Certos romances clássicos sobrevivem ao tempo porque resistem às leituras ou porque aceitam ser violentamente reinterpretados pelo cinema ou pelas artes do espetáculo. Desde 1847 que O Monte dos Vendavais, o romance de Emily Brontë, se impõe como um manancial de sentimentos extremos: amor absoluto, obsessão, classe, exclusão, desejo que corrói tudo à volta. Talvez por isso continue a seduzir cineastas com vontade de o dobrar, distorcer ou mesmo trair. A versão agora realizada por Emerald Fennell rompe, mais uma vez, com os cânones. Entra de rompante, de salto alto e eyeliner carregado, e faz do romance gótico uma ópera pop sobre o nosso tempo: um tempo em que a intensidade vale mais do que a coerência e em que o sofrimento precisa de ser “representado” para existir.
Convém dizê-lo desde já: este O Monte dos Vendavais não quer ser fiel ao romance original. Quer ser sentido. Fennell já o assumiu sem rodeios: não adaptou o livro como ele é, adaptou a forma como o livro a fez sentir. A diferença não é subtil. Onde Brontë escrevia contenção febril, Fennell filma excesso. Onde o romance deixava espaços de silêncio, o filme preenche-os com textura, cor, música e corpo. É um cinema de superfícies assumidas, de grandes emoções, de imagens que se colam à pele. Pode irritar, pode soar a indulgência estética, mas há uma honestidade brutal nessa escolha: a realizadora sabe que não está a dialogar com o século XIX, mas com um presente saturado de imagens, narcisismo e desejo de validação.
O casting tornou-se polémica muito antes da estreia, como convém a qualquer boa tragédia contemporânea. Margot Robbie surge como Cathy não por distração, mas por decisão consciente. A antiga Barbie do cinema global, símbolo máximo de uma feminilidade hiperexposta, entra aqui numa versão gótica, febril e auto-consciente, carregando consigo todo o peso da sua imagem pública. Tem 35 anos a interpretar uma personagem escrita como adolescente? Tem. E isso faz parte do gesto. A Cathy de Fennell não é ingénua, não é inocente, não é apenas vítima. É uma mulher que sabe que está a ser olhada, desejada, julgada e usa isso como arma e como prisão. O famoso quarto forrado com papel de parede inspirado na textura da sua pele, com veias e sardas impressas em seda, não é uma excentricidade gratuita: é uma ideia visual poderosa sobre a forma como o corpo feminino continua a ser cenário, decoração e território de apropriação.
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Ao seu lado, Jacob Elordi surge como um Heathcliff reinventado para o nosso tempo. Já não o pária racializado e demonizado do texto original, mas um ícone de desejo tóxico, belo demais para caber na própria fúria. Elordi é menos personagem do que presença: um corpo magnético, um olhar carregado de ressentimento elegante, uma espécie de trauma premium em formato cinematográfico. A química entre os dois é real, intensa, quase indecorosa, e o filme vive muito dessa tensão física, dessa sensação constante de que o amor aqui não redime: consome. Não há romantismo casto; há suor, posse e um erotismo que flerta abertamente com o sadomasoquismo emocional e visual.
Formalmente, Fennell transforma o gótico rural num luxo artificial assumido. As charnecas dão lugar a interiores saturados, figurinos anacrónicos, tecidos exuberantes e uma mise-en-scène que parece saída de um editorial de moda em colapso nervoso. A banda sonora assinada por Charli XCX sela essa transposição: a tragédia romântica ganha batida eletrónica, sintetizadores, pulsação de pista de dança. Pode parecer um choque cultural, mas há coerência nessa escolha. O amor de O Monte dos Vendavais sempre foi excessivo, obsessivo, quase violento. Fennell limita-se a traduzi-lo para a linguagem de um século em que a dor também se consome como espetáculo e em que a intensidade emocional precisa de vir acompanhada de ritmo e volume.
Há, naturalmente, um lado um pouco auto-indulgente neste cinema. Fennell gosta do excesso, gosta de provocar, gosta de se ver a provocar. Já o demonstrara em Uma Miúda com Potencial, onde o comentário social vinha embrulhado num thriller venenoso, e em Saltburn, onde o privilégio era filmado como pornografia estética. Em O Monte dos Vendavais, esse gosto pelo choque atinge um novo patamar. Há momentos em que o filme parece enamorado de si próprio, da sua beleza, da sua capacidade de irritar puristas e incendiar redes sociais. Mas mesmo aí, mesmo quando roça o ridículo, nunca é um cinema cínico. Há crença real na força das emoções, por mais contraditórias que sejam.
As críticas vão dividir-se, como era inevitável. Uns falam de um filme hipnótico, inebriante, sensual, um novo clássico para o público contemporâneo. Outros acusam-no de superficialidade, de traição ao espírito original, de excesso vazio. Ambas as leituras são verdadeiras, e talvez o mérito do filme esteja precisamente aí: não procura consenso. Fennell filma para provocar ruído, discussão, desconforto. Num panorama cinematográfico cada vez mais domesticado, em que os remakes se comportam como visitas guiadas a museus, ver um clássico ser atirado para o centro do debate cultural com tamanha ousadia é, no mínimo, refrescante.
No fundo, O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell, é menos uma história de amor do que um ensaio visual sobre o nosso vício na intensidade. Cathy e Heathcliff não são modelos de paixão; são espelhos deformados de um tempo que confunde sofrimento com profundidade e desejo com identidade. Amam-se como quem se consome, como quem precisa de sentir qualquer coisa, mesmo que doa. E isso aproxima-os perigosamente de nós. Talvez seja essa a razão do desconforto que o filme provoca: não reconhecemos apenas Brontë ali, reconhecemo-nos a nós próprios.
Não é um filme perfeito, nem pretende sê-lo. É excessivo, discutível, por vezes descontrolado. Mas é vivo. E isso, hoje, já é uma qualidade rara no cinema feito e pensado para o grande público. Fennell não respeita o texto sagrado: colide com ele. Desenterra-o, reanima-o com o choque eléctrico do presente e devolve-nos uma criatura ou melhor uma obra híbrida, meio gótica, meio pop, totalmente intoxicante. Saímos da sala sem saber se assistimos a uma blasfémia ou a um gesto de liberdade artística. Provavelmente assistimos às duas coisas ao mesmo tempo. E é nessa ambiguidade, nessa tempestade emocional e estética, que este O Monte dos Vendavais encontra a sua razão de existir e tudo indica que será também um grande êxito junto do público.
Segundo o Comando Distrital de Leiria da Polícia de Segurança Pública (PSP), em declarações à agência Lusa, a vítima mortal tem 37 anos e o ferido, cujo estado era desconhecido, 40 anos.
Fonte da PSP adiantou que o trabalhador morreu eletrocutado e ambos trabalhavam para a empresa Canas, que está a prestar serviço à E-Redes na reparação de estruturas elétricas na sequência do mau tempo.
Também fonte oficial da E-Redes, a principal operadora da rede de distribuição de energia elétrica em Portugal Continental das redes de alta, média e baixa tensão, confirmou que as vítimas, um morto e um ferido grave, são funcionários da empresa Canas que estavam ao serviço da operadora.
A Europa apresenta-se como o continente que aprendeu com a História, como o espaço político que após duas guerras mundiais e várias outras coloniais abandonou definitivamente, no seculo XX, a lógica da dominação da exploração e da hierarquia dos povos. No entanto, como é claro para alguns, esta narrativa autoindulgente promovida pela UE e inúmeros políticos cai quando confrontada com a realidade da situação. O colonialismo europeu não é um fenómeno do passado, que se estuda nos livros de História. Ele persiste, adapta-se, muda de linguagem, mas mantém-se intacto nos seus princípios base: a negação da autodeterminação plena, a instrumentalização de territórios e populações (em inúmeros casos vulneráveis), e a recusa sistemática de assumir responsabilidades históricas.
O problema europeu com o colonialismo não é apenas o passado que não foi reparado. É o presente que continua a ser administrado com as ferramentas coloniais disfarçadas de pragmatismo, segurança, interesses nacionais e até humanitários. Os casos mais gritantes são o do Reino Unido e o da França que são exemplos claros da continuidade colonial. Cada um com as suas estruturas próprias, com o seu vocabulário, do seu próprio modo, mas ambos incapazes de romper com a lógica imperial que continua a dominar o espírito europeu.
Numa altura em que muitos na Europa olham para os EUA de Trump como o expoente máximo do imperialismo, que o é, é contudo, necessário relembrar o papel do passado próximo e atual europeu.
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O Reino Unido – o Império que recusa o pôr do sol
No seu auge, entre 1920 e 1922, o Império Britânico controlava cerca de 35.5 milhões de quilómetros quadrados, ou seja cerca de 25% do mundo. Mais de cem anos depois, o estado britânico continua preso à ideia de império. A narrativa do império britânico era de uma força civilizadora, que criava instituições, comércio e estabilidade. Esta visão profundamente enraizada ainda na política inglesa, e no discurso político e mediático, ignora, no entanto, a violência sistemática, a exploração económica, os massacres, as múltiplas fomes provocadas e a destruição das estruturas sociais de outros povos.
Um dos casos mais gritantes é o de Churchill, adorado pelos políticos e opinião pública inglesa pela sua luta para salvar o Reino Unido e a Europa dos nazis. No entanto, esquecem-se que em 1943, as políticas de Churchill na Índia provocaram a “fome de 1943” em Bengala, que se estima ter causado a morte de cerca de 2 a 3 milhões de pessoas. De notar, que um estudo feito sobre seis fomes graves na India, concluiu que a “fome de 1943” foi a única que ocorreu num período em que não havia seca. Graves também são as descobertas da jornalista Madhushree Mukherjee, que concluiu, nos Cherwell Papers, que nos anos de 1943 e 1944, não obstante o Império ter 29 milhões de toneladas de trigo em reserva, Churchill e o seu governo negaram o pedido de 500 mil toneladas de trigo do Governador-Geral da India, destinadas a ajudar a combater a fome. No entanto, no final do ano de 1943, o governo inglês de Churchill tinha importado 26 milhões de toneladas de bens alimentares e produtos naturais para o povo inglês, criando uma reserva de mais de 18 milhões de toneladas, de acordo com Mukherjee, a maior reserva da história inglesa. À época, Churchill culpava o povo indiano por, nas suas palavras, “procriarem como coelhos” e também questionava a existência da fome pelo facto de Mahatma Ghandi ainda se encontrar vivo. É verdade que não podemos julgar os governos atuais ingleses por ações passadas, no entanto podemos criticar estes governos e estes políticos por exultarem Churchill, sem terem a coragem de nomear os seus erros.
O problema Inglês não termina com Churchill nem com o fim do Raj. Um caso atual e de gravidade considerável, embora com pouca cobertura mediática é o das Ilhas Chagos. As Ilhas Chagos são um arquipélago de 60 ilhas e de 7 atols a quase 10.000km de distância do Reino Unido, que pertenciam às ilhas Maurícias até 1965, quando foram separadas e compradas pelo Reino Unido por 3 milhões de libras às Maurícias que eram, ainda, à data uma colónia Britânica. Entre 1965 e 1973, o Reino Unido e os EUA expulsaram toda a população indígena, abandonando-a nas Maurícias e nas Seychelles, onde foram deixados a viver na pobreza e miséria. Mais recentemente, o Reino Unido, através do Governo das Maurícias, recompensou financeiramente alguns chagossianos e concedeu-lhes cidadania britânica. No entanto, hoje, cerca de 10.000 chagossianos ainda estão impedidos de voltar à sua terra, tendo o Reino Unido e os EUA, construído uma base militar no atol Diego Garcia, crucial para operações no Médio Oriente, no Corno de África, e no Sudeste Asiático.
Uma nota ainda para referir que na base de Diego Garcia, 64 refugiados Tamils foram encarcerados durante anos, num campo a céu aberto, guardados por seguranças privados em condições prisionais, tendo o Governo Britânico sido julgado em duas instâncias como culpado por emprisionar sem justificação e ilegalmente estes refugiados.
Em finais de 2024 e inícios de 2025, foi firmado um acordo entre o Reino Unido e as Maurícias, devolvendo a soberania das Ilhas Chagos às Maurícias, ficando o Reino Unido com um arrendamento de Diego Garcia por 99 anos, por uma renda anual de 101 milhões de libras. No entanto, este acordo que tem apoio americano, tem sido alvo de críticas e protestos do povo chagossiano, que afirmam que foram excluídos pelos Governos das Maurícias e Reino Unido das negociações e que este acordo lhes retira soberania, direitos e a sua terra. O povo chagossiano é de origem diferente do maurício, tem a sua própria língua, música e cultura, como também raízes históricas próprias. Não é só o povo chagossiano que critica este acordo, também um painel independente das Nações Unidas o critica por não garantir os direitos dos chagossianos, e por restringir o seu direito a regressar à sua terra natal.
A Commonwealth
A Commonwealth, a versão moderna do Império Britânico, é um conjunto de Nações na sua maioria com ligações diretas ao Reino Unido. Tendo a maioria dos países sido colónias britânicas, e sendo algumas ainda uma espécie de colónias, como a Austrália e o Canadá e Santa Lúcia, estados soberanos que ainda mantêm o Rei como Chefe de Estado. Os 56 países que a compõem constituem, supostamente, um espaço voluntário de cooperação entre Estados, unidos por supostos laços culturais e históricos. A Commonwealth funciona, pois, como a extensão simbólica do império marcada por uma hierarquia implícita onde o Reino Unido está claramente fixado ao centro, exemplificado pelo facto de o Rei Carlos III ser Chefe de Estado de 15 países. Grave ainda é a forma como o Reino Unido usa esta rede para manter influência política e económica, enquanto evita qualquer debate sério sobre reparações coloniais. As antigas colónias são convidadas a celebrar a herança comum, mas não podem exigir reparações nem justiça histórica.
A Commonwealth é um mecanismo de soft power, ao serviço dos governos Britânicos para os ajudar a manter a sua relevância global sem os confrontar com a sua verdadeira perda de poder, nem serem forçados a reparações e indemnizações pelos seus múltiplos crimes coloniais, nem a devolverem o património saqueado ao longo dos séculos.
O neocolonialismo britânico representado pela Commonwealth é uma resposta à perda de poder do pós-guerra, em que os Estados Unidos e a União Soviética emergiram como as duas forças hegemónicas.
O caso francês, o universalismo
A França apresenta-se como a pátria do universalismo, dos direitos humanos e da igualdade. Contudo, este universalismo é usado historicamente como uma ferramenta da negação colonialista. Ao afirmar que todos são iguais perante a República, a França recusa reconhecer as especificidades, violências e desigualdades do seu passado e presente colonial. Enquanto Macron passeia em Davos a condenar o neoimperialismo e neocolonialismo Americano em relação à Gronelândia e América do Sul, a França continua a exercer o seu controlo colonial pelo mundo.
Françafrique
A história francesa do último século é inseparável de África. Não nos podemos esquecer quando falamos da história recente colonial francesa, da Guerra da Argélia, dos cerca de 1.500.000 argelinos mortos e outros milhares torturados entre 1954 e 1962, nem dos vários testes nucleares efetuados no país entre 1960 e 1965. Recomendo a leitura de Les Damnés de la Terre (traduzido em Os Condenados da Terra) de Frantz Fanon para aprofundar sobre o tema da Guerra da Argélia.
A chamada Françafrique não é um conceito académico, é uma realidade política. Durante décadas, a França manteve e ainda mantém uma rede de controlo económico, militar e político sobre as suas antigas colónias africanas, apoiando regimes autoritários, interferindo em processos eleitorais e garantindo acesso privilegiado aos recursos naturais estratégicos, tudo isto em nome da estabilidade, da luta contra o terrorismo ou até de uma suposta cooperação. É de notar que três países que tiveram forte “apoio” militar e económico francês Mali, Burkina Faso e Níger tiveram todos golpes de estado nos últimos anos que levaram à expulsão de milhares de militares franceses, os quais ocorreram em parte devido ao alto sentimento anti França na região do Sahel.
Também no plano económico se verifica a influência francesa. O franco CFA ainda hoje é utilizado por várias antigas colónias francesas, um símbolo claro da continuidade colonial. O franco CFA está dividido em duas moedas: o XOF (franco CFA da África Ocidental) usado pelo Benim, Burkina Faso, Cote d’Ivoire, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo; e o XAF (franco CFA da África Central) usado pelos Camarões, Chade, Gabão, Guiné-Equatorial, República Central Africana, e a República do Congo. Ambos os francos CFA têm um valor de câmbio fixo com o Euro – 1 euro equivale a CFA 655.96. Adicionalmente, até 2021, os países membros que usam o XOF tinham que depositar no mínimo metade das suas reservas estrangeiras na Direção Geral do Tesouro Francês, exigência esta que se mantém para os estados-membros que usam o XAF. Por último, no plano económico é de notar que as notas usadas pelos estados africanos que pertencem ao CFA são impressas em França e que o CFA é a única moeda colonial herdada ainda em uso no mundo. O sistema monetário controlado por Paris é uma forma de controlo colonial, que limita a soberania económica de vários estados soberanos e perpetua uma relação de dependência.
Os territórios ultramarinos Franceses
Tal como o Reino Unido, a França mantém ainda hoje 13 territórios sobre o seu controlo direto, a Guiana Francesa, a Nova Caledónia, a Polinésia Francesa, Mayotte, entre outros.
Na Nova Caledónia, o povo indígena Kanak (cerca de 112.000 numa população de 300.000) luta há vários anos pela independência. Em 2024, sete líderes independentistas foram presos e levados para França (17.000km de distância) por organizarem protestos contra uma lei que daria direito de voto a 40.000 cidadãos franceses no território, diluindo assim o apoio independentista na região. A França implementou um estado de emergência no território para conter os protestos entre o dia 15 de maio de 2024 e o dia 28 de maio de 2024, no entanto manteve a proibição de protesto, recolher obrigatório, restrições a ajuntamentos, e venda de álcool até abril de 2025, restringindo o direito de protesto e de greve durante quase um ano. Adicionalmente, um dos líderes dos protestos, Christian Tein, que tinha sido preso, foi mantido durante um ano em prisão solitária em França, tendo sido libertado em 2025, mas proibido de regressar à sua terra natal pelas autoridades francesas.
Na Oceânia, a França também testou as suas bombas nucleares, testes realizados entre 1966 e 1996, nos atols Mourea e Fangataufa. O número total de testes está entre os 175 e 181 no espaço de 30 anos, detonando 193 ogivas nucleares. Estes testes afetaram a vida de cerca de 110.000 pessoas no Taiti, e deixaram um rasto de doenças, contaminação ambiental e sofrimento que nunca foram devidamente reparados. O estado Francês continua a recusar a maior parte dos pedidos de compensação pelas populações afetadas, entre 2010 e 2017, tendo 97% dos pedidos sido recusados. Em 2024, 70% dos pedidos de recompensa foram recusados, mesmo depois de uma comissão parlamentar francesa ter criticado a falta de transparência e os cortes na compensação das vitimas.
Mayotte, arquipélago localizado entre Moçambique e Madagáscar, recebeu, após a passagem do ciclone Chido, em 2024, que matou 40 pessoas e destruiu cerca de 90% dos serviços, a visita de Macron, que foi, na altura, fortemente atacado pela falta de apoio, pela falta de água, e pela falta de segurança. Em resposta às criticas, Macron respondeu dizendo que “Se não fosse a França, vocês estariam ainda mais na m…., 10.000 vezes mais”.
Estes territórios são espaços onde a soberania é limitada, onde a população local não tem poder político real e onde o Estado destrata os seus cidadãos. O colonialismo francês não terminou, foi só constitucionalizado. A outra face do problema é que os políticos franceses não se interessam por estas populações, elas são vistas como dispensáveis.
Europa – memória seletiva
Não se julgue, contudo, que o problema se circunscreve apenas a estes dois países. É um problema transversal a todos os países europeus historicamente de passado colonial.
A Bélgica, responsável por mais de 10 milhões de mortos no Congo, que sempre que uma aldeia não atingia as quotas necessárias de borracha, cortava as mãos da população, continua sem oferecer um pedido de desculpas oficial nem reparações financeiras. Numa visita à República Democrática do Congo, em 2022, o rei belga expressou somente remorsos, afirmando que as ações belgas eram injustificáveis e racistas, como se tal fosse suficiente pelos 75 anos de violações, de destruição, mortes, e crimes. A Itália, que em três dias na sua ocupação militar da Etiópia em 1937, matou cerca de 20% da população de Addis Ababa. A Dinamarca, que entre 1960 e 1991, secretamente forçou mais de 350 mulheres, jovens e crianças com menos de 12 anos kalaallit (inuítes groenlandeses) a usarem dispositivos intrauterinos, ou a serem vacinadas com hormonas de controlo de natalidade. No caso da Gronelândia, o estado dinamarquês continuou até 2025 a usar testes psicológicos sem bases científicas para remover bebés a mães kalaallit, sendo que nalguns casos, e embora o governo dinamarquês tenha já proibido tais testes, algumas crianças ainda não foram entregues às mães.
E Portugal? Não nos podemos esquecer da Guerra Colonial, da morte e destruição que causámos em Angola, Moçambique e na Guiné, nem dos séculos de controlo, pilhagem e de escravatura que promovemos no ultramar. No entanto, o Governo português mantém a linha de todos os anteriores governos, rejeita o começo de qualquer processo ou programa de reparações históricas.
Descolonizar é perder poder, é isso que a Europa teme
Verdadeiramente, descolonizar não é um exercício simbólico de reconciliação. É um processo profundamente político que implica redistribuição de poder e o fim de privilégios históricos. É por isso que a Europa resiste. Enquanto o Reino Unido se refugiar na Commonwealth, enquanto a França continuar a dominar a economia de estados soberanos, enquanto a Bélgica e Portugal continuarem a recusar pedir desculpas e a reparar as suas vítimas coloniais, o colonialismo continuará vivo.
O colonialismo europeu não é só um erro do passado, é uma escolha do presente. E enquanto esta escolha não for corrigida e revertida, a Europa continuará a falhar no teste da sua narrativa – o da coerência entre os valores que proclama e as práticas que perpétua.
A Europa enfrenta em 2026 uma escolha clara. Ou continua a esconder-se atrás de narrativas confortáveis e seletivas, ou enfrenta, com honestidade e coragem, o seu legado colonial e as suas expressões contemporâneas. Descolonizar não é retirar estátuas nem pedidos de desculpa vazios. É devolver poder, é reparar injustiças, é aceitar a perda de privilégios históricos. Enquanto não agirmos para verdadeiramente acabarmos com o colonialismo continuaremos a ser cúmplices de um sistema que dizemos já ter superado.
O colonialismo não morreu. Apenas se tornou politicamente aceitável. E essa é a sua forma mais perigosa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
“O estado do tempo em Portugal continental vai continuar a ser afetado por uma corrente perturbada de oeste, o que significa que vamos ter já a partir de hoje a influência de uma massa de ar com características tropicais, com elevado conteúdo em agua. É uma massa de ar muito húmido que vai trazer precipitação persistente, pelo menos na primeira parte da semana, pelo menos até dia 11 [quarta-feira]”, adiantou à Lusa a meteorologista Ângela Lourenço.
Segundo a meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Portugal continental vai assim ter alguns episódios de precipitação mais intensa e de forma mais contínua na terça e na quarta-feira.
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“Para dia 10 [terça-feira] já foram emitidos avisos de precipitação de nível laranja para Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro e Viseu. Espera-se que haja aqui um período mais crítico, em que os valores acumulados de precipitação sejam significativos e dai o nível laranja de precipitação”, indicou.
De acordo com Ângela Lourenço, na terça-feira prevê-se que a chuva seja mais fraca no Baixo Alentejo e Algarve.
“Estes episódios com precipitação mais intensa, em particular o dia 11 [quarta-feira], poderão será acompanhados com vento. Não se espera que dia 10 [terça-feira] tenha um vento muito forte, mas em todo o caso estas situações trazem sempre rajadas mais fortes nas terras altas”, disse.
Ângela Lourenço adiantou que a partir de quinta-feira está previsto um ligeiro desagravamento.
“Mas em todo o caso vai continuar sempre a ocorrer precipitação e o vento a soprar com alguma intensidade. No fim de semana é possível que haja aqui talvez o abrandamento da ocorrência da precipitação. O deslocamento do anticiclone mais para norte vai permitir que nós não sejamos tão afetados por estas ondulações frontais e massas de ar com elevados conteúdos em agua”, disse, sublinhando que ainda há um grau de confiança baixo para este cenário.
No que diz respeito às temperaturas, segundo Ângela Lourenço, vão estar acima do normal para a época do ano, para o mês de fevereiro.
“Exatamente por predominar esta massa de ar tropical, com características tropicais, as temperaturas têm tendência para subir. Estamos a falar de mínimas junto a Lisboa da ordem dos 14/15 e máximas de 17/18 graus. No interior, zonas mais frias, prevê-se para a Serra da Estrela mínimas entre 4 e 6 graus e máximas de 09/12”, referiu.
A partir de quinta-feira, segundo a meteorologista do IPMA, está prevista uma significativa descida das temperaturas.
As eleições presidenciais foram uma grande vitória da democracia, dos 50 anos da Constituição de Abril e do Presidente eleito António José Seguro.
No meio da tempestade que submergiu a campanha da segunda volta e dos apelos à desestabilização caótica que resultaria do adiamento das eleições, os portugueses responderam de forma veemente com uma grande participação no ato eleitoral com a votação de quase 5,5 milhões de eleitores em condições que para muitos exigiram a determinação de superar as inundações, a falta de eletricidade ou de comunicações.
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Os receios de uma grande abstenção devido ao mau tempo, ao resultado previsível, ao desamor de alguns que não se sentiam representados na segunda volta e ao apelo à secundarização das eleições feito por André Ventura foram derrotados por um povo que desejou votar apesar de todas as adversidades, superando em cerca de um milhão de eleitores as votações de 2016 e de 2021 que elegeram Marcelo Rebelo de Sousa.
Os portugueses disseram que os 50 anos de democracia e de valores constitucionais valem a pena e devem ser ativamente defendidos contra tudo o que dificulta as nossas vidas e também contra a permanente gritaria populista que encharca quotidianamente o espaço mediático e as redes sociais.
Mas é, sem dúvida, uma notável vitória pessoal de António José Seguro que com quase 3,5 milhões de votos, que valem 66,8%, é o Presidente eleito com o maior resultado de sempre ultrapassando a maior percentagem num primeiro mandato, que era a convergência democrática que valeu a Ramalho Eanes 61,5% dos votos em 1976, e os históricos 3,4 milhões de votos de Mário Soares na sua imperial reeleição de 1991.
O resultado é tanto mais impressionante quando António José Seguro triunfa após 11 anos de total desaparecimento da vida pública, sendo um exemplo de resiliência perante as reservas iniciais de grande parte do PS, e as sondagens que o colocavam inicialmente muito longe da probabilidade de chegar à segunda volta. A assumida moderação, a recusa da gritaria, a opção por um modelo institucional na relação com os outros candidatos e a comunicação social, acabaram por se revelar poderosos ativos fazendo um contraponto com a permanente irrequietude e o ativismo mediático do Presidente cessante.
Luís Montenegro teve tudo para ser um dos vencedores da noite eleitoral juntando a voz da liderança do PSD, que se diz social-democrata, à derrota do populista que diariamente despreza os valores dos 50 anos de democracia e que tem por objetivo assumido destruir o PSD e substituí-lo no espaço político à direita.
Pelo seu calculismo frio, pela mediocridade de fazer tudo pela sobrevivência de curto prazo na ocupação do poder e pela incompreensível equidistância entre candidatos que não podiam ser mais contrastantes nos estilos e nos valores, Luís Montenegro é o grande derrotado da noite eleitoral. Acrescentou aos desastrosos 11% do seu candidato na primeira volta a diluição do seu campo eleitoral entre a vitória clara de António José Seguro, com o apoio de cerca de 3/4 dos eleitores de Cotrim, Gouveia Melo e Marques Mendes, que poderia ter reivindicado, e os mais 300 mil eleitores que experimentaram pela primeira vez o voto na extrema-direita.
Ao contrário da democracia-cristã alemã, dos liberais e dos gaulistas franceses e da direita democrática austríaca, que ficando em segundo lugar nas eleições fez uma “geringonça” com os socialistas e os liberais, Luís Montenegro, que governa em minoria, fragilizou o seu espaço de manobra político ao ser incapaz de optar pela democracia e pelos valores da tolerância.
O Presidente António José Seguro será o maior defensor da estabilidade e do cumprimento dos calendários eleitorais, sem os repentismos dissolventes de Marcelo Rebelo de Sousa, mas a incompetência na prevenção de riscos de calamidades, o caos da saúde ou as medidas que alimentam a espiral inflacionista nos preços da habitação terão um escrutínio severo a partir do Palácio de Belém.
Já na Assembleia da República, onde, sem qualquer vantagem política, contribuiu para a crispação social com o alinhamento preferencial com o Chega em matéria de migrações, nacionalidade, habitação ou benefícios fiscais para as grandes empresas, suspeita-se que o estilo de arrogância sem chão de um governo minoritário vai ter vida cada vez mais difícil como se verá já no debate sobre a teimosa reforma da legislação laboral.
O PS, em momento de alegria, com o seu terceiro líder a atingir a Presidência, foi decisivo na primeira volta mas não terá um caminho fácil na longa caminhada pela recuperação da liderança do espaço político, condicionado entre os previsíveis apelos do novo Presidente a consensos e compromissos com o Governo, em áreas como a da saúde, e a excitação de André Ventura em tentar capitalizar o descontentamento com o desgaste de Luís Montenegro, a generalizada incapacidade da equipa governativa e o esgotamento da margem de manobra para a distribuição de saldos acumulados e de brindes orçamentais.
As eleições presidenciais foram uma grande vitória da democracia e da tolerância sobre o populismo e o discurso de ódio, mas, pela sua dupla derrota, na primeira volta pelos resultados do seu candidato e na segunda pela recusa em escolher a defesa da democracia e os valores constitucionais, o prémio Laranja Amarga da noite eleitoral vai para o acossado calculismo de Luís Montenegro.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Seguimos, há poucas horas, o que os mais otimistas já sabiam, e os pessimistas desejavam: todos os votos da esquerda, a que somaram os dos centros, e muitos da direita democrática, convergiram para a candidatura de António José Seguro.
O que vimos nas últimas três semanas, após a primeira volta desta eleição presidencial, com líderes partidários de quase todo o espectro, assim como dos candidatos presidenciais derrotados, a darem o seu apoio a Seguro, não é uma simples fuga a um mal menor, como muitos preferiram interpretar.
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Esse largo apoio, que Ventura tentou capitalizar afirmando que todo o sistema estava contra si, não é apenas conseguido através da grande rejeição que o líder do Chega tem na maioria da população. Seguro não é esse mal menor, a única solução possível; nem é aquele que teve a sorte de passar a uma segunda volta quando todos sabiam que quem o conseguisse, conseguiria obter a vitória.
Não. É claro que também é isso, mas é muito mais. O resultado conseguido não é apenas a soma de parte de eleitorados da primeira volta, unidos contra um adversário comum. Este adversário comum, é-o porque o que une todos, e os contrasta com Ventura, é o posicionamento face ao regime: estabilidade e aprofundamento da Democracia, mais exigente, contra uma rutura de regime, com uma postura agreste e virulenta, criadora de feridas na sociedade.
Aliás, os laivos e tiques que nos mostram um desejo de poder autocrático, integrado no mesmo movimento que grassa um pouco por toda a Europa e muito devedor de Trump, foram um dos pontos mais fortes desta eleição, através de uma tomada de consciência cidadã, da esquerda à direita. Todos, no espectro democrático, se encontraram em Seguro como a imagem do diálogo, da ponderação e do equilíbrio, por oposição ao que Ventura representa e à forma como atua.
Esta eleição não foi pela Presidência da República, mas pela posição face à política, mais que ao regime. Ventura afirmou que todo o sistema estava contra si, mas não, não foi isso que se passou: o líder do Chega conseguiu uma quase unanimidade dos democratas contra o que ele representa. Em Seguro encontraram-se os democratas, aqueles que têm como denominador comum o livre pensamento, a afirmação da diferença, e o encontro no que diverge.
Não foi uma eleição presidência, mas um referendo à Democracia. E o vencedor foi claro!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
O País tem estado a ser fustigados nos últimos tempos pelas chuvas, vento e cheias. Muitos viram as telhas a desaparecer, telhados a colapsar, a água a entrar, os bens a serem arrastados, a incerteza do amanhã a chegar diariamente. Na escuridão da falta de esperança, desconectados do mundo cibernético e sem eletricidade, a ansiedade vai ganhando espaço.
Quem o ouviu, não esquece, o uivo grave e áspero que agarrava tudo o que podia, projetando o que podia contra as casas e contra os carros, cujos alarmes ajudavam à distopia.
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No cinzento do dia, troncos de pinheiros pareciam palitos cortados ao meio por um gigante. As árvores dobradas, como se tivessem sido pisadas por Gulliver, lembravam o rasto que deixamos na erva quando passeamos.
O ser humano tem a tentação de esquecer a natureza e o meio em que vive. Há preparações impossíveis para nos aprontar para todos os eventos do meio físico, como ventos superiores a 170 km/h… Outras há que sim, são possíveis, levando a que diariamente tenhamos de planear, preparar, executar e fiscalizar.
Não construir em linhas de água ou em cima da praia são pequenos exemplos das múltiplas normas que fomos criando na sequência da necessidade de proteção de bens jurídicos indivisíveis como o ambiente, o património cultural, a saúde pública, a qualidade de vida ou o equilíbrio urbanístico. Nestes casos, a lesão atinge a coletividade como um todo.
Por compreender a relevância da defesa para a coletividade como um todo, determina a Constituição que estas questões não têm natureza privada ou de partes.
O que explica que, no quadro constitucional, o Ministério Público tem o dever de defesa da legalidade democrática e promoção do interesse público designadamente quando estão em causa interesses públicos especialmente relevantes, direitos fundamentais ou interesses difusos/coletivos.
Assim se compreende a presença e relevância do Ministério Público nos Tribunais Administrativos e Fiscais, nomeadamente para efeitos de impugnar atos administrativos, pedir a declaração de ilegalidade de normas, requerer a condenação à prática de atos administrativos legalmente devidos, promover providências cautelares e recorrer,
A clássica questão do fundamento para vivermos em sociedade tem em Aristóteles, Hobbes, Locke e Rousseau justificações diferentes, mas todos evidenciam a necessidade de ordem, a necessidade de cooperação e a realização humana.
A declaração de calamidade (Lei n.º 27/2006, de 3 de junho) é uma situação de carácter excecional para prevenir, reagir e repor a normalidade das condições de vida nas áreas afetadas e irá desaparecer sem que os problemas dos cidadãos afetados possam estar integralmente resolvidos.
Por isso mesmo, o Estado tem um papel essencial no desenhar do futuro. E neste nosso caminhar coletivo, o Ministério Público, com as suas funções próprias de garantia da legalidade e de representação do interesse público tem um papel essencial na defesa dos interesses difusos.
Com tantas notícias negativos nos últimos tempos, gostaria de evidenciar o auxílio mútuo e a proteção dos mais frágeis a que temos assistido, assente em movimentos espontâneos de cidadãos anónimos, familiares distantes, vizinhos ou associações de solidariedade social sem fins lucrativos, de que é exemplo o Ministério Público Solidário.
Evidencia o que de melhor tem a natureza humana, na sua empatia e simpatia, partilhando os recursos que dispõem e um abraço fraterno que acalma.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Escrevo-vos enquanto o vento e a chuva lá fora nos obrigam a recolher. Como Médico de Família, a minha preocupação nestes dias vai muito para além das consultas; foca-se na vossa segurança e na forma como cuidamos uns dos outros quando o tempo se torna uma ameaça.
Para atravessarmos este período com serenidade, deixo alguns conselhos práticos e diretos:
1. Informação em segurança
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Esteja atento, mas sem pânico: É importante acompanhar as notícias e as orientações da Proteção Civil. No entanto, recorde que a eletricidade e a internet podem falhar a qualquer momento. Tenha à mão um rádio a pilhas ou a bateria. Em situações de isolamento, este continua a ser o meio mais fiável para saber o que se passa e o que deve fazer.
2. O isolamento é o maior perigo
Vigilância de proximidade: Se tem familiares ou vizinhos idosos que vivem sozinhos, o risco é maior. Como as redes de telemóvel e a luz podem falhar, não confie apenas numa chamada. Se for seguro sair, faça uma verificação presencial. Às vezes, o simples facto de ouvirem a voz de alguém ou sentirem que não estão esquecidos é o melhor “remédio” contra o medo e a desorientação.
3. Proteja a sua saúde em casa
Cuidado com o frio e a humidade: Manter o corpo quente é essencial para não agravar problemas de coração ou de respiração. Use várias camadas de roupa e tente manter-se seco.
Não facilite nos movimentos: Evite sair de casa sem necessidade. A maioria dos acidentes nestes dias acontece por quedas ou objetos que voam com o vento.
4. Gestão da medicação e segurança
Antecipe as necessidades: Confirme se tem quantidade dos seus medicamentos habituais para os próximos 5 a 7 dias. O isolamento ou o encerramento de serviços podem dificultar o acesso à farmácia.
Proteja a medicação: Mantenha as embalagens num local seco e elevado, longe de possíveis infiltrações. A humidade excessiva pode comprometer a eficácia dos comprimidos.
A lista de emergência: Tenha sempre uma lista escrita com o nome e a dose de todos os medicamentos que toma. Se precisar de assistência médica urgente, esta informação será crucial para nós.
Nesta fase, a prevenção e a entreajuda são as nossas melhores ferramentas. Esteja atento aos seus, mantenha o rádio por perto e lembre-se que a calma é meio caminho andado para a segurança.
Protejam-se e cuidem uns dos outros.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Desafiado pelo mentor que acreditou nele no Dubai, o alentejano José Cabeça passou os últimos quatro anos a preparar-se na Noruega para um salto quântico na sua ambição olímpica. A mera participação, com que sonhou desde a infância até a concretizar em 2022, em Pequim, deu lugar a uma estrada para o impossível, que visa levar até ao topo de uma modalidade alguém que nela se iniciou tão tardiamente, como aconteceu com este natural de Évora no esqui de fundo. Estava prestes a completar 24 anos quando arrancou sozinho para França, onde passou mais tempo caído na neve do que a esquiar, mas hoje está aí para as curvas, convicto de que, dentro de “dois ou três anos”, estará em condições de discutir medalhas com os melhores do mundo, como desvenda nesta entrevista a partir de Oslo. Na sua segunda participação olímpica, a meta é fazer cair bastante a distância para os homens da frente, sobretudo nos 10 km, mas também na prova de sprint (1,5 km).
Contraste Depois da estreia-relâmpago em 2022, em Pequim, o português passou quatro anos a evoluir ao lado do seu treinador norueguês
Como é que um jovem de Évora se lembra de praticar esqui de fundo? Tudo se deve à minha loucura de querer ir aos Jogos Olímpicos, desde muito pequeno. Em 2018, estava a ver na televisão os Jogos Olímpicos de Inverno e deparei-me com a modalidade. Era um pouco como o triatlo, que eu praticava. Damos tudo de nós e chegamos ao fim mortos, por assim dizer. Sentado no sofá, disse para a minha mãe: “Vou ver se é possível começar a fazer este desporto para tentar ir aos próximos Jogos Olímpicos.” Ela olhou para mim e respondeu: “Não te chega o triatlo? Nós nem temos neve.”
A sua mãe estava certa. Ela sempre apoiou tudo o que eu quis fazer, desde o karaté ao triatlo, passando pela natação. Depois da conversa sobre o esqui de fundo, estive cerca de dois anos a tentar saber mais. Em 2019, tive os meus primeiros roller skis, a versão de verão do esqui de fundo, uma espécie de patins mais compridos para simular os esquis. No início do ano seguinte, peguei no carro e fui sozinho à descoberta para a neve, em França. Aluguei um quarto a um amigo de uma pessoa conhecida e experimentei o esqui de fundo, com material comprado online. Sem treinador, demorei duas horas a fazer dois quilómetros, o que significa mais ou menos que não me mexi do sítio. Passava mais tempo no chão do que a esquiar.
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Recorda-se de nevar em Évora? Acho que foi em 2006 que a escola esteve fechada e fomos brincar para a neve, aí até meio do dia, porque depois começou a derreter. Longe de mim, nessa altura, pensar que a minha ida aos Jogos Olímpicos teria qualquer coisa a ver com neve. Nunca mais nevou tanto.
Já pensava em participar nos Jogos Olímpicos na escola primária? Desde que me lembro de fazer desporto, pensava em Jogos Olímpicos. Fiquei triste por saber que o karaté, que fiz dos 6 aos 12 anos e no qual fui campeão nacional, não era modalidade olímpica. Só viria a ser nos Jogos de Tóquio, em 2021, e eventualmente poderia lá ter chegado nesse ano, mas a vida dá muitas voltas e levou-me por outro caminho.
Desistiu do karaté por não ser olímpico? Não. Aos 12 anos, também fazia moto4 e tive um acidente grave, em que fui abalroado por uma camioneta. Perfurei o baço, fiz hemorragias nos intestinos e na bexiga e fiquei várias semanas no hospital. A conselho médico e por vontade da minha mãe, parei com a moto4 e com o karaté, porque era muito perigoso o combate. Enquanto recuperava, realizaram-se os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e foi aí que colei o sonho de ir aos Jogos a uma modalidade. Deitado na cama, vi o Michael Phelps ganhar oito medalhas de ouro e disse: “Vou começar a nadar.” Infelizmente, o meu corpo não colaborou, porque não sou propriamente alto, mas a natação ajudou-me bastante.
O que o fascina na maior competição desportiva? Estão lá os melhores. Ser campeão olímpico é algo sobrenatural. Não é possível comprar e não é possível atingir a não ser que seja um processo de uma vida. Mesmo se fizermos tudo certo, nesse momento tem de estar tudo alinhado e temos de ter sorte, nada pode correr mal. É a excelência. É muito complicado dizer o que aconteceu na minha cabeça aos 6 anos para já querer ir aos Jogos Olímpicos, mas acho que foi um bocadinho a minha imaginação de conseguir ser um dos melhores do mundo.
Houve algum português que também o inspirou, em 2008? Tivemos o Nelson Évora a ser campeão olímpico, claro que me inspirou. Nunca pensei em fazer qualquer tipo de saltos. Ainda fui bom a correr, mas no primeiro corta-mato da escola fiquei em último. No ano a seguir é que ganhei. Não interessa se fiquei em último. Se quiser, vou ser primeiro. Claro que não é tão fácil de fazer no esqui nem no nível em que estou agora, porque todos pensam da mesma maneira. Os atletas olímpicos nem parecem humanos. Parecem inalcançáveis. Mas eu sou bastante perfeccionista. Não foi por falta de esforço que não fui olímpico na natação e no triatlo. Estive mais perto no triatlo, mas não o suficiente. Pelo esqui de fundo, posso fazer alguma coisa mais interessante.
Como foram os primeiros tempos no esqui, à beira dos 24 anos? Disse a toda a gente, antes sequer de tocar em esquis, que ia aos Jogos Olímpicos de 2022 nesta modalidade. Faltavam dois anos e tive inúmeras pessoas a rirem-se na minha cara. “Tu és avariado da cabeça”, diziam-me. “É impossível. Tu não sabes fazer, nunca fizeste, como é que vais conseguir?” Ao fim de dois meses em França, em 2020, onde aprendi a esquiar só a ver os melhores no YouTube e a tentar copiá-los, apareceu a pandemia da Covid-19 e viajei para o Dubai no último voo possível.
Porquê o Dubai? Um amigo estava lá a preparar o Campeonato do Mundo de Triatlo e ofereceu-me a possibilidade de ir com ele enquanto durasse o confinamento, porque em qualquer parte do mundo era praticamente impossível treinar. Fiquei três meses e regressei a Portugal em junho de 2020, sem qualquer expectativa de voltar. No Dubai, teria de trabalhar e seria impossível ser atleta, mas em Portugal o dinheiro também não era infinito. Portanto, a minha carreira desportiva estava mais ou menos terminada. Um dia antes de uma prova de triatlo, recebi um telefonema com uma oferta de trabalho para ser personal trainer no Dubai. Não era fácil. Cheguei a ser treinador de natação em Rio Maior, e o meu salário rondava os €200 por mês, nem dava para pagar o quarto alugado. Com esta proposta, ia finalmente conseguir sustentar-me, mas fui um bocadinho assustado, sem ter muitos conhecimentos lá.
O seu amigo estava ligado à proposta? Não diretamente. Quem me ofereceu trabalho soube que eu estive lá por via da pessoa para quem o meu amigo trabalhava como personal trainer, que era o que eu sabia fazer, também. Numa conversa de café, essas duas pessoas mudaram a minha vida. A pessoa para quem fui trabalhar é das melhores que conheci até hoje. Praticamente tudo o que fiz no esqui foi por causa desse senhor. Gostou do meu projeto e da minha loucura de querer ir aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. “E tu achas que é possível?”, perguntou-me. “Vou fazer com que seja possível”, respondi. Em dezembro de 2020, abri a minha vaga para o Mundial e, um par de meses depois, no Mundial, abri a vaga olímpica para Portugal, que confirmei no outono de 2021. Quando isso aconteceu, o meu chefe desafiou-me: “Já vi o que conseguiste fazer sem treinador, sem neve, sem nada. Agora, arranja um treinador e ele que te diga o que é necessário.”
Isso tudo a partir do calor do Dubai? Por causa do poder que ele tem no país, consegui treinar na pista interior de esqui alpino antes do horário de abertura. Não era perfeita para esqui de fundo, mas era qualquer coisa. Dava para subir e descer, uma vez por semana. Quando ele me falou do treinador, enviei cerca de 50 mensagens a equipas na Noruega, porque os melhores são os noruegueses. Uma seguiu para um laboratório de treino em Oslo e tive a sorte de me responder o dono, que ainda hoje é o meu treinador e há de continuar a ser. Expliquei-lhe o meu percurso, que tinha começado a esquiar em 2020 e que não queria ser apenas um português nos Jogos Olímpicos. Queria realmente saber esquiar. Pediu-me um vídeo e demorou cerca de meia hora a responder. “Tens a certeza de que não estás a mentir? Nunca tiveste um treinador?” Respondi que não estava a mentir, a não ser que o YouTube contasse. Então ele disse: “Se isto é verdade e se tu aprendeste sozinho, vou ajudar-te.” Ele apresentou-me um orçamento, pedi desculpa e expliquei-lhe que não tinha poder monetário. Nessa noite, fui jantar com o meu chefe, que me perguntou pelo treinador. Disse-lhe que era muito complicado e ele perguntou qual o preço. Informei-o que eram 20 mil euros. Resposta: “Feito. Eu ajudo-te.”
A escassos dois meses dos Jogos Olímpicos, passou a ter neve e treinador. Fui para a Noruega e nunca tinha esquiado no estilo clássico, no qual ia decorrer a minha prova. A qualificação realizou-se na técnica de skate, que era a única que eu conhecia. A diferença é que na primeira é como andar em frente e na segunda avançamos com as pernas mais abertas, em ‘V’. Essa alternância nas provas é propositada, para que todos dominem as duas técnicas. Quando o Ragnar Bragvin Andresen me viu a esquiar no estilo clássico, pensou: “Onde é que eu me fui meter?” O meu nível era zero. Um dia, estava com ele na mesma pista da seleção norueguesa, eu a tentar fazer uma subida e o selecionador a rir-se com o adjunto. “É este que quer ir aos Jogos Olímpicos por Portugal? Nem chega ao final da primeira subida, quanto mais acabar a prova.” Continuei a trabalhar com o Ragnar, sem dúvida o melhor treinador do mundo em termos técnicos, e ele ajudou-me em tudo, inclusive disponibilizando a sua casa sem custos. Chegámos aos Jogos Olímpicos e terminei em 88º, de 99 participantes. Tinha sido o 98º da qualificação. O atleta que ficou em último tinha-me ganhado em todas as provas de apuramento. Nos Jogos, perdeu oito minutos para mim.
Técnica Treinos na neve melhoraram a habilidade neste ciclo olímpico e aproximam o eborense de um domínio perfeito dos esquis
Como foi a preparação nesse mês e meio? Todos os dias tínhamos sessões em que íamos a esquiar juntos, ele a corrigir ao segundo os meus movimentos. Foi isto que me fez evoluir tanto e tão depressa. Além disso, todos os dias fazíamos vídeos, avaliávamos a técnica e ele dava instruções para o treino a seguir, caso não fosse estar presente. No final da prova olímpica, o selecionador nacional da Noruega, a mesma pessoa que se riu da minha falta de jeito, pediu-me desculpa. “Nunca vi ninguém a fazer uma evolução tão rápida neste desporto como tu. Muito bem!”
Valeu quase por uma medalha? Naquela altura, sem dúvida. Eu era a pessoa mais feliz do mundo nos Jogos Olímpicos. O meu treinador descreve-me como uma criança numa loja de doces com dinheiro infinito. Ter uma pessoa desse nível de conhecimento, que trabalha com campeões olímpicos, a dizer-me que fiz um excelente trabalho, como ele nunca tinha visto em tão pouco tempo, deixou-me bastante feliz. Não foi uma medalha, eu preferia a medalha, mas, visto que fiquei a 11 minutos do primeiro classificado, essa foi a minha medalha.
O que fez o seu patrão no Dubai apostar em si? A nossa relação é literalmente como pai e filho. Não sei porque acreditou em mim, mas viu alguma coisa que na altura nem eu via. Ele adora desporto. Foi profissional de golfe e é o dono da primeira equipa profissional de basquetebol dos Emirados Árabes Unidos, que entrou esta época na Euroliga. Antes, foi presidente de um clube de futebol. É uma pessoa com bastante poder económico, não podia ser de outra maneira, e um dia disse-me: “Zé, a partir de agora quero ajudar-te no que precisares. Tu pedes e eu dou-te.” No Europeu de Triatlo, que fiz como amador e terminei em segundo lugar, o quadro da minha bicicleta voltou partido para o Dubai e ele disse-me para comprar a melhor bicicleta, que não interessava o custo. Comprei um quadro por dois mil euros, claro que é muito dinheiro, mas uma bicicleta topo de gama custava cerca de €15 000. Quando me pediu o recibo, reclamou por eu ter comprado um quadro e não a “melhor bicicleta de todas”. Respondi-lhe que não merecia, que compraria a melhor quando eu fosse campeão do mundo. E fui.
Quando é que deixou de ser personal trainer dele? Depois dos Jogos Olímpicos de 2022. Voltei para o Dubai e fui ter com ele para lhe agradecer tudo o que fizera por mim. Disse-lhe que, se quisesse, parava de fazer desporto de imediato. E ele vira-se e diz: “Olha, Zé, eu já não preciso de ti como personal trainer.” E eu pensei: “Oh pá, então agora perdi o emprego?!” Ele continuou: “Posso ter o personal trainer que quiser. Agora, a probabilidade de encontrar alguém como tu é muito difícil.” Perguntou-me qual era o meu objetivo nos próximos Jogos Olímpicos, só participar ou ser campeão olímpico. “Claro que quero ser campeão olímpico, mas não depende de mim, porque, por muito que trabalhe, no dia pode correr mal.” Ele insistiu: “Mas tu achas que tens capacidade de trabalhar o suficiente para um dia estares em posição de ser campeão olímpico?” “Acho!” Desde então, sou atleta profissional e temos um projeto até aos Jogos Olímpicos de 2034, onde espero acabar a minha carreira com uma medalha ao peito e muito feliz da vida.
Na edição de 2034, estará a menos de um mês dos 38 anos. Sabe que atleta português foi campeão olímpico aos 38 anos? Eu sei, eu sei… Carlos Lopes.
Exatamente. É possível. Não vou ser campeão olímpico no sprint nem nos 10 km, mas nos 50 km acredito piamente que é possível.
É a maratona do esqui de fundo. Todo o meu processo de treino aponta para eu ser rápido o suficiente e ter a técnica para aguentar os primeiros 20 dos 50 quilómetros, depois ter a capacidade física para puxar o ritmo para deixar muitos atletas para trás, e no quilómetro final ter a potência suficiente para ganhar. Isto é um projeto que demora anos.
É curioso como essa estratégia é muito similar à seguida por Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de 1984. Por acaso, nunca vi a maratona, mas temos o nosso plano muito bem delineado. O projeto chama-se Road to Impossible, a estrada para o impossível, porque, supostamente, é impossível para alguém que começou um desporto aos 24 anos. Sempre tive muitas pessoas a chamarem-me sonhador e cabeça no ar, mas a verdade é que eu tenho de ser totalmente louco, porque, se não fosse, não tinha aprendido a esquiar sozinho para ir aos Jogos Olímpicos. O meu treinador já me disse que se algum dia eu perder o emprego, ele tem outro para mim como treinador, porque eu sei exatamente tudo o que as pessoas passam do zero até serem boas. Eu não posso prometer a ninguém que vou ser campeão olímpico, mas posso prometer uma coisa: quando chegar a 2034, se não acontecer já em 2030, vou ter nível para disputar a prova e, se tudo correr bem e Deus estiver comigo, serei campeão olímpico.
É religioso? Não muito, mas é claro que acredito em Deus. Quem mais me ajuda a criar a base para acreditar em tudo o que faço é o meu avô. Ele faleceu no dia em que me qualifiquei para os meus primeiros Jogos Olímpicos. Nunca soube se o meu avô ouviu que me tinha qualificado, mas ele sempre disse: “Ah, este rapaz há de fazer alguma coisa.” Ele é que me dá a força para trabalhar no máximo e ultrapassar os dias difíceis. Porque isto não são só rosas. Eu vivo sozinho e tenho muito poucos amigos aqui em Oslo. Estou cá há quatro anos e fui umas cinco vezes à cidade.
Porquê? Porque a minha vida é do meu apartamento para o treino, do treino para o apartamento, do apartamento para a piscina, da piscina para casa. Eu vivo como um monge. Mas é a única forma.
Isso não poderá ser pouco saudável, até para alcançar os seus objetivos? Enquanto eu estiver aqui, tem de ser. Tenho bastantes amigos, mas estão em Portugal e alguns no Dubai. Os noruegueses são muito fechados. Para lhes arrancar qualquer palavra é uma carga de trabalhos, mas eu meto-os a falar. Tenho aqui quatro amigos a quem posso ligar e com quem falo no dia a dia, mas, em termos de ir jantar fora, eu não bebo, não fumo e não me lembro da última vez que fui a uma discoteca. Fui uma vez jantar à cidade porque os meus pais vieram cá e o meu treinador quis levá-los a um restaurante.
Tem saudades das iguarias alentejanas? Não vou a Portugal tantas vezes como gostaria, especialmente agora, antes dos Jogos. Juntamente com a minha família e com a minha namorada, decidi que a partir de setembro não haveria contacto pessoal. Falar, falamos todos os dias.
Então? O meu pai tem uma loja, ou seja, atendimento ao público. A minha mãe trabalha para o Estado. E a minha namorada é assistente de bordo. Tudo trabalhos em que é praticamente impossível saber se a pessoa vai estar constipada ou não no momento em que estiver comigo. Este ano, não tive Natal nem passagem de ano, mas são coisas que tenho de fazer. É uma vez de quatro em quatro anos. Se tenho o privilégio de ir, no mínimo tenho de ser o mais profissional e fazer tudo para estar lá no meu melhor nível. Se não o atingi, foi porque ainda não tive tempo. Vou fazer tudo para que seja o mais perfeito possível e que, no futuro, possa fazer uma prova que deixe Portugal orgulhoso.
Que expectativas tem para as duas provas que vai disputar na edição deste ano, em Milão-Cortina? Espera um resultado melhor nos 10 km do que no sprint? Sem dúvida. Não sou um sprinter. Vai ser a minha estreia em Jogos Olímpicos no sprint. O meu melhor resultado, comparado com os melhores do mundo, foi cerca de 48 segundos abaixo, no último Mundial. Se encurtar para 35 segundos, seria algo absurdo, porque tirar 13 segundos num ano devia ser impossível. Nos 10 km, sim, espero reduzir a diferença para metade, no mínimo. Adoraria ficar a cerca de três minutos do primeiro classificado, não faço ideia de que lugar isso dará. Vão ser 148 atletas em prova, em vez de 99. Vou estar na melhor forma da minha vida a esquiar e, dentro de dois ou três anos, quando chegar perto do auge em termos técnicos, vou conseguir treinar no máximo das minhas capacidades. Aí, sim, vou ser um atleta competitivo a nível mundial. Lembrei-me agora de outra história.
Salto Da China para Itália, Cabeça quer reduzir muito tempo em relação aos melhores, com um novo equipamento que desenhou
Conte. Aos 18 anos, numa prova de trialto, fiquei sem travões a descer. Numa curva, ao tentar saltar da bicicleta para a estrada, bati com o ombro num poste de eletricidade. Fraturei a clavícula e duas vértebras, fiquei um mês sem andar. Fui a quatro médicos. Os três primeiros disseram-me que não voltaria a andar como deve ser, muito menos fazer qualquer tipo de desporto. Ao terceiro, antes de sair na cadeira de rodas, disse-lhe que não só ia voltar a andar como seria chamado à Seleção Nacional de Triatlo dentro de um ano. Fui então ao quarto médico, o dr. Gomes Pereira, responsável pelo Comité Olímpico, que me disse que seria muito difícil, mas que era possível, se eu estivesse disposto a fazer o que ele me dissesse. Assim foi. Fiz seis meses de fisioterapia todos os dias, criei músculo para sustentar a coluna e regressei aos treinos oito ou nove meses depois do acidente. À segunda prova, recebi o telefonema do selecionador nacional a perguntar se estava preparado para representar Portugal.
Dá-se mal com a palavra desistir? É melhor terminar em último do que desistir. Desistir fica para sempre na cabeça. Ficar em último é um lugar digno e passa.
Sente-se um sortudo? A 100%. Sou das pessoas mais sortudas. Temos de ser sinceros, eu não estou ainda ao nível do topo mundial, mas tenho neste momento um apoio na minha carreira desportiva que alguns atletas muito mais perto do topo não têm. Portanto, sou muito agradecido e tento todos os dias trabalhar ao máximo. Se tenho esta sorte, tenho de fazer com que conte. Não pode ser simplesmente ir lá e marcar presença. Tenho demasiado apoio por parte de inúmeras pessoas, então tenho de chegar lá e ser o melhor que conseguir.
Tem algum patrocinador em Portugal? Não. O único patrocínio de Portugal que tentei, mas infelizmente não sou grande o suficiente no Instagram para tal, foi o da Red Bull, porque qualquer atleta que seja patrocinado por eles é dos melhores do mundo. Ainda acredito, apesar de ter quase 30 anos e de Portugal poder pensar: “Mas porque raio vamos patrocinar este gajo que faz esqui de fundo, uma modalidade que nem sequer é popular em Portugal?” O que é verdade é que se eu conseguir mostrar que sou bom num desporto que não é em nada português, não sei o que poderá ser mais popular.
Já imaginou o título que gostaria de ver nos jornais? De zero a campeão olímpico. Se eu conseguir fazer o que sonho fazer, acredito que vou ter um filme em Hollywood. Se o Eddie the Eagle, o primeiro britânico a saltar de esqui nos Jogos Olímpicos [em 1988], conseguiu e nem chegou sequer perto do nível de campeão olímpico…
É verdade que desenhou o equipamento da Seleção Nacional para estes Jogos Olímpicos de Inverno? Sim. Desde pequeno que gosto bastante de desenhar e, em conjunto com a Federação [de Desportos de Inverno], fiz o fato de competição que vai ser utilizado por todas as modalidades e também desenhei o equipamento da Seleção Nacional de Esqui de Fundo que vai ser utilizado no futuro.
Deu-lhe um gozo especial? Primeiro, gosto de parecer bem. O fato que utilizei na edição de 2022 já tinha sido desenhado por mim. Desta vez, fiz vários esboços num programa de desenho, e a Federação aprovou fazer a base do fato com azulejos. Ser português não é uma desculpa para ir aos Jogos Olímpicos de Inverno passear. Não interessa se temos neve ou não. Para mim, é chegar lá e demonstrar o máximo das minhas capacidades. Se puder fazê-lo bem vestido, melhor.
Os resultados desta segunda volta das Presidenciais são claros e concludentes naquilo que é mais importante: a esmagadora maioria dos portugueses continua a preferir a democracia e a recusar o radicalismo extremista.
António José Seguro foi o candidato que conseguiu personificar esse sentimento. Ao longo dos últimos meses, graças a uma campanha centrada na moderação e na afirmação do respeito pelos valores da Constituição, soube manter-se afastado do ruído, tantas vezes tóxico, que domina o debate político em Portugal. Dessa forma, acabou por aglutinar, no momento do voto, quase todos os que querem continuar a defender a democracia e um regime baseado na liberdade e no respeito pelos direitos humanos. E, mais importante ainda, ser recompensado por ser o único candidato que, de facto, tinha um discurso de unidade, em clara oposição ao de divisão, permanentemente gritado por André Ventura.
Em certa medida, a vitória de António José Seguro representa o triunfo de uma postura e de um discurso claramente em contracorrente com o estilo de debate e de combate político que, desde há uma década, se tornou norma em Portugal – e que explica, em grande medida, a ascensão de André Ventura.
Seguro recusou a crispação, os ataques constantes e o cavar de trincheiras em relação aos adversários. Mesmo quando as sondagens lhe davam apenas 6% dos votos como na noite da vitória, ele preferiu sempre o discurso positivo e o elogio ao País como comunidade. E, assim, indiferente aos prognósticos da bolha mediática e dos remoques de alguns barões das elites partidárias, acabou por consolidar uma imagem de homem de Estado, capaz de inspirar confiança, graças à humildade, a seriedade e, algo que, de facto, acabou por fazer a diferença no momento do voto: a decência.
Nesta peculiar eleição presidencial, António José Seguro acabou por demonstrar como se combate o extremismo e o crescimento do radicalismo de direita, representado pelo Chega: em vez de se deixar envolver no combate na lama, optou antes por elevar o nível do discurso e, acima de tudo, concentrar a sua atenção na grande massa de eleitores que, como se viu nesta segunda volta, continuam a defender a democracia e, com memória, não admitem que lhes digam que os “últimos 50 anos” foram um desastre para o País – como todas as estatísticas o podem demnonstrar.
O resultado está à vista. António José Seguro foi eleito com o maior número de votos de sempre numa eleição presidencial. E, contas feitas, teve mais do dobro dos votos de André Ventura – o homem que, no início da sua campanha, repetiu várias vezes que Portugal precisava de “três Salazares” para se poder endireitar. Foi exatamente isso que mais de dois terços dos portugueses rejeitaram nestas eleições. De uma forma esclarecedora: com os votos que obteve, Seguro teria derrotado até dois Venturas.