-modernidade não matou o sagrado — apenas o mascarou de opinião. E de fila dos Correios.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

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