Durante os 104 minutos de Aqui, a câmara mantém-se estática, como se estivesse ali esquecida, sem qualquer tipo de movimento. Diante disto, podemos pensar que estamos perante um realizador minimalista europeu, que quer transportar para o cinema a liberdade de olhar dos espectadores de teatro. Mas não.

O realizador em causa é Robert Zemeckis, autor de grandes sucessos de bilheteira, incluindo a saga Regresso ao Futuro e Forrest Gump (aquele que roubou o Oscar a Pulp Fiction, num dos mais consensuais erros históricos da academia).

A imobilidade da câmara de Zemeckis é compensada pelo movimento do que se passa do lado de lá. Não é por a câmara não se mexer que se torna um filme parado. Aliás, a sua ousada lógica de movimento nem se aproxima assim tanto do teatro, afigura-se mais como um desafio tecnológico, algo que Zemeckis gosta e sabe explorar no seu cinema.

Se tudo tem um tempo e um espaço, em Aqui Zemeckis encontrou um subterfúgio para congelar o vetor espaço e assim debruçar-se plenamente sobre o vetor tempo, tornando-o um ponto de reflexão filosófica e até existencial.

Aqui parte da novela gráfica de Richard McGuire e conta com Eric Roth no argumento, que já trabalhara com Zemeckis em Forrest Gump

Aqui é um multiplot condensado num só enquadramento, em que mantemos o mesmo olhar sobre uma sala de estar americana ao longo de séculos.

Aliás, o filme passa mesmo pelo tempo anterior à construção da moradia, quando os nativos habitavam aquelas terras virgens. Zemeckis salta entre tempos e personagens de forma não cronológica, dando uma ideia de aleatoriedade, que é como quem diz, ao longo dos séculos as preocupações humanas mantêm-se: a vida, o nascimento, a morte, o amor, o desamor, etc…

Não obstante a alternância, acaba por se focar mais numa história familiar, dando protagonismo a Tom Hanks e Robin Wright. Zemeckis, que sempre foi um adepto da experimentação tecnológica, usa software para o rejuvenescimento digital das personagens. O resultado é impressionante, sobretudo em Hanks, que o recoloca na imagem que guardamos dele dos anos 80. O cinema sempre foi feito de pequenos e grandes truques.

Aqui é conceptual e tecnologicamente ousado, cheio de pirotecnia, mas não deixa de ser um bom filme de Natal, daqueles que só os americanos sabem fazer.

Aqui > De Robert Zemeckis, com Tom Hanks, Robin Wright, Paul Bettany > 104 min

5

Novos países juntaram-se aos BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China, África do Sul). São eles: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irão, economias que vão alavancar o crescimento económico

€820

Salário mínimo nacional atualizado com mais 60 euros, o maior aumento anual de sempre

2 238

Alunos em Portugal que, em meados de novembro, ainda não tinham tido aulas a, pelo menos, uma disciplina desde o início do ano letivo

60 mil

Horas extraordinárias trabalhadas pelos professores só no primeiro período de aulas, entre setembro e dezembro

291 mil

Portugueses com dois ou mais empregos no final do segundo trimestre do ano, valor mais elevado desde 2011

2,79 milhões

Telespetadores que assistiram ao debate televisivo entre Pedro Nuno Santos (PS) e Luís Montenegro (PSD), candidatos às eleições legislativas

1 044 606

Cidadãos estrangeiros com Autorização de Residência em Portugal, segundo o Relatório de Migração e Asilo divulgado em setembro, sendo a maioria brasileiros (368 449)

1,7milhões

Utentes sem médico de família em Portugal, segundo a Federação Nacional dos Médicos

43 mil

Soldados ucranianos mortos desde o início na guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. A esse número, somam-se 370 mil feridos, dos quais metade regressou ao combate

90,3ºC

Amplitude térmica sentida a 18 de fevereiro na China, a mais alta alguma vez registada. Nesse dia, a região de Xinjiang registou a sua temperatura mais baixa de sempre -52,3ºC e em Badu foram sentidos 38ºC

20 mil

Crianças mortas em um ano de guerra na Faixa de Gaza. Nunca tantas crianças morreram em tão pouco tempo, segundo Jorge Moreira da Silva, subsecretário-geral das Nações Unidas e diretor executivo da UNOPS

6,1 metros

Comprimento da maior anaconda do mundo, uma nova espécie descoberta na Amazónia, na floresta tropical do Equador

9 milhões

Visualizações da estreia mundial da série Shōgun, no Hulu e no Disney+

33,8%

Taxa de abstenção de residentes em Portugal nas eleições legislativas, a mais baixa desde 1995 (32,9%)

35

Casos de sarampo confirmados em Portugal, entre 1 de janeiro e 27 de outubro, mais do dobro dos registados nos últimos cinco anos (17)

28

Vitórias seguidas do Al-Hilal em partidas oficiais. O clube treinado por Jorge Jesus superou o recorde do The New Saints, do País de Gales, com 27 triunfos consecutivos na temporada de 2016

62,3ºC

Recorde da sensação térmica atingida no Rio de Janeiro, a 17 de março, durante uma onde de calor no Brasil

€250 milhões

Multa aplicada à Google pela Autoridade da Concorrência Francesa por reproduzir conteúdos de imprensa na sua aplicação de Inteligência Artificial

4,25 milhões de dólares

Preço do medicamento mais caro do mundo. A terapia genética Lenmeldy destina-se a tratar a leucodistrofia metacromática, uma doença do sistema nervoso de gravidade elevada e que afeta cerca de 40 crianças por ano nos EUA

€1,02 mil milhões

Valor das receitas que a cantora Taylor Swift fez com a Eras Tour, levando-a a ser  incluída na lista anual de bilionários da revista Forbes

1,6 milhões

Assistência do maior concerto de Madonna, realizado na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, Brasil,à borla

220 mil

Pessoas que estiveram em Lisboa a celebrar os 50 anos do 25 de Abril de 1974, a descer a Avenida da Liberdade, segundo a PSE, consultora de data science

5,17 mil milhões

Novo máximo de utilizadores de redes sociais, mais 270 milhões do que em 2023, revelou um estudo da plataforma Statista

665

Médicos reformados a trabalhar no SNS, até junho, um novo recorde

5 mil

Novos milionários em Portugal, a aumentar a lista total de 172 mil, segundo o Global Wealth Report 2024. Até 2028, serão mais 18 mil

1 082

Doentes a aguardar por uma cirurgia oncológica acima do tempo considerado clinicamente aceitável

17,15ºC

Novo recorde de temperatura média global diária atingido a 22 de julho, o dia mais quente já registado no mundo desde 1940

48

Partos ocorridos em ambulâncias, no transporte para a maternidade, contabilizados nas notícias

1 milhão

Subscritores do novo canal de Cristiano Ronaldo no YouTube, alcançado em 90 minutos, o mais rápido a consegui-lo na plataforma

126

Crianças entre os 10 e os 14 anos que se casaram em Portugal entre 2015 e 2023

107 487 dólares

Novo preço histórico da Bitcoin

1 322 005

Espectadores do filme Divertida-Mente 2, em 147 dias de exibição. É o filme mais visto nos cinemas em Portugal em 20 anos

1,3 gigawatts

Até outubro, Portugal instalou mais painéis solares do que em qualquer outro ano, sendo 2024 o melhor de sempre no desenvolvimento da energia solar no País

A morte de Jimmy Carter foi anunciada pelo filho, citado pelos meios de comunicação norte-americanos.

Carter assumiu o cargo de 39.º Presidente dos Estados Unidos em 1976 vencendo o então Presidente Gerald Ford por uma margem de votos tangencial e numa América ainda marcada pelo escândalo “Watergate” que forçou o Presidente Richard Nixon a demitir-se.

Ficou no cargo apenas durante quatro anos.

Em 2002 foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz.

É impossível passar 2024 em revista sem destacar Rúben Amorim, a maior figura do ano na área do Desporto e uma das mais destacadas de todo o panorama nacional. O desempenho do treinador português de apenas 39 anos ao longo dos 12 meses que agora terminam foi a todos os níveis notável, não só pelo que conseguiu enquanto esteve à frente da equipa profissional de futebol do Sporting, mas também pelo consequente salto na sua carreira, que o colocou à frente dos destinos de um dos maiores clubes do mundo.

Os resultados do Sporting durante o ano civil de 2024 são praticamente irrepreensíveis e são a prova inequívoca da competência revelada por Rúben Amorim, algo de que já tinha dado prova em 2020/2021, naquela que era apenas a sua segunda época como treinador, quando levara os leões à conquista de um título de campeão nacional que lhes escapava há 18 anos. Na segunda metade da temporada passada, jogando um futebol intenso, extremamente competitivo e competente, o Sporting sagrou-se campeão nacional com mais dez pontos do que o segundo classificado, o Benfica, e 18 face ao terceiro, o FC Porto. Uma época extraordinária, que, ainda assim, contou com os desaires na Taça da Liga (derrota por 0-1) frente ao Sporting de Braga, na Liga Europa, na qual foi afastado nos oitavos de final pela Atalanta e na final da Taça de Portugal, perdida no prolongamento, por 1-2, para o FC Porto. Nada, porém, que retirasse a Rúben Amorim o estatuto de melhor treinador da temporada.

Até trocar Alvalade por Old Trafford, Rúben Amorim só empatou, fora, contra o PSV Eindhoven. De resto, foram 16 vitórias em 17 jogos, com destaque para a goleada ao Manchester City

A segunda metade do ano também não começou bem para o treinador do Sporting, que viu a sua equipa perder (3-4) a Supertaça, outra vez para os Dragões, num jogo em que, aos 24 minutos, vencia por 3-0 e praticava um futebol espetacular. O mesmo que, depois desse tropeção, lhe permitiu arrancar para um primeiro terço de temporada exemplar, com um registo de 16 vitórias em 17 jogos para todas as competições. Até à data em que trocou Alvalade por Old Trafford, Rúben Amorim só empatou, fora, contra o PSV Eindhoven. De resto, foram 11 triunfos consecutivos para a Liga, dois nas Taças, de Portugal e da Liga, e três em quatro jogos para a Liga dos Campeões, com destaque para a goleada de 4-1 sobre o colosso Manchester City. Uma equipa que voltou, entretanto, a vencer no passado dia 15 de dezembro, já ao serviço do United, tornando-se o primeiro treinador, a seguir ao lendário Sir Alex Ferguson, a conseguir triunfar no seu primeiro derby de Manchester.

Os primeiros tempos em Inglaterra não têm sido tão bem-sucedidos como os últimos dez meses passados em Alvalade. Ainda assim, Rúben Amorim leva um saldo de quatro vitórias em oito jogos, tendo perdido com o Arsenal, o Nottingham Forest, orientado pelo português Nuno Espírito Santo, que está a ser a grande surpresa da Premier League, e, mais recentemente, com o Tottenham. Apesar disso, o antigo jogador do Benfica continua a contar com o apoio incondicional por parte dos adeptos e da esmagadora maioria dos críticos, que lhe reconhecem a capacidade de refundar uma equipa em crise profunda e reconstruir um grupo que, se não já nesta época, pelo menos na próxima possa regressar ao alto galarim do futebol inglês e europeu.

Trunfo viking

Colado ao sucesso de Rúben Amorim esteve, este ano, Viktor Gyökeres, o ponta de lança sueco que carregou, com a sua extraordinária veia goleadora, o Sporting para a conquista do título nacional em maio último. Eleito melhor jogador da Liga, da qual foi também o principal artilheiro, o “homem da máscara” foi outra das grandes figuras do ano desportivo nacional e internacional em 2024. Aos 46 golos apontados nos 56 jogos que disputou em todas as competições (seja ao serviço do Sporting, seja da sua seleção), Gyökeres soma já, na segunda metade do ano que agora termina, o impressionante registo de 31 golos em 36 jogos. Destaque, neste capítulo, para os quatro golos que marcou nas vitórias (5-1) do Sporting frente ao Estrela da Amadora e da Suécia face ao Azerbaijão (6-0), orientado por Fernando Santos. Nota ainda para os dois hat-tricks conseguidos frente ao Farense e, sobretudo, contra o Manchester City, na despedida de Amorim de Alvalade. Enfim, registos impressionantes de um atleta que foi, indiscutivelmente, a grande figura do ano do futebol português dentro das quatro linhas.

Sucesso além-fronteiras

Ainda na área do futebol, 2024 foi também um ano de excelência para o bracarense Artur Jorge, que, em abril, trocou o Sporting de Braga pelo Botafogo do Rio Janeiro. Apesar de ter apenas a conquista de uma Taça da Liga no currículo, foi o escolhido pelo milionário norte-americano John Textor para tentar trazer de volta à glória o histórico clube carioca, talvez entusiasmado pelo sucesso que treinadores portugueses como Jorge Jesus e Abel Ferreira têm conseguido conquistar, nos últimos anos, no futebol brasileiro. E o resultado acabou por sair bem melhor do que a encomenda, com Artur Jorge a conseguir conduzir o Fogão à “glória eterna”, que é como chamam em Terras de Vera Cruz ao feito de vencer, na mesma época, a Taça dos Libertadores da América e o Brasileirão, apenas conseguido, em toda a história do futebol brasileiro, pelo Santos de Pelé e o Flamengo de Jorge Jesus.

Por falar do técnico nascido na Reboleira, este foi também um ano muito especial. O seu regresso às arábias para orientar o Al-Hilal ficou marcado pela conquista do título de campeão da Arábia Saudita, numa época em que viu o seu nome ficar para a história do futebol mundial e no Livro dos Recordes do Guinness, ao se tornar o treinador responsável pela maior série de vitórias consecutivas de uma equipa de futebol, fixando a nova marca em 34 triunfos.

O ano da despedida de…

• Rafael Nadal
Aos 38 anos, o espanhol a quem chamam O Rei da Terra Batida, anunciou o ponto final numa carreia notável no ténis mundial, modalidade em que é um dos poucos candidatos ao título de Melhor de Todos os Tempos. Com 103 vitórias em torneios ATP, Nadal foi o primeiro tenista a atingir os 22 triunfos em Grand Slams, os quatro principais torneios do circuito mundial (Roland Garros, Open da Austrália, Wimbledon e US Open). Foi ainda medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e do Rio de Janeiro (2016), desta vez em pares.

• Nelson Évora
O campeão olímpico do triplo salto em Pequim 2008 anunciou, em novembro, que vai colocar um ponto final na sua carreira em 2025. Com 40 anos, o antigo atleta do Benfica e do Sporting explicou que estava a preparar o corpo da melhor forma para dar “ainda dar uns saltinhos” na época de 2025.

• Telma Monteiro
A melhor judoca portuguesa de todos os tempos, com presença em cinco Jogos Olímpicos, medalha de bronze no Rio de Janeiro em 2016, quatro vezes vice-campeã do mundo e detentora de 15 medalhas em europeus, seis das quais de ouro, colocou o ponto final na sua carreira, abraçando, a partir de agora, com 38 anos, o cargo de coordenadora da modalidade no Benfica.

• João Sousa
O tenista português terminou a carreira profissional a 3 de abril, aos 35 anos, após perder na primeira ronda do Estoril Open, o único disputado no nosso país e um dos quatro torneios ATP que conquistou na sua carreira, em 2018. A melhor posição do tenista de Guimarães no ranking foi a 28.ª posição, em maio de 2016.

• Filipa Martins
Aos 28 anos, a primeira e até agora única ginasta portuguesa a disputar a final do concurso completo (all around) nuns Jogos Olímpicos anunciou, em setembro, o final de uma carreira que, além do 20.º lugar em Paris2024, conta com brilhantes participações em mundiais e europeus e conseguiu que um movimento por si criado, o “Martins”, fosse incluído no Código de Pontuação.

• Pepe
Com uma carreira repleta de títulos, o internacional português nascido no Brasil pendurou as chuteiras no final da última época, com 41 anos. Na sua longa carreira de profissional de futebol, destacou-se, sobretudo, ao serviço do FC Porto, do Real Madrid e da Seleção Nacional. Foi campeão nacional em Portugal e em Espanha, venceu três Ligas dos Campeões e foi três vezes campeão da Intercontinental. Por Portugal, venceu o Euro2016 e a Liga das Nações 2018/2019.

• Andrés Iniesta
Em setembro deste ano, o futebolista catalão de 40 anos, considerado um dos melhores da história do futebol espanhol, disse adeus aos relvados. Ao longo da carreira, conquistou 35 troféus, 29 ao serviço do FC Barcelona, entre os quais quatro Ligas dos Campeões. Pela seleção de Espanha, foi campeão do mundo em 2010 e da Europa em 2008 e 2012. Prepara-se, agora, para abraçar a carreira de treinador.

Honra olímpica

Apesar das desilusões que representaram as prestações dos atletas em quem eram depositadas maiores esperanças (as do canoísta Fernando Pimenta e do nadador Nuno Ribeiro), a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Paris2024 igualou, em termos de medalhas, a melhor de sempre (Tóquio2020), mas acabou por ser a mais pontuada da história do desporto nacional. A comitiva portuguesa regressou com uma medalha de bronze – de Patrícia Sampaio, no Judo –, duas de prata – para Pedro Pablo Pichardo, no triplo salto, e Iúri Leitão, na modalidade de omnium, em ciclismo de pista – e uma extraordinária medalha de ouro, conquistada pelo mesmo Iúri Leitão e o seu colega Rui Oliveira, também no ciclismo de pista, mas na modalidade de madison.

Navegadoras a caminho da Suíça

No ano que passou, o futebol feminino voltou a ser totalmente dominado pelo Benfica, que venceu Campeonato, Taça de Portugal, Taça da Liga e Supertaça, viu a sua treinadora, Filipa Patão, estar entre o lote das nomeadas para a melhor do ano da revista France Foot, e sua melhor jogadora, Kika Nazareth, a estabelecer o recorde da maior transferência de sempre em Portugal com a sua contratação pelo FC Barcelona. A nível da Seleção Nacional, 2024 também correu bem ao futebol português, com as Navegadoras a conseguirem garantir o apuramento para a fase final do Campeonato da Europa, que se realizará em julho do próximo ano, na Suíça. Esta será a terceira participação consecutiva, depois da estreia na Holanda, em 2017, e da presença no Inglaterra 2022.

Não sou de tentar adivinhar o ano de 2025. Gosto, no entanto, de anos ímpares. Porque são ímpares. Únicos. Sem igual. Mas daí a pensar que será inimitável ou excecional, vai uma distância impossível de percorrer.

O que sabemos, por antecipação e pelo calendário, é que Trump regressa à Casa Branca no dia 20 de janeiro, que no final de fevereiro haverá eleições na Alemanha e que a paz na Ucrânia e no Médio Oriente continuará difícil de concretizar. Haverá muitas tréguas, eventualmente, mas as hostilidades não se dissiparão em 2025.

2025 será o que tiver de ser, na verdade. Como todos os outros anos passados e futuros. Num segundo, ultrapassamos a barreira formal e psicológica de 24 para 25. Não dói, não espanta, não atemoriza. É uma festa, um foguete, um desejo.

Por cá, o calendário político será agitado. O Presidente entrará no seu último ano de mandato (até março de 2026), estarão conhecidos e reconhecidos os candidatos às eleições de Janeiro de 26 e, muito antes disso, entre setembro e outubro, teremos as autárquicas – uma espécie de aquecimento das máquinas partidárias que se enfrentarão, por interpostos candidatos, nas Presidenciais. Tudo normal, portanto.

Por curiosidade, perguntei à IA Gemini como será 2025. E ela disse: Tecnologia em alta. Metaverso em expansão. Sustentabilidade em foco. Economia dinâmica.

“Obrigado”, disse eu!

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No triste dia em que o Fausto nos deixou, senti-me na obrigação de deixar umas palavras sobre ele nas minhas páginas nas redes sociais. Acabava a dizer “sabia-o doente, mas é sempre um choque quando a morte bate à porta de um amigo, e nem pede para entrar”. A consternação do momento. E antes, elaborava assim: “O que há de tão especial e único no Fausto (notável, como ele gostava de dizer) é o facto de ele ter criado um estilo pessoalíssimo, uma estética inspirada na música de raiz portuguesa, nos ritmos e até instrumentação própria, acrescentando a modernidade da sua forma de tocar a guitarra acústica, também ela pessoal e quase intransmissível. Cimentou esta estética nessa obra-prima chamada Por Este Rio Acima, que está e estará sempre em lugar de honra na história da música portuguesa. Qualquer música.

De certo modo, ironicamente, o Fausto foi sempre seguindo (e perseguindo) a cartilha que ele próprio criou, com regras estritas e rigorosas, a que pouco fugia. Talvez a aventura dos Três Cantos tenha sido um pouco a excepção, porque entrecruzou três universos, e porque teve a batuta do

Zé Mário Branco a dar-lhe uma unidade comum e particular. Um momento único para nós três, de tão boa memória.”

Não falei ali de O Namoro, que lhe “roubei” e gravei antes de ele próprio o fazer. Muitas vezes, quando a cantava, era tida como minha, e eu próprio a sentia quase como minha. Mas fazia sempre questão de precisar que se tratava de um poema de um angolano, Viriato de Cruz, musicado pelo Fausto. Aquele “Aí Benjamim!” ecoou em muitas salas deste país, e até em Cabo Verde, Angola, Moçambique.

As canções dele (letras e músicas) continuam, e continuarão, a ecoar num lugar especial da nossa sensibilidade.

O Fausto é para durar.

*Sérgio Godinho
Músico. Em 2024 percorreu o País com o espetáculo Liberdade

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A primeira vez que o vi, ó Nossa Senhora da azinheira, foi no cinema da 7.ª esquadra, em Luanda. O filme chamava-se Rocco e os Seus Irmãos, e Alain Delon, na pele de um pugilista, filho de família operária, era um James Dean sem queixinhas. Nesse cinema ao ar livre – e já Delon peregrinara, entretanto, das mãos (e porventura das pernas) de Visconti para as de Antonioni, coisas a que eu era miúdo demais para ligar pevide –, eis que volto a vê-lo em Le Samouraï, em português chamado com alguma propriedade O Ofício de Matar, que era o que no filme fazia: matar pessoas. À estarrecedora beleza de homem, que já estava em Rocco, juntava-se agora uma virilidade toda entretecida em silêncio e solidão. Mas, sobretudo, costurada com indesculpada e prodigiosa vontade de absoluto. No cinema, só Clint Eastwood é digno de beijar a fímbria deste manto. Com uma diferença, Clint é todo feito em pedra, enquanto Delon é tecido nessa carnal matéria humana de que são feitos os sonhos.

Falei de absoluto e vejam: já essa inquietação fizera Delon fugir de casa aos 14 anos, apanhado num porto francês a querer ir para a América. Aos 16, numa de “Angola é nossa”, foi voluntário para a tropa, batendo com os jovens costados na guerra da Indochina. Lá, vê num cinema Jean Gabin e decide: quer ser actor. Volta a Paris e o esplendor dos seus 20 anos de veterano de guerra trespassa o nascente feminismo: desse “deuxième sexe”, de que falava a Beauvoir, o corpo de Delon foi o promíscuo contentamento. As mulheres amaram-no de cima abaixo, Romy Schneider mais do que ninguém.

De Delon, “o mais cool dos actores” como disse Leonardo Di Caprio, pode dizer-se tudo, que foi rebelde, delinquente, talvez mafioso, mas tem de se dizer que amou Romy com incensurável nobreza. As cartas que ele lhe escreveu, a última a uma Romy já morta, são o testemunho da irrefreável ternura de um samurai. Eis o seu epitáfio: era actor e sabia escrever cartas de amor.

*Manuel S. Fonseca
“Ex-produtor de cinema, ex-cinéfilo (que agora já não vale a pena)”, nas palavras do próprio. Foi fundador da editora Guerra e Paz

Percorreu sem faltas, algo raro, o percurso entre o estatuto de objeto de consumo – e de desejo – dos adolescentes reunidos em torno da revista Salut Les Copains! e do chamado ié-ié francês e a condição de referência da canção francesa capaz de dispensar mais adjetivos. O disco de estreia foi publicado em 1962, o do adeus em 2018. É só fazer as contas… Este último foi como um filho tardio, porque há muito tempo tinha começado o calvário com um linfoma que a levou várias vezes a reivindicar – em vão – a eutanásia. A parisiense fez grande parte do seu caminho musical longe das modas de ocasião, construindo um património sólido, múltiplo, tocante e decisivo, padrão para tantos praticantes e ouvintes. Cantou Brassens e para ela escreveu Gainsbourg. Trabalhou com o omnipresente Benjamin Biolay, mas também com Étienne Daho e Thomas Dutronc, o seu único filho, também ele músico. Escreveu um livro-testemunho sobre a sua luta contra o cancro, um romance chamado L’Amour Fou e uma autobiografia notável, Le Désespoir des Singes… et Autres Bagatelles. Teve papéis de relevo em apenas três filmes, ganhou prémios da crítica e de popularidade. Foi visada em poemas de Bob Dylan e Manuel Vázquez Montalbán, referida em romances de Michel Houellebecq e Paul Guimard, directamente nomeada em canções de Renaud ou do britânico Bill Pritchard. Muito mais do que uma cantora, a história da música – a francesa, mas não só – não será rigorosa, nem tão sedutora, sem ela. “Como dizer-te adeus?” é a pergunta-título de uma das suas canções. A resposta é simples: continuando a ouvir a sua voz, doce e firme, e as suas cantigas, imensas e íntimas. Sempre que possível, sempre que for necessário. Ou seja, sempre.

*João Gobern
Jornalista e comentador. Desde 2015 realiza e apresenta, na Antena 1, o programa Bairro Latino, sobre música francesa, espanhola e italiana

Era do cimo das escadas de casa da minha avó, em Darque, que eu sonhava com os caracóis do Marco Paulo. Quando um dia destes acordei com a notícia do seu desaparecimento fiquei um pouco anestesiada, e sorri a lembrar que fora a minha primeira paixão. Fiquei horas a lembrar-me de tanta coisa bela que me deu. Dançar pela casa a trocar a colher de pau de mão em mão, como um microfone, e a cantar “Joanaaaaa pensar que estivemos tão perto…”. Foi, também, isso que fiz no dia em que partiu e fiquei a pensar como fui arrebatada por ele.

Aquela voz vinha de um lugar tão honesto que era impossível não tocar as pessoas. Recordo o sorriso de criança, os caracóis impecavelmente penteados, o casaco de pele bem alinhado e a dedicação à música, ao espetáculo.

Uma vez conheci-o e, a partir daí, de vez em quando, falávamos ao telefone. Não lhe ligava muitas vezes porque não consegui nunca perder o deslumbramento – “Vou lá agora chatear o Marco Paulo…”. Mas ele adorava que eu lhe repetisse que foi o meu primeiro crush. E conversámos sobre aquelas letras e músicas que eu sabia de cor. Não tenho a mínima dúvida de que eram de facto a sua missão de vida, e percebo que isso me ensinou qualquer coisa na minha relação com a música.

Um dia fui com a minha amiga Tânia ao Coliseu ver o espetáculo dele e, minha amigas, que loucura! Que voz, que entrega! Dançámos a noite toda, cantámos e fizemos amigas que quase nos levaram a Fátima numa excursão do grupo de fãs do Marco Paulo.

Para mim, é daqueles artistas maiores, que parece que está sempre presente, como uma mobília de casa. Acho que tive a sorte de ouvir ao vivo o último cantor romântico e de ser inspirada por ele. Ouvi-lo cantar salva-nos, e a minha pergunta desde o dia da sua partida é só uma: “E agora, Marco? Quem vai salvar o mundo?”.

*Gisela João
Música. Em 2024, fez um espetáculo especial a propósito dos 50 anos do 25 de Abril: Gisela Canta Abril. As versões que aí cantou deverão sair em disco no início de 2025

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Ouvi falar da Mísia pela primeira vez quando lancei O Último Cabalista de Lisboa em Madrid, em 1998. Antes do evento, o embaixador português disse-me que a figura cultural portuguesa mais respeitada em Espanha era a Mísia. Comecei a comprar os seus discos e fiquei muito impressionado, sobretudo pela forma como ela cantava em português e espanhol. Dois anos mais tarde, estava a fazer promoções em Londres e descobri que ela ia dar um concerto nessa noite. Consegui o seu e-mail e enviei-lhe uma mensagem, sugerindo que tomássemos chá. Respondeu-me e disse que estava demasiado ocupada para se encontrar comigo, mas que me deixaria um bilhete na bilheteira. No concerto, cantou com tanta força e graça que o público ficou extasiado. Começámos a trocar mensagens de vez em quando e ela tornou-se uma fã dos meus livros (uma feliz surpresa!). Em 2015, o meu marido [Alexandre Quintanilha] foi eleito para o parlamento, o que nos permitiu jantar com ela de vez em quando em Lisboa. Em pessoa, nunca se fez de diva. Era simplesmente a Susana (o seu nome verdadeiro). E apesar de nos ter contado como foi mal tratada por alguns fadistas portugueses, não se tinha tornado azeda. Estava satisfeita com o seu trabalho e adorava cantar para os seus fãs em França e em muitos outros países onde foi uma grande estrela. E adorava os seus queridos animais de estimação e os seus amigos. Nos últimos anos, embora soubesse que teria de fazer quimioterapia para o resto da vida, nunca se queixou, talvez porque estivesse sempre a planear novos discos e concertos. Há uns anos, pediu-me para apresentar a sua autobiografia – Animal Sentimental – e descobri que era uma talentosa escritora. Durante a apresentação, tive um ataque de riso ao ler uma história engraçada e não consegui acabar o excerto. Entreguei-lhe o livro para ela me substituir na leitura. Enquanto lia as suas próprias palavras, senti-me grato por poder estar a ouvi-la. E por estar sentada no palco com ela. E por ser o seu amigo. Ainda sinto essa gratidão.

*Richard Zimler
Escritor. O seu mais recente livro, para o público infantil, é Ernesto – O Robô que Pintou o Sono e a Doçura

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