Um novo estudo publicado na Bio Arxiv concluiu que o cromossoma sexual animal mais antigo conhecido é de um ancestral do polvo, da lula e dos chocos, batendo o anterior recordista por, pelo menos, 70 milhões de anos. Mais: pode mesmo ser mais antigo do que o das plantas.
Em 2020, no âmbito do projeto internacional STURGEoNOMICS, liderado pelo Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca Interior (IGB), cientistas tinham descoberto que o cromossoma sexual animal mais antigo era o do esturjão, o que representou um avanço significativo para a biologia evolutiva. Os cientistas conseguiram rastrear um ancestral do esturjão, que viveu há 180 milhões de anos.
Os cromossomas sexuais desempenham um papel crucial na determinação do sexo e na herança de características genéticas relacionadas com o dimorfismo sexual. Na maioria dos mamíferos, incluindo os seres humanos, e em alguns insetos, o sistema de determinação sexual é geralmente composto por dois tipos de cromossomos sexuais, o cromossoma X e o cromossoma Y. Embora o sistema de determinação sexual nos mamíferos geralmente siga o padrão de XX para o sexo feminino e XY para o sexo masculino, existem variações cromossómicas que podem ocorrer, como a síndrome do triplo X (XXX) ou a síndrome de Klinefelter (XXY). Essas variações podem não ter qualquer efeito discernível, mas podem também levar a diferenças significativas no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional
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A diferença na constituição dos cromossomas sexuais resulta na expressão de características sexuais secundárias específicas de cada sexo. O cromossoma Y, em particular, carrega genes que determinam características sexuais masculinas, como a produção de testosterona. A herança desses cromossomas sexuais segue padrões genéticos específicos, incluindo a herança ligada ao sexo, onde certas características são mais comuns num sexo do que no outro devido à presença de genes específicos num dos cromossomas sexuais.
Durante muito tempo, os cientistas estiveram incertos sobre como os cefalópodes, os moluscos de corpo mole, como os polvos e as lulas, determinavam o seu sexo, se de facto também o faziam através de cormossomas. Os moluscos, devido à sua diversidade reprodutiva, apresentam uma variedade de estratégias de reprodução, incluindo hermafroditismo ou hermafroditismo sequencial, onde os indivíduos podem trocar de sexo ao longo do tempo. Enquanto os polvos são geralmente monoespecíficos em relação ao sexo, não estava claro para os cientistas se essa determinação era governada por fatores genéticos ou ambientais. Em certas espécies de répteis e peixes, por exemplo, o sexo da prole pode ser influenciado por fatores ambientais como a temperatura.
Segundo o novo estudo, os cefalópodes colóides – polvos, lulas e chocos – possuem uma variedade de características novas, incluindo um sistema nervoso que é o maior e o mais complexo do mundo dos invertebrados. Também, “ são uma linhagem profundamente divergente que partilhou pela última vez um antepassado comum com outras linhagens de moluscos existentes no período Cambriano, há cerca de 550 milhões de anos.” Segundo os investigadores, “Este é um tempo surpreendentemente longo para um cromossomo sexual ser preservado”.
Em 2015, os investigadores completaram a primeira sequência genética de ADN completa de um cefalópode, o polvo-de-duas-manchas-da-Califórnia (Octopus bimaculoides). Como a sequência ainda possuía lacunas, os investigadores do estudo liderados por Andrew Kern, biólogo da Universidade de Oregon, iniciaram um processo de preenchimento dessas lacunas por meio de um sequenciamento de alta fidelidade. Aperceberam-se de uma peculiaridade: o cromossoma 17 do polvo parecia menos preenchido com genes comparativamente aos outros cromossomas da sequência. Como os cientistas também tinham sequenciado um polvo de duas manchas fêmea, compraram os resultados encontrados com o do macho.
No caso do polvo macho, o cromossoma 17 não mostrava a mesma redução na densidade de genes observada na fêmea, sugerindo uma possível diferença na expressão genética entre os sexos. No caso do polvo macho, o cromossoma 17 não mostrava a mesma redução na densidade de genes observada na fêmea, levantando a hipótese de uma possível diferença na expressão genética entre os sexos, ou seja, que o cromossoma 17 era um cromossoma sexual do polvo.
Para confirmar esta hipótese, os investigadores sequenciaram mais quatro polvos – dois machos e duas fêmeas – e verificaram que o polvo possui uma ou duas cópias de cromossomo 17, dependendo do sexo (as fêmeas possuem apenas uma cópia do cromossoma 17, enquanto que os machos possuem duas). Os cromossomas sexuais do polvo não são como o dos humanos XY e XX – são ZZ e ZO.
Além disso, os investigadores identificaram a presença de vários genes nesse cromossoma, semelhantes aos genes que codificam proteínas nos tecidos reprodutivos humanos, como uma proteína encontrada no esperma. Noutros seres, como pássaros e borboletas, os machos geralmente têm dois cromossomos sexuais Z, enquanto as fêmeas possuem um cromossomo sexual Z e um cromossoma sexual W. No entanto, os investigadores não conseguiram encontrar um cromossoma W correspondente nas fêmeas de polvo o que também levou à hipótese dos cromossomas sexuais de os machos serem ZZ, enquanto as fêmeas têm cromossomas sexuais ZO, sendo que o “O” denota a falta do cromossoma W encontrado noutras espécies com sistemas de determinação sexual semelhantes.
O grupo de cientistas comparou então os genomas do polvo de duas manchas da Califórnia com genomas de três outras espécies de polvo, três espécies de lula e o náutilo-com-câmara – Nautilus pompilius – e encontraram o padrão de cromossomas sexuais ZZ e ZO nas espécies de polvo e de lula (mas não no náutilo, que é uma espécie relacionada mas mais afastada).
Esta última comparação entre espécies revelou que os cromossomas sexuais evoluíram depois da divisão entre a linhagem do nautilus e a linhagem que deu origem às lulas e aos polvos modernos. Isto significa que o cromossoma Z apareceu pela primeira vez entre 455 e 248 milhões de anos atrás durante esta divisão entre linhagens e que se manteve assim até hoje. Os dados deste novo estudo confirmaram assim que, tanto nos animais como nas plantas, os cefalópodes têm os cromossomas sexuais mais antigos.
O inquérito está a ser realizado pelo “Movimento Menos Ecrãs, Mais Vida”, que quis saber a opinião dos encarregados de educação com filhos a frequentar escolas que aderiram ao projeto-piloto Manuais Digitais.
“Temos mais de 200 inquéritos respondidos, envolvendo mais de nove agrupamentos de escolas em Coimbra, Lisboa, Ponte de Lima, Almada, Paço de Arcos, Ponta Delgada e até na Madeira. Apesar de os dados ainda serem preliminares, temos mais de 80% de pais descontentes, que querem que o projeto acabe”, disse à Lusa a mentora do projeto, Catarina Prado e Castro.
O inquérito é composto por oito perguntas relacionadas com o estudo e a aprendizagem no digital, questionando os pais sobre a potencial distração dos alunos devido ao uso constante da internet, mas também abordando questões de segurança na navegação na Internet, gastos suportados pelos encarregados de educação e grau de satisfação geral com o projeto.
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Catarina Prado e Castro tem dois filhos a estudar em Coimbra: O mais velho no 5.º ano e o outro no 3.º ano, na Escola Martim de Freitas. No início deste ano letivo, a mochila do mais novo passou a carregar um computador em vez de livros em papel. A posição dos pais de não dar um telemóvel aos filhos e de controlar o acesso a ecrãs acabou por ser atropelada pela escola.
“As famílias não podem optar por ter ou não acesso à Internet, sendo que muitos destes computadores não têm sequer restrição a conteúdos de adultos”, alertou.
O filho de Catarina Prado e Castro é um dos 23.159 alunos do 3.º ao 12.º anos que este ano estão a experimentar o projeto-piloto lançado pelo Ministério da Educação, que começou de forma gradual em 2020/2021 e hoje está a funcionar em cerca de 160 escolas.
No entanto, nem todos parecem entusiasmados com a novidade. “O descontentamento que sinto em relação ao projeto é partilhado pela maioria dos pais e professores com quem falo”, relatou à Lusa Catarina Prado e Castro, explicando que foi deste sentimento que surgiu a ideia de lançar um abaixo-assinado pelo regresso dos manuais em papel, que conta já com mais de duas mil assinaturas.
O tempo excessivo passado em frente ao computador, a sensação de não poder impedir o uso de ecrãs e o acesso a conteúdos impróprios foram algumas das razões que a levaram a lançar a petição.
“Não consigo dizer nada que corra bem neste projeto”, lamentou, apontando a dificuldade de concentração dos alunos no momento de estudar, referindo que o filho mais velho pode estar a trabalhar e ter ao mesmo tempo um jogo a correr.
Através do movimento “Menos ecrãs, mais vida”, do abaixo-assinado e agora do inquérito, Catarina percebeu que não estava sozinha nesta luta: “A grande maioria dos pais quer que o projeto acabe”, garantiu à Lusa.
Os resultados finais do inquérito serão conhecidos em breve, até porque a organização mantém o inquérito a correr numa página online – https://forms.gle/WHBGtdcehUkPryjE7 – e espera ter mais respostas e assim aumentar a amostra para divulgar acrescentou a mentora da iniciativa.
SIM // JMR
“O número de mortos é agora de 93”, declarou aquele comité em comunicado avisando já que “o número vai aumentar”.
O ataque a uma sala de espetáculos nos arredores de Moscovo foi reivindicado pelo Estado Islâmico (EI).
O último balanço dava conta da existência de 60 vítimas mortais, mas as autoridades já tinham alertado que o número poderia subir à medida que decorrem os trabalhos de busca e salvamento no local.
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Entre as vítimas mortais há pelo menos três crianças, segundo os dados oficiais.
As causas da morte são, de acordo com os investigadores russos, ferimentos de bala e intoxicação pelo fumo do incêndio provocado pelos terroristas.
Entretanto, o Serviço Federal de Segurança anunciou a detenção de 11 pessoas que estarão relacionadas com este atentado, incluindo quatro que estiveram pessoalmente envolvidas.
O EI, que já atacou a Rússia em várias ocasiões, afirmou na plataforma de mensagens Telegram que os combatentes do grupo “atacaram uma grande concentração (…) nos arredores da capital russa”.
A organização fundamentalista afirmou que o grupo de comandos tinha depois “regressado em segurança à base”.
O atentado, que os meios de comunicação social russos começaram a noticiar por volta das 20:15 de Moscovo (17:15 em Lisboa), foi levado a cabo por vários indivíduos armados na Crocus City Hall, uma sala de espetáculos situada em Krasnogorsk, nos arredores da capital russa, informou a AFP.
Jornalistas da agência de notícias viram o edifício mergulhado em chamas, nuvens de fumo negro a sair do telhado e uma enorme presença policial e dos serviços de emergência.
De acordo com a televisão russa, o telhado do edifício colapsou parcialmente. Não foi dada qualquer informação sobre o número de pessoas presas no interior da estrutura.
De acordo com a mesma fonte, a polícia intercetou um veículo em fuga perto da localidade de Jatsun, região de Briansk, a cerca de 340 quilómetros a sudoeste de Moscovo e no interior encontrou uma pistola, um carregador para uma arma de assalto e passaportes para o Tajiquistão, noticiou a agência russa TASS.
O veículo intercetado é um Renault branco, coincidente com a descrição inicial fornecida pelas autoridades sobre o carro em que os responsáveis pelo ataque à sala de espetáculos Crocus City Hall se puseram em fuga.
Imediatamente após o anúncio, o Ministério dos Negocios Estrangeiros tajique indicou que não tinha recebido “confirmação das autoridades russas” sobre a nacionalidade dos agressores e pediu à opinião pública que espere pela verificação oficial da identidade, segundo um comunicado divulgado na rede social Telegram.
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“Há que ter em conta que a difusão de informação não confirmada e pouco fiável pode prejudicar os cidadãos do Tajiquistão que se encontram atualmente fora do país”, sublinhou o Governo tajique.
O Kremlin anunciou 11 detenções, incluindo quatro alegados agressores.
O Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em inglês) deteve 11 pessoas relacionadas com o atentado à sala de concertos perto de Moscovo.
Entre os detidos encontram-se quatro terroristas que participaram pessoalmente no ataque, comunicou o diretor do FSB, Alexandr Bortnikov, ao Presidente russo, Vladimir Putin, referiu a agência de notícias.
Lúcia Pereira, 71 anos, e Estrela Pereira, 72 anos, são utentes do Centro Integrado de Apoio ao Idoso do Livramento e anualmente são desafiadas pela instituição para confecionarem as bonecas de massa, oferecidas pelos padrinhos e avós na Páscoa.
“Aprendi com a minha mãe. Ela fazia as bonecas e nós andávamos a passear com elas”, relata Lúcia Pereira, à agência Lusa.
Na cozinha do Centro de Apoio ao Idoso do Livramento, Lúcia Pereira assume a liderança da atividade, rodeada de alguidares com a massa previamente preparada.
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O forno já não é de lenha, como na sua infância. Mas, os ingredientes não mudam. E o segredo está na massa.
“Dois quilos de farinha, uma dúzia de ovos, meio quilo de açúcar, um copo de óleo, raspa de limão, manteiga e fermento”, descreve Lúcia Pereira, à reportagem da Lusa, dispondo lado a lado várias folhas de inhame (tubérculo) onde as bonecas serão moldadas e colocadas no forno elétrico.
Lúcia Pereira gostava que os mais novos tivessem interesse nesta tradição.
“Agora na padaria é tudo com máquinas. Ninguém quer fazer estas bonecas. Não têm paciência”, assinala.
E mesmo com netos já adultos, Lúcia Pereira faz questão de lhes oferecer pela Páscoa as bonecas de massa.
“Quem tem rapazinho leva um menino e quem tem raparigas leva uma menina”, explica, pincelando com ovo uma boneca pronta para ser colocada no forno.
Mesmo lado, Estrela prepara-se para decorar as bonecas, após a cozedura da massa.
“Antigamente colocávamos pedaços de tecido para decorar, ora uma saia ou a blusa. O ovo serve para fazer a cara. E desenhamos os olhos. Mas, há também quem coloque botões”, descreve Estrela Pereira.
A utente do Centro de Apoio ao Idoso conta que na sua juventude “eram poucos os recursos” e estas bonecas de massa eram também uma forma de entretenimento.
Filha de pai camponês e mãe doméstica, Estrela Pereira esperava pelo domingo de Páscoa para receber uma boneca.
“Enrolava a boneca num guardanapo branco, tipo uma manta, e depois andava a brincar com as vizinhas na rua”, recorda.
Estrela Pereira reconhece que os jovens da freguesia já não se interessam por esta tradição.
“Aqui no Livramento já pouca gente faz. Já quase ninguém quer aprender. Querem é tudo comprado. Ou querem brincar nos telemóveis”, lamenta.
Tal como Lúcia e Estrela, Isabel Moniz, 64 anos, funcionária do Centro, recorda com saudade as bonecas confecionadas pela mãe.
“A minha mãe fazia sempre duas massas. Uma para os bolos e a outra massa estava reservada para as bonecas. Tinha de ser uma massa mais dura”, explica Isabel Moniz, emocionada.
A funcionária, agora avó, garante que a massa das bonecos “era diferente” e até “especial”, pois “tinha um sabor inigualável”.
“Esta massa ficou sempre na minha memória”, sublinha.
Da mãe herdou também o gosto por cozinhar folares de Páscoa.
“Acho muito bem o centro recriar este hábito, porque a tradição acaba por morrer”, acrescenta.
Denise Cassis é a animadora e responsável no Centro de Apoio ao Idoso do Livramento.
À Lusa, Denise Cassis explica que desconhecia a tradição das bonecas de massa sovada, até ter iniciado funções no Centro.
“Quando vim trabalhar para aqui [Centro de Apoio ao Idoso], falaram-me nas bonecas. Achei interessante e pensei logo: não vamos deixar morrer a tradição. A dona Lúcia ensinou-nos a fazer as bonecas e já é uma tradição”, revela.
Segundo Denise Cassis, o objetivo da instituição “é procurar manter viva a tradição o mais possível”.
“Estamos no Centro durante o dia. Temos atividades programadas e esta [confeção de bonecas de massa] é sempre das primeiras que programo na Páscoa”, garante à Lusa.
*** Ana Cristina Pereira (texto), António Sá Rodrigues (vídeo) e Eduardo Costa (fotos), da agência Lusa ***
Através da rede social Telegram, o governador local, Viacheslav Gladkov, escreveu que “foi uma manhã difícil” devido a “ataques de drones em dois municípios” da região, num dos quais morreu um homem.
A outra vítima mortal foi registada na capital regional homónima na sequência dos ataques que se intensificaram na última semana e que danificaram vários edifícios residenciais, segundo o mesmo responsável.
Por sua vez, o Ministério da Defesa russo adiantou que abateu 11 mísseis Vampire e cinco drones sobre a região de Belgorod.
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Nos últimos dias, a Rússia tem relatado o abate de vários mísseis e drones e as autoridades daquele território fronteiriço anunciaram na terça-feira que planeiam deslocar cerca de 9.000 crianças para locais mais seguros.
Na semana passada, 16 habitantes desta região morreram e 98 ficaram feridos na consequência dos ataques ucranianos, denunciou o governador local.
Pouco tempo depois de os serviços secretos ucranianos terem acusado o Kremlin e os seus serviços secretos de orquestrarem o ataque mortal de sexta-feira à noite, perto de Moscovo, para culpar a Ucrânia e justificar uma “escalada” da guerra, conforme também noticiou a AFP, os extremistas do Estado Islâmico assumiram a responsabilidade.
“O ataque terrorista em Moscovo foi uma provocação planeada e deliberada pelos serviços secretos russos sob as ordens de (Vladimir) Putin. O seu objetivo é justificar ataques ainda mais duros contra a Ucrânia e a mobilização total na Rússia”, asseguraram os serviços de informação militar ucranianos (GUR), acrescentando que o ataque “deve ser entendido como uma ameaça de Putin para escalar e prolongar a guerra”.
O ataque armado, a que se seguiu um enorme incêndio numa sala de concertos nos arredores de Moscovo, provocou, pelo menos, 93 mortos e mais de 100 feridos. De acordo com o Ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko, 115 pessoas estão hospitalizadas, incluindo cinco crianças. Entre os feridos, sessenta adultos e um menor encontram-se em estado grave.
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O atentado foi levado a cabo por vários indivíduos armados na Crocus City Hall, uma sala de espetáculos situada em Krasnogorsk, nos arredores da capital russa, informou a AFP. Jornalistas da agência de notícias viram o edifício mergulhado em chamas, nuvens de fumo negro a sair do telhado e uma enorme presença policial e dos serviços de emergência. Segundo a televisão russa, o telhado do edifício colapsou parcialmente.
“Pouco antes de começar, ouvimos de repente várias rajadas de metralhadora e um grito terrível de mulher. Depois, muitos gritos”, disse à AFP Alexei, um produtor musical que estava no camarim no momento do ataque.
De acordo com um jornalista da agência de notícias estatal Ria Novosti, pessoas camufladas invadiram a sala de espetáculos antes de abrirem fogo e lançarem “uma granada ou uma bomba incendiária”.
O EI, que já atacou a Rússia em várias ocasiões, afirmou na plataforma de mensagens Telegram que os combatentes do grupo “atacaram uma grande concentração (…) nos arredores da capital russa”, após o que regressaram “em segurança à base”.
Antes disso, o ex-presidente russo, Dmitri Medvedev, advertiu que a Rússia “destruiria” os líderes ucranianos caso se confirmasse que eram os responsáveis pelo atentado. “Se for estabelecido que são terroristas do regime de Kiev… todos devem ser encontrados e destruídos impiedosamente como terroristas. Incluindo os líderes do Estado que cometeram tal atrocidade”, afirmou na rede Telegram Medvedev, também número dois do Conselho de Segurança Nacional e conhecido pelas suas declarações radicais.
com Lusa
Luis Macias Nieto acabara de regressar à Colômbia natal, depois de quase quatro anos fechado em prisões no estrangeiro. Aos 75 anos, acreditava ter entrado na tranquilidade de uma reforma dourada, após uma carreira ligada ao narcotráfico. Descrito como um homem “afável” e “emocionalmente inteligente”, El Doctor, como também é conhecido, reagiu com surpresa contida à ordem de prisão da polícia colombiana, que, numa manhã primaveril de maio de 2022, foi buscá-lo a casa para cumprir uma pena pendente, há mais de uma década, que os tribunais portugueses, a cerca de oito mil quilómetros de distância, decretaram. Macias Nieto era já um homem adulto quando Pablo Escobar, o grande “narco” daquele país, fizera tremer a Colômbia, apenas para escapar à extradição para os Estados Unidos da América (ver caixa O pesadelo de Pablo Escobar). Desta vez, era ele o visado.
“El Doctor” Esta é a única fotografia conhecida de Luis Macias Nieto, de 77 anos, um dos principais narcotraficantes colombianos
No passado dia 7 de março, quase 22 meses depois daquela detenção, três inspetores da Polícia Judiciária (PJ) regressavam a Lisboa com Macias Nieto algemado. Hoje, com 77 anos, aquele que é considerado um dos principais narcotraficantes da Colômbia vai cumprir em território nacional o resto da pena de 11 anos de prisão a que foi condenado no Tribunal de Almada pelo crime de tráfico de estupefacientes agravado. A pena seria mais tarde confirmada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, pelo Supremo Tribunal de Justiça e pelo Tribunal Constitucional.
A PJ mantém este homem discreto numa cela da prisão anexa ao edifício-sede da Rua Gomes Freire, em Lisboa. Na Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefaciente (UNCTE/PJ), o desfecho está a ser tratado como uma “vitória inquestionável” e “histórica”. Nas redes sociais, o Gabinete Nacional da Interpol, com sede na capital portuguesa, também classificou o momento como “uma decisão histórica”, por esta ser uma das raras vezes que a Colômbia permite que um dos seus cidadãos cumpra pena noutro país (além dos Estados Unidos da América).
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O agricultor de Huíla
Lucas Macias Nieto nasceu em fevereiro de 1947, em Baraya, um vilarejo com pouco mais de oito mil habitantes, situado nos vales da montanhosa região de Huíla, 350 quilómetros a sul da capital, Bogotá. Ao longo dos anos, este homem vestiu o fato de “pequeno comerciante”, com ligações ao setor da agricultura, tradicional naquela região.
Desconhece-se, para já, como e quando Macias Nieto entrou no universo do crime organizado. Sabe-se, porém, que rapidamente começou a subir degraus no negócio. A alcunha El Doctor – que também chegou a ser atribuída a Pablo Escobar – não tardou a entrar no radar das polícias internacionais, associada a um dos principais narcotraficantes da Colômbia, país que é o maior produtor de cocaína. Os sinais de enriquecimento surgiram naturalmente, ao ponto de este humilde agricultor de Huíla decidir comprar casa nas paradisíacas Antilhas Francesas, no mar das Caraíbas, para onde se mudaria de malas e bagagens na companhia de Helena, a mulher com quem se casou.
El Doctor foi detido na Costa da Caparica, em 2012. A PJ foi agora à Colômbia recuperar o narcotraficante, condenado a 11 anos de prisão
Macias Nieto era “um dos grandes”, comentava-se pelos corredores da Drug Enforcement Administration (DEA). A agência antidroga norte-americana passou a segui-lo, embora nunca apresentando bons resultados. “Ele [Luis Macias Nieto] permaneceu neste meio durante vários anos, décadas até, sem nunca ter sido apanhado”, diz, à VISÃO, fonte da PJ. Sinalizado pelas autoridades colombianas e norte-americanas, El Doctor atuou sempre com “máxima discrição”, como um autêntico “fantasma”, sem pegada digital nem rosto desconhecido, pelo menos até hoje. “Presumimos que Macias Nieto utilizasse, principalmente, a via marítima para transportar o produto estupefaciente [cocaína] para os Estados Unidos da América e Europa. Acreditamos tratar-se de um indivíduo que estava muito bem estabelecido neste universo [do tráfico internacional de droga], com um papel sempre muito ativo, sobretudo no branqueamento de capitais”, diz a mesma fonte.
Em julho de 2012, era chegado o momento. Portugal seria escolhido como palco. DEA, Interpol e PJ coordenaram esforços para apanhar o colombiano. O flagrante delito aconteceu numa estrada suburbana na Costa da Caparica, município de Almada. Macias Nieto não apresentou resistência. Era um homem idoso, calmo, de cabelo farto e grisalho. Os olhos, por trás de uns óculos de haste metálica, revelavam argúcia.
A detenção na Caparica
El Doctor tinha 65 anos em 2012. As autoridades acreditavam que ele continuava a controlar, a partir do território ultramarino francês de Saint-Martin, um cartel dedicado a transportar cocaína colombiana para os Estados Unidos da América e Europa. Portugal era porta de entrada para o Velho Continente. Faltava, no entanto, provar todas estas suspeitas. Macias Nieto tornara-se conhecido, precisamente, por não deixar “rasto” ou “pontas soltas”.
A DEA deu então um passo arriscado, montando um esquema paciente, que passava por introduzir um agente naquela organização. Durante um período não determinado, um homem da DEA aproximou-se e conviveu de (muito) perto com o narcotraficante colombiano, conquistando plenamente a sua confiança. “Ele [Macias Nieto] via esta pessoa [o agente da DEA] como um verdadeiro amigo”, conta, à VISÃO, fonte próxima da investigação. O papel deste infiltrado continua a motivar polémica, pois a defesa de Macias Nieto reclama que o agente atuou como “provocador do crime”, ferindo a legalidade da investigação, como defende, ainda hoje, o seu advogado português, Carlos Melo Alves (ver caixa O infiltrado americano).
O pesadelo de Pablo Escobar
O célebre narcotraficante fez mudar a Constituição para fugir à extradição
Foto: Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images
O cenário de extradição tornou-se o pior pesadelo de Pablo Escobar. O homem que dominou o narcotráfico, nas décadas de 80 e 90, viveu sobressaltado com a possibilidade de ser detido e extraditado para os Estados Unidos da América, que o apontavam como responsável por 80% da cocaína que, à época, chegava ao país. Em 1991, por entre uma onda de violência à bomba, o patrón do Cartel de Medellín conseguiu que o Congresso colombiano mudasse a Constituição, revogando o acordo de extradição entre Bogotá e Washington. Nestas circunstâncias, Escobar aceitou entregar-se às autoridades policiais, sob condições negociadas com o Presidente César Gaviria, para cumprir pena na penitenciária conhecida como “La Catedral”, construída pelo próprio. Pablo Escobar pôde instalar o quartel-general da sua organização naquele local, mas com a continuidade da atividade criminosa voltou a falar-se de… extradição. O célebre narcotraficante fugiu da prisão no ano seguinte. Num jogo do “gato e do rato”, seria abatido por uma unidade especial de polícia no final de 1993. Passados quatro anos, a Constituição colombiana voltou a autorizar extradições de “narcos”. Em 1999, o Presidente Andrés Pastrana deu “luz verde” a três extradições para os EUA, as primeiras pós-Pablo Escobar.
O crime de que se fala refere-se à introdução de 340 quilos de cocaína colombiana na Europa, via Portugal. Desta vez, DEA, Interpol e PJ conseguiram acompanhar a ação de Macias Nieto a par e passo: a droga foi adquirida na Colômbia e carregada de barco até alto-mar. Nesse local, foi feito o transbordo para um veleiro. A partir deste ponto, o estupefaciente seria levado novamente para terra, colocado num avião (em aeroporto não apurado) e, finalmente, transportado, via aérea, para Portugal. A droga ficaria guardada num barracão abandonado na zona de Casal Frade, concelho de Sesimbra. À época, a carga tinha um valor estimado de €10 milhões.
Em Portugal, e durante um mês, a PJ não perdeu de vista o narcotraficante colombiano. Ao seu lado, mantinha-se (também vigiado) o seu braço-direito, Edil Luna, outro cidadão colombiano. Entre os dias 27 e 31 de julho, intensificaram-se os movimentos e contactos. De Espanha, chegaram mais três homens – Alejandro Bedmar, Joaquin Torcuate e Joaquin Marcos –, cúmplices que teriam como tarefa auxiliar no transporte e na venda da cocaína para o mercado europeu. “Eram indivíduos com grande mobilidade. Não se limitavam a permanecer no mesmo sítio, transitavam entre Portugal e Espanha, alugando quartos em diversos hotéis. Isso dificultou a identificação e a localização dos indivíduos, que apenas comunicavam por chamadas feitas em cabines de telefone públicas”, recorda, à VISÃO, fonte da investigação.
No dia 31 de julho de 2012, a PJ deteve em flagrante delito Macias Nieto e os seus quatro cúmplices, quando estes circulavam junto ao parque de campismo do Inatel, na Costa da Caparica. El Doctor seguia numa carrinha pertencente a um concessionário de motas, com sede em Granada, Espanha. No interior do veículo, a polícia portuguesa encontrou 234,30 quilos de cocaína com elevado grau de pureza. Poucos minutos depois, no barracão na Margem Sul, já assinalado, a PJ encontrou mais 106,20 quilos daquele estupefaciente. Os espanhóis do grupo, que seguiam num veículo mais à frente, ainda tentaram uma fuga desesperada, abalroando cinco carros particulares que seguiam em sentido contrário. Macias Nieto manteve-se impávido, sem apresentar resistência.
Recursos, prazos e fuga
Sob Macias Nieto recaía um pedido de extradição para os Estados Unidos da América, mas agora era tempo de este homem enfrentar a Justiça portuguesa. O julgamento de El Doctor decorreu no Tribunal de Almada, com fortes medidas de segurança, incluindo dezenas de polícias e guardas prisionais, muitos dos quais acompanhados por cães à trela.
Em janeiro de 2014, o narcotraficante colombiano seria condenado a 11 anos de prisão pelo crime de tráfico de estupefacientes agravado. Passados cinco meses, a pena seria confirmada “integralmente” pelo Tribunal da Relação de Lisboa, decisão alvo de duras críticas por parte da defesa de Macias Nieto (ver caixa: O infiltrado americano). De recurso em recurso, os advogados do narcotraficante colombiano procuraram reverter esta decisão. O Supremo Tribunal de Justiça chegou a validar argumentações contra a sentença. Por diversas ocasiões, foi pedido ao então juiz-desembargador Rui Rangel – entretanto expulso da magistratura, em 2020 –, a quem tinha sido atribuído o processo na Relação de Lisboa, que fundamentasse “melhor” a decisão tomada. “Uma série de erros e atrasos da Justiça”, como chegou a descrever o advogado Melo Alves, arrastou o processo ao longo dos anos. Ultrapassado o prazo máximo da prisão preventiva de três anos e quatro meses, Macias Nieto acabaria por ser liberto da cadeia de alta segurança de Monsanto. Aproveitando a liberdade inesperada, El Doctor fugiu de Portugal, em abril de 2016.
Prisão Macias Nieto chegou a Portugal no dia 7 de março. Encontra-se preso numa cela na prisão anexa ao edifício-sede da PJ, em Lisboa Foto: Marcos Borga
O narcotraficante colombiano tentou, naturalmente, desaparecer, mas o cerco montado travou-lhe as intenções. As autoridades norte-americanas também não se tinham esquecido dele.
Macias Nieto seria localizado e detido em Espanha, na sequência de um mandado internacional de captura, emitido pelos Estados Unidos da América. Depois de 15 meses numa cela no país vizinho, El Doctor foi extraditado para os Estados Unidos da América, onde esteve preso por mais 33 meses, numa penitenciária de Porto Rico.
Dentro da cela espanhola, Macias Nieto ficara a saber que a sentença em Portugal tinha transitado em julgado (em janeiro de 2017). Quando estava em Porto Rico, perto de sair em liberdade, o Tribunal de Almada insistiu na sua detenção, junto das autoridades colombianas (em novembro de 2020). El Doctor não se preocupou muito, mas preferiu não arriscar. Com os dois pés na rua, correu para o conforto da sua Colômbia natal.
O regresso à prisão
Macias Nieto terá regressado à sua terra no início de 2022. Recordava-se da “guerra civil” na Colômbia, nos anos de 1980-1990, em que rebentavam bombas nas ruas das principais cidades do país, atentados atribuídos à organização do “narco” Pablo Escobar, que tudo fez para travar a extradição para os States (onde, provavelmente, enfrentaria prisão perpétua).
O advogado Melo Alves considera que o agente da DEA infiltrado “provocou o crime”, o que torna “ilegal” a operação que levou à detenção de Macias Nieto
Contudo, o “inimigo” agora era Portugal, um país pequeno, visto como pouco influente no quadro internacional. El Doctor havia feito o diagnóstico e este era-lhe favorável. Estava, portanto, “tranquilo”. Mas enganou-se. Contra todas as expectativas, a Colômbia deu “luz verde” ao pedido do Governo português para a detenção e extradição do narcotraficante colombiano. “O que aconteceu era, à partida, impensável. De facto, é surpreendente a Colômbia ter autorizado a extradição de um cidadão nacional para Portugal. É verdade que é algo previsto na lei, mas, regra geral, é coisa que não acontece”, confessa Melo Alves.
Num último suspiro, os representantes de Macias Nieto tentaram travar a extradição, alegando problemas ligados à idade avançada do condenado. Os que lhe são mais próximos falam de “sérios problemas de saúde, no coração e na próstata”, tratados com medicação e cuidados específicos. “Ele está muito debilitado”, confirma, à VISÃO, o advogado. Ninguém recuou.
Macias Nieto foi detido em maio de 2022, no âmbito das convenções multilaterais, em matéria de cooperação judicial das Nações Unidas, “contra o tráfico ilícito de estupefacientes e substâncias psicotrópicas” – acordo assinado pelos dois países, em Viena (1988). Em final de fevereiro deste ano, três inspetores da PJ foram autorizados a viajar para a Colômbia com a missão de irem buscar o fugitivo. No passado dia 7 de março, El Doctor voltava a pisar solo nacional para cumprir o que resta da sua pena.
O infiltrado americano
A defesa de Macias Nieto diz que agente da DEA “provocou” o crime. Melo Alves critica as decisões do ex-juiz Rui Rangel que confirmaram a condenação
A defesa de Luis Macias Nieto defende que o idoso colombiano, hoje com 77 anos, foi alvo de uma “cilada” em 2012, por parte da Drug Enforcement Administration (DEA), e que a Interpol e a Polícia Judiciária (PJ) apenas “alinharam” com o que a agência antidroga norte-americana “mandou fazer”.
À VISÃO, o advogado Carlos Melo Alves fala de um “crime provocado”, que, do seu ponto de vista, “deveria ter valido a absolvição” do cliente logo nesse ano. “A droga nem sequer existia. Foi a própria DEA a encomendar, comprar e transportar o estupefaciente. E foi a PJ que, já em Portugal, a armazenou”, acusa. Os 340 quilos de cocaína terão chegado às mãos de Macias Nieto (e de mais quatro cúmplices) já na Região da Grande Lisboa. “Não tenho dúvidas de que estamos perante uma ação encoberta ilegal”, refere.
As críticas mais duras são dirigidas ao ex-juiz-desembargador Rui Rangel. “Infelizmente, tivemos azar com o juiz [Rui Rangel] que nos calhou, que não sabia de direito penal nem se esforçou minimamente para avaliar devidamente a situação”, lamenta Melo Alves, que aponta o dedo às decisões do Tribunal da Relação de Lisboa – que confirmou a sentença da primeira instância (Tribunal de Almada). “A Relação [de Lisboa] fez disparates”, resume. A sentença que confirmou a condenação de Macias Nieto a 11 anos de prisão efetiva permanece envolta em polémica. O despacho está incluído naqueles que a acusação do processo Operação Lex considera não terem sido, de facto, redigidos por Rui Rangel – expulso da magistratura em 2020. Fonte próxima do processo conta à VISÃO que o despacho revela “justificações disparatadas”.
A defesa prefere, porém, outra via. Melo Alves confessa “não acreditar” que o processo Operação Lex se esclareça “em tempo útil”. O advogado de Macias Nieto aposta agora na libertação do cliente, quando metade da pena estiver cumprida (no início do próximo ano). “Ele é hoje um homem muito debilitado”, diz.
“Na próxima fase, com a ampliação, acho que Portugal vai integrar a lista de isenção de vistos [de entrada na China]. Para promover uma medida, uma política, é sempre necessário um processo gradual”, justificou o diplomata à agência Lusa, notando que os primeiros países na lista de Pequim “têm maior quantidade de intercâmbios pessoais e de negócios ou têm mais projetos de cooperação”, e logo maior necessidade de deslocações à China.
Esta é uma política implementada “de acordo com as necessidades reais”, frisou o dipomata.
Atualmente, desconhece-se a próxima data para rever os países isentos de vistos, mas Zhao Bentang garantiu que o relacionamento entre Portugal e a China “não tem problemas, nem obstáculos” e que foram implementadas várias medidas para facilitar a obtenção de vistos.
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Depois de conhecido o recente alargamento de isenção de vistos para estadias de até 15 dias, o embaixador português em Pequim, Paulo Nascimento, disse “não entender” o critério de deixar Portugal de fora.
O diplomata lembrou que a China está no direito de decidir a sua política de vistos de forma autónoma, mas admitiu que vai pedir uma consulta específica sobre esta decisão às autoridades do país.
“Não acredito que haja aqui discriminação negativa, no sentido de dizer que a China está a fazer isso para sinalizar alguma coisa a Portugal, não acho que seja esse o caso”, afirmou à Lusa.
Questionado pela Lusa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês defendeu que a China “sempre se mostrou aberta à expansão dos intercâmbios interpessoais com os países estrangeiros” e que está disposta a reforçar a comunicação com Lisboa para “aumentar a facilidade dos intercâmbios interpessoais bilaterais”.
Sobre a ausência de Portugal nos primeiros dois grupos de países europeus, o diplomata frisa que as escolhas tiveram por base a “frequência de intercâmbio interpessoal e comercial entre a China e esses países” e que “gradualmente (a lista) será cada vez mais aberta”.
Em entrevista à agência Lusa, Zhao Bentang fez questão de destacar os valores partilhados por Portugal e pela China, como o multilateralismo, economia mundial aberta, além dos “consensos e cooperação” em setores como desenvolvimento sustentável e combate às alterações climáticas.
“A parte chinesa gostaria de trabalhar com Portugal para, por um lado, aumentar o nível de relações bilaterais, e ao mesmo tempo enfrentar conjuntamente os grandes desafios e questões” para “dar mais certeza e energia positiva neste mundo de incertezas”, referiu.
Da parte chinesa, há ainda a garantia de querer continuar o trabalho para facilitar vistos, depois de se agilizar também as formas de pagamento no país.
“E também esperamos que os países estrangeiros possam oferecer medidas de facilitação ao povo chinês”, afirmou o diplomata, acrescentando que “depois da pandemia, a necessidade de intercâmbio pessoal e comercial tem aumentado”, pelo que são necessárias “políticas para oferecer conveniências e facilitações”.
“E agora, quando os amigos portugueses querem viajar ou fazer negócios na China, eu posso dizer que não existe nenhum obstáculo” quanto à obtenção de vistos para cidadãos de “um país amigo e parceiro estratégico”, afirma o diplomata.