O mês de julho arranca como terminou junho: com uma onda de calor, com temperaturas substancialmente mais elevadas do que o normal e noites tropicais.
Os mapas do modelo utilizado pela Meteored apontam para temperaturas com valores acima dos da média climatológica de referência para o mês de julho na maior parte da geografia do Continente.
Para este segundo mês do verão climatológico, Alfredo Graça, geógrafo e editor-chefe da Meteored Portugal, prevê precipitação escassa, com aguaceiros esporádicos, embora pontualmente fortes e irregulares na sua distribuição geográfica e intensidade. É possível que se repitam os fenómenos de granizo e trovoada.
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As temperaturas muito elevadas a extremas, em conjunto com a falta de chuva, levam a organização a falar em “semanas duras”, que podem “prejudicar gravemente as culturas agrícolas e provocar desequilíbrios inesperados a nível hídrico e dos solos”.
O YouTube confirmou numa publicação na sua página de suporte que, a partir de 22 de julho, a idade mínima para transmissão de conteúdos em direto na plataforma passa para os 16 anos. Até agora, a idade mínima para quem queria publicar, sozinho, vídeos em direto era de 13 anos. Agora, o requisito passa a ser de 16 anos ou, em alternativa, aparecer com um adulto no stream.
A partir de 22 de julho, os menores de 16 anos que façam livestream sem um adulto presente, enfrentam penalizações como ver o chat ao vivo desabilitado ou outras funcionalidades temporariamente bloqueadas. A intenção passa também por remover os livestreams que infrinjam esta regra e impedir que essas contas publiquem depois em outros canais também. Os utilizadores que sejam penalizados serão informados por email, segundo o Engadget.
Os menores de 16 que queiram continuar a criar vídeos em direto vão poder dar acesso a um adulto aos seus canais como editor, gestor ou proprietário, o que irá permitir começar a transmissão a partir da conta ligada. Os adultos que estejam em co-criação terão de estar “visivelmente presentes” e fazer parte da transmissão.
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Até agora, não há qualquer explicação oficial para o aumentar da idade mínima.
As agências de inteligência e de segurança de Israel e da Alemanha vão trabalhar de forma próxima para aumentar as capacidades dos dois países. O ministro do Interior alemão viajou até Israel para encetar o plano de construir um centro de investigação cibernético e estreitar a cooperação.
Berlim procura exponenciar a sua defesa, bem como elevar as capacidades militares e contribuições para a NATO, numa altura em que enfrentam potenciais ameaças da Rússia e da China. Alexander Borindt afirmou que “a defesa militar por si só não é suficiente neste momento de viragem. Uma melhoria significativa na defesa civil é também essencial para aumentar as nossas capacidades de defesa geral”. O plano, segundo o Bild, passa por cinco pontos-chave, incluindo o desenvolvimento de uma cúpula para a cibersegurança, a Cyber Dome, como parte da estratégia de defesa.
Já no domingo, o primeiro-ministro alemão Markus Soeder apelou à aquisição de dois mil mísseis de interceção para equipar o país com uma ‘Cúpula de Ferro’ semelhante à de Israel.
Depois de no início deste mês ter assinado uma ordem executiva que prolonga o prazo para a ByteDance encontrar novos donos para a TikTok nos EUA ou enfrentar a proibição de manter a plataforma naquele país, Donald Trump afirma que já tem um “grupo de pessoas muito ricas” interessado na aquisição. Trump fez estas declarações numa entrevista à Fox News no domingo, informando ainda que irá revelar a identidade destes compradores provavelmente daqui a duas semanas.
O presidente dos EUA explicou ainda que o negócio está a ser desenvolvido e que irá precisar da aprovação do homólogo chinês Xi Jinping que deverá aceitá-lo, noticia a Reuters.
As exigências dos EUA são que a operação local da TikTok passe para as mãos de uma empresa norte-americana, detida na sua maioria e operada por investidores dos EUA. Depois de Trump ter anunciado a imposição de tarifas comerciais, a China revelou que não iria aceitar um negócio nestes termos. Em 2024, uma nova lei exigia que a ByteDance passasse completamente a TikTok dos EUA para mãos americanas ou que demonstrasse progresso significativo em direção a uma venda. Desde então, Trump já prolongou o prazo por três vezes, permitindo que a TikTok se mantenha ativa naquele território.
Os seus iWatch e iPhone já se tornaram amigos indispensáveis para se manter a par de quantas horas dormiu, quantos passos deu, como está o seu ritmo cardíaco? Os novos modelos também medem as suas ondas cerebrais.
No passado, a realização de um eletroencefalograma (EEG) era apenas possível em ambiente hospitalar. Atualmente, ainda que sem o mesmo nível de precisão, um EEG já está incorporado no seu relógio, nos auriculares (comercializados pela Emotiv e em breve pela Apple) ou em bandas que podem ser colocadas na cabeça. Quando compramos e aceitamos os termos e condições, concedemos um direito de utilização sobre as nossas ondas cerebrais à empresa, que disponibiliza no nosso telefone um conjunto de gráficos sobre a nossa saúde, mas que também armazena as nossas ondas cerebrais para as utilizar no treino de Large Language Models (veja-se os termos e condições dos gadgets da Emotiv, disponíveis no site). A Emotiv afirma que os seus gadgets já conseguem detetar o nosso estado de humor e as nossas emoções, se estamos cansados e qual o nosso nível de atenção. Utilizados para medir o nível de cansaço de quem conduz máquinas perigosas, podem ser uma ferramenta útil, mas e se forem usados para decidir ou não renovar o seu contrato de trabalho?
Em 2023, foram nomeados para os BCI Awards dois projetos de investigação, em que foram desenvolvidos modelos que, ao lerem os sinais captados pelo EEG (com e sem implantes no cérebro), se mostraram capazes de descodificar o sentido do que os voluntários estavam a pensar.
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A Emotiv anuncia no seu site como as suas bandas podem ser utilizadas para melhorar as campanhas de marketing. Uma leitura – não intermediada – das ondas cerebrais que visa compreender a eficácia de uma determinada mensagem, quando é mais efetiva, como deve a campanha ser ajustada. Os focus groups têm agora uma banda na cabeça.
O mercado de neurotecnologia valia, em 2024, 15 mil milhões de dólares e antecipa-se que atinja os 52 mil milhões de dólares em 2034. Face ao lucro potencial, o incentivo para tornar os gadgets mais precisos e encontrar novas formas de utilização é indiscutível.
Mas o que significa terceiros – governos, partidos políticos, empresas, grupos de interesses… – terem à sua disposição instrumentos que lhes permitem conhecer o nosso estado de espírito (e um dia, o que pensamos), quando estamos mais vulneráveis e permeáveis a determinadas mensagens?
O artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece: “Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião.” Neste e noutros instrumentos – incluindo na nossa Constituição – não se concretiza o que é liberdade de pensamento. Surge associada a manifestações exteriores, por exemplo, liberdade de expressão. É assim, porquanto, até hoje, o que pensamos e optamos por não partilhar – porque entendemos que não é o momento, porque ainda estamos a formar uma posição, porque tememos as consequências, ou simplesmente porque nos envergonhamos de certos pensamentos e nos autocensuramos – constituía o nosso foro privado, inviolável. O que configura o nosso foro privado e até que ponto pode legitimamente ser influenciado, doutrinado, catequizado, não está concretizado na lei. E até o ser, com um simples clique cedemos o controlo sobre o que nós e os outros sentimos. Isto porque os dados são tratados por algoritmos que organizam as nossas ondas cerebrais em padrões e se tornam aptos a ser interpretados. Face aos riscos, debate-se – na ONU, no Conselho da Europa e noutros fóruns – como assegurar a proteção da integridade do nosso eu interior. Os direitos humanos atualmente reconhecidos são suficientes, carecendo apenas de detalhe e concretização? Ou devem ser criados novos “neuro direitos” que nos protejam dos inevitáveis avanços tecnológicos e das suas aplicações comerciais? A demora na concretização ou na definição de novos direitos coloca-nos, a todos, em risco.
O glamour associado aos gadgets retira-nos sentido crítico e facilmente clicamos no “permitir”. No entanto, se “votamos” com a carteira e na compra do próximo gadget, além das funcionalidades, podemos também ponderar que dados são usados e para que fins.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Entre 1951 e 1952, o general americano Dwight Eisenhower foi o primeiro comandante supremo aliado das tropas da NATO estacionadas na Europa. O homem que tinha liderado as forças anglo-americanas, no assalto final à Alemanha de Hitler, pelo lado ocidental, durante a II Guerra Mundial, vinha com a missão de encaminhar os europeus nos primeiros passos para a futura autonomia defensiva da Europa Ocidental. “Dentro de dez anos”, profetizou, erradamente, o herói da II Guerra, “os aliados europeus estarão aptos a defenderem-se sozinhos e os militares americanos poderão abandonar as suas bases aqui e regressar a casa”.
É verdade que a previsão de Eisenhower ignorava um “pequeno” pormenor que desequilibraria permanentemente a balança para o lado soviético: o da capacidade nuclear. Capacidade essa que os americanos sempre resistiram a partilhar (obrigando, por exemplo, a França do desconfiado general De Gaulle a investir no seu próprio programa, fora da alçada da NATO). Mas também é verdade que os europeus, concentrados na construção de um Estado social que, na expressão dos ideólogos trabalhistas ingleses do princípio do século, cuidasse do homem “desde o berço ao túmulo”, e confiantes na asa protetora da América, foram sempre descurando – e delegando – a sua defesa, perdidos, também, nas velhas rivalidades interestaduais. A história da NATO é um relato permanente de tensão entre este e o outro lado do Atlântico. Um dos mais celebrados secretários-gerais da organização, o alemão Manfred Wörner, que exerceu o cargo entre 1988 e 1994, conseguiu o compromisso, jamais cumprido, dos Estados-membros de reservarem 5% do PIB para o investimento em Defesa – curiosamente, o exato número mágico que volta a estar, por estes dias, em cima da mesa de mais uma importante cimeira da NATO, em Haia, nos Países Baixos. Aliás, desde os tempos de John F. Kennedy, um dos presidentes americanos mais vocais contra a inércia europeia em matéria de Defesa – o que faz de Donald Trump um modesto desmancha-prazeres… – que os europeus se comprometeram, cíclica e sucessivamente, com, pelo menos, 2% do PIB, outro dos números de que se tem falado e que o próprio Governo português prometeu acomodar no exercício orçamental já deste ano – sabe Deus com que espécie de contabilidade criativa… Portanto, as tricas entre os membros europeus das NATO e o seu poderoso aliado americano não são de agora, não foram criadas por Donald Trump, nem desaparecerão de cena, por muitos anos que a NATO se aguente.
E o problema é esse: quanto mais tempo se aguentará? É que, se antes, mesmo com todos os desentendimentos, o “inimigo” de europeus e americanos era, ao menos, comum – a União Soviética e, depois dela, uma entidade difusa chamada “terrorismo” ou, de novo, a Rússia, hoje já não sabemos se o inimigo da Europa é o mesmo dos EUA, tão apegados que parecem, volta e meia, Putin e Trump. Não sabemos, até, se o novo inimigo não serão… os Estados Unidos! Este volte-face geopolítico deixa os líderes europeus como moscas a bater nos vidros de uma janela.
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Em 1975, durante o gonçalvismo, Portugal, embora se mantendo como membro da Aliança Atlântica, foi posto numa espécie de quarentena, sem acesso a informação sensível, dado o fundado receio de que os segredos passassem, via Lisboa, para Moscovo. Mas hoje os EUA continuam a ser os detentores não só dos segredos, mas de todo o poder, no seio da estrutura militar da NATO. Durante a Guerra Colonial, a Administração Kennedy proibiu que armamento americano fosse usado por Portugal, nas suas guerras em África. Vem daí a opção portuguesa por outros fornecedores: a G3, arma “histórica” do Exército português, era uma espingarda automática de patente alemã, tal como a metralhadora ligeira HK21; a UZI, pistola-metralhadora israelita, coincidia com a sua congénere portuguesa FBP (da Fábrica de Braço de Prata, onde, sob licença, também se fabricavam as armas alemãs e respetivas munições). A pistola Walther, usada pelos oficiais portugueses, era também alemã. Os caças eram os italianos FIAT e os helicópteros PUMA eram de origem francesa.
Esta semana, virá a propósito referir, os EUA terão utilizado a Base das Lajes (ver pág. 48) como apoio logístico para a operação contra o Irão – uma missão completamente fora das atribuições da NATO. A oposição parlamentar portuguesa pediu explicações ao Governo e os esclarecimentos de Nuno Melo, ministro da Defesa, foram prontamente aceites pelo PS. Quer isto dizer que, na hora da verdade, os aliados dizem presente e que os partidos centrais se mantêm alinhados na real politik da Aliança com os EUA. Pode ser um bom sinal.
Aqui há atrasado, fui falar sobre o 25 de Abril a uma escola secundária. Os telemóveis ganharam-me, mas não me golearam: havia quase metade da sala a acompanhar com alguma atenção o que eu ia dizendo.
Quando passámos à fase das perguntas, notei que havia um grupo pequeno que incentivava um dos seus elementos a tomar a palavra. Era um rapaz bem parecido, vestido com roupa de marca e claramente popular na escola. Levantou-se e disse: “Disse essas coisas todas sobre o 25 de Abril, então porque é que o País piorou tanto nos últimos 50 anos? Acha bem o PS e o PSD terem destruído o País?”
Quando os dirigentes do Chega têm essas declarações, querem conscientemente declarar que durante a ditadura salazarista estávamos melhor. Não me ocorre narrativa tão mentirosa e tão exploradora de ignorância, mas louve-se, ao menos, a franqueza
Percebi algumas coisas: o rapaz não tinha ouvido nada do que eu tinha dito e estava convicto da nova “verdade” criada pelas forças da extrema-direita. Achou-me um agente da extrema-esquerda, claro está.
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O slogan está instalado e André Ventura repete-o em todo o lado: nas redes sociais, quando é entrevistado e com o mais distinto descaramento na Assembleia da República: o País foi arruinado nos últimos 50 anos. “Olhamos para trás e o que nos trouxeram 50 anos de PS e PSD? Pobreza, corrupção e miséria” ou “se em 50 anos nada mudou, porquê continuar a confiar nos mesmos?”
Não há dados científicos suficientemente claros que permitam inequivocamente dizer que os últimos 50 anos foram aqueles em que mais portugueses viveram melhor. Mas desafio qualquer historiador a dizer-me em que época tantos viram a sua vida melhorar em termos de qualidade de vida, em termos económicos, de proteção social, de saúde, de educação, de habitação, de saneamento básico, de direitos políticos, de diminuição de corrupção, de igualdade, de diminuição de pobreza, de justiça para as minorias, de dignificação do papel das mulheres, de mobilidade social, de liberdade de imprensa, económica, de expressão e de tantos mais etceteras.
O Banco de Portugal fez a propósito dos seus 50 anos uma comparação muito resumida desse período, com dados bem estruturados e magníficas fotografias – há mais livros deste tipo e dados estatísticos de todas as formas e feitios. Basta consultar.
Deixo só alguns dados: a escolaridade média era de 4,3 anos, sendo que 26 em cada 100 pessoas não sabiam ler e apenas uma em cada 100 pessoas tinha o Ensino Superior completo, agora apenas três em 100 não sabem ler e 38 pessoas em 100 têm o Ensino Superior completo. Entre os mais jovens, a taxa de escolarização está no topo da União Europeia – é algo de extraordinário vindo de onde viemos.
Fez-se o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Havia 38 mortes por cada mil nascimentos, agora há 2,6 por os mesmos mil; a esperança de vida passou de 68 para 82 anos. Somos dos países com menores taxas de mortalidade infantil.
Lembro-me bem das barracas e da sua erradicação, agora 70% dos portugueses têm casa própria. Em 1974, 52 em cada 100 habitações não tinham água canalizada, agora há 0,6; havia 36 casas em 100 sem luz elétrica, agora 0,5.
Apoios sociais: criação do subsídio de desemprego, proteção à maternidade, subsídio social de desemprego, rendimento social de inserção, pensões de reforma, etc., etc.
Um terço das mulheres eram analfabetas e a escolaridade média das mulheres acima dos 19 anos era de um ano. Facto: eram pessoas de segunda categoria.
Não valerá a pena falar do resto. De democracia, de liberdades (económica, por exemplo), de censura, de PIDE, de mobilidade, de direitos face ao Estado, de direitos reprodutivos, etc., etc., etc.
Uma pequena nota sobre a corrupção. Ditadura e corrupção são sinónimos. Corrupção define-se pela obtenção de vantagens privadas prejudicando o bem comum. Uma ditadura mantém-se pela força para que um privado ou um conjunto de privados não tenham de prestar satisfações sobre o que fazem ao que devia ser de todos.
Aquele rapaz da escola secundária terá desculpa, é novo, não viveu o tempo que eu vivi, não viu o que este país mudou. Mas confesso que quando o ouvi senti uma enorme sensação de impotência. Disse estes dados e outros, mas ele e o grupo dele sorriam ironicamente. “Mentiroso”, ouvi eu.
Eu disse que podíamos ter feito melhor, mas arriscava dizer que era quase impossível ter feito melhor num País que era de analfabetos e que tinha tantas deficiências. Sim, ainda somos pobres e era normal que quiséssemos mais, mas não podíamos olhar para trás e dizer que não estávamos melhor.
Talvez a culpa seja da escola, dos pais, do meio em que vive, do desprezo que há pela História. Não faço ideia. Digamos que ele pode ter desculpa – não tem, mas pronto.
Já os da minha idade ou próxima que repetem a ladainha dos péssimos 50 anos não têm desculpa, não há ignorância que lhes valha.
Mas quem não tem mesmo desculpa são os indivíduos que andam com a conversa das cindo décadas desgraçadas sabendo que não é verdade e a reproduzem por motivos políticos torpes.
No entanto, até da mais profunda desonestidade alicerçada na mais desbragada mentira se pode aproveitar alguma coisa. Quando os dirigentes do Chega têm essas declarações, querem conscientemente declarar que durante a ditadura salazarista estávamos melhor. Não me ocorre narrativa tão mentirosa e tão exploradora de ignorância, mas louve-se, ao menos, a franqueza.
A minha angústia continua, porém: será que vamos a tempo? Será que a vitória da mentira é inevitável, como o foi tantas vezes ao longo da História?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
A filha mais velha dos príncipes de Hoenzhollern-Sigmaringen nasceu na casa de campo de Krauchenwies, a 15 de Julho de 1837, e teve como padrinhos o rei da Prússia e a sua avó, Stephanie Napoleão von Baden, de quem herdou o nome. Dois meses mais velha do que o seu futuro marido, é uma escolha da rainha Vitória e do príncipe Alberto que veem na princesa a mulher ideal para o brilhante e melancólico sobrinho de quem tanto gostam.
Esta série em vídeo e podcast, feita em parceria com a VISÃO, é também um incentivo a que faça as malas e vá conhecer estes lugares com os seus próprios olhos.
Uma sequóia de presente de casamento
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A rainha Vitória e o príncipe Alberto foram os artesãos do casamento de D. Pedro V e D. Estefânia. Sentiam uma enorme ternura e admiração pelo sobrinho e jovem rei que, logo após a morte de D. Maria II, passou uma larga temporada em Inglaterra, e percebiam a urgência de lhe encontrar uma mulher que o ajudasse a reinar e “agitasse” o seu temperamento melancólico. A primeira escolha recaiu sobre Carlota da Bélgica, que o recusou, e a segunda foi Estefânia de Hoenzhollern- Sigmaringen, o ramo católico da casa da Prússia, por quem a estima foi crescendo, sobretudo depois de a terem conhecido pessoalmente durante a sua passagem por Londres, a caminho de Lisboa.
Mas foi o presente de casamento de Vitória a Estefânia que nos levou a visitar Weinburg, uma localidade que agora se situa na Suíça e que era a “estância” de férias e o lugar favorito da jovem Estefânia, que recorda os meses que aqui passava com a família com infinita saudade.
Hoje, nos jardins da casa agora transformada em escola, está o presente de casamento que Vitória lhe ofereceu: uma sequoia, a maior árvore do mundo, na altura uma raridade vinda das américas, e que representava o seu desejo de que o amor entre os noivos não parasse de crescer. A árvore sobreviveu-lhes e continua a testemunhar a vida curta, mas extraordinária, desta princesa que se tornou rainha de Portugal.
Quando decidiu incluir a máquina de costura Oliva no seu livro O Estado Novo em 101 Objetos – Uma Montra da Ditadura Portuguesa (Lua de Papel, 632 págs., €23,31), Fernanda Cachão não teve dificuldade em encontrar uma para ser fotografada: bastou-lhe visitar à mãe, em Setúbal.
Durante muito tempo, a Oliva representou com frequência a única hipótese de trabalho das meninas. Não foi o caso de Dora, a mãe da jornalista e escritora, mas a máquina ainda resiste lá em casa, lembrando a todos uma época complicada a que ninguém quer voltar.
Fernanda Cachão tem 54 anos e passou os últimos cinco a pesquisar e a escrever um livro que traz o legado material do Estado Novo e é também o seu legado como mulher democrata, republicana e de esquerda. “Quis mostrar através de coisas concretas porque é que o Estado Novo era uma ditadura, como funcionava e por que razão não devemos gostar”, diz. “Essa foi a minha principal preocupação. E, no fim, pensei: ‘Olha, se não fizer mais nada, já fiz alguma coisa.’”
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Comecemos pelo fim: qual foi o último dos 101 objetos a entrar? Acabou por ser a máquina de costura Oliva da minha mãe. Inicialmente, não a via como um objeto do Estado Novo, porque uma máquina de costura é… uma máquina de costura, e eu já tinha escrito sobre marcas portuguesas que fabricavam artigos específicos para o nosso mercado. Mas o Estado Novo tinha a ver com a condição da mulher, e a costura, além de ter sido incentivada porque era uma atividade que o regime admitia como própria das meninas, também entronca na educação.
Ou na falta de. Sim, quando Salazar chegou ao poder, a população analfabeta em Portugal era enorme. Ele decidiu então avançar com a alfabetização e a construção de escolas, porque havia um movimento exterior nesse sentido e porque a educação também servia para educar as pessoas na ideologia do regime. Mas o alargamento para quatro anos da escolaridade obrigatória só chegou às meninas em 1960 e a máquina de costura representava a possibilidade de trabalho, sendo que era um trabalho em casa.
A Oliva acaba por ser explicativa da natureza do Estado Novo. E até numa história que achei curiosa: o empresário que a lançou esteve 16 anos à espera de autorização para a exportar, e isso mostra como a iniciativa privada tinha de estar enquadrada no regime.
O Pacheco Pereira, a propósito do arquivo Ephemera, já lembrou mais do que uma vez que os documentos também são objetos históricos. Ainda assim, a Fernanda não hesitou em escolher tantos papéis? De início, isso levantou-me algumas questões, sim, porque queria fazer um livro com objetos e tinha muitos papéis. Mas a verdade é que tivemos uma ditadura do papel. Havia muita legislação e papéis para tudo.
Exemplos? A ficha da PIDE, a licença para porte de isqueiro, os cartazes de propaganda ao regime, o decálogo [documento que resume os princípios basilares do regime, elaborado por António Ferro e difundido junto da população]… A repressão existia em cada momento da vida das pessoas.
Escolheu 101 objetos, mas podia ter escolhido mil? Ou 50? Cinquenta era curto ou então seria só papel, porque os objetos de papel são os mais incontornáveis. Mil talvez fosse um exagero, mas podiam ser muitos mais do que os 101. O regime de Salazar foi a ditadura mais longa da Europa Ocidental.
Quase 50 anos de ditadura e cinco para ter este livro pronto. Foi uma pesquisa difícil? Pesquisei muito, como é óbvio, mas o facto de ser jornalista ajudou-me a fazer a pesquisa de uma forma ágil e depois a ter uma abordagem que chega facilmente às pessoas. Não é um livro académico.
Passe o cliché, são histórias da História? É um livro de uma jornalista sobre um período histórico. Quis mostrar através dos objetos e das histórias que eles contam o que foi o Estado Novo e o que é viver em ditadura, coisa que tendencialmente as pessoas esquecem. Percebo se alguém mais velho diz “antigamente é que era bom”, porque está a recordar a felicidade de ser jovem, esquecendo as dificuldades por que passou. Mas não consigo perceber como, de uma forma geral, as novas gerações (e mesmo a minha) se vão esquecendo daquilo que é uma ditadura. O que Trump está a fazer nos Estados Unidos da América, ao tentar regular as universidades, proibir livros ou cortar financiamentos de organizações da sociedade civil, são medidas que todas as ditaduras fizeram, mas a generalidade das pessoas não para um segundo para pensar nisso.
Fez este livro com o objetivo de não deixar esquecer? Ou para lembrar? As duas coisas, como explico no prefácio, onde também digo por que razão não quis incluir objetos das ex-colónias. Refiro muitas vezes as colónias, mas os seus objetos fazem parte da História deles, não é a nossa. Quis abarcar alguns dos marcos da vida da ditadura em Portugal e mostrar por que razão ela não deve repetir-se.
Essa será a frase-chave: a ditadura não deve repetir-se. Há aspetos da vida do Estado Novo que, às vezes, até são caricatos e podem dar vontade de rir, mas não queria que o meu livro fosse um objeto fofinho e engraçado.
Desde logo, na capa, tem uma fotografia de crianças da Mocidade Portuguesa… … a fazerem a saudação fascista. Escolhi-a por causa do gesto, que era comum no início dos jogos de futebol e deixou de ser feito depois da II Guerra Mundial, quando o regime se alinhou com as democracias. É engraçado perceber a natureza das relações internacionais do Estado Novo, de acordo com os seus interesses.
O cinto da farda, com a letra “S”, tinha de ser um dos objetos, claro. O “S” era de servir ou de Salazar? Deixo isso em aberto, porque não encontrei escrito em lado nenhum que o “S” era de Salazar. Mas, evidentemente, mesmo que fosse oficialmente de servir, tinha o duplo sentido, não é?
Partiu dos objetos ou dos temas de que queria falar? Foi misto, mas havia coisas incontornáveis, como o decálogo do Estado Novo, no fundo a cartilha magna do salazarismo, que até foi replicado em pequenos cartões como aquele que escolhi incluir no livro.
E onde foi procurando os objetos? Comecei pela Torre do Tombo, como não podia deixar de ser, onde está, por exemplo, o processo do Álvaro Cunhal, que é maravilhoso. É o seu primeiro processo e tem a descrição dos interrogatórios da PIDE, a quantidade de vezes que entra e sai, aliás, permanecendo sempre além de todos os prazos – e isso era a ditadura. Depois, agarrei na sua biografia e fiz uma leitura paralela. Os pides tinham razão, o Cunhal tinha estado na Rússia, mentiu do princípio ao fim durante os interrogatórios. O que não está no relatório da PIDE é que foi barbaramente torturado. Juntando tudo, fiquei com um objeto que mostra bem o que era o Estado Novo.
Também andou por alfarrabistas? Na Feira da Ladra? Andei pelos mais variados sítios e tive grandes angústias e momentos de grande alegria, como ao encontrar a foto das chaves da António Maria Cardoso [sede da PIDE] que estava num livro publicado no pós-25 de Abril, quando se publicaram coisas de forma desbragada.
Há aspetos da vida do Estado Novo que, às vezes, até são caricatos e podem dar vontade de rir, mas não queria que o meu livro fosse fofinho e engraçado
Tinham sido décadas de censura, não admira. Por falar nisso, porquê um lápis bicolor na capa? As pessoas associam a censura só ao lápis azul, mas ela também foi feita pelo lápis vermelho e azul. Aliás, até vi coisas escritas a caneta. Gosto muito desse lápis porque mostra que há sempre os dois lados e que a História é mais complexa do que se apresenta à primeira vista.
Qual é o objeto mais antigo que escolheu? A Constituição de 1933, claro. E um dos mais recentes é uma coisa que achei maravilhosa, porque gosto muito do Chico Buarque: o processo de censura do Fado Tropical, de 1973, excelente para falar das músicas proibidas. Já tinha falado bastante sobre a censura à escrita e ao cinema, onde, aliás, encontrei uma coisa deliciosa: um frame do filme O Pátio das Cantigas em que aparecem uns miúdos a fugir à confusão numa carroça que tem escrito “Salazar” para mostrar que era um sítio seguro para as crianças [Risos].
Que maravilha, nunca reparei. Mas voltando ao Chico… Por causa do seu Fado Tropical, pude recuperar as listas de músicas censuradas durante o Estado Novo e também tive a oportunidade de falar um bocadinho do Brasil. Inicialmente, a canção foi censurada nos dois países, porque “tornar-se no imenso Portugal” era uma crítica às ditaduras e ao colonizador. Depois do 25 de Abril, ela continuava a não poder ser reproduzida no Brasil, porque [esse verso] era considerado subversivo e perigoso.
Em Portugal, a tentativa de controlar a cultura impressiona. A censura foi muito importante em tudo o que tinha a ver com criação, só se criava aquilo que o Estado deixava. Mas não podemos esquecer que a repressão também foi exercida pela população – as pessoas faziam-na por sua própria iniciativa, através das denúncias.
O livro traz algum relatório dos informadores da PIDE? Refiro os relatórios, mas não escolhi nenhum como objeto porque tinham saído recentemente dois livros sobre isso, da Irene Flunser Pimentel [Informadores da PIDE – Uma Tragédia Portuguesa] e do Duncan Simpson [“Tenho o Prazer de Informar o Senhor Director…” – Cartas de Portugueses à PIDE (1958-1968)].
Seria chover no molhado? Preferi falar no papel dos CTT na repressão, uma das minhas surpresas durante a pesquisa. Sabia que as encomendas eram abertas, sabia das escutas, mas não sabia que Salazar ajudou a fazer a Lei Orgânica dos CTT, pessoalmente, e que chegou a haver equipas da PIDE lá. Uso então uns selos do Almada Negreiros para escrever sobre o assunto.
O Almada teve uma relação complexa com o Estado Novo. Precisava de comer, mas não se calava. É dele, por exemplo, o cartaz a apelar para o voto na nova Constituição, um plebiscito falso, orquestrado, onde se lê: “Nós queremos um Estado forte! Votai a Nova Constituição.” Mas Almada redime-se quando faz os painéis das gares marítimas, em Alcântara, que lembram o [trabalho de Cândido] Portinari. Se virmos bem, representam gente pobre, imigrantes, saltimbancos, muito longe da propaganda oficial.
Os selos serão o objeto mais pequeno que escolheu. E o maior? É o carro de Salazar, o Chrysler Imperial blindado que foi encomendado depois do atentado de 1937. Após o atentado, Salazar muda-se do Campo Grande para o Palacete de São Bento, expulsando umas freiras espanholas [as Escravas do Sagrado Coração de Jesus], e são encomendados dois carros blindados (o outro é para Óscar Carmona, o Presidente). Este Chrysler há de ir parar ao Estabelecimento Prisional de Caxias, onde fica nas mãos do diretor, e em 1961 é utilizado para abalroar o portão na famosa fuga de oito presos políticos.
E, enquanto o carro estava em São Bento, Salazar usava-o muito? Ele era um homem peculiar, não fazia muitas coisas, era um chato, basicamente. [Risos] Nunca foi pessoa de viajar e então esse carro passa logo a ser mais usado pelo seu motorista para ir buscar pessoas.
Era possível fazer um livro sobre o Estado Novo só com um objeto? Não há um objeto que consiga explicar uma ditadura de quase 50 anos. Mas, entre as coisas palpáveis que podem exemplificar o que foi o Estado Novo, porque era um regime apoiado por uma extensa legislação em vários domínios da vida pública e privada, está o Diário do Governo. Usei-o para falar da proibição de as enfermeiras se casarem.
E as professoras primárias só podiam casar-se com autorização do ministro da Educação Nacional, que a concedia se o pretendente tivesse “bom comportamento moral e civil” e “vencimento ou rendimentos, documentalmente comprovados, em harmonia com os vencimentos da professora” – estou a citar a lei. Isso acontecia com montes de profissões. No caso das enfermeiras, como começou a haver filhos ilegítimos, a Igreja conseguiu fazer cair a proibição. Mas ela não foi efémera, como muitos pensam, e eu utilizei o decreto-lei que a estabeleceu para repescar algumas leis patetas do Estado Novo.
Como a do isqueiro? Essa tem direito a uma entrada no livro, que é mesmo uma licença para porte de isqueiro, onde explico como era uma medida protecionista pela simples razão de a fosforeira ser uma indústria nacional.
Passou-lhe pela cabeça este seu livro poder ser lido e apreciado por saudosistas? Passou e por isso tive cuidado enquanto estive a escrever. Para mim, os objetos nunca poderiam ter só uma legenda, mas também não queria que fosse uma coisa sectária, não queria contar as histórias com adjetivos que nunca mais acabavam. Tive uma abordagem jornalística, mostrando através de coisas concretas porque é que o Estado Novo era uma ditadura, como funcionava e porque não devemos gostar. Essa foi a minha principal preocupação. E, no fim, pensei: “Olha, se não fizer mais nada, já fiz alguma coisa.”
Para não esquecer, lá está. E para não se repetir. As pessoas hoje em dia não sabem muito bem o que é uma ditadura e desvalorizam o que é viver em ditadura, de uma forma geral, seja na do Estado Novo ou noutra qualquer. Nem têm a noção de que o Trump está a contaminar o resto do mundo e de que estamos a atravessar tempos perigosos. Mesmo as da minha geração, com pais que viveram em ditadura, tendem a esquecer o passado.
Em sua casa, falava-se de política ao jantar? Setúbal é uma região politizada e as minhas memórias de infância também são politizadas. Lembro-me das discussões em família, de andar às cavalitas do meu pai no primeiro 1º de Maio e de alusões ao que havia antigamente e a que não se queria voltar. Havia pobreza e bairros de lata em todo o lado. Não era bom viver em ditadura. Todo o esforço de construção da democracia desde o sítio de onde partimos teve influência naquilo que somos hoje.
O que se segue? O Estado Novo em 101 Objetos – vol. II? Não sei, mas apetece-me fazer coisas relacionadas, porque há falta de memória. As novas gerações não sabem nada de História, regra geral. Não há muitos miúdos no final da adolescência a saber quem foram Mário Soares, Álvaro Cunhal, Salazar ou Marcello Caetano. E isso é chocante porque é condição para serem manipulados.
(Entrevista publicada originalmente na VISÃO 1683)
O Senado prepara-se para aprovar, e Trump para assinar, no dia 4 de Julho, a «Big, Beautiful Bill» que prometeu em campanha e que representa a injeção de triliões de dólares na economia. Os apoiantes do movimento MAGA estão a favor, os democratas contra, e Elon Musk horrorizado.
Algumas estimativas apontam para um custo de 2,4 triliões de dólares, outras falam em 2,8, e há ainda dois institutos e comissões especializadas que garantem que o valor poderá facilmente atingir os 4 triliões – a acrescentar à dívida – ou mesmo a fabulosa soma de 5 triliões nos próximos 10 anos.
Musk está alarmado e acredita que a dívida americana, atualmente nos 35 triliões de dólares, poderá fazer implodir a estabilidade financeira dos EUA e, com isso, a do mundo. Trump recusa-se ouvir esses argumentos. Prometeu e quer cumprir, apesar da estratégia dos democratas no Senado, que estão a fazer tudo para atrasar a votação final. Conseguiram mesmo obrigar à leitura integral das 940 páginas da nova lei no plenário do Senado.
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Os triliões que Trump pretende injetar na economia deverão ter um impacto significativo na economia e nas infraestruturas do país, mexendo com todos os setores dos EUA. A verdade, apesar de Musk e dos democratas, é que o presidente americano disse o que ia fazer — ou o que queria fazer — e isso foi «referendado» nas eleições. Não cumprir, agora, seria um desastre político nas eleições intercalares de Novembro de 2026.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.