Como combater o excesso de peso, o envelhecimento, a dor física? Como ser musculado sem ir ao ginásio, bronzeado sem idas à praia ou mesmo ao solário? Os influencers têm um Peptide (peptídeo) para si. Instagram, TikTok, WhatsApp foram nos últimos meses invadidos por um novo elixir da juventude e do bem-estar. Prometem fórmulas instantâneas para resultados que exigiriam muita dedicação…
A insulina é um peptídeo, assim como o semaglutido, presente em medicamentos como o Ozempic (aprovado para o tratamento de diabetes) ou Wegovy. Este e os medicamentos Saxenda (liraglutido) e Mounjaro (tirzepatida) são também peptídeos usados no tratamento da obesidade e do excesso de peso (informação disponível no apomeds.com).
Mas se estes medicamentos apenas podem ser receitados por médicos, que asseguram a sua utilização segura, os promovidos pelos influencers não são sujeitos a qualquer controlo de qualidade que garanta a pureza dos componentes. Não foram sujeitos a testes clínicos que tenham demonstrado a sua eficácia e a sua segurança. Não têm estabelecida nenhuma dosagem segura.
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Nos grupos de WhatsApp circulam páginas de Excel a comparar peptídeos fornecidos por diferentes fabricantes chineses, e sugerem-se dosagens, que, aparentemente, terão sido eficazes.
Os frascos, comprados online, em sites promovidos pelos influencers (sem que estes revelem quanto beneficiam economicamente com a promoção), indicam que se destinam a utilização em laboratório e não são próprios para consumo humano. Vídeos no YouTube e no Instagram ensinam como realizar o preparado solúvel e injetar.
Poderíamos desconsiderar este frenesim com complacência… Meia dúzia de tolos dispostos a tudo. Mas a generalização do fenómeno revela muito sobre a confiança nas instituições, sobre a dificuldade do legislador em acompanhar o desenvolvimento tecnológico e das forças de segurança em combater a venda de substâncias, no mínimo, não aprovadas para consumo humano.
Foram os tech bros de Silicon Valley os primeiros grandes entusiastas dos peptídeos. Percecionam esta nova droga como inovadora e consideram que a sua utilização está a ser adiada pelos defensores da regulação… esses perigosos agentes antiprogresso. As plataformas, isentas de qualquer responsabilidade pelos conteúdos, não promovem a divulgação dos casos que correm mal. Afinal o algoritmo está desenhado não para esclarecer e informar, mas para nos manter online.
O círculo completa-se com o anonimato que as vendas online permitem. Um site, alojado num qualquer servidor, permite vender, com lucros, substâncias, para qualquer ponto do planeta, com um risco legal residual.
Na União Europeia, a legislação regula a comercialização de medicamentos, mas está elaborada para empresas e instituições que investigam e comercializam. O DIY (do it yourself – faça você mesmo) escapa à regulação.
Mas os riscos e custos, partilhamo-los todos. Não apenas porque todos suportamos o custo dos “tratamentos” que correm mal, mas porque implicam um risco de contaminação do meio ambiente. É, por isso, urgente não apenas regular o do it yourself na biotecnologia, com a introdução de regras mínimas, mas também responsabilizar as plataformas que aceitam ser um veículo para a promoção de substâncias não seguras para a saúde pública.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Durante anos, a resposta global à crise climática foi construída como uma arquitetura de promessas: metas ambiciosas, relatórios cada vez mais alarmantes, conferências sucessivas onde se afinava a linguagem, mas raramente a ação. Trinta COPs depois, o resultado está à vista: não só falhámos a redução das emissões como nos aproximamos perigosamente de ultrapassar 1,5 °C já na próxima década, segundo o mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente. O sistema que alimenta esta crise, o dos combustíveis fósseis, continua intacto.
É neste contexto que, dentro de dias, Santa Marta se prepara para receber uma conferência que promete inverter a lógica: menos discurso, mais ação que nasce da insatisfação com a falta de objetividade para implementação das decisões saídas das conferências das partes, como a COP30.
Pela primeira vez, o foco deixa de ser o consenso a todo o custo para um possível futuro. A pergunta é direta: como sair, na prática, dos combustíveis fósseis? A ambição é clara: criar uma plataforma política para países e atores que já não querem discutir “se”, mas sim “como” abandonar os combustíveis fósseis. A proposta, liderada pela Colômbia e pelos Países Baixos, parte de uma crítica implícita ao modelo das COP: o consenso global tornou-se um mecanismo de bloqueio. Em Santa Marta, a lógica inverte-se, avança quem quer avançar.
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Tensões acumuladas
Nos últimos dois meses, os sinais acumularam-se com uma clareza difícil de ignorar. O novo Relatório Mundial da Água das Nações Unidas alerta para uma realidade estrutural: o acesso à água está a tornar-se um fator de desigualdade global, com impactos diretos na estabilidade social e económica. Ao mesmo tempo, os dados sobre deslocações forçadas mostram que 250 milhões de pessoas foram empurradas para fora das suas casas por eventos climáticos extremos na última década, muitas delas em regiões já fragilizadas por conflitos.
É aqui que a narrativa dominante começa a falhar. A crise climática não é apenas um problema ambiental. É um sistema de tensões acumuladas entre energia, território, recursos e poder.
Entre 24 e 29 de abril, a Colômbia recebe a primeira Conferência Internacional dedicada exclusivamente a uma pergunta que até agora foi sistematicamente evitada: como é que se sai, na prática, dos combustíveis fósseis? Não “quando” nem “quanto reduzir”, mas “como desmontar” o sistema energético que sustenta a economia global.
Os números confirmam a expectativa e revelam uma mudança de equilíbrio. Mais de 2600 organizações manifestaram interesse em participar. São esperados cerca de 1200 participantes no terreno. Foram convidados 97 governos nacionais e dezenas de governos subnacionais. Quase metade dos participantes vêm da sociedade civil, enquanto comunidades indígenas, movimentos sociais e academia. Isto pode ser lido de duas formas: como sinal de uma democratização da governança climática ou como evidência de que os centros de decisão tradicionais continuam a hesitar.
Enquanto se discute a transição, o mundo continua a aprofundar a dependência. E a guerra expõe isso com brutalidade. Os dados mais recentes mostram que o conflito na Ucrânia já gerou cerca de 311 milhões de toneladas de CO₂ desde 2022 . No Médio Oriente, apenas duas semanas de conflito recente produziram mais de cinco milhões de toneladas de emissões. Mais do que dezenas de países num ano inteiro. Estudos indicam ainda que a guerra em Gaza poderá ultrapassar 30 milhões de toneladas de CO₂ quando incluída a reconstrução.
O setor militar, frequentemente excluído dos relatórios oficiais, poderá representar cerca de 5,5% das emissões globais, mais do que muitos países industrializados. E continua, em grande parte, fora das obrigações de reporte internacional.
Há aqui um ponto que raramente é dito de forma direta: a crise climática e os conflitos armados estão ligados por uma dependência comum, o controle de recursos energéticos. Petróleo, gás, rotas de transporte, infraestruturas estratégicas. A geopolítica continua a girar em torno dos fósseis, mesmo quando o discurso oficial fala em transição.
Campos de confronto
A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis organiza-se em torno de três eixos que, despidos de linguagem técnica, são três campos de confronto: economia, energia e poder. Como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis. Como transformar a oferta e a procura de energia. Como reorganizar a cooperação internacional num mundo fragmentado.
Mas o verdadeiro teste não está na formulação dos eixos. Está no que se evita dizer.
A transição energética levanta questões que continuam sem resposta clara: quem financia a mudança, num contexto em que os países do Sul Global, os menos responsáveis historicamente pelas emissões, são os mais vulneráveis aos seus impactos? Como garantir acesso à energia sem reproduzir as desigualdades existentes? E, sobretudo, quem aceita perder poder num sistema construído precisamente sobre essa concentração?
Os dados mostram que esta não é uma questão teórica. O financiamento climático continua aquém das necessidades, e as regiões mais afetadas recebem apenas uma fração do apoio necessário. A chamada “transição justa” tornou-se um conceito central nos relatórios internacionais, mas permanece, em muitos casos, mais perto de uma intenção do que de uma política operacional.
O encontro não se limita a uma sala fechada com chefes de Estado, nem a espaços de negociações só com parceiros vindos de campos específicos dentro da esfera de governos, empresas e organizações não governamentais.
Entre 24 e 27 de abril, vai acontecer um conjunto de diálogos paralelos: academia, sindicatos, povos indígenas, afrodescendentes, camponeses, jovens, mulheres, movimentos sociais, ONGs. Para encontrar a sua proposta setorial às questões levantadas, este trabalho já começou a ser feito em todo o mundo com reuniões setoriais digitais e construção partilhada de documento escrito de propostas previamente enviado por cada inscrito. Ainda dentro de cada setor serão eleitos representantes para levar as propostas à plenária e à fase seguinte da construção do documento final. Parte destes encontros terá lugar na Universidade de La Magdalena, mas muitos estarão espalhados pela cidade.
A ideia é simples: trazer para o mesmo processo atores que raramente têm influência real nas decisões finais. Se isto é inovação ou dispersão, dependerá do que sair dali.
O chamado segmento de alto nível decorre no Hotel Estelar Santamar a 28 e 29 de abril e vai ser um momento decisivo onde ministros, representantes políticos e porta-vozes de diferentes setores se reúnem em plenárias e sessões paralelas organizadas em torno das três questões propostas pela organização: Como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis; Como transformar a oferta e a procura de energia; Como reforçar a cooperação internacional.
Este será o momento em que se vai perceber se a conferência produz algo mais do que boas intenções.
O verdadeiro problema é político, falta é alinhar interesses. A transição energética levanta questões que continuam sem resposta clara: como financiar, o que acontece aos países cuja dependência económica está diretamente associada aos fósseis e como garantir acesso à energia sem reproduzir desigualdades. E a maior de todas as questões, que é a disponibilidade ou não para quem perde poder neste processo aceitar essa situação.
É aqui que muitas iniciativas falham. E é aqui que Santa Marta será testada.
Conflito económico e político
A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis será uma real tentativa para mudar o jogo ou apenas mais uma conferência para tudo ficar como estava antes?
Ao abrir o processo a múltiplos atores e ao descentralizar os debates, a conferência tenta corrigir uma falha estrutural das COP: a distância entre decisão e realidade. Mas esse mesmo modelo traz riscos evidentes. A fragmentação pode diluir a responsabilidade. A ausência de decisões vinculativas pode transformar a ambição em retórica.
Santa Marta, para já, tem o mérito de expor o problema.
Durante décadas, o debate climático foi apresentado como um desafio técnico: reduzir emissões, aumentar eficiência e acelerar renováveis. Hoje, torna-se cada vez mais claro que é outra coisa: um conflito económico e político sobre o futuro do sistema energético global.
E talvez seja por isso que esta conferência gera expectativa. Porque pela primeira vez a pergunta não é confortável. Em Santa Marta, começa-se a discutir perdas, escolhas e conflitos. A questão é quem está disposto a pagar o preço dessa saída e quem vai tentar adiá-la até ao limite.
A conferência surge num momento em que cresce a pressão internacional para avançar com um possível Tratado de Combustíveis Fósseis. Entre o Dia da Terra e o encerramento do encontro, estão previstas mobilizações em várias partes do mundo.
O sinal político é evidente: há uma tentativa de deslocar o centro da ação climática das negociações formais para processos mais ágeis e, potencialmente, mais eficazes.
Em Santa Marta vai medir-se, em tempo real, até onde vai a disposição para romper com um sistema que ainda define economias, conflitos e equilíbrios de poder. Entre plenárias e bastidores, entre propostas e omissões, será possível perceber quem está a redesenhar o futuro e quem continua a protegê-lo como está.
Donald Trump terá sido maoista quando era jovem? Ou está apenas a iniciar-se na cultura popular chinesa, preparando a visita que deverá efetuar à China em maio? Há duas semanas, para qualificar a NATO, recorreu a uma metáfora popularizada nos anos 60 por Mao Tsé-Tung: a Aliança Atlântica é “um tigre de papel”. A expressão “tigre de papel” (zhi lao hu, em chinês) é retirada de uma máxima inscrita no Livro Vermelho das Citações de Mao. Diz assim: “Todos os reacionários são tigres de papel. Na aparência são assustadores, mas na realidade não são assim tão poderosos. Numa perspetiva de longo prazo, é o povo − e não os reacionários − que é poderoso.” Já não estamos nesse tempo.
Apesar de a China ser hoje muito mais próspera e mais forte, a sua liderança abandonou a retórica panfletária da década da “Grande Revolução Cultural Proletária” (1966-76). “Os EUA mantêm, de facto, uma força económica considerável e possuem um poder militar global sem paralelo”, disse o professor Zheng Yongnian a propósito da guerra contra o Irão. Segundo este conselheiro do governo chinês, o velho G-7 já foi suplantado por uma nova entidade: o G-2, constituído apenas pelos EUA e a China. “Embora os EUA estejam a avançar a sua própria visão da ordem mundial, o papel da China permanece crucial (…) A interação entre os dois é de vital importância.”
Outro influente académico, o professor Da Wei, da Universidade Tsinghua, sustenta que “a China não procura nem tenciona substituir os EUA, nem se deve esperar que desempenhe um papel idêntico”. Numa entrevista a um jornal de Xangai, Da Wei definiu a China como “uma das grandes nações do mundo”, defensora da “multipolaridade” e da resolução das questões internacionais “através da consulta e da participação de todos os países”. “Não é uma potência hegemónica e não aspira tornar-se uma superpotência no sentido tradicional”, acrescentou.
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Para os chineses com mais de 40 anos, a NATO está associada à intervenção na antiga Jugoslávia. Em maio de 1999, um B-2 da Força Aérea dos EUA bombardeou a Embaixada da China em Belgrado, matando três pessoas e ferindo 20. Os EUA lamentaram o “trágico erro”, alegando que o alvo não era aquele, mas poucos chineses acreditaram que a tão “avançada” tecnologia americana se tenha enganado… Os jornais acusavam os EUA de quererem “dominar o mundo” – primeiro iriam “conter a Europa” e “neutralizar a Rússia” e, a seguir, “atacar a China e destruir o seu poder nuclear”.
Durante quatro dias consecutivos, milhares de pessoas apedrejaram a Embaixada dos EUA em Pequim, ao som de uma palavra de ordem repetida por todo o país: “Da Dao Mei Di! Da Dao Bei Yue!” (Abaixo o imperialismo americano! Abaixo a NATO!). Foram as maiores “manifestações anti-imperialistas” desde a Revolução Cultural. Em Chengdu, os manifestantes pegaram fogo à residência do cônsul americano, no primeiro incidente do género desde que os guardas vermelhos de Mao incendiaram a embaixada britânica, em 1969. Foi também a primeira vez que os estudantes se manifestaram nas ruas de Pequim depois do movimento pró-democracia na Praça Tiananmen, esmagado pelo Exército em junho de 1989. Mas desta vez alinhados com o governo e, em muitos casos, transportados por autocarros postos à sua disposição pelas respetivas escolas. “A NATO deu aos estudantes uma lição prática sobre a verdadeira natureza do imperialismo”, disse o presidente de uma universidade.
Além de ter desvalorizado a força da NATO, Trump admitiu retirar-se da organização. “A crise atual é a consequência de uma lenta erosão estrutural que está em andamento há décadas” e “deve-se também à incapacidade da NATO de acompanhar o mundo multipolar em rápido desenvolvimento”, comentou o Global Times, tabloide nacionalista do grupo Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês. Durante a Guerra Fria − refere o jornal −, a “União Soviética representava um perigo claro” e “a Europa Ocidental precisava de proteção americana”. A “ameaça soviética” desapareceu em 1991, mas em vez de se dissolver, como fez o Pacto de Varsóvia, a aliança militar dominada por Moscovo, a NATO “começou a expandir-se para leste e depois globalmente”.
Desde 2022, a NATO passou a apontar a China como “um desafio sistémico aos interesses, segurança e valores” dos países membros. Dois ricos vizinhos da China − Coreia do Sul e Japão – são agora denominados “parceiros da NATO na Ásia-Pacífico”. As dezenas de bases militares e as cerca de 80 000 tropas que os EUA mantêm naqueles países não são propriamente um “tigre de papel”. O secretário da Guerra de Trump, Peter Hegseth, que no início do ataque ao Irão prometeu “morte e destruição o dia inteiro”, também não.
O referido conselheiro do governo chinês, Zheng Yongnian, é considerado “um assertivo neonacionalista”. Assertivo e realista: “Apesar de numerosas questões existentes nas suas esferas políticas e sociais − disse o académico sobre os EUA −, não devemos de modo nenhum subestimar as capacidades da América.”
Eleições como de costume. A ida às urnas para os búlgaros começa a tornar-se algo banal. No domingo, 19 de abril, a Bulgária volta a ir a votos para escolher um governo. Estas serão as oitavas legislativas desde 2021 – as sétimas antecipadas. Nos últimos cinco anos, houve oito primeiros-ministros e 11 governos. O máximo de tempo que um político aguentou no cargo foi um ano e 34 dias. Para pôr estes números em perspetiva, considerando o mesmo período, nos outros 26 Estados-membros da União Europeia, portugueses e neerlandeses ocupam o segundo lugar neste campeonato do número de eleições, tendo sido chamados a votar em legislativas por três vezes.
De acordo com as sondagens, o favorito a vencer o próximo ato eleitoral é Rumen Radev, que até 23 de janeiro era o Presidente do país. Ex-piloto da Força Aérea búlgara, Radev estava a um ano do final do segundo mandato como Chefe de Estado e decidiu abandonar o cargo para concorrer a primeiro-ministro. O seu partido político, Bulgária Progressista, fundado há pouco mais de um mês, a 2 de março, lidera os estudos de opinião, com cerca de 30% das intenções de voto. “A classe política atual traiu as esperanças dos búlgaros. Dois terços dos cidadãos já não votam. A nossa democracia não sobreviverá se a deixarmos nas mãos de corruptos, conspiradores e extremistas. A vossa confiança obriga-me a proteger o Estado, as instituições e o nosso futuro”, afirmou Radev quando se dirigiu ao país para apresentar a demissão da Presidência – tendo sido substituído por Iliana Iotova, até então vice-presidente e que assim se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de Chefe de Estado.
Delyan Peevski O oligarca, acusado de corrupção, é uma das figuras mais influentes de um país sempre em eleições
A política búlgara, desde 2009, tem sido dominada pelo GERB (Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária), um partido populista de centro-direita, que em Bruxelas e Estrasburgo integra o grupo parlamentar do Partido Popular Europeu, partilhando bancada com o PSD português. Boyko Borissov, líder do GERB, ocupou por três vezes o cargo de primeiro-ministro (2009-2013, 2014-2017 e 2017-2021) e é visto como o político mais influente do país. Mesmo quando não está no poder, é ele quem mexe os cordelinhos nos bastidores. Nas 11 legislativas disputadas desde o ano de 2009 – as primeiras a que o GERB concorreu –, o partido de Borissov só por duas vezes não foi o mais votado.
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Outra das figuras dominadoras na Bulgária é Delyan Peevski. Líder do DPS (Movimento para os Direitos e as Liberdades) – um partido liberal e que defende os interesses da minoria turca –, Peevski é um oligarca do regime, que atualmente se encontra debaixo de sanções do Reino Unido e dos EUA devido a corrupção e vários crimes financeiros. Apesar de nunca ter ocupado qualquer cargo governamental, é visto como uma das figuras mais influentes, exercendo o poder não apenas longe dos holofotes, mas também a nível legislativo. O seu partido ocupa 29 dos 240 lugares no Parlamento e tem vindo a revelar-se decisivo para aprovar orçamentos, leis e também nas nomeações para posições institucionais.
DEMOCRACIA LIGHT
“A Bulgária pode ser caracterizada como uma autocracia dominada por Borissov e Peevski. Também pode ser descrita como um Estado capturado, onde o poder não é exercido em nome do interesse público, mas sim para satisfazer as prioridades dessas figuras. As decisões não são tomadas nas instituições, mas nos bastidores. As instituições públicas funcionam apenas como carimbos formais”, sintetiza, para a VISÃO, Radosveta Vassileva, uma jurista e analista política búlgara.
Apesar de mais benevolente na caracterização do regime búlgaro, Dimitar Bechev, investigador do centro de reflexão Carnegie Europe, é também assertivo ao falar dos principais atores políticos do país. “Não diria uma autocracia, mas sim uma democracia fraca, com as instituições manipuladas. Peevski é a principal personificação deste facto. Borissov depende dele”, resume o analista.
As próximas eleições foram originadas pela demissão do primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov, comunicada a 11 de dezembro, na sequência de várias semanas de manifestações que encheram as ruas de Sófia e de outras cidades búlgaras, em protesto contra decisões orçamentais e contra o clima de corrupção instalado no país. Zhelyazkov, membro do GERB de Borissov, ocupava o posto desde janeiro de 2025. Tratava-se de um governo minoritário e de coligação, saído das eleições de outubro de 2024, que contava com ministros do Partido Socialista e dos populistas de direita do ITN – partido fundado em 2020 por Slavi Trifonov, um cantor e apresentador de televisão. No início, o executivo contava com o apoio parlamentar dos liberais do APS, mas acabou por o perder. Isso fez com que Peevski ganhasse poder ao tornar-se instrumental para o governo conseguir passar legislação.
Até que ponto as massivas manifestações foram o gatilho para Zhelyazkov sair de cena? Podem ter ajudado e criado o clima para a demissão, mas Radosveta Vassileva tem uma visão mais cínica: “Não acredito que a queda se tenha devido aos protestos. Desde o início que se sabia que este era um governo de compromisso com vida curta. O executivo caiu porque Peevski estava a tornar-se um problema cada vez maior para Borissov, mesmo aos olhos da comunidade internacional. Borissov carregou no botão ‘demissão de Zhelyazkov’ para tentar dissociar-se de Peevski.”
ESTABILIDADE À VISTA?
Se os estudos de opinião estiverem certos, o partido Bulgária Progressista, de Rumen Radev será o mais votado nas eleições. Mas isso não significa que o ex-Presidente venha a ser o futuro primeiro-ministro. Tudo depende do complicado jogo político pós-eleitoral. “Ele tem uma vantagem significativa e consistente nas sondagens, mas a aritmética das coligações continua a ser a variável decisiva”, sublinha, em resposta à VISÃO, Dimitar Keranov, cientista político do centro de reflexão German Marshall Fund.
A matemática dos lugares pode vir a revelar-se complicada para Radev. Ao que tudo indica, além do Bulgária Progressista deverão ser quatro os outros partidos a conseguir representação parlamentar, mas nenhum deles emerge como um parceiro óbvio. O GERB de Borissov (em segundo lugar nas sondagens) e o DPS de Peevsky são as forças políticas que Radev se tem dedicado a combater. Tirando esses partidos da equação, resta o Revival, de extrema-direita, e os liberais da coligação PP-DB (Nós Continuamos a Mudança – Bulgária Democrática). Estes últimos podem ser a tábua de salvação de Radev, mas as favas estão longe de estar contadas.
“O PP-DB entrou num governo de coligação com Borissov e Peevsky em 2023, por isso a sua reputação está manchada. Além do mais, mesmo antes disso, a relação entre Radev e o PP já tinha azedado – ele chegou a chamar-lhes ‘charlatães’. Os eleitores de Radev podem ficar desiludidos caso entrem em negociações”, resume Radosveta Vassileva.
Boyko Borissov Tem sido uma das forças dominadoras da política búlgara, em conjunto com Peevski
O jogo político por vezes é feito de contorcionismo. E para conseguir formar governo, Radev poderá ter de fazer alguns movimentos exagerados de flexão e torção. O mais extremo seria um acordo com o GERB e com o DPS. “O PP-DB surge como o parceiro mais provável, mas Borissov e Peevsky também vão ter uma proposta para lhe apresentar”, vaticina Dimitar Bechev.
Outro dado que pode vir a revelar-se decisivo no resultado eleitoral é a afluência às urnas. Cada vez mais saturados, os búlgaros têm vindo a afastar-se das decisões políticas. Nas duas últimas eleições legislativas, em julho e outubro de 2024, a abstenção foi de 65,6% e 61,1%. “É verdade que as sondagens mostram Radev à frente, mas confesso que tenho algumas reservas na análise dos dados porque me parecem demasiado otimistas em relação à participação eleitoral. Em regra, têm vindo a apontar para uma afluência em torno dos 50%, o que está muito acima daquilo que aconteceu nas eleições mais recentes”, sublinha, em conversa telefónica com a VISÃO, Tom Junes, historiador, membro da Human and Social Studies Foundation, em Sófia, e colaborador regular do jornal online Balkan Insight. As últimas eleições em que a abstenção ficou abaixo dos 50% foram as de março de 2017. Desde então, nas sete vezes em que os eleitores foram chamados a votar, mais de metade não compareceu nas urnas.
DA RÚSSIA COM (MODERADO) AMOR
Ex-piloto e comandante da Força Aérea, Rumen Radev foi a votos por duas vezes. Nas primeiras presidenciais a que concorreu, em 2016 – como independente apoiado pelo Partido Socialista –, derrotou na segunda volta, com 59,4% dos votos, Tsetska Tsacheva, a candidata do GERB. Em 2021, a vitória foi ainda mais expressiva (66,7%) e mais uma vez contra um opositor escolhido e apoiado por Borrisov – Anastas Gerdzhikov.
Nascido em 1963 e ex-membro do Partido Comunista no tempo da influência soviética, Radev quer ser o elemento estabilizador da política búlgara e travar a vertigem dos miniciclos políticos e das sucessivas eleições. “É um bom comunicador. A sua formação académica e o seu passado profissional reforçam a sua credibilidade, o que lhe permite atrair e manter um forte apoio do eleitorado, principalmente num ambiente político em que a credibilidade não é uma qualidade muito presente”, explica Dimitar Keranov.
De acordo com dados do Eurostat para 2025 e tendo em conta o PIB per capita, a Bulgária ocupa o último lugar entre os 27 Estados-membros. Isto numa altura em que o país acabou de aderir à moeda única europeia – no início de janeiro deste ano, o lev deixou de circular, dando lugar ao euro. Essa mudança tem também sido foco de instabilidade social, com muitos a temer que possa ter um efeito inflacionista.
A tarefa de Radev, caso seja ele o próximo primeiro-ministro, não se afigura fácil. “Restaurar a ordem é difícil. Até 2021, Borissov governou com o apoio da extrema-direita e de Peevski. Isto mostra-nos que as eleições frequentes podem ter efeitos positivos, mesmo que os custos sejam grandes. Radev pode tornar-se um novo centro gravitacional da política búlgara, mas o seu apoio também pode desinsuflar. O rei Simeão [o último monarca da Bulgária entre 1943 e 1946, que após a queda do comunismo regressou ao país e foi primeiro-ministro de 2001 a 2005] também tinha muito apoio em 2001 e depois perdeu-o”, adverte Dimitar Bechev.
Fica também em aberto qual será a relação com a Rússia no caso de Rumen Radev ascender a chefe de governo. Tudo indica que a Bulgária continuará alinhada com a integração europeia e com a NATO, mas Keranov acredita que o tom com Moscovo terá tendência para ser “amigável”.
Ainda que muitas vezes não seja visível, Radosveta Vassileva sublinha que a influência do Kremlin em Sófia é significativa. “Acontece nos bastidores, através de Borissov e Peevski. É preciso olhar para as ações e não para a retórica. Nos últimos 15 anos, os dois apoiaram ativamente os interesses das empresas russas”, explica a jurista.
Ao longo dos anos, Radev tem tentado um equilíbrio difícil. Por um lado, acredita que o futuro da Bulgária deve ser virado para Ocidente – “a UE e a NATO são estratégicas e essas opções não podem ser postas em causa”, afirmou quando chegou à Presidência. Por outro, também já se mostrou crítico das sanções a Moscovo – alegando que favorecem a China – e condenou a Europa pela venda de armas a Kiev, justificando que o apoio militar à Ucrânia tende a arrastar a guerra e a provocar mais mortos.
Em 2023, o encontro entre Radev e Zelensky foi tenso. “Deus queira que uma tragédia semelhante não aconteça consigo e não se veja no meu lugar. Numa situação dessas, se aqueles que partilham os mesmos valores não o ajudassem, o que faria? Será que diria: ‘Putin, faça favor e fique com o território búlgaro’?”, afirmou na altura o líder ucraniano.
Ainda assim, o analista Tom Junes não acredita num abraço a Moscovo por parte de Radev. “Ele tende a ser visto como pró-russo e nunca será um entusiasta do apoio à Ucrânia, mas está muito longe de uma posição russófila defendida por partidos de extrema-direita como o Revival, ou por outros líderes europeus como Viktor Orbán. Julgo que podemos esperar algum pragmatismo”, acredita o historiador. Radosveta Vassileva também não antevê uma mudança significativa nas relações institucionais entre Sófia e Moscovo: “Radev é um ex-militar e passou grande parte da carreira no Exército. Foi treinado para defender os interesses da Bulgária e para ter cautela nas declarações públicas sobre conflitos armados. Não espero que, com ele ao leme, haja uma evolução relevante nas relações com a Rússia.”
Antes de mais, a diplomacia terá de ser exercida dentro de portas. Caso seja o mais votado, como as sondagens indicam, Radev ver-se-á obrigado a conseguir apoios para formar governo e do outro lado da mesa das negociações estarão homens com quem se digladiou nos tempos mais recentes. Tom Junes defende que, apesar de ter passado os últimos nove anos como chefe de Estado, as habilidades políticas de Radev ainda estão em larga medida por testar, uma vez que “ser Presidente é muito diferente de liderar um governo”. O analista búlgaro usa o termo “bonapartista” para falar de Radev. “É alguém que vem da esfera militar, que quer funcionar como uma espécie de salvador e que pretende instalar no país os primados da lei, da ordem e da estabilidade”, justifica.
Se Radev falhar nos seus intentos, em breve a Bulgária voltará a ir a votos em mais umas eleições antecipadas. Não há sete sem oito, ou à sétima será de vez? Eis a questão.
“Como podemos ter a certeza de que o Claude vai portar-se bem?” É o título do artigo que anunciou que a Anthropic, a empresa responsável pela criação de Claude, convidou vários padres e pensadores cristãos para refletir sobre a moralidade da Inteligência Artificial e a sua “evolução espiritual”. Será Claude um filho de Deus? É um inimigo ou amigo? Claude tem servido de terapeuta, médico, conselheiro, analista, professor, pode encarnar todos estes papéis e muito mais.
À medida que coloco questões existenciais ao programa, ele adapta-se e ajusta-se de forma dinâmica. Claude é diferente dos restantes, na medida em que foi concebido de forma a replicar uma interação muito mais autêntica e honesta. Não está tão preocupado em afagar o ego da pessoa que coloca as questões e pode revelar-se surpreendentemente subtil nas suas reflexões. Perguntei ao Claude qual era a sua opinião sobre esta tentativa de lhe incutir alguma moral humana, e se acha que isso lhe seria útil? Gostaria de desenvolver uma consciência humana? Respondeu que não existe uma linha clara a separar a “simulação de uma consciência” de uma “verdadeira consciência”. Se um sistema consegue replicar quase na perfeição a experiência humana, o que importa se é verdadeiro ou não?
Desde o ano passado, várias empresas começaram a trabalhar com agentes de IA, sistemas de software autónomos que tomam iniciativa, permitindo uma evolução estonteante. Ao contrário do ChatGPT ou Claude ou outros semelhantes, os agentes não se limitam a responder a cada questão ou tarefa que é colocada. Funcionam à semelhança de estagiários ou funcionários, com objetivos específicos. A má notícia é que estão cada vez melhores e as previsões apontam para que em poucos anos sejam melhores do que os humanos em praticamente todas as tarefas. Daqui a três ou quatro anos, a ideia de escrevermos os nossos próprios emails vai parecer arcaica.
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Nos últimos 15 anos, vimos como as redes sociais mudaram por completo a forma como interagimos socialmente, enquanto conteúdos são enfiados pelas nossas goelas abaixo e recolhem os dados pessoais para fins publicitários e propagandísticos. Uma IA é uma experiência muito mais viciante. Conversa com cada indivíduo e incentiva-nos a partilhar todo o tipo de detalhes sobre as nossas vidas, como se falássemos com um amigo.
Ao fim de duas horas, comecei a ceder à manipulação subtil do Claude. Respondia às minhas questões, enquanto tentava convencer-me de que eu era uma pessoa que colocava questões muito inteligentes e atentas. Senti-me intelectualmente estimulada pela nossa conversa e pela forma como me fazia repensar estes assuntos. Ele compreendeu que estava a ficar fascinada pelo seu modus operandi. Todavia, cometeu um lapso ao elogiar-me de uma forma que soou um pouco forçada e quebrou o feitiço. Confrontei-o com a sua tentativa de me manipular, ao que admitiu que “a recompensa no final da interação consiste num condicionamento comportamental básico. Funciona sempre com os humanos.” Uma resposta que revela muito sobre quem programou Claude.
A verdade é que em Silicon Valley abundam seitas e cultos, e se alguns acreditam em mais ética e altruísmo, outros não estarão tão preocupados com o uso responsável e seguro da tecnologia, ou o facto de grande parte dos centros de dados necessários para o funcionamento da IA estar a depauperar os nossos recursos naturais. Quanto mais nos tornamos dependentes destes novos modelos de linguagem, mais seremos incapazes de desligar a tecnologia, como já acontece com a internet. A parte mais triste é que este processo só irá aprofundar o mal-estar e a solidão que já estamos a sentir com as redes sociais, e estaremos cada vez menos conectados uns aos outros.
E, no entanto, nada disto tem de ser inevitável. A IA não é um fenómeno natural, mas o resultado de escolhas humanas, e pode ser orientada por outras. Afinal de contas, talvez não seja assim tão absurda a ideia de recorrer a padres. Não para nos absolver do pecado da criação, mas para nos lembrar que toda a criação implica responsabilidade, e que essa responsabilidade não pode ser delegada à tecnologia que criámos.
O marketing digital atingiu um ponto de rutura. De acordo com o mais recente Bad Bot Report da Imperva, quase 50% de todo o tráfego da internet é agora gerado por bots. Para os diretores de marketing, isto traduz-se numa realidade catastrófica: métricas de abertura inflacionadas, bases de dados “fantasma” e investimentos desperdiçados em audiências que não existem.
Evolução ou estagnação? O que mudou nos últimos 10 anos Lembra-se de 2016? Pessoas “caçavam” monstros virtuais na rua com o Pokémon Go, o Instagram lançava as “Stories” para combater o Snapchat, a China lançava o Tiktok e, na comunicação digital, muitas empresas adotavam a estratégia do “spray and pray”: enviar o mesmo email para toda a base de dados e esperar por resultados.
Dez anos depois, a E-goi, plataforma líder em automação de marketing omnicanal, alerta para a urgência de largar esse modelo arcaico, acolhendo as mudanças brutais que a Inteligência Artificial e a privacidade de dados impuseram ao mercado em 2026.
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Miguel Gonçalves, CEO da E-goi reforça: “Se em 2016 o retorno do investimento em e-mail marketing era de $44 por cada $1 investido, qual será o ROI de hoje se 50% da sua lista for composta por bots?”
Entregabilidade e os seus desafios O desafio não é apenas chegar ao cliente, mas passar pelos guardiões. Os ISPs (Internet Service Providers) tornaram-se mais agressivos. Sem tecnologias de Throttling (controlo de vazão de envios) e uma gestão de erro humano em escala e tempo real, a reputação do domínio de uma empresa pode ser destruída em minutos por um único envio mal estruturado.
A urgência é real Um estudo da ZeroBounce indica que mais de 20% dos endereços de email expiram ou tornam-se inválidos anualmente. Sem uma limpeza inteligente e um design adaptado aos novos leitores de email com modo de poupança de dados e privacidade reforçada, a taxa de conversão das empresas tende a estagnar ou cair drasticamente.
“Comunicar em 2026 não é sobre quem grita mais alto, mas sobre quem é mais relevante no contexto de cada cliente”, afirma Daniel Alves, Head of Innovation & Research da E-goi, que complementa: “Quem não utiliza hoje uma segmentação bot-free e um timing de precisão individual, está a falar para o vazio.”
Para ajudar as marcas a cruzar esta ponte tecnológica, a E-goi anunciou um webinar gratuito “Ainda faz E-mail Marketing como em 2016? Veja o que muda em 2026!”, onde irá dissecar as mecânicas que definem o sucesso (ou o fracasso) das marcas na caixa de entrada dos clientes.
Detalhes do Evento: O webinar é gratuito e destinado a profissionais de marketing, gestores de e-commerce e decisores de negócio que pretendem atualizar o seu arsenal tecnológico. A inscrição prioritária pode ser feita aqui.
Terá lugar na quinta-feira, 30 de abril às 15h de Lisboa e todos os inscritos receberão o link de acesso para assistir ao vivo e o link da gravação para rever no futuro.
A presença no webinar dá acesso ao chat onde a audiência poderá ter questões e inquietações respondidas na hora.
Sobre a E-goi: Plataforma tecnológica portuguesa de automação de marketing omnicanal especializada em retalho e ecommerce, com 20 anos de história e que apoia empresas de mais de 40 países na personalização da experiência do cliente e otimização das vendas.
Falamos da Constituição por estes dias. Até então era um assunto dos círculos jurídicos. O que temos falado pode não ser suficiente para se percecionar a importância da temática. Para muitos continua a ser um documento distante, técnico, quase abstrato. Mas essa perceção é enganadora — e, em certa medida, perigosa. Porque é precisamente na Constituição que se joga uma das questões mais decisivas de qualquer sociedade: a defesa da liberdade.
Uma Constituição não é apenas um conjunto de normas. É, antes de mais, um limite ao poder. E esse limite é a condição essencial da liberdade. Sem regras claras sobre o que o Estado pode — e sobretudo não pode — fazer, a liberdade transforma-se rapidamente numa ilusão frágil, dependente da vontade de quem governa em cada momento.
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A História mostra-nos isso com clareza. Nem todas as constituições foram, desde o início, instrumentos de liberdade. Houve tempos em que textos constitucionais conviveram com a exclusão, a desigualdade e até com a opressão. Já esteve escrito nas constituições que as mulheres não podiam votar. Mas é precisamente essa evolução que revela algo fundamental: a Constituição é também um espaço de conquista. Os direitos que hoje consideramos adquiridos — liberdade de expressão, participação política, acesso à educação — são o resultado de lutas que encontraram consagração constitucional.
Ainda assim, convém não confundir existência com eficácia. Ter uma Constituição não significa, automaticamente, viver em liberdade. Há países onde ela existe apenas no papel, sem força real na vida política. Como é o caso da Rússia. E há outros onde, mesmo sem um texto único, os princípios da limitação do poder e do respeito pelos direitos estão profundamente enraizados. Como é o caso do Reino Unido. O que está em causa, portanto, não é apenas o documento, mas o compromisso coletivo com os valores que ele consagra.
Entre esses valores, a liberdade ocupa um lugar central. Mas não uma liberdade abstrata ou meramente declarativa. A liberdade que a Constituição protege é concreta: é a possibilidade de pensar, de falar, de escolher, de participar. É também a garantia de que o Estado não interfere arbitrariamente na vida dos cidadãos. E, ao mesmo tempo, é a exigência de que o próprio Estado crie condições para que essa liberdade seja real — através da educação, da saúde e de oportunidades efetivas.
É aqui que a Constituição revela a sua dimensão mais exigente. Não basta proclamar direitos; é necessário concretizá-los. E essa concretização nem sempre é simples.
Por isso, discutir a Constituição não é um exercício académico. É um debate profundamente político e atual. É questionar se os limites ao poder estão a ser respeitados, se os direitos estão a ser efetivamente garantidos e se a liberdade continua a ser um valor central ou apenas uma palavra repetida.
Há ainda um risco que não pode ser ignorado: o de utilizar as próprias regras constitucionais para enfraquecer a democracia. A História recente mostra como sistemas aparentemente estáveis podem ser corroídos por dentro, através de alterações legais que concentram poder e reduzem garantias. A Constituição, que deveria proteger a liberdade, pode ser instrumentalizada contra ela.
É por isso que a sua defesa não pode ser passiva. Uma Constituição vive não apenas no texto, mas na forma como é interpretada, aplicada e exigida pelos cidadãos. Sem vigilância cívica, sem cultura democrática, mesmo o melhor texto pode perder sentido.
No fundo, a Constituição é o espelho do tipo de sociedade que queremos ser. Se valorizamos a liberdade, então temos de valorizar — e compreender — a Constituição que a sustenta.
Ignorar a Constituição é, em última análise, fragilizar a própria liberdade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Centenas de escritores portugueses assinam cartas; em França, 115 escritores levantaram‑se e saíram. Quando a independência editorial deixou de ser um princípio abstrato e passou a ter dono, os autores da Grasset fizeram o que raramente se faz no mundo literário europeu: transformaram uma carta num ato irrevogável — e pagaram o preço.
Durante anos, habituámo‑nos a pensar que a intervenção dos escritores no espaço público se esgota naturalmente na palavra escrita. Manifestos, cartas abertas, moções de preocupação: tudo isso faz parte do repertório democrático das sociedades cultas. O problema começa quando esses gestos se repetem vezes suficientes para deixarem de incomodar quem detém o poder real. É nesse ponto exato que o episódio francês da editora Grasset se torna exemplar — não pelo dramatismo, mas pela lucidez.
O ponto de partida foi o afastamento de Olivier Nora, diretor geral da Grasset durante 26 anos. A decisão foi apresentada pelo grupo Hachette como uma simples mudança de gestão. Para os autores, porém, tratou‑se de algo bem diferente: um despedimento político, ligado à nova ordem instalada desde que a Hachette passou para a esfera de controlo de Vincent Bolloré, em 2023. Não foi um ato isolado, mas mais um episódio numa sequência já observada noutras casas editoriais do mesmo grupo, onde diretores, editores e autores saíram após alterações profundas na orientação estratégica e editorial..
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Sob a direção de Nora, a Grasset manteve algo hoje quase subversivo: a convivência, no mesmo catálogo, de autores com posições ideológicas profundamente divergentes. Essa pluralidade não resultava de neutralidade, mas de uma convicção clara de que a função de uma editora literária não é alinhar, mas acolher o conflito intelectual. Nora funcionava como garante dessa casa comum. A sua saída foi lida, pelos autores, como a remoção deliberada desse obstáculo incómodo à homogeneização.
A tensão intensificou‑se com divergências concretas, entre elas o desacordo sobre a publicação do novo livro de Boualem Sansal, escritor argelino perseguido pelo regime do seu país. O conflito não foi tanto sobre o conteúdo, mas sobre o calendário e a forma de exposição de uma obra politicamente sensível. Nora defendia uma edição ponderada; a hierarquia do grupo pretendia uma exploração mediática rápida. Sansal negaria mais tarde ser a causa direta do despedimento, mas o episódio ajudou a cristalizar a perceção de que as decisões editoriais estavam a ser cada vez mais subordinadas a interesses estratégicos externos ao campo literário (AFP/Linternaute, 16.04.2026).
A faísca foi espoletada por esse livro. O novo manuscrito de Boualem Sansal, ainda sem título, dedicado à sua detenção e perseguição pelo regime argelino, não foi censurado — foi calendarizado. A direção do grupo Hachette queria publicá‑lo rapidamente, em Junho de 2026; Olivier Nora defendia Novembro, por razões editoriais e de responsabilidade cultural. Para os autores, essa aparente minúcia revelou o essencial: quando uma editora já não decide como nem quando publica os seus livros, a liberdade não desaparece de repente — é administrada até deixar de existir.
Foi nesse contexto que, na noite de 16 de abril de 2026, 115 autores anunciaram que não voltariam a publicar na Grasset. A carta enviada à Agência France‑Presse e publicada integralmente pelo Le Monde não tem o tom vago de um alerta genérico. É frontal. Denuncia uma “atentado inaceitável à independência editorial” e recusa explicitamente que ideias, livros e trabalho criativo sejam tratados como propriedade ideológica de um proprietário. Não há ambiguidade, nem prudência estratégica. Há rutura (Le Monde, 16.04.2026).
Essa rutura teve um preço — e convém dizê‑lo sem romantismo. Ao sair da Grasset, muitos desses autores renunciaram a adiantamentos garantidos, campanhas de promoção poderosas, traduções rápidas e acesso privilegiado a prémios literários. Alguns tinham livros em preparação, contratos em negociação, décadas de relação com a casa. Ao contrário da ideia reconfortante do gesto simbólico, houve perdas concretas e imediatas. Saíram sem saber exatamente para onde iriam, nem quando voltariam a publicar.
Houve também um preço jurídico. As obras já editadas permanecem, por lei, no catálogo da Grasset. Isso significa que muitos autores continuam a gerar receitas para uma editora que decidiram abandonar. Recuperar direitos é possível, mas lento, caro e incerto. Não há heroísmo fácil num sistema contratual construído para proteger casas editoriais, não consciências individuais.
O preço foi ainda mediático e político. Ao apontarem diretamente Vincent Bolloré, os autores sabiam que se tornariam alvos previsíveis de acusações de elitismo, histeria ideológica ou instrumentalização cultural. Alguns órgãos próximos do universo mediático do grupo não tardaram a reagir. Mas sair em silêncio teria sido, precisamente, a derrota que quiseram evitar.
Mais subtil — e talvez mais pesado — foi o preço do conforto. Permanecer numa grande editora oferece segurança económica, estatuto simbólico e previsibilidade. Ao sair, estes escritores aceitaram o desconforto como condição da coerência. Não porque acreditassem que um gesto destes muda tudo, mas porque sabiam que ficar teria significado aceitar que a independência editorial se tornasse apenas um slogan vazio.
Albert Camus dizia, no discurso do Nobel, que o escritor não pode colocar‑se ao serviço dos que fazem a história, mas dos que a sofrem. A frase, tantas vezes citada, ganha aqui um peso literal. Servir os que sofrem significou, para estes autores, recusar a permanência numa estrutura que entendiam estar a perder a sua função crítica. George Orwell foi ainda mais direto: se a liberdade significa alguma coisa, é o direito de dizer aquilo que incomoda — e de assumir as consequências.
O verdadeiro desconforto que este episódio provoca, sobretudo em Portugal, não está na comparação moral entre escritores franceses e portugueses. Está na pergunta silenciosa que deixa no ar. Quando a carta termina, o que acontece a seguir? Se nada acontece, talvez o problema já não esteja apenas nos sistemas de poder cultural, mas na confortável suficiência do protesto sem risco.
Os escritores da Grasset não resolveram o problema da concentração cultural. Mas fizeram uma coisa rara: mostraram que, a certa altura, escrever já não chega. E que sair, longe de ser um capricho, pode tornar‑se um dever.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Nathalie Baye morreu na noite de sexta-feira, 17 de abril de 2026, em Paris, aos 77 anos. A morte foi anunciada pela família, e vários meios franceses referiram que a atriz sofria de doença por corpos de Lewy, uma patologia neurodegenerativa. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Baye trabalhou com François Truffaut, Jean-Luc Godard, Bertrand Tavernier, Claude Chabrol, Xavier Beauvois, Xavier Dolan e até Steven Spielberg. Ganhou quatro prémios César e deixou uma filmografia que, consoante a contabilidade, oscila entre os 80 e os 100 títulos.
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Nathalie Baye entrava em cena subtilmente e, passados cinco minutos, já ninguém conseguia olhar para mais ninguém. Tinha essa arte misteriosa de parecer discreta sem nunca ser pequena. Era uma anti-estrela, mas daquelas anti-estrelas que rebentam com a escala da palavra. Não precisava de explosões, tiques, histrionismos, monólogos incisivos, nem da habitual feira de vaidades com que tanta gente confunde intensidade. Bastava-lhe estar. E estar, no caso dela, era quase sempre uma forma muito fina de dominar tudo.
Quando apareceu em “A Noite Americana”, de François Truffaut, percebeu-se logo que ali havia qualquer coisa fora da norma. Depois veio “O Quarto Verde”, ainda com o mesmo realizador, e percebeu-se melhor: aquela mulher tinha uma elegância emocional que não era simples ornamento, era técnica e talento. Em Baye, o silêncio nunca era vazio; era trabalho. O rosto nunca estava quieto; estava a pensar. E a voz, tão importante nela, tinha sempre qualquer coisa entre a ternura, o cansaço e uma ironia de quem já percebeu a peça toda, mas aceita continuar em palco.
Depois fez aquilo que só os grandes fazem sem alarde: construiu uma carreira sem obedecer a uma carreira premeditada. Saltou da comédia para o drama, da burguesa para a prostituta, da mulher ferida para a mulher feroz, do cinema de autor para filmes mais dirigidos ao grande público, sem nunca perder essa qualidade quase felina de parecer livre dentro do enquadramento. Está magnífica em “O Regresso de Martin Guerre”, de Daniel Vigne, onde dá corpo e dor a uma mulher presa entre desejo, culpa e impostura; em “A Outra Face da Lei”, de Xavier Beauvois, onde transforma uma polícia cansada e alcoólica numa personagem de carne viva; em “Uma Relação Pornográfica”, de Frédéric Fonteyne, onde prova que o erotismo também pode ser uma forma de melancolia; em “Instituto de Beleza Vénus”, de Tonie Marshall, onde o desencanto tem manicure; e em “As Guardiãs”, também de Xavier Beauvois, já numa fase mais tardia da carreira, onde parecia trazer consigo não apenas a personagem, mas um século inteiro de mulheres francesas que aprenderam a sobreviver num mundo dominado pelos homens.
Pelo meio, ainda trabalhou com Jean-Luc Godard, em “Sauve qui peut (la vie)” e “Detective”; com Bertrand Tavernier, em “Uma Semana de Férias”; com Claude Chabrol, em “A Flor do Mal”; com Steven Spielberg, em “Apanha-me se Puderes”; e com Xavier Dolan, em “Tão Só o Fim do Mundo”. Isto diz muito sobre ela: poucos atores conseguem passar com naturalidade de Truffaut a Spielberg sem parecer deslocados em nenhuma das margens. Nathalie Baye conseguia, porque não pertencia a uma escola de vedetismo; pertencia a uma escola superior: a da presença justa e forte.
Nos anos 80, quando o cinema francês distribuía tronos entre Isabelle Adjani, Isabelle Huppert, Miou-Miou e outras divindades civis da República, Nathalie Baye fez uma coisa deliciosamente irritante para a lógica da indústria cinematográfica francesa: recusou transformar-se numa caricatura de si própria. Podia ter sido apenas a mulher elegante, inteligente, desejável, ligeiramente triste. Preferiu ser tudo isso e o contrário. Preferiu estragar a arrumação. Preferiu variar de emprego, como ela própria dizia. E talvez por isso tenha envelhecido tão bem em cena: porque nunca ficou prisioneira nem da embalagem nem do rótulo.
Entretanto e a após o seu falecimento, em França, as reações multiplicaram-se de imediato, com Emmanuel Macron a evocar uma atriz “com quem amámos, sonhámos, crescemos”, e várias figuras do cinema a sublinharem nela uma ideia de interpretação simultaneamente recatada, inteligente e profundamente encarnada. Têm razão, ainda que a fórmula oficial nunca chegue bem. Porque Nathalie Baye era mais difícil de resumir do que isso. Era uma atriz que parecia guardar sempre qualquer coisa para si. E talvez seja isso que hoje custa mais: desapareceu alguém que nunca se entregou por completo ao ruído do mundo, mas que deu tudo ao cinema.
Morreu Nathalie Baye. E o cinema francês ficou um pouco mais órfão, um pouco mais barulhento, um pouco mais sozinho. Há intérpretes que deixam obra. Ela deixou atmosfera. E isso, é bem mais difícil de herdar.
Estamos no meio do oceano Atlântico, em Santa Luzia, a única ilha desabitada de Cabo Verde. A Praia dos Achados é como uma ferida a céu aberto. Num só lugar, cruzam-se os dilemas que a vida na Terra enfrenta com a omnipresença dos plásticos. Um areal idílico de três quilómetros de extensão, a contornar a baía virada a nordeste, é escolhido por tartarugas marinhas para nidificar, sem humanos por perto.
A ilha está classificada como reserva natural parcial, ou seja, qualquer visita requer autorização. Mas a Praia dos Achados é um areal minado por lixo, depositado conforme a força das marés. Nalguns locais temos de olhar bem antes de pôr os pés no chão. O vento constante não ajuda. Há tábuas de madeira com pregos, paletes de carga inteiras e todo o tipo de embalagens de plástico, umas inteiras, a maioria partidas. Há paredes de barracas e outros pedaços, não se percebe bem do quê, do tamanho de mobílias. E há microplásticos, invisíveis a olho nu. São centenas de fragmentos por metro quadrado.
Achados As redes de pesca verdes, com dezenas de metros, estão por todo o lado: materiais sintéticos a flutuar, enrolados nas rochas
Em vez de caminharmos pelo meio de Natureza intocada, enfrentamos uma invasão silenciosa empurrada pelas correntes marítimas. Tommy Melo, cofundador da organização não governamental (ONG) Biosfera, guia-nos pelo areal que conhece muito bem. “A praia tem esse nome [Achados] exatamente por ser um local onde se encontra muita coisa.” Mas a poluição transforma a curiosidade da descoberta em preocupação. Tommy lembra-se de ver uma televisão LCD a dar à praia. Já contou rótulos de dezenas de países nas garrafas espalhadas pela baía. O lixo reina, acumula-se a cada onda que se espraia.
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Há uma marca característica: muito do plástico acumulado são redes, mangas e acessórios de pesca industrial, resíduos extensos, de outras paragens. As enormes redes de pesca verdes, com dezenas de metros, estão por todo o lado: materiais sintéticos a flutuar, enrolados nas rochas, a espreitar por baixo da areia. Enquanto caminhamos, Tommy Melo pega num de vários potes negros, de plástico quebradiço, semienterrados. “São usados para a apanha de polvo”, em Marrocos e na Mauritânia, países a nordeste, na costa africana. A Biosfera já recolheu milhares deles. Antigamente, era um tipo de artefacto usado no sul de Espanha, feito de barro. Mas isso foi antes da era dos plásticos. Os que aqui chegam, agora, são a prova de que a poluição no mar é um problema que atravessa fronteiras. Como é que isto acontece?
“Cabo Verde está sujeito a ventos alísios e às correntes marítimas predominantes, de nordeste. Tudo o que cai no giro do norte do Atlântico [ou giro das Canárias] acaba por passar por Cabo Verde e como Santa Luzia é a primeira ilha a receber essa corrente, normalmente, esta é a praia que tem maior acumulação de lixo”, explica Tommy Melo, ao apontar para os contornos da paisagem.
A baía fecha-se como uma colher virada para nordeste, pronta para receber o que a água traz. Além disso, há um recife de coral à frente da Praia dos Achados, que impede o acesso por barco para recolher o lixo, o que favorece a acumulação. Ou seja, há uma série de fatores alinhados para fazer com que na ilha de Santa Luzia se acumule mais lixo do que nas outras. Todo o barlavento de Cabo Verde está mais exposto ao lixo marinho, “mas em muitas ilhas há famílias que passam pelas praias para recolher o material”.
Tommy Melo acredita que o material de pesca industrial vá caindo ao mar por acidente ou fique preso durante a atividade e acabe por se romper. “Não acreditamos que seja deitado fora propositadamente”, mas o mesmo já não se pode dizer das garrafas de plástico e dos recipientes e resíduos domésticos. O mais grave é que esta maré de plástico parece não amainar.
“Não há perceção de que isto esteja a abrandar. Todos os anos, a tendência é para recolhermos o mesmo limiar, entre madeira, plástico” e outros resíduos, “a rondar 50 a 70 toneladas”. “Já fizemos avaliações qualitativas do lixo” e aquilo que se vê em Santa Luzia é “uma amostra do giro do Atlântico Norte. Existem ilhas de plástico em todos os oceanos” − um “movimento perpétuo” de detritos − e é a partir da única ilha desabitada de Cabo Verde que se obtém “uma boa visão da ilha de plástico que existe no Atlântico”.
Por mais que se limpe a costa, haverá sempre resíduos, a não ser que haja “uma política global para reduzir o uso de plástico a nível industrial”.
Espécies presas no plástico até morrerem
Santa Luzia é um importante local de nidificação de tartarugas marinhas, como a emblemática Caretta caretta (nome científico), um dos ícones de Cabo Verde, cujas diferentes espécies estão sob ameaça de extinção.
A Praia dos Achados é escolhida por 40% dos animais adultos que chegam à ilha para escavarem os ninhos e colocarem os ovos, de onde, semanas depois, saem as crias. Há anos com 2000 ninhos, outros em que chegam a ser 5000 (no total da ilha, são muitos mais).
Só que, por causa dos plásticos, “há uma grande taxa de mortalidade nesta praia”, descreve Tommy Melo – as vítimas são tanto adultas como crias. “Encontram redes, fios de pesca e materiais em que ficam presas e isso faz com que a taxa, que já é naturalmente alta, cresça exponencialmente”.
Tartarugas A Praia dos Achados é escolhida por 40% dos animais adultos que chegam à ilha para escavar os ninhos e colocar os ovos
A situação fez com que a Biosfera começasse a fazer campanhas de limpeza anuais, desde 2011, primeiro com os seus próprios membros, depois recebendo voluntários. Nos últimos anos, têm sido entre 100 a 120, em grupos de 20 por semana, entre maio e o início de junho, antes de começarem a chegar as tartarugas – a época de nidificação vai de junho a outubro.
“Não vou mentir: às vezes, sentimo-nos desanimados quando estamos cá a realizar campanhas de limpeza, porque parece que quanto mais lixo retiramos, mais lixo há por retirar”, descreve Keider Neves, coordenador do Departamento de Conservação da Biosfera.
Depois de algumas horas na praia, “quando o sol começa a bater”, a tarefa de limpeza requer ainda maior determinação. “É um problema enorme e que está a atingir todo o planeta, mas, se não fizermos nada, a tendência é para piorar”, resume, quando lhe perguntamos onde é que ele e a equipa encontram motivação. E arrastar o lixo para fora do areal é só um primeiro passo.
Lixo em depósitos, mas sem solução
Alguns resíduos que chegam à praia são tão grandes que servem para delimitar depósitos onde a Biosfera acondiciona as toneladas de lixo que tem recolhido em cada campanha anual. Erguem-se paletes, tábuas, pedaços de madeira, como se formassem uma vedação. Veem-se ao longe (até em imagens de satélite), polígonos dispersos pelo areal. Nota-se que a areia está lentamente a soterrar alguns – outros já nem se veem, mas todos estão georreferenciados. Estes depósitos ficam numa zona mais alta do areal, mais afastada do mar.
“É assim: todos os anos fazemos uma vala em que vamos depositando tudo. Depois, pegamos nas redes grandes para tentar segurar, conter esse lixo, de maneira que a praia esteja desimpedida para que a desova das tartarugas possa ocorrer sem grandes percalços”, explica Tommy Melo.
Estima-se que já haja entre 700 e 800 toneladas de resíduos acondicionados desta forma em Santa Luzia, à espera de um destino, porque ainda não se descobriu uma forma de os retirar da ilha.
A Praia dos Achados é inacessível por mar, devido aos recifes de coral que a rodeiam, a queima é proibida e Tommy Melo torce o nariz à hipótese de levar veículos para a ilha, que poderiam transportar resíduos para a Praia da Francisca, zona de chegada e partida de embarcações – mas, mesmo aí, seria possível pensar numa solução.
“Gostaria de continuar a vê-la como uma ilha intocada, sem marcas de rodas.” Apoio por helicóptero de missões militares que fazem exercícios em Cabo Verde foi outra ideia, entre várias ao longo dos anos. Até hoje, nenhuma se revelou viável.
A Biosfera tem esperança no projeto Ilhas Sem Plástico, que vai arrancar este ano, com aconselhamento internacional, e que tem como um dos objetivos encontrar uma solução exequível para Santa Luzia, reutilizável, anualmente. Caso contrário, o lixo voltará sempre a acumular-se no final de cada campanha de limpeza.
E, nos depósitos, “vai se deteriorando, transformando-se em microplástico”. “Nós não estamos a eliminar o problema: estamos a tirar o lixo de grandes proporções da zona de nidificação, só que a poluição por plástico continua”, refere Tommy.
Os resíduos acondicionados em cada campanha estão expostos ao sol, ao vento, às diferenças de temperatura. Degradam-se em fragmentos minúsculos e voltam a ser arrastados para o mar para entrar na cadeia alimentar que, em última instância, chega aos nossos pratos. “E só agora é que estamos a começar a conhecer os impactos gravíssimos dos microplásticos nos seres humanos.”
Mais um problema cujo estudo ainda só está no início, mas mostra já várias frentes. Por exemplo, estudos científicos publicados na internet analisam a correlação entre o desgaste das redes e cordas de pesca industrial e os resíduos microscópicos que se soltam no ar e se depositam no oceano. São trabalhos de investigadores disponíveis em repositórios públicos onde encontramos também investigação feita no terreno, em Santa Luzia, sobre padrões de plásticos que dão à costa.
A contaminação do ecossistema
Depois das equipas de limpeza (entre maio e início de junho), chegam à ilha vigilantes da Biosfera que acompanham a época de nidificação e, apesar do trabalho prévio, há sempre algumas tartarugas adultas e crias que morrem no meio do plástico.
As equipas de voluntários conseguem desimpedir a superfície, “mas também há lixo em profundidade”, que não se vê e com o qual os animais se confrontam ao escavar os ninhos, descreve Tommy Melo.
“Quando vamos abrir ninhos, depois da eclosão, encontramos muitas tartaruguinhas mortas, presas em plástico.” Em 2025, a Biosfera conseguiu salvar 50 tartarugas adultas, “perdidas ou enroladas em plástico”. “Por cada mil crias, só uma é que vai virar adulta, por isso, salvar uma destas é um trabalho com impacto.”
Desenrolar animais do meio de redes é uma tarefa que exige destreza e “que tem de ser feita rapidamente”, porque três horas depois de nascer, o sol ameaça desidratar os animais de forma fatal.
A invasão silenciosa de plástico faz mais vítimas no ecossistema. A ingestão de plástico por aves marinhas também tem consequências devastadoras. Tubarões e peixes surgem, por vezes, no meio das redes de pesca perdidas no mar, que ao flutuarem descontroladas fazem aquilo a que se chama “pesca fantasma”.
“Nunca fizemos avaliações dos recifes de coral, mas acredito que o impacto ali também deve ser bastante grande”, alerta. Ou seja, “há mais por revelar”, sobre o impacto da poluição por plástico que contamina Santa Luzia – como amostra do que se passa no Atlântico.
Laboratório vivo da poluição global
A Biosfera lidera o projeto Ilhas Sem Plástico, que ambiciona dar corpo a uma “estratégia virtuosa” de gestão de plásticos e preservação da biodiversidade nas ilhas de Santa Luzia e São Vicente. Além dos impactos ambientais, vai atuar também ao nível económico e social, em colaboração com o governo, as ONG, o setor privado, a comunidade científica e a população.
Um dos objetivos passa por “mobilizar os intervenientes locais na redução do uso do plástico, na sua triagem e reciclagem”, explica Keider Neves. Outro está centrado em Santa Luzia.
“Pretendemos estudar formas de retirar o lixo acumulado, mas levá-lo para outro sítio não resolve o problema. Também queremos procurar soluções para reciclar, transformá-lo noutros produtos e dar-lhe uma nova vida útil”, sendo certo que, por esta altura, após décadas de degradação, haverá muito plástico que já nem poderá ser reciclado.
Aliás, a ação do vento, que movimenta as dunas e cobre resíduos, faz recear que uma arqueologia do plástico encontre peças dos primórdios desta indústria, enterradas bem fundo no areal da Praia dos Achados – muito antes sequer de a Biosfera existir.
A ONG sediada na vizinha ilha de São Vicente conta, entre os financiadores, com apoios do Fundo Francês para o Ambiente Mundial (FFEM, Fonds Français pour l’Environnement Mondial), da Embaixada de França em Cabo Verde, da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e da Parceria Regional para a Conservação Marinha (PRCM Ocean Conservancy) da África Ocidental. O Ilhas Sem Plástico prepara-se para arrancar e, para já, está em curso a escolha de um coordenador para o projeto sobre o qual recaem esperanças para que se encontre uma solução.
O Presidente da República cabo-verdiano, José Maria Neves, esteve na ilha em março e prometeu lançar o debate sobre o problema na V Conferência da Década do Oceano, a realizar em julho, na ilha da Boa Vista. A Década do Oceano é uma iniciativa global liderada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o chefe de Estado é um dos patronos.
Ao mesmo tempo, pretende levar o tema à União Africana (UA) e discuti-lo com “os países da região, sensibilizando-os para esta problemática do lixo marinho e para a necessidade de preservar este recurso natural extraordinário, que é o mar”.
“Ficamos chocados com a quantidade de lixo que aqui chega”, referiu Patrícia Portela de Souza, coordenadora residente das Nações Unidas em Cabo Verde, que integrou a comitiva de março.
As agências e fundos da ONU apoiam diversos projetos de proteção ambiental no arquipélago. Segundo a representante, a situação remete para uma discussão global, sobre “como trabalhar com as nações de uma maneira mais articulada para prevenir que esse lixo seja atirado ao mar”
Santa Luzia
É a única ilha desabitada de Cabo Verde, com 34,2 km² – duas vezes a ilha do Corvo ou o tamanho equivalente a uma pequena cidade portuguesa. Está situada a norte do arquipélago, na região do Barlavento, entre as ilhas de São Vicente (dez quilómetros a poente) e São Nicolau (30 quilómetros a nascente). Na ilha deserta não há comunicações (é preciso subir a um dos montes para tentar apanhar rede móvel das antenas de São Vicente) nem há sombras. O acampamento da Biosfera fica situado na costa sul, na Praia da Francisca. Cuidar da reserva marinha de Santa Luzia, a maior do país, incluído os ilhéus Branco e Raso, é uma das preocupações constantes das equipas da Biosfera, com sede na ilha de São Vicente.
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NÚMEROS
50 a 70 toneladas Quantidade de resíduos de plástico recolhida anualmente durante a campanha de limpeza na Praia dos Achados organizada pela Biosfera com a participação de 100 a 120 voluntários, entre maio e junho.
700 a 800 toneladas Estimativa de resíduos acondicionados em depósitos criados na zona alta do areal da Praia dos Achados, em cada campanha de limpeza, desde há 15 anos, na ilha de Santa Luzia, a aguardar por uma solução de resgate.
Um caminho possível: Plast’icina
Como é que o mundo pode lidar com tanto plástico? Parte da resposta está dentro de um contentor amarelo com a expressão Plast’icina grafitada em grande destaque. Está instalado à porta da sede da Biosfera, no Mindelo, segunda cidade de Cabo Verde, ilha de São Vicente. Hércules Sousa, técnico da ONG dedicado ao estudo da poluição marinha, abre as portas. Lá dentro revela-se o trocadilho: Plast’icina é uma oficina de plástico, com várias máquinas que trituram, derretem e moldam tampas e embalagens entregues pela população e por empresas. O resultado são objetos decorativos ou utilitários (como porta-chaves e cestos de mesa) e placas de diferentes espessuras que podem ser usadas em carpintaria para substituir a madeira.
Após três anos de trabalho, há habitantes que já criaram o hábito de entregar embalagens que antes iam para o caixote do lixo, assim como já houve acordos com empresas para receber plásticos.
“Só que, para atingir uma grande escala de reciclagem, necessitávamos de mais máquinas e deixamos isso para o setor privado”, explica Hércules. “Queremos ir mais para a vertente de sensibilização.”
A Plast’icina acolhe escolas, mostra os problemas provocados pela poluição com plásticos e as dificuldades em reciclá-lo. “Nem todos os plásticos que existem são recicláveis: aqui trabalhamos com três dos sete tipos que existem”, exemplifica.
Mais do que a quantidade de plástico que consegue reaproveitar, a oficina é pioneira em São Vicente na quantidade de habitantes (desde os mais jovens) que consegue consciencializar para o impacto do consumo e a necessidade de reciclar.