As eleições presidenciais foram uma grande vitória da democracia, dos 50 anos da Constituição de Abril e do Presidente eleito António José Seguro.

No meio da tempestade que submergiu a campanha da segunda volta e dos apelos à desestabilização caótica que resultaria do adiamento das eleições, os portugueses responderam de forma veemente com uma grande participação no ato eleitoral com a votação de quase 5,5 milhões de eleitores em condições que para muitos exigiram a determinação de superar as inundações, a falta de eletricidade ou de comunicações.

Os receios de uma grande abstenção devido ao mau tempo, ao resultado previsível, ao desamor de alguns que não se sentiam representados na segunda volta e ao apelo à secundarização das eleições feito por André Ventura foram derrotados por um povo que desejou votar apesar de todas as adversidades, superando em cerca de um milhão de eleitores as votações de 2016 e de 2021 que elegeram Marcelo Rebelo de Sousa.

Os portugueses disseram que os 50 anos de democracia e de valores constitucionais valem a pena e devem ser ativamente defendidos contra tudo o que dificulta as nossas vidas e também contra a permanente gritaria populista que encharca quotidianamente o espaço mediático e as redes sociais.

Mas é, sem dúvida, uma notável vitória pessoal de António José Seguro que com quase 3,5 milhões de votos, que valem 66,8%, é o Presidente eleito com o maior resultado de sempre ultrapassando a maior percentagem num primeiro mandato, que era a convergência democrática que valeu a Ramalho Eanes 61,5% dos votos em 1976, e os históricos 3,4 milhões de votos de Mário Soares na sua imperial reeleição de 1991.

O resultado é tanto mais impressionante quando António José Seguro triunfa após 11 anos de total desaparecimento da vida pública, sendo um exemplo de resiliência perante as reservas iniciais de grande parte do PS, e as sondagens que o colocavam inicialmente muito longe da probabilidade de chegar à segunda volta. A assumida moderação, a recusa da gritaria, a opção por um modelo institucional na relação com os outros candidatos e a comunicação social, acabaram por se revelar poderosos ativos fazendo um contraponto com a permanente irrequietude e o ativismo mediático do Presidente cessante.

Luís Montenegro teve tudo para ser um dos vencedores da noite eleitoral juntando a voz da liderança do PSD, que se diz social-democrata, à derrota do populista que diariamente despreza os valores dos 50 anos de democracia e que tem por objetivo assumido destruir o PSD e substituí-lo no espaço político à direita.

Pelo seu calculismo frio, pela mediocridade de fazer tudo pela sobrevivência de curto prazo na ocupação do poder e pela incompreensível equidistância entre candidatos que não podiam ser mais contrastantes nos estilos e nos valores, Luís Montenegro é o grande derrotado da noite eleitoral. Acrescentou aos desastrosos 11% do seu candidato na primeira volta a diluição do seu campo eleitoral entre a vitória clara de António José Seguro, com o apoio de cerca de 3/4 dos eleitores de Cotrim, Gouveia Melo e Marques Mendes, que poderia ter reivindicado, e os mais 300 mil eleitores que experimentaram pela primeira vez o voto na extrema-direita.

Ao contrário da democracia-cristã alemã, dos liberais e dos gaulistas franceses e da direita democrática austríaca, que ficando em segundo lugar nas eleições fez uma “geringonça” com os socialistas e os liberais, Luís Montenegro, que governa em minoria, fragilizou o seu espaço de manobra político ao ser incapaz de optar pela democracia e pelos valores da tolerância.

O Presidente António José Seguro será o maior defensor da estabilidade e do cumprimento dos calendários eleitorais, sem os repentismos dissolventes de Marcelo Rebelo de Sousa, mas a incompetência na prevenção de riscos de calamidades, o caos da saúde ou as medidas que alimentam a espiral inflacionista nos preços da habitação terão um escrutínio severo a partir do Palácio de Belém.

Já na Assembleia da República, onde, sem qualquer vantagem política, contribuiu para a crispação social com o alinhamento preferencial com o Chega em matéria de migrações, nacionalidade, habitação ou benefícios fiscais para as grandes empresas, suspeita-se que o estilo de arrogância sem chão de um governo minoritário vai ter vida cada vez mais difícil como se verá já no debate sobre a teimosa reforma da legislação laboral.

O PS, em momento de alegria, com o seu terceiro líder a atingir a Presidência, foi decisivo na primeira volta mas não terá um caminho fácil na longa caminhada pela recuperação da liderança do espaço político, condicionado entre os previsíveis apelos do novo Presidente a consensos e compromissos com o Governo, em áreas como a da saúde, e a excitação de André Ventura em tentar capitalizar o descontentamento com o desgaste de Luís Montenegro, a generalizada incapacidade da equipa governativa e o esgotamento da margem de manobra para a distribuição de saldos acumulados e de brindes orçamentais.

As eleições presidenciais foram uma grande vitória da democracia e da tolerância sobre o populismo e o discurso de ódio, mas, pela sua dupla derrota, na primeira volta pelos resultados do seu candidato e na segunda pela recusa em escolher a defesa da democracia e os valores constitucionais, o prémio Laranja Amarga da noite eleitoral vai para o acossado calculismo de Luís Montenegro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Seguimos, há poucas horas, o que os mais otimistas já sabiam, e os pessimistas desejavam: todos os votos da esquerda, a que somaram os dos centros, e muitos da direita democrática, convergiram para a candidatura de António José Seguro.

O que vimos nas últimas três semanas, após a primeira volta desta eleição presidencial, com líderes partidários de quase todo o espectro, assim como dos candidatos presidenciais derrotados, a darem o seu apoio a Seguro, não é uma simples fuga a um mal menor, como muitos preferiram interpretar.

Esse largo apoio, que Ventura tentou capitalizar afirmando que todo o sistema estava contra si, não é apenas conseguido através da grande rejeição que o líder do Chega tem na maioria da população. Seguro não é esse mal menor, a única solução possível; nem é aquele que teve a sorte de passar a uma segunda volta quando todos sabiam que quem o conseguisse, conseguiria obter a vitória.

Não. É claro que também é isso, mas é muito mais. O resultado conseguido não é apenas a soma de parte de eleitorados da primeira volta, unidos contra um adversário comum. Este adversário comum, é-o porque o que une todos, e os contrasta com Ventura, é o posicionamento face ao regime: estabilidade e aprofundamento da Democracia, mais exigente, contra uma rutura de regime, com uma postura agreste e virulenta, criadora de feridas na sociedade.

Aliás, os laivos e tiques que nos mostram um desejo de poder autocrático, integrado no mesmo movimento que grassa um pouco por toda a Europa e muito devedor de Trump, foram um dos pontos mais fortes desta eleição, através de uma tomada de consciência cidadã, da esquerda à direita. Todos, no espectro democrático, se encontraram em Seguro como a imagem do diálogo, da ponderação e do equilíbrio, por oposição ao que Ventura representa e à forma como atua.

Esta eleição não foi pela Presidência da República, mas pela posição face à política, mais que ao regime. Ventura afirmou que todo o sistema estava contra si, mas não, não foi isso que se passou: o líder do Chega conseguiu uma quase unanimidade dos democratas contra o que ele representa. Em Seguro encontraram-se os democratas, aqueles que têm como denominador comum o livre pensamento, a afirmação da diferença, e o encontro no que diverge.

Não foi uma eleição presidência, mas um referendo à Democracia. E o vencedor foi claro!

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O País tem estado a ser fustigados nos últimos tempos pelas chuvas, vento e cheias. Muitos viram as telhas a desaparecer, telhados a colapsar, a água a entrar, os bens a serem arrastados, a incerteza do amanhã a chegar diariamente. Na escuridão da falta de esperança, desconectados do mundo cibernético e sem eletricidade, a ansiedade vai ganhando espaço. 

Quem o ouviu, não esquece, o uivo grave e áspero que agarrava tudo o que podia, projetando o que podia contra as casas e contra os carros, cujos alarmes ajudavam à distopia.

No cinzento do dia, troncos de pinheiros pareciam palitos cortados ao meio por um gigante. As árvores dobradas, como se tivessem sido pisadas por Gulliver, lembravam o rasto que deixamos na erva quando passeamos.

O ser humano tem a tentação de esquecer a natureza e o meio em que vive. Há preparações impossíveis para nos aprontar para todos os eventos do meio físico, como ventos superiores a 170 km/h… Outras há que sim, são possíveis, levando a que diariamente tenhamos de planear, preparar, executar e fiscalizar.  

Não construir em linhas de água ou em cima da praia são pequenos exemplos das múltiplas normas que fomos criando na sequência da necessidade de proteção de bens jurídicos indivisíveis como o ambiente, o património cultural, a saúde pública, a qualidade de vida ou o equilíbrio urbanístico. Nestes casos, a lesão atinge a coletividade como um todo.

Por compreender a relevância da defesa para a coletividade como um todo, determina a Constituição que estas questões não têm natureza privada ou de partes. 

O que explica que, no quadro constitucional, o Ministério Público tem o dever de defesa da legalidade democrática e promoção do interesse público designadamente quando estão em causa interesses públicos especialmente relevantes, direitos fundamentais ou interesses difusos/coletivos. 

Assim se compreende a presença e relevância do Ministério Público nos Tribunais Administrativos e Fiscais, nomeadamente para efeitos de impugnar atos administrativos, pedir a declaração de ilegalidade de normas, requerer a condenação à prática de atos administrativos legalmente devidos, promover providências cautelares e recorrer,

A clássica questão do fundamento para vivermos em sociedade tem em Aristóteles, Hobbes, Locke e Rousseau justificações diferentes, mas todos evidenciam a necessidade de ordem, a necessidade de cooperação e a realização humana.

A declaração de calamidade (Lei n.º 27/2006, de 3 de junho) é uma situação de carácter excecional para prevenir, reagir e repor a normalidade das condições de vida nas áreas afetadas e irá desaparecer sem que os problemas dos cidadãos afetados possam estar integralmente resolvidos.

Por isso mesmo, o Estado tem um papel essencial no desenhar do futuro. E neste nosso caminhar coletivo, o Ministério Público, com as suas funções próprias de garantia da legalidade e de representação do interesse público tem um papel essencial na defesa dos interesses difusos.

Com tantas notícias negativos nos últimos tempos, gostaria de evidenciar o auxílio mútuo e a proteção dos mais frágeis a que temos assistido, assente em movimentos espontâneos de cidadãos anónimos, familiares distantes, vizinhos ou associações de solidariedade social sem fins lucrativos, de que é exemplo o Ministério Público Solidário. 

Evidencia o que de melhor tem a natureza humana, na sua empatia e simpatia, partilhando os recursos que dispõem e um abraço fraterno que acalma.

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Escrevo-vos enquanto o vento e a chuva lá fora nos obrigam a recolher. Como Médico de Família, a minha preocupação nestes dias vai muito para além das consultas; foca-se na vossa segurança e na forma como cuidamos uns dos outros quando o tempo se torna uma ameaça.

Para atravessarmos este período com serenidade, deixo alguns conselhos práticos e diretos:

1. Informação em segurança

  • Esteja atento, mas sem pânico: É importante acompanhar as notícias e as orientações da Proteção Civil. No entanto, recorde que a eletricidade e a internet podem falhar a qualquer momento. Tenha à mão um rádio a pilhas ou a bateria. Em situações de isolamento, este continua a ser o meio mais fiável para saber o que se passa e o que deve fazer.

2. O isolamento é o maior perigo

  • Vigilância de proximidade: Se tem familiares ou vizinhos idosos que vivem sozinhos, o risco é maior. Como as redes de telemóvel e a luz podem falhar, não confie apenas numa chamada. Se for seguro sair, faça uma verificação presencial. Às vezes, o simples facto de ouvirem a voz de alguém ou sentirem que não estão esquecidos é o melhor “remédio” contra o medo e a desorientação.

3. Proteja a sua saúde em casa

  • Cuidado com o frio e a humidade: Manter o corpo quente é essencial para não agravar problemas de coração ou de respiração. Use várias camadas de roupa e tente manter-se seco.
  • Não facilite nos movimentos: Evite sair de casa sem necessidade. A maioria dos acidentes nestes dias acontece por quedas ou objetos que voam com o vento.

4. Gestão da medicação e segurança

  • Antecipe as necessidades: Confirme se tem quantidade dos seus medicamentos habituais para os próximos 5 a 7 dias. O isolamento ou o encerramento de serviços podem dificultar o acesso à farmácia.
  • Proteja a medicação: Mantenha as embalagens num local seco e elevado, longe de possíveis infiltrações. A humidade excessiva pode comprometer a eficácia dos comprimidos.
  • A lista de emergência: Tenha sempre uma lista escrita com o nome e a dose de todos os medicamentos que toma. Se precisar de assistência médica urgente, esta informação será crucial para nós.

Nesta fase, a prevenção e a entreajuda são as nossas melhores ferramentas. Esteja atento aos seus, mantenha o rádio por perto e lembre-se que a calma é meio caminho andado para a segurança.

Protejam-se e cuidem uns dos outros.

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Desafiado pelo mentor que acreditou nele no Dubai, o alentejano José Cabeça passou os últimos quatro anos a preparar-se na Noruega para um salto quântico na sua ambição olímpica. A mera participação, com que sonhou desde a infância até a concretizar em 2022, em Pequim, deu lugar a uma estrada para o impossível, que visa levar até ao topo de uma modalidade alguém que nela se iniciou tão tardiamente, como aconteceu com este natural de Évora no esqui de fundo. Estava prestes a completar 24 anos quando arrancou sozinho para França, onde passou mais tempo caído na neve do que a esquiar, mas hoje está aí para as curvas, convicto de que, dentro de “dois ou três anos”, estará em condições de discutir medalhas com os melhores do mundo, como desvenda nesta entrevista a partir de Oslo. Na sua segunda participação olímpica, a meta é fazer cair bastante a distância para os homens da frente, sobretudo nos 10 km, mas também na prova de sprint (1,5 km).

Contraste Depois da estreia-relâmpago em 2022, em Pequim, o português passou quatro anos a evoluir ao lado do seu treinador norueguês

Como é que um jovem de Évora se lembra de praticar esqui de fundo?
Tudo se deve à minha loucura de querer ir aos Jogos Olímpicos, desde muito pequeno. Em 2018, estava a ver na televisão os Jogos Olímpicos de Inverno e deparei-me com a modalidade. Era um pouco como o triatlo, que eu praticava. Damos tudo de nós e chegamos ao fim mortos, por assim dizer. Sentado no sofá, disse para a minha mãe: “Vou ver se é possível começar a fazer este desporto para tentar ir aos próximos Jogos Olímpicos.” Ela olhou para mim e respondeu: “Não te chega o triatlo? Nós nem temos neve.”

A sua mãe estava certa.
Ela sempre apoiou tudo o que eu quis fazer, desde o karaté ao triatlo, passando pela natação. Depois da conversa sobre o esqui de fundo, estive cerca de dois anos a tentar saber mais. Em 2019, tive os meus primeiros roller skis, a versão de verão do esqui de fundo, uma espécie de patins mais compridos para simular os esquis. No início do ano seguinte, peguei no carro e fui sozinho à descoberta para a neve, em França. Aluguei um quarto a um amigo de uma pessoa conhecida e experimentei o esqui de fundo, com material comprado online. Sem treinador, demorei duas horas a fazer dois quilómetros, o que significa mais ou menos que não me mexi do sítio. Passava mais tempo no chão do que a esquiar.

Recorda-se de nevar em Évora?
Acho que foi em 2006 que a escola esteve fechada e fomos brincar para a neve, aí até meio do dia, porque depois começou a derreter. Longe de mim, nessa altura, pensar que a minha ida aos Jogos Olímpicos teria qualquer coisa a ver com neve. Nunca mais nevou tanto.

Já pensava em participar nos Jogos Olímpicos na escola primária?
Desde que me lembro de fazer desporto, pensava em Jogos Olímpicos. Fiquei triste por saber que o karaté, que fiz dos 6 aos 12 anos e no qual fui campeão nacional, não era modalidade olímpica. Só viria a ser nos Jogos de Tóquio, em 2021, e eventualmente poderia lá ter chegado nesse ano, mas a vida dá muitas voltas e levou-me por outro caminho.

Desistiu do karaté por não ser olímpico?
Não. Aos 12 anos, também fazia moto4 e tive um acidente grave, em que fui abalroado por uma camioneta. Perfurei o baço, fiz hemorragias nos intestinos e na bexiga e fiquei várias semanas no hospital. A conselho médico e por vontade da minha mãe, parei com a moto4 e com o karaté, porque era muito perigoso o combate. Enquanto recuperava, realizaram-se os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e foi aí que colei o sonho de ir aos Jogos a uma modalidade. Deitado na cama, vi o Michael Phelps ganhar oito medalhas de ouro e disse: “Vou começar a nadar.” Infelizmente, o meu corpo não colaborou, porque não sou propriamente alto, mas a natação ajudou-me bastante.

O que o fascina na maior competição desportiva?
Estão lá os melhores. Ser campeão olímpico é algo sobrenatural. Não é possível comprar e não é possível atingir a não ser que seja um processo de uma vida. Mesmo se fizermos tudo certo, nesse momento tem de estar tudo alinhado e temos de ter sorte, nada pode correr mal. É a excelência. É muito complicado dizer o que aconteceu na minha cabeça aos 6 anos para já querer ir aos Jogos Olímpicos, mas acho que foi um bocadinho a minha imaginação de conseguir ser um dos melhores do mundo.

Houve algum português que também o inspirou, em 2008?
Tivemos o Nelson Évora a ser campeão olímpico, claro que me inspirou. Nunca pensei em fazer qualquer tipo de saltos. Ainda fui bom a correr, mas no primeiro corta-mato da escola fiquei em último. No ano a seguir é que ganhei. Não interessa se fiquei em último. Se quiser, vou ser primeiro. Claro que não é tão fácil de fazer no esqui nem no nível em que estou agora, porque todos pensam da mesma maneira. Os atletas olímpicos nem parecem humanos. Parecem inalcançáveis. Mas eu sou bastante perfeccionista. Não foi por falta de esforço que não fui olímpico na natação e no triatlo. Estive mais perto no triatlo, mas não o suficiente. Pelo esqui de fundo, posso fazer alguma coisa mais interessante.

Como foram os primeiros tempos no esqui, à beira dos 24 anos?
Disse a toda a gente, antes sequer de tocar em esquis, que ia aos Jogos Olímpicos de 2022 nesta modalidade. Faltavam dois anos e tive inúmeras pessoas a rirem-se na minha cara. “Tu és avariado da cabeça”, diziam-me. “É impossível. Tu não sabes fazer, nunca fizeste, como é que vais conseguir?” Ao fim de dois meses em França, em 2020, onde aprendi a esquiar só a ver os melhores no YouTube e a tentar copiá-los, apareceu a pandemia da Covid-19 e viajei para o Dubai no último voo possível.

Porquê o Dubai?
Um amigo estava lá a preparar o Campeonato do Mundo de Triatlo e ofereceu-me a possibilidade de ir com ele enquanto durasse o confinamento, porque em qualquer parte do mundo era praticamente impossível treinar. Fiquei três meses e regressei a Portugal em junho de 2020, sem qualquer expectativa de voltar. No Dubai, teria de trabalhar e seria impossível ser atleta, mas em Portugal o dinheiro também não era infinito. Portanto, a minha carreira desportiva estava mais ou menos terminada. Um dia antes de uma prova de triatlo, recebi um telefonema com uma oferta de trabalho para ser personal trainer no Dubai. Não era fácil. Cheguei a ser treinador de natação em Rio Maior, e o meu salário rondava os €200 por mês, nem dava para pagar o quarto alugado. Com esta proposta, ia finalmente conseguir sustentar-me, mas fui um bocadinho assustado, sem ter muitos conhecimentos lá.

O seu amigo estava ligado à proposta?
Não diretamente. Quem me ofereceu trabalho soube que eu estive lá por via da pessoa para quem o meu amigo trabalhava como personal trainer, que era o que eu sabia fazer, também. Numa conversa de café, essas duas pessoas mudaram a minha vida. A pessoa para quem fui trabalhar é das melhores que conheci até hoje. Praticamente tudo o que fiz no esqui foi por causa desse senhor. Gostou do meu projeto e da minha loucura de querer ir aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. “E tu achas que é possível?”, perguntou-me. “Vou fazer com que seja possível”, respondi. Em dezembro de 2020, abri a minha vaga para o Mundial e, um par de meses depois, no Mundial, abri a vaga olímpica para Portugal, que confirmei no outono de 2021. Quando isso aconteceu, o meu chefe desafiou-me: “Já vi o que conseguiste fazer sem treinador, sem neve, sem nada. Agora, arranja um treinador e ele que te diga o que é necessário.”

Isso tudo a partir do calor do Dubai?
Por causa do poder que ele tem no país, consegui treinar na pista interior de esqui alpino antes do horário de abertura. Não era perfeita para esqui de fundo, mas era qualquer coisa. Dava para subir e descer, uma vez por semana. Quando ele me falou do treinador, enviei cerca de 50 mensagens a equipas na Noruega, porque os melhores são os noruegueses. Uma seguiu para um laboratório de treino em Oslo e tive a sorte de me responder o dono, que ainda hoje é o meu treinador e há de continuar a ser. Expliquei-lhe o meu percurso, que tinha começado a esquiar em 2020 e que não queria ser apenas um português nos Jogos Olímpicos. Queria realmente saber esquiar. Pediu-me um vídeo e demorou cerca de meia hora a responder. “Tens a certeza de que não estás a mentir? Nunca tiveste um treinador?” Respondi que não estava a mentir, a não ser que o YouTube contasse. Então ele disse: “Se isto é verdade e se tu aprendeste sozinho, vou ajudar-te.” Ele apresentou-me um orçamento, pedi desculpa e expliquei-lhe que não tinha poder monetário. Nessa noite, fui jantar com o meu chefe, que me perguntou pelo treinador. Disse-lhe que era muito complicado e ele perguntou qual o preço. Informei-o que eram 20 mil euros. Resposta: “Feito. Eu ajudo-te.”

A escassos dois meses dos Jogos Olímpicos, passou a ter neve e treinador.
Fui para a Noruega e nunca tinha esquiado no estilo clássico, no qual ia decorrer a minha prova. A qualificação realizou-se na técnica de skate, que era a única que eu conhecia. A diferença é que na primeira é como andar em frente e na segunda avançamos com as pernas mais abertas, em ‘V’. Essa alternância nas provas é propositada, para que todos dominem as duas técnicas. Quando o Ragnar Bragvin Andresen me viu a esquiar no estilo clássico, pensou: “Onde é que eu me fui meter?” O meu nível era zero. Um dia, estava com ele na mesma pista da seleção norueguesa, eu a tentar fazer uma subida e o selecionador a rir-se com o adjunto. “É este que quer ir aos Jogos Olímpicos por Portugal? Nem chega ao final da primeira subida, quanto mais acabar a prova.” Continuei a trabalhar com o Ragnar, sem dúvida o melhor treinador do mundo em termos técnicos, e ele ajudou-me em tudo, inclusive disponibilizando a sua casa sem custos. Chegámos aos Jogos Olímpicos e terminei em 88º, de 99 participantes. Tinha sido o 98º da qualificação. O atleta que ficou em último tinha-me ganhado em todas as provas de apuramento. Nos Jogos, perdeu oito minutos para mim.

Técnica Treinos na neve melhoraram a habilidade neste ciclo olímpico e aproximam o eborense de um domínio perfeito dos esquis

Como foi a preparação nesse mês e meio?
Todos os dias tínhamos sessões em que íamos a esquiar juntos, ele a corrigir ao segundo os meus movimentos. Foi isto que me fez evoluir tanto e tão depressa. Além disso, todos os dias fazíamos vídeos, avaliávamos a técnica e ele dava instruções para o treino a seguir, caso não fosse estar presente. No final da prova olímpica, o selecionador nacional da Noruega, a mesma pessoa que se riu da minha falta de jeito, pediu-me desculpa. “Nunca vi ninguém a fazer uma evolução tão rápida neste desporto como tu. Muito bem!”

Valeu quase por uma medalha?
Naquela altura, sem dúvida. Eu era a pessoa mais feliz do mundo nos Jogos Olímpicos. O meu treinador descreve-me como uma criança numa loja de doces com dinheiro infinito. Ter uma pessoa desse nível de conhecimento, que trabalha com campeões olímpicos, a dizer-me que fiz um excelente trabalho, como ele nunca tinha visto em tão pouco tempo, deixou-me bastante feliz. Não foi uma medalha, eu preferia a medalha, mas, visto que fiquei a 11 minutos do primeiro classificado, essa foi a minha medalha.

O que fez o seu patrão no Dubai apostar em si?
A nossa relação é literalmente como pai e filho. Não sei porque acreditou em mim, mas viu alguma coisa que na altura nem eu via. Ele adora desporto. Foi profissional de golfe e é o dono da primeira equipa profissional de basquetebol dos Emirados Árabes Unidos, que entrou esta época na Euroliga. Antes, foi presidente de um clube de futebol. É uma pessoa com bastante poder económico, não podia ser de outra maneira, e um dia disse-me: “Zé, a partir de agora quero ajudar-te no que precisares. Tu pedes e eu dou-te.” No Europeu de Triatlo, que fiz como amador e terminei em segundo lugar, o quadro da minha bicicleta voltou partido para o Dubai e ele disse-me para comprar a melhor bicicleta, que não interessava o custo. Comprei um quadro por dois mil euros, claro que é muito dinheiro, mas uma bicicleta topo de gama custava cerca de €15 000. Quando me pediu o recibo, reclamou por eu ter comprado um quadro e não a “melhor bicicleta de todas”. Respondi-lhe que não merecia, que compraria a melhor quando eu fosse campeão do mundo. E fui.

Quando é que deixou de ser personal trainer dele?
Depois dos Jogos Olímpicos de 2022. Voltei para o Dubai e fui ter com ele para lhe agradecer tudo o que fizera por mim. Disse-lhe que, se quisesse, parava de fazer desporto de imediato. E ele vira-se e diz: “Olha, Zé, eu já não preciso de ti como personal trainer.” E eu pensei: “Oh pá, então agora perdi o emprego?!” Ele continuou: “Posso ter o personal trainer que quiser. Agora, a probabilidade de encontrar alguém como tu é muito difícil.” Perguntou-me qual era o meu objetivo nos próximos Jogos Olímpicos, só participar ou ser campeão olímpico. “Claro que quero ser campeão olímpico, mas não depende de mim, porque, por muito que trabalhe, no dia pode correr mal.” Ele insistiu: “Mas tu achas que tens capacidade de trabalhar o suficiente para um dia estares em posição de ser campeão olímpico?” “Acho!” Desde então, sou atleta profissional e temos um projeto até aos Jogos Olímpicos de 2034, onde espero acabar a minha carreira com uma medalha ao peito e muito feliz da vida.

Na edição de 2034, estará a menos de um mês dos 38 anos. Sabe que atleta português foi campeão olímpico aos 38 anos?
Eu sei, eu sei… Carlos Lopes.

Exatamente.
É possível. Não vou ser campeão olímpico no sprint nem nos 10 km, mas nos 50 km acredito piamente que é possível.

É a maratona do esqui de fundo.
Todo o meu processo de treino aponta para eu ser rápido o suficiente e ter a técnica para aguentar os primeiros 20 dos 50 quilómetros, depois ter a capacidade física para puxar o ritmo para deixar muitos atletas para trás, e no quilómetro final ter a potência suficiente para ganhar. Isto é um projeto que demora anos.

É curioso como essa estratégia é muito similar à seguida por Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de 1984.
Por acaso, nunca vi a maratona, mas temos o nosso plano muito bem delineado. O projeto chama-se Road to Impossible, a estrada para o impossível, porque, supostamente, é impossível para alguém que começou um desporto aos 24 anos. Sempre tive muitas pessoas a chamarem-me sonhador e cabeça no ar, mas a verdade é que eu tenho de ser totalmente louco, porque, se não fosse, não tinha aprendido a esquiar sozinho para ir aos Jogos Olímpicos. O meu treinador já me disse que se algum dia eu perder o emprego, ele tem outro para mim como treinador, porque eu sei exatamente tudo o que as pessoas passam do zero até serem boas. Eu não posso prometer a ninguém que vou ser campeão olímpico, mas posso prometer uma coisa: quando chegar a 2034, se não acontecer já em 2030, vou ter nível para disputar a prova e, se tudo correr bem e Deus estiver comigo, serei campeão olímpico.

É religioso?
Não muito, mas é claro que acredito em Deus. Quem mais me ajuda a criar a base para acreditar em tudo o que faço é o meu avô. Ele faleceu no dia em que me qualifiquei para os meus primeiros Jogos Olímpicos. Nunca soube se o meu avô ouviu que me tinha qualificado, mas ele sempre disse: “Ah, este rapaz há de fazer alguma coisa.” Ele é que me dá a força para trabalhar no máximo e ultrapassar os dias difíceis. Porque isto não são só rosas. Eu vivo sozinho e tenho muito poucos amigos aqui em Oslo. Estou cá há quatro anos e fui umas cinco vezes à cidade.

Porquê?
Porque a minha vida é do meu apartamento para o treino, do treino para o apartamento, do apartamento para a piscina, da piscina para casa. Eu vivo como um monge. Mas é a única forma.

Isso não poderá ser pouco saudável, até para alcançar os seus objetivos?
Enquanto eu estiver aqui, tem de ser. Tenho bastantes amigos, mas estão em Portugal e alguns no Dubai. Os noruegueses são muito fechados. Para lhes arrancar qualquer palavra é uma carga de trabalhos, mas eu meto-os a falar. Tenho aqui quatro amigos a quem posso ligar e com quem falo no dia a dia, mas, em termos de ir jantar fora, eu não bebo, não fumo e não me lembro da última vez que fui a uma discoteca. Fui uma vez jantar à cidade porque os meus pais vieram cá e o meu treinador quis levá-los a um restaurante.

Tem saudades das iguarias alentejanas?
Não vou a Portugal tantas vezes como gostaria, especialmente agora, antes dos Jogos. Juntamente com a minha família e com a minha namorada, decidi que a partir de setembro não haveria contacto pessoal. Falar, falamos todos os dias.

Então?
O meu pai tem uma loja, ou seja, atendimento ao público. A minha mãe trabalha para o Estado. E a minha namorada é assistente de bordo. Tudo trabalhos em que é praticamente impossível saber se a pessoa vai estar constipada ou não no momento em que estiver comigo. Este ano, não tive Natal nem passagem de ano, mas são coisas que tenho de fazer. É uma vez de quatro em quatro anos. Se tenho o privilégio de ir, no mínimo tenho de ser o mais profissional e fazer tudo para estar lá no meu melhor nível. Se não o atingi, foi porque ainda não tive tempo. Vou fazer tudo para que seja o mais perfeito possível e que, no futuro, possa fazer uma prova que deixe Portugal orgulhoso.

Que expectativas tem para as duas provas que vai disputar na edição deste ano, em Milão-Cortina? Espera um resultado melhor nos 10 km do que no sprint?
Sem dúvida. Não sou um sprinter. Vai ser a minha estreia em Jogos Olímpicos no sprint. O meu melhor resultado, comparado com os melhores do mundo, foi cerca de 48 segundos abaixo, no último Mundial. Se encurtar para 35 segundos, seria algo absurdo, porque tirar 13 segundos num ano devia ser impossível. Nos 10 km, sim, espero reduzir a diferença para metade, no mínimo. Adoraria ficar a cerca de três minutos do primeiro classificado, não faço ideia de que lugar isso dará. Vão ser 148 atletas em prova, em vez de 99. Vou estar na melhor forma da minha vida a esquiar e, dentro de dois ou três anos, quando chegar perto do auge em termos técnicos, vou conseguir treinar no máximo das minhas capacidades. Aí, sim, vou ser um atleta competitivo a nível mundial. Lembrei-me agora de outra história.

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Conte.
Aos 18 anos, numa prova de trialto, fiquei sem travões a descer. Numa curva, ao tentar saltar da bicicleta para a estrada, bati com o ombro num poste de eletricidade. Fraturei a clavícula e duas vértebras, fiquei um mês sem andar. Fui a quatro médicos. Os três primeiros disseram-me que não voltaria a andar como deve ser, muito menos fazer qualquer tipo de desporto. Ao terceiro, antes de sair na cadeira de rodas, disse-lhe que não só ia voltar a andar como seria chamado à Seleção Nacional de Triatlo dentro de um ano. Fui então ao quarto médico, o dr. Gomes Pereira, responsável pelo Comité Olímpico, que me disse que seria muito difícil, mas que era possível, se eu estivesse disposto a fazer o que ele me dissesse. Assim foi. Fiz seis meses de fisioterapia todos os dias, criei músculo para sustentar a coluna e regressei aos treinos oito ou nove meses depois do acidente. À segunda prova, recebi o telefonema do selecionador nacional a perguntar se estava preparado para representar Portugal.

Dá-se mal com a palavra desistir?
É melhor terminar em último do que desistir. Desistir fica para sempre na cabeça. Ficar em último é um lugar digno e passa.

Sente-se um sortudo?
A 100%. Sou das pessoas mais sortudas. Temos de ser sinceros, eu não estou ainda ao nível do topo mundial, mas tenho neste momento um apoio na minha carreira desportiva que alguns atletas muito mais perto do topo não têm. Portanto, sou muito agradecido e tento todos os dias trabalhar ao máximo. Se tenho esta sorte, tenho de fazer com que conte. Não pode ser simplesmente ir lá e marcar presença. Tenho demasiado apoio por parte de inúmeras pessoas, então tenho de chegar lá e ser o melhor que conseguir.

Tem algum patrocinador em Portugal?
Não. O único patrocínio de Portugal que tentei, mas infelizmente não sou grande o suficiente no Instagram para tal, foi o da Red Bull, porque qualquer atleta que seja patrocinado por eles é dos melhores do mundo. Ainda acredito, apesar de ter quase 30 anos e de Portugal poder pensar: “Mas porque raio vamos patrocinar este gajo que faz esqui de fundo, uma modalidade que nem sequer é popular em Portugal?” O que é verdade é que se eu conseguir mostrar que sou bom num desporto que não é em nada português, não sei o que poderá ser mais popular.

Já imaginou o título que gostaria de ver nos jornais?
De zero a campeão olímpico. Se eu conseguir fazer o que sonho fazer, acredito que vou ter um filme em Hollywood. Se o Eddie the Eagle, o primeiro britânico a saltar de esqui nos Jogos Olímpicos [em 1988], conseguiu e nem chegou sequer perto do nível de campeão olímpico…

É verdade que desenhou o equipamento da Seleção Nacional para estes Jogos Olímpicos de Inverno?
Sim. Desde pequeno que gosto bastante de desenhar e, em conjunto com a Federação [de Desportos de Inverno], fiz o fato de competição que vai ser utilizado por todas as modalidades e também desenhei o equipamento da Seleção Nacional de Esqui de Fundo que vai ser utilizado no futuro.

Deu-lhe um gozo especial?
Primeiro, gosto de parecer bem. O fato que utilizei na edição de 2022 já tinha sido desenhado por mim. Desta vez, fiz vários esboços num programa de desenho, e a Federação aprovou fazer a base do fato com azulejos. Ser português não é uma desculpa para ir aos Jogos Olímpicos de Inverno passear. Não interessa se temos neve ou não. Para mim, é chegar lá e demonstrar o máximo das minhas capacidades. Se puder fazê-lo bem vestido, melhor.

Os resultados desta segunda volta das Presidenciais são claros e concludentes naquilo que é mais importante: a esmagadora maioria dos portugueses continua a preferir a democracia e a recusar o radicalismo extremista.

António José Seguro foi o candidato que conseguiu personificar esse sentimento. Ao longo dos últimos meses, graças a uma campanha centrada na moderação e na afirmação do respeito pelos valores da Constituição, soube manter-se afastado do ruído, tantas vezes tóxico, que domina o debate político em Portugal. Dessa forma, acabou por aglutinar, no momento do voto, quase todos os que querem continuar a defender a democracia e um regime baseado na liberdade e no respeito pelos direitos humanos. E, mais importante ainda, ser recompensado por ser o único candidato que, de facto, tinha um discurso de unidade, em clara oposição ao de divisão, permanentemente gritado por André Ventura.

Em certa medida, a vitória de António José Seguro representa o triunfo de uma postura e de um discurso claramente em contracorrente com o estilo de debate e de combate político que, desde há uma década, se tornou norma em Portugal – e que explica, em grande medida, a ascensão de André Ventura.

Seguro recusou a crispação, os ataques constantes e o cavar de trincheiras em relação aos adversários. Mesmo quando as sondagens lhe davam apenas 6% dos votos como na noite da vitória, ele preferiu sempre o discurso positivo e o elogio ao País como comunidade. E, assim, indiferente aos prognósticos da bolha mediática e dos remoques de alguns barões das elites partidárias, acabou por consolidar uma imagem de homem de Estado, capaz de inspirar confiança, graças à humildade, a seriedade e, algo que, de facto, acabou por fazer a diferença no momento do voto: a decência.

Nesta peculiar eleição presidencial, António José Seguro acabou por demonstrar como se combate o extremismo e o crescimento do radicalismo de direita, representado pelo Chega: em vez de se deixar envolver no combate na lama, optou antes por elevar o nível do discurso e, acima de tudo, concentrar a sua atenção na grande massa de eleitores que, como se viu nesta segunda volta, continuam a defender a democracia e, com memória, não admitem que lhes digam que os “últimos 50 anos” foram um desastre para o País – como todas as estatísticas o podem demnonstrar.

O resultado está à vista. António José Seguro foi eleito com o maior número de votos de sempre numa eleição presidencial. E, contas feitas, teve mais do dobro dos votos de André Ventura – o homem que, no início da sua campanha, repetiu várias vezes que Portugal precisava de “três Salazares” para se poder endireitar. Foi exatamente isso que mais de dois terços dos portugueses rejeitaram nestas eleições. De uma forma esclarecedora: com os votos que obteve, Seguro teria derrotado até dois Venturas.

Condolências às famílias. As primeiras palavras do Presidente eleito foram de pesar. “Não vos esquecerei!” O outro candidato, André Ventura, passou por cima. Nem uma palavra. As eleições já acabaram.

A diferença é fatal e reveladora. António josé Seguro começou a trabalhar, no primeiro minuto em que, pela primeira vez, se dirigiu ao País. A sua prioridade é cuidar dos vivos. André Ventura já está noutra. A sua prioridade é liderar a direita.

António José Seguro bateu, em votos, o recorde de Mário Soares. Em percentagem, bateu, em primeiras eleições, o recorde de Ramalho Eanes, em 1976, com o apoio dos três maiores partidos dessa altura. Provavelmente, André Ventura irá desdobrar-se em entrevistas, durante a próxima semana. Nos estúdios de televisão, ocupou muito mais tempo de análise, com os seus 33%, do que o vencedor absoluto e batedor de vários recordes eleitorais, com 67 por cento. Isso prova que Ventura, de uma certa forma, ganhou.

No entanto, de uma certa forma, perdeu mais do que parece. Para além da derrota eleitoral – honrosa, à sua maneira, por ter batido a votação do PSD, do PS e do Chega, nas últimas legislativas… – teve uma clamorosa derrota política, de ordem estrutural. Foi graças a ele – e não apenas aos méritos, que os houve e muitos, do vencedor – que Seguro bateu os seus recordes. Como é que uma figura considerada, por muitos, cinzenta a e pouco empolgante, o patinho feio de um partido de origem que parecia rejeitá-lo, conseguiu estes números? A explicação está muito em André Ventura e na sua incapcidade de ser aceite por uma direita que, agora, erradamente, diz liderar. A pequena “vitória” de André Ventura é umbiguista e tacanha. A grande direita transferiu-se em peso para Seguro. Ventura lidera o quê? A rejeição impede o crescimento. E não consegue bater adversários que não polarizem. O problema de Ventura é estrutural.

O discurso de vitória de Seguro tem todos os méritos de uma grande peça oratória e é incomparavelmente melhor do que o seu discurso da primeira volta, que tinha sido desinteressante, repetitivo, monocórdico e burocrático. Agora, foi humilde na grandiosidade, empolgante na contenção, pragmático na elegância.

Nos últimos dias da campanha, prometeu que a sua primeira Presidência Aberta será na zona centro do País. Será um momento definidor. E é uma jogada de alto risco, onde se perceberá para que lado pende a Presidência, logo no seu início. Ou a cooperação estratégica com o Governo, ou a Presidência Aberta de Mário Soares na Grande Lisboa, que deu a machadada final no cavaquismo.. Será um momento de exposição das fragilidades do Governo, e da sua incompetência, ou das forças renovadas desse mesmo Governo, e da sua recuperação. António José Seguro dará a Montenegro uma segunda oportunidade de causar uma primeira boa impressão. O primeiro grande teste à coabitação.

Depois da expressiva vitória sobre André Ventura na segunda volta das eleições presidenciais, António José Seguro começou por centrar o seu discurso de vitória na tragédia que Portugal está a viver na sequência das sucessivas tempestades das últimas semanas, mas sublinhando que “a solidariedade dos portugueses foi heroica mas não pode substituir a responsabilidade do Estado”.

Depois de defender mais rapidez na resposta aos afetados, Seguro dirigiu-se aos seus oponentes nesta corrida a Belém: “A partir desta noite, deixámos de ser adversários”, com o “dever partilhado de trabalhar para um Portugal mais justo”.

“A maioria que me elegeu extingue-se esta noite”, anunciou.

Emocionado, o Presidente eleito repetiu “sou livre, vivo sem amarras”. “A minha liberdade é a garantia da minha independência”, insistiu, garantindo que servirá o País no seu “próprio estilo”. “Jamais serei um contrapoder, mas serei um Presidente exigente”, avisou. “Estarei vigilante, farei as perguntas difíceis”, continuou, antes de garantir que “em Belém, os interesses ficam à porta”, porque a sua transparência e a sua ética são, nas suas palavras, “inegociáveis”.

“A palavra do Presidente da República terá peso e consequência. Não falarei por tudo e por nada mas quando falar será para defender o interesse publico, garantir a identidade nacional e assegurar as condições do exercício da nossa soberania”, avisou ainda.

António José Seguro tornou-se este domingo o sexto Presidente da República eleito da democracia portuguesa, ultrapassando a barreira dos três milhões de votos expressos, algo que anteriormente só Mário Soares, António Ramalho Eanes e Jorge Sampaio tinham conseguido.

Na segunda volta destas eleições presidenciais, o antigo secretário-geral do Partido Socialista superou os três milhões de votos quando ainda faltavam apurar 42 freguesias e nove consulados, de acordo com os dados da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Dos mais de 11 milhões de inscritos, mais de 3,3 milhões votaram em Seguro, com André Ventura a obter mais de 1,6 milhões de votos, segundo os dados às 21:30, que apontavam para um abstenção próxima dos 50%.

Apenas outras quatro vezes desde 1976 um Presidente da República foi eleito com mais de três milhões de votos, sendo Mário Soares o único a consegui-lo por duas vezes, nomeadamente em 1991, naquela que foi a maior vitória em termos de percentagem e de votos de um chefe de Estado.

Na sua reeleição, 3.459.521 eleitores votaram em Soares, que venceu com expressivos 70,35%, uma percentagem que ainda hoje figura como a maior de sempre.

Antes, nas presidenciais de 1986, as únicas até hoje a terem uma segunda volta, o histórico líder socialista obteve 3.010.756 de votos (51,18%) no segundo sufrágio frente a Freitas do Amaral.

António Ramalho Eanes também foi reeleito com mais de três milhões de votos (3.262.520, ou 56,44%) em 1980, enquanto Jorge Sampaio recebeu 3.035.056 milhões de votos (53,91%) na sua primeira eleição, em 1996.

Esta foi a 11.ª vez que os portugueses foram chamados a escolher o Presidente da República em democracia, desde 1976.

O atual Presidente da República, eleito em 2016, é Marcelo Rebelo de Sousa, que termina o seu mandato em março de 2026.

Desde 1976, foram eleitos António Ramalho Eanes (1976-1986), Mário Soares (1986-1996), Jorge Sampaio (1996-2006), Cavaco Silva (2006-2016) e Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2026).

“Se se confirmarem estes resultados, coisa que farei dentro de minutos ou logo que tenha a confirmação dos dados, endereçarei ao doutor António José Seguro os meus parabéns, o desejo de um mandato muito bom em prol de Portugal e dos portugueses, que é sempre o que nos une”, declarou o candidato presidencial, numa primeira reação às projeções.

As projeções dos resultados da segunda volta das eleições presidenciais divulgadas hoje pelas televisões dão a vitória a António José Seguro, com entre 66,8% a 73%. Segundo as previsões das televisões, André Ventura obtém entre 27% e 33,2%.

”Quando o povo fala, o povo é soberano. Se o povo escolheu António José Seguro, é ele que será Presidente. E eu espero que ele seja um bom Presidente, porque o País precisa”, acrescentou.

O líder do Chega defendeu que é preciso saber a “distribuição exata do número de votos” para fazer “uma avaliação mais correta” dos seus resultados na segunda volta nas eleições presidenciais, mas salientou que “superar os 30%” dos votos é “um resultado que deve ser assinalado”.

“Tudo indica que esta candidatura poderá estar acima inclusive do resultado do Governo nas legislativas, isso significaria uma reconfiguração do espaço da direita e da liderança da direita, mas isso ainda está por demonstrar”, pontuou.