Chegaram as férias judiciais, momento em os Tribunais e o Ministério Público têm de estar logisticamente organizados para responder às necessidades mais urgentes da sociedade.
Em Portugal, ou países como a Turquia ou Bélgica, as férias são fixas e concentradas no período de verão. Noutros países, como Noruega, Espanha, Reino Unido ou Suécia, as férias podem ser gozadas em qualquer período do ano, devendo o magistrado ou funcionário articular com a instituição para quem trabalha. Nesses países, o conceito de “férias judiciais” é desconhecido e obriga a toda uma outra dinâmica por parte da sociedade que servem e os sujeitos processuais, nomeadamente os escritórios de advocacia, estando sempre a funcionar.
A relevância da necessidade de férias está cientificamente comprovada. Possibilita a recuperação física e mental, contribui para a prevenção do burnout, potenciando um equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, com consequências ao nível de satisfação do trabalhador e redução dos conflitos laborais.
Para alguns, a transição entre o trabalho e as férias representa alguns desafios, nomeadamente a dificuldade de não se conseguirem desconectar completamente das suas obrigações profissionais, a ansiedade e preocupação com o regresso, sendo que muitos profissionais do sector judicial abdicam de algum tempo das suas férias pessoais para conseguirem colocar o serviço em dia, proferindo aqueles despachos que aguardavam a necessidade de existência de tempo de estudo e reflexão.
Nestes primeiros meses deste ano judicial muito se falou de carência de meios humanos e materiais, falta de autonomia financeira, problemas de gestão, autonomia interna e externa, burnout ou justiça célere. Temas que não têm soluções mágicas e irão persistir.
Todos somos diferentes na forma como reagimos perante a voragem da espuma dos dias. A leitura de livros tem sido reconhecida como fonte de estimulação cognitiva, redução da ansiedade, desenvolvimento de empatia e promoção do autocuidado ao mesmo tempo que nos desafia.
Nestas férias, se conseguir, tiver algum tempo e gostar, sugere-se (re)ler um dos maiores filósofos que o mundo já deu a conhecer– Francisco Sanches. Português, nascido no século XVI, viveu e ensinou em Toulouse, marcando o Renascimento como um dos grandes precursores do ceticismo moderno, salientando as limitações do conhecimento humano e expondo as falhas nos métodos tradicionais baseados na autoridade e lógica formal. A autora Idalina Maia refletiu e escreveu sobre o mesmo: “O Problema do Conhecimento em Francisco Sanches”.
Outra sugestão de leitura é o livro escrito por Samantha Rose Hill: “Hannah Arendt: Uma Biografia”. Nesta obra são explorados os conceitos da obra arendtiana, como totalitarismo, a condição humana e a importância do pensamento que questiona certezas e impede adesões automáticas.
O mundo contemporâneo enfrenta riscos específicos e inéditos, dominado pelo scroll do ambiente digital e um cada vez maior isolamento social. Por isso mesmo, executar o ato de pensar, com diálogo e pluralidade, continua a ser um ato vanguardista.
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