A segunda volta das eleições presidenciais tem características próprias. Tenho a memória bem viva da escolha de há 40 anos, onde tive um empenhamento ativo. O tempo mudou, mas é a construção da democracia que está em causa. Não há vitórias antecipadas e os resultados não serão indiferentes.

Neste momento, o desafio fundamental é o da mobilização para que todos votem em consciência. Não se pense que não vale a pena ir votar porque as tendências estão definidas. Quem o fizer desvaloriza ilegitimamente o sentido dos resultados. Não será, por exemplo, a mesma coisa um dos candidatos ganhar uma legitimidade acrescida em relação aos votos do partido do governo. O equilíbrio das legitimidades seria gravemente afetado. Nestes termos, votar em consciência significa que a participação democrática deve oferecer um quadro fiel do eleitorado. É um erro pensar que a lógica de lavar as mãos como Pilatos não tem consequências. 

Veja-se a lógica assimétrica dos argumentos de campanha. O discurso radical e cego de dividir o País entre maus e bons ou de dizer que é negativa a herança de 50 anos, como já se ouviu, erigindo uma raiz imaginária como fonte de todos os pecados, não apenas atinge injustamente todo o povo português como suscita respostas destemperadas, fazendo da amálgama interpretativa um fator de confusão com recusa do voto em consciência. Um debate civilizado, o que quer que isso signifique, tem de ser ponderado, com recusa da lama e da lógica da fábula do lobo e do cordeiro. Um argumento cego mistura a razão e a irracionalidade, a serenidade e a violência.

Perceba-se que a democracia é o pior dos regimes à exceção de todos os outros. Eis por que razão a sociedade não pode dividir-se entre a virtude e o vício, porque ambos estão em toda a parte. Não é preciso ir à História antiga e moderna para tirar lições neste domínio. O que é uma Constituição senão uma lei fundamental que a todos organiza e orienta, dando espaço ao Estado e à sociedade civil com respeito dos direitos, liberdades e garantias?  Não se pense, por isso, que um messias ou que um taumaturgo tem poderes mágicos para tornar a sociedade perfeita. Os cesarismos sabe-se como começam, como exceção, e não se sabe onde acabam, como regra. Assim, os argumentos plausíveis, racionais e legítimos dizem-nos que é a democracia que deve funcionar formada por cidadãos livres, iguais e responsáveis – com um Presidente da República que seja um moderador ativo, dentro dos seus poderes, exercendo uma magistratura de influência legitima. 

E não se usem argumentos confessionais e não confessionais, nem se acenem com fantasmas grotescos que apelam à confusão, ao ódio e à violência – lembre-se, por exemplo, como o Concílio Vaticano II pregou a liberdade de consciência e religiosa, a importância da dimensão social e o dever de acolhimento, ao invés da intolerância e do esquecimento do respeito mútuo. O que está em causa neste momento é a consolidação da democracia. Todos têm lugar na vida democrática, cabendo-lhes o dever de salvaguardar uma sã convivência e participação que permitam a defesa do bem comum. 

Num tempo de incerteza, com vozes a clamarem por uma ordem que se torna desordem estabelecida, é o momento de votar em consciência e de combater o abstencionismo que só favorecerá os caminhos ínvios. E penso nos mais jovens. Compreenda-se o desejo de mudança, mas entenda-se que há um compromisso que tem de ser preservado: a coesão social, a confiança nas instituições, a necessidade de se ouvir mais a sociedade, o mercado tanto quanto possível, o Estado democrático tanto quanto necessário, a ligação efetiva e necessária entre Educação, Cultura e Ciência. 

Não nos iludamos, só uma cidadania responsável e participada pode dar lugar à liberdade e ao progresso. A coragem está em não desistir nem ser indiferente. A abstenção dará voz a quem se deixa orientar por gestos perigosos que podem abrir caminho à aventura da rebelião das massas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Em março de 1911, o Syracuse Advertising Men’s Club, no estado de Nova Iorque, organizou um banquete para debater jornalismo e publicidade. É bem possível que os seus membros tenham sido recebidos por uma reconfortante cassolette de chair de crabe de entrada, e que, antes de conseguirem deliciar-se com as mignardises prometidas à sobremesa, acabassem surpreendidos pelo discurso de Arthur Brisbane, editor no New York Evening Journal, do poderoso grupo Hearst. A entrada gratinada de carne de caranguejo e os delicados doces miniatura franceses estavam na moda naqueles tempos, mas o menu do encontro desse grupo de homens que então influenciavam o rumo dos jornais norte-americanos não ficou para a História. No dia seguinte ao banquete, um repórter do The Post-Standard reproduzia um conselho de Brisbane que faria esquecer tudo o resto e ainda hoje é repetido como precursor da importância do fotojornalismo: “Usem uma imagem. Vale mais do que mil palavras.”

’Campeões’ É o que está escrito no álbum de Alfredo Laranjinha, junto a esta fotografia de Duarte ‘Dudu’ Espírito Santo (n.º 8), os dois filhos do austríaco Raymond Nolke, o seu pai, Eduardo, e Rui Costa Cruz

Consta que o célebre jornalista e editor, considerado responsável pela popularização das manchetes sensacionalistas, estava a piscar o olho aos anúncios que cada vez tiravam mais espaço aos artigos – “e bem!”, imaginamo-lo a exclamar, logo ele que conseguira ver o seu salário contratualmente associado aos lucros do jornal. Não importa. É verdade, muitas vezes, que uma imagem vale mais do que mil palavras, como aliás provam as belíssimas fotografias destas páginas.

Algumas delas fizeram parte de uma exposição sobre a evolução do esqui em Portugal, organizada em 2011 pela Federação de Desportos de Inverno, na Covilhã (é o caso da que abre o artigo). A maioria está em álbuns de famílias como os Laranjinha, que começaram muito cedo a esquiar na serra da Estrela.

Um teleski a gasóleo

“Aqui é o meu pai a ensinar-me, aos 4 anos. ‘Isto escorrega muito’, queixava-me eu e ele: ‘Bora, é mesmo assim!’ O meu pai tinha uma grande calma nestas sessões, só falava comigo, era como se não houvesse mais ninguém à nossa volta. Nessa idade, o Jerónimo levava-me aos ombros até à Torre, aliás levava uma mochila, dois pares de skis e eu ia em cima deles.”

A fotografia, pequena e a preto e branco, é de 1950, e quem fala é Alfredo, filho do segundo casamento de Eduardo Laranjinha que foi registado Caronho e assim crismado no exame da 4ª classe graças aos dotes do pai no jogo da laranjinha.

O homem que o carregava às costas era Jerónimo Carinhas, o melhor guia que a serra da Estrela alguma vez teve. Conhecia-lhe as manhas todas. Antigo pastor, estava sempre atento à rotação dos ventos e aos aparecimento das nuvens de neve ou de chuva. Ensinava com segurança os caminhos para as descidas mais íngremes e dizia orientar-se pela “cara das rochas”.

Jerónimo estava casado com Maximina, empregada no hotel do Sr. Vaz, como todos chamavam ao Hotel Serra da Estrela, inaugurado nas Penhas da Saúde, no final dos anos 30, por Manuel Vaz. O hotel nascera à boleia da chamada “cura livre”, proporcionada pelos bons ares da montanha, mas rapidamente seria invadido por esquiadores.

No hotel, era possível alugar esquis e experimentá-los logo à sua porta ou nas pistas da Capela ou da Colónia, muito próximas. Nos Piornos, mais acima, já se esquiava melhorzinho, mas, quando a neve começava a escassear, os mais aventureiros só almejavam estar na Torre.

Cenas na neve Alfredo no teleski de Piornos; o seu irmão Carlos a tocar a Valsa do Ski; Carlos, com Jerónimo e o pai; e Alfredo a esquiar às 8h da manhã de um dia de abril. A sua foto de esquis ao ombro é em França

Foi nos Piornos que, ainda na década de 40, surgiu o primeiro teleski da serra da Estrela, num monta-pistas rudimentar, lento, que funcionava com um cinto de corda e pesados ganchos de ferro. Trabalhava a gasóleo e parava com frequência – ou nem sequer chegava a andar, se não houvesse pelo menos seis pessoas para compensar as despesas.

Quem queria esquiar lá em cima (onde foram acrescentados nove metros de pedra sobre pedra para que a serra chegasse simbolicamente aos dois mil metros de altitude), tinha de subir a pé a encosta pelo Espinhaço de Cão, passar o Covão do Boi e ultrapassar a chamada “Pedra dos Abraços”, uma pedra alta num caminho estreito.

“Ao abraçar a pedra, ficava-se de costas para o Terroeiro”, conta Alfredo. “Era uma caminhada para mais de uma hora.”

Houve um dia em que Jerónimo se lembrou de comprar um cavalo para levar mais do que os tais dois pares de esquis de cada vez. Com o cavalo, ele conseguia juntar até dez pares, cobrando dez escudos por viagem entre as Penhas da Saúde e o Covão do Boi.

Quem podia abria o porta-moedas e agradecia. Aquele era um terreno inóspito, lembre-se, e assim se manteria durante décadas – só nos anos 70 se deu por terminada a estrada até à Torre.

Numa outra fotografia dos Laranjinha, de 1932, a mais antiga de alguém da família a fazer esqui na serra da Estrela, hoje já muito fanada, vê-se Eduardo aos 30 anos, numa altura em que morava em Lisboa “e sempre que podia ia de moto com amigos até à Covilhã”, na mira de passar o fim de semana a esquiar, conta o filho.

Os esquis dos manos Aibéo

Um ano depois, os irmãos João e José Aibéo estreavam-se a fazer esquis de madeira, esquis esses que o austríaco Slavicsek haveria de dizer ao semanário Humanidades, já no final da década, serem “tão bons como os dos outros países” onde a indústria estava bastante desenvolvida, tanto “em construção, acabamento e elegância”.

Mas estamos a adiantarmo-nos no tempo e a responsabilidade é dos episódios que se atropelam ao folhearmos estes deliciosos álbuns de fotografia.

Importa acrescentar que Slavicsek era então visto como uma sumidade na matéria. Se ele considerava os esquis dos manos serralheiros muito bons ou que as botas feitas por medida pelo sapateiro “Zé Facadas” não deslustravam, a vénia era geral. Não tinha o austríaco sido contratado pelo Ski Clube Portugal para dar aulas nas Penhas da Saúde, em 1936?

Fundado em 1928 por Eduardo Laranjinha, José Baltazar, José Rodrigues Simões e Manuel Magno, o clube sonhava ter muitos esquiadores e competições e tudo. Em 1929, beneficiaria de uma “campanha de neve”, lançada pela recém-criada Comissão de Iniciativa da Covilhã que já não defendia apenas os bons ares da montanha e o turismo de saúde. Surgiram anúncios, folhetos e até livros sobre a serra da Estrela, mas só a carolice de uns quantos covilhanenses explica o dinamismo do esqui nessa altura.

Turismo na serra Nos anos 1930, todos os caminhos iam dar à Estrela. Seja porque a ‘campanha da neve’ vingou, seja por causa do boca a boca, a montanha encheu-se de esquiadores de todas as nações

Pioneiros e aventureiros, os sócios do Ski Clube avançaram com as primeiras provas oficiais desportivas de esqui alpino logo em 1933, o mesmo ano em que ganharam uma sede na serra. Em 1938, apenas dois anos depois de Slavicsek começar a dirigir uma escola de esqui, aconteceria finalmente o primeiro campeonato nacional. E, se as provas (a partir de 1943 também organizadas pelo Clube Nacional de Montanhismo) eram sempre muito renhidas, os campeonatos passariam a ser o grande momento anual.

Um dos ídolos de Alfredo era o seu irmão Carlos, mais velho 20 anos. Sobrinho de Amadeu Gaudêncio pelo lado da mãe, tinha-se licenciado em Engenharia na Suíça, por decisão do pai, onde aprendera a esquiar “a sério”.

Carlos era um ás. E da sua geração faziam parte outros excelentes esquiadores, como Pedro Martins Lima (mais tarde apelidado de “pai do surf português”), o norueguês Raymond Nolke, que morou uns tempos na zona, deu aulas de esqui na serra e andava com um casaco de pele de urso (enquanto os outros esquiadores usavam camisolas tricotadas pelas mães), e “Dudu” Espírito Santo.

‘Dudu’, o olímpico

Ah, o “Dudu”! O seu petit-nom, usado com largueza por conhecidos e admiradores, é quase sempre precedido pelo artigo definido e seguido de exclamação, pausa, explicação. Escreva-se, por isso, já que Duarte José Borges Coutinho do Espírito Santo Silva (1924-2015) foi o nosso primeiro esquiador olímpico, nos Jogos de Inverno de 1952, que se realizaram em Norefjell, a cerca de cem quilómetros da capital norueguesa.

Um ano antes, “Dudu” e o seu amigo Carlos Gonçalves tinham sido desafiados por Nolke, que lhes reconhecia grandes capacidades. Os dois decidiram então fazer a prova de downhill, uma modalidade do esqui alpino que consiste em descer uma montanha o mais depressa possível. Mas, em vésperas de se meterem num avião rumo a Oslo, Gonçalves “roeu a corda”, lembraria Duarte, numa entrevista ao Diário de Notícias, em fevereiro de 2012.

Nessa altura, não havia provas de apuramento – os países preenchiam as suas quotas como queriam. O norueguês contactou o Comité Olímpico de Portugal, tratou de tudo e “Dudu”, que tinha então 27 anos, trabalhava há pouco tempo no banco da família e casara nesse ano, pagou do seu bolso os dez contos da viagem e da estada.

No dia 16 de fevereiro, à uma da tarde, Duarte Silva (como consta dos registos oficiais) iniciou a descida, gastando 3 minutos e 58 segundos, mais 1 minuto e 27 segundos do que o vencedor, o italiano Zeno Colò (que era um esquiador com experiência em provas internacionais). Conseguia, assim, alcançar o seu objetivo: terminar a descida.

Dessa “aventura estupenda”, como recordaria ao DN, “Dudu” já não guardava sequer fotografias. Mas as suas memórias desses tempos e de tempos anteriores, passados a esquiar em St. Moritz e na serra da Estrela, estavam ainda vívidas, aos 87 anos.

A primeira vez tinha sido na Suíça, a escassos meses de fazer 8 anos, contou. A viagem de comboio entre Lisboa e St. Moritz, com os pais, empregada, cão e “tudo e mais alguma coisa”, demorara dois dias, mas, assim que pegou nuns esquis pesadíssimos de madeira, percebeu que ia divertir-se muito.

Desde os anos 1920 que St. Moritz, com as suas montanhas e os seus hotéis de luxo, era um poiso certo da família Espírito Santo. José Maria, o seu irmão mais velho, já lhe contara com certeza como era deslizar pelas pistas de esqui e espreitar o chic do après-ski.

As imagens de Eisenstaedt

No início de 1932, chegava a vez de “Dudu” se apaixonar pelo esqui – e logo em St. Moritz. A estância nascera várias décadas antes, graças ao sol que se diz ali brilhar 322 dias por ano. No verão de 1864, o hoteleiro suíço Johannes Badrutt apostou com os seus habituais hóspedes britânicos que conseguiriam apanhar sol no inverno sem grandes agasalhos. Se perdesse a aposta, prometia pagar-lhes o alojamento e todas as despesas de viagem.

Em dezembro desse ano, os hóspedes foram recebidos com um sol radiante. Badrutt ganhava a aposta e St. Moritz tornava-se “a” estância de esqui europeia.

Quando Duarte Espírito Santo lá esteve pela primeira vez, St. Moritz já recebera uns Jogos Olímpicos de Inverno. Quatro anos antes de ele próprio competir, na Noruega, aquelas montanhas voltariam a receber atletas olímpicos.

Em 1929, a serra beneficiou de uma “campanha de neve”. A Comissão de Iniciativa da Covilhã já não defendia só os bons ares da montanha

Mas a imagem que temos da estância – uma fotografia, pois – não tem nada de competição, embora René Breguet, o chefe de sala do Grand Hotel des Bains, merecesse uma medalha.

“Empregado de mesa a patinar no gelo, Grand Hotel, St. Moritz (1932)”, reza a legenda de uma das fotografias mais icónicas de Alfred Eisenstaedt (1898-1995), em que vemos Breguet de perna no ar e tabuleiro bem firme numa mão. Uma das, porque o fotojornalista norte-americano nascido na Prússia é o autor da famosíssima fotografia de um beijo entre um marinheiro e uma enfermeira, tirada durante a celebração do Dia da Vitória sobre o Japão, a 14 de agosto de 1945.

Então a trabalhar na Pacific and Atlantic Picture Agency, que fazia parte da Associated Press, e a contribuir para a Berliner Illustrierte Zeitung e outras revistas ilustradas em Berlim e Paris, Eisenstaedt passaria uns dias a registar o dia a dia do Grand Hotel, dos seus empregados de mesa sempre de casaca e gravata borboleta e dos seus hóspedes sempre chiquíssimos. Nessa sua série, feita com uma máquina Miroflex, há uma fotografia de um menino, a ajeitar a gravata ao espelho, que podia muito ser Duarte Espírito Santo. Mas a legenda não deixa margem para dúvidas: é um inglesinho, escreverá o próprio, na legenda.

A ‘automotora da neve’

Em outubro de 1932, o pai de “Dudu” deixa a administração do banco, invocando razões pessoais, e muda-se para Paris, onde se mantém até começar a Segunda Guerra Mundial. José havia de casar em segundas núpcias com Diana Cohen, a sua primeira grande paixão, e o filho mais novo ficaria em regime de internato no Colégio Infante de Sagres, em Lisboa.

A sorte de Duarte é que o diretor do colégio tinha casa na Serra da Estrela e, de vez em quando, convidava-o para passar o fim de semana a esquiar, com os seus filhos. O comboio demorava toda a noite até chegar à Covilhã, depois era preciso subir a serra a pé. “Mas eu ia sempre e levava sempre os esquis comigo”, contaria na mesma entrevista.

Mais tarde, já em 1955, o Ski Clube de Portugal, impulsionado por Eduardo Laranjinha, celebrou com a CP um acordo que levou ao nascimento da “automotora da neve”. Estando a serra coberta de branco, todas as noites de sexta-feira saía de Lisboa uma automotora “que só parava na Covilhã”, sublinha Alfredo. E, no domingo, lá fazia ela o caminho inverso, levando a bordo uma vintena de esquiadores que iam “sempre a comer, a beber e a cantar”.

Nevões Os covilhanenses já sabem que o caminho até à Torre fica com frequência instransitável. E muitos ainda se lembram de quando nem estrada havia até lá acima

Às tantas, falou-se mesmo em trazer os Jogos Olímpicos de Inverno para a serra da Estrela e Eduardo Laranjinha foi um dos que mais sonharam com essa hipótese. Menos remota seria a empreitada de construir um grande abrigo, em alvenaria, no topo da pista do Covão do Boi, uma das descidas clássicas. “Seria a conquista do inatingível, do ponto mais alto”, lembra o filho.

Coube então ao arquiteto Luís Fernandes Pinto fazer o projeto, lindo, com uma grande plataforma panorâmica, de frente para a vista, comprometendo-se Eduardo Laranjinha e o seu amigo Bernardo Mendes de Almeida a financiarem a sua construção, enquanto o Estado não libertava o dinheiro. Já estava a obra quase a meio quando o Secretariado Nacional de Informação deu o dito pelo não dito, derrubando mais esse sonho.

Nas ruínas do abrigo inacabado e abandonado da serra da Estrela dormem agora pastores e as suas ovelhas. Uma imagem que vale mais do que mil palavras.

Palavras-chave:

Há uma estranha calma no núcleo duro de Luís Montenegro. Enquanto acelera o desfile de notáveis que apoiam António José Seguro, enquanto André Ventura faz disso forças apresentando-se como um homem só contra todos, enquanto Montenegro é espicaçado pelos jornalistas para tomar posição sobre uma segunda volta e continua em silêncio, enquanto os comentadores apontam para os riscos de uma OPA da AD pelo Chega, a cúpula social-democrata mostra nervos de aço. A governar há dois anos em minoria, equilibrando-se entre PS e Chega, Luís Montenegro ganhou confiança e encara com serenidade o resultado que possa vir das urnas no dia 8 de fevereiro. “Isto não mexe com o PSD”, assevera à VISÃO uma fonte próxima do líder social-democrata.

Nada na manga? Luís Montenegro resiste a todas as pressões para tomar posição nas presidenciais. “Isto não mexe com o PSD”, diz uma fonte do núcleo duro

A convicção na São Caetano à Lapa é a de que “Seguro vai ganhar à vontade”. Será esse o cenário de sonho para os dirigentes sociais-democratas? “É indiferente.” Será indiferente ter André Ventura em Belém? “O que é que ele vai fazer se for Presidente? Se for Presidente, mata-se a si próprio, é o fim do Chega”, vaticina um alto responsável laranja, muito tranquilo com uma segunda volta das presidenciais que está a dividir as hostes sociais-democratas. “A esmagadora maioria dos dirigentes vai votar António José Seguro. Entre os militantes de base, há uma parte que vota Seguro, outra que fica em casa, por não conseguir votar nem num nem noutro. A percentagem que vai votar em Ventura é residual”, afiança quem conhece bem a máquina do partido.

Socialismo ou populismo?

A verdade é que, por convicção ou por ver na ascensão de Ventura um perigo existencial para o PSD, não há dirigentes ou notáveis do partido que tenham – até à data de fecho desta edição – vindo a público confessar o voto no líder do Chega. Mesmo entre aqueles a quem a ideia de votar em alguém do PS repugna, há uma hesitação ou mesmo uma recusa em optar pelo outro nome que estará no boletim de voto. “Não sou socialista. Não votarei num socialista. Não posso perdoar o que o PS fez ao meu país: deixou-nos uma crise social e uma crise de valores. Caos na saúde. Caos nos serviços públicos. Caos na imigração. Caos na segurança interna. Caos na nossa defesa nacional. Tudo com o silêncio conivente deste candidato”, começou por escrever Bruno Vitorino, antigo líder da distrital de Setúbal e vereador do PSD no Barreiro, no Facebook, num post que gerou mais de 200 comentários, bastante ilustrativos da divisão dos sociais-democratas nesta segunda volta.

Umas horas depois, Vitorino fez uma nova publicação para deixar claro que a sua rejeição a Seguro não era um apoio a Ventura. “Não sou populista. Não votarei num populista. Não alimento o discurso que quem vota Ventura é fascista ou xenófobo, como se só a esquerda tivesse legítimos candidatos, puros e donos da liberdade. Foram os mesmos que durante anos me chamaram a mim fascista… Mas não alimentarei aqueles que têm como objetivo assumido destruir o PSD. Tenho memória dos cartazes de Montenegro ao lado de Sócrates, com a frase 50 anos de corrupção. Nada podia ser mais baixo e mais ofensivo para quem é do PSD. Não voto naqueles que ainda na passada semana me ofenderam no Parlamento, e que depois, com táticas típicas da esquerda totalitária, inventaram uma narrativa contrária, manipulando a opinião pública. Não voto naqueles que prometem tudo a todos, sem nunca explicarem de que árvores das patacas vem o dinheiro. Populismo puro”, escreveu Bruno Vitorino.

Pedro Duarte e Paulo Portas Presidente da Câmara Municipal do Porto (e ex-ministro de Montenegro) e antigo vice de Passos no governo da PàF (e ex-presidente do CDS) foram muito “vocais” no apoio a Seguro

A ideia de que Seguro representa o “socialismo”, mas Ventura é o “populismo” que faz equivaler Montenegro a Sócrates está mais presente entre as bases sociais-democratas do que o discurso de alguns notáveis do partido pode fazer crer. Ainda assim, há quem assuma o voto no “socialista” por entender que qualquer votação que reforce o líder do Chega será um problema político sério para o PSD e que ter Ventura em Belém pode abrir caminho a derivas presidencialistas cujas consequências são ainda difíceis de prever, mas podem colocar o Governo da AD numa situação complicada.

“Saber com que resultado André Ventura sai destas eleições não é uma questão menor. A expressão desse resultado não pode ficar enquistada nos votos nulos ou brancos. Faz-se por percentual”, alerta um dirigente social-democrata, que prefere não se identificar, mas que confessa estar preocupado com a neutralidade assumida pela liderança do seu partido. “E se na segunda volta André Ventura tiver 35%? É um risco brutal. Ventura tem a maior retenção de eleitorado de eleição a eleição”, sublinha a mesma fonte, notando que na sua distrital a indicação de voto em Seguro foi clara. “Tenho de dar o sinal para as pessoas não julgarem que é indiferente o resultado.”

Noite eleitoral António José Seguro teve um resultado melhor do que anunciavam as sondagens. Mas as sondagens tornaram-se (perigosamente?) otimistas…

Dentro de mais ou menos um mês, o PSD terá eleições para as distritais. E isso podia fazer crer que na direção do partido haveria uma atenção redobrada a esta questão. Mas parece não ser esse o caso. Ao que a VISÃO apurou, não houve conversas entre a São Caetano à Lapa e as distritais para dar orientações sobre o voto. “Orientação zero”, garante um alto dirigente. “Não houve nenhuma conversa formal ou informal, nenhuma reação”, atesta um dos sociais-democratas que expressaram publicamente o apoio a António José Seguro.

“Eu não estou em silêncio, o que eu estou é focado na minha tarefa e na minha missão que é governar o País”, reagiu Luís Montenegro, esta semana, quando voltou a ser confrontado pelos jornalistas sobre a sua neutralidade nestas eleições.

Apoios de peso à direita para Seguro

Se Luís Montenegro parece achar indiferente o resultado da segunda volta das eleições presidenciais, Aníbal Cavaco Silva não tem dúvidas sobre a importância desta ida às urnas. “Repito o que disse aquando da primeira volta: estas eleições são muito importantes para o futuro do País. Num tempo de tantas incertezas e de graves ameaças, Portugal precisa de um Presidente da República de bom senso e credível na cena internacional que contribua para a defesa dos interesses nacionais”, escreveu Cavaco numa nota enviada à Lusa na qual confirma o voto em Seguro, descrevendo-o como “uma pessoa honesta e educada”.

Paulo Portas, vice-primeiro-ministro nos tempos da Troika, também não hesita entre André Ventura, “uma imitação de Trump”, e António José Seguro, “um político de centro num momento muito difícil para Portugal”, lembrando o apoio dado pelo então líder do PS às políticas de austeridade de Pedro Passos Coelho. “Com o dr. António José Seguro, terei divergências doutrinárias, mas com o outro candidato – o tal que grita muito – as divergências são de outra ordem: não olho para o ser humano como esse líder olha. Não quero o País dividido por cores, confissões religiosas ou nacionalidades. Não quero tribos contra tribos. (…) Escusamos de ter uma imitação de Trump em Portugal”, defendeu Portas.

José Luís Carneiro Líder do PS pediu a mobilização dos militantes, mas, discreto, não tocou no “assunto presidenciais”, no debate quinzenal, no Parlamento…

Pedro Duarte, o presidente da Câmara Municipal do Porto e um dos homens que podem vir a suceder a Montenegro no futuro, foi dos primeiros sociais-democratas a sinalizar o apoio a António José Seguro, ainda na noite eleitoral, e não hesitou em aparecer ao lado do socialista nesta campanha. “Quando nós colocamos em primeiro lugar, em primeira instância, o interesse nacional, por vezes as decisões não são muito difíceis. E se olharmos para o futuro do País e perspetivarmos o que pretendemos enquanto comunidade, enquanto nação, para mim não há qualquer dúvida, não tenho qualquer momento de hesitação, votarei no próximo dia 8 com uma grande convicção”, disse ao lado do candidato numa ação no Porto.

Muito menos entusiástico foi o apoio de outro dos homens fortes do atual PSD, Carlos Moedas, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. “Sem entusiasmo, votarei em António José Seguro”, anunciou ao Expresso, pedindo a Seguro para, se for eleito, “respeitar a maioria social de centro-direita que existe hoje em Portugal”.

Luís Marques Mendes foi mais enfático no apoio a Seguro. “É o único candidato que se aproxima dos valores que sempre defendi: defesa da democracia, garantia do espaço da moderação, respeito pelo propósito de representar todos os portugueses”, disse ao Expresso.

Na IL também não faltam apoios ao socialista, mesmo que formalmente o partido não tenha dado indicação de voto. Mário Amorim Lopes, líder parlamentar dos liberais, foi dos primeiros a anunciar esse apoio. Rodrigo Saraiva e Carlos Guimarães Pinto, fundadores da IL, também anunciaram que iam votar em Seguro e até Mariana Leitão disse que “sem entusiasmo” lhe daria o voto. Só João Cotrim Figueiredo, pese embora as críticas a Ventura, não declara apoio a António José Seguro, dando mesmo a entender que pode votar em branco ou abster-se. “Eu percebo aqueles que, em grande número, estão a aparecer nas sondagens a dizer que não vão votar ou vão votar em branco”, disse na SIC Notícias, deixando claro que não votará em Ventura.

Confusão no CDS

No CDS, também há divisões, mas até agora nenhum anúncio de apoio a André Ventura. Para já, sabe-se que além de Paulo Portas, outros três ex-líderes centristas votarão no socialista: Francisco Rodrigues dos Santos, Assunção Cristas e Ribeiro e Castro. “Não pode haver contemplações, hesitações, quando está em causa um consenso matricial de valores fundacionais e civilizacionais do nosso continente e do nosso país e sobretudo porque se exige numa altura destas que todos os democratas não tenham as menores das contemplações. Sou centrista, democrata-cristão, há pontos de entendimento com a social-democracia, seja mais à esquerda seja mais à direita”, declarou Rodrigues dos Santos. Revelando não ter nesta eleição um “candidato natural”, Assunção Cristas assumiu o voto em António José Seguro, enquanto Ribeiro e Castro defendeu que Seguro será em Belém um “garante de equilíbrio e de estabilidade, de respeito por todos” e não o “carro de combate” que André Ventura parece.

Mais difícil de entender é a posição de Nuno Melo, o atual líder do CDS, que apesar de comparar Ventura a Trump de forma crítica e de o acusar de ser “socialista”, recusa tomar posição na segunda volta. “Nós não somos a tal direita que a esquerda gosta, mas também não somos aquela direita que os populistas se aproveitam”, disse Melo, que considera “normal” que o CDS não apoie “um candidato socialista”, lembrando que em tempos Portas disse que “o adversário ideológico do CDS é o socialismo e o adversário político do CDS é o PS”. De resto, Paulo Núncio, deputado único do partido, rejeita por completo a ideia de que André Ventura seja antidemocrata. “Desde quando é que os portugueses que se abstiverem ou, por mera hipótese, votarem no outro candidato são menos democratas que os demais?”, questionou no Parlamento, atacando fortemente o PS. “O PS e a esquerda não são donos da democracia”, insistiu.

Endosso Marques Mendes precisou de poucos dias para “endossar” os votos obtidos. Isto é: pelo menos ele votará em Seguro, por ser o candidato que está mais próximo dos seus valores

Sem dar um apoio claro a António José Seguro, a distrital do CDS no Algarve põe as coisas de forma bem diferente. “A crítica política é legítima e necessária, mas o populismo, o extremismo e a exploração do ressentimento social representam riscos reais para a democracia plural que construímos com tanto esforço”, lê-se num comunicado daquela estrutura, que admite que o voto pode não se fazer por “afinidade ideológica”, mas “é, sobretudo, um ato de responsabilidade, um juízo prudencial sobre quem oferece maiores garantias de estabilidade institucional, respeito pela separação de poderes, defesa das liberdades fundamentais e manutenção de Portugal no espaço europeu e atlântico que sempre foi estratégico para o nosso país”.

À hora a que se fechava esta edição, a página “Não socialistas por Seguro” já contava com mais de seis mil assinaturas, de figuras tão diversas como Duarte Marques, que foi diretor de campanha de Luís Marques Mendes, Carlos Carreiras, antigo presidente da Câmara de Cascais, Miguel Frasquilho ou António Lobo Xavier. “Temos decerto discordâncias ideológicas, mas sabemos que António José Seguro não atentará contra os valores democráticos e humanistas, nem contra os direitos, as liberdades e as garantias dos cidadãos”, dizem na carta que assinam.

Ventura é o Trump nacional?

A forma como Donald Trump está a dinamitar a separação de poderes e a atropelar direitos civis nos Estados Unidos ajuda a perceber esta união em torno de Seguro, como Paulo Portas deixou claro ao anunciar o voto no antigo líder do PS. “Também não quero um comandante supremo das Forças Armadas que se ponha a fazer política nas Forças Armadas”, disse Portas, frisando que “isso não é polícia, é milícia e eu não quero milícias dentro das polícias”, naquilo que pode ser lido como alusão ao ICE, a polícia anti-imigração dos Estados Unidos que anda a “atirar a matar”, como o deputado do Chega Pedro Pinto defendeu que a polícia portuguesa devia fazer, quando comentou a morte de Odair Moniz às mãos da PSP.

Assunção Cristas Com Paulo Portas, Chicão e José Ribeiro e Castro, é a quarta ex-líder do CDS a apoiar Seguro, “embora sem entusiasmo”..

No PSD há quem tema mesmo que André Ventura possa esticar ao limite os poderes presidenciais, para tentar pôr o Chega no poder. E os próprios dirigentes do partido de extrema-direita já assumiram que Ventura poderá, como Presidente da República, presidir a Conselhos de Ministros (embora isto, segundo a Constituição, só possa acontecer a convite do primeiro-ministro).

Enquanto António José Seguro vai somando notáveis de direita à sua lista de apoios, André Ventura tenta fazer da ausência de nomes de peso um trunfo eleitoral. “Nós sabíamos que na segunda volta se iam juntar todos contra mim e todos contra aquele que é o único que quer fazer mudanças no sistema”, disse o candidato, que já fez cartazes onde se apresenta como um homem só. “Quando estão todos contra um homem, é porque está no caminho certo”, lê-se nos outdoors que já estão nas ruas.

O risco de Seguro

“A campanha de António José Seguro é: ‘Eu já ganhei, eu não preciso de mais ninguém, eu posso desprezar o País, as pessoas comuns, a informação, as redes sociais e imprensa. Eu não preciso de mais nada’”, atacou Ventura, que se tem multiplicado em entrevistas televisivas, aproveitando todo o palco mediático, ao mesmo tempo que lamenta ter tido apenas um debate contra o seu adversário.

Se António José Seguro passou a primeira volta a tentar apresentar-se como o único candidato acima da lama, a estratégia nesta segunda volta não é muito diferente. Seguro tenta aparecer já em pose e tom de Presidente e evitar erros. Mas sabe que uma das suas maiores dores de cabeça pode ser a ideia de que a sua vitória está garantida e por muitos votos.

Desafiador Nunca uma campanha sua terá sido tão enfática a distinguir as elites do povo… Como a raposa da fábula, perante uvas inacessíveis, despreza o apoio dos notáveis: “Estão verdes…”

Segundo uma sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e Público, António José Seguro tem 70% das intenções de voto, contra 30% para André Ventura. “Há pessoas que me dizem ‘está ganho’. Não está ganho porque as sondagens não elegem presidentes”, frisou Seguro, sem hesitar em admitir estar “preocupado” por ter uma sondagem tão favorável que se pode virar contra si.

Nestas eleições, sendo André Ventura o líder do maior partido da oposição no Parlamento e estando o País completamente virado à direita, a vitória de António José Seguro não basta. É preciso ganhar por muitos. Por um lado, para dar legitimidade política a Seguro e à narrativa de que é o “Presidente de todos os portugueses” – muito embora o autor dessa frase, Mário Soares, tenha tido uma primeira vitória tangencial em 1986. Por outro lado, para dar a ideia de que André Ventura e o seu líder atingiram o seu patamar máximo de crescimento. Uma ideia que tem sido avançada por muitos analistas, mas que está longe de ser provada. A prova far-se-á na contagem dos votos de 8 de fevereiro.

Um movimento sexy?

Embalado por 900 mil votos, João Cotrim Figueiredo lança um objeto politicamente não identificado: “Um movimento cívico apartidário”

Com Mariana Leitão Líder da IL acha bem que o Cotrim continue a “andar por aí”

João Cotrim Figueiredo perdeu, segundo as sondagens, 20% dos votos na semana horribilis do final da primeira volta das eleições presidenciais, marcadas por uma acusação de assédio sexual, que desmente “completamente”, e pela ideia, também já desmentida, de que poderia votar em André Ventura numa segunda volta. Esses passos em falso não apagam, porém, a ideia de que a segunda volta chegou a estar ao seu alcance e de que, apesar de tudo, conseguiu cerca de 900 mil votos, muitos deles vindos diretamente da AD.

É a pensar no que fazer com essa força – muito superior à que alguma vez a IL conseguiu nas urnas – que Cotrim Figueiredo se recusa a sair de cena. E isso não significa só que continuará ser eurodeputado, mas também não significa (pelo menos por agora) que tenha intenção de voltar à liderança da Iniciativa Liberal. Para resolver a equação complicada de se manter na crista desta onda de popularidade sem estar a ser oposição à líder liberal, Mariana Leitão, João Cotrim Figueiredo criou “um movimento cívico apartidário”: o Movimento 2031.

Para já, é difícil perceber o que fará este movimento. No site, há apenas um manifesto assinado por Cotrim e a possibilidade de inscrição. No Instagram (onde tem mais de 220 mil seguidores), João Cotrim Figueiredo – que não esteve disponível para falar com a VISÃO – vai dando conta das adesões: “Em apenas 17 horas já temos 10 mil candidatos a membro”. Curiosamente, “membro” é a forma como a IL designa os seus militantes.

Mariana Leitão não dá, porém, sinais de estar preocupada com a ideia de Cotrim correr em pista própria. “Vejo como uma iniciativa necessária, sem dúvida que estas eleições presidenciais mostraram que há um conjunto de pessoas que quer mudança, que quer reformas e, portanto, faz todo o sentido (…) que haja um movimento que, no fundo, vá ao encontro destas pessoas”, disse, citada pela agência Lusa.

Cotrim em ‘tournée’ pelo País

O que parece certo é que João Cotrim Figueiredo andará por aí. “O Movimento irá mobilizar a energia de cidadãos, através de comunidades e eventos pelo País, e dar voz a um grande espaço na sociedade civil que não quer deixar Portugal parado, nem permitir que ande para trás”, lê-se no site, onde à pergunta “para onde queremos levar Portugal?” se responde “em frente” – a coligação PSD/CDS nos tempos de Passos e Portas era Portugal à Frente – e se evitam grandes proclamações ideológicas, ficando-se apenas pelo apelo a um “espírito reformista” e pela afirmação da necessidade de “defender as nossas vidas contra autoritarismos e políticas públicas de estagnação”.

João Cotrim Figueiredo assume que irá fazer oposição, ao afirmar que será “muito exigente com qualquer que seja o governo em funções”, apesar de durante a campanha ter mostrado apoio a algumas das reformas do Governo, incluindo a do pacote laboral. Mas rejeita a ideia de que daqui possa nascer um novo partido, por achar que “não seria útil”, uma vez que “já há fragmentação suficiente”.

No recente debate presidencial, António José Seguro chamou a atenção para um problema concreto do Serviço Nacional de Saúde que milhões de portugueses conhecem bem: o percurso fragmentado entre consulta médica, análises ao sangue e decisão clínica. Um processo que obriga a sucessivas idas ao médico, consome tempo clínico e atrasa respostas que poderiam ser dadas de forma muito mais eficiente.

Falou, sobretudo, do desperdício de tempo. Tempo do doente, tempo do médico, tempo do sistema. E colocou a pergunta certa: porque é que não existe um modelo integrado em que os resultados laboratoriais chegam diretamente ao médico, são analisados com apoio tecnológico e permitem uma decisão em tempo útil?

Esta pergunta é incómoda porque a resposta também o é. O problema do SNS não é apenas falta de recursos, nem falta de profissionais qualificados. É, em grande medida, um problema de desenho do sistema. Um sistema que se habituou à fragmentação, à redundância e a uma pesada carga administrativa que consome tempo clínico, sendo este um recurso escasso e valioso no setor da saúde.

É neste contexto que importa clarificar o papel da tecnologia e, em particular, da inteligência artificial na saúde. Como afirmou António José Seguro no debate, “quando a IA é colocada ao serviço da saúde, dispensa os médicos de trabalho burocrático e faz com que eles se concentrem no essencial, que é atender os doentes”. Essa deve ser precisamente a missão da tecnologia: apoiar a decisão clínica final, organizando e integrando informação relevante, reduzindo redundâncias e permitindo decisões mais rápidas e consistentes, sempre com o médico no centro do processo.

Atualmente, essa tecnologia já existe e não é apenas teoria. Em Portugal, estão a ser testadas, em contexto clínico real, soluções baseadas em inteligência artificial que conseguem reduzir drasticamente o tempo de processamento e interpretação de análises ao sangue, passando de horas para segundos. Este ganho de eficiência liberta tempo clínico e permite respostas mais rápidas aos doentes. Projetos piloto como os que estão a ser desenvolvidos pela BloodFlow, em colaboração direta com equipas médicas, demonstram que é possível integrar tecnologia no dia a dia da prática clínica com resultados positivos para uma maior eficiência no sistema de saúde.

Se o diagnóstico está identificado, importa perceber porque é que a execução continua a avançar de forma tão lenta. Uma parte relevante da resposta está na regulação. A Europa e Portugal em particular, vivem hoje um paradoxo em que se reconhece a necessidade de inovar para responder aos desafios da saúde, mas mantém enquadramentos que dificultam testar, validar e escalar essa mesma inovação em contexto real.

A modernização do SNS não se fará apenas com mais investimento ou com reformas que não têm impacto direto no setor em termos operacionais. Esta só se irá realizar quando tivermos a capacidade de reformular processos, integrar dados e criar enquadramentos que permitam aos profissionais de saúde trabalhar com ferramentas que os apoiem efetivamente no seu dia a dia.

O debate público deu um passo importante ao identificar o problema com clareza. O próximo passo exige decisão e execução. A questão que se coloca é simples: estamos preparados para passar do diagnóstico à ação? Ou continuaremos a reconhecer o problema enquanto o tempo clínico e a paciência dos cidadãos continuam a esgotar-se?

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

De onze candidatos se fizeram dois e, da noite eleitoral de 18 de janeiro, saiu uma final entre António José Seguro e André Ventura. Será uma escolha entre duas pessoas com percursos, idades e estilos de comunicação muito diferentes.

O primeiro, já com vários anos de experiência, esteve afastado da política ativa, mas regressa com um tom mais sereno e seguro. O segundo, ainda na casa dos 40 anos, tem tido um percurso crescente e opta quase sempre por um tom mais aguerrido, mesmo que, nas duas semanas antes das eleições, com as sondagens a darem-lhe boas hipótese de “ir à final”, tenha moderado um pouco o seu discurso.

O estilo não deve variar muito até ao decisivo dia 8. E é bom que assim seja. Em comunicação, convém ser fiel à sua personalidade, por muito que se possam estudar mensagens e posturas. As personagens acabam por cair, mais tarde ou mais cedo.

No que toca às mensagens, as armas estão escolhidas. Pelo menos para já. É que, ao sabor das opiniões dos votantes, algo pode mudar.

Seguro iniciou a semana seguinte à primeira volta numa longa visita a centros de saúde e a “exigir resultados” na Saúde, no seu primeiro mandato. Está bom de ver que este será tema central. Não admira, é um setor no qual têm existido crises e que apela a todos.

Já Ventura parece apostar na colagem de António José Seguro ao passado do PS, nomeadamente recorrendo a uma fotografia antiga onde o seu adversário está ao lado de José Sócrates e António Costa. O principal objetivo? Pô-los aos três no mesmo saco, que, para ele, é claramente negativo, remetendo a tempos aos quais o país não quer regressar.

Seguro parece apostar numa pose de estado, condizente com a imagem que temos de um Presidente da República. Ventura volta ao papel de challenger, dando voz àqueles que querem uma limpeza.

Há público e espaço comunicacional para os dois. Que comece o duelo por Belém.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


Criado para espicaçar a curiosidade turística, a frase acabou por se converter numa profecia amarga e literal na última semana. Após a região ter sido fustigada pelo fenómeno meteorológico mais violento de que há registos, percebemos que, para quem decide o destino da nação, Leiria é, de facto, uma inexistência.

​A ironia atingiu o auge no dia seguinte à tragédia. Recebi uma chamada da minha mãe, alarmada com as imagens que via na televisão. A preocupação dela centrava-se em Lisboa, onde os media relatavam os prejuízos provocados por ventos de 80 km/h. Tive de lhe explicar, entre o espanto e a indignação, que o Centro do País tinha enfrentado rajadas de 170 km/h. Os media, porém, pareciam sofrer de miopia geográfica: o País real termina onde as redações deixam de ter sinal de Wi-Fi.

​Nesse momento, “caiu-me a ficha”. Estávamos perante a reedição de um guião antigo e viciado. O interior, ou tudo o que não orbita a Grande Lisboa e Porto, foi, mais uma vez, relegado para uma nota de rodapé.

Enquanto os autarcas desesperavam por auxílio, o Governo perdia-se em vídeos promocionais para simular trabalho, enquanto o Presidente da República, outrora o paladino da exigência com governos PS, parecia ter agendado a exigência e a proximidade para uma data mais conveniente.

​O silêncio institucional foi ensurdecedor. Como confidenciou Pedro Santana Lopes, o Governo nem se dignou a contactar os autarcas no terreno. Foi preciso um candidato à Presidência, António José Seguro, chegar ao local de forma discreta e sem o aparato da “máquina” para que o diálogo com quem sofre começasse.

Ainda hoje mais de 200 mil pessoas estão sem energia, sem água, sem banho e refeições quentes, sem sinal de estado nem da empresa privada a quem este vendeu a rede elétrica nacional. Continua a não ver o exército e os seus geradores, nem uma palavra do primeiro-ministro. Primeiro-ministro esse que já agradeceu às seguradoras. 

​Quando a comitiva finalmente chegou, o cenário beirou o surreal. O primeiro-ministro visitou Leiria e Coimbra blindado por uma caravana de nove carros vindos da capital. Foi a “Capital” a visitar a “região que não existe”. Fica o amargo de uma certeza: se Lisboa tivesse enfrentado ventos de 208 km/h, o País teria parado e o estado de emergência teria sido declarado em minutos.

​A tragédia da região centro é o sintoma de uma doença maior. Um país que ignora, negligencia e desvaloriza 80% do seu território é um país condenado à macrocefalia e ao declínio. A poeira mediática vai assentar, os nove carros já regressaram ao conforto de São Bento e Leiria voltará a não existir. Até à próxima tempestade, onde voltaremos a descobrir, com surpresa, que Portugal é muito mais do que os limites da CREL.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Vivemos tempos em que as grandes questões sociais já não cabem em discursos confortáveis nem em fórmulas teóricas. A justiça social, muito evocada nestas eleições presidenciais, exige menos retórica e mais responsabilidade coletiva. Onde estamos, para onde caminhamos e que futuro queremos construir enquanto sociedade?

A justiça social não é, nem deve ser encarada, como um ideal abstrato ou um exercício retórico. Pensar nela é pensar nas suas dimensões concretas – o acesso universal à educação, ao trabalho digno, à saúde, à habitação, à proteção social e à justiça – e na forma como estas se articulam na vida e no quotidiano de cada um de nós.

Neste plano, Portugal parece ainda estar distante de um ideal plenamente realizado. De acordo com o Rule of Law Index 2025, o País ocupa o 29.º lugar (pontuação aproximada = 0,67) entre 143 países avaliados, posicionando-se abaixo da média europeia (0,73) – um sinal claro de que há fragilidades estruturais que não podemos ignorar nem subestimar. Este cenário não invalida, porém, a existência de progressos em áreas fundamentais. No que diz respeito, por exemplo, ao combate à pobreza e à exclusão social, o país tem seguido uma trajetória positiva. Apesar disso, os números continuem a merecer uma reflexão – há mais de dois milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, revela o relatório Portugal – Balanço Social 2024.

É precisamente neste contexto que o papel das transferências sociais surge como determinante, funcionando como mecanismos de proteção social e garantindo condições mínimas de dignidade. Sem elas a taxa de risco de pobreza subiria de forma significativa, podendo atingir os 41,8%, e as desigualdades económicas sofreriam, consequentemente, um agravamento, indica o mesmo relatório. No entanto, o impacto destes benefícios, embora determinante, não é suficiente por si só. Persistem fragilidades estruturais como o trabalho precário, os baixos salários e vários obstáculos que se colocam a pessoas em situação de maior vulnerabilidade, impedindo a sua inclusão plena. Estas realidades condicionam o chamado “elevador social” e limitam, de forma mais abrangente, a capacidade do Estado de desenhar e implementar respostas verdadeiramente eficazes. A este desafio relacionado com a elaboração de políticas públicas soma-se a escassez de dados fiáveis e atualizados, que compromete a decisão política, empobrece o debate público e abre espaço a leituras simplistas, perceções distorcidas e discursos polarizadores.

Este fosso criado pelas desigualdades cada vez maiores que existem entre os cidadãos está a contribuir para a polarização que é hoje um desafio global, representando um risco à coesão social, o que torna ainda mais urgente abordar com seriedade e responsabilidade temas como a migração, as desigualdades económicas e a identidade cultural. Isso só é possível reconhecendo que, historicamente, a justiça social nunca nasce fora de um sistema, mas que tem como base um contrato social, em que é estabelecido um conjunto de regras e princípios que nos permitem viver em sociedade. Tal como acontece na natureza, em que os sistemas que sobrevivem são os mais adaptáveis e resilientes, o mesmo deve acontecer com o nosso modelo social: tornar-se adaptável e resiliente, de forma a ser capaz de responder aos desafios do presente e do futuro.

No entanto, quando os sistemas políticos deixam de oferecer respostas credíveis, essa capacidade de adaptação é comprometida, abrindo espaço para a descrença na governação e o surgimento de sentimentos antissistema. É neste contexto que a educação, os valores e o papel da sociedade civil se tornam centrais. Como podem as novas gerações crescer de forma saudável num ambiente marcado pela polarização, pela desinformação e pela perda de confiança nas instituições? Vão conseguir manter-se informadas e comprometidas com os valores democráticos?

A resposta passa, sem dúvida, por criar verdadeiras comunidades capazes de acolher perspetivas diversas e promover o diálogo. Através da comunicação e da interação constrói-se um common ground, e é nesse terreno comum que a comunidade gera confiança – o alicerce não só das relações entre as pessoas, mas também da legitimidade das instituições democráticas que compõem o próprio sistema.

Resiliência, capacidade de escuta, empatia e compromisso coletivo não são valores abstratos, são competências essenciais para reconstruir a esperança. Porque sem esperança, não há coesão e sem coesão, não há justiça social. Como Jane Goodall – cientista, ativista e referência em empreendedorismo social – nos lembra, não basta reconhecer as dificuldades, é preciso agir sobre elas. E Portugal não pode esperar mais. Se queremos justiça social de verdade, é hora de sermos bem mais ambiciosos do que temos sido até então. Temos de financiar, apoiar e escalar iniciativas que realmente transformem vidas e temos de fazê-lo com uma lógica de longo prazo.

As transferências sociais são fundamentais, mas estas só serão verdadeiramente transformadoras se forem acompanhadas de outras medidas que permitam devolver a esperança e a dignidade a quem as perdeu. Precisamos de políticas sociais de longo prazo que tenham como base a ambição de que é possível transformar vidas de quem parte de um ponto de partida de grande desvantagem em relação aos demais. A ambição no mundo de hoje tem sido tradicionalmente associada a um modelo mais capitalista e a uma lógica de mercado, mas a mesma deveria existir quando pensamos no futuro dos mais vulneráveis. Na minha perspetiva, é uma questão de direitos humanos que desenvolvamos políticas sociais que garantam a todos a capacidade de não só sonhar, mas de que tenham realmente as condições para terem uma vida melhor. Estamos nós prontos para “menos teoria e mais ação”?

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

É hora de deitar os miúdos. E, claro, a rotina que idealizámos foi, mais uma vez, pelo cano abaixo. Ainda assim, há algo que eu (e muitos de vós) não dispenso: uma história antes de adormecer.

E aposto que não sou a única que se arrepende no exato instante em que dá ao filho a oportunidade de escolher o livro. Porque já sei o que aí vem: o MESMO livro de sempre. Aquele que eu conseguia contar de olhos fechados, ou de trás para a frente. Easy peasy.

Mas… e se este livro repetido até à exaustão estiver a fazer muito mais do que imaginamos?

A ciência tem algo curioso a dizer sobre estas escolhas repetidas, aquelas que nos fazem suspirar antes de abrir a capa. Sabemos que o contacto precoce com livros, e sobretudo o contacto frequente e continuado, está associado à ativação de áreas do cérebro ligadas à linguagem, à memória e até à forma como as crianças processam emoções. Nós, pais, estamos muitas vezes em piloto automático. Mas o cérebro dos nossos filhos está longe disso.

Não é surpreendente que estudos indiquem que as interações de leitura entre pais e filhos, especialmente antes dos 3 anos, se relacionem com um vocabulário mais rico e com um desenvolvimento da linguagem mais sólido, com impacto nas relações sociais e no percurso escolar. O que é mais interessante é isto: muitas vezes, esse impacto acontece precisamente quando a criança insiste em ouvir quase sempre a mesma história.

A repetição da mesma narrativa ajuda as crianças a aprender palavras novas com mais facilidade do que se ouvissem sempre histórias diferentes. Porquê? Porque, quando a história já é conhecida, o cérebro não está tão ocupado a “decifrar o novo” e pode concentrar-se no essencial: palavras, frases, ritmos, significados. Com o tempo, a criança começa a antecipar acontecimentos, a completar frases, a participar mais e a envolver-se profundamente na leitura.

E essa previsibilidade oferece-lhes algo fundamental: segurança emocional. Controlo. Conforto. Um lugar conhecido onde é bom estar.

Os pedidos insistentes não acontecem só com os livros. Muitos pais reconhecem o mesmo padrão quando a criança pede sempre a mesma música no carro ou insiste em ver o mesmo filme uma e outra vez. Não é teimosia. Não é falta de imaginação. É o cérebro infantil a procurar previsibilidade, a antecipar o que vem a seguir e a sentir-se seguro dentro do que já conhece.

Por isso, escolher o mesmo livro vezes sem conta não é um capricho: é uma estratégia inteligente do cérebro infantil para aprender de forma segura e confiante.

Talvez o “truque” não esteja em ter uma estante cheia, nem em apresentar novidades todos os dias. Talvez esteja em aceitar a repetição com paciência e em perceber que, muitas vezes, nós queremos acelerar o crescimento dos nossos filhos quando somos nós que precisamos de aprender a esperar por eles.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Se “AI slop” foi a palavra do ano em 2025 (condensando em quatro letras a submersão da internet pelo monte de tralha gerada por motores de busca como o ChatGPT), 2026, em menos de 30 dias, já tem um forte candidato ao prémio: “stablecoins”.

A palavra tornou-se familiar em 2025, quando Trump publicou o GENIUS Act. Posicionando-se como inovadora, a nova legislação regula um tipo de criptomoedas, cujo valor é contragarantido por dólares e títulos de dívida pública. Ou seja, o emitente deve assegurar que o valor entregue aquando da emissão da stablecoin é investido em depósitos bancários em dólares ou dívida pública emitida pelos EUA – os famosos T-Bills (Treasury Bills). Para a Administração Trump é uma forma simples de assegurar compradores para a dívida pública (sempre a crescer). Para o consumidor, dizem, uma forma simples e barata de efetuar pagamentos.

Por mencionar fica o risco para a estabilidade dos preços, nos EUA e no resto do mundo, incluindo aqui na Europa. Embora o GENIUS Act proíba os emitentes de pagarem uma remuneração direta aos titulares das stablecoins, não impede as plataformas, onde as stablecoins são transacionadas, de pagarem aos titulares uma “comissão”, algo como o cashback do cartão Continente. Na prática, o que emitentes e plataformas (que entre si negoceiam) têm vindo a oferecer é uma partilha do ganho que realizam com o juro pago pelas T-Bills.

Parece inócuo e justo, certo?

Tal remuneração torna a aquisição de stablecoins muito atrativa. Mais, aliás, do que um depósito bancário. Se são aceites como meio de pagamento e pagam uma remuneração (inclusive superior à de um depósito bancário), por que não comprar stablecoins ao invés de manter uma conta de depósito junto de um banco tradicional? Será como ter uma conta em dólares, independentemente do país em que se resida.

E, no entanto, tal possibilidade põe em causa a capacidade do Estado de controlar a inflação e de os bancos continuarem a emprestar à economia – não apenas às empresas, mas também ao cidadão comum que contrai empréstimos para comprar casa, carro, renovar a cozinha…

Os bancos intermedeiam a conversão dos depósitos em empréstimos. Tal implica uma estrutura para servir clientes, analisar risco, decidir a quem emprestar. Pessoas e sistemas para processar pedidos de crédito, cobrar dívida, prevenir a utilização do sistema financeiro por criminosos, etc. Menos depósitos, menos valor para emprestar a pessoas e empresas.

A par deste impacto direto, outro tão ou mais significativo: minar a capacidade dos bancos centrais de controlar a inflação. Se a massa monetária não está depositada junto dos bancos (que, por sua vez, recorrem ao banco central para depositar excesso de liquidez e contrair dívida para emprestar à economia), o Estado perde o seu principal instrumento de controlo da “moeda” em circulação. Numa situação de subida de preços, como recentemente aconteceu em 2022 e 2023 (e ainda não totalmente controlada), motivada pela disrupção das cadeias de fornecimento pós-pandemia e agravada pela guerra na Ucrânia (com um aumento do preço de matérias-primas e bem alimentares), sem um instrumento capaz de atingir a economia no seu todo, o risco é o de uma inflação descontrolada.

Europa e Canadá anunciam projetos de moedas digitais controladas pelos respetivos bancos centrais. Teme-se a perda de soberania económica – o Estado refém de big cryptos.

Também na economia, a Administração Trump adotou a filosofia das tecnológicas – move fast and break things – com a inovação e a experimentação a prevalecerem sobre a estabilidade e a cautela. Mais uma mina capaz de estilhaçar o sistema financeiro que sustenta as democracias ocidentais. Em Davos, o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, Ursula von der Leyen e Macron reconheceram o fim da ordem mundial pós-II Guerra, importa agora que tenham a capacidade política de, nestes e outros temas, agir com rapidez e resolução. Para tal é necessária uma opinião pública esclarecida e disposta aos sacrifícios que a nova ordem mundial impõe.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A independência do serviço público de rádio e de televisão face ao governo constituiu, desde o início do regime democrático, a principal preocupação relativamente à RTP inscrita na Constituição. E, ao contrário da generalidade dos países europeus, as primeiras experiências de regulação da comunicação social foram centradas na independência do seu setor público face ao poder político.

No entanto, nem essa prioridade do texto constitucional, nem essa originalidade da heterorregulação portuguesa impediriam que a RTP tivesse tido 24 diferentes conselhos de administração entre 1974 e 2002, que apenas dois deles tivessem cumprido o mandato até ao fim e que fosse então inevitável que, quando mudava o partido de governo, mudaria igualmente o Conselho de Administração e, logo a seguir, também os diretores de informação e programas. Ou ainda, como aconteceu com o governo PS-PSD em 1983 sem qualquer polémica, que o Conselho de Administração da RTP tomasse posse na residência oficial do primeiro-ministro perante seis membros do governo ou que, como se dispunha em 1981, o envio de um jornalista da RTP para uma reportagem no estrangeiro deveria ser previamente aprovado pelo governo…

A situação de hoje é, porém, bem diferente. Se analisarmos a evolução do modelo de governação da RTP nas últimas três décadas, concluiremos que foram realizadas alterações relevantes, como, nomeadamente, a criação, em 1992, de um Conselho de Opinião representativo da sociedade civil; a inamovibilidade, a partir de 2002, dos gestores antes do final dos seus mandatos; a criação, em 2014, de um Conselho Geral Independente, cuja principal competência consiste na escolha do Conselho de Administração; a atribuição de poderes ao regulador dos média, nomeadamente o parecer vinculativo sobre a escolha pela administração da empresa dos diretores de conteúdos; e o papel desempenhado pelos provedores da rádio e da televisão pública.

Malgrado estas alterações e a doutrina europeia, a garantia da independência da RTP face ao poder político continua a ser uma batalha inacabada. Recorde-se que, designadamente, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e o Conselho da Europa aprovaram nas últimas décadas inúmeros documentos assinalando a importância do serviço público de rádio e de televisão ou, como agora tem sido apelidado, o serviço público de média, constituindo a questão da independência do operador público face ao poder político uma das matérias mais sublinhadas.

O artigo 5º do recente Regulamento europeu relativo à Liberdade dos Meios de Comunicação Social, de aplicação direta em todos os Estados-membros, estabelece regras relativas às “Garantias para o funcionamento independente do serviço público de comunicação social”, incluindo não apenas procedimentos que terão de ser tidos em conta na nomeação das administrações da RTP – e igualmente da Lusa… –, como regras exigentes sobre o financiamento dos operadores de serviço público.

Relativamente à nomeação, estipula-se que os membros do Conselho de Administração deverão ser nomeados “com base em procedimentos transparentes, abertos, eficazes e não discriminatórios e em critérios transparentes, objetivos, não discriminatórios e proporcionados previamente previstos a nível nacional”.

Sobre a sensível questão do financiamento, determina-se que ele terá de garantir que os prestadores de serviço público de comunicação social deverão dispor de “recursos financeiros adequados, sustentáveis e previsíveis, compatíveis com o cumprimento da sua missão de serviço público e a capacidade de desenvolvimento” no âmbito dessa missão.

Esta norma não está a ser cumprida. No nosso país, apesar do montante da Contribuição para o Audiovisual representar, não apenas em valores absolutos, mas igualmente em percentagem do PIB per capita, um dos mais baixos da Europa, desde 2017 que não é cumprida a Lei de 2003, que prevê a sua atualização anual de acordo com a taxa de inflação. Isso representou já uma perda para a empresa de cerca de 174,8 milhões de euros. Se a CAV tivesse sido atualizada de acordo com a legislação, em vez dos atuais 3,02 euros por mês, em 2026 as famílias pagariam 3,72 euros, isto é, mais 70 cêntimos…

O aumento do número de contadores de eletricidade e uma clara contenção da empresa na sua política de conteúdos e em novos investimentos, mesmo que inadiáveis, têm evitado até agora o início de uma era de avultados prejuízos na RTP.

No entanto, face às previsões que, a curto prazo, apontam essa inevitabilidade, importa refletir sobre o modelo de financiamento.

A CAV poderia proporcionar um financiamento regular, previsível, de coleta fácil, que assegura maior independência face ao poder político do que as antigas indemnizações compensatórias. Um eventual aumento da publicidade comercial, que hoje representa menos de 10% das receitas da RTP, tal como de resto na média do conjunto dos operadores públicos dos países europeus, além de pôr em causa regras essenciais no quadro europeu que visam assegurar a independência face a interesses comerciais e uma saudável concorrência entre os operadores públicos e os operadores privados, constituiria uma péssima notícia para todo o setor da comunicação social, que tem sofrido com a crescente transferência de muitos anunciantes para os novos média.

Não querendo o poder político aumentar a Contribuição para o Audiovisual, mesmo alargando o elenco de consumidores que têm direito a uma redução para 1 euro, restará desta forma, se se pretender evitar um novo ciclo de resultados negativos e uma clara inaptidão da RTP para os desafios da era digital, encontrar, através de subvenções públicas inscritas no Orçamento do Estado, num quadro plurianual, previsível e adstritas, por exemplo, ao financiamento dos serviços regionais e internacionais, uma resposta complementar para esses desafios que se colocam ao Serviço Público de Média. Recordo ainda que o artigo 57º, nº 5 da Lei da Televisão estipula que o financiamento da RTP deverá ser previsto “num horizonte plurianual com a duração de quatro anos”, o que não tem acontecido…

O segundo aspeto que justifica uma reflexão está relacionado com a autonomia da gestão da empresa. De acordo com a legislação em vigor, aplicável às empresas do setor empresarial do Estado, compete ao governo, por exemplo, aprovar o Plano de Atividade e Orçamento, decidir sobre a contratação de novos trabalhadores e indicar o seu perfil, definir o Plano de Investimentos, aprovar os valores dos gastos com pessoal, entre outras decisões.

Desde 2013, a RTP está impedida de celebrar contratos de trabalho sem prévia autorização governamental. Esta limitação aplica-se à constituição de novos vínculos laborais, à conversão de contratos ou outras formas contratuais que envolvam encargos permanentes com pessoal, incluindo as meras cedências de interesse público. Depois do Decreto-Lei de Execução Orçamental de 2025, a RTP apenas pode proceder a novas contratações quando expressamente autorizadas no ato de aprovação pelo governo do Plano de Atividades e Orçamento da empresa. A título excecional, a RTP poderá ainda contratar se obtiver uma autorização conjunta dos membros do governo responsáveis pelas áreas das Finanças e da tutela da RTP.

A RTP tem capital público e está naturalmente integrada no setor empresarial do Estado, mas é o próprio artigo 38º, nº 6 da Constituição que estipula que “A estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação social do setor público devem salvaguardar a sua independência perante o Governo, a Administração e os demais poderes públicos”.

Importará, em nosso entender, refletir sobre o âmbito dessas garantias de independência da RTP face ao poder político, que não deveria cingir-se à designação da administração da empresa e aos poderes de que esta dispõe, partilhados por vezes com outros órgãos, sobre a designação dos diretores. A independência da RTP exige igualmente uma clara autonomia financeira e administrativa face ao governo.

— por Alberto Arons de Carvalho
Professor universitário e membro do CGI da RTP