A resposta à pergunta “gosta de ir, de vez em quando, até Lisboa e andar pelas ruas?” é um assertivo “não”. Depois, Ai Weiwei explica-se melhor: “Na cidade, há muita gente; no meu coração, gosto das pessoas todas, mas prefiro não ter de lidar com elas.”

É a escassos quilómetros de Montemor-o-Novo que o artista e ativista chinês, de 66 anos, passa a maior parte do seu tempo, numa grande casa branca com terreno. A calma não podia ser maior quando ali chegamos, numa manhã de sol. Antes de o encontrarmos sentado a uma mesa, no exterior, com vista para uma convidativa piscina e ao lado de uma gaiola com uma exuberante e colorida ave-do-paraíso, passámos por dois pachorrentos rafeiros alentejanos, que nos recebem sem ladrar, e por umas carpas que nadam em círculos num grande pote chinês transformado em aquário. O silêncio impera. Mas não muito longe ouve-se o ruído das obras no grande edifício que Ai Weiwei está a construir. “Será o meu último esforço arquitetónico, e vejo-o como arte conceptual”, diz. Será um atelier? Um espaço para exposições? Para que servirá? “Para nada.” Será, afinal, uma espécie de templo que nada venera. Quando, depois da entrevista, visitámos esse lugar – de 54 por 54 metros, com paredes de tijolo e um impressionante teto alto de madeira, com grandes traves que se entrecruzam e suportam sem que nenhum prego tenha sido utilizado –, arriscámos perguntar: “Se é uma obra de arte, que título tem?” Ai Weiwei pensa um pouco e parece improvisar a resposta: “House of fakeness”, algo como “casa da falsidade”. E sorri. Uma boa maneira de conhecer melhor a figura misteriosa por detrás desse leve sorriso é ler Zodíaco, uma novela gráfica acabada de lançar, em que o artista cruza a sua biografia e maneira de ver o mundo com as lendas dos 12 animais do zodíaco chinês.

Um templo para nada venerar Ai Weiwei improvisa poses para a fotografia no grande edifício/obra de arte que está a construir no seu terreno alentejano

Na novela gráfica Zodíaco, fala da sua paixão pela arquitetura e design e, a propósito, cita Wittgenstein, quando o filósofo diz que “os maus arquitetos tentam fazer sempre tudo o que é possível, enquanto os bons tentam eliminar possibilidades”. O que é que esta casa, no Alentejo, significa hoje para si?
Eu sou, sobretudo, um nómada. Cresci numa sociedade rural no Norte da China, onde fui forçado a viver com o meu pai [o poeta Ai Qing, perseguido pelo regime durante a Revolução Cultural maoista]. Não tenho um sentido de lar na minha vida, um sítio ao qual sinto que pertenço. Agora, tenho 66 anos e senti necessidade de encontrar um lugar para assentar. Esse lugar acabou por ser Portugal. Muitas vezes, perguntam-me “porquê Portugal?”, e eu respondo “não sei, tenho de descobrir”. Foi também por isso que criei aquela peça de arquitetura neste terreno, que não serve para nada, não tem um verdadeiro objetivo ou função. Construí-a para criar um problema e, ao criarmos um problema, procuramos uma solução para lidarmos com ele. Construir este edifício da forma como os antigos chineses o fariam foi criar um enorme problema. Em Portugal, Wittgenstein dizia também que o significado só vem com o uso. Se este edifício não vai ter uso nenhum, não tem sentido, significado. Mas não ter sentido já é, por si, um sentido… E acho que isso pode bem descrever a minha vida como artista.

Como imagina essa estrutura no futuro?
No futuro? Muito provavelmente, apodrecida. Podre.

Nesta novela gráfica, fala-se muitas vezes da sua perceção da arte. Tanto diz que é uma forma de “plantar sementes de pensamentos e reflexões” como afirma que ser artista é só uma questão de “atitude perante a realidade” e que “a arte é uma luta que travamos connosco”. Continua a acreditar no poder transformador da arte?
A arte é uma maneira de pensar e uma atitude perante a vida, sim. Nesse sentido, não parece ser muito poderosa. Mas qual é o seu efeito na sociedade? Ela parte de indivíduos, de emoções individuais, de julgamentos, do talento, para criar uma linguagem que comunica. A arte não é natural, não faz parte da Natureza; é sempre a nossa interpretação e expressão. E ela pode mudar-me profundamente. Por isso, para mim, também pode mudar o mundo. Quando está bom tempo, há sol e água suficiente; uma semente pode transformar-se noutra coisa. Mas há muitas sementes, a maior parte, que morrem e nunca se transformam em nada.

Já no seu livro anterior, 1000 Anos de Alegrias e Tristezas, o seu pai, o poeta Ai Qing, era uma presença muito importante, como agora em Zodíaco. Sente que tudo o que fez, as suas lutas e trabalho artístico, tem origem na relação com o seu pai?

Tudo começou com o meu pai, sim. Mas a minha relação com o meu pai não tem só que ver connosco, mas com a história da China ao longo de um século. Há uma herança, não só pelo lado da expressão artística, mas da luta em nome da justiça e da liberdade de expressão.

Continuou essa luta do seu pai?
Acho que sim. Tentei, e tento, lutar por esses valores essenciais.

O argumento da defesa da “liberdade de expressão” é muito usado hoje por forças que, sobretudo através das redes sociais, se sentem legitimadas para espalhar informações falsas e discursos de ódio… Como lidar com isso?
Não há uma só coisa a que se possa chamar “a verdade”. Não sei o que entende por “discurso de ódio”, mas, seja ele o que for, faz parte da nossa natureza como Humanidade, da realidade. É uma emoção que está lá, mesmo que não seja dita. Quando falamos de “liberdade de expressão”, não falamos só de discursos pacíficos, amorosos e admiráveis. Também passa por ouvirmos aquilo de que não gostamos e afirmar que tudo isso tem direito a existir. Se não for assim, não é verdadeira “liberdade de expressão”. Os mais diferentes modos de ver o mundo, opiniões e ideias têm de ser permitidos.

Porcelana e legos em Lisboa

Depois da grande exposição na Cordoaria Nacional em junho de 2021 (Rapture, uma das maiores retrospetivas de sempre da obra de Ai Weiwei), há agora a oportunidade de ver criações do artista chinês em Lisboa. Tudo começou por acaso, conta à VISÃO: “Ia a passar e vi porcelana chinesa numa montra.” A curiosidade foi suficiente para o fazer entrar na loja de antiguidades São Roque, na Rua de São Bento. Da conversa que então teve com o proprietário, Mário Roque, acabou por nascer a ideia de ali fazer uma exposição. E ela aí está: Paradigm pode ser vista na Galeria São Roque Too (R. de São Bento, 269) até 31 de julho, com 17 obras de arte. A maioria usa a porcelana como material (o que acontece em vários trabalhos do artista e, de certo modo, cria uma ponte com a cultura portuguesa), mas também é possível ver novos retratos, de 2022, feitos com legos (um deles representando o próprio Ai Weiwei).

Mesmo quando há um sistema de propaganda montado para influenciar as pessoas num certo sentido?
Mas quem vai definir o que é ou não uma “propaganda” aceitável? Quem fará esse julgamento? Os governos? Não devemos dar a ninguém o poder de decidir o que é certo ou errado. Cada um deve fazer os seus julgamentos e decidir o que considera certo e errado. Podemos ter de ver bastantes fake news, pressupostos errados, e, depois, tomamos as nossas decisões. Não deve ser o Facebook, o Twitter [rede que mudou o nome para X] ou o governo americano a decidir por nós. Isso, sim, seria uma mentira. Quando dizem “temos de controlar isto”, as perguntas que se impõem são: “Quem tem de controlar? E como?”. Entre qualquer censura e a total liberdade de expressão, defenderei sempre a liberdade de expressão, independentemente de qualquer argumento dos que querem controlar a informação.

Escreveu, certa vez, que “o Twitter é uma forma perfeita para a poesia”. Em que sentido?
É como uma terra onde todo o tipo de ervas e plantas pode crescer. Como uma feira da ladra, onde se encontra de tudo e onde podemos surpreender-nos, vendo isto e aquilo. Isso parece-me bastante poético.

Tão longe, tão perto A casa, com um terreno, perto de Montemor-o-Novo, funciona como um refúgio para Ai Weiwei. Mas o artista não está desligado do mundo

Já teve de lidar com várias proibições e censuras. Em novembro, a galeria Lisson, em Londres, cancelou uma exposição sua na sequência de uma publicação que escreveu na rede social X sobre as ligações entre Israel e os EUA. Não é fácil ser otimista olhando para o que se está a passar em várias partes do globo…
Todos nos sentimos tristes e sem esperança quando olhamos para situações tão graves. Mas quem podemos culpar? As coisas não acontecem de um momento para o outro… Israel tem recebido um grande apoio do governo americano ao longo dos anos. Porquê? Nos EUA, vemos hoje os jovens estudantes nas ruas, por todo o país, dizendo “não em meu nome”. Isso mostra que, nas gerações mais jovens, ainda há esperança. Cada nova geração tem obrigação de tentar fazer com que as coisas não piorem. E, na verdade, tudo podia estar a ser ainda pior. Podíamos estar a enfrentar uma guerra nuclear… Isso já aconteceu. Os EUA largaram duas bombas no Japão e mataram centenas de milhares de pessoas. Se ninguém protestar e questionar, sofremos as consequências por isso. Muitas vezes, sinto-me desesperançado, mas não podemos desistir de ter esperança, isso não nos vai ajudar nada. Temos de manter uma chama acesa, mesmo que seja muito pequena, como a de uma vela.

Falando do seu país, a China. Também se vê um movimento dos mais jovens a reclamar mais liberdade?
Há aí um problema. Usa-se muito o Ocidente como referência de um mundo com liberdade, em oposição à China, onde não há. Não estou de acordo com isso. Até em Gaza as pessoas têm a liberdade de pensar, de imaginar. Liberdade não é ter dinheiro para ir de férias a sítios com boas praias… A liberdade não é isso! Nesse sentido, há muita liberdade na China; até mais, de certa maneira, do que na Europa. Mas claro que não têm uma política que permita a liberdade de expressão de que falávamos. Isso tem que ver com diferentes estados no desenvolvimento de uma sociedade. Aqui, julgam que têm liberdade de expressão? Julian Assange está preso há cinco anos, Snowden está refugiado na Rússia… Têm liberdade para dizer muitas coisas que não são assim tão relevantes e para celebrar a vossa sociedade muito intelectual e corrompida.

Mas vê um movimento na China, atualmente? Em que direção?
Desde 1949, a sociedade chinesa mudou mais do que qualquer outra sociedade no mundo. Em boas e más direções. A forma mais realista e sintética de dizer para onde se move, hoje, a China é: para uma vida melhor. Mas não usamos a linguagem que se ouve, por exemplo, na América. Não dizemos “China first!” [“A China primeiro!”] nem “God bless China!”. Mas a China sente que tem o direito de se desenvolver e melhorar a vida da sociedade. Nos últimos 30 anos, o Ocidente tem-se aproveitado muito desse desenvolvimento chinês… Não é só a mão de obra barata, o Ocidente deu à China a responsabilidade de produzir coisas que outros países não quiseram produzir. Na competição com os EUA e o mundo ocidental, chegámos a um momento em que o Ocidente tem medo da China e lhe diz: “Não podem pertencer ao nosso clube.” Como também não permitem aos russos entrar no seu clube. Na NATO, por exemplo… Houve um momento em que a Rússia estava sinceramente interessada nisso, mas não lhe foi dada essa oportunidade. Porquê? Porque o Ocidente precisa de criar inimigos. Precisa de combater a Rússia, ou a China, para poder dominar. É esse o jogo, no meu modo de ver. Os EUA têm mais medo da China do que da Rússia. Acredito que a China vai ganhar poder, tem confiança e uma estratégia clara para não se sentir limitada ou assustada pelos EUA. A maioria dos chineses, hoje, não tem grandes ideologias, mas quer uma vida melhor para os seus filhos. O capitalismo de Estado da China pode ser muito eficaz. O poder chinês sabe que uma economia totalmente livre não lhe serve, beneficiaria as grandes empresas americanas. A China sabe que, se jogasse esse jogo, sairia a perder. Mudar as regras é o desafio, e não é fácil. Os EUA nunca o permitiriam, e a Europa basicamente segue os EUA. Não sei o que vai acontecer… Mas, em termos tecnológicos, a China está a desenvolver-se muito rapidamente, e é isso que assusta os EUA. Claro que, neste seu caminho de um capitalismo de Estado, a China sacrifica a cultura, a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão.

Tem saudades da China?
Não tenho nenhumas saudades da China. Mas tenho muitas saudades da possibilidade de usar a minha língua. Sendo um estrangeiro aqui, e noutros lugares, só consigo usar 20% do meu potencial e esforço de comunicação… Não sou um nativo do inglês, não sei dizer nada em português. É como se tivesse uma deficiência, vivendo aqui. E não gosto de me sentir assim, porque sou uma pessoa muito saudável e capaz. 

A sua arte, com uma linguagem universal, não permite superar essa limitação?
Sim, sou um privilegiado por causa disso. Mas, mesmo nesse aspeto, sinto-me limitado. Tem havido muitos cancelamentos. Acham que no Ocidente há liberdade de expressão? Vá lá, que piada… estão a brincar? Eu sou um artista, com direito às minhas opiniões.

Vida ilustrada

Na astrologia chinesa, Ai Weiwei, nascido a 28 de agosto de 1957, é do signo Galo. Se pudesse escolher, preferia ser Gato (mas esse animal nem sequer está representado no Zodíaco chinês, sendo o Coelho o que mais se lhe aproxima). Na novela gráfica Zodíaco (Objectiva, 184 págs., €19,95), aprende-se muito mais do que isso. Em 12 capítulos que correspondem aos 12 signos, revisitamos o percurso único do artista chinês, recordando até algumas das suas obras. Em vários quadradinhos, Ai surge em diálogo com o filho, Ai Lao (atualmente com 15 anos), falando-lhe da sua vida. Os desenhos são do italiano Gianluca Costantini e o texto contou com a colaboração da greco-italiana Elettra Stamboulis.

Palavras-chave:

São eles que anunciam o verão. Não sei doutra glória, doutro paraíso: à sua entrada os jacarandás estão em flor, um de cada lado. 
Eugénio de Andrade

Desde há algum tempo que estou em S. Paulo, com funções de direção académica do Ensino Lusófona no Brasil. Viajei de Lisboa até essa cidade de nome encontrado no meu homónimo fundador do Cristianismo, com o desejo de dar um contributo para um projeto universitário que seja significativo nas regiões onde está implantado (S. Paulo, Rio de Janeiro e Bahia).

A unir esta viagem, tenho os jacarandás, árvore da chamada Mata Atlântica brasileira, com nome cunhado no tupi-guarani. De um lado do oceano, em Lisboa, esta árvore, trazida do continente americano por Félix de Avelar Brotero (1744-1828), floresce essencialmente em maio, mas tem também, em outubro, um leve florescimento, resultado de uma “memória” ancestral mantida no seu ADN que, em Lisboa, no outono, faz florir estas árvores quando no seu originário Brasil a primavera surge. Guilherme d’Oliveira Martins recordava-nos há algum tempo, num artigo no Diário de Notícias, este fenómeno ímpar do duplo florescimento dos jacarandás de Lisboa: um, acompanhando o ciclo vegetativo do local onde estão, e outro, indo ao encontro da origem assim não esquecida.

É curiosa a forma como tudo nos coloca questões e como podemos construir símbolos e hermenêuticas com alguma facilidade quando parece que nos sussurram algo a que devemos dar alguma atenção. Tal como uma flor é de “estação”, também uma leitura é de um momento, tendo sentido nesse contexto. Mas pode ganhar sementes, extravasar, tal como uma flor ou a mancha azul dos jacarandás.

Possível metáfora da Lusofonia, o jacarandá é pleno de sentidos neste seu florir nas duas costas do Atlântico. Vivificando a primaveril Lisboa, estas árvores não esqueceram a flor que davam nas américas, relembrando-nos, também a nós, que o fechamento no pequeno retângulo europeu nada mais é que esquecimento de nós mesmos. Tal como o jacarandá que floresce também no outono, dizendo-nos que a vários milhares de quilómetros é primavera, também a nós é merecida essa vontade de fazer mais, de fazer sempre primavera.

É um ciclo interessante o dos jacarandás, que das florestas frondosas do Brasil vieram para a Europa, transformando-se em árvores de jardim, em alindamento de praças e de ruas, dando um tom forte ao espaço urbano, um pouco de floresta, regrada e domesticada, no meio da selva de betão e tijolo.

Não apenas a metáfora se enriquece com a passagem desta árvore da floresta para a cidade, do estar integrada num ecossistema para o viver fora de qualquer relação com outro grupo de árvores, como, essa violenta transição, na sua radical mudança para a urbe, ficou marcada por essa memória que, ano após ano, religa o exilado e domesticado jacarandá de Lisboa aos naturais, livres do Brasil. A mudança, afinal, permite o espaço mental da memória, mesmo quando o que muda é tudo: continente, clima, estações do ano, integração em ecossistema e paisagem. E, contudo, elas florescem em outubro, seja na primaveril S. Paulo, seja na outonal Lisboa.

Não é de migrações que estou a falar nas entrelinhas desta imagem. É de cooperação, de ajuda e de crescimento mútuo. Nem, sequer, me refiro aos hibridismos culturais pós-modernos que tanto incomodam quem julga que uma identidade é estática.

O jacarandá será, porventura, a imagem de uma Lusofonia sem traumas, que atravessa mares, hoje, já muito navegados, e que se coloca acima das especificidades e dos ecossistemas locais, mostrando-nos que há mais primaveras, mesmo quando parece ser outono.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro. É uma frase feita e que deveria ser levada à letra. No entanto, num País que viveu amordaçado 48 anos (ainda que isso tenha sido há 50), quando o tema é “liberdade de expressão” o caldo entorna-se. Entorna-se e dá origem a situações como aquela a que assistimos esta semana em plena Assembleia da República, quando o seu presidente disse recusar-se a ser censor e limitador da liberdade de expressão dos deputados. Dito assim concordo a 100% com a segunda figura do Estado. Valha-nos os deuses se Aguiar Branco ousar ser castrador da linguagem dos Senhores Deputados!

Mas, e há sempre um mas, a situação – ou melhor, a frase! – merece uma análise mais “fina”. É que o caldo entornado decorre de uma intervenção do líder do Chega em que, ao questionar sobre os dez anos previstos para a construção do novo aeroporto, afirmou: “O aeroporto de Istambul – os turcos não são propriamente conhecidos por serem o povo mais trabalhador do mundo – foi construído e operacionalizado em cinco anos”.

Com a esquerda parlamentar a levantar-se indignada perante tal frase, o assunto deixou imediatamente de ser o novo aeroporto – o tal de que se fala desde que ainda eu não era nascido – para passar a ser raça, etnia, preguiça, burrice, racismo, pedido de desculpa aos legais representantes do povo turco, entre outros pontos decorrentes da frase.

A liberdade de expressão não pode exceder os limites da lei. Mas, onde fica ou está aqui a lei?
Augusto Santos Silva, antecessor de Aguiar Branco, foi criticado por ser censor. Aguiar Branco está a ser criticado por ser brando. No entanto, entre os apupos dos grupos parlamentares à segunda figura do Estado, recordou que a liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada e que a avaliação do discurso político é feita pelo povo, em eleições. Povo que recentemente foi às urnas.

A liberdade de expressão não pode exceder os limites da lei. No entanto, o que a mim mais me incomoda é que o líder do Chega passou um atestado de “obras de Santa Engrácia” (para não dizer de lentidão) aos portugueses que necessitam de 10 anos para construir um aeroporto, enquanto os turcos necessitaram de metade do tempo para fazer igual. Olhando de fora para os 230 deputados que representam os portugueses começa já a ser confrangedor estarem sempre a olhar para fora em vez de zelar pelo que vai dentro deste retângulo à beira-mar. Começa a ser vergonhoso ter quase metade dos eleitos pelos cidadãos portugueses a olharem por tribos e para tribos em vez de levantarem os olhos para o País.

Não chega gritar “contra os canhões, marchar, marchar”. É necessário marcar.

O resumo do dia é que o ponto importante não é o comentário de Ventura sobre os turcos, a comparação foi só de mau gosto, mas verdadeira na sua génese. Precisamos do dobro do tempo para construir um aeroporto. E na Índia como seria?

E Aguiar Branco podia refletir um pouco na resposta que deu a Alexandra Leitão e vir dizer que não vale tudo dentro daquele espaço, que tem que ser um exemplo de cidadania, e que quando entender que algum deputado ultrapassa os limites da lei, o interrompe e chama à razão.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Ann Pizzorusso, uma geóloga e historiadora da arte renascentista, acredita ter desvendado o mistério por detrás do cenário de uma das mais famosas obras de arte do mundo. A especialista acredita que a famosa paisagem por detrás da figura de uma mulher em Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, pertence à Lecco – uma pequena cidade nas margens do Lago Como localizada na região da Lombardia – no norte de Itália. A geóloga acredita que a combinação entre ambas as áreas de especialidade que domina foram determinantes para a descoberta.

Até agora, várias cidades tinham sido apontadas como o local de inspiração de Da Vinci para pintar o quadro que se encontra exposto no famoso museu francês do Louvre. Há décadas que os historiadores de arte têm alimentado o debate sobre o possível local que serve enquanto plano de fundo para La Gioconda, com várias teorias sobre a sua possível localização e, até com muitos académicos a considerarem a paisagem, simplesmente, imaginária.

Segundo Ann Pizzorusso, a ponte, a cadeia de montanhas e o lago representados no fundo da pintura correspondem à cidade de Lecco. A ponte em arco que surge no canto superior direito será uma representação idêntica à Ponte Azzone Visconti, construída ainda no século XIV. Para além disso, serão ainda visíveis as montanhas dos Alpes, no fundo da pintura, bem como o lago Garlate, que Da Vinci terá visitado. “Quando se olha para a Mona Lisa, vê-se esta parte do rio Adda e vê-se outro lago [Garlate] por detrás, que são perfeitamente visíveis por baixo destas montanhas em forma de dente de serra” explicou Pizzorusso em declarações ao The Guardian.

A geóloga baseia ainda as suas descobertas na geologia, ao revelar que as formações rochosas presentes em Lecco são de formação calcária, o que corresponde ao representado na paisagem através da utilização de cores branco-acinzentadas. “A ponte em arco era omnipresente em Itália e na Europa e muitas eram muito semelhantes. É impossível identificar um local exato apenas a partir de uma ponte. Todos falam da ponte e ninguém fala da geologia”, explicou.

Para a sua investigação Pizzorusso visitou a cidade de Lecco, observando alguns dos locais nos quais se pensa que Leonardo da Vinci poderá ter vivido. “Sabemos pelos seus cadernos de notas que ele passou muito tempo a explorar a zona de Lecco e o território mais a norte”, referiu.

As descobertas de Pizzorusso têm sido bem recebidas por outros historiadores de arte. “Não duvido nem por um segundo que Pizzorusso tenha razão na sua teoria, dado o seu perfeito conhecimento da geologia do país italiano – e mais precisamente dos locais onde Leonardo viajou durante a sua vida, que poderiam corresponder à paisagem montanhosa da Mona Lisa”, contou Jacques Franck, um antigo consultor do museu Louvre.

Desde que Marjane Satrapi adaptou ao cinema a sua novela gráfica Persépolis (2007), parece que o Médio Oriente e as questões políticas e morais em volta dos países muçulmanos se tornaram um dos temas prediletos do cinema de animação autoral para adultos. Assim aconteceu, recentemente, em Flee (2021), que foi nomeado para os Oscars. Assim acontece neste A Minha Família Afegã, inspirada incursão de Michaela Pavlátová, uma das mais notáveis herdeiras da longa tradição checa em cinema de animação.  

A animação não poupa recursos financeiros, mas permite recriar universos e filmar o invisível, removendo as barreiras que a imagem real impõe. Só assim A Minha Família Afegã consegue este equilíbrio, não abdicando de um fundo realista, uma vez que o tema, em si, está apegado a uma realidade concreta, ao mesmo tempo que é imaginativo, para reforçar ideias, personagens e sentimentos. 

Não se trata de uma história sobre as noivas do Daesh, mas de algo porventura ainda mais complexo. Na base está uma história de amor: uma checa apaixona-se por um afegão e o casal dispõe-se a ir viver para Cabul, adaptando-se às normas sociais, machistas e misóginas da sociedade afegã. Uma experiência pesada, mesmo situando-se o filme no Afeganistão anterior ao regresso dos talibãs, quando a presença dos americanos ainda era marcante e influente. 

A Minha Família Afegã começa, pois, por ser um filme de amor. Mas quase pode funcionar como um caso sociológico, em que se demonstra como o ambiente social é capaz de condicionar a forma de estar e até o pensamento dos indivíduos. Um filme feito de uma animação desenhada em moldes tradicionais, quase ao estilo franco-belga, de cores fortes, mas sempre com preceito e uma certa beleza, e um argumento construído com profundidade e rigor.

Herra é a protagonista, suficientemente intrigante, mas a grande personagem é Maad, uma criança muito especial, que só poderia ser filha do cinema animado.

O filme de animação venceu o prémio de Melhor Filme no festival internacional de animação Annecy Film Festival (2021) e o de Melhor Filme de Animação nos Prémios Cesar em França (2023)

A Minha Família Afegã > De Michaela Pavlátová, com Zuzana Stivínová, Shahid Maqsoodi e Shamla Maqsoodi (vozes) > 85 min 

Ingredientes

Para o bolo

6 bananas

120g de açúcar amarelo

80g de óleo de girassol

230g de farinha de trigo

10g de fermento em pó

80g de avelãs em pedaços

1 pitada sal

Para a cobertura

400g de chocolate negro derretido

70g de óleo de girassol

Modo de preparação

Numa taça, esmague 6 bananas com um garfo até formar uma pasta.

Adicione 120g de açúcar amarelo e misture bem com a ajuda das varas de arames.

Junte 80g de óleo de girassol e misture novamente.

Acrescente 230g de farinha de trigo e 10g de fermento em pó e envolva apenas até obter uma mistura homogénea.

Incorpore 80g de avelãs e uma pitada de sal.

Verta para uma forma do tipo bolo inglês previamente untada com manteiga e farinha e leve ao forno a 165°C durante 35 a 40 minutos, aproximadamente. Deixe arrefecer completamente.

Para a cobertura, misture 70g de óleo de girassol em 400g de chocolate negro derretido.

Verta a cobertura sobre o bolo, em cima de uma grelha para escorrer o excesso.

Pode servir de imediato ou levar ao frio uns minutos para o chocolate solidificar.

Esta receita foi apresentada num episódio especial do programa Os Segredos da Tia Cátia, no canal 24Kitchen. Neste episódio, emitido nesta sexta, 17, Cátia Goarmon e Francisco Moreira prepararam, a quatro mãos, três receitas doces para o Dia Mundial da Pastelaria.

“Temos de pagar os custos. Há ações que não foram punidas e responsáveis que não foram presos? Há bens que foram saqueados e que não foram devolvidos? Vamos ver como podemos reparar isso.”

Pagar. Devolver. Reparar. Em poucos segundos, Marcelo Rebelo de Sousa incendiou meio País. A condenação às declarações do Presidente da República, num jantar a 23 de abril com jornalistas estrangeiros, foi ruidosa, sobretudo à direita.

Três dias depois, Marcelo tentou justificar-se, mas não recuou. Portugal tem “a obrigação de liderar” o processo de reparações, disse, durante a inauguração do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, em Peniche. Mas isso não significa necessariamente pagar alguma coisa a alguém. “A reparação é pagar uma indemnização? Não, é uma realidade que já começou há 50 anos”, continuou, dando como exemplos o perdão da dívida a países colonizados e o estatuto de mobilidade a cidadãos dos países de língua oficial portuguesa.

Um legado pesado Os portugueses foram responsáveis por cerca de metade de todo o tráfico transatlântico de escravos
Foto: GettyImages

A insistência levou a novas indignações, com o Chega a anunciar, na semana passada, o recurso à bomba atómica: um processo a Marcelo por “traição à pátria”, encetado na Assembleia da República pelo recurso ao Artigo 130º da Constituição, com vista à sua destituição. Bomba que se revelou um foguetório, já que se sabia que teria chumbo garantido, o que se confirmou, quando todos os deputados dos outros partidos votaram contra.

Assente a poeira, para lá da polémica e da espuma das indignações, o que ficou? Uma mão-cheia de nada e um debate por fazer, dizem-nos investigadores, historiadores e pessoas que lutam pelos direitos da comunidade negra em Portugal.

Identidade nacional em xeque

Há quatro anos, Joacine Katar Moreira apresentou a proposta Descolonização do Conhecimento, na qual se previa a restituição às ex-colónias de património cultural (o que constava do programa do Livre). A proposta chumbou, apesar de uma maioria de esquerda, e a deputada acabou por ser vítima de ataques virulentos por se atrever a levantar a questão, com André Ventura a propor mesmo que a deputada fosse “devolvida ao seu país de origem”.

“O colonialismo foi um projeto político e ideológico, e tem de ser desmantelado política e ideologicamente. A minha ideia era abrir a discussão para a necessidade de se descolonizar o imaginário colonial”, recorda Joacine Katar Moreira. “Não eram propostas minimamente radicais. Falavam da criação de um grupo de trabalho para se dar início ao debate e da inventariação do espólio oriundo das colónias. E foram rejeitadas, note-se, num quadro de maioria de esquerda.”

A somar à “reação visceral de todas as alas políticas”, a historiadora e ativista sublinha a posição de intelectuais, “que até concordavam com a ideia de restituição e reparação, mas diziam não ser aquele o momento nem a forma indicados”. “Qual é o momento e a forma, então? Sim, é uma discussão desconfortável, e tem de o ser, para ser desmantelada. A desumanização do colonialismo tem de ser algo que nos desconforta.”

Esta resistência da sociedade portuguesa em reconhecer o lado negativo da sua História está enraizada na própria identidade do povo, diz Joacine Katar Moreira. “A identidade nacional assenta na ideia de um passado glorioso, que por sua vez é oriunda da maneira como a História colonial é ensinada: uma História maravilhosa, sempre na ótica da heroicização do povo, omitindo e tornando invisível toda a violência. Daí que, quando alguém diz que é necessário refletir e reconhecer os erros do nosso passado colonial, as pessoas respondam imediatamente que não têm nada de que se envergonhar.”

José Pedro Monteiro, especialista no período imperial e colonial, diz que a investigação científica desenvolvida em Portugal fez aumentar muito o conhecimento sobre o colonialismo, mas os debates públicos continuam a estar presos em “estribilhos e dicotomias, com formas de debater e factos que não refletem o conhecimento disponível”. “A discussão continua no ‘Não vamos reparar o que aconteceu há cinco séculos’. Mas há imensa gente ainda viva que passou pela realidade do colonialismo português.”

Além disso, adianta o historiador, não faz sentido continuarmos a debater a História no espaço público com a mesma abordagem do século XIX. “As sociedades evoluíram. A ideia do Estado Social é corrigir desigualdades, de modo que a sorte e o azar não sejam os únicos determinantes das histórias individuais. E nós hoje conseguimos rastrear os efeitos do colonialismo e o modo como o passado violento marcou as sociedades contemporâneas. É óbvio que não podemos olhar para o passado com olhos do presente, mas podemos pensar se, de facto, queremos uma postura diferente da que tivemos.”

Não é uma questão de dinheiro

Ana Cristina Pereira, investigadora em Ciências Sociais, defende que a narrativa gloriosa dos Descobrimentos não é falsa, mas é “muito incompleta”, e que “o passado não fica no passado”. “Não somos outra coisa senão a nossa História. É preciso olhar para ela por forma a saber para onde queremos ir. Não precisamos de ter vergonha ou de rejeitar a História, mas temos de perceber que também foi uma História de abuso.” E lembra que Portugal ganhou muito com a violência e a opressão. Falta saber exatamente quanto. “Grande parte das instituições que ainda hoje perduram foi fundada com dinheiro proveniente da escravatura e do colonialismo. Não foi todo gasto em sedas e em especiarias. Este tema ainda não está aprofundado. Nos EUA, sabe-se de onde veio o dinheiro para fundar as instituições, as universidades.”

A investigadora coordenou o projeto Oficina de Reparações, um workshop com académicos e ativistas, que redundou na Declaração do Porto, em julho do ano passado, com uma proposta de 18 medidas de reparação. Entre elas, encontram-se o reconhecimento de crimes, o perdão das dívidas das “províncias ultramarinas” e a restituição de obras de arte, mas também várias iniciativas para apoiar os descendentes dos colonizados em Portugal, como políticas contra a desigualdade racial (incluindo quotas) e a criminalização do racismo, além da eliminação de propinas para alunos oriundos dos países colonizados. “Receber alunos das ex-colónias nas nossas universidades, sem que tenham de pagar propinas, seria uma belíssima maneira de reparação, porque os antepassados deles ajudaram a criar riqueza sem receberem os benefícios”, sustenta.

O benemérito…. esclavagista

A primeira rede de escolas primárias em Portugal foi paga pelo Conde de Ferreira, que fez fortuna a traficar pessoas escravizadas

Joaquim Ferreira dos Santos emigrou para o Brasil em 1800 e fez uma fortuna no tráfico transatlântico de escravos. Em 1832, fugiu para Portugal, ao ser apanhado a traficar pessoas ilegalmente (o Brasil baniu o tráfico em 1830). Em 1866, já conde, morreu sem descendentes, tendo deixado a imensa herança à Santa Casa, com instruções para construir um hospital psiquiátrico no Porto e 120 escolas primárias em todo o País. “Foi a primeira rede escolar em Portugal. Revolucionou socialmente gerações de pessoas e teve um enorme impacto no País”, diz Nuno Coelho, investigador-principal de um projeto sobre o Conde de Ferreira.

Ainda hoje, o antigo esclavagista dá o nome a dezenas de escolas e de ruas. “Esse lado foi invisibilizado, mas não podemos falar dele como benemérito sem explicar a origem do dinheiro.” Nuno Coelho sublinha ainda que o caso do Conde de Ferreira pode servir para ajudar a calcular quanto Portugal ganhou com o esclavagismo. “Ele foi responsável pelo tráfico de dez mil pessoas, o que representa 0,17% do total. Onde está o fruto dos restantes 99,87%? Que famílias têm ainda hoje dinheiro ganho dessa forma?”

Há ainda processos de autorreparação que envolvem o espaço público. “Não estou a falar de destruir monumentos ou de deitar abaixo estátuas, mas de erguer outras estátuas e monumentos. É urgente a construção do memorial às pessoas escravizadas, em Lisboa, aprovada em 2017 num orçamento participativo. É também consensual que o 25 de Abril começou em África, que as lutas africanas não foram contra o povo português, mas contra o governo, e no entanto não temos nenhuma estátua de Amílcar Cabral.”

Ana Cristina Pereira admite, porém, que o debate é muito difícil de se fazer quando se põe a questão em termos financeiros. “O Presidente falou em pagar a conta, e isso inquinou o debate. Não é por aí, apesar de os países ex-colonizados aproveitarem para insistir na narrativa da cooperação, a pensar no hoje e nos trocos, o que revela falta de visão de futuro. As elites políticas são todas muito parecidas.”

Compensar os afrodescendentes

Para Apolo de Carvalho, investigador envolvido no projeto Afro-Port – Afrodescendência em Portugal, é moralmente irrelevante falar em eventuais indemnizações monetárias. “Não há dinheiro que pague o que foram a escravatura e a colonização. Mesmo nos grupos negros, a questão do dinheiro não surge como assunto principal. A dívida é eterna.”

Importante, diz, é tentar compensar os países africanos de outras formas, através, por exemplo, do apoio diplomático à sua entrada em organismos internacionais de relevo, como o Conselho de Segurança das Nações Unidas ou o FMI, ou ainda resolvendo as burocracias e os abusos nos serviços consulares. “Os cabo-verdianos são humilhados e tratados como animais para vir para Portugal”, acusa.

Há igualmente passos com enorme importância simbólica que também não custam nada, seja em dinheiro seja em honra ferida. “Como é que a língua cabo-verdiana não é reconhecida como língua nacional, ao lado do mirandês? Língua é cultura, é identidade da existência de um povo, e basta vontade política.”

Desigualdades Ativistas defendem quotas raciais para acelerar a justiça histórica, como forma de reparação da escravatura e do colonialismo

É também este tipo de iniciativas que Joacine Katar Moreira favorece. “Devemos mudar a legislação para melhorar a vida das populações descendentes dos países colonizados. Desracializar a lei, acabando, por exemplo, com o Artigo 250º do Código de Processo Penal, que diz que polícia pode interpelar e interrogar indivíduos com suspeitas de permanência ilegal em território nacional, o que é usado pela polícia para interpelar e algemar pessoas racializadas, quando a única suspeita é a cor. Advogo também a existência de quotas raciais, tal como há para as mulheres, para acelerar a justiça histórica.”

As reivindicações centrais são conhecidas e públicas, garante a socióloga Cristina Roldão – ainda que não tenham grande repercussão no espaço público. “Tivemos um debate sobre a recolha de dados étnico-raciais, estamos há anos a falar dos manuais escolares, de quotas para o Ensino Superior e para a Administração Pública, da política das zonas urbanas sensíveis… E nada avançou.” No Reino Unido, aponta, o assunto já está noutro patamar, com “políticas de ação afirmativa, recolha de dados étnico-raciais, representatividade nos media e até bancos a assumirem que têm património com origem na escravatura”. “Temos de ver o que os outros têm feito. Talvez nos possamos inspirar.”

A especialista em exclusão e em racismo institucional avisa, contudo, que, apesar de haver muitas medidas que não implicam necessariamente maior dispêndio de orçamento”, há outras que vão mesmo custar dinheiro (ainda que admita não ter estimativas de quanto poderá ser, até porque “não há espaço para fazer essa discussão”). Mas não deve ser o povo português a temer esse lado mais materialista do debate. “As elites é que enriqueceram às custas dos africanos escravizados, dos povos indígenas, dos camponeses, dos portugueses pobres. Não é por acaso que, em alguns países, o que se tem tentado perceber é a origem das grandes fortunas. As plantações de cacau em São Tomé e Príncipe, nos anos 60, por exemplo, foram feitas com muito trabalho forçado. Isto é algo que a sociedade portuguesa precisa de saber. Se pudéssemos avançar de forma mais séria neste debate, talvez tivéssemos uma opinião pública menos crispada.”

Sem voz

Entre a comunidade negra lamenta-se que, mais uma vez, sejam chamados à discussão os mesmos de sempre. “Não é aceitável que as pessoas negras não estejam neste debate, dado que, até na perspetiva vivencial, há todo um dano ao nível das heranças etnorraciais”, diz Paula Cardoso, fundadora da rede Afrolink, comunidade de profissionais africanos e afrodescendentes. “Há uma responsabilidade da comunicação social em perceber que não tem essa diversidade nas suas estruturas e que, para refletir a diversidade da sociedade, tem de ir ao encontro das pessoas.”

Cristina Roldão alinha na crítica. “É preciso ouvir quem foi lesado pelo processo, dar-lhe mais espaço. Só temos ouvido homens brancos a discutir o assunto, uma elite cultural e intelectual, quando as pessoas prejudicadas com o processo colonial são racializadas e eram da classe trabalhadora.”

Murais polémicos Um projeto de resolução de Joacine Katar Moreira recomendou à Assembleia da República a contextualização das pinturas no Salão Nobre, que normalizam “a subjugação de outros povos” Foto: Marcos Borga

Já o argumento, muito repetido, de que a sociedade ainda não está preparada para ter esta conversa não colhe junto de Apolo de Carvalho. “Qual sociedade? A negra, que há muito tempo vê negada a pertença a este País, quer um programa de reparações, não como esmola mas como política de justiça reparativa. Mas essa sociedade não é auscultada. Tem produzido um conjunto de estudos, documentos e propostas na área das desigualdades étnico-raciais, mas acaba sempre relegada para segundo plano.”

O investigador deixa ainda uma crítica à afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa de que cabe a Portugal “liderar” o processo de reparações. “É como dizer que o criminoso é que decide as indemnizações às vítimas. Não, não tem de liderar. Portugal tem, sim, de abrir conversações com os países africanos, que têm as próprias agendas, e estar aberto para ouvir as pessoas negras que cá vivem.”

A (lenta) evolução dos manuais

Os livros escolares continuam a dar uma imagem acrítica e desumanizante da escravatura, diz investigadora, mas tem havido mudanças

Quando Marta Araújo coordenou um primeiro projeto sobre a escravatura nos manuais de História do 3º Ciclo, entre 2008 e 2012, tirou várias conclusões: África era apresentada como um continente sem História, primitivo; as Descobertas representaram um “encontro entre culturas”; não era feita qualquer ligação entre a escravatura e o racismo nem havia referências aos movimentos de resistência liderados por negros. Entretanto, a investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra iniciou outro projeto semelhante e, numa análise prévia, diz que já são visíveis várias alterações, mais nos manuais do 9º ano do que nos do 7º e do 8º. “É hoje menos frequente o uso de terminologia que objetiva a população escravizada, em que o escravo é apresentado como um produto em circulação equivalente às especiarias e ao marfim, e está presente uma maior relação entre a escravatura e a violência, omitida noutros manuais.”

Marta Araújo diz, no entanto, que ainda há muito a fazer. “Falta vontade política para mudar o sistema no seu todo, com orientações curriculares mais específicas nesta matéria. A própria formação de professores tem de ser repensada. E não estamos a ver estas mudanças noutros ciclos do ensino.” A investigadora acrescenta que “os ganhos não são garantidos”, dando o exemplo de um retrocesso: em 2003, um manual dizia que se haviam dado “grandes migrações” de europeus para a América, “enquanto escravos africanos negros eram levados à força”; em 2008, o manual da mesma editora dizia que tinham ocorrido “movimentações de povos – de emigrantes europeus e de escravos africanos sobretudo para a América”.