Chegaram as férias judiciais, momento em os Tribunais e o Ministério Público têm de estar logisticamente organizados para responder às necessidades mais urgentes da sociedade.
Em Portugal, ou países como a Turquia ou Bélgica, as férias são fixas e concentradas no período de verão. Noutros países, como Noruega, Espanha, Reino Unido ou Suécia, as férias podem ser gozadas em qualquer período do ano, devendo o magistrado ou funcionário articular com a instituição para quem trabalha. Nesses países, o conceito de “férias judiciais” é desconhecido e obriga a toda uma outra dinâmica por parte da sociedade que servem e os sujeitos processuais, nomeadamente os escritórios de advocacia, estando sempre a funcionar.
A relevância da necessidade de férias está cientificamente comprovada. Possibilita a recuperação física e mental, contribui para a prevenção do burnout, potenciando um equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, com consequências ao nível de satisfação do trabalhador e redução dos conflitos laborais.
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Para alguns, a transição entre o trabalho e as férias representa alguns desafios, nomeadamente a dificuldade de não se conseguirem desconectar completamente das suas obrigações profissionais, a ansiedade e preocupação com o regresso, sendo que muitos profissionais do sector judicial abdicam de algum tempo das suas férias pessoais para conseguirem colocar o serviço em dia, proferindo aqueles despachos que aguardavam a necessidade de existência de tempo de estudo e reflexão.
Nestes primeiros meses deste ano judicial muito se falou de carência de meios humanos e materiais, falta de autonomia financeira, problemas de gestão, autonomia interna e externa, burnout ou justiça célere. Temas que não têm soluções mágicas e irão persistir.
Todos somos diferentes na forma como reagimos perante a voragem da espuma dos dias. A leitura de livros tem sido reconhecida como fonte de estimulação cognitiva, redução da ansiedade, desenvolvimento de empatia e promoção do autocuidado ao mesmo tempo que nos desafia.
Nestas férias, se conseguir, tiver algum tempo e gostar, sugere-se (re)ler um dos maiores filósofos que o mundo já deu a conhecer– Francisco Sanches. Português, nascido no século XVI, viveu e ensinou em Toulouse, marcando o Renascimento como um dos grandes precursores do ceticismo moderno, salientando as limitações do conhecimento humano e expondo as falhas nos métodos tradicionais baseados na autoridade e lógica formal. A autora Idalina Maia refletiu e escreveu sobre o mesmo: “O Problema do Conhecimento em Francisco Sanches”.
Outra sugestão de leitura é o livro escrito por Samantha Rose Hill: “Hannah Arendt: Uma Biografia”. Nesta obra são explorados os conceitos da obra arendtiana, como totalitarismo, a condição humana e a importância do pensamento que questiona certezas e impede adesões automáticas.
O mundo contemporâneo enfrenta riscos específicos e inéditos, dominado pelo scroll do ambiente digital e um cada vez maior isolamento social. Por isso mesmo, executar o ato de pensar, com diálogo e pluralidade, continua a ser um ato vanguardista.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Quando entramos em contacto com um agente patogénico, pode ser demasiado tarde para o sistema imunitário reagir. O que os investigadores quiseram perceber foi se respostas neurais por antecipação podem dar sinal ao sistema imunitário mais tempo para uma resposta adequada. E a conclusão foi positiva: A reação do corpo ao avistamento de uma pessoa doente, como a espirrar ou tossir, por exemplo, é semelhante, num primeiro momento, à resposta que teria se estivesse perante uma infeção.
Os autores deste estudo, publicado na Nature Neuroscience, destacam-no como prova do poder do cérebro para “prever o que está a acontecer [e] selecionar a resposta adequada”, nas palavras do coautor Andrea Serino, neurocientista do Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça.
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Além de recorrerem a exames de imagiologia ao cérebro e análises ao sangue, os investigadores usaram também um sistema de realidade virtual para colocar os participantes voluntários perante avatares humanos com com erupções cutâneas, tosse ou outros sintomas de doença — evitando a necessidade de os expor a agentes patogénicos.
Durante a experiência, em que os participantes estavam equipados com óculos de realidade virtual, os avatares – uns com sinais de doença, outros aparentemente saudáveis – iam-se aproximando mais e mais do utilizador, sem nunca lhes “tocar”.
Nas últimas décadas tem-se difundido a ideia de que o século XXI será o “século da China”, uma expressão muitas vezes associada ao trabalho de Henry Kissinger. Em 2024, Joe Biden chegou, inclusive, a afirmar que os EUA estariam em “competição com a China para vencer o século XXI”, uma declaração proferida pouco depois de o novo Conceito Estratégico da NATO, de 2022, salientar os “desafios sistémicos” que a China lança à ordem internacional.
Após décadas de ascensão silenciosa, a China, beneficiando da janela de oportunidade aberta pela crise de 2008, adotou gradualmente uma postura mais assertiva. Sob a liderança de Xi Jinping, e sob o lema do “sonho chinês”, a China inaugurou uma “diplomacia de grande potência”, passando a exigir um “lugar ao sol”. Foi neste contexto que lançou uma iniciativa global designada de Faixa e Rota, na qual Portugal participa desde 2018. Apesar das promessas de desenvolvimento e de conetividade, esta iniciativa é um instrumento para a China expandir a sua influência e reforçar as suas capacidades geopolíticas em diversas áreas geográficas.
A China tem o objetivo de reconfigurar os padrões e estruturas internacionais de modo a que estes se alinhem mais com a sua visão do mundo e se tornem mais favoráveis aos seus interesses
A China já não é, assim, só mais um ator regional – é um ator global, uma das principais potências mundiais, e, a par dos Estados Unidos, a única realmente capaz de mover influência e recursos suficientes para influenciar efetivamente o rumo da ordem internacional.
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Isto significa que aquilo que a China faz afeta todo o globo. É, por isso, cada vez mais importante compreendermos a narrativa, os objetivos e os meios utilizados pela China no âmbito da sua política externa. É, pois, dentro deste contexto que se assume como fundamental olhar para o investimento crescente da China no estudo das Relações Internacionais, uma disciplina com uma tradição sólida no Ocidente, mas bastante recente na China.
De facto, os fenómenos internacionais sempre despertaram curiosidade e reflexão por parte do ser humano. Contudo, o seu estudo científico só se inicia na transição do século XIX para o século XX, culminando na sua autonomização através da criação da disciplina das Relações Internacionais após a I Guerra Mundial, na esperança de evitar futuros conflitos. No período entre guerras, multiplicaram-se as cátedras dedicadas à política internacional, e, em simultâneo, iniciou-se um debate académico que originou a primeira das teorias das relações internacionais, lentes através das quais os investigadores veem e interpretam o mundo.
Contrariamente à Europa, o clima da China de final do século XIX e início do século XX era pouco propício ao desenvolvimento científico. Acresce que, na fase final do império, o Ocidente era encarado com desconfiança, o que dificultou o contacto com os avanços científicos ocidentais. Ainda que tivessem surgido algumas tentativas de compreender os fenómenos internacionais, estas centraram-se exclusivamente na reflexão sobre as relações externas chinesas. Posteriormente, com o regime nacionalista de Chiang Kai-shek, emergiram novos impulsos ao estudo dos fenómenos internacionais, porém mantendo-se circunscritos às necessidades estratégicas da Comissão Militar. Mais tarde, com a vitória das forças de Mao Tsé-Tung e a proclamação da República Popular da China, o ensino das Ciências Políticas foi proibido.
Só a partir de meados da década de 1950 é que começaram a surgir as primeiras tentativas consistentes de estudar, em meio académico, os fenómenos internacionais na China. Apesar disso, durante muito tempo este estudo manteve-se condicionado pelos interesses e necessidades políticas e ideológicas do Partido Comunista Chinês. Só com as reformas políticas de Deng Xiaoping é que o estudo da política internacional começou a libertar-se das amarras ideológicas, permitindo uma aproximação ao meio académico ocidental. Ao interagir com os setores académicos ocidentais, os académicos chineses reconheceram não só a importância de estudar de forma isenta os fenómenos internacionais, mas também de adotar as teorias como lentes interpretativas da realidade internacional. A partir daí, começaram a procurar desenvolver abordagens próprias.
O primeiro projeto neste sentido surge ainda no rescaldo das reformas de Deng, e foi apelidado de “Teoria das Relações Internacionais com Características Chinesas”. Não obstante, o seu sucesso foi escasso devido à semelhança semântica com o conceito de “socialismo com características chinesas” e à influência ideológica do marxismo-maoismo.
Foi mais recentemente, na transição do século XX para o século XXI, que surgiram novos impulsos de construção de uma teoria chinesa das relações internacionais, procurando na singularidade da cultura, da filosofia e da tradição política chinesas elementos que possam contribuir para a compreensão dos fenómenos da política internacional. Estes projetos assentam, assim, em ideias como a harmonia, a tianxia e a simbiose (gongsheng), oferecendo não apenas lentes interpretativas, mas também uma visão de e para o mundo.
A China procura disponibilizar e divulgar uma leitura alternativa da política internacional, ou, mais concretamente, uma leitura que lhe seja mais favorável
Por exemplo, a proposta de Zhao Tingyang apela à construção de uma ordem internacional mais justa, onde os Estados cooperem para alcançar um ideal harmonioso. Não obstante, esta proposta assenta no sistema tianxia e, em menor medida, no sistema tributário, deixando implícita a centralidade da China. Por outro lado, Yan Xuetong propõe aquilo a que chama “Realismo Moral” – uma proposta teórica que não só oferece uma lente interpretativa para a política internacional, mas também serve a narrativa de Pequim. Isto, pois, o Realismo Moral, por um lado, deslegitima a liderança internacional dos Estados Unidos e, por outro, justifica de forma benevolente a estratégia global da China, disfarçando quaisquer motivações geopolíticas, e legitimando uma eventual liderança internacional chinesa.
O compromisso académico com o estudo das Relações Internacionais na China tem vindo a crescer significativamente nos últimos anos, traduzindo-se sobretudo num esforço político através do qual a China procura responder a várias preocupações políticas. Em primeiro lugar, procura apostar no desenvolvimento de propostas teóricas mais bem adaptadas às suas especificidades para, deste modo, apoiar a tomada de decisão política. Em segundo lugar, a China procura disponibilizar e divulgar uma leitura alternativa da política internacional, ou, mais concretamente, uma leitura que lhe seja mais favorável. Nesta lógica, o objetivo é combater a chamada “tese da ameaça chinesa”, uma narrativa que tem ganhado força no Ocidente e segundo a qual a ascensão da China constitui um risco para a estabilidade do sistema internacional.
Deste modo, ao apresentar interpretações alternativas, a China consegue transmitir uma imagem mais atrativa e menos ameaçadora, enquanto justifica e legitima a sua ascensão e o seu papel internacional. Paralelamente, a China procura também fornecer insights teóricos próprios, o que se insere numa dinâmica mais ampla através da qual procura demonstrar a sua relevância em termos académicos e científicos, comprovando que a sua afirmação internacional não se limita a aspetos políticos e económicos.
Assim, a China procura desocidentalizar uma disciplina que, durante décadas, foi dominada pelo Ocidente. Mas vai além disso: procura desocidentalizar a própria política internacional, desde as formas de compreender e fazer a diplomacia até às estruturas da governança global. Pretende fazê-lo não apenas como forma de justificar a sua afirmação internacional, mas sobretudo com o objetivo de reconfigurar os padrões e estruturas internacionais de modo a que estes se alinhem mais com a sua visão do mundo e se tornem mais favoráveis aos seus interesses. Este movimento faz, portanto, parte de uma estratégia mais abrangente, através da qual a China procura afirmar-se como uma grande potência.
Neste contexto, é essencial que no Ocidente estejamos atentos às implicações e aos significados políticos do desenvolvimento científico chinês, em especial na área das Relações Internacionais. Devemos, assim, estar vigilantes face às tentativas da China de disfarçar as suas reais motivações, e permanecer conscientes dos riscos e desafios associados à emergência de uma nova potência, sobretudo quando esta representa uma civilização que não compreendemos plenamente.
Shenglan Zhou, 31 anos, de nacionalidade chinesa, é professora auxiliar da FCH-Católica e investigadora em propaganda e nacionalismo no sistema de educação da China. Doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, é desde 2017 leitora no Mestrado em Estudos Asiáticos da Faculdade de Ciências Humanas e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura. As suas principais áreas de investigação são a propaganda e o nacionalismo nos sistemas educativos da Ásia. É autora de publicações sobre a comercialização e mediatização de relações amorosas na China contemporânea e propaganda nacionalista no sistema educativo chinês.
Tendo-se licenciado em Estudos Portugueses numa universidade chinesa, decidiu doutorar-se e estabelecer-se em Portugal. Porquê?
Foi uma decisão minha. Não estava a dar-me muito bem com o ambiente de trabalho que tinha na China. Decidi continuar a estudar e vim para Lisboa, para a Universidade Católica, fazer o mestrado em Estudos Asiáticos. Conclui o meu doutoramento em Ciências da Comunicação em 2023. E mantemos o mestrado em Estudos Asiáticos.
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Já são quantos anos de Portugal?
Contando tudo, são 11 anos.
E qual foi essa experiência de trabalho na China?
No 4.º ano da licenciatura, tínhamos de fazer um estágio. E o meu estágio foi no departamento de português da China Radio International, o órgão de propaganda externo. Na altura, não tinha bem essa noção. E pensava que ia escrever notícias sobre a China. Mas, logo no primeiro dia, fui parada no portão por dois guardas armados. O controlo de entrada e saída era rigoroso. Quando começo a trabalhar, o editor dá-me uns papéis para traduzir do Chinês para Português. Eram já conteúdos completos. No fundo, nós não tínhamos qualquer controlo sobre esses conteúdos. Eram diretrizes enviadas pelo Departamento Central de Propaganda (DCP). E a nossa função, aparentemente, era traduzir as notícias oficiais.
O Departamento Central de Propaganda controlava, então, todo o fluxo noticioso?
Na China, temos os média estatais, as agências e as televisões, mas mesmo os média ditos privados têm, no máximo, 49% de capital privado. O Estado controla tudo.
Isso visa assegurar que a China tenha uma boa reputação, externamente. Mas há uma marca política na China que afetou muito essa reputação no mundo, depois de um período de abertura: os acontecimentos de Tiananmen, em junho de 1989. Houve uma preocupação para recuperar a imagem da China? Isso foi conseguido?
Na altura, houve sanções internacionais e um rombo na reputação externa. Mas o partido [o Partido Comunista Chinês, PCC] estava muito mais preocupado com a estabilidade interna. A cúpula chinesa percebeu o poder dos jovens e dos estudantes nos acontecimentos políticos e delineou um programa para controlar as mentalidades desde os primeiros anos escolares.
Como é que o fazem, hoje em dia?
Tudo conta: dos currículos escolares à ocupação dos tempos livres. Logo em 1989, o regime lançou uma campanha de Educação Patriótica, ao mesmo tempo que se processava a revisão dos programas, desde a escola primária. E deu-se uma nova atenção aos média, com a criação de conteúdos patrióticos, visando legitimar o PCC como único representante da Nação. O que implica, por exemplo, uma voz única sobre a História da China – principalmente, a História da China moderna – e a tentativa, desde uma idade muito precoce, de controlar a forma como as crianças pensam. Na escola primária, as primeiras palavras que aprendi a ler e a escrever foram “nós amamos a China, amamos o Partido Comunista”. As próprias visitas de estudo das escolas envolvem os locais relacionados com a Revolução Chinesa. Nas férias de verão, há filmes de propaganda, nomeadamente filmes de animação propagandísticos. Há linhas muito claras sobre como devemos pensar, quem são os nossos amigos e quem são os nossos inimigos. É uma estratégia de longo prazo.
Hoje em dia, seria difícil haver uma nova Tiananmen…
[Hesitação] O objetivo destas campanhas do Estado é tentar eliminar à nascença as veleidades de movimentos contestatários, mas, durante a Covid-19, houve protestos juvenis e estudantis. E, como pode ver, eu também sou fruto desse sistema de educação, mas não aceito a 100% o que se passa…
Mas a professora Shenglan Zhou está a dar esta entrevista. Está a fazê-lo com inteira liberdade?
Não acho que possa vir a ter problemas. Quando vou à China, faço-o em deslocações privadas, para visitar os meus familiares. Já outros expatriados, se forem participar em conferências no país ou noutro tipo de atividades públicas, são bastante mais… escrutinados. Conheço o caso de um professor, radicado nos EUA, que escreveu um livro sobre a Covid na China, e quando voltou à China foi parado na fronteira e minuciosamente interrogado. Ele ia participar num seminário…
Há uma atenção especial na estratégia de propaganda para Portugal?
Há alguns órgãos a operar em Portugal. Trabalham para manter o mesmo discurso do governo central. O Observatório da China (alinhado com a agenda do DCP), por exemplo.
Os Jogos Olímpicos de 2008 tiveram grande importância na afirmação nacionalista da China…
Tiveram uma importância imensa. Mas houve aqueles protestos por causa do Tibete, informação que também circulava na China… Ainda assim, esse evento marcou o nacionalismo chinês, tal como as Olimpíadas de Inverno, em Pequim.
Na China, a nacionalidade tem um critério étnico. E a China tem uma unidade étnica, centralizada, sobretudo, na etnia Han. Mas há línguas diferentes no território. No Sul da China, predominava o cantonense. A massificação do mandarim, mesmo nessas regiões, não está a ser imposta por razões nacionalistas?
Não há nenhuma repressão sobre os diferentes dialetos ou línguas. Eu estive a estudar em Macau em 2011 e quase ninguém falava mandarim. Tinha de falar inglês… Tinha uma colega de Zuhai, do outro lado da fronteira do território, que falava as duas línguas e servia de intérprete. Mas, hoje, os estudantes de Macau que temos na Católica falam mandarim… Falar outra língua não é malvisto, mas, quando queres arranjar emprego, é importante falar mandarim. As outras línguas étnicas, como o tibetano ou o coreano são reconhecidas. Há escolas que ensinam em tibetano, tal como canais de televisão, mas, de certa forma, sente-se a pressão e precisam de falar, também, mandarim. É uma vantagem. Os cantores, os atores, todas as celebridades de várias zonas da China têm de falar mandarim, além da sua língua materna.
Entretanto, há bolsas historicamente reprimidas. Já falámos do Tibete, mas há, também, a questão dos uigures…
[Hesitação] Isso depende do período de que estivermos a falar. As pessoas sabem pouco sobre a origem destas disputas. Na zona de Xingjiang há várias etnias, não só uigures, mas cazaques, quirguizes, tibetanos… E há uma repressão histórica. Nos anos 50, até houve um repovoamento por populações étnicas han. Mas, de repente, fala-se sobre a questão dos uigures ou do alegado genocídio. É uma questão complicada. Existe o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, que está ligado ao ISIS e que patrocinou ações terroristas. São povos de origens turcas, com pouca ligação à China han. E foi uma região contaminada pelo dominó das independências de antigas repúblicas soviéticas. Ligado a todo este mal-estar estão as más condições de vida das populações…
E há a questão religiosa…
Sim, a Constituição permite a religião, mas o Estado tem uma palavra a dizer na orgânica das várias religiões e a China é um Estado secular.
O próprio Vaticano teve de fazer um acordo recente, com Pequim, abdicando de várias prerrogativas na gestão da Igreja chinesa…
Pois, lá está.
Mas não temos muitas notícias sobre ataques terroristas na China, perpetrados por estes grupos…
É uma matéria que não convém que atraia a atenção dos média ocidentais… De repente, toda a gente ouve falar dos uigures, mas não há a informação toda. Claro que existem os campos de concentração, mas, oficialmente, para reprimir o terrorismo. Enfim, nada é a preto e branco.
O símbolo chinês chong [um retângulo atravessado por uma risca vertical] faz parte da palavra China e significa “centro” ou “meio”. Podemos dizer que ainda se aprende, no seu país, que a China é o centro do mundo?
Não! [Risos.] Aqui é que ainda há um certo eurocentrismo…
Há linhas muito claras sobre como devemos pensar, quem são os nossos amigos e quem são os nossos inimigos
Precisamente… não há, ou houve, um sinocentrismo praticamente simétrico?…
Historicamente, sim. E, para um chinês, os povos à volta, fora do centro, eram periféricos. E temos um nome diferente para os “bárbaros” situados nos quatro pontos cardiais… [Risos].
Em cantonense, os ocidentais são os guai lou… Os diabos estrangeiros…
Imagino… Mas não sei nada de cantonense… [Risos.] Ora, esse sinocentrismo… não é que seja fomentado no ensino, mas existe, de facto, uma narrativa (por influência do professor Zhang Weiwei, que é conselheiro de Xi Jinping e influentíssimo) em que o Estado chinês é um “estado civilizador”. E em que se fala do “excecionalismo chinês”. E onde se afirma que a China é uma democracia, diferente das do mundo ocidental, mas superior e mais funcional. É uma questão central na propaganda chinesa.
No tempo do Deng Xiaoping surgiu o conceito de “um País, dois sistemas”, para integrar práticas capitalistas, ou melhor, práticas de mercado…
Isso teve que ver com o legado colonial e foi adaptado à realidade de Hong Kong e Macau, na época da transição da administração para Pequim. E houve a política de “reforma e abertura”, que é outra coisa: abertura económica. O chamado “socialismo com características chinesas”.
Como é que a China está a afirmar a sua propaganda, em termos de projeção externa? Em que pontos principais aposta? Economia, tecnologia, política, cultura? A competição tecnológica com o Ocidente, por exemplo, na indústria automóvel?
A questão económica é usada para promover o nacionalismo chinês. Sobretudo, no âmbito da competição com os EUA. No Ano Novo Chinês, o espetáculo de robôs dançarinos serviu para procurar demonstrar a superioridade tecnológica chinesa no domínio da robótica. O que se estende aos drones. E há um discurso político associado a isto: a narrativa da China é a de que usa a tecnologia para promover a paz, enquanto a tecnologia norte-americana se centra na promoção da guerra, devido à alegada obsessão pela aplicação militar.
Explique isso melhor…
Vejamos os robôs que dançam: estas máquinas dançam mas não pegam em armas. Tal como, na História, os chineses inventaram o fogo de artifício – mas não as bombas. É um soft power, em ascensão, para a promoção da paz. Esta é uma narrativa central na propaganda chinesa.
Mesmo com a pedra no sapato que é Taiwan? Uma invasão de Taiwan não desmascararia a China?
Mas tem alguma informação sobre uma iminente guerra em Taiwan?
Eu não…
Mas é bom que se pense isso… Taiwan, assim, comprará armas aos EUA…
Eu falei em Taiwan para contextualizar o novo quadro das relações sino-americanas, depois da eleição de Donald Trump. É um novo desafio?
A comunicação da China para Taiwan tem um departamento específico. E há relações comerciais. Em 2008, houve um candidato com sucesso, originário da cidade de Kaohsiung [Sul de Taiwan], um candidato do partido nacionalista, Han Kuo-yu, a quem já chamaram o Trump de Taiwan, em que ele defendia o estreitar das relações com a China. Chegou a ser, por um breve período, presidente do parlamento taiwanês. Há sempre nuances. De qualquer forma, a ideia da reunificação – sempre sob o regime de Taipé e não de Pequim, claro… – já teve mais popularidade em Taiwan.
A narrativa de que os chineses fazem a sua afirmação pela paz serve para fazer a diferença relativamente a Trump?
Não é uma política especificamente direcionada à administração norte-americana. É mais global. Há muitos discursos sobre a ameaça chinesa e a China procura desconstruí-los. É uma das suas agendas principais: a China não pretende alterar o regime de nenhum país nem “exportar a sua democracia”. Nem em África: a China não interfere nas políticas internas. Enquanto a ajuda europeia e ocidental se submete a algumas condições, que têm que ver com a natureza dos regimes destinatários ou com os Direitos Humanos, a China não faz perguntas. E procura fazer esse contraponto…
A China tem então três vetores de afirmação externa: tecnologia, desporto (medalhas olímpicas) e economia (comércio). Não tanto a exportação do seu regime (ao contrário da ex-URSS) nem expansão cultural. É isto?
A China tem algumas ambições na expansão da influência cultural. Mas sempre em termos de soft power. A China está numa situação complicada, porque aquilo de que as pessoas gostam no Ocidente, em muitos aspetos, é diferente do que se gosta na China. Ainda assim, a ascensão do TikTok resulta numa boa ferramenta de influência.
A Covid-19 permitiu um ainda maior controlo da população, certo?
Certo. E isso ficou. O reconhecimento facial, por exemplo, está disseminado, incluindo para pagamentos. Também as aplicações para controlo dos movimentos e a vigilância por câmaras se expandiram. E as pessoas normalizaram isto, porque se sentem mais seguras. Os cidadãos não têm a consciência de que estas ferramentas podem ter uma utilização abusiva por parte do Estado. A mentalidade é completamente diferente da que vigora na Europa, com a preocupação dos europeus em torno da privacidade e da utilização de dados.
Só que esta vigilância não permite apenas controlar a criminalidade, mas também as atividades políticas consideradas ilícitas…
Na China, isso não é um problema, porque, lá está, ninguém faz nada contra o governo… Eu diria que este sistema seria impossível na Europa.
A liderança de Xi Jinping é inquestionável, então?
Tem contestação, mas as vozes contestatárias rapidamente desaparecem ou são silenciadas. Mesmo o certificado de jornalista é renovado anualmente, desde que haja “bom comportamento”.
E que tipo de imagem projeta Xi Jinping? Ou que imagem espera que os chineses tenham dele?
Ele está a criar uma imagem semelhante à que tinha o Mao [Tsé-tung]. Muitas coisas fazem lembrar o Mao. Se entrar em qualquer livraria, tem logo uma enorme foto do líder e um livro com os seus pensamentos. Está omnipresente e há um grande investimento em promover a sua imagem, desde as idades mais tenras.
O Partido é o Xi.
Sim.
É um líder muito diferente dos anteriores, desde o Deng.
Sim, e curiosamente, o pai do Xi Jinping foi perseguido durante a Revolução Cultural de Mao. E é curioso como o Xi está a recuperar o Mao, ou algumas das suas práticas…
E a importância das redes sociais chinesas para o regime?
São importantíssimas. Não temos acesso às redes ocidentais, mas temos as chinesas, que as replicam, com outro nome, mas controladas pelo regime. Um estrangeiro que vá à China, quase obrigatoriamente também tem de usar estas. E existe serviço em inglês, sobretudo, no WeChat, a rede mais popular da China.
A União Europeia não é hoje uma prioridade para a China? A UE também se tem queixado de deslealdade comercial chinesa…
A China tinha definido um triângulo estratégico: China, URSS e EUA. Agora, depois do fim da URSS, passou a ser China, UE e EUA.
E a Rússia? Não está na esfera de influência da China?
Não necessariamente. Acho que a Rússia está mais próxima da Coreia do Norte.
Então há uma diferença estratégica entre a China e a Coreia do Norte?
Bastante diferença, e mais afastamento, sobretudo, nos últimos anos. Sem dúvida. Com o Kim Jong-un e os seus testes nucleares, que não são aprovados por Pequim. Há críticas abertas a Pyongyang, na China, que deixaram de ser censuradas. Os média oficiais da Coreia do Norte também criticam fortemente a China e já chamaram à China “o cão dos Estados Unidos”. O que é bastante curioso… [Muitos risos]. Mas, ao mesmo tempo, mantém-se a aliança militar.
E Portugal? É verdade que há uma relação histórica especial, independentemente da UE?
Sim, existe. Há afinidades históricas, de que Macau é o exemplo mais visível. Curiosamente, em Macau nunca se registaram os protestos anti-Pequim que vimos em Hong Kong, mas talvez isso se deva ao facto de que, em Macau, as pessoas têm mais qualidade de vida. E Macau está a ter um papel importante no relacionamento da China com os países da CPLP, sendo Portugal um parceiro fundamental (na visão da China). E o investimento chinês em Portugal é significativo e é uma aposta para manter.
Donald Trump. Salta de ultimato em ultimato. Tarifa aqui, tarifa ali. Até sobrar uma míngua do que dizia querer. Ou nunca quis. Mas fazia de conta. Credibilidade? Zero. Basta um finca-pé do ameaçado… e zás! Ou muda o prazo. Ou corta substancialmente.
Vai-se formando uma ideia. Clara. Ameaça os fracos. Teme os fortes. Humilhou Zelensky. Humilhou o presidente da África do Sul. Na Sala Oval. À vista de todos. Mas… caladinho com os líderes dos grandes. Alemanha. Reino Unido. Canadá. UE. E outros.
Quer ficar na História. Mas não pelas razões certas. Salão de baile na Casa Branca. Para centenas de pessoas. Só 200 milhões de dólares! Um investimento a saldos, quando comparado com as obras da FED. Que vão aos biliões! Trump gosta de bailar. De dar bailes!
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Para sempre, gerações atrás de gerações exclamarão: “Foi Trump que mandou fazer!”… “Foi Trump que construiu!”… “Foi Trump que gastou 200 milhões!» A propósito: não foi ele quem inventou um departamento para a eficiência financeira da Administração Federal? Para poupar triliões. Está no limbo. Sem Musk. Mas… a trabalhar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Tem tudo para ser a viagem de uma vida. Podermos embrenhar-nos no coração de um dos mais vibrantes pulmões do planeta, sem nunca deixar de desfrutar do conforto e da segurança na hospedagem e nos transportes, acompanhados por guias atentos e conhecedores, ao mesmo tempo que nos encontramos a curta distância de uma metrópole cosmopolita e alegre, como só as cidades brasileiras conseguem ser – é um privilégio e uma experiência inesquecível. Tudo isto bem no centro da Amazónia, a maior floresta tropical do mundo, e banhados pelo majestoso Amazonas e o seu maior afluente, o rio Negro. Um destino único, que agora se encontra mais perto, graças à reativação dos três voos semanais da TAP diretos a partir de Lisboa.
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Pulmão do mundo A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo,localizada na bacia hidrográfica do rio Amazonas,na América do Sul. Abrange territórios de nove países:Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. A região é conhecida pela sua vasta biodiversidade e pela sua importância para o equilíbrio ambiental do planeta.Habitualmente chamada “pulmão do mundo”, cobre 6,74 milhões de quilómetros quadrados e esconde um infindável número de experiências apaixonantes.
Com os seus 6,74 milhões de quilómetros quadrados, a Amazónia estende-se na sua maior parte (60%) pelo Brasil, mas chega a mais oito países (Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa). A selva abrange maioritariamente o estado do Amazonas, mas ocupa também regiões de Acre, Amapá, Pará, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. Ao todo, quase metade do território brasileiro. Bem no centro deste ponto fulcral da biodiversidade e crucial para a manutenção do ciclo da água e a regulação climática globais, está Manaus, uma cidade de dois milhões de habitantes, cercada por floresta densa e pujante e dois dos maiores rios do mundo. Essa situação não a impediu, porém, de ser metrópole repleta de esplendor arquitetónico, patrocinado pelas riquezas proporcionadas pelos ciclos da borracha, que se extraía das árvores locais e dali seguia para todo o mundo. Chamavam-lhe nessa altura, até ao dealbar do século XX, a “Paris dos trópicos”, fruto da forte influência europeia que determinou a construção de alguns dos seus principais edifícios, que ainda hoje perduram, como é o caso do Teatro Amazonas, da Catedral Metropolitana, do Palácio Rio Negro e do Mercado Municipal, desenhado por Gustave Eiffel. Traços arquitetónicos também perfeitamente reconhecíveis em grande parte do centro histórico da capital amazonense, que fazem lembrar as zonas mais antigas de cidades como o Rio de Janeiro ou Salvador da Bahia.
Atualmente alimentada pela zona franca que dá guarida, a troco de gigantescas borlas fiscais, a inúmeras multinacionais da indústria e da tecnologia, é verdade que o centro e várias das outras atrações turísticas de Manaus poderiam estar mais limpos e conservados, mas esse problema é (infelizmente) comum à grande maioria das cidades brasileiras, e até sul-americanas em geral. Mas isso não lhe retira nem carisma nem charme. A boa disposição da população, a qualidade da oferta gastronómica e cultural, bem como o espírito festivo e musical dos manauaras tornam a estada na capital do estado do Amazonas uma agradável surpresa. Imperdível mesmo para aqueles cujo objetivo primordial da viagem seja o de se embrenharem na selva. À chegada, antes do regresso ou enquanto base permanente da estada, Manaus merece um ou dois dias de passeio atento. Há oferta hoteleira para todos os gostos e bolsas, museus, galerias de arte, livrarias, restaurantes e botecos que merecem mesmo uma visita (ver caixa).
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Igapó Na língua tupi, significa “floresta de raízes” ou “floresta inundada”, descrevendo as áreas de floresta tropical que são regularmente inundadas por rios ou lagos. Na bacia amazónica, os igapós podem ocupar, dependendo da época do ano e das chuvas, cerca de 2% da área total da floresta.
Entre lagos, igarapés e igapós
Para uma experiência realmente imersiva, existem inúmeras ofertas de hotéis e resorts nas margens do rio Negro, mesmo antes de este se juntar ao Amazonas (que nesta região responde também pelo nome de rio Solimões), num impressionante “encontro das águas”, fenómeno natural que, devido às diferenças de densidade, acidez e temperatura dos dois rios, os impede de se diluírem um no outro por mais de seis quilómetros. De toda a oferta disponível, o Uiara Amazon Resort, o único totalmente flutuante em toda a Amazónia, é a escolha ideal. Construída em cima de plataformas que acompanham a subida e a descida das águas de um lago abastecido por nascentes de água mineral, esta unidade hoteleira pioneira oferece uma experiência exclusiva de luxo e conforto em plena floresta. Com 92 quartos de design sofisticado, varandas com vista para o rio e serviço personalizado, proporciona aos hóspedes uma imersão completa na Natureza, sem abrir mão do requinte. O resort oferece transporte direto e personalizado desde Manaus, seja a partir do aeroporto ou dos hotéis do centro da cidade, para um embarcadouro privado e, daí, em lancha rápida até às águas plácidas do lago Salvador, assim chamado por ali ser, historicamente, o lugar onde as embarcações procuravam refúgio quando o banzeiro (a ondulação) do rio Negro desaconselhava a travessia. Ligado ao rio no pico da época das chuvas ou isolado no resto do ano, o lago do Uiara serve de porta de entrada perfeita para a magia da selva.
Sem sair o hotel, é possível avistar das janelas do quarto o imponente Caroço, jacaré com três metros de comprimento que domina o lago. Antes de adormecer, no escuro da varanda, pode escutar-se a impressionante “orquestra da floresta”, composta pelos milhares de sons proporcionados pelos animais e pela vegetação circundante. Sem precisar de ter pavor dos mosquitos, que ali não proliferam graças à acidez das águas do rio Negro, ainda que um bom repelente seja sempre aconselhado. Depois, dependendo da duração da estada, o resort oferece no preço da diária, que já inclui quatro refeições (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar) de gastronomia local idealizadas por chefes contemporâneos, uma série de experiências imersivas. O cliente fará tantas quantas conseguir nos dias que ali permanecer. Desde assistir ao nascer do sol no rio até caminhadas curtas para aprender a atirar com arco e flecha e as técnicas de sobrevivência na selva, é possível procurar jacarés à noite no lago, dormir ao relento na floresta, andar de canoa ou partir de barco para ir ver o “encontro das águas”, ao largo de Manaus.
A experiência mais completa e inesquecível é aquela à qual chamam Amazónia Nativa. Nesse dia inteiro passado a bordo da lancha rápida do hotel ou numa canoa a motor conduzida por um habitante local, sempre acompanhados pelos extraordinariamente bem preparados guias, os hóspedes podem começar por nadar com botos-cor-de-rosa. Depois, dá-se a entrada no deslumbrante rio Ariaú, exemplo máximo daquilo a que os indígenas chamam igarapé (caminho das canoas em língua tupi), um curso de rio estreito que entra pela floresta adentro. Ao longo do trajeto, entre incursões nos igapós (rio com raízes, como os índios chamam às zonas de floresta alagadas na época das chuvas), é possível ver exemplares gigantes de árvores sumaúma, conhecidas como as rainhas da selva, com 300 anos de idade e um tronco que, na base, precisa de 20 homens para ser abraçado. Com sorte, consegue ouvir-se o potente grito dos guaribas, os macacos uivadores, e mais adiante, ter um encontro com os divertidos macacos-de-cheiro, que vêm à mão comer pedaços de banana. Atenção que também são capazes de levar os smartphones de quem não estiver atento.
Presidente Figueiredo A cerca de duas horas de Manaus, na estrada BR-174 que liga a capital do Amazonas à Venezuela, esta cidade de 25 mil habitantes é considerada a capital das cachoeiras deste estado, tendo catalogadas mais 150 quedas de água, às quais se juntam inúmeros lagos criados por nascentes naturais
Há, depois, tempo de pescar piranhas ao som dos uivos dos guaribas (parecem de onças…) enquanto se degusta uma cervejinha gelada, antes de rumar a uma das aldeias espalhadas à beira do rio. Aí, a comunidade local prepara irrepreensíveis patuscadas de tambaqui (ou pirarucu ou matrinxã ou outro exemplar de peixe do rio) assado na folha de bananeira. Uma experiência única, por se perceber que tem muito pouco de artificial e que estamos perante famílias que ali vivem o ano inteiro. Um sentimento que acaba por se sentir também, mais tarde, quando chega a hora de visitar a comunidade Cipiá, grupo de índios Tukanos liderado pelo chefe Thoalaman (também responde por Domingos). É evidente, pelo uso de telemóveis e terminais de pagamento com cartões de crédito, que estamos já muito longe de conhecer os índios originários, mas os rituais de receção e a visita à aldeia permitem ter uma ideia aproximada de como terá sido, no passado, a vida daqueles povos.
Todas estas experiências podem, obviamente, ser realizadas a partir de outros resorts ou até mesmo de Manaus, havendo diversas agências a oferecer pacotes e programas personalizados, sempre acompanhados por guias experientes e conhecedores (ver caixa). A oferta completa do Uiara acaba, contudo, por ser uma grande vantagem para os viajantes.
Capital das cachoeiras
Não tão perto do majestoso Amazonas ou do rio Negro, mas igualmente uma experiência a não perder nesta região é a visita a Presidente Figueiredo, uma cidade com cerca de 30 mil habitantes, a duas horas de distância de Manaus, construída já no século XX no meio da floresta, à beira da BR-174, a estrada que liga os estados brasileiros de Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Roraima à Venezuela. A localidade é conhecida como a capital estadual das cachoeiras, em virtude das 150 quedas de água catalogadas na região. Para ali chegar, é possível contratar os serviços de agências (ver caixa) que fazem o transporte de e para Manaus e disponibilizam guias para acompanhar toda a experiência, que contempla, da parte da manhã, uma caminhada de duas horas e meia pela floresta para visitar as grutas de Maragua e as suas deliciosas quedas de água, e, da parte da tarde, a hipótese de nos banharmos no Fervedouro e na lagoa Azul, duas nascentes de águas cristalinas em plena selva, ou na imponente cascata de Iracema. Apenas alguns (e impressionantes) exemplos da panóplia de atividades possíveis em Presidente Figueiredo.
Mercado Municipal Desenhado por Gustave Eiffel, o principal mercado da capital do estado do Amazonas é não só um expoente da época em que a cidade era conhecida como a Paris dos trópicos, mas também o lugar ideal para conhecer a impressionante diversidade de produtos alimentares que a floresta tem para oferecer.
Gastronomia única
Para lá do esplendor da Natureza em estado puro, entre as maiores surpresas da Amazónia está, sem qualquer sombra de dúvida, a gastronomia. Não só pela quantidade e pela qualidade surpreendentes da oferta, mas também pelo alto padrão que é possível encontrar na restauração que, sobretudo Manaus, tem para oferecer. O primeiro aspeto que salta imediatamente à vista é a omnipresença da mandioca na dieta do amazonense. Não se trata do tubérculo que facilmente se encontra já em Portugal, mas sim de uma variedade à qual chamam, naquelas bandas, mandioca brava, que pode ser tóxica, dada a alta concentração de ácido cianídrico. Apesar de venenosa, devidamente manuseada, transforma-se num alimento único, dele sendo possível tirar não só a farinha (ali chamada Uarini, mais grossa do que a farofa tradicional), mas também o tucupi (um líquido ácido e cítrico usado como condimento) e a goma, que são a base de um dos pratos mais típicos do Norte do Brasil, comido a qualquer hora do dia: o tacacá, um caldo com camarão de sabor requintado. Outro alimento diariamente presente na mesa ou na lancheira de um manauara é o x-caboquinho, uma sanduíche em pão francês composta de banana-da-terra frita, queijo e tucumã, um dos inúmeros frutos locais.
Rua Bernardo Ramos É uma das primeiras ruas de Manaus e a primeira a ser urbanizada naquela que viria a transformar-se na capital do estado do Amazonas, que, atualmente, alberga dois milhões de habitantes. Em tempos alimentada pelos ciclos da árvore–da-borracha, Manaus vive agora impulsionada pela zona franca, que alberga um significativo polo industrial.
Tendo por base estes ingredientes, aos quais se junta o jambu, uma planta amazónica cujas flores e folhas causam dormência na boca e que é usada em caldos, pratos salgados e bebidas (a obrigatória caipirinha, por exemplo), a gastronomia local ganha asas e permite enriquecer de sabor, sobretudo, os inúmeros peixes que é possível pescar nas águas do Amazonas e do rio Negro. Os reis são, como já foi dito, o tambaqui, o matrinxã e o pirarucu, este último com a particularidade de, em determinados cortes, saber a porco. Se a isto juntarmos a luxuriante panóplia de frutos como açaí, cupuaçu, taperebá, bacaba ou bacuri, o leque de sucos, gelados e demais sobremesas torna-se infinito. Tudo isto cada vez mais bem apresentado nos vários restaurantes de Manaus que conseguem elevar a qualidade da cozinha tradicional ao mais alto nível contemporâneo (ver caixa).
Aqui juntamos, enfim, argumentos que julgamos suficientes para que o leitor possa começar a planear a sua viagem de sonho à Amazónia, sendo certo que a melhor altura do ano para o fazer será a partir de meados de junho, quando a época das chuvas está a terminar e em que, portanto, as águas dos rios estão mais altas. A partir de julho, os rios começam a recuar durante o verão amazónico (por lá só existem duas estações, uma quente e chuvosa e a outra muito quente e húmida), com o final de agosto e o mês de setembro a apresentarem temperaturas extremamente altas. Ainda assim, nada que não se consiga amenizar com uma visita ao Bar do Armando, em pleno Largo de São Sebastião (em frente ao Teatro da Amazónia), fundado por um português de Arganil e frequentado pelos intelectuais e boémios da cidade, onde se pode beber umas refrescantes cervejinhas e caipirinhas, enquanto se escuta música ao vivo. Imperdível!
Comandado pelo chefe Felipe Schaedler, com delegação também em São Paulo, este é provavelmente o melhor restaurante de Manaus, onde é possível degustar algumas versões contemporâneas e surpreendentes da gastronomia amazonense. Impossível visitar este espaço sem experimentar a moquecada de barriga de pirarucu ou o tambaqui com crosta de castanha e banana assada. Mas nesta casa tudo é excecional.
A chefe Débora Shornik deixou a sua São Paulo natal para abrir, bem no centro de Manaus, no número 495 da Rua 10 de Julho, em frente ao Teatro da Amazónia, um dos 50 melhores restaurantes do mundo. Os bolinhos de tambaqui, o carpaccio de pirarucu com tucupi e o matrinxã recheado para duas ou três pessoas são de comer rezando, sobretudo quando acompanhados de caipirinha amazónica, aromatizada com jambu.
É o primeiro restaurante indígena de Manaus. Situado na zona histórica da cidade, naquela que foi a sua primeira rua, junto à antiga prefeitura, esta casa chefiada por Clarinda Maria Ramos une as gastronomias das etnias Tukano, do alto rio Negro, e Sateré-Mawé, do baixo Amazonas, e oferece combinações intensas entre peixes, caldos apimentados e formigas como acompanhamento ou delicatessen.
Vários dias seguidos a comer, sobretudo, peixe pode pedir uma alternativa. Para apreciadores de carne, este é o sítio a procurar para experimentar um tipo de churrasco diferente do habitual. A picanha ou a costelinha (ou ambas) no bafo são de comer e chorar por mais.
Agência especializada em tours personalizados em Manaus e na floresta. Oferece uma vasta gama de passeios que misturam a gastronomia, a arte e a vida na cidade, bem como a ciência e a vivência na floresta.
Oferece uma panóplia de pacotes que vão de um a dez dias na floresta amazónica. Entre a vivência dos rituais indígenas, passando pela aventura da subida às árvores ou do mergulho nas cachoeiras e nascentes de Presidente Figueiredo, esta agência com mais 25 anos de experiência é uma excelente alternativa para quem não quiser ficar preso num só resort.
Empreendimento inovador que alia turismo de alto padrão, respeito ao meio ambiente e valorização da cultura local. Único hotel 100% flutuante da Amazónia, fica situado num lago adjacente ao rio Negro, na margem oposta de Manaus. Além de pensão completa (bebidas alcoólicas à parte), oferece, incluído no preço da diária, uma série de atividades e experiências na floresta, acompanhadase monitorizadas por experientes guias turísticos e florestais. E até se pode tomar banho numa zonado lago onde, de vez em quando, aparece o Caroço, um jacaré de três metros. Transporte de ida e volta em lancha rápida com wi-fi e confortáveis minivans assegurada pelo resort.
Uma das inúmeras alternativas para pernoitar em Manaus. Pequeno, mas charmoso, com um excelente pequeno-almoço, este hotel (“pequenos” é a palavra certa para descrever os dez quartos) tem a grande vantagem de estar situado em pleno Largo de São Sebastião, bem no centro da cidade. Além do emblemático Teatro da Amazónia, fica paredes meias com a zona mais boémia da cidade.
Geógrafo especializado em Climatologia, Alfredo Graça, 30 anos, está à frente da equipa informativa do site tempo.pt, da Meteored Portugal (filial nacional da empresa-mãe espanhola com o mesmo nome), cada vez mais consultado para se saber como anda e andará a meteorologia no País e no mundo. Nesta entrevista à VISÃO, descobrimos um climatologista com opiniões concretas e definidas, que rebate exageros sobre, por exemplo, o fenómeno das ondas de calor, mas reconhece o esbatimento das estações do ano. E apresenta o conceito de “forno ibérico”, muito mediatizado em Espanha e por cá quase desconhecido.
Tem memória de, em pequeno, já se interessar pelos “mistérios” do tempo?
Lembro-me de ir às sete da manhã, com a minha avó paterna, regar plantas numa casa de férias que ela tinha em São Julião, uma freguesia de Portalegre, e de estar sempre muito atento ao céu, às nuvens.
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Isso com que idade?
Sete, oito anos, se calhar até mais cedo. Claramente, a minha avó e esse ambiente desempenharam um papel crucial na minha paixão pela Natureza e Geografia, da paisagem ao céu.
E como surgiu o seu interesse específico pela Climatologia, em que se especializou?
Para ser sincero, era das disciplinas em que tinha pior nota, na faculdade. Mas adorava na mesma. Até que se tornou uma paixão, uma obsessão diária, que inicialmente proveio da Paleoclimatologia, em que se estuda as mudanças globais climáticas na Terra ao longo de milhões de anos. Para mim, foi muito cativante estudar o Quaternário, a designação que se dá a esse período em particular.
O seu estágio profissional foi proveitoso?
Foi um tempo ótimo. Estagiei no Instituto Geofísico da Universidade do Porto com duas especialistas de excelência – Helena Madureira, a orientadora, e Ana Monteiro, a supervisora. Para começar, estávamos num sítio muito bonito, a serra do Pilar, no Porto, onde se situa a estação meteorológica clássica do IPMA [Instituto Português do Mar e da Atmosfera]. Depois, eu e os meus colegas aprendemos imenso sobre a recolha, medição e análise de dados, na temperatura do ar, precipitação, humidade, vento e por aí adiante. Tive de coligir bases de dados da serra do Pilar e compará-las com outras duas bases de dados. Toda essa metodologia é importante para perceber como é que a nível científico as coisas funcionam, como é que podem resultar com substância ou podem ficar limitadas pela própria amostra dos dados que temos. Foi importante para ganhar calo, como se costuma dizer. A seguir redigi a dissertação de mestrado, com a orientação daquelas duas professoras, e defendi-a em finais de 2020.
Nessa altura já trabalhava no site da Meteored?
Sim, desde 2018.
E já era redator-chefe?
Exato. Lembro-me de que fui promovido no dia anterior a fazer 23 anos.
O site pretende fazer alguma concorrência ao IPMA?
Não, de todo. O único paralelismo que encontro entre o IPMA e a Meteored é o objetivo que ambos têm de informar com conhecimento científico, credível e fiável, com rigor. Há esse pano de fundo de alerta, de aviso a pessoas que podem estar vulneráveis a certos tipos de eventos – inundações, secas, ondas de calor, incêndios florestais, até erupções vulcânicas. Os alertas oficiais, no entanto, cabem ao IPMA, que tem essa responsabilidade. Mas é claro que, como faz qualquer empresa e serviço, puxamos a brasa à nossa sardinha. Tem de ser, é assim que o mundo funciona.
Diria que este está a ser um verão relativamente calmo, no que respeita a ondas de calor, tirando a de junho e a que se anuncia neste momento em que falamos [na passada sexta-feira, 25]?
Neste mapa de anomalia de temperatura verifica-se, segundo Alfredo Graça, que “em grande parte da geografia de Portugal continental se prevê um agosto mais quente do que o normal”
Em junho houve duas ondas de calor. Agora, a partir da reta final de julho, prevê-se que haja um aumento do calor, embora a duração e a intensidade ainda estejam por confirmar. Muitas vezes, o que acontece com ondas de calor é que são analisadas após o evento ter ocorrido. Isto porque não há um parâmetro uniforme que, no que concerne a uma onda de calor, diga: “Isto é assim, e é assim em todo o lado.” O que não permite, com assertividade, definir o que é uma onda de calor, ou se vai ser, ou se já está a ocorrer.
Que parâmetros existem?
Temos vários institutos e instituições, organismos oficiais e credíveis, que diferem nos critérios de classificação de uma onda de calor. A Organização Meteorológica Mundial – cujos critérios são seguidos pelo IPMA – considera que existe uma onda de calor quando, durante seis dias, a temperatura média máxima está 5°C acima da média. Já o IPCC, Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, diz que são cinco dias com os mesmos 5°C. Depois, temos o Met Office, o instituto de meteorologia do Reino Unido, e a AEMET, a agência meteorológica de Espanha, a dizerem que bastam três dias para já ser um evento de onda de calor.
Complicado…
Além de que temos de ver aqui a questão da intensidade. Por exemplo, para grupos de pessoas mais vulneráveis o impacto de uma onda de calor é maior durante três dias em que a temperatura chega aos 10°C acima da média do que os 5°C acima da média ao longo de seis dias. Ou seja, a intensidade, neste caso, do valor da previsão da temperatura média máxima que vai ocorrer durante esse período é mais importante do que a duração.
Para o aumento do calor agora em agosto, que já se prevê acima do normal, que explicações encontra?
Diria que tem que ver, sobretudo, com o “forno ibérico” – expressão que ganhou mediatismo em Espanha, mas que pode ser aplicada em Portugal, e que se relaciona com o próprio relevo: a Península Ibérica pode ser entendida como um minicontinente na época do verão, por razões geográficas e climáticas -, com o vento de Leste, quente e seco, com a massa de ar tropical continental do Norte de África, e com a exposição peninsular à radiação solar, que atinge os valores mais elevados nesta altura. E, já agora, relembre-se que, em termos estatísticos, estamos no período mais quente do ano, a canícula, que vai de 15 de julho a 15 de agosto.
Ainda assim, há quem diga que estamos mesmo perante um verão atípico, tendo em conta que noutros anos foram recorrentes ondas de calor e temperaturas extremas…
Precisamente por causa disso, não diria que estamos num verão atípico. Um verão atípico implica muitas ondas de calor e muitas temperaturas extremas. A não ser que se diga “atípico” por estar a ser normal. Habituámo-nos a ter anos de calor excessivo e de seca, e achamos que isso agora é o normal. Acho que finalmente estamos a viver um ano normal, porque estamos a ter algumas ondas de calor, típicas de verão, mas estamos a ter também um verão que não está a ser mau na seca. Lembro-me de notícias que publicámos na Meteored sobre “Alentejos” e “Algarves” floridos como há muitos anos não se via, pelo que choveu, por exemplo, em março. Compare-se com o verão de 2022: esse, sim, foi um verão atípico, extremamente quente, com incêndios brutais. Esse foi um verão já marcado pela alteração climática, diria.
Há um esbatimento entre as estações, tornou-se mais ténue defini–las. Temos tido outubros muito quentes, por exemplo, mas também muito chuvosos. Uma coisa um bocado de extremos.Nos últimos anos, nota-se que têm chegado muito à Península Ibérica os chamados ‘atmospheric rivers’, os rios atmosféricos que eram mais característicos das Caraíbas
Este ano tem sido mais húmido do que a norma?
Consultando os dados, sim, tem sido. De outubro a maio choveu quase sempre acima da média. Junho e julho são as exceções, mas acho que não é o suficiente para ser não húmido.
O facto de não estar ativo neste momento um El Niño é o que “puxa” a temperatura média global para baixo? Ao contrário de Portugal, o resto da Europa, por exemplo, está sob um tempo mais fresco…
É difícil atribuir só a um El Niño o facto de estar mais ou menos calor. Também não estou seguro, até do ponto de vista científico, que possa ser só esse fator que está a interferir. Há uma tendência, mas não diria que é 100% precisa. Acho que a temperatura média global depende de muita coisa em simultâneo.
Quais são os impactos das alterações climáticas que, do seu ponto de vista, mais se têm feito sentir em Portugal?
Desde o início do século XXI, um dos que mais chama a atenção são as secas. Por serem um problema crónico, no Alentejo e no Algarve, que por acaso este ano não estamos a viver e ainda bem. Diria que esse é um dos problemas prementes, que afeta a agricultura, a gestão dos recursos locais hídricos e o uso do solo. Sem água torna-se muito difícil produzir ou ter o mesmo tipo de atividades de outras zonas do País, muito mais expostas à pluviosidade anual, como é o caso do Minho, por exemplo, fruto da latitude e porque tem uma barreira de condensação, um conjunto de montanhas alinhadas, paralelo à linha de costa – Marão, Alvão, Peneda-Gerês –, o que faz com que a chuva chegue e fique ali, toda concentrada nesse lado noroeste de Portugal. Mas as secas não afetam apenas o Alentejo e o Algarve. Também as há, por exemplo, no interior Norte, no Nordeste, precisamente por razões naturais, em que a montanha serve de barreira e a chuva que chega é muito menor. Este é um bom exemplo em que o ser humano em nada contribuiu. O problema é mesmo a montanha e não há nada a fazer, a não ser ajudar as comunidades locais a adaptarem-se. Depois, temos as inundações que acontecem em vários sítios, mas aqui não diria que é por causa das emissões, diria que é por má ocupação do território. Já nos incêndios florestais, está provado por diversos estudos científicos que 90% podem ser atribuídos à pirotecnia, à mão criminosa que mete fogo. Mas ainda é preciso referir as ondas de calor e a subida do nível do mar, embora só em certos pontos do território isso se note. Apesar de o relevo, aqui, estar naturalmente mais exposto, na erosão costeira também se intromete a construção urbana a montante, que depois interfere a jusante.
Quais são as alterações mais visíveis no clima português? Há a perceção de que hoje as estações do ano estão mais fluidas do que antigamente…
Também tenho a mesma perceção, não científica, mas resultante dos meus anos de experiência e trabalho. Há um esbatimento entre as estações, tornou-se mais ténue defini-las. Temos tido outubros muito quentes, por exemplo, mas também muito chuvosos. Uma coisa um bocado de extremos. Nos últimos anos, nota-se que têm chegado muito à Península Ibérica os chamados atmospheric rivers, os rios atmosféricos que eram mais característicos de zonas como as Caraíbas. Muitas vezes, o tempo ainda está quente em Portugal e já seria de esperar mais frio. Mas, para termos a certeza científica sobre esta eventual mudança climática, importa salientar que é preciso fazer um estudo aprofundado a 30 anos. E 30 anos demora.
Sou leitora e assinante da Visão há mais de 27 anos. Além da edição digital, compro-a semanalmente nas bancas, por convicção, para apoiar… Dizer isto é dizer que cresci convosco, que me informei convosco, que vi o mundo pelos olhos do vosso jornalismo. E hoje, com o coração apertado, escrevo estas palavras não apenas como leitora fiel, conjuntamente com o meu marido, mas como alguém que sente que pode estar a perder uma parte essencial da sua ligação à verdade, à reflexão e à liberdade. A Visão sempre foi para nós e para muitos, símbolo do jornalismo sério, íntegro e corajoso. Uma revista que nunca teve medo de pensar, de investigar, de incomodar quando era preciso, de iluminar o que alguns preferiam deixar nas sombras. Uma casa onde o rigor e a humanidade andam de mãos dadas. Uma referência. É por isso, com imensa tristeza que sei da possibilidade da dissolução deste projeto extraordinário. Como chegámos aqui? A ideia de ver tantos profissionais de excelência sem o espaço que merecem para exercer a sua vocação, é um golpe duro, não só para eles mas também para todos nós, os seus leitores. Porque quando uma voz como a da VISÃO se cala, todos ficamos mais pobres, mais vulneráveis, mais sós. Mas não quero escrever apenas com tristeza! Quero, acima de tudo, deixar uma mensagem de esperança. Acredito, e quero acreditar, que ainda é possível reverter este caminho. Que ainda há mãos e vontades capazes de salvar a Visão. Que o jornalismo de qualidade, feito com alma, ainda tem lugar e valos neste país. Que a confiança dos leitores, construída ao longo de décadas, pode ser uma força mobilizadora! Sei que não depende apenas de nós, leitores. Mas também sei que o nosso silêncio seria uma forma de desistência. E eu não desisto! Não da Visão não de tudo aquilo que ela representa. Aos que fazem esta revista, o meu mais mais profundo respeito e agradecimento. E a certeza de que, aconteça o que acontecer, a vossa marca permanece e permanecerá em cada um de nós, leitores! Com carinho e esperança
Maria de Fátima de O.G. Moreira Paulo
Olá a todos os que resistem. Quero , uma vez mais , manifestar o meu total apoio à GRANDE luta e resistência que alguns jornalistas da “nossa” VISÃO estão a levar a cabo para que a revista se mantenha firme , independente e continue a ter o seu merecido lugar nas bancas . Porque uma banca de venda de jornais e revistas sem a VISÃO ficaria muito pobre. Tenho consciência de que não é o momento para destacar este ou aquele artigo/texto ou algum jornalista , mas não posso deixar de mencionar o claro, objetivo, excelente texto da jornalista Margarida Davim “O que nós mudámos em 58 anos “, publicado na VISÃO 1690 de 24 julho. Grande abraço de amizade ( desculpem mas já vos considero meus amigos ) “ousar lutar, ousar vencer”
Luís Filipe Mesquita
Caros trabalhadores da VISÃO,
Em nossa casa, a VISÃOé assunto que atravessa, e une, gerações. A minha mãe, Isabel, acompanha-a desde a fundação, como creio que antes fazia com O Jornal. Eu, sendo um pouco mais nova do que a revista, leio-a desde a adolescência. E se, em eu criança, minha mãe comprava a VISÃO Júniorpara lermos em conjunto, na idade adulta passei a interessar-me, como ela, pela VISÃO História, de que temos alguns números guardados (não tantos como gostaria, eu que desejaria a coleção completa) – certos exemplares serviram-me inclusivamente como material de pesquisa e apoio por ocasião de um ou outro trabalho universitário. (…) Tão-pouco sou a única a debruçar-me sobre números antigos da Visão. A minha mãe fá-lo ocasionalmente, e há ainda a minha avó (paterna), a quem vamos semanalmente dando os números anteriores, para que leia e se distraia um pouco. A VISÃOtem, assim, acompanhado a minha vida, como a da minha mãe, e a nossa existência familiar. Ao longo dos anos, o elo em torno da revista configurou-se na partilha do interesse por determinados artigos ou entrevistas, com eventual leitura em voz alta de partes dos mesmos (…). Desde que se reformou, a minha mãe abraçou a rotina de, todas as quintas-feiras, sair de manhã para tomar café e comprar a VISÃONas últimas semanas, tal ritual tem sido assombrado pela incerteza quanto à permanência da revista, a que se segue uma sensação de alívio e alegria por a encontrar na papelaria e a poder trazer para casa. (…) Espero sinceramente que a vossa (nossa) causa saia vencedora, que a minha mãe possa continuar a comprar a VISÃOtodas as quintas-feiras e, eu, a colecionar artigos e VISÕES História. Que, nas chamadas telefónicas, também elas semanais, em que o meu pai, do trabalho, pergunta se a VISÃO“ainda saiu” e a comprámos, possamos continuar a responder sim. Os hábitos são importantes, e a VISÃO é um hábito nosso. Gostaria de pensar que de todo o País. Ainda se assim não for, a resistência perante o fim, de molde a adiá-lo quanto possível, a certeza de que se tentou quanto se podia por uma causa perdida, ou recusando que ela o fosse, tudo isso é supremamente comovente e louvável. Também por isso vos agradeço. Creiam que o vosso esforço e a vossa dedicação não passam despercebidos, sendo reconhecidos e admirados, quero crer, não só na minha, mas em várias casas, por Portugal afora, como aliás se vem comprovando no correio do leitor mais recente. Obrigada.
Com admiração e estima, até à próxima quinta-feira, Sofia Lúcio Sequeira
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Sou assinante da VISÃO e o JL e compro, ao mesmo tempo, as duas publicações em papel. Que mais posso fazer para ajudar a salvar essas revistas? A ainda compro as Biografia e a História. Não podemos cruzar os braços. Um agradecimento muito particular aos que esta semana tomaram em mãos fazer esta revista, apesar de compreendermos ao greve que os outros legitimamente decidiram fazer. Às vezes é por respeito aos que servimos que valores mais altos se levantam. E isto não tem paga. Assim os que tem responsabilidade de salvar o melhor jornalismo respondam depressa e percebam que sem ele não é possível ter uma informação livre.
Um grande abraço a todos nessa redação Heitor Ribeiro
Em relação ao texto ” A VISÃO merece a confiança ” assinada por três jornalistas da VISÃO e saído na revista de 26/06/25 , venho por este meio dar o meu grande apoio à luta que os trabalhadores do grupo Trust in News, nomeadamente da VISÃO, estão a encetar para a viabilidade e continuação da publicação da “nossa” revista. O possível desaparecimento da VISÃO seria mais uma machadada no setor da comunicação social independente, nomeadamente a escrita. Sou leitor da VISÃO praticamente desde o primeiro número. Naturalmente que tenho algumas críticas a fazer , não concordo com tudo o que é escrito ou com algumas partes da revista. Mas, no essencial , a minha opinião é positiva e far-me-ia muita falta se a VISÃO deixasse de aparecer nas bancas. Poderia assinar a VISÃO e recebê-la em casa, mas o ritual de ir, quinta-feira de manhã, a uma banca ou quiosque comprar a revista é, para mim, um prazer. Tenho muita esperança que a vossa vontade, força e luta vá dar os frutos que muita gente, que ainda acredita na verdade , anseia e que é a continuação da VISÃO. Há dois órgãos de comunicação social (VISÃO e Público) que, se desaparecessem, estávamos “tramados”! O meu grande desejo é que o desfecho da vossa “luta” seja bem sucedido .Um grande abraço de solidariedade.
Luís Filipe Mesquita
Trabalho em produção de telenovelas há vários anos e foi nos estúdios de gravação, onde é possível ver tudo o que não aparece nas televisões, que comecei a fotografar os ambientes por detrás das gravações. Gosto das fotografias de contraluz, de ver as perches com os microfones e as câmaras e todo o cenário, incluindo os operadores e maquilhadores, para além dos atores.
Acho que as fotografias têm vindo a melhorar e, com alguma pena minha, não posso ainda divulgar as últimas que tirei de uma novela que só irá estrear-se no final deste ano. Foram essas fotografias, aliás, que motivaram a apresentação deste portefólio nas páginas da VISÃO, e também vários pedidos de muitos atores para ficarem com elas, porque é um registo diferente do que são normalmente as fotos de cena.
A minha visão e o trabalho que faço, seja na música, na fotografia ou até em vídeo (que aqui não é possível partilhar), tem tudo que ver com estética e o olhar diferente, daí apresentar-me como compositor, mais do que cantor, músico ou escritor e ainda menos fotógrafo. O que faço são composições, com a minha visão das coisas, seja de imagens, de sons e silêncios, de palavras e melodias, de objetos, paisagens e pessoas.
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Tito Ribeiro
Sou compositor, escrevo poemas (sobretudo para canções), escrevo músicas, canto, toco e produzo grande parte dos discos que tenho editados. Faço uns desenhos e gosto de tirar umas fotografias
Instagram @tito_mesquita_ribeiro
Em 2023, Adam Conover afirmou: “Não pretendíamos defender-nos contra a tecnologia, mas sim contra os humanos no outro lado da mesa, que tentam lixar-nos todos os dias.” A frase foi proferida após ser finalmente alcançado um acordo entre os argumentistas e os representantes dos estúdios de Hollywood, na sequência de uma greve que parou a produção de séries e filmes. O tema central da disputa era a utilização sem regras do ChatGPT e de ferramentas semelhantes pelos estúdios. Conover parafraseou Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem.” Ou seja, sem leis, o homem vive em permanente conflito, com um desejo de poder para garantir a sua própria sobrevivência. No “contrato social”, os cidadãos abdicam de parte da sua liberdade, conferindo ao Estado o poder de legislar e a autoridade para fazer respeitar as leis.
Mas e se os cidadãos já não confiarem no “contrato social” das sociedades modernas? Se uma parte crescente da população entender que o Estado não zela pelos seus interesses?
A crise das sociedades democráticas ocidentais é exacerbada pelo algoritmo, que fomenta a polarização e impede o diálogo. Mas por que motivo discursos extremistas, violentos e desumanos apelam a tantos?
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O filosofo Michael Sandel, no livro A Tirania do Mérito, procura encontrar a resposta. Embora a sua análise se foque na sociedade americana, o seu pensamento é relevante para as sociedades ocidentais em geral e, sobretudo, para os desafios que ora se colocam com o advento da Inteligência Artificial.
A promessa de que a riqueza gerada pela globalização permitiria, a todos, maior conforto económico não se cumpriu. Em quatro décadas, a China elevou da pobreza 800 milhões de pessoas, mas nos EUA a riqueza gerada com a globalização foi capturada por apenas 20% da população. Os salários mantiveram-se estagnados e, em 2020, o Departamento de Estatísticas dos EUA divulgou um estudo demonstrando que a desigualdade atingira o nível mais elevado em cinco décadas. À desigualdade social soma-se a arrogância dos vencedores. O discurso dominante é de que quem venceu o fez pelo seu mérito exclusivo. Que tudo deve à sua inteligência e ao seu esforço e, como tal, os seus rendimentos não só são merecidos, mas justos. No entanto, tal implica também afirmar que os outros falharam por sua única e exclusiva responsabilidade, porque não estudaram, não trabalharam. Às agruras das dificuldades económicas alia-se a humilhação. Naturalmente, este é um discurso perverso, não nascemos todos com os mesmos dons, com famílias idênticas e oportunidades iguais. Mas não é somente o facto de, na corrida da vida, não partirmos todos da mesma linha e de no percurso termos apoios distintos, é também o facto de que a sociedade, em cada momento, valoriza talentos muito diferentes. Finalmente, e provavelmente mais relevante para a polarização atual, a sociedade ocidental faz coincidir o contributo de cada um para o bem comum com o valor da remuneração auferida, numa perversão social que ficou a nu na pandemia de Covid-19. Os denominados “trabalhadores essenciais” eram aqueles que desempenham as funções mais mal pagas – quem recolhe o lixo, colhe a fruta, cuida de idosos…
O trabalho não é apenas um meio para a obtenção de um rendimento. Não somos indiferentes à estima e ao respeito que geramos. Numa sociedade desigual que desvaloriza o contributo de tantos, começa-se a adivinhar porque o discurso contra os “estrangeiros” – que afirmam vir “usurpar” trabalhos e rendimentos – encontra ouvintes, e porque se afirmam contra “elites”, “privilegiados”, “políticos do sistema”.
Se este foi o status que resultou da globalização, como será quando o “estrangeiro” for um exército de agentes artificiais, que nunca dormem e tudo sabem? Quando a riqueza se concentrar numa clique ainda mais reduzida de donos de Big Tech e o trabalho cognitivo diminuir exponencialmente? Devemos a nós e às próximas gerações um debate sobre que sociedade e contrato social desejamos. Tal envolve refletir em alternativas à tributação do trabalho, capital e heranças. Reforçar a discussão destes temas na escola, na disciplina de Filosofia ou, para os mais jovens, Ética, e regular a introdução de sistemas de Inteligência Artificial na economia.