Quase 180 anos e muita evolução científica se colocam entre a primeira cirurgia feita com anestesia geral e os procedimentos anestesiológicos atuais, suportados por tecnologias com sistemas de Inteligência Artificial e fármacos em que a genética e a nanotecnologia começam a ter um papel relevante.
O dentista William Morton e o cirurgião John Warren foram revolucionários em 1846 quando, no Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos da América, anestesiaram um paciente para o operarem sem dor a um tumor no maxilar. A revista científica New England Journal of Medicine considera que esta foi “a centelha crucial da transformação, o momento que mudou não apenas o futuro da cirurgia, mas o da medicina como um todo”. William Morton utilizou um gás que permitia a anestesia e a ausência de sofrimento. No fim da cirurgia, e virando-se para a galeria cheia de estudantes de Medicina, John Warren exclamou: “Senhores, isto não é uma farsa!”
William Morton deu à sua invenção o nome de Letheon, a partir do rio Lethes, que segundo a mitologia grega era o rio do esquecimento – beber das suas águas fazia-nos esquecer memórias dolorosas. Uma história bonita, mas, na verdade, a mistura de Morton era apenas éter retificado.
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A primeira vez? O dentista William Morton e o cirurgião John Warren usaram éter para anestesiar um paciente para o operarem sem dor a um tumor no maxilar, em 1846, no Hospital Geral de Massachusetts, EUA Fotos: GettyImages
Um ano antes, em 1845, William Morton já tinha participado noutra demonstração, em Harvard, dirigida por Horace Wells, desta vez com óxido nitroso (gás hilariante), mas foram descredibilizados quando o pobre estudante que se tinha submetido a uma extração de um dente gritou de dor no auditório.
As substâncias que também são usadas de forma “recreativa” têm uma longa ligação ao entorpecimento da dor. Ainda hoje, tendo em conta que a cetamina, por exemplo, é uma das drogas que podem estar presentes na mistura. Antes da invenção da anestesia, era o álcool que aliviava o tormento de ser operado consciente. Para os mais abonados, naturalmente, tratados em casa, porque quem se dirigia aos hospitais mais não levava do que um pedaço de couro para colocar entre os dentes.
Há registos muito antigos do uso de cascas de salgueiro, mastigadas para tratar febre e dores várias. Os incas usavam folhas de coca como anestesia quando realizavam as trepanações cranianas. Na Europa da Idade Média era comum o uso da esponja soporífera, que se dava a cheirar aos pacientes depois de mergulhada numa mistela que continha ópio.
O próprio éter era, no século XIX, um inebriante comum. Foi assim que o médico Crawford Long descobriu as suas propriedades anestesiantes, fazendo amputações e extirpando tumores, anos antes de William Morton. A luta pela paternidade da anestesia não foi bonita e a ganância até fez Morton querer patentear o éter, coisa que não conseguiu.
Avanços espantosos
Antes deste momento, uma amputação ou a mera extração de um dente eram atos dolorosos e muitas vezes exigiam contenção física do doente. Para abreviar o suplício do paciente, o cirurgião trabalhava o mais rápido possível, em detrimento da qualidade do ato médico. Ao operar de forma muito lenta e cuidadosa, o cirurgião passou a poder também ir cauterizando os vasos sanguíneos, à medida que avançava, camada a camada.
A invenção foi desde logo benéfica também para as mulheres em trabalho de parto. A rainha Vitória deu o exemplo, em 1853, ao inalar vapores de clorofórmio enquanto dava à luz o príncipe Leopoldo. E, durante a Guerra Civil Americana, as amputações foram um pouco menos violentas do que nas guerras anteriores.
Hoje já não se pode apenas falar em controlo da dor quando se pensa na anestesia numa cirurgia. É preciso acrescentar à analgesia outros dois pilares: amnésia, ou seja, estado de inconsciência, e imobilidade do corpo com relaxamento muscular. “Estes três componentes dizem respeito à anestesia geral. Há também a anestesia regional, na qual é possível o doente estar acordado e ser operado”, explica Fernando Abelha, diretor do Serviço de Anestesiologia do Centro Hospitalar de São João, no Porto.
Na anestesia regional são anestesiados apenas os nervos que dão sensibilidade à região a ser tratada, por exemplo, uma perna ou um braço. Quando está em causa a manipulação do sistema nervoso central, é possível anestesiar de forma temporária o corpo apenas do umbigo para baixo, sendo o exemplo mais comum as epidurais para partos ou cesarianas.
Se William Morton e John Warren visitassem um bloco operatório do século XXI, “provavelmente não reconheceriam nada, porque surgiram novos fármacos e temos meios de monitorização que não existiam na altura. Eles só conseguiam controlar de forma indireta, medindo o pulso e observando o doente”, diz Fernando Abelha.
Um ventilador vintage A respiração artificial foi descrita pela primeira vez em 1856 pelo neurologista Marshall Hall. Uma bênção contra a asfixia
Numa cirurgia, o anestesiologista verifica diversos sinais vitais do paciente, como a frequência cardíaca, a pressão arterial, a oximetria de pulso, a quantidade de oxigénio em circulação ou os fármacos administrados. “É praticamente impossível fazer uma mistura hipóxica [com pouco oxigénio], porque monitorizamos os gases que administramos, seja oxigénio ou um anestésico volátil, e verificamos a profundidade anestésica através de uma eletroencefalografia modificada para, com alguma segurança, certificar que o doente está adormecido. Assim, minimizamos o risco de o paciente poder acordar, mas com fármacos que o impedem de se mexer. Isso é quase um mito, apesar de já ter dado origem a filmes…”, constata Fernando Abelha.
A Inteligência Artificial tem aqui um papel relevante. “O eletroencefalograma modificado é a Inteligência Artificial a permitir novas maneiras de olhar o cérebro, até para reconhecer a oxigenação cerebral, coisa que era impensável há alguns anos”, salienta o especialista.
Em paralelo, cresce a preocupação com os efeitos do trabalho do anestesiologista meses após uma intervenção. “As causas de mortalidade anestésica andam à volta de um por 100 mil doentes. É uma raridade. No entanto, sabemos que algumas coisas que fazemos no período perioperatório [antes, durante e depois da cirurgia] podem, de alguma maneira, resultar em melhores resultados seis meses ou um ano depois”, diz Fernando Abelha, que tem desenvolvido investigação sobre qualidade de vida no pós-operatório.
Os pacientes idosos recebem particular atenção nesta área, porque têm maior probabilidade de sofrer de disfunção cognitiva e padecer de delirium. “O delirium é uma disfunção neurológica grave no período operatório mais imediato. É uma alteração do estado da atenção”, explica Fernando Abelha.
O impacto do trabalho dos anestesiologistas na oncologia também está em estudo para se perceber até que ponto, mudando a técnica anestésica, se reduz o reaparecimento de tumores e a disseminação de metástases. “Essa investigação é fabulosa e alguns resultados dizem que a utilização da anestesia regional diminui a incidência de metástases, a incidência de recidiva de tumores quando comparada com a utilização de fármacos como os narcóticos”, constata Fernando Abelha.
Dos fármacos aos elétrodos
Houve sempre questões em torno do impacto dos anestésicos na vida dos pacientes. O éter usado na primeira cirurgia com anestesia era muito inflamável. O clorofórmio que se lhe seguiu, em 1847, causava lesões hepáticas ou mesmo morte súbita. Em 1898, a Bayer pôs à venda um novo anestésico que não causaria adição: a heroína. Hoje, ninguém se surpreenderá ao saber que, afinal, os resultados foram exatamente opostos e a empresa teve de retirar a heroína do mercado.
Conhecendo a segurança com que são utilizados os mais recentes medicamentos para anestesiologia, estes exemplos quase parecem anedóticos. De qualquer modo, “a medicina da dor tem evoluído cada vez mais para técnicas que permitam libertar as pessoas dos medicamentos e devolvê-las à vida normal”, diz João Galacho, anestesiologista especialista em Medicina da Dor nas clínicas Paincare – Tratamento Avançado da Dor.
A mortalidade anestésica anda à volta de um por 100 mil doentes. É uma raridade
Fernando Abelha, Diretor do Serviçode Anestesiologia do Centro Hospitalar de São João
A neuromodulação e a neuroestimulação são terapêuticas não farmacológicas baseadas em eletricidade que respondem a esta filosofia de trabalho. “Colocamos dispositivos na coluna, na medula ou junto aos nervos. Dispositivos que, através de tecnologia biomédica, criam corrente elétrica no nervo para modular, alterar o funcionamento do nervo e a informação que esse nervo encaminha para o cérebro, que é o sítio onde sentimos a dor. Utilizamos o mecanismo de funcionamento dos nervos para mudar aquilo que eles estão a transmitir ao nosso cérebro”, elucida.
Um ou mais elétrodos são implantados, através da pele, no corpo para que, juntamente com um aparelho de controlo, o paciente receba cuidados personalizados. Assim, o “doente tem perceção de melhoria da dor, melhoria da capacidade funcional diária, melhoria do sono e melhoria do humor”, acrescenta o especialista.
Tudo mudou ao longo do tempo, mas há algo que parece ter-se mantido imutável desde que William Morton anestesiou o primeiro paciente numa cirurgia. Hoje, como antigamente, os anestesistas procuram diminuir a dor e melhorar a qualidade de vida do doente.
Da mandrágora à farmacogenética
As drogas que encontramos na anestesia
A procura de métodos anestésicos é milenar, no entanto, muito mudou desde que os cirurgiões do Império Romano recomendavam o uso de mandrágora e vinho. Os incas apostavam nas folhas de coca e na Europa da Idade Média dava-se a cheirar ao doente uma esponja embebida em ópio. Antes da inovadora introdução do éter, em 1846, usou-se o “gás hilariante” (óxido nitroso). Seguiu-se o clorofórmio, em 1847, e a cocaína em 1877 para utilização na anestesia local. Estes fármacos foram sendo progressivamente substituídos por outros, como o anestésico local injetável novocaína e o anestésico para indução e manutenção da anestesia geral, halotano. Entre as décadas de 70 e 90 do século XX, foram lançados outros medicamentos, como o anestésico propofol, o bloqueador muscular vecurónio ou a famosa cetamina, agora tão em voga como tratamento de depressões resistentes. Usada também no mercado negro como “droga alucinogénia”, a substância apresenta “inúmeras vantagens em relação aos fármacos clássicos porque é a única que conjuga a hipnose com a analgesia”, explica o médico João Galacho. No entanto, “tem uma série de efeitos secundários (como as alucinações visuais e auditivas…), que a tornam longe de ser perfeita”.
Atualmente, a investigação científica está a usar a genética e a nanotecnologia para levar a farmacologia mais longe. Por exemplo, para aumentar a duração da bupivacaína, foi criada a bupivacaína lipossómica, em que o medicamento está contido em nanopartículas e é libertado lentamente para o nervo, estendendo o seu efeito por 36 ou 48 horas. Por outro lado, a farmacogenética avalia as alterações genéticas de um indivíduo para perceber como é que um medicamento específico é metabolizado pelo corpo. Após isso, o médico adapta a dosagem em conformidade com os resultados.
Pequena história da anestesiologia
Entorpecer a dor tem técnicas milenares. Mas consideramos aqui os últimos dois séculos
1846 No Hospital Geral de Massachusetts, William Morton e John Warren anestesiaram pela primeira vez um paciente para o operarem a um tumor no maxilar, usando éter retificado. No entanto, o médico Crawford Long já o teria feito, anos antes, com vários pacientes seus, mas só viria a publicar as suas descobertas em 1949, depois de Morton.
1847 O anestésico clorofórmio é utilizado num parto pela primeira vez em Edimburgo, na Escócia, por James Simpson.
1853 Alexander Wood, em Edimburgo, na Escócia, combina uma seringa com uma agulha oca, criando a injeção hipodérmica. No mesmo ano, a rainha Vitória populariza o uso do clorofórmio, inalando os seus vapores enquanto dava à luz o príncipe Leopoldo.
1854 O professor de canto Manuel Garcia descobre o uso de espelhos para ver a laringe, iniciando a laringoscopia indireta.
1856 A respiração artificial é descrita pela primeira vez na revista científica The Lancet pelo médico Marshall Hall.
1884 Karl Koller, um oftalmologista vienense e amigo de Sigmund Freud, começa a usar a cocaína nas suas cirurgias.
1891 Heinrich Quincke leva a técnica de punção lombar para a prática clínica.
1895 Em Berlim, Alfred Kirstein faz a primeira laringoscopia direta.
1898 A primeira anestesia raquidiana (na espinal medula) é administrada por August Bier, usando cocaína.
1900 Primeiro relato de utilização de anestesia raquidiana para parto vaginal, feito por Oskar Kreis.
1917 Henry Boyle desenha a sua primeira máquina de anestesia.
1923 Winfield Ney opera pela primeira vez um tumor cerebral sob anestesia local.
1975 Nakajima testa o oxímetro de pulso desenvolvido pela empresa japonesa Minolta.
1994 A empresa norte-americana Aspect Medical Industries desenvolve o eletroencefalo-grama modificado (Bispectral Index – BIS) para monitorizar a profundidade anestésica.
2001 Começa a ser comercializado o primeiro videolaringoscópio, o GlideScope.
Os nomes de Rafal Trzaskowski e de Karol Nawrocki podem ser facilmente confundidos para quem não segue a política polaca ou não está familiarizado com a língua do quinto país mais populoso da União Europeia e que é, desde há muito, um dos territórios mais problemáticos do Velho Continente. Convém, no entanto, que se comecem a vincar as diferenças entre os dois homens que, no próximo domingo, 1 de junho, vão disputar a decisiva segunda volta das eleições presidenciais. Apesar de, na primeira votação, a 18 de maio, eles terem ficado separados por apenas 1,8% de votos, a verdade é que têm muito mais a separá-los. Eles personificam, de facto, dois projetos antagónicos, que dividem a Polónia há mais de uma década e que, neste momento, representam também o pulsar de duas visões opostas do mundo.
Rafał Trzaskowski, de 53 anos, presidente da câmara de Varsóvia, é um liberal, pró-europeu e assume-se como o rosto da reaproximação da Polónia à União Europeia, apoiado pelo primeiro-ministro Donald Tusk e pela Coligação Cívica, que venceu as legislativas de outubro de 2023. Karol Nawrocki, de 42 anos, historiador nacionalista, é apoiado pelo partido Lei e Justiça (PiS), que governou o país com mão de ferro entre 2015 e 2023, e tem como objetivo, no caso de ser eleito, continuar a bloquear as tentativas do atual governo para avançar na reforma democrática e restaurar a independência judicial, como tem feito, desde há ano e meio, o Presidente cessante Andrzej Duda.
Só um vencerá Karol Nawrocki e Rafal Trzaskowski vão disputar a presidência da Polónia voto a voto
As diferenças entre os dois homens ficaram particularmente vincadas nas manifestações que, no último fim de semana, ocorreram em simultâneo e em paralelo em algumas das avenidas e praças mais emblemáticas de Varsóvia. Os dois cortejos seguiram direções opostas como os caminhos que preconizam para a Polónia e para o mundo. “De um lado, um desfile eclético, com os manifestantes a empunharem bandeiras da Polónia, da UE e do arco-íris, de uma Polónia decididamente europeia”, observaram Hélène Bienvenu e Jakub Iwaniuk, correspondentes do jornal francês Le Monde, em Varsóvia. “Do outro, uma procissão uniforme, exclusivamente vermelha e branca, com conotações nacionalistas, acusando ‘os da oposição’ de serem uns traidores prontos a vender o país a interesses estrangeiros e a importar ‘ideologias’ progressistas vindas do Ocidente”, acrescentaram, a vincar as diferenças.
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“Toda a Polónia está a olhar para nós. Toda a Europa está a olhar para nós. O mundo inteiro está a olhar para nós”, disse Trzaskowski no seu discurso a uma multidão que a agência oficial calculou em cerca de 140 mil pessoas.
“Sou a voz de todos aqueles cujos gritos não chegam a Donald Tusk”, proclamou, por seu lado, Karol Nawrocki, à multidão de cerca de 50 mil pessoas, em que se viam também alguns cartazes de apoio a Donald Trump. “Sou a voz de todos aqueles que não querem que as escolas polacas sejam espaços de ideologia, que a nossa agricultura seja destruída ou que a nossa liberdade seja retirada”, gritou.
Quanto vale a extrema-direita?
As sondagens têm mostrado os dois candidatos mais ou menos empatados, embora com ligeira vantagem para o atual presidente da câmara de Varsóvia – que, há uns meses, no entanto, era dado como o favorito quase incontestável. O problema é que o governo de Donald Tusk tem vindo a perder popularidade, já que não conseguiu pôr em prática muitas das reformas que prometeu. E mesmo que apresente como atenuante a constante obstrução praticada pelo ainda Presidente Andrzej Duda, a verdade é que o descontentamento acabou por gerar maior apoio à extrema-direita.
A estabilidade política em Varsóvia é crucial para a estabilidade europeia, uma vez que a Polónia desempenha um papel central na arquitetura de segurança da UE
Na primeira volta, os terceiros e quartos lugares foram ocupados por Sławomir Mentzen, do partido radical de direita Konfederacja, com 14,8%, e pelo agitador antissemita e anti-UE Grzegorz Braun, com 6,3%. Agora, a forma como penderem esses cerca de 20% de votantes será determinante para o resultado final.
Até porque os candidatos à esquerda obtiveram resultados modestos. Todos juntos, desde ambientalistas a extrema-esquerda, apenas conseguiram 15% dos votos. E Trzaskowski terá de procurar atrair esses segmentos do eleitorado, apesar de ter desenvolvido a maior parte da sua campanha a tentar conquistar os votos da direita.
O resultado final será, para todos os efeitos, clarificador. Caso Trzaskowski vença, o primeiro-ministro Donald Tusk (que foi presidente do Conselho Europeu entre 2014 e 2019) poderá finalmente desbloquear a sua agenda, consolidar o regresso da Polónia ao núcleo duro da UE, restaurar o Estado de Direito e permitir a normalização das relações com Bruxelas. Na hipótese de vitória de Nawrocki, isso significará que, afinal, a derrota do PiS, nas legislativas de 2023, perante uma grande coligação, foi apenas um revés temporário. E que o partido há muito liderado por Jarosław Kaczyński (que foi primeiro-ministro entre 2006 e 2007, quando o seu irmão gémeo era Presidente) reforçaria o poder de bloqueio, fazendo aumentar a instabilidade e, porventura, até desencadear eleições antecipadas.
Teste à Europa
A estabilidade política em Varsóvia é crucial para a estabilidade europeia, uma vez que a Polónia desempenha um papel central na arquitetura de segurança da UE. Além de ser o maior país do Leste da União Europeia, é um dos pilares da NATO na frente oriental e o aliado com maior orçamento militar de toda a organização, projetando gastar, este ano, 4,7% do PIB em defesa e armamento. Para mais, desde a invasão russa, Varsóvia tem tido uma voz extremamente ativa no apoio militar e humanitário a Kiev, na defesa de sanções duras contra Moscovo e na pressão para uma resposta unida do Ocidente.
O resultado destas presidenciais terá, por isso, um impacto direto na política externa da Polónia e, por tabela, na coesão da União Europeia. Trzaskowski promete manter e reforçar o apoio à Ucrânia, aprofundar a integração europeia e alinhar Varsóvia com o eixo Berlim e Paris. Nawrocki, por seu lado, joga todas as suas cartas num discurso nacionalista exacerbado, em que critica a presença de refugiados ucranianos no país e defende uma política externa mais alinhada com Donald Trump e, por isso, menos “amiga” de Kiev. Num país em que existe, historicamente, uma completa aversão à Rússia, os dois candidatos nunca escondem a sua oposição a Putin. E tentam demonstrar qual deles poderia ser mais duro face à ameaça que representa o inquilino do Kremlin.
Além disso, está também em jogo o modelo de sociedade que os dois candidatos preconizam para a Polónia.Trzaskowski defende a liberalização das leis do aborto, a proteção dos direitos LGBTQIA+, a separação entre Estado e Igreja. Nawrocki representa a continuidade de uma agenda conservadora, restritiva nos costumes e hostil à imigração.
Estas eleições vão demonstrar se num dos Estados-membros mais estratégicos da União Europeia os seus líderes vão ou não defender os valores que distinguem o projeto europeu, como a democracia, o Estado de Direito e os direitos humanos.
Autarcas ao poder
Duas semanas depois do presidente da câmara de Bucareste, Nicușor Dan, ter sido eleito Presidente da Roménia, algo de semelhante pode ocorrer em outro país do Leste europeu: o presidente da Câmara de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, é apontado como favorito para suceder a Andrzej Duda como Presidente da Polónia.
Esta é, no entanto, uma coincidência frequente nas últimas décadas. Vários presidentes de câmara têm “saltado” para o lugar de chefe de Estado. Em Portugal, temos o caso de Jorge Sampaio, que chegou a Presidente da República depois de mandato e meio à frente da Câmara de Lisboa – um caminho semelhante ao trilhado por Pedro Santana Lopes e António Costa que “saltaram” da autarquia para a chefia do governo (embora só o segundo através de eleições).
Em França, Jacques Chirac também foi eleito Presidente depois de um “tirocínio” como maire de Paris. E Recep Erdogan, Presidente da Turquia, ganhou notoriedade como presidente da câmara de Istambul. Aliás, como sucedeu com Willy Brandt que foi líder de Berlim antes de subir a chanceler da Alemanha.
Mais recentemente, Claudia Sheinbaum aproveitou o seu mandato como presidente da Cidade do México (2018-2023) para vencer, em 2024, a corrida à Presidência do México – a primeira mulher a ocupar esse cargo.
“Se eu comprar um bebé reborn e, antes de ele chegar, eu cancelar o pedido, é aborto?” Esta é apenas uma das múltiplas piadas suscitadas pelo fenómeno dos bonecos hiper-realistas e a forma como algumas “mães” andam a tratá-los – no caso, saída da página de Instagram Julius Sincero, uma homenagem brasileira à personagem Julius Rock, da série Todos Contra o Chris.
O gozo adensa-se no Brasil, país onde a realidade está a ultrapassar a ficção e onde os bonecos são cuidados como bebés humanos. O coletivo humorístico Porta dos Fundos acaba de lançar uma caricatura à situação num sketch intitulado Adulto Reborn, levantando a questão de saber se configura alienação parental quando uma mãe arranja um filho reborn e passa a preferi-lo aos filhos de verdade. Não perca umas boas risadas, numa rede social perto de si.
Por cá, também já se fazem graçolas com o assunto. Num episódio da rubrica Ninguém POD Comigo, da RFM, Ana Garcia Martins, mais conhecida como A Pipoca Mais Doce, clamou que “por cada bebé reborn que nasce, nasce um chalupa!” E ainda confessou ser avó reborn, já que a sua filha tem duas meninas, a Aurora e a Lili.
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Na semana passada, no Portugalex, o noticiário fictício da Antena 1, Manuel Marques e António Machado trataram do assunto. Num fórum imaginário “entrevistaram” Marina Laranjeiro que assumiu ter comprado um desses “Nenucos” só para passar à frente das filas da Loja do Cidadão. “Levo-o ao colo e é uma limpeza.” O humor tende a aproximar-se da realidade, mas nesta caricatura ele foi tão realista quanto os bonecos em questão.
Padre não batiza reborn
No Brasil, multiplicam-se as histórias de disputa de custódia destes bonecos em caso de divórcio, de mulheres a exigirem tratamento prioritário em sítios públicos porque transportam um reborn ou a levá-los a hospitais para serem tratados.
A proporção que atingiram estes casos reais obrigou o governo a agir.
Segundo o site G1, do grupo Globo, a Câmara dos Deputados aprovou, a 15 de maio, três projetos de lei destinados à criação de políticas públicas relacionadas com a moda dos bebés reborn.
Colo Por causa do gosto da mãe em pegar nestes bebés a fingir, Soraia (em baixo) dedica-se hoje à minuciosa tarefa de os pintar e tornar realistas, na sala de estar da sua casa, na região de Lisboa
Entre as medidas que estão já implementadas, realça-se a restrição do atendimento médico a estes bonecos em instituições públicas e privadas, a definição de critérios para o acompanhamento psicológico de pessoas com vínculos afetivos fortes a estes “bebés” e a aplicação de multas a quem tentar usá-los para obter prioridade nas caixas de supermercado ou para ocupar lugares em transportes públicos.
Não admira que o padre Chrystian Shankar, conhecido no Brasil pela sua forte presença online, tenha sido obrigado, pelas circunstâncias, a fazer uma postagem irónica, avisando que não batizava estes bebés. “Não atendo ‘mães’ de boneca reborn que buscam por catequese. Nem estou celebrando missa de primeira comunhão para crianças reborn. Nem oração de libertação para bebé possuído por um espírito reborn. E, por fim, nem missa de sétimo dia para reborn que arriou a bateria. Essas situações devem ser encaminhadas ao psicólogo ou psiquiatra. E, em último caso, ao fabricante da boneca.”
Endorfinas, libertem-se
Esta é uma moda que vem de longe, ainda que agora tenha crescido muito por culpa das redes sociais, em especial do TikTok. Em 2020, já a questão era analisada por Emilie St. Hilaire, uma estudante de doutoramento em Humanidades, na Universidade Concordia, em Montreal, Canadá.
Na altura, a sua investigação dizia respeito aos aspetos “estranhos e misteriosos” dos bebés reborn, como a maternidade não reprodutiva, os modos de brincar dos adultos e os relacionamentos com substitutos não humanos. “Se tentarmos desvendar porque é que uma mulher sem filhos, especialmente uma que tem um bebé falso, é ameaçadora, então chegamos à perceção do papel da mulher: uma mulher bem-sucedida é uma mãe bem-sucedida”, referia ela ao The Guardian.
No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou três projetosde lei destinados à criação de políticas públicas relacionadas com a moda dos bebés reborn
Curiosamente, a investigadora, apesar de ter falado com dezenas de colecionadoras em todo o mundo, concluiu que nenhuma pensava nas suas bonecas como bebés reais, até porque cerca de metade delas já tinham filhos. Em vez disso, St. Hilaire observou que essas pessoas sentiam um gozo especial em levar os bonecos à rua e conseguir fazê-los passar por bebés, como se de um segredo se tratasse.
E, depois, há a real resposta biológica que se desencadeia ao manusear uma boneca de proporções e toque reais. Vários estudos sugerem que uma terapia com este tipo de bonecos pode reforçar sentimentos de apego e bem-estar emocional, especialmente em pacientes com demência. Alguns colecionadores apontam para os benefícios terapêuticos no controlo de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
“Existe conforto em abraçar e segurar fisicamente algo que parece um bebé, mesmo que não seja um bebé”, nota Emilie St. Hilaire. “Isso pode mesmo libertar algumas endorfinas.”
Negócio em família
Cristina Jacinto, 63 anos, gosta desse conforto e seguramente liberta endorfinas sempre que pega num dos bebés de silicone ou vinil que a sua filha Soraia, de 35 anos, pinta. “Tenho esta filha, criei cinco crianças, vivo com três netos, por isso não tenho falta de bebés, mas adoro estes reborn.” Costuma dar-lhes banho (só aos de silicone, porque os de vinil têm corpo de tecido e enchimento), depois seca-os, põe-lhes pó de talco e veste-os com roupa lavada, que faz ou compra. “Eles têm uma enorme vantagem, que é não chorarem de noite nem chatearem”, brinca.
Algumas das suas peças de coleção estão em cima da cama, outras guardados numa vitrina no escritório. “De vez em quando, pego neles, dou-lhes beijinhos e levo-os ao colo até ao café, porque as minhas amigas estão sempre a pedir que o faça.” Na rua, as reações variam entre a curiosidade de quem quer tocar num bebé a fingir e estranheza. O realismo deste seu “vício” é tal que já levou algumas rabecadas quando não transporta os bebés da forma que seria adequada a um ser humano. “Sou mais maternal do que a Soraia. Sempre que ela termina mais um, ando uns dias a experimentá-lo”, conta, enquanto aconchega o número 1 no colo, com imenso carinho.
Foi por causa desta loucura que a mãe tem por bebés que nasceu a vocação de Soraia. Em 2015, depois de muito navegar na internet, desanimada com os preços elevados deste produto, Cristina acabou a encomendar um bebé por 300 euros num site duvidoso. Resultado: chegou-lhe a casa “um ratinho” que em nada se assemelhava ao que mostravam as fotos ou os vídeos. Uns Natais depois, a filha reuniu as poupanças e ofereceu-lhe o Little Germain – um exemplar loiro de olhos azuis – e Cristina até chorou. A encomenda foi feita a uma artista brasileira que enviou um bebé de vinil, muito realista.
No seguimento deste presente, Soraia pôs-se a pesquisar, a estudar, a contactar fornecedores, e meteu mãos à obra para ser ela a criar os seus próprios bebés reborn. Muitas experiências depois, tornou-se exímia nesta arte, em que a paciência não pode ficar de fora.
De encomenda As clientes podem escolher algumas das características dos seus bebés, como a cor dos olhos, da pele e do cabelo. Acessórios, como roupinhas, chupetas e fraldas, seguem também na caixa
Os kits vêm de Espanha, desmontados, pernas para um lado, braços e cabeça para outro, no caso dos que são de vinil. Depois, ela tem de os compor, com recurso a tintas, cabelo e lã de vidro para calibrar os bebés para o peso desejado pelas clientes – todas mulheres, com diferentes propósitos. Cada exemplar demora, pelo menos, duas semanas a ser terminado e pode custar entre 300 e 900 euros, consoante os requisitos. Na caixa de entrega, segue também uma manta, um bonequinho, escova e pente, duas chupetas, fralda extra, fita e laço se for menina, certificado de nascimento e um guia de cuidados a ter.
Depois da encomenda, só é possível escolher o tamanho (os mais comuns têm 45 centímetros), a cor dos olhos, a cor da pele e o tipo de cabelo (implantado, fio a fio, com uma agulha), se as mãos estão abertas ou fechadas, ou se leva algum sinal específico. Com um pincel finíssimo, Soraia dedica-se também a desenhar as veias e as sobrancelhas. As pestanas são implantadas com os mesmos fios do cabelo.
Os de silicone – mais moles ao tacto, mas ligeiramente menos realistas visualmente – têm órgão sexual e umbigo. Os de vinil só se distinguem no género pela roupa e pelos lacinhos no cabelo.
Existem acessórios especiais, como um tubinho interior que permite que o bebé “beba” água e faça “chichi”. Ou uma máquina que se coloca dentro do corpo e que, através de um botão, aciona um movimento idêntico ao respirar e ao batimento cardíaco. “Nunca tive uma encomenda destas”, nota a artista. “Mas uma senhora que tinha perdido a filha pediu-me um kit que fosse o mais parecido com a menina. Tive de pôr muita lã de vidro no interior do boneco para chegar aos quatro quilos”, conta Soraia. Também há casos de adultos que não podem ter filhos, crianças com cancro, idosos com demência…
Brincar aos pais e às mães
A psicóloga clínica Cátia Silva reconhece algumas das vantagens de brincar aos pais e às mães com estes bonecos, atividade que vai seguindo essencialmente no TikTok – até hoje, não lhe apareceu nenhum caso patológico em consultório. “Em situações de luto, ansiedade ou burnout, podem funcionar como boas ferramentas de autoestima e autoconhecimento.”
Mas quando a coisa se extrema, como as histórias que chegam do Brasil, Cátia lembra que não é expectável um adulto brincar desta forma, que esses jogos simbólicos são destinados às crianças. “Então, poderá ser uma resposta a algo que emocionalmente não esteja resolvido, como um luto, uma dificuldade de vinculação, fruto de abandono ou rejeição, ou sintomatologia ansiosa.”
De vez em quando, pego neles, dou-lhes beijinhos e levo-os ao colo até ao café, porque as minhas amigas estão sempre a pedir que o faça
Cristina Jacinto, colecionadora
Nunca a ficção quis ficar atrás da realidade. Por exemplo, na série Servant, da Apple TV+, um casal adota um boneco que se chama Jericho e trata-o como um bebé humano. Sabe-se mais tarde que o casal está a passar por um doloroso processo causado pela morte do filho (também chamado Jericho). Naquele guião, o bebé reborn parece ser o único consolo da mãe que se encontra num estado catatónico provocado pelo luto – isso é caucionado pela sua psiquiatra e apoiado pelo marido e o cunhado.
Este passatempo – como gostam de lhes chamar as colecionadoras – assenta que nem um carapim na era das redes sociais, em que a busca de reforço e aceitação é uma constante e em que vale tudo em nome de mais um like ou seguidor. “Num determinado grupo, os comportamentos exagerados em relação a estes bebés são socialmente aceites”, lembra a psicóloga.
Sem julgamentos
Perante estes casos patológicos – “mães a fazer de conta que amamentam ou que querem vacinar os reborn” –, não devemos julgar nem ridicularizar. Antes, mostrar genuína curiosidade acerca do que aquele boneco representa emocionalmente.
É por essas e por outras que muitas clientes não querem dar a cara, duvidando das boas intenções das perguntas dos jornalistas. Pelo menos, é isso que refere Carolina Nicolodi, 30 anos, que se dedica, desde 2020, a pintar os bebés que lhe chegam em cru de uma fábrica alemã. No seu site, pode escolher-se o modelo e ela demorará mais ou menos dez dias a entregá-lo, a troco de um valor que pode oscilar entre 400 e 600 euros. Nos bebés mais requintados, o orçamento chega aos 2 000 euros.
Em Castelo Branco, Carolina só trabalha com kits europeus originais, que vêm com certificado da escultora, pois sabe que no Brasil, de onde é natural, existe muita falsificação no mercado.
Metade do público do atelier de Carolina são crianças, mas também tem algumas colecionadoras que apreciam esta arte. Simultaneamente, os seus bebés servem para fins terapêuticos, de mães enlutadas que buscam uma ajuda na superação da perda, idosos com demência ou que gostariam de ter netos, crianças com ansiedade e muito tempo de ecrã. “É que cuidar de um bebé reborn é sempre uma brincadeira calma.”
Onde nasceram estes bonecos?
Os reborn têm berço no pós-guerra, cresceram nos anos 1990 e tornaram-se adultos na contemporaneidade
Apesar de, atualmente, a loucura destes bonecos estar em alerta máximo no Brasil, a sua história começou no século passado, no pós-guerra, quando era difícil encontrar brinquedos. Nessa altura, algumas mães tornaram-se artesãs para conseguirem modificar as bonecas antigas, tornando-as mais realistas.
Só mais tarde, entre os anos 1980 e 1990, é que o conceito dos reborn se consolidou enquanto arte, nos Estados Unidos, e o resultado, quase perfeito, passou a interessar também os adultos.
Só nos anos 2000 os bebés reborn começaram a expandir–se pelo mundo, Portugal incluído. Mas transformou-se em fenómeno por culpa das “mães” brasileiras que adotam comportamentos demasiado realistas ao lidar com estes bebés a fingir. E, claro, os vídeos do TikTok e as postagens do Instagram foram o restante rastilho para incendiar as redes sociais com histórias mirabolantes, envolvendo estes bonecos hiper-realistas. É caso para perguntar: para quando o resto da família reborn, pai, mãe e animal de estimação?
Rui Rocha abandona a liderança da Iniciativa Liberal na sequência dos resultados das eleições legislativas do passado dia 18 de maio.
O anúncio foi feito este sábado, no final de uma reunião da comissão executiva do partido, em Lisboa, com Rui Rocha a reconhecer que a IL não atingiu “a preponderância que todos desejavam”.
Rui Rocha vai agora ocupar o lugar de deputado na Assembleia da República.
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Ambos Nogales situa-se na fronteira entre o Arizona, nos Estados Unidos da América, e Sonora, no México. O Ambos do nome da cidade significa “os dois” em espanhol; o Nogales refere-se às nogueiras que outrora eram abundantes na passagem montanhosa em que as duas cidades se situam. Atualmente, “Os Dois Nogales” é dominada por um muro fronteiriço que a atravessa. Com cerca de dois andares de altura e feito de aço castanho-ferrugem, o muro é encimado por arame farpado que brilha ao sol. No entanto, até 1918, a fronteira não era mais do que uma avenida larga chamada International Street, através da qual qualquer pessoa podia atravessar livremente. Ao longo de uma linha que já foi um símbolo de conetividade, corre agora um símbolo definitivo de separação.
Uma visita ao muro pode ser uma experiência angustiante. Na minha própria visita, numa manhã luminosa de abril de 2023, estava pendurado um casaco rasgado no arame farpado, a poucos metros do principal posto fronteiriço, deixado para trás por alguém que, aparentemente, tinha caído ou saltado ao tentar passar. Uma queda de tal altura poderia facilmente ter provocado fraturas e traumatismos. Um pouco mais à frente – mas sempre à vista das torres de vigia e das câmaras de vigilância da patrulha fronteiriça americana –, grupos de famílias reuniam-se de ambos os lados da barreira. Os que se encontravam do lado mexicano eram, muito provavelmente, deportados dos Estados Unidos e originários de países a sul do México. A única forma que agora tinham de chegar perto dos seus entes queridos do lado americano da linha era comunicando através das brechas do muro. A poucos metros de distância, no posto de controlo oficial, um guarda fronteiriço americano passava notas de dólar através do muro a crianças locais empreendedoras do lado mexicano, que regressavam com gelados para os guardas se refrescarem enquanto determinavam quem podia ou não entrar nos EUA.
Esta história de poder e desespero desenrola-se ao longo de uma imensa fronteira que se estende por mais de 3 000 quilómetros e que tem mais de 1 000 quilómetros de vedações não contíguas, que ainda estavam a ser acrescentadas pela Administração Biden. A imagem crua deste muro divisório espalhou-se de Ambos Nogales para todo o mundo. Embora a secção aqui existente seja anterior à Presidência de Donald Trump, que colocou a fronteira sul dos EUA no centro da sua campanha para se tornar o 45º Presidente, assumiu uma forma mais acentuada com a adição de arame farpado durante a sua Presidência. No lançamento da sua campanha, em 2015, Trump falou da ideia de um “grande muro” ao longo da fronteira entre os EUA e o México, que seria “impenetrável, físico, alto, poderoso, bonito”. A sua Administração posteriormente gastou cerca de 15 mil milhões de dólares na realização do “Muro de Trump”, cujas secções ele tem visitado com frequência. Com este dinheiro foram construídos cerca de 725 quilómetros de muro, e foi gasta uma pequena fração destes fundos na adição do arame farpado à secção de Ambos Nogales. Apesar destes esforços, no entanto, no final de 2021, as pilhas de pesadas ripas de aço, outrora destinadas ao muro, encontravam-se enferrujadas em toda a zona fronteiriça do Sudoeste, enquanto secções inteiras foram arrastadas pelas chuvas das monções no mesmo ano. Por detrás da retórica dramática e do simbolismo bombástico que as rodeiam, as chamadas grandes muralhas nem sempre são o que parecem. A sensação de segurança e de separação que prometem nunca é total.
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Separar o “nós” dos “outros”
Todos os arquitetos de fronteiras e dos seus muros são confrontados com o facto de ser impossível ter a certeza de que se isolou absolutamente uma comunidade ou um território de outro. Até mesmo o muro da fronteira entre os Estados Unidos e o México não se estende exatamente ao longo da fronteira internacional oficial. Nalguns locais, uma fina porção dos Estados Unidos corre do lado mexicano do muro. Se tocarmos no muro do lado mexicano, já estamos “dentro” dos Estados Unidos. Qualquer fronteira implica compromissos na decisão do seu traçado, na determinação de quem ou do que está dentro ou fora e de quem será autorizado a passar. E embora os muros fronteiriços sejam muitas vezes construídos em nome da proteção e da segurança, podem facilmente acabar por conseguir o oposto – fomentar o medo e a insegurança entre “nós” de um lado e “eles” do outro.
A definição de fronteiras é frequentemente acompanhada de uma enorme violência e de conflitos étnicos. Há um quarto de século, políticos nacionalistas e comandantes militares tentaram reorganizar a Bósnia e a Herzegovina segundo linhas étnicas homogéneas. Nos seus esforços para dividir os territórios mistos em componentes exclusivamente sérvios, croatas e muçulmanos da Bósnia, a Guerra da Bósnia custou mais de 100 mil vidas. A divisão da Índia britânica na União da Índia e no Domínio do Paquistão, em 1947, criou entre dez e 12 milhões de refugiados. Esta deslocação foi acompanhada por uma violência em grande escala entre hindus e muçulmanos, com estimativas que sugerem que se perderam entre várias centenas de milhares e dois milhões de vidas.
A península coreana foi dividida em agosto de 1945. Com a entrada da União Soviética no teatro de operações do Pacífico na II Guerra Mundial, os Estados Unidos consideraram que havia uma necessidade geopolítica urgente de determinar uma fronteira entre o Norte soviético e o Sul apoiado pelos EUA. Dois coronéis do exército norte-americano foram incumbidos de identificar uma linha de controlo com a qual as duas superpotências pudessem concordar. Os coronéis tiraram apressadamente da prateleira um mapa da National Geographic e selecionaram o paralelo 38 de latitude como a linha divisória entre o que viria a ser a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.
Fronteira México-EUA Há um século, em Ambos Nogales, a linha divisória entre os dois países não era mais do que uma avenida larga chamada International Street
Como um desses coronéis, Dean Rusk – que mais tarde viria a ser secretário de Estado dos EUA no governo de John F. Kennedy – recordou na sua biografia, o paralelo “não fazia sentido nem económica nem geograficamente”. As linhas do mapa precediam o território, e não o contrário. Esta nova fronteira determinava que a península coreana – que durante quase um milénio se tinha desenvolvido como um Estado com continuidade geográfica e unidade cultural – seria dividida em duas. Para os planeadores militares americanos, a prioridade era que Seul ficasse abaixo do paralelo 38 e sob o controlo dos EUA. Os comandantes de Rusk aceitaram a proposta sem grandes dificuldades e – para sua surpresa – os soviéticos também. Escusado será dizer que não foram consultados quaisquer habitantes locais ou peritos sobre a Coreia.
Embora esta fronteira se tenha deslocado várias vezes durante a Guerra da Coreia (1950-53), na qual se perderam milhões de vidas, acabou por ficar praticamente na mesma posição. A linha de demarcação militar e a zona desmilitarizada que lhe está associada foram estabelecidas ao longo das linhas da frente onde os combates tinham cessado e não estão longe da fronteira proposta por Rusk e os seus colegas. Atualmente, é uma das linhas mais fortificadas do mundo, com linhas serpenteantes de infraestruturas, incluindo muros, torres de vigia, vedações, campos de minas, valas e torres, que dividem o que em tempos foi um Estado unificado.
Fronteiras para as ideias
No outro extremo do espectro da fortificação fronteiriça, a aldeia binacional de Baarle-Hertog/Baarle-Nassau é famosa por ser constituída por 22 enclaves que formam Baarle-Hertog, regidos pelas leis belgas, rodeados e fraturados pela Baarle-Nassau holandesa. A aldeia é geralmente caracterizada por uma travessia de fronteiras sem descontinuidades, mas, em certos momentos, durante a pandemia de Covid-19, as empresas não essenciais de Baarle-Hertog foram obrigadas a fechar, enquanto as lojas dos Países Baixos permaneceram abertas. Na aldeia, é frequente as linhas de fronteira atravessarem os edifícios, o que levou à situação surreal de uma loja de vestuário assinalar a fronteira internacional, até então invisível, com fita de sinalização de segurança, para excluir os clientes de uma secção da loja onde se aplicavam as regras belgas.
As linhas de fronteira também não precisam de ser fronteiras internacionais para terem um enorme significado. A linha Mason-Dixon foi traçada entre 1763 e 1767 para resolver uma disputa fronteiriça entre os estados americanos de Maryland, Pensilvânia e Delaware. Mais tarde, assumiu um papel muito mais sinistro quando se tornou a fronteira entre os estados livres do Norte e os estados esclavagistas do Sul. Era uma linha que, uma vez atravessada, significava liberdade e vida numa direção, e escravatura e potencial morte na outra – uma história retratada no filme vencedor de um Óscar, 12 Anos Escravo, baseado nas memórias de Solomon Northup.
Como estes casos sugerem, as fronteiras podem ser arbitrárias e ter consequências imprevisíveis. Podem aparecer e desaparecer, e o mundo está cheio de lembretes de que mesmo as paredes mais imponentes acabam por se desmoronar e rachar. Apesar dos esforços desenvolvidos para os impedir, os seres humanos continuam teimosamente a mover-se, refletindo um mundo natural que é definido pelo movimento: desde os oceanos em constante agitação até ao lento progresso e recuo dos glaciares que esculpiram as paisagens mais dramáticas do planeta, passando pelas placas tectónicas que continuam a moldar os Himalaias, os Alpes e o Grande Vale do Rift, centímetro a centímetro, ano após ano. A geografia humana e física traça um mapa de mudanças e movimentos incessantes, contra os quais as fronteiras estáticas e as suas muralhas não têm qualquer hipótese. As fortificações, outrora imponentes, acabam por se tornar ruínas. Daqui a séculos, sobressairão fragmentos abandonados do muro EUA-México do deserto de Sonora, enquanto as secções de muros que atravessam Belfast e Jerusalém serão peças de museu.
Linhas arbitrárias
A atual obsessão do mundo por fronteiras lineares também é surpreendentemente recente. Estudiosos, como o historiador Jordan Branch, remontam as origens dos Estados com um território exclusivo e homogéneo, demarcado por fronteiras geográficas bem traçadas, ao século XVI e às reivindicações das potências coloniais europeias sobre o Novo Mundo. Só após o encontro com a América na década de 1490, que coincidiu com redescoberta das técnicas de cartografia de Ptolomeu e com o atual sistema de latitude e longitude, é que se tornou possível uma divisão linear do mundo. O traçar de linhas arbitrárias para delinear a propriedade do território no Novo Mundo foi marcado pelo Tratado de Tordesilhas de 1494 entre Espanha e Portugal, no qual Espanha recebeu todos os territórios recém-descobertos a oeste de uma linha traçada no oceano Atlântico e Portugal os territórios a leste: “Pela primeira vez na História, foi utilizado um sistema geométrico abstrato para definir uma vasta área de controlo – global.”
Foi uma técnica que veio a caracterizar uma necessidade de dividir e de atribuir os espaços do Novo Mundo – mais tarde exemplificada nas linhas retas das fronteiras externas e internas dos Estados Unidos –, que não tinham quaisquer reivindicações de autoridade sobre territórios conhecidos dos europeus.
Na Europa, nesta altura, essas reivindicações políticas sobre o território ainda se baseavam em lugares – vilas, cidades e castelos – e em pessoas – como monarcas com direito divino de governar. O território era entendido como “uma série de lugares, com a autoridade a irradiar dos centros para o exterior e não para o interior a partir de fronteiras lineares”. Só no final do século XVIII é que estas reivindicações passaram a ser feitas em espaços territoriais delimitados por fronteiras claramente demarcadas. Isto generalizou-se depois das convulsões da era revolucionária e da conquista e do domínio de Napoleão, o que representou uma “vasta experiência de colonialismo na Europa”.
A série de negociações e tratados que terminaram com as guerras napoleónicas veio dividir a autoridade sobre o território, não por lugares ou pessoas, mas exclusivamente por fronteiras. No entanto, isto só aconteceu depois de a utilidade e a legitimidade das reivindicações de limites lineares terem sido tornadas claras após séculos de prática colonial fora da Europa.
Apesar disso, a noção de fronteiras lineares, sendo um fenómeno relativamente recente e uma importação das Américas para a Europa, é largamente esquecida. Em vez disso, a nossa forma fronteiriça de ver o mundo no presente tornou-se tão enraizada que pode influenciar o modo como as fronteiras foram imaginadas no passado.
“Fortaleza Europa”
Nos últimos 50 anos, foram construídos pelo menos 63 muros em todo o mundo. Na Europa, onde a Cortina de Ferro dividia outrora o Oriente e o Ocidente, reapareceram novas divisões que atravessam o continente, sob a forma de muros de betão, arame farpado, sistemas de vigilância de alta tecnologia, drones e navios de guerra que rodeiam o que ficou conhecido como “Fortaleza Europa”. Há aviões da guarda costeira a sobrevoar a baixa altitude as praias do Sul de Itália, enquanto vedações e muros fortificados se espalharam pela Europa, desde Marrocos e o enclave espanhol de Melilha até à Finlândia e à sua fronteira com a Rússia. Um documento informativo do Parlamento Europeu de 2022 referia que a União Europeia tem, atualmente, 19 vedações fronteiriças ou de separação, que se estendem por mais de 2 000 quilómetros, o que representa um aumento em relação aos 314 quilómetros de 2014.
Os políticos, maioritariamente de direita, colocaram a questão da prevenção da imigração no topo da sua agenda. No entanto, há pouco sentido de responsabilidade pelas vidas daqueles que tentam atravessar as perigosas fronteiras, ou um reconhecimento de que regimes fronteiriços mais robustos resultam em tentativas cada vez mais perigosas e desesperadas de os ultrapassar. Em 2016, quase 3 000 pessoas morreram ao tentar atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa, o dobro do número dos que morreram no Titanic. Enquanto a perda de um navio, há mais de cem anos, ainda assombra o imaginário coletivo, estas mortes nas fronteiras da União Europeia parecem ser esquecidas de forma rápida e silenciosa.
Entretanto, na fronteira entre os EUA e o México, a violência e a miséria tornaram-se uma realidade quotidiana. O primeiro mandato de Trump na Casa Branca assistiu à extensão e à militarização de uma fronteira já fortificada. A sua agenda “A América Primeiro” baseia-se na demonização de um “Outro” estrangeiro e na transferência da culpa pela desordem nos Estados Unidos para lá das suas fronteiras. Aqui, a violência deixou de ser a exceção e passou a ser a regra aceite.
Em 2018, depois de um grupo de migrantes centro-americanos ter entrado em confronto com a polícia mexicana, Trump sugeriu que, se grupos de migrantes “quiserem atirar pedras aos nossos militares, os nossos militares ripostam. Vamos passar a considerar… que estão armados”, ordenando, entretanto, que os filhos dos requerentes de asilo fossem separados dos pais na fronteira dos EUA. Embora Biden tenha assinado uma ordem executiva pouco depois de assumir o cargo para reunir os que foram separados à força pela infame política de retirada de crianças de Trump, o Centro Nacional de Justiça do Imigrante informou, em 2022, que a Administração Biden continuou a separar rotineiramente as famílias através da detenção e da deportação como parte das suas práticas de aplicação da lei da imigração.
Divisões artificiais A Muralha da China, a linha divisória entre as duas Coreias e a Muralha de Adriano, no Reino Unido
Tentar atravessar a fronteira tornou-se assustadoramente arriscado: desde 2014, foram registadas 3 815 mortes e desaparecimentos de migrantes na América do Norte, um número que deve ser entendido como uma subestimação do número real. Em 2022, a Organização Internacional para as Migrações documentou 686 mortes e desaparecimentos de migrantes na fronteira EUA-México, estabelecendo-a como a rota terrestre mais mortal para os migrantes em todo o mundo. Quase metade das mortes estavam ligadas à exposição às condições atmosféricas e à desidratação na perigosa travessia dos desertos de Sonora e Chihuahuan. Apesar disso, a construção de barreiras fronteiriças continuou desde os primeiros dias do mandato de Biden.
Ao longo do limite sul do Texas, a fronteira internacional entre os Estados Unidos e o México é traçada pelo rio Grande. Em 2021, as equipas de construção começaram a erguer painéis de betão de 4,5 metros, encimados por pilaretes de aço de dois metros ao longo do vale do rio Grande, perto da sua foz para o mar. O vale inclui uma vasta planície de inundação e o muro, em alguns locais, foi construído muito para o interior, ligado a um sistema de diques originalmente construído para evitar inundações. O resultado foi a destruição de terrenos agrícolas, cemitérios e até casas “numa espécie de terra de ninguém a sul da vedação, que tem sido construída aos poucos”. Embora Biden tenha emitido um decreto suspendendo o redirecionamento de fundos para a construção de muros fronteiriços a 20 de janeiro de 2021, foi entretanto revelado que os oficiais do Corpo de Exército dos EUA retomaram a construção do muro fronteiriço ao longo dos diques, alegando uma isenção de emergência do decreto que permite a construção de muros fronteiriços sob o pretexto de reparação de diques. Em 2022, a alfândega e a Proteção das Fronteiras dos EUA revelaram os planos para construir mais 138 quilómetros de muros fronteiriços no vale, que incluiriam agora derrogações à Lei do Ar Limpo, à Lei da Água Potável Segura e à Lei das Espécies Ameaçadas de Extinção.
No vazio da campanha de Trump para “Tornar a América Grande Outra Vez”, e na continuação de elementos-chave do regime fronteiriço sob Biden, estão os desaparecidos do deserto de Sonora e os afogados do rio Grande. A linguagem do medo na retórica populista dos políticos tem reforçado o apoio a soluções baseadas na segurança e na militarização das fronteiras, enquanto fecha os olhos às suas consequências mortais. É uma estratégia que funciona para desviar a atenção das verdadeiras causas da insegurança para lá da fronteira – guerra, violência, pobreza e desigualdade – ao mesmo tempo que cria as condições para a intensificação da violência na fronteira.
Os fatores “empurrar” e “puxar” que desencadeiam as crises na fronteira estão muito longe dela, quer seja nos mercados de trabalho e de drogas ilícitas nas cidades dos Estados Unidos, quer seja na violência, na pobreza e no colapso do Estado de direito de países muito a sul da fronteira. Apesar do número impressionante de vítimas humanas, o muro não faz nada para resolver estes problemas subjacentes, tornando-se injustificável, mortal e “condenado ao fracasso”. E, em vez de trazer segurança, criou um espaço no qual podem ter lugar inúmeras violações dos direitos humanos.
Os esforços letais desenvolvidos para consolidar e militarizar as fronteiras só tendem a aumentar a insegurança. As pessoas que tentam atravessar a fronteira enveredam por rotas mais perigosas ou acabam nas mãos de traficantes e contrabandistas sem escrúpulos. A sua fortificação adicional – repleta de guardas, armas e novas tecnologias de vigilância dispendiosas – acaba por estimular uma resposta mais violenta e militarizada por parte de cartéis de droga e de traficantes de seres humanos bem financiados, criando incentivos maiores à corrupção e à ilegalidade. O muro fomenta mais violência e morte perto da fronteira, sem conseguir restringir o fluxo de drogas ou de pessoas. O tráfico transfronteiriço de estupefacientes continuará a florescer enquanto a procura de drogas ilegais nos EUA não for controlada. As perturbações no fornecimento simplesmente tornam o produto mais lucrativo para os contrabandistas, e os incentivos maiores. A construção de muros distrai do verdadeiro desafio de reformar a política de drogas e migração, que seria a maior ameaça aos lucros dos cartéis. Nos estados onde houve inovações na política sobre as drogas, as taxas de crimes violentos parecem ter caído. Um estudo publicado em 2019 concluiu que, após a legalização da canábis, foi nos estados que fazem fronteira com o México que os homicídios e os crimes violentos mais diminuíram, uma vez que os cartéis da droga perderam negócios para a regulamentação. No entanto, em vez de um debate mais alargado sobre a legalização das drogas, a resposta tem sido a construção de mais muros. É a mesma lógica errónea que impede a abertura de mais vias legais de entrada nos Estados Unidos, que permitiriam às pessoas entrar e sair com maior fluidez, em vez de terem de apostar tudo numa travessia de sentido único.
Em vez de uma resposta humanitária a estes dois desafios, ou de uma resposta baseada em dados concretos, a construção e o reforço da infraestrutura do muro continuam, afunilando as pessoas para os desertos ressequidos e para terrenos perigosamente expostos onde ainda não existem barreiras físicas.
Através das suas políticas fronteiriças, os EUA transformaram a paisagem física numa arma mortífera que “mata impunemente”. A culpa é transferida para a Natureza e para a paisagem desértica, ou para os coiotes, ou para os contrabandistas de seres humanos, ou para os próprios migrantes, em vez de ser atribuída aos políticos que instigam estes regimes fronteiriços hostis e mortíferos.
Apesar de a Administração Trump ter gastado 15 mil milhões de dólares num dos projetos de infraestruturas mais dispendiosos da História dos Estados Unidos, o número de travessias, medido pelas apreensões na fronteira, aumentou acentuadamente durante o seu mandato. Na primavera de 2021, as travessias ilegais da fronteira e as detenções estavam em níveis mais elevados do que os registados na maioria dos meses antes de Trump ter começado a construir o muro.
O desespero gera o engenho e podem ser encontradas numerosas escadas espalhadas por secções já concluídas, enquanto alguns escavaram túneis e outros abriram buracos com rebarbadoras no muro, utilizando por vezes colas para substituir as secções removidas, de modo que a abertura não seja detetada.
As próprias prioridades dos agentes da linha da frente da Patrulha Fronteiriça não têm sido pedir de mais muros, mas sim tecnologia e pessoal adicional para combater o tráfego ilegal. Um relatório divulgado em 2018 pelos democratas do Comité de Segurança Interna do Senado, e baseado em documentos internos das alfândegas e da Proteção de Fronteiras do ano fiscal anterior, concluiu que menos de 0,5% das sugestões dos agentes para proteger a fronteira sudoeste mencionavam a necessidade de um muro.
Ameaça russa
Longe da fronteira entre os Estados Unidos e o México, na Finlândia, os funcionários fronteiriços também admitiram que a principal razão para a súbita vontade de a Finlândia construir uma vedação fronteiriça foi a invasão da Ucrânia pela Rússia. Para o brigadeiro-general Jari Tolppanen, chefe da divisão técnica da Guarda de Fronteiras finlandesa, uma vedação fronteiriça “não era um tema político antes da guerra (na Ucrânia). E, na verdade, não estava nos planos da guarda de fronteiras finlandesa… Tudo mudou depois do ataque (da Rússia contra a Ucrânia)”. No entanto, os analistas sublinharam que a sua utilidade no caso de um ataque militar seria “praticamente nula”, com outros a observarem que, se a Finlândia tivesse de enfrentar episódios de migração em massa, o obstáculo do muro só faria com que os migrantes se dividissem em grupos mais pequenos, menos visíveis e mais difíceis de controlar.
O raciocínio e a retórica política por detrás de tais muros dissipam-se em contacto com as suas limitações práticas, que são reconhecidas até pelos agentes de fiscalização das fronteiras que os patrulham.
A chave para a segurança não está na construção de muros supostamente impenetráveis, mas na gestão dos movimentos de forma mais equitativa e menos perigosa. O muro fronteiriço cria uma ilusão de segurança cada vez mais desligada da realidade. Os muros não conseguem impedir completamente o fluxo de pessoas ou de drogas, tal como não conseguem regular a influência dos mercados financeiros globais nas economias nacionais, nem controlar a velocidade e a escala dos fluxos de entrada e saída de capitais, nem a propagação de doenças infeciosas, nem as ligações de redes criminosas ou terroristas. Na sua forma atual, os muros são distrações mortais de forças que estão fora do controlo do Estado. Tal como todos os “Grandes” muros que o precederam, o Muro de Trump acabará por ser corroído por um espírito implacável de encontro humano, empreendimento e esforço.
Na verdade, partes do Muro já foram afetadas por este espírito, tornando-se um local de atração para turistas, ativistas e artistas. Nos arredores das cidades vizinhas de El Paso, nos Estados Unidos, e Ciudad Juárez, no México, foi instalada uma exposição de arte interativa em 2019. Foram fixados à arquitetura do muro balancés cor-de-rosa brilhantes, oscilando sobre a linha de fronteira num evento descrito como “cheio de alegria, entusiasmo e união”. As crianças de cada lado apressaram-se a brincar nos balancés, aproximando-se, apesar da sombra brutalista entre elas.
A instalação de Ronald Rael ganhou o prémio Beazley Design of the Year de 2020, atribuído pelo Museu de Design de Londres. O diretor do museu considerou que a instalação “encorajava novas formas de ligação humana. Continua a ser uma lembrança inventiva e pungente de como os seres humanos podem transcender as forças que procuram dividir-nos”. Estes balancés chamam a atenção para a interconetividade das fronteiras, enquanto funcionam como uma metáfora que mostra que o que acontece de um lado da fronteira pode ter uma reação igual e oposta no outro.
Apesar deste espírito de união em El Paso-Ciudad Juárez, seis em cada dez pessoas no mundo vivem atualmente numa nação com um muro fronteiriço. Com cada nova estrutura vem uma combinação de narrativas em torno da diferença, da divisão e da segurança, que é acompanhada por um setor económico em expansão centrado na privatização e na externalização da segurança das fronteiras.
É possível lucrar-se com estes muros, mas a que custo para a Humanidade? Parecemos presos a uma compreensão do mundo em que só há uma solução possível: mais fronteiras.
Ficámos tão cativados pelas fronteiras como solução, que a nossa compreensão moderna das mesmas se projeta no tempo, até às Grandes Muralhas do passado. No entanto, a fronteira nem sempre é o que parece e, atualmente, as fronteiras surgem como fontes de proteção e segurança cada vez mais imaginadas. A militarização dos muros fronteiriços exacerba a violência quotidiana, enraíza medidas autoritárias de controlo e aumenta a ansiedade nas comunidades, contribuindo para marginalizar ainda mais os mais vulneráveis. Se quanto mais muros de fronteira são construídos, menos seguro o mundo se sente, e quanto mais altos são, mais os medos crescem, então qual é o objetivo de os aumentar e expandir?
Ler os muros simplesmente como linhas estáticas, intransponíveis e defensivas é não os compreender. Quer se trate de comércio de seda, molho de peixe garo, cavalos ou informação, as fronteiras são tanto pontos de atração e sistemas de comunicação como barreiras supostamente impenetráveis. Cativam tanto quanto repelem e são tanto marcadores de autoridade quanto são fontes de ansiedade, insegurança e transgressão.
Todas as fronteiras são contraditórias e contestadas. Como declarou Trump, de forma enigmática, numa visita à fronteira do Texas, num dos últimos discursos da sua primeira Presidência: “Demos-vos 100% do que queriam, por isso agora não têm desculpas.” Embora não haja registo de Trump ter andado nos balancés cor-de-rosa em El Paso-Ciudad Juárez nesse dia, se o fez, poderá ter-se interrogado sobre o que as pessoas realmente queriam e se o seu “grande e belo muro” o conseguiu.
Guantánamo A base naval que os EUA ocupam no Sudeste da ilha de Cuba desde 1903, contra a vontade das autoridades de Havana, converteu-se numa prisão de alta segurança no início deste século, no âmbito da guerra ao terrorismo declarada pela Administração de George W. Bush. Barack Obama e Joe Biden prometeram encerrar o complexo, onde permanecem uns 25 suspeitos de envolvimento nos atentados de 11 de setembro, mas Trump diz que estas instalações podem servir para colocar “30 mil criminosos”.
Alcatraz No início de maio, Trump ordenou a reabertura e a ampliação da ilha-prisão que funcionou entre 1865 e 1963. A fortaleza da baía de São Francisco, tida como inexpugnável e também conhecida como “Rochedo”, acolheu prisioneiros ilustres, como Al Capone, e desde o seu encerramento que funciona como uma atração turística. Desconhecem-se ainda quais os planos da Casa Branca, mas nas últimas semanas as visitas ao complexo dispararam.
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El Salvador Inaugurada há dois anos, tem capacidade para 40 mil reclusos e é uma das maiores prisões do mundo. Conhecida pelas suas siglas (CECOT), o Centro de Confinamento do Terrorismo já recebeu mais de 300 migrantes (maioritariamente venezuelanos) expulsos dos EUA. Especula-se que o complexo pode vir a ser rebatizado para CECOT-Trump e o regime do Presidente Bukele já se disponibilizou para acolher “criminosos” de qualquer outro país.
Guiana francesa O governo de Emmanuel Macron quer abrir até 2028 uma megaprisão no cenário amazónico descrito por Henri Charrière, no livro Papillon, depois adaptado ao cinema no filme com o mesmo nome protagonizado por Dustin Hoffman e Steve McQueen. A penitenciária será erguida em Saint-Laurent-du-Maroni, antiga cidade-prisão de onde partiam os detidos para a Ilha do Diabo, colónia penal que funcionou entre 1852 e 1954 e onde o tempo médio de vida dos prisioneiros rondava os cinco anos.
Albânia Em fevereiro de 2024, os governos de Tirana e de Roma celebraram um acordo para a Albânia acolher dois centros de “processamento” e “acolhimento” de requerentes de asilo, em Shëngjin e Gjadër. As duas infraestruturas custaram quase 70 milhões de euros e, segundo as partes, iriam dinamizar as economias locais. Em outubro, chegaram os primeiros 16 migrantes – maioritariamente do Egito e do Bangladesh –, mas só permaneceram ali seis dias, pois a justiça transalpina ordenou que regressassem ao território continental de Itália por lhes terem sido negados direitos básicos. O imbróglio está para durar e a solução pode depender do Tribunal de Justiça da União Europeia.
Ruanda O país africano liderado por Paul Kagame tornou-se um íman para países interessados em resolver problemas migratórios de forma expedita. Em 2019, o Reino Unido, então liderado por Boris Johnson, assinou uma parceria com o governo de Kigali e, desde então, sucederam-se os casos similares (Holanda, Bélgica, Dinamarca…), sempre sem efeitos práticos por oposição da justiça. No entanto, as negociações prosseguem. Os EUA já enviaram alguns migrantes do Médio Oriente para território ruandês, mas Kagame exige mais de 100 mil dólares para acolher cada um.
Santa Helena É um pequeno arquipélago perdido no Atlântico Sul, ao largo de Angola e da Namíbia, cuja soberania depende do Reino Unido e ficou na História como o local onde se exilou e morreu Napoleão (em 1821). Keir Starmer, após ser eleito primeiro-ministro britânico, no verão do ano passado, afirmou que as deportações de migrantes para o Ruanda eram “imorais”. No entanto, em outubro, recorreu a um esquema semelhante para deportar os estrangeiros indocumentados que se encontravam nas ilhas Chagos, outro território ultramarino controlado por Londres, no Índico, que motivou um longo contencioso jurídico com as Maurícias. Resultado: cerca de três mil cidadãos do Sri Lanka, de etnia tamil, foram enviados para Timor-Leste, Roménia, Brasil e, claro, Santa Helena.
Porque é que desafia a ideia corrente de que a geografia determina o destino?
A sugestão de que as nações são prisioneiras da sua geografia física é uma extensão do determinismo ambiental, segundo o qual fatores como as características da paisagem e o clima são entendidos como tendo um papel decisivo na formação das características humanas. Estas ideias são atraentes porque oferecem uma representação aparentemente óbvia e inteligível de um mundo complexo. No entanto, é também uma forma de compreender o mundo que coloca inevitavelmente um grupo ou nação acima de outro.
Embora os rios, os solos férteis, os recursos, a pluviosidade e as linhas costeiras tenham desempenhado papéis fundamentais na localização das povoações e das atividades humanas, afirmar que tudo decorre da geografia física é negar e desprezar o papel dos próprios seres humanos. A partir de ideias e inovações, os seres humanos estão constantemente a mudar a sua relação com o mundo. Sem nós, não haveria continentes, nem nações, nem economias. Em vez de ficarmos presos a uma visão míope do planeta que não consegue ver para lá dos horizontes da geografia física, o desafio dos nossos tempos é captar as ideias, as ligações e os encontros que sempre definiram a nossa relação com a Terra e uns com os outros.
Um dos mitos centrais que aborda é o de que a Europa é o centro do mundo. Porquê? Quais são as consequências da perspetiva eurocêntrica?
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A ideia de que a Europa é o centro do mundo é uma questão de perspetiva. Em termos geográficos, a Europa não é um continente, mas uma mera península da Ásia. Situa-se no extremo ocidental de uma placa tectónica euro-asiática, enquanto no seu extremo sul, o Mediterrâneo tem servido durante milénios como uma rede de ligação. Só em comparação com os outros continentes é que um Eu europeu – geralmente representado como comedido, racional e progressista – se pode definir como o oposto binário dos Outros. Na Ásia, a riqueza e a diversidade de uma paisagem e de povos que se estendem da Turquia ao Japão foram reduzidas a um composto cultural grosseiro de ser “oriental”. A invenção de cada continente exigiu que estes fossem preenchidos com o que uma imaginada cultura “europeia”, “asiática” ou “africana” deveria ser, mas onde essa cultura singular não existia.
Como é que o mito do expansionismo russo molda a geopolítica contemporânea?
A invasão da Ucrânia por Putin não é um resultado inevitável da sua posição geográfica, ou simplesmente o último avanço de uma potência insaciável que se apodera de terras. Tem mais a ver com um sistema político que bloqueia a oposição independente, um governo que não tolera críticas e uma oligarquia cleptocrática que existe para se enriquecer. Um tal sistema de poder sem controlo deixa o país à mercê dos caprichos desses déspotas e, por detrás de todas as mentiras e fanfarronices, está uma guerra sem fim para manter Putin e as suas elites no poder.
O perigo de nos centrarmos apenas em mitos expansionistas para explicar as ações da Rússia é que isso oculta uma ameaça muito real – a ativação do ódio etnonacionalista e uma reivindicação territorial de partes da Ucrânia que se destina a mostrar ao mundo que a Rússia continua a ser uma grande potência e que deve ser respeitada. É uma reivindicação apelativa para alguns, mas o problema para Putin é que a Rússia não só cortou os seus laços com a Ucrânia – o seu outrora aliado mais próximo –, mas também com a maioria das economias avançadas do mundo. Com poucos amigos e poucas alternativas, a Rússia viu-se obrigada a assumir o incómodo papel de parceiro júnior da China. Em vez de a Rússia voltar a ser uma grande potência, Putin pode estar a assistir ao pôr do sol sobre a longa sombra do Império Russo.
Os Mitos da Geografia
Um livro que apresenta oito maneiras de entender o mundo de forma errada, por Paul Richardson (ed. Casa das Letras)
“Estou velho!/Dói-me o joelho/Dói-me parte do antebraço/Dói-me a parte interna/De uma perna/E parte amiga/Da barriga/Que fadiga/O que é que eu faço?” Assim canta Sérgio Godinho em O Elixir da Eterna Juventude. E para não se acabar, como na canção, num “mea culpa, mea culpa”, ouçamos o que podemos fazer para retardar o mais possível as terríveis e dolorosas doenças dos ossos. “Diríamos até que, se o idoso pudesse e o jovem soubesse, se esbateria a diferença de idades!”, comenta o médico António Vilar.
Quais são as doenças reumáticas que mais afetam os idosos?
A mais prevalente é, sem dúvida, a osteoartrose (ou artrose), que tem origem na cartilagem articular e afeta particularmente as articulações de carga, a coluna e as mãos. Os fatores de risco já conhecidos incluem a idade, excesso de peso, género, alterações estruturais, traumatismos ou microtraumatismos repetidos com stresse articular. A artrose das mãos com deformação óssea dos dedos dói, pelo menos na fase inicial, podendo persistir com o movimento e após imobilização prolongada. Na coluna, pode afetar drasticamente a mobilidade, com rigidez e anquilose, e é a principal causa de lombalgia crónica no idoso. Outras duas localizações que podem afetar drasticamente a marcha são a artrose dos joelhos e a das ancas, podendo terminar com uma prótese total.
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A osteoporose é inevitável?
Pode dizer-se que, se vivermos o suficiente, todos teremos osteoporose. A sua principal consequência são as fraturas. Em Portugal, registam-se mais de 12 mil fraturas/ano. Embora afete o homem dez anos mais tarde do que a mulher, aos 70 anos a osteoporose é um problema de saúde pública (e de sobrevivência), pois as fraturas da anca matam 25% dos doentes (mais do que o cancro da mama e do ovário juntos!) no primeiro ano após a fratura, e apenas 15% recuperam a capacidade funcional prévia. Os restantes ficam dependentes da ajuda de terceiros. O maior erro clínico é atribuir à osteoporose a causa das dores ósseas que ocorrem nos idosos, já que se trata de uma ameaça silenciosa e só quando ocorrem fraturas é que provoca dor.
Quais são os principais fatores de risco?
O género, a etnia, o índice de massa corporal, a idade, a existência de fratura prévia por fragilidade ou de pais que tenham tido fratura da anca. Também o tabagismo, o consumo de álcool e a toma de corticoides por mais de três meses. Doenças como a artrite reumatoide, o hipertiroidismo, a diabetes e o hipogonadismo são também fatores de risco. A prevenção faz-se com intervenções medicamentosas e não medicamentosas. Destas últimas, lembro a importância do exercício. Mesmo sem ir ao ginásio ou correr, ande – caminhar entre 30 e 45 minutos estimula a atividade do osso, contraria a perda muscular e melhora a coordenação motora. Mas procure não caminhar em pisos escorregadios.
Quais os cuidados que devemos ter em casa?
Retirar os tapetes, tenha muito cuidado com os animais domésticos, use iluminação adequada, coloque corrimãos nos corredores e nas escadas, evite camas altas, não tenha fios elétricos espalhados, use bases para duche e tenha suportes e apoios, não use chinelos, apoie-se numa bengala ou canadiana se tiver desequilíbrio na marcha. Algumas intervenções possíveis para evitar quedas são: não receitar sedativos, evitar polimedicação, avaliar a visão periodicamente, evitar o álcool, ter cuidado com alguns remédios para a hipertensão, acender a luz ao levantar-se de noite, nunca subir a bancos ou cadeiras e eventualmente usar protetores da anca.
Caminhar entre 30 e 45 minutos estimula a atividade do osso, contraria a perda muscular e melhora a coordenação motora
António Vilar, Presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia
A alimentação é importante?
A alimentação rica em cálcio ou suplementos até 1 000 mg/dia (quadro) e a suplementação de vitamina D, pelos benefícios que acrescenta (além da absorção do cálcio, diminui o risco de quedas nos idosos ao melhorar a resposta propriocetiva neuromuscular), são muito importantes. Todos os tratamentos da osteoporose implicam ingestão ou suplementação de cálcio e vitamina D.
Que outras doenças merecem destaque?
Há outras menos frequentes, como a polimialgia reumática, que se manifesta com dor e limitação nas cinturas pélvica e escapular, afetando seriamente a autonomia dos doentes. Os sintomas são febre habitualmente baixa, perda de peso e do apetite, acompanhados de alteração do humor e depressão. O envolvimento da coluna cervical acompanha muitas vezes o quadro inicial. Vinte por cento destes doentes podem ter associado um quadro de arterite temporal com dor, tumefação e edema da artéria temporal superficial e/ou claudicação da fala, por arterite de células gigantes. Esta apresentação pode acompanhar-se de neurite isquémica ótica com evolução rápida para cegueira irreversível.
Já as artrites microcristalinas por deposição de cristais de pirofosfato de cálcio, também designadas por condrocalcinose, podem comportar-se, no idoso, como uma inflamação aguda com quadros de monoartrite mais frequente nos joelhos, mas também nos punhos, ombros, tornozelos e cotovelos, raramente envolvendo mais do que uma articulação na mesma crise.
Uma referência breve para a gota aguda do idoso, que é mais frequente naqueles com ácido úrico elevado de longa duração, que fazem diuréticos (particularmente tiazidas) ou com insuficiência renal.
Gostaria de lembrar também alguns dos reumatismos justa-articulares como a bursite do joelho, as tendinites do ombro e a trocanterite da anca, que ocorrem neste grupo etário por sobrecarga, desalinhamento ou hiperesforço. Podem ser muito incapacitantes, e o aconselhamento e tratamento depende muito da etiologia. No caso da tendinite do ombro, que designo muitas vezes por “tendinite do avô”, ocorre e é despertada pelo transporte ao colo do neto que, até completar 1 ano de vida, pode chegar aos 12 quilos! A trocanterite e a bursite do joelho surgem muitas vezes após caminhadas, subir e descer escadas repetidamente ou começar o ginásio sem conta, peso e medida…
Finalmente, dores ósseas podem ocorrer no idoso na sequência de síndromes paraneoplásicas ou de metástases ósseas de cancro da próstata, tiroide, mama ou rim.
O 47º Presidente dos Estados Unidos da América prometeu a maior deportação da história. Os 13,4 milhões de migrantes indocumentados no seu país são o alvo principal. Donald Trump quer expulsar, dê por onde der, hispânicos, africanos, árabes e “os piores criminosos do mundo”. O processo já está em curso e centenas de venezuelanos, afegãos, egípcios ou birmaneses foram sumariamente detidos e enviados para sítios como El Salvador, Honduras, Cuba (Guantánamo) ou Jibuti (neste último caso, com o propósito de seguirem depois para o Sudão do Sul). No entanto, como o autor da Arte da Negociação é também um artista da mistificação, já concedeu asilo político a meia centena de agricultores brancos sul-africanos, por estarem a ser alvo de um (falso) “genocídio”, e prepara-se para distribuir os primeiros “cartões dourados”, em que consta a sua própria imagem, a qualquer estrangeiro que aceite pagar cinco milhões de dólares para fixar residência nos EUA. Será que, além de todos os outros males que lhe são atribuídos, o inquilino da Casa Branca também padece de aporofobia, o conceito cunhado por Adela Cortina, filósofa espanhola, para designar a repulsa pelos mais pobres?
De Donald Trump pode esperar-se quase tudo. Por isso mesmo se pode considerar como verosímil a notícia dada pelo Wall Street Journal e pelo Daily Mail de que o Departamento de Segurança Nacional (Ministério da Administração Interna e conhecido pelo acrónimo DHS) estaria a promover um programa de TV intitulado The American que, na prática, funcionaria como um reality show estilo “Jogos da Fome para Imigrantes”, em que diversos concorrentes, ao longo de vários episódios, lutariam pela sua permanência em solo norte-americano. O assunto deu polémica em barda e chegou ao Congresso. Interpelada diretamente pela oposição democrata, a titular do DHS, Kristi Noem, viu-se obrigada a desmentir o que o seu gabinete dissera antes aos jornais. Esse programa não será feito, a Netflix não o irá produzir e Sofia Vergara ou Mila Kunis, atrizes naturalizadas, não o iriam apresentar.
REIS DO ASILO
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Não se julgue que este tipo de situações absurdas são monopólio da Administração Trump e só ocorrem do outro lado do Atlântico. Pergunta retórica e aparentemente descabida num texto sobre migrações: quem é Graham King, um dos homens mais ricos do Reino Unido, cuja fortuna aumentou 35% no último ano e, de acordo com o Sunday Times, já atinge 1015 milhões de libras (cerca de 1200 milhões de euros), suplantando até o pecúlio de Carlos III? A resposta está, grosso modo, na alcunha deste empresário de 58 anos, natural de Essex: o Rei do Asilo.
No final do século passado, Graham e o irmão, Jeff, geriam um negócio familiar que passava pela gestão de dois parques de campismo e de autocaravanas e de uma pequena frota de táxis. Em 1999, após um investimento malsucedido numa discoteca, os King criaram a Clearsprings Ready Homes e conseguiram um contrato especial com o então governo trabalhista liderado por Tony Blair. Objetivo: alojar imigrantes. A concessão correu-lhes às mil maravilhas e, em poucos anos, a empresa passou a ganhar praticamente todos os contratos com o Estado, no Sul de Inglaterra e Gales. Em 2020, Harry quis gerir o negócio sozinho e adquiriu a quota de Jeff por 70 milhões de libras. Desde então, os seus lucros decuplicaram devido ao contínuo aumento dos fluxos migratórios, sobretudo das pessoas que atravessam o canal da Mancha em lanchas pneumáticas. O número de pedidos de asilo passou de 47 mil, em dezembro de 2019, para 110 mil no mesmo mês do ano passado. Pormenor adicional. De acordo com o National Audit Office (equivalente ao nosso Tribunal de Contas), a Clearsprings e duas outras empresas similares (Serco e Mears) monopolizam por completo este tipo de contratos (tiveram lucros de quase 400 milhões de libras nos últimos seis anos) e essa situação vai prolongar-se até 2029, com um custo de 15 300 milhões de libras para os cofres públicos. Este triunvirato privado controla 395 hotéis onde ficam alojados os migrantes e ainda recebe fundos adicionais pelo fornecimento de outros bens, com alguma imprensa a denunciar que Graham King recebe, dos contribuintes, 117 libras diárias por cada estrangeiro a quem dá comida e guarida.
Atropelos No início de abril, perto de 800 mil afegãos começaram a ser deportados do Paquistão para o seu país de origem. Às Caraíbas e à América Central estão a chegar milhares de migrantes que viviam nos EUA
Um esquema que o último Executivo conservador, de Rishi Sunak, tentou minimizar, ao alugar uma gigantesca barcaça, que ficou ancorada em Portland, e, sobretudo, celebrar acordos com países em diferentes pontos do globo que aceitassem receber os candidatos ao asilo que entraram clandestinamente nas ilhas britânicas até que estes vissem a respetiva situação regularizada. Para este processo de “externalização”, a cargo da então secretária (ministra) da Administração Interna, Priti Patel (de ascendência ugandesa-indiana), o governo de Londres elaborou uma longa lista de destinos: Santa Helena (arquipélago no Atlântico Sul onde se exilou e faleceu Napoleão), Ascensão (ilha a meio caminho entre Angola e o Brasil), Papua-Nova Guiné (na Oceânia), Moldova, Marrocos… A escolha acabou por recair no Ruanda. Só que o Supremo Tribunal britânico, em novembro de 2023, considerou que o entendimento com Kigali era ilegal, por violar a legislação nacional e o direito internacional humanitário.
Em julho de 2024, o social-democrata Keir Starmer, ao tomar posse como primeiro-ministro, afirmou com veemência que deportar pessoas para o Ruanda era uma “opção imoral” e que ficava descartada. Só que a realpolitik fez mudar a opinião do antigo procurador do reino de Carlos III. A 12 de maio, na sua residência oficial em Downing Street, durante um discurso sobre a sua política migratória, Starmer tentou sensibilizar a opinião pública para a necessidade de controlar as travessias clandestinas no canal da Mancha para que o país não se tornasse uma “ilha de estrangeiros”. Tal expressão mereceu um coro de reparos por ter antecedentes graves: na primavera de 1968, um dos mais polémicos e xenófobos dirigentes do Partido Conservador, Enoch Powell, usou exatamente as mesmas palavras e foi logo acusado de racismo por se opor à entrada de cidadãos nascidos nas antigas colónias do império. Moral da história: o atual Executivo de Londres adotou uma postura similar ao de Sunak e, em vez do Ruanda, encontra-se a negociar com nove outros países para aí instalar “plataformas de retorno” para imigrantes. A imprensa londrina garante que os principais candidatos são Estados balcânicos: Montenegro, Sérvia, Bósnia e Herzegovina e Macedónia do Norte. De fora fica excluído um outro país da região, visitado por Starmer há apenas duas semanas, a Albânia. O homem que manda no governo de Tirana há mais de uma década, Edi Rama, explicou o motivo: “Temos sido sondados nesse sentido por muitos países, mas temos sempre dito não; somos leais ao nosso casamento com a Itália.” Tradução: o governo de Rama celebrou, no final do ano passado, um acordo com a Itália que prevê a transferência anual de 36 mil migrantes indocumentados para dois “centros de processamento” em território albanês (ver caixa), até ao final da presente década. Essa iniciativa iria custar aos cofres transalpinos a quantia de, pelo menos, mil milhões de euros e mereceu pronta condenação da Cruz Vermelha Internacional e das principais organizações de defesa de direitos humanos que a classificaram como “dispendiosa, cruel e contraproducente”. A realidade demonstrou que não estavam enganados. Desde a sua entrada formal em funcionamento, há oito meses, os dois complexos, em Shëngjin e Gjadër, limitaram-se a receber algumas dezenas de migrantes, porque a justiça italiana continua a pôr em causa os métodos da primeira-ministra Giorgia Meloni, acusando-a de ignorar a legislação.
CINISMO ILIMITADO
A governante que militou no movimento pós-fascista italiano tem sabido seduzir os seus pares em toda a Europa. E, tal como Keir Starmer, que visitou e elogiou Meloni em Roma, no último outono, já poucos chefes de Estado e de Governo se preocupam com os excessos migratórios da mulher que reduziu para metade as chegadas irregulares a Lampedusa e à península transalpina ‒ em rigor, à custa de permitir todo o tipo de atropelos a regras básicas, como dar carta branca para que a guarda costeira da Líbia e da Tunísia deixem os migrantes à sua sorte no Mediterrâneo ou financiar infraestruturas de policiamento nestes dois países do Norte de África para manterem inexpugnável a fortaleza Europa.
Na passada semana, após reunir-se com a sua homóloga da Dinamarca, a social-democrata Mette Frederiksen, Meloni deu a cara pela revisão da Convenção Europeia dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais, documento que entrou em vigor em 1953 e interdita, por exemplo, a discriminação, a tortura, o trabalho forçado ou a escravatura. Numa carta aberta, subscrita por nove países (Itália, Dinamarca, Polónia, Áustria, Bélgica, Chéquia, Estónia, Letónia e Lituânia), propõem-se o início de um “debate para repensar a forma como está a ser interpretada” a Convenção pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH). Entendamo-nos: endurecer as políticas migratórias da UE, restringir cada vez mais a entrada irregular de cidadãos oriundos de outros continentes e facilitar as regras de repatriamento ou deportação para países terceiros ditos seguros (ver entrevista com António Vitorino). Sugestões que a Comissão Europeia e uma parte significativa dos eurodeputados parecem estar dispostos a acolher, mas que o secretário-geral do Conselho da Europa (organização formada no pós-guerra, anterior à antiga CEE e que conta com 46 países do Velho Continente), o suíço Alain Berset, repudia por constituir uma “politização” do TEDH: “Numa sociedade em que vigora o Estado de direito, a justiça não deve ser alvo de pressões políticas. As instituições que protegem direitos fundamentais não podem estar dependentes de ciclos políticos.” Com as diferenças ideológicas a esbaterem-se entre populistas, conservadores e sociais-democratas em toda a Europa, não é de estranhar que, um destes dias, em Bruxelas, Viena, Haia ou Londres, alguém se lembre de emular o programa Regresso a Casa, de que tanto se orgulham Kristi Noem e Donald Trump. Qualquer imigrante que aceite abandonar voluntariamente os EUA tem viagem de regresso garantida ao seu país de origem e ainda recebe um lanche e mil dólares de prémio. Como diria Oscar Wilde, “um cínico é alguém que conhece o preço de tudo e não dá valor a nada”.
Podes colocar os frutos secos na marmita?” Devagar, mas com certeza no movimento, um robô de formato humanoide, desenvolvido pela empresa Apptronik, pega numa pequena caixa e coloca-a dentro de uma lancheira. “Podes colocar também a laranja?”. De um pequeno prato com diferentes peças de fruta, o robô volta a pegar de forma lenta, mas novamente com certeza, numa laranja, colocando-a na lancheira. Não seria bom ter um robô lá por casa que lhe preparasse a marmita todos os dias? E o ajudasse noutras tarefas rotineiras, como estender a roupa, preparar as refeições ou simplesmente manter a casa arrumada? E se além da ajuda em casa, também se estendesse ao trabalho?
O exemplo aqui descrito faz parte de um dos mais recentes vídeos de demonstração do Gemini Robotics, um modelo de Inteligência Artificial (IA) desenvolvido pela Google especificamente para robôs. Nos últimos anos, os assistentes digitais evoluíram de forma significativa graças aos desenvolvimentos dos chamados grandes modelos de linguagem (LLM), que fazem com que ferramentas como o ChatGPT, o Gemini ou o Claude percebam e escrevam texto com uma qualidade muito próxima da de um humano. Mas o que começou por ser uma interação baseada apenas em texto rapidamente evoluiu para os chamados modelos multimodais – sistemas que percebem texto, imagens, sons, vídeos, programação ou até mesmo diferentes idiomas… Estão, de certa forma, a ficar com uma inteligência mais abrangente, mais generalista.
Pelo que o salto para a robótica parecia quase inevitável – o que aconteceria se estes novos modelos de IA, com todas as suas potencialidades, fossem aplicados aos robôs? A resposta começa a ser dada e tem aparecido sob a forma de inúmeras demonstrações, de empresas diferentes – Figure, Tesla, Google e Meta – que mostram robôs a moverem-se de maneira mais natural, a realizarem tarefas mais complexas e a mostrarem um nível de mobilidade ou destreza mais aproximado do humano. Estas tecnológicas, bem como outras empresas e centros de investigação, estão a desenvolver os chamados modelos de visão-linguagem-ação (VLA na sigla em inglês), o equivalente do GPT da OpenAI, mas para robôs. E se à primeira vista pode não parecer uma transformação significativa, é uma etapa essencial no caminho para a democratização da robótica.
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“Antes era difícil passar a informação para o robô, era preciso programá-lo especificamente para uma tarefa”, explica Eduardo Mendes, diretor executivo (CEO) da Connect Robotics, uma startup de drones autónomos que fazem entregas em curtas distâncias. Com os novos modelos de IA, os robôs já conseguem fazer algumas generalizações, o que significa que não é preciso instruir a máquina especificamente no manuseamento de objetos. “Os modelos de visão computacional associam o texto às imagens. Conseguem criar esta noção de que uma banana é mais provável estar na cozinha do que na casa de banho. Estes dados acabam por permitir aos robôs decifrarem coisas sobre as quais não tinham tanta certeza. Há uns anos era difícil dizermos ‘pega no copo e põe na máquina’. Máquina, mas qual a máquina? Agora percebem que é provável que seja a máquina da loiça. Com os novos modelos, conseguem perceber isso, mesmo sem ser explícito”, explica por seu lado Iolanda Leite, professora associada na divisão de robótica, perceção e aprendizagem no Instituto Real de Tecnologia KTH, na Suécia.
Eduardo Mendes. diretor executivo da Connect Robotics
Se ver um robô a pegar numa banana e a colocá-la no frigorífico (e não num micro-ondas, por exemplo), parece uma demonstração de raciocínio, o CEO da Connect Robotics lembra o que está na base destes sistemas de Inteligência Artificial avançados. “Agora podemos juntar muitos e muitos dados de câmaras e fazer a análise destes dados. Assim, estatisticamente podemos comparar os dados recolhidos. É esse o diferencial. Os LLM são dados estatísticos, o ChatGPT e Gemini em vez de processarem vídeo ou áudio, estão a encontrar a correlação estatística entre as palavras”, explica.
Ou seja, aquilo que o robô faz não é mais do que encontrar uma relação estatística entre a banana, enquanto fruta, e o local mais provável da mesma numa casa. É esta combinação estatística que faz, na demonstração da Google, que o robô da Apptronik perceba o que é uma lancheira quando o utilizador lhe pede isso especificamente. Na prática, a evolução do software e da Inteligência Artificial Generativa está a resolver aqueles que eram, na visão de Eduardo Mendes, três grandes obstáculos na robótica. “O primeiro era a perceção, depois o raciocínio e por fim a atuação. Para nós [humanos] é tudo muito óbvio.
Um robô tem uma câmara que está a visualizar muitos píxeis. O problema da perceção é como transformo esse monte de píxeis em informação real para perceber o ambiente. Como sei onde começa e termina um objeto, que objeto é, a que distância está, onde termina a mesa, onde começa a banana… Já no raciocínio, qual é a ordenação da banana? O que tenho de fazer com a banana? Há muitos problemas que são de software”, detalha o brasileiro de 41 anos, natural de São Paulo, mas a viver em Vila Nova de Gaia.
Neste contexto, o executivo lembra que existe outra área em grande desenvolvimento e que está a potenciar tanto o desenvolvimento de sistemas de IA, como de robótica – os simuladores digitais. “Permitem estatisticamente executar mil milhões de vezes cada junta de cada motor, em software, para dizer que se quero chegar ao ponto X, tenho que mexer este e aquele motor. Antes tudo era feito de forma muito definida, agora com o avanço das placas gráficas e da IA posso treinar estatisticamente de forma muito rápida o que preciso de fazer”, explica. Por exemplo, a Meta criou 20 simuladores digitais nos quais tem treinado o seu modelo de IA para robótica, que depois é aplicado em robôs em contexto real.
Já para Iolanda Leite, algumas das demonstrações de robótica que têm sido feitas pelas grandes tecnológicas acabam por não ser tão surpreendentes, pois em ambiente académico ou de laboratório a realização de tarefas complexas por parte dos robôs já é uma realidade há algum tempo. “O software está mais capaz, está tudo um nível acima. Dá a sensação de que estão a evoluir muito rápido. Mas nós só vemos os melhores momentos e as edições cortadas do que está a acontecer, [as empresas] não são muito transparentes sobre, por exemplo, tudo o que não correu bem”, alerta.
O caminho das pedras da robótica
Por que razão a robótica é vista com tanto fascínio? Porque promete ser uma ajuda importante na resolução de alguns problemas inevitáveis – como a diminuição da força de trabalho e o envelhecimento da população –, ao mesmo tempo que promete trazer vantagens em termos de qualidade de vida – permitir às empresas fazer mais com menos recursos ou às pessoas libertarem-se de tarefas aborrecidas, dando-lhes mais tempo pessoal.
Mas não pense que estes avanços em IA e robótica recentes significam que vai ter um robô-assistente pessoal no curto prazo a cirandar pela casa. A área da robótica ainda tem muitos desafios por resolver. Mesmo que a questão do software (vamos imaginá-lo como o cérebro do robô) seja totalmente resolvida, o que distingue a robótica de um assistente digital no nosso computador é justamente a necessidade de existir e interagir no mundo físico. Aliás, a robótica é vista como uma materialização da IA no mundo físico.
Iolanda Leite, professora associada no instituto real de tecnologia KTH
O que significa que o ‘cérebro’ do robô até pode ser muito inteligente, mas para executar ações precisa de hardware como atuadores e controladores, precisa de câmaras para analisar uma área e objetos em tempo real, precisa de baterias para conseguir operar longe de uma tomada. “Os problemas da robótica sempre foram dois. A capacidade de inteligência e a capacidade de energia. As baterias, a forma como existem agora, duram muito pouco. E se o robô estiver ligado à tomada, não vai longe. Ou se vai carregar cargas pesadas, isso requer muita energia. Precisamos de ter novas formas de energia de forma mais condensada”, considera Eduardo Mendes sobre o problema da autonomia energética. A questão do próprio preço do hardware é, para Iolanda Leite, natural de Chaves e atualmente a viver em Estocolmo, uma área que também precisa de ser melhorada. No centro de investigação do qual faz parte, existem mais de duas dezenas de robôs diferentes, de simples braços robóticos a máquinas de formato humanoide.
Sim, os robôs estão a ficar mais acessíveis, mas ainda não ao ponto de estarem acessíveis como outros equipamentos de eletrónica. E ainda antes de os robôs entrarem em nossa casa, há outros desafios por resolver. “Em casa há aspetos de privacidade, por exemplo. Estamos mais longe [de ter um robô] do que pode parecer dado este grande entusiasmo. Todas as outras máquinas que temos em casa não são tão proativas. Controlamos onde estão, o que estão a fazer, o que estão a ouvir. Um robô que precise de ter câmaras, há outros aspetos que tornam mais difícil toda essa integração”, lembra a investigadora de 40 anos. A simples ideia de ter um robô com dezenas de quilos a mover-se de um lado para o outro, podendo cair sobre uma criança ou um animal, é algo que precisará de novas abordagens nos próximos anos. Mas também aqui estão a ser dados passos importantes. O Figure 02, por exemplo, já ‘só’ pesa cerca de 70 quilogramas. O Optimus, da Tesla, pesa cerca de 63 quilogramas.
Há um outro grande desafio ao qual os robôs terão de saber adaptar-se – a própria estrutura do mundo. Não é à toa que muitos robôs têm um formato humanoide, sobretudo os modelos mais recentes usados pelas grandes tecnológicas. O motivo é simples – o mundo em que vivemos foi criado para humanos. E um robô para ser útil tem de conseguir adaptar-se a esse ambiente. “Se queremos um robô que ajude na cozinha, e a cozinha foi desenhada para nós, tem de conseguir abrir gavetas, pegar num talher, fechar as gavetas. (…) O problema é que tudo já está feito para os humanos operarem, é preciso adaptar o robô para isso. É uma fase de transição”, justifica Eduardo Mendes. Também Iolanda Leite considera que o fator humano acaba por trazer um elemento de complexidade ao desenvolvimento dos robôs. “Não há conjuntos de dados que simulem as pessoas ou a física dos objetos, por isso [o desenvolvimento] é capaz de estagnar um bocadinho. (…) Não temos boas simulações para o comportamento humano”, exemplifica. Pegar numa banana é uma ação, descascar a banana é outra e colocar a banana no frigorífico com pessoas na cozinha é outra completamente diferente.
Robôs em todo o lado
Quando pensamos num futuro com robôs, é fácil cair num cenário de ficção científica como o do filme Eu, Robô, no qual já existe um humanoide assistente na casa de muitas pessoas. Mas o futuro – a curto prazo, pelo menos – da ascensão das máquinas será um pouco diferente. Sim, haverá cada vez mais robôs em utilização, mas não obrigatoriamente com o formato humanoide. Um carro autónomo é, em boa verdade, um robô. Um drone de entregas também. Um quadrúpede que faz vistorias autónomas a edifícios também. Um autómato de transporte num armazém, igualmente. Ou seja, aos poucos vão começar a surgir muitas tipologias de robôs – equipamentos autónomos que executam tarefas específicas – que deverão libertar os humanos de tarefas mais rotineiras e repetitivas.
A Connect Robotics já está a operar entregas autónomas de drones todos os dias, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, de material de farmácia para tratamento de pacientes. Ao todo, já foram feitas mais de 5000 entregas, segundo Eduardo Mendes. “Estamos a expandir, temos outros clientes já em contrato para fazer entregas, principalmente na área da saúde, mas também para distribuir peças de carro para as oficinas de mecânica. E estamos a iniciar agora uma nova área, chamada de olhos no céu [eye in the sky no original em inglês], que é inspeção de longa distância feita com drones”.
Este é apenas um exemplo de como a automação vai começar a ser aproveitada por diferentes áreas de negócio, neste caso a logística. “A robótica vem mudar tudo em áreas que são perigosas, repetitivas e em muitas coisas que podem ser e devem ser automatizadas. Por exemplo, nós não fomos feitos para conduzir. Muita gente morre todos os dias porque não somos feitos para conduzir. Daqui a 500 anos as pessoas nem vão acreditar que fazíamos uma caixa de ferro com motor de explosão”, comenta o CEO da Connect Robotics.
É justamente na inevitabilidade de uma vida com mais robôs que Iolanda Leite tem desenvolvido a sua investigação. Formada no Instituto Superior Técnico, a professora e investigadora tem trabalhado no conceito de tornar os robôs mais sociais. “Sociais não no sentido de serem os nossos melhores amigos. Mas uma vez que vão partilhar o espaço connosco, precisam de ser sociais, para não serem indelicados ou chatos. O meu aspirador robô, se eu estiver na sala, quero que ele vá aos quartos antes de vir fazer barulho para onde estou. Esta consciência social é muito importante para que depois consigam fazer aquilo para o qual estão programados”. Isto porque ao perceberem o contexto social no qual se inserem, permitirá “melhorar o serviço prestado às pessoas”. Mas a investigadora não tem dúvidas: nesta fase, “menos humanos é melhor para os robôs”, pois as pessoas trazem “mais caos” ao ambiente no qual o robô opera.
Com todos os desenvolvimentos recentes, a Inteligência Artificial começa a ganhar corpo e a ocupar um espaço que era dos humano. A ascensão das máquinas pode ser lenta, pelos motivos já apontados, mas é inevitável.