Joaquim Miranda Sarmento, ministro de Estado e das Finanças, deu entrada esta manhã no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com suspeitas de AVC.

“A Unidade Local de Saúde de Santa Maria confirma que o ministro de Estado e das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, deu entrada na Urgência Central do Hospital de Santa Maria na manhã desta quarta-feira, na sequência de uma indisposição. O ministro das Finanças realizou exames que descartaram o cenário de um acidente vascular cerebral (AVC), mantendo-se em observação por precaução”, lê-se num comunicado da instituição.

Segundo o Expresso, Miranda Sarmento terá sofrido um Acidente Isquémico Transitório (AIT), também conhecido como “micro-AVC”.

O ministro, de 47 anos, tinha programada, para esta quarta-feira, a presença na segunda edição das “Conversas com Fomento”, que decorreu no Campo Pequeno, em Lisboa, onde ia proferir o discurso de encerramento.

Ensinem as crianças a rirem, a cantarem, a brincarem e a serem felizes.

Ensinem as crianças e verem os passarinhos, as flores e as árvores, os vales e as montanhas, os rios e o mar. Ensinem as crianças a sentirem o vento nas faces.

Ensinem as crianças a contarem às outras crianças o que lhes apetece contar, a ouvirem o que alguém conta, a fazerem e a responderem a perguntas. O que o outro diz é sempre importante.

Ensinem as crianças a ler e a escrever, a expor as suas opiniões e a ouvirem as opiniões das outras pessoas, sem as interromperem.

Ensinem as crianças a debater e a argumentar, a persuadir e a convencer.

Ensinem as crianças a criticarem e a louvarem comportamentos.

Ensinem as crianças a procurarem a informação que lhes interessa, a recusarem o que não lhes interessa, a controlarem a veracidade da informação, a contextualizarem e a utilizarem a informação.

Ensinem as crianças a refletirem, a questionarem e a questionarem-se, a serem modestas, gentis e justas.

Ensinem as crianças a terem valores – morais, éticos e sociais – que as guiem nos seus comportamentos. Ensinem as crianças a verem nos comportamentos dos outros os valores que os guiam.

Ensinem às crianças o significado de civilidade, honra e maldade. Ajudem-nas a praticarem, dêem-lhes o exemplo.

Ensinem as crianças a ajudarem e a pedirem ajuda, a brincarem e a trabalharem sozinhas ou em grupo. Evitem a competição entre crianças.

Expliquem às crianças que pertencem a uma comunidade e que cada um, dentro dessa comunidade, tem o dever de ajudar e proteger o outro.

Ensinem às crianças o que são as Liberdades Individuais e os Direitos do Homem. Ajudem-nas a expô-los pelas suas próprias palavras.

Ensinem às crianças o que é escravatura, democracia, ditadura, autocracia, teocracia, fascismo, capitalismo e comunismo. Deixem-nas praticar.

Ensinem às crianças o que é a guerra e a paz. Porque existem. Deixem-nas falar.

Ensinem às crianças o que é amor e ódio, alegria e tristeza, vergonha e indiferença. Deixem-nas falar.

Ensinem às crianças que são portuguesas e europeias, que a nossa história, a história dos nossos avós, dos nossos antepassados, tem muitas coisas feias e más e algumas coisas boas, mas que (quase) todos tentaram fazer o seu melhor, embora por vezes estivessem enganados.

Ensinem às crianças que cada dia que passa estamos melhor, nos comportamos melhor, e que somos todos precisos para construir uma sociedade mais justa, mais feliz e mais saudável.

Ensinem às crianças que há homens e há mulheres e que ninguém pode fazer mal ou tratar mal os outros, em particular as crianças e as mulheres. Deixem as crianças falar!

Ensinem às crianças que há pessoas muito ricas e pessoas muito pobres, o que não é bom, nem é justo. Se os muito ricos forem um bocadinho menos ricos e os muito pobres um bocadinho menos pobres, todos passarão a ser um pouco mais felizes e saudáveis.

Ensinem às crianças quem somos.

Com isto teríamos, na idade adulta:

Resultados escolares significativamente mais elevados.

Menor desigualdade sociocultural.

Redução significativa de comportamentos associais e criminosos.

Cidadãos mais conscientes de si mesmos, mais solidários, honestos e justos.

Adultos social e politicamente mais exigentes.

Um número elevado de cidadãos que fazem parte de comunidades socialmente ativas.

Adultos mais saudáveis.

Uma sociedade revitalizada, vocacionada para mudanças sociais e defesa de interesses comuns.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Quatro anos de guerra na Europa, superando já a participação russa ou americana na II Guerra Mundial e aproximando-se da duração total deste conflito, obrigam a uma reflexão sobre a ordem internacional assente no primado do direito, na resolução pacífica de conflitos no quadro das Nações Unidas e o caminho de dúbia irrelevância seguido pela diplomacia portuguesa.

Portugal, num contexto de uma posição tradicionalmente solidária no acolhimento de refugiados, que unia todas as forças políticas até à erupção do fenómeno Chega, recebeu cerca de 55 mil ucranianos no quadro do mecanismo de proteção temporária que pela primeira vez foi acionado pela União Europeia em 2022.

Já relativamente a outros refugiados o Governo Montenegro, fazendo parceria com a Hungria de Orban e a Eslováquia de Fico, recusou participar, em 2026, no mecanismo de solidariedade europeu que nos determinava o acolhimento de 410 pessoas provenientes de campos de refugiados na Grécia e na Itália, preferindo pagar mais de 8 milhões de euros para se livrar desse encargo humanitário e solidário com os nossos parceiros.

Igualmente, em matéria de apoio militar e logístico à Ucrânia, apesar das palavras frequentes de apoio moral e político, Portugal tem-se caraterizado por uma grande frugalidade no apoio concedido, muito distante do que tem sido prestado pelos países bálticos, nórdicos e pelas maiores economias europeias. O contributo nacional tem sido pelo mínimo denominador comum, seguindo as deliberações do Conselho Europeu, isto é, sem qualquer empenho na compensação do abandono da Ucrânia pela administração Trump.

Mas mais grave é a reiterada bonomia com que o Governo de Montenegro e o seu ministro Paulo Rangel se referem aos atentados ao direito internacional de Donald Trump.

Só em 2026 temos já três casos paradigmáticos de subserviência achando que o apaziguamento da liderança do nosso aliado tradicional atlântico confere alguma respeitabilidade.

Tivemos, em primeiro lugar, a declaração sobre a natureza “benigna” do ato de pirataria internacional ocorrido no início de janeiro em Caracas com o rapto do ditador Maduro. Paulo Rangel acompanhou a saudação à ação das forças especiais americanas na capital de um estado soberano por recomendações patéticas sobre a imediata democratização da Venezuela e quem deveria suceder no poder a Nicolás Maduro.

Passados quase dois meses, não se conhece nenhum plano de transição democrática, a vice-presidente de Maduro, cuja eleição não foi reconhecida por Portugal segundo Rangel, é agora considerada um interlocutor respeitável pelos Estados Unidos e a pretensão de julgamento em Nova Iorque de um chefe de Estado estrangeiro é vista como algo banal. Como diz Zelensky, se é este o tratamento dado a ditadores porque não fazer o mesmo a Putin?

Realizou-se a semana passada a primeira reunião do novo Conselho de Paz, criado e liderado por Trump, para o qual Portugal teve a duvidosa honra de ser um dos cerca de 60 países convidados.

Para além de pretender estabelecer um protetorado em Gaza destinado a uma grande operação imobiliária liderada pelo genro do próprio Trump, como se fosse credível um plano de paz que ignorasse a participação dos palestinianos, o novo Conselho de Paz, com entrada condicionada ao convite imperial americano, tem a ambição de substituir o Conselho de Segurança e de supervisionar a ação das Nações Unidas.

A maioria dos nossos aliados tradicionais rejeitou categoricamente participar nesta farsa criada para glorificação do pacificador Donald Trump. Foi o que fizeram o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Santa Sé ou a Espanha, entre outros. O novo órgão só conseguiu reunir 22 países aderentes e alguns observadores, a maioria dos quais autocracias petrolíferas do Médio Oriente, ditadores encartados ou democracias iliberais como a Hungria ou a Turquia.

Espantosamente neste caso Paulo Rangel insiste em não coordenar a posição de Portugal com os aliados europeus, mantendo uma cúmplice disponibilidade para assumir um estatuto de observador desde que o famigerado Conselho se limite ao branqueamento do genocídio israelita em Gaza, apesar de Donald Trump não esconder ambições muito mais vastas.

Para culminar uma desastrosa semana de cegueira seletiva e de subserviência relativamente à administração Trump, tivemos as declarações tão sonsas quanto falsas sobre a provável utilização da base das Lages numa operação militar contra o Irão.

A teocracia de Teerão não se recomenda, mas, ao contrário da dinastia saudita que gosta de esquartejar jornalistas incómodos, até faz umas eleições razoavelmente competitivas para eleger Presidentes que mandam relativamente pouco e certamente muito menos do que os líderes supremos do regime desde Khomeini, em 1979, ao atual Khamenei.

Trump, eleito com base num discurso na linha da tradição isolacionista americana, tem sido de um notável ativismo internacional com ações militares em África, na América do Sul e na Ásia, sempre sem invocar qualquer agressão externa nem qualquer mandato internacional. Como se sabe da experiência da invasão do Iraque, o mais difícil é encontrar soluções de estabilidade posteriores que garantam a segurança das populações atingidas.

Também no caso do Irão, a intervenção americana, ardentemente desejada por Netanyahu, não tem qualquer cobertura das Nações Unidas e a alegada prevenção dos riscos do programa nuclear iraniano é uma visão muito elástica do conceito de legítima defesa.

Perante esta situação a França disse já que não daria apoio a uma intervenção militar no Irão e o Reino Unido recusou o pedido de utilização das bases britânicas no seu território, em Chipre e na ilha de Diego Garcia no Índico.

Novamente desalinhado da posição dos nossos aliados europeus, Paulo Rangel veio dizer que os Estados Unidos podem usar a base das Lages como entenderem sem precisar sequer de informar, muito menos pedir autorização, a Portugal.

Estas declarações de Rangel, na esteira do papel de Durão Barroso na cimeira que antecedeu a intervenção no Iraque, para além de reveladoras de uma visão minimalista do interesse nacional, são descaradamente falsas, já que a utilização das Lages sem restrições só poderia ocorrer, de acordo com o respetivo Tratado, no quadro de uma operação da NATO ou de uma ação aprovada pelas Nações Unidas.

Em caso de intervenção militar unilateral americana, o uso da base das Lages está dependente de informação prévia e concordância portuguesa como resulta expressamente do tratado de cooperação entre Portugal e os Estados Unidos.

Para culminar esta lamentável semana, temos as “contas à moda do Porto” entre Rangel e Rui Moreira, nomeando este para passar uns anos na OCDE no simpático XVI arrondissemnt de Paris, bem perto do estádio do PSG.

Pela tentativa de, com seráfica pretensa ironia, nos tomar por tolos e pela ridícula bajulação de Trump, desalinhada da posição dos parceiros europeus, o prémio Laranja Amarga de hoje vai para o ministro dos negócios estrangeiros e tripeiros Paulo Rangel.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Em causa está uma apreciação parlamentar que pretende alterar o decreto do Governo que criou um regime de ‘lay-off’ simplificado para as empresas afetadas pela sucessão de tempestades que atingiu o País, apresentada no passado dia 18, e que conta com o apoio de Chega e PS.

Além da apreciação parlamentar, os deputados vão debater um conjunto de propostas apresentadas pela oposição para apoiar as populações afetadas, que incluem a isenção de IMI relativo ao ano de 2026 nos municípios afetados, proposto por Chega e BE.

Os bloquistas, que agendaram o debate, avançam com um conjunto de dez propostas que inclui um apoio extraordinário de subsistência superior ao do Governo, uma ajuda à renda para quem perdeu habitação própria permanente ou um suplemento diário de 20% do salário base para operacionais de socorro, limpeza, forças de segurança ou militares das Forças Armadas.

Também o PCP leva a debate um “plano de intervenção” com várias medidas de apoio às populações com custos superiores aos estimados pelo Governo e o PAN propõe um regime excecional de apoio financeiro às entidades de proteção animal afetadas.

Na quarta-feira, no parlamento, o deputado Hugo Carneiro, do PSD, pediu “bom senso” à oposição e que não se queira substituir ao Governo, avisando que alguns dos diplomas podem “colidir com a lei-travão”.

O mesmo aviso foi deixado pelo líder parlamentar do CDS-PP, Paulo Núncio, lembrando esta norma constitucional que impede o parlamento de aprovar leis que aumentem a despesa ou diminuam a receita orçamentada durante o ano económico em curso.

Contudo, Chega, PS e restante esquerda parlamentar mantiveram as suas posições. André Ventura afirmou que vai tentar convencer o primeiro-ministro de que o ‘lay-off’ deve ser pago a 100%, mas que se tal não acontecer votará favoravelmente a medida, ainda que admita pedir ao parlamento uma avaliação do seu impacto orçamental.

Pelo PS, o deputado Miguel Costa Matos acusou o Governo de criar um problema que “não existe” em torno da norma-travão, argumentando que essa questão poderia ser contornada com um orçamento retificativo, que os socialistas já manifestaram disponibilidade para aprovar.

O Livre também remeteu a questão para um eventual retificativo, caso tal seja necessário, e o PCP rejeitou “desculpas formais” para que a medida não seja aprovada. O BE rejeitou que as medidas violem qualquer norma constitucional e insistiu que o parlamento tem que “honrar a palavra” inicialmente dada pelo Governo.

Em 2 de fevereiro, o Ministério do Trabalho tinha garantido em comunicado que “aos trabalhadores das empresas afetadas é garantido 100% do seu vencimento normal líquido, até ao triplo do salário mínimo nacional”.

Num comunicado enviado às redações a 12 de fevereiro, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social esclareceu que a “compensação retributiva em caso de redução ou suspensão do contrato de trabalho corresponde a dois terços do seu salário bruto, desde que não exceda três vezes a Remuneração Mensal Mínima Garantida (2.760Euro)”.

Segundo o regimento da Assembleia da República, em caso de apresentação de alterações a um decreto-lei do Governo, as propostas baixam à comissão parlamentar competente para proceder à discussão e votação na especialidade, sem votação na generalidade, “salvo se a Assembleia deliberar a análise em plenário”.

Após a especialidade, as alterações seguem para votação final global e, caso sejam aprovadas, o decreto-lei fica “modificado nos termos da lei na qual elas se traduzam”, sendo enviadas para promulgação do Presidente da República.

A desigualdade salarial entre homens e mulheres, para trabalho igual, persiste no nosso país. Na prática, há empregadores a considerar que o trabalho duma mulher vale menos do que o de um homem, no desempenho das mesmas funções. Isso não decorre de qualquer tipo de avaliação de desempenho ou de produtividade, mas sim dum preconceito ainda muito arreigado na sociedade portuguesa.

Há umas décadas considerava-se que o lugar das mulheres era em casa, a tratar dos filhos e com as tarefas domésticas exclusivamente a seu cargo, enquanto o marido fazia pela vida fora de portas. No tempo do anterior regime elas podiam ser professoras e enfermeiras mas precisavam de uma autorização especial do governo para casar. Apenas tinham um pouco mais de liberdade na vida artística, tanto no teatro como na música.

Com a implantação do regime democrático, deixaram de estar subjugadas aos maridos, que até aí detinham tutoria legal sobre elas – não podiam abrir uma conta bancária nem ausentar-se para o estrangeiro sem autorização deles – e passaram a poder aceder ao divórcio, mesmo tendo celebrado casamento religioso, o que era quase obrigatório, já que o Portugal do Estado Novo era um país católico segundo a lei.

Foi-se estranhando que elas tivessem passado a entrar nas forças armadas e de segurança, que pilotassem autocarros, táxis e aviões, que assumissem cargos de gestão nas empresas de todos os setores económicos e de direção na administração pública. Elas entraram em força nas universidades e hoje são a maioria dos estudantes e boa parte do corpo docente das mesmas. Foi esse investimento na formação académica que mudou o panorama por completo.

Segundo um estudo da CGTP: “Em novembro de 2025 a força de trabalho feminina era composta por 2.043.911 mulheres, das quais 58,7% recebia uma remuneração base até 1000 euros brutos por mês. Ou seja, quase seis em cada dez. Destas,“411 milhares auferiam apenas o salário mínimo nacional, no valor de 870 eurosrepresentando 20,5% do total, ou seja, uma em cada cinco trabalhadoras”.

Mais. Segundo dados do INE, as trabalhadoras com vínculo precário recebem em média menos 20% dos que as outras e menos 33% no caso do falso trabalho independente. Quanto às trabalhadoras com qualificações mais elevadas mantém-se um diferencial. Acresce que em 2025 “cerca de 140 mil trabalhadoras tinham uma segunda atividade profissional, correspondendo a 5,4% do total do emprego feminino” e “uma em cada dez trabalhadoras é pobre”, situação que, na opinião da central sindical, passaria para o dobro se não fossem os apoios sociais.

Os conceitos sociais foram talhados ao longo da história dos povos. O desenvolvimento cultural que foi determinando os papéis sociais de género baseou-se em leituras e conceitos de cada época. Por exemplo, e apesar do mundo patriarcal vigente no Antigo Israel, a condição feminina hebraica era mais favorável do que a dos povos pagãos seus contemporâneos na região cananeia e no Levante.

Com a emergência da fé cristã, o peso do patriarcado manteve-se pujante, apesar de Jesus de Nazaré sempre ter colocado homens e mulheres no mesmo nível de dignidade humana e social, e de S. Paulo ter feito o mesmo, apesar de alguns arroubos que procuravam ajustar a vivência das comunidades cristãs à cultura da época.

O Evangelho é claro. Não há diferenças entre homens e mulheres no reino de Deus. Eles e elas eram batizados do mesmo modo, eles e elas eram discípulos, eles e elas eram diáconos, eles e elas eram apóstolos (veja-se o caso de Júnia). Eles e elas receberam o dom do Espírito Santo no Dia de Pentecostes, em Jerusalém. Eles e elas foram martirizados durante as vagas de perseguição verificadas no Império Romano. Depois, a estrutura eclesial abafou-as.

Tudo quando se possa alegar relativamente à discriminação de género no âmbito da fé não passa de motivações machistas ou misóginas, na tentativa de trazer os modelos do mundo antigo para a contemporaneidade. Ou a dificuldade de mudar práticas eclesiais seculares que fizeram escola e formataram mentalidades.

A civilização judaico-cristã cavou este fosso e tarda em deixá-lo para trás. E se algumas igrejas cristãs persistem na discriminação de género, como não compreender que a sociedade tenda a fazer o mesmo, incluindo no mundo do trabalho?

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Nós consensualizámos, mas apenas ao nível técnico, portanto falta validação política de todas as partes e são três partes envolvidas aqui – as confederações patronais, a UGT e o Governo -, nós consensualizamos mais de três dezenas de artigos, sobretudo na matéria da parentalidade e algumas matérias relativas à inteligência artificial e novas tecnologias, mas há muito caminho para fazer”, declarou Rosário Palma Ramalho, à margem da sessão “Jornada de trabalho: Trabalho XXI – Reforma Legislativa”, que decorre esta terça-feira na Universidade Lusíada do Porto.

As alterações previstas na proposta, designada “Trabalho XXI”, e que o Governo apresentou como uma revisão “profunda” da legislação laboral preveem mudanças em “mais de uma centena” de artigos do Código de Trabalho – visam desde despedimentos, à área da parentalidade, alargamento dos prazos dos contratos, entre outros.

Em declarações aos jornalistas, a ministra lembrou que faz hoje sete meses de negociações com os parceiros sociais e que almeja chegar a um acordo.

“É evidente que privilegiamos que haja um acordo. Contrariamente ao que aconteceu com a Agenda do Trabalho Digno que não teve acordo na Concertação Social e muitas matérias não foram sequer à Concertação Social, este Governo privilegiou exatamente o inverso e está a privilegiá-lo há sete meses. Faz exatamente hoje sete meses. Ou seja, privilegiou que fosse discutido, negociado com os parceiros. Portanto, neste momento não se coloca a questão de não haver acordo. Poderá vir a colocar-se mais à frente, mas neste momento estamos ainda nesta fase de grande investimento na concertação social”, declarou.

Na segunda-feira, no final da reunião de trabalho, as confederações empresariais realçaram que “há uma vontade de evoluir” na discussão das alterações à lei laboral, ainda que se esteja “muito longe de um acordo”, enquanto a UGT reconheceu “pontos de consenso” mas ainda insuficientes.

Embora a história da humanidade seja caracterizada por não linearidades, alternado momentos de avanços civilizacionais, com outros de recuos, o que o século XXI nos está a trazer, com o avanço do extremismo, da intolerância, do anti-humanismo e do obscurantismo, nomeadamente no mundo ocidental, é alarmante.

É verdade que o humanismo é um ideal de muito difícil implementação e que, embora muitas nações tenham assinado a Carta Universal dos Direitos Humanos, a sua interiorização nas populações não é transversal.

Em todo o caso, os sinais que o início do século XXI nos está a trazer têm muitas ressonâncias assustadoras com o início do séc. XX.

Por isso, é urgente preservar os valores conducentes à paz, ao equilíbrio, à ponderação e ao diálogo, pois só assim vamos conseguir encontrar caminhos que sustentem a felicidade das pessoas.

Nos dias de hoje, marcados pela aceleração dos processos de mudança, da tecnologia e das interdependências em rede (analógicas e virtuais) e até do surgimento em força da inteligência artificial, a memória das atrocidades da primeira metade do séc. XX parece ter sido apagada.

O espírito que esteve na origem da ONU ou da União Europeia está claramente ameaçado.

E se conseguimos detetar fragilidades nessas organizações (o que é natural em entidades que tentam conciliar tantos interesses diferentes) a alternativa, o regresso do securitarismo, do isolacionismo ou do nacionalismo dogmático, é bem pior.

Os clássicos já identificavam a moderação como uma pedra angular para se atingir o bem. E o mundo já mostrou que é possível uma governação ser guiada pela moderação, pela capacidade de síntese entre ideologias, entre nações e entre religiões. Obriga é a um esforço constante de diálogo, a instituições capazes de efetuar os checks and balances e a uma distribuição do rendimento e da riqueza que aproxime os mais desfavorecidos dos mais beneficiados pelas sortes do mundo.

Em Portugal, devemos pugnar para que a virtude da moderação não seja substituída pela violência do dogmatismo e do extremismo, que tanto caminho tem feito pelo mundo fora. Todos devemos contribuir para isso, construindo pontes, treinando a capacidade de escuta, de diálogo e de empatia. E os líderes políticos, governamentais ou institucionais devem ser os primeiros a dar o exemplo. Só assim encontraremos caminho para uma sociedade mais feliz.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Talvez esteja com um ligeiro viés (mesmo muito ligeiro, quase imperceptível até), por ter acabado de aterrar aqui vindo do Carnaval do Rio de Janeiro. Mas dá-me mesmo a ideia de que se beija pouco em Portugal. Não é só no Carnaval, é sempre, em qualquer lado ou ocasião. Até nos casamentos eu acho que se beija pouco, que às vezes os noivos dão só mesmo um beijinho tão frouxo que até mete dó.

Primeiro, contextualizo. O que provavelmente muitos de vocês já ouviram falar sobre muito se beijar no Carnaval do Rio (creio que também noutros carnavais do Brasil, mas ainda não fui) não é mito de forma alguma. É que é uma constante, por todo o lado, em que tantas vezes basta um olhar ligeiramente mais prolongado, e antes de sequer sabermos o nome da outra pessoa (completamente sobrevalorizado), já nos estamos a mamar na boca um do outro de tal forma que mais parece uma endoscopia dupla. Não raras vezes, junta-se mais gente ao grupo e torna-se uma endoscopia multilateral. É maravilhoso.

Há no Carnaval do Rio esta libertação dos corpos das grilhetas do conservadorismo, que faz o pessoal andar aos linguadões quase ao mínimo sinal de atração e afeto. Ali pensamos, para quê esperar por uma outra altura que pode nem chegar? Que altura poderá ser melhor do que aquele instante em que percebemos que de repente há ali toda uma mútua atração de importância quase existencial, mesmo que por breves minutos? E creio que no resto do ano, embora não seja de todo assim, há de qualquer forma no Brasil muito mais facilidade em as pessoas deambularem a língua uma na outra do que em Portugal. Não digo em qualquer contexto ao deus-dará, claro. O pessoal não está encostado à máquina de fotocópias ali da contabilidade e desata ao melo porque o colega veio especialmente gato nesse dia.

Mas em contextos de festas, noite, locais de mamanço (ou namoro, se quiserem algo menos prosaico) como, por exemplo, um jardim, há um recato em Portugal que é de menos. Para muita gente, é quase chocante ver duas (já nem vou às 3 ou 4 – 5 já é anatomicamente desafiante, mas podem tentar) a verificar uma à outra com a língua, claro está, se as respetivas amígdalas estão em dia. E a grande questão que se põe é: se é tão bom beijar (diria, top 3 das melhores coisas que o ser humano pode fazer na vida com outro), porquê tanto reprimir?

Beijar com língua faz-nos libertar dopamina (prazer), ocitocina (vínculo e amor) e serotonina (bom humor). É uma sensação encantadora e que podia ser algo mais liberado, no sentido carnavalesco da questão. Ou seja, com mais desprendimento, com menos pudor, com menos medo que de tenha automaticamente de haver sexo a seguir, ou na pior das hipóteses, casamento. Fazê-lo pelo prazer momentâneo da conexão física e química com outro ser humano.

Acho que todos os casais, dos momentâneos aos estabelecidos, deviam beijar mais e com mais vontade. E o beijo público devia ser celebrado e não escondido, ovacionado e não julgado. Mais “ai que bom, estão tão felizes a beijar-se”, e menos “ai que horror, que pouca vergonha, deus me livre e guarde”.

E gostava ainda mais que houvesse cá festas – abertas, não privadas – com um espírito mais Carnaval do Rio. E se nos Santos Populares, houvesse bailaricos onde todo este beijar na boca era normal? Que sonho. Deixo aqui a ideia.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Numa madrugada gelada em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, uma professora reformada dorme de casaco vestido, pronta a descer para o abrigo ao primeiro som de sirene. Quatro anos após a invasão em larga escala, a guerra deixou de ser um choque e tornou-se um estado contínuo. E, quando a guerra se instala como rotina, a política ajusta-se a ela em vez de a resolver. Essa é a vitória mais silenciosa do conflito: não conquistar territórios, mas normalizar a guerra.

O campo de batalha estabilizou numa lógica de desgaste: avanços mínimos, perdas humanas massivas e linhas que se movem em quilómetros ao longo de meses. A frente permanece fluida taticamente, mas congelada estrategicamente — como sublinhou o Financial Times — num equilíbrio que impede tanto a derrota ucraniana como a vitória russa. Não é estabilidade; é exaustão organizada.

O impasse é, sobretudo, político. Kiev não pode aceitar concessões territoriais sem comprometer a sua própria sobrevivência como Estado soberano; Moscovo dificilmente aceitará negociações sem ganhos que justifiquem internamente o custo humano e económico da guerra. Entre estas duas impossibilidades, o conflito tornou-se estruturalmente insolúvel: qualquer solução realista é simultaneamente inaceitável para ambos. A guerra continua porque terminar, nas condições atuais, é politicamente mais arriscado do que prosseguir.

O impacto decisivo destes quatro anos mede-se na transformação estratégica da Europa. O continente que acreditou ter entrado numa era pós-conflito descobriu que a paz duradoura nunca foi um dado adquirido, mas um equilíbrio sustentado por poder. A desvinculação energética da Rússia, o aumento das despesas militares e o regresso da dissuasão convencional revelam uma Europa que acordou — mas acordou tarde, e sem estratégia clara para uma guerra longa.

A revitalização da NATO simboliza essa mudança estrutural. A Aliança não regressou; a realidade voltou a justificá-la. A guerra reintroduziu a segurança dura no vocabulário europeu e encerrou a ilusão de que interdependência económica e diplomacia multilateral bastariam para conter ambições revisionistas no continente.

Ainda assim, a unidade europeia convive com desgaste crescente. O apoio a Kiev mantém-se firme, mas enfrenta inflação persistente, pressão orçamental e fadiga social. A questão deixou de ser apenas moral e tornou-se temporal: por quanto tempo, a que custo e com que objectivo final? A Europa continua solidária, mas já não sabe exactamente que vitória considera possível — ou sequer suficiente.

Neste xadrez prolongado, os Estados Unidos permanecem o ator indispensável. O apoio militar e financeiro de Washington foi decisivo para impedir o colapso inicial ucraniano e continua a sustentar a resistência. Contudo, a política interna americana introduz uma incerteza estrutural: cada ciclo eleitoral reabre a dúvida sobre a durabilidade desse compromisso. Como observou o The New York Times, a guerra tornou-se simultaneamente um teste de credibilidade e um risco de dispersão estratégica para os EUA.

Esse cálculo prudente contribui para o próprio impasse: apoio suficiente para evitar a derrota de Kiev, contenção suficiente para evitar uma escalada direta com Moscovo. A estratégia ocidental tornou-se, assim, paradoxalmente eficaz e insuficiente — garantindo a resistência, mas prolongando a guerra.

Entretanto, Moscovo adaptou-se a uma economia de guerra resiliente. A reorientação comercial para a Ásia e o controlo estatal de sectores estratégicos amorteceram o impacto das sanções, acelerando a fragmentação de uma ordem internacional já em transição. Muitos países do chamado Sul Global adoptaram pragmatismo estratégico, observando o conflito menos como um embate ideológico e mais como uma disputa entre potências com efeitos indirectos sobre energia, cereais e estabilidade económica.

Mas é no plano humano que a guerra revela a sua dimensão mais devastadora. Milhões de deslocados, cidades reconstruídas sobre ruínas recentes e uma geração moldada por sirenes e apagões. A normalização do extraordinário — crianças que reconhecem o som de um míssil antes de aprenderem a geografia — tornou-se a herança mais cruel de um conflito que já ultrapassou o choque e entrou na rotina.

Quatro anos depois, a questão central não é quem vencerá militarmente, mas quem resistirá politicamente por mais tempo. A Ucrânia luta pela afirmação de que fronteiras não se redesenham pela força; a Rússia procura demonstrar que o desgaste prolongado pode alterar equilíbrios sem confronto direto com o Ocidente. Europa e Estados Unidos enfrentam o desafio de sustentar coerência estratégica num conflito sem vitórias rápidas nem finais claros.

O maior risco não é apenas territorial, mas psicológico e político: a banalização da guerra como pano de fundo permanente da política europeia. Conflitos prolongados não destroem apenas cidades; alteram perceções, redefinem alianças e condicionam escolhas durante décadas. A Europa descobre agora que a paz nunca foi irreversível — apenas contingente.

Quatro anos depois, ninguém venceu e ninguém desistiu. O impasse consolidou-se: a guerra deixou de ser episódio e tornou-se época histórica. A pergunta essencial já não é quem ganhará, mas quanto tempo a Europa suportará viver dentro dela. Porque as derrotas decisivas não se anunciam com rendições — instalam-se quando o provisório se cristaliza e o inaceitável se banaliza. Se esse momento chegou, a vitória mais profunda será psicológica: a de uma guerra convertida em rotina.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

(Faço um já quase tradicional disclaimer: sou advogada de barra, indo aos tribunais quase todas as semanas mas faço muito esporadicamente Direito Penal. Isso não me impede de reconhecer que as condições que aqui descrevo escalam quando se trata deste ramo do Direito, tal como suponho que suceda em Direito da Família).

O título que dá início a estas linhas é retirado de um filme de suspense, datado de 1997, com Al Pacino, Keanu Reeves e Charlize Theron nos principais papeis.

É usual referir-se que um dos pilares, se não mesmo o mais relevante pilar, do Estado de Direito Democrático é a Justiça. Ora, o que a maior parte dos portugueses seguramente desconhece é que a Justiça portuguesa anda, há muito, entre a comédia e o thriller, não chegando, apesar de tudo ao ponto, de ser o espetáculo televisivo que muitos querem dela fazer.

Onde a senhora ministra da Justiça, aliás advogada de profissão, fala de modernização, o que existe é bolor e água em salas de julgamento e secretarias, falhas constantes nas aplicações em que nos obrigam a trabalhar e no sistema de som. A isto se soma um total alheamento dos cidadãos quanto ao que ali se passa, apenas tomando consciência das reais condições em que todos os atores processuais, independentemente do papel que desempenhem, quando lhes toca tomar contacto direto com um qualquer tribunal. Apenas para que se perceba a ausência das condições mais básicas, no Palácio de Justiça, onde estão, entre outros, instalados os Juízos do Trabalho e Locais Cíveis, no inverno, o frio é muito rigoroso, já tendo eu feito julgamentos, por exemplo, de luvas e sobretudo debaixo da toga, sendo que a mera passagem dos aviões pode interferir nas gravações, obrigando-se a repetir o julgamento se existirem partes de depoimento impercetíveis, como sucede com alguma frequência.

Era com isto que a senhora ministra da Justiça, apesar de não lhe ser conhecida um passado de advocacia de barra muito intenso, deveria estar preocupada. Em vez de reconhecer o estado das coisas, optou por uma já conhecida fuga para a frente, consistente em, perante um caso concreto, modificar o Código Penal, sendo que não lhe pareceu melhor ideia do que, entre outras e obviamente com o intuito de calar a opinião pública, estipular a hipótese de os senhores juízes aplicarem multas, até mais de dez mil euros, aos advogados que, no entendimento destes, claro está, estejam a entorpecer o andamento dos trabalhos, ainda que se estejam a limitar a defender os seus clientes.

Bem sabendo que o que está na moda são julgamentos sumários, no sofá e à frente da televisão, a verdade é que isso nada tem que ver com Justiça, tal como advogados amordaçados ou com medo também não.

Perante isto, o que se exige à classe dos advogados é uma firme oposição a estas alterações de cosmética do Código Penal, que mais não visam do que fingir que existem condições estruturais, informáticas e de pessoal e que a culpa dos atrasos e das prescrições é dos malvados dos advogados. Tal oposição tem que ser feita, quer o senhor bastonário concorde ou discorde, já que, pese embora admita que possa parecer o oposto, não se trata de uma posição corporativa. Se a Ordem dos Advogados não considera este assunto prioritário, então terão que ser os seus representados a tomar em mãos este assunto porque é de uma gravidade extrema.

Um advogado com medo não defenderá bem o seu cliente, como nunca o fez noutros tempos em que o medo era imposto pela ditadura, sendo que, nos tempos que correm, parece que se procura obter o mesmo resultado mas pela via financeira.

Os direitos do arguido, seja ele quem for, e a sua defensa acérrima podem não parecer tão bem quando quem está sentado no banco do tribunal é alguém de quem não gostamos e a tentação que temos é a de o ver condenado.

A questão é que a venda na imagem que representa a Justiça visa demonstrar que a mesma deve ser imune a simpatias pessoais. E do que aqui se passará a tratar se esta lei vigorar como está hoje redigida é exatamente do oposto.

Se calhar, vale a pena pensar nisto agora porque, quanto mais não seja, um dia podemos ser cada um de nós nesse papel.

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