José Luís Carneiro, o novo líder do PS, ainda não entronizado, meteu-se em sérios sarilhos políticos. Vai precisar de muita resistência e força para enfrentar todos os desafios.

  1. Sarilho grande: está obrigado a ter um bom desempenho nas autárquicas. O PS sempre teve bons resultados, é o maior partido autárquico e não pode passar para segundo ou terceiro lugar. O novo líder tem de se preocupar com todos, da direita à esquerda.
  2. Sarilho muito grande: o candidato apoiado pelo PS às Presidenciais não pode perder. Nem pode ficar para trás. O centro-direita já leva 20 anos consecutivos na Presidência da República — Cavaco e Marcelo — e corre-se o risco de o próximo presidente ser o almirante ou Marques Mendes, o que significaria 30 anos de chefes de Estado oriundos do espectro da direita.
  3. Sarilho superlativo: não estando garantidas soluções para os dois sarilhos anteriores, José Luís Carneiro arrisca-se a ser um secretário-geral de transição. Quer cooperar com a AD — isso esvazia a alternância e favorece o Chega — e a falta de distinção ideológica «mata» qualquer partido. Com Pedro Nuno Santos, sabia-se claramente onde estava e para onde ia. Não parece ser essa a estratégia política do novo líder, mas ainda há tempo para observar e corrigir.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Chegou ao fim mais uma edição do festival Evil Live, que este ano teve como cenário o Estádio do Restelo. Slipknot, Korn, Till Lindemann (Rammstein) e os eternos Judas Priest foram os tão aclamados cabeças de cartaz. Nos três dias que durou o festival metaleiro, também tiveram lugar no palco os portugueses velhinhos RAMP e os Bizarra Locomotiva. Uma mostra fotográfica dos vários concertos gentilmente cedida por Prime Artists..

Ao longo de séculos, o Irão tem conseguido resistir a todo o tipo de invasores estrangeiros, ameaças militares e até duras sanções económicas. Essa capacidade deve-se a um conjunto de fatores, nomeadamente históricos, mas, muito acima de tudo, a uma geografia que torna difícil qualquer invasão e que, ao mesmo tempo, permite que o país se feche como uma fortaleza. As suas fronteiras naturais funcionam como ​​barreiras defensivas de um território que ocupa uma área superior à do conjunto de Alemanha, França e Reino Unido, com uma população de 92 milhões de habitantes.

“O Irão está defendido pela sua geografia, com montanhas de três lados e pântanos e água do quarto”, escreve Tim Marshall no best-seller Prisioneiros da Geografia. E justifica logo a seguir essa sua afirmação: “Os mongóis foram a última força a conseguir avançar pelo território, em 1219-21, e, desde então, os atacantes têm-se desfeito em pó ao tentar atravessar as montanhas.”

“Um exemplo claro disso ocorreu durante a Guerra Irão-Iraque, na década de 1980”, assinala o economista e historiador Kashif Hasan Khan, num artigo para a Atlas of Wars. “Quando as forças de Saddam Hussein lançaram uma invasão em 1980, ficaram rapidamente atoladas no terreno acidentado, particularmente nas montanhas Zagros, o que tornou quase impossível as forças iraquianas fazerem incursões significativas no território iraniano. O plano de Saddam de capturar Ahvaz, uma região vital para a produção de petróleo, e então avançar para o Irão cruzando as montanhas Zagros, fracassou miseravelmente. A paisagem áspera provou ser um obstáculo significativo.” A guerra entrou num impasse, arrastando-se durante oito anos, ceifando, pelo menos, um milhão de vidas.

Mais tarde, como recorda Tim Marshall, a geografia do Irão voltou a ser determinante para impedir um qualquer devaneio da maior potência mundial. “Na Segunda Guerra do Golfo, em 2003, até os EUA, a maior força de combate que o mundo já viu, acharam melhor não virar à direita ao entrarem no Iraque pelo Sul, sabendo que, mesmo com o seu poder militar superior, não convinha invadir o Irão. Na verdade, as Forças Armadas dos Estados Unidos da América tinham, na altura, um lema: ‘Fazemos desertos, não montanhas.’”

Essa decisão americana não foi tomada por causa da rota escolhida. Por qualquer outro lado, seria sempre uma missão difícil. “Qualquer tentativa de invadir o Irão pelo Leste envolveria atravessar desertos vastos e inóspitos como Dasht-e-Lut e Dasht-e-Kavir, que representam pesadelos logísticos para qualquer campanha militar de larga escala”, sublinha Kashif Hasan Khan.

A guerra une? A capacidade de sobreviver e de prosperar diante das adversidades tem sido central para a formação da mente iraniana EPA/ATEF SAFADI

Ambição de potência

Mas se a geografia do Irão é um obstáculo quase intransponível para qualquer tentativa de invasão do exterior, também permite que o país use a sua localização estratégica para procurar influenciar as regiões vizinhas e manter sempre viva a chama e a ambição de voltar a ser um império. O seu território estende-se ao longo de uma zona em que se misturam a Ásia Central, o Cáucaso, o Médio Oriente e a Ásia Meridional. Por isso, sempre foi um ponto de encontro de civilizações e uma base de apoio entre grandes potências.

Ao longo da História, o Irão foi invadido por mongóis, árabes e turcos. Já no século XX, nas guerras mundiais, o país teve partes ocupadas pela Rússia e pela Grã-Bretanha. Mas todos os historiadores são unânimes em considerar que, em qualquer desses momentos, o Irão conseguiu sempre ressurgir como um Estado unificado e soberano, com uma cultura, uma língua e uma identidade próprias. Ao contrário do que sucede com muitos outros países do Médio Oriente, em que as fronteiras foram desenhadas, há menos de dois séculos, com uma caneta e uma régua num mapa, sem respeito pela topografia ou pela cultura das populações que neles habitavam, no caso do território persa existe uma unidade mais ou menos coerente ao longo do tempo. Com uma consequência que não pode nunca ser menosprezada: a capacidade de sobreviver e de prosperar diante das adversidades tem sido central para a formação da mente iraniana.

Nos séculos VI a IV a.C., o império persa estendia-se do Egito até à Índia. “O Irão dos dias modernos não tem esses desígnios imperiais, mas não deixa de querer expandir a sua influência”, como assinala Tim Marshall. “E a direção óbvia para o fazer são as planícies a oeste – o mundo árabe e as suas minorias xiitas.”

Dessa forma, o Irão foi ganhando peso no Iraque, desde que a invasão dos EUA, em 2003, impulsionou um governo de maioria xiita. “Isto alarmou a Arábia Saudita, dominada por sunitas, e ajudou a alimentar a versão do Médio Oriente de uma Guerra Fria centrada na relação entre os sauditas e os iranianos”, avisa Tim Marshall. “A Arábia Saudita pode ser maior do que o Irão, pode ser várias vezes mais rica do que o Irão devido às suas indústrias bem desenvolvidas de petróleo e gás, mas a sua população é muito menor (33 milhões de sauditas contra 92 milhões de iranianos) e, militarmente, não está segura da sua capacidade para defrontar o seu vizinho persa, no caso de esta guerra fria alguma vez aquecer e de haver um confronto direto entre as forças dos dois países”, considera o autor de Prisioneiros da Geografia. E avisa: “Cada um dos lados ambiciona ser a potência dominante na região, e cada um deles vê-se como o defensor da respetiva versão do Islão. Quando o Iraque estava sob o calcanhar de Saddam, existia um poderoso tampão que separava a Arábia Saudita e o Irão; com o desaparecimento desse tampão, os dois países deitam agora olhares fulminantes um ao outro, através do Golfo.”

Líder Khomeini A revolução no Irão serviu de inspiraçãoa outros movimentos radicais islâmicos, com Teerão a assumir-se patrocinador de movimentos terroristas EPA/SHAHZAIB AKBER

O clima de confronto entre os dois países atingiu o ponto máximo em 2016, quando a Arábia Saudita (de maioria sunita) executou 47 prisioneiros num único dia, entre os quais se encontrava o xeque xiita mais velho do país. Esta foi uma ação perpetrada no ano seguinte a ser conhecido o acordo entre os EUA e o Irão sobre instalações nucleares, que desencadeou uma forte oposição no resto do mundo árabe. Nessa época, um dos principais colunistas sauditas defendeu que o reino deveria começar a construir uma bomba atómica, de forma a estar preparado para quando o Irão conseguisse atingir esse objetivo.

A execução dos 47 prisioneiros foi, então, uma ação planeada pela família real saudita, para mostrar ao mundo, incluindo aos EUA, que estavam dispostos a enfrentar o Irão. E que não se amedrontavam com os protestos que surgiram a seguir: “Estalaram manifestações em todo o mundo muçulmano xiita, a embaixada saudita em Teerão foi devidamente saqueada e incendiada, as relações diplomáticas entre os dois países foram cortadas.”

As origens do ressentimento antiamericano

Se a geografia do Irão é aquela que sabemos, bem mais preocupante, para os seus vizinhos, é o seu acesso à energia nuclear – que, curiosamente, como veremos, até foi fornecida originalmente pelos EUA.

Nas suas memórias, Barack Obama recorda como, ao chegar ao poder, ficou depressa com um retrato perfeito sobre as dificuldades que tinha de enfrentar, ao interagir com os líderes de três países, em particular: Rússia, China e Irão.

Foi uma intervenção norte-americana que restabeleceu o Xá como governante do Irão, fomentando um profundo ressentimento contra as potências ocidentais e lançando as bases para a Revolução Islâmica de 1979

“Dos três, o Irão representava o desafio menos grave para os interesses a longo prazo da América, mas era o mais hostil”, escreve. “Herdeiro dos grandes impérios persas da Antiguidade, outrora epicentro da ciência e da arte durante a era dourada medieval do Islão, durante muitos anos o Irão passara despercebido aos decisores políticos dos EUA.” E, nesse campo, por causa da sua posição geográfica: “Com a Turquia e o Iraque na sua fronteira ocidental e o Afeganistão e o Paquistão na oriental, era de uma forma geral encarado como apenas mais um país pobre do Médio Oriente, o seu território reduzido por conflitos civis e potências europeias em ascensão.”

Tudo se alterou, em 1951, quando o governo democraticamente eleito de Teerão decidiu nacionalizar as jazidas de petróleo do país, enfurecendo os britânicos, sócios maioritários da maior empresa de produção e extração de petróleo do Irão. Vale a pena recuperar a forma como Barack Obama sintetiza o que se passou a seguir: “Descontentes por serem excluídos e sem vontade de negociar uma divisão razoável das receitas de petróleo, os britânicos impuseram um bloqueio naval para impedir o Irão de exportar petróleo para potenciais compradores. Também convenceram a Administração de Eisenhower de que o novo governo iraniano se inclinava para o lado dos soviéticos, levando o Presidente dos EUA a dar luz verde à Operação Ajax, um golpe maquinado pela CIA que depôs o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente, e consolidou o poder nas mãos do jovem monarca do país, o xá Reza Pahlavi.”

Essa intervenção, que restabeleceu o Xá como governante, fomentou um profundo ressentimento contra as potências ocidentais e lançou as bases para a Revolução Islâmica de 1979. E, segundo Barack Obama, teve um efeito duradouro na política externa dos EUA: “A Operação Ajax definiu um padrão para o erro de cálculo dos EUA no que concerne a lidar com países em vias de desenvolvimento que se prolongou pela Guerra Fria: confundindo aspirações nacionalistas com conspirações comunistas; equiparando interesses comerciais a segurança nacional; subvertendo governos eleitos democraticamente e alinhando-nos com autocratas sempre que achava que isso os beneficiaria.”

Revolução islâmica

Durante 27 anos, o plano parecia estar a resultar na perfeição, com o xá a tornar-se um aliado dedicado, que permitia bons negócios às petrolíferas americanas, ao mesmo tempo que comprava muito armamento a Washington. O monarca manteve boas relações com Israel, deu direito de voto às mulheres, modernizou a economia e o sistema educativo. No entanto, de forma menos visível, começou a crescer na sociedade iraniana um forte descontentamento com as extravagâncias do xá, a promoção de costumes ocidentais que chocavam o clero conservador e a repressão implacável aos opositores do regime. “A sua polícia secreta era famosa por torturar a matar dissidentes”, afirma Obama, que lembra também como a CIA, nesses tempos, não soube ler os sinais de descontentamento nem deu importância aos discursos proferidos em Paris, por um clérigo xiita no exílio, conhecido como aiatola Khomeini, que exortava os fiéis a substituírem o regime do xá, que apelidava de fantoche do Ocidente, por um Estado islâmico governado pela sharia.

“Os representantes dos EUA foram apanhados desprevenidos quando uma série de manifestações no Irão, em 1978, deu origem a uma verdadeira revolução popular”, recorda Barack Obama, que tinha então 17 anos, e que confessa só ter conseguido compreender vagamente os pormenores de tudo o que aconteceu de seguida: “Como Khomeini se estabeleceu como líder supremo e excluiu anteriores aliados seculares e reformistas; como formou o Exército dos Guardas da Revolução Islâmica, uma força paramilitar, com o fito de esmagar quem quer que se opusesse ao novo regime; e como utilizou o drama que se desenrolou quando estudantes radicalizados invadiram a embaixada dos EUA e fizeram reféns americanos para ajudar a consolidar a revolução e a humilhar a nação mais poderosa do mundo.”

Mais de quatro décadas depois, esses acontecimentos continuam a moldar a paisagem geopolítica mundial. A revolução no Irão serviu de inspiração a outros movimentos radicais islâmicos, com Teerão a assumir-se como patrocinador de movimentos terroristas. “O juramento de Khomeini de erradicar Israel do mapa fez do regime iraniano a principal ameaça de segurança para Israel e contribuiu para o endurecimento das atitudes israelitas relativamente a uma possível paz com os seus vizinhos”, afirma Obama no seu livro Uma Terra Prometida.

Aposta na diplomacia

A invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, fez deitar ainda mais lenha para esta fogueira. Com a deposição do seu inimigo declarado Saddam Hussein, e a sua substituição por um governo liderado por xiitas, o Irão reforçou a sua posição estratégica na região. Uma década depois, o Irão voltou a lucrar com as revoltas da chamada Primavera Árabe, que derrubaram governantes outrora poderosos e desencadearam guerras civis na Líbia, na Síria e no Iémen.

Como lembra Kashif Hasan Khan, ao longo desses anos, “o Irão seguiu uma política de profundidade estratégica, através do apoio a populações e milícias xiitas em países vizinhos, aliando-se a grupos que partilhavam a sua postura antiocidental e anti-israelita”. Ou seja, aquilo que ficou conhecido como o “Eixo da Resistência”, que incluía grupos como o Hezbollah no Líbano, o regime de Assad na Síria, milícias xiitas no Iraque e os hutis no Iémen, e que foi fundamental para Teerão projetar o seu poder e defender os seus interesses no Médio Oriente.

“Ao apoiar esses grupos, o Irão conseguiu estender a sua influência além das suas fronteiras e desafiar os interesses dos seus rivais regionais, particularmente a Arábia Saudita e Israel. Essa estratégia permite que o Irão trave guerras por procuração e exerça influência sem confronto militar direto, dificultando o enfrentamento da sua influência pelos seus adversários”, escreve o economista na Atlas of Wars.

Face a esse cenário, Barack Obama admite nas suas memórias que, após tomar posse, teria um destino traçado: “Acontecesse o que acontecesse, o Irão seria uma grande dor de cabeça para a minha Administração.” Mas com uma dose suplementar de risco: a existência de um programa nuclear que precisava de ser controlado ou poderia levar a uma corrida descontrolada às armas atómicas na região.

Mais uma vez, o relato do ex-Presidente dos EUA é esclarecedor: “O regime iraniano herdara instalações nucleares do tempo do xá e, ao abrigo do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares da ONU – do qual o Irão fora signatário desde a sua ratificação, em 1970 –, tinha o direito de usar energia nuclear para fins pacíficos. Infelizmente, a tecnologia utilizada para centrifugar e enriquecer o urânio pouco enriquecido (LEU, na sigla inglesa), que servia de combustível para centrais nucleares, podia ser modificada para produzir urânio altamente enriquecido (HEU, na sigla inglesa), adequado para armamento nuclear. Nas palavras de um dos nossos técnicos especializados: ‘Com HEU, um aluno da Secundária inteligente e com acesso à internet é capaz de produzir uma bomba.’ Entre 2003 e 2009, o Irão aumentou o seu número total de centrifugadoras de enriquecimento de urânio de cem para cinco mil, muito mais do que qualquer programa pacífico poderia justificar.”

Barack Obama é perentório: “Eu e a minha equipa passámos grande parte do nosso tempo a debater como impedir o Irão de conseguir uma arma nuclear – de preferência através da diplomacia, e não desencadeando outra guerra.”

Mudança de jogo

A 14 de julho de 2015, os esforços de Barak Obama pareciam ter sido recompensados, com a assinatura, em Viena, do Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA), que impunha restrições ao programa civil de enriquecimento nuclear do Irão em troca do alívio das sanções. O acordo foi firmado pelo Irão e, numa unanimidade que hoje parece impossível, pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – China, França, Rússia, Reino Unido e EUA –, assim como pela Alemanha e pela União Europeia. Em todas as fotografias desse momento aparece também Ernest Moniz, lusodescendente que era então secretário da Energia, na Administração Obama.

O acordo foi saudado a nível internacional, mas encarado com muita apreensão na Arábia Saudita e especialmente em Israel. Num discurso proferido nesse mesmo ano no Congresso dos EUA, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu avisou Washington para o perigo que poderia representar uma normalização do regime iraniano no plano internacional. “O Irão já domina agora quatro capitais árabes – Bagdade, Damasco, Beirute e Sanaa”, afirmou. Na mesma altura, a Arábia Saudita anunciou que lideraria uma intervenção militar no Iémen contra os hutis, o grupo insurgente apoiado pelo Irão. Quando chegou ao poder, Donald Trump posicionou-se imediatamente ao lado dos sauditas e israelitas. E, em 2018, os EUA abandonaram unilateralmente o JCPOA e impuseram sanções económicas de “pressão máxima” ao Irão. Com essa jogada, Trump pretendia que a pressão enfraquecesse o Irão e abrisse espaço para uma nova ordem regional centrada em Israel e nos aliados árabes de Washington. Essa estratégia culminou com os Acordos de Abraão de 2020, que normalizaram as relações entre Israel e uma série de Estados árabes e norte-africanos, incluindo Bahrein e Emirados Árabes Unidos, e posteriormente Marrocos e Sudão.

Cronologia

Inimigos íntimos e explosivos

Desde 1953 que as relações entre o Irão e os Estados Unidos da América são marcadas por grandes tensões e convulsões. Mas a guerra aberta entre os dois, tantas vezes anunciada, nunca chegou a concretizar-se

­— 1953
Golpe de Estado apoiado pelos EUA

As iniciativas do primeiro-ministro iraniano democraticamente eleito, Mohammad Mosaddegh, para nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company (hoje BP) irritaram os britânicos, que controlavam a participação na empresa, desde a descoberta do petróleo, no início do século XX. Com o apoio da CIA, os ingleses organizaram um golpe de Estado e impuseram o retorno do monarca deposto, Reza Pahlavi, como xá.

­— 1957
Átomos para a Paz

As ambições do xá para um Irão movido a energia nuclear conquistaram o apoio dos EUA e de outros aliados ocidentais. Foi assinado um acordo nesse sentido, como parte do programa Átomos para a Paz, do então Presidente americano Dwight D. Eisenhower. Uma década depois, os EUA forneceram ao Irão um reator nuclear e urânio para o abastecer.

­— 1979
Revolução islâmica

Protestos populares começaram a abalar o país no final de 1978 e forçaram o xá a fugir, em janeiro de 1979. O aiatola Khomeini, estudioso islâmico exilado, regressou de Paris para governar a nova república islâmica.

­— 1980
EUA rompem relações diplomáticas

Após os EUA concordarem em dar assistência hospitalar ao xá, para tratamento de um cancro, estudantes iranianos invadem a embaixada americana em Teerão, e sequestram 52 americanos durante 444 dias. Washington rompe relações diplomáticas e impõe sanções ao país. O xá morre no exílio.

­— 1980-88
EUA apoiam Iraque

Na guerra Irão-Iraque, os EUA apoiam os esforços de Saddam Hussein, aprofundando as tensões entre os dois países. Pelo meio, no entanto, os EUA enviaram armamento para o Irão, de forma secreta durante a Presidência de Ronald Reagan, num caso que ficou conhecido como Irão-Contras.

­— 1984
Acusação de patrocinador do terrorismo

O Presidente Ronald Reagan designa oficialmente o Irão como um “Estado patrocinador do terror” após o ataque a uma base militar em Beirute, em que 241 militares americanos foram mortos. Os EUA culparam o Hezbollah, um movimento xiita libanês apoiado pelo Irão.

­— 1988
Voo da Iran Air abatido

Numa época de grandes tensões no Golfo Pérsico, um navio de guerra dos EUA abate com um míssil um Airbus A300 da Iran Air, com destino ao Dubai, matando todas as 290 pessoas a bordo. Os EUA, que alegaram ter sido um erro, não se desculparam formalmente nem reivindicaram a responsabilidade, mas pagaram 61,8 milhões de dólares às famílias como indemnização.

­— 1995
Mais sanções

Os EUA endurecem as sanções ao Irão, devido ao apoio de Teerão a grupos como o Hezbollah, o Hamas e a Jihad Islâmica. O Congresso dos EUA aprova uma lei que penaliza entidades estrangeiras que invistam no setor energético do país.

­— 2002
“Eixo do Mal”

Após os ataques de 11 de Setembro, o Presidente George W. Bush afirma que o Irão faz parte de um “Eixo do Mal”, juntamente com o Iraque e a Coreia do Norte. Isto numa altura em que existiam negociações secretas entre os dois países para encontrar forma de combater inimigos comuns: os talibãs no Afeganistão e a Al-Qaeda. A relação volta a deteriorar-se.

­— 2015
Acordo nuclear

Após três anos de intensas negociações, é assinado em Viena o Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA), que limitaria as atividades nucleares do Irão em troca de um alívio das sanções. China, Rússia, França, Alemanha, Reino Unido e União Europeia também fizeram parte do acordo que limitou o enriquecimento de urânio do Irão a 3,67%.

­— 2018
Trump rasga acordo

Após tomar posse, Donald Trump retira os EUA, de forma unilateral, do acordo nuclear com o Irão, que sempre tinha sido criticado por Israel. De imediato, o Irão começa a produzir urânio enriquecido além dos limites impostos pelo acordo.

­— 2020
General assassinado

Num ataque de drones, durante o primeiro mandato de Trump, os EUA matam o general iraniano Qassem Soleimani, comandante da força de elite da Guarda Revolucionária Islâmica, em Bagdade. O Irão respondeu com ataques a ativos americanos no Iraque.

­— 2025
Carta e ataques

Em março, pouco depois de tomar posse, Trump envia uma carta ao líder supremo do Irão, aiatola Ali Khamenei, a propor novas negociações sobre um acordo nuclear. As negociações começaram de forma não oficial em Omã e em Itália e Trump chegou a afirmar que a sua equipa estava “muito perto” de um acordo. Israel lançou ataques contra o Irão um dia antes da sexta ronda de negociações entre o Irão e os EUA. Depois, a 22 de junho, os EUA bombardeiam três instalações nucleares do Irão, citando preocupações com a segurança e a defesa de Israel.

Contrariamente ao que muitos esperavam, a estratégia mais dura dos EUA prosseguiu com o Presidente Joe Biden, que procurou também criar um eixo árabe-israelita para influenciar a região. A normalização das relações entre Israel e a Arábia Saudita tornou-se o foco central da política de Biden para o Médio Oriente. De tal modo que estava prestes a ser alcançado um acordo histórico entre os dois países quando, a 7 de outubro de 2022, o ataque terrorista do Hamas mudou as regras do jogo e deitou tudo a perder.

Segundo Vali Nasr, cientista político iraniano-americano e autor do livro Iran’s Grand Strategy, “a estratégia de Trump-Biden apenas agravou as tensões regionais”. Na sua leitura, ao sentir-se acossado, o Irão respondeu à pressão dos EUA expandindo o seu programa nuclear e o seu apoio aos hutis no Iémen. “Mesmo antes do ataque de 7 de outubro, os Estados do Golfo já tinham perdido a confiança na estratégia de Washington. Em março de 2023, a Arábia Saudita rompeu fileiras para normalizar as relações com o Irão – num acordo mediado pela China”, esclarece.

Foi então que vieram os ataques do Hamas e a guerra devastadora de Israel em Gaza, que inviabilizou a normalização entre Israel e a Arábia Saudita. E tudo se complicou ainda mais quando, no outono de 2024, uma série de acontecimentos veio alterar a realidade. Primeiro, Israel matou o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Depois, aniquilou Yahya Sinwar, o líder do Hamas que planeou o ataque de 7 de outubro. E no início de dezembro, o regime sírio de Bashar al-Assad, um aliado de longa data do Irão, entrou em colapso.

Com a chegada de Trump ao poder, foi a vez de Israel ser surpreendido com a postura dos EUA: em vez de seguir a estratégia israelita, e preocupado com a possibilidade de ter de entrar numa guerra dispendiosa, Trump deu uma reviravolta. E passou a apoiar aquilo que tinha repudiado no seu primeiro mandato: um acordo nuclear.

“Ao fazê-lo, Trump conta com o apoio dos Estados do Golfo, que, apesar de se oporem ao acordo anterior, agora também favorecem a diplomacia com o Irão”, sublinha Vali Nasr, num artigo publicado há duas semanas na Foreign Affairs. “A razão mais óbvia para essa mudança é o medo do que uma guerra no Golfo causaria às suas economias. Num nível mais fundamental, a Arábia Saudita e outros Estados do Golfo veem um acordo nuclear como fundamental para alcançar um novo equilíbrio de poder no Médio Oriente”, esclarece.

Segundo o especialista em política internacional “o Irão e os Estados do Golfo precisam agora uns dos outros, e ambos os lados precisam de um acordo nuclear”. E, no meio do atual clima, essa pode ser mesmo a melhor notícia. E, porventura, a explicação para a urgência com que Donald Trump quis impor um cessar-fogo entre o Irão e Israel, depois de ter ordenado o maior ataque direto ao território da antiga Pérsia. A geografia, se calhar, tem sempre razão.

B-2 Spirit – A arma invisível

O bombardeiro mais difícil de intercetar do mundo foi decisivo no ataque ao Irão, mas nunca chegou a desempenhar a missão para que foi criado

A Midnight Hammer (Martelo da Meia-Noite) durou 36 horas, envolveu 125 aeronaves, mas manteve-se completamente secreta até se ouvirem as explosões nas instalações nucleares iranianas, na noite de 21 para 22 de junho. No centro da operação esteve uma formação de sete B-2 Spriti, que largaram de uma base aérea no Missouri para um voo de 18 horas – com reabastecimentos pelo meio, nomeadamente no Atlântico, através de aviões-tanque lançados da Base das Lajes, nos Açores – até aos alvos identificados. Aí, cada bombardeiro lançou duas bombas GBU-57, que têm a capacidade para atingir alvos a grande profundidade. Depois, fizeram outras 18 horas de regresso à base nos EUA.

Nesta missão foi utilizado um terço dos B-2 existentes, já que apenas foram fabricados 21 destes bombardeiros, que custam mais de mil milhões de dólares cada um, e que são considerados a “aeronave mais difícil de intercetar”.

Desenvolvido pela Northrop Grumman, este bombardeiro foi projetado, ainda nos anos 1980, com o propósito de transportar 16 bombas nucleares gravitacionais B-61. No entanto, só entraram ao serviço dois anos após a queda da União Soviética e, portanto, nunca cumpriram a missão inicial de dissuasão nuclear.

Os B-2 têm uma autonomia de 9 600 quilómetros (sem reabastecimentos suplementares), a uma velocidade próxima da do som (1 234 km/h) e até 15 000 metros de altitude. Com uma envergadura de 50 metros, formato de asa e revestimento especiais, consegue iludir os radares, onde é confundido com um pássaro grande.

Os B-2 tiveram o seu batismo de fogo em 1999, na Sérvia, ao serviço das forças da NATO. E em 2001 realizaram uma missão de combate no Afeganistão. Nesta operação no Irão, a sua utilização foi fundamental por serem os únicos bombardeiros capazes de transportar a bomba GBU-57, devido à sua carga útil de 20 toneladas.

Os B-2 estão programados para ser retirados do serviço ativo em 2032. Serão substituídos, a partir de 2026, pelos B-21 Raider, um pouco mais baratos (700 milhões de dólares), que serão invisíveis aos radares, mas também a sensores infravermelhos e digitais.

O mês de julho arranca como terminou junho: com uma onda de calor, com temperaturas substancialmente mais elevadas do que o normal e noites tropicais.

Os mapas do modelo utilizado pela Meteored apontam para temperaturas com valores acima dos da média climatológica de referência para o mês de julho na maior parte da geografia do Continente.

Para este segundo mês do verão climatológico, Alfredo Graça, geógrafo e editor-chefe da Meteored Portugal, prevê precipitação escassa, com aguaceiros esporádicos, embora pontualmente fortes e irregulares na sua distribuição geográfica e intensidade. É possível que se repitam os fenómenos de granizo e trovoada.

As temperaturas muito elevadas a extremas, em conjunto com a falta de chuva, levam a organização a falar em “semanas duras”, que podem “prejudicar gravemente as culturas agrícolas e provocar desequilíbrios inesperados a nível hídrico e dos solos”.

O YouTube confirmou numa publicação na sua página de suporte que, a partir de 22 de julho, a idade mínima para transmissão de conteúdos em direto na plataforma passa para os 16 anos. Até agora, a idade mínima para quem queria publicar, sozinho, vídeos em direto era de 13 anos. Agora, o requisito passa a ser de 16 anos ou, em alternativa, aparecer com um adulto no stream.

A partir de 22 de julho, os menores de 16 anos que façam livestream sem um adulto presente, enfrentam penalizações como ver o chat ao vivo desabilitado ou outras funcionalidades temporariamente bloqueadas. A intenção passa também por remover os livestreams que infrinjam esta regra e impedir que essas contas publiquem depois em outros canais também. Os utilizadores que sejam penalizados serão informados por email, segundo o Engadget.

Os menores de 16 que queiram continuar a criar vídeos em direto vão poder dar acesso a um adulto aos seus canais como editor, gestor ou proprietário, o que irá permitir começar a transmissão a partir da conta ligada. Os adultos que estejam em co-criação terão de estar “visivelmente presentes” e fazer parte da transmissão.

Até agora, não há qualquer explicação oficial para o aumentar da idade mínima.

As agências de inteligência e de segurança de Israel e da Alemanha vão trabalhar de forma próxima para aumentar as capacidades dos dois países. O ministro do Interior alemão viajou até Israel para encetar o plano de construir um centro de investigação cibernético e estreitar a cooperação.

Berlim procura exponenciar a sua defesa, bem como elevar as capacidades militares e contribuições para a NATO, numa altura em que enfrentam potenciais ameaças da Rússia e da China. Alexander Borindt afirmou que “a defesa militar por si só não é suficiente neste momento de viragem. Uma melhoria significativa na defesa civil é também essencial para aumentar as nossas capacidades de defesa geral”. O plano, segundo o Bild, passa por cinco pontos-chave, incluindo o desenvolvimento de uma cúpula para a cibersegurança, a Cyber Dome, como parte da estratégia de defesa.

Já no domingo, o primeiro-ministro alemão Markus Soeder apelou à aquisição de dois mil mísseis de interceção para equipar o país com uma ‘Cúpula de Ferro’ semelhante à de Israel.

Depois de no início deste mês ter assinado uma ordem executiva que prolonga o prazo para a ByteDance encontrar novos donos para a TikTok nos EUA ou enfrentar a proibição de manter a plataforma naquele país, Donald Trump afirma que já tem um “grupo de pessoas muito ricas” interessado na aquisição. Trump fez estas declarações numa entrevista à Fox News no domingo, informando ainda que irá revelar a identidade destes compradores provavelmente daqui a duas semanas.

O presidente dos EUA explicou ainda que o negócio está a ser desenvolvido e que irá precisar da aprovação do homólogo chinês Xi Jinping que deverá aceitá-lo, noticia a Reuters.

As exigências dos EUA são que a operação local da TikTok passe para as mãos de uma empresa norte-americana, detida na sua maioria e operada por investidores dos EUA. Depois de Trump ter anunciado a imposição de tarifas comerciais, a China revelou que não iria aceitar um negócio nestes termos. Em 2024, uma nova lei exigia que a ByteDance passasse completamente a TikTok dos EUA para mãos americanas ou que demonstrasse progresso significativo em direção a uma venda. Desde então, Trump já prolongou o prazo por três vezes, permitindo que a TikTok se mantenha ativa naquele território.

Os seus iWatch e iPhone já se tornaram amigos indispensáveis para se manter a par de quantas horas dormiu, quantos passos deu, como está o seu ritmo cardíaco? Os novos modelos também medem as suas ondas cerebrais.

No passado, a realização de um eletroencefalograma (EEG) era apenas possível em ambiente hospitalar. Atualmente, ainda que sem o mesmo nível de precisão, um EEG já está incorporado no seu relógio, nos auriculares (comercializados pela Emotiv e em breve pela Apple) ou em bandas que podem ser colocadas na cabeça. Quando compramos e aceitamos os termos e condições, concedemos um direito de utilização sobre as nossas ondas cerebrais à empresa, que disponibiliza no nosso telefone um conjunto de gráficos sobre a nossa saúde, mas que também armazena as nossas ondas cerebrais para as utilizar no treino de Large Language Models (veja-se os termos e condições dos gadgets da Emotiv, disponíveis no site). A Emotiv afirma que os seus gadgets já conseguem detetar o nosso estado de humor e as nossas emoções, se estamos cansados e qual o nosso nível de atenção. Utilizados para medir o nível de cansaço de quem conduz máquinas perigosas, podem ser uma ferramenta útil, mas e se forem usados para decidir ou não renovar o seu contrato de trabalho?

Em 2023, foram nomeados para os BCI Awards dois projetos de investigação, em que foram desenvolvidos modelos que, ao lerem os sinais captados pelo EEG (com e sem implantes no cérebro), se mostraram capazes de descodificar o sentido do que os voluntários estavam a pensar.

A Emotiv anuncia no seu site como as suas bandas podem ser utilizadas para melhorar as campanhas de marketing. Uma leitura – não intermediada – das ondas cerebrais que visa compreender a eficácia de uma determinada mensagem, quando é mais efetiva, como deve a campanha ser ajustada. Os focus groups têm agora uma banda na cabeça.

O mercado de neurotecnologia valia, em 2024, 15 mil milhões de dólares e antecipa-se que atinja os 52 mil milhões de dólares em 2034. Face ao lucro potencial, o incentivo para tornar os gadgets mais precisos e encontrar novas formas de utilização é indiscutível.

Mas o que significa terceiros – governos, partidos políticos, empresas, grupos de interesses… – terem à sua disposição instrumentos que lhes permitem conhecer o nosso estado de espírito (e um dia, o que pensamos), quando estamos mais vulneráveis e permeáveis a determinadas mensagens?

O artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece: “Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião.” Neste e noutros instrumentos – incluindo na nossa Constituição – não se concretiza o que é liberdade de pensamento. Surge associada a manifestações exteriores, por exemplo, liberdade de expressão. É assim, porquanto, até hoje, o que pensamos e optamos por não partilhar – porque entendemos que não é o momento, porque ainda estamos a formar uma posição, porque tememos as consequências, ou simplesmente porque nos envergonhamos de certos pensamentos e nos autocensuramos – constituía o nosso foro privado, inviolável. O que configura o nosso foro privado e até que ponto pode legitimamente ser influenciado, doutrinado, catequizado, não está concretizado na lei. E até o ser, com um simples clique cedemos o controlo sobre o que nós e os outros sentimos. Isto porque os dados são tratados por algoritmos que organizam as nossas ondas cerebrais em padrões e se tornam aptos a ser interpretados. Face aos riscos, debate-se – na ONU, no Conselho da Europa e noutros fóruns – como assegurar a proteção da integridade do nosso eu interior. Os direitos humanos atualmente reconhecidos são suficientes, carecendo apenas de detalhe e concretização? Ou devem ser criados novos “neuro direitos” que nos protejam dos inevitáveis avanços tecnológicos e das suas aplicações comerciais? A demora na concretização ou na definição de novos direitos coloca-nos, a todos, em risco.

O glamour associado aos gadgets retira-nos sentido crítico e facilmente clicamos no “permitir”. No entanto, se “votamos” com a carteira e na compra do próximo gadget, além das funcionalidades, podemos também ponderar que dados são usados e para que fins.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Entre 1951 e 1952, o general americano Dwight Eisenhower foi o primeiro comandante supremo aliado das tropas da NATO estacionadas na Europa. O homem que tinha liderado as forças anglo-americanas, no assalto final à Alemanha de Hitler, pelo lado ocidental, durante a II Guerra Mundial, vinha com a missão de encaminhar os europeus nos primeiros passos para a futura autonomia defensiva da Europa Ocidental. “Dentro de dez anos”, profetizou, erradamente, o herói da II Guerra, “os aliados europeus estarão aptos a defenderem-se sozinhos e os militares americanos poderão abandonar as suas bases aqui e regressar a casa”.

É verdade que a previsão de Eisenhower ignorava um “pequeno” pormenor que desequilibraria permanentemente a balança para o lado soviético: o da capacidade nuclear. Capacidade essa que os americanos sempre resistiram a partilhar (obrigando, por exemplo, a França do desconfiado general De Gaulle a investir no seu próprio programa, fora da alçada da NATO). Mas também é verdade que os europeus, concentrados na construção de um Estado social que, na expressão dos ideólogos trabalhistas ingleses do princípio do século, cuidasse do homem “desde o berço ao túmulo”, e confiantes na asa protetora da América, foram sempre descurando – e delegando – a sua defesa, perdidos, também, nas velhas rivalidades interestaduais. A história da NATO é um relato permanente de tensão entre este e o outro lado do Atlântico. Um dos mais celebrados secretários-gerais da organização, o alemão Manfred Wörner, que exerceu o cargo entre 1988 e 1994, conseguiu o compromisso, jamais cumprido, dos Estados-membros de reservarem 5% do PIB para o investimento em Defesa – curiosamente, o exato número mágico que volta a estar, por estes dias, em cima da mesa de mais uma importante cimeira da NATO, em Haia, nos Países Baixos. Aliás, desde os tempos de John F. Kennedy, um dos presidentes americanos mais vocais contra a inércia europeia em matéria de Defesa – o que faz de Donald Trump um modesto desmancha-prazeres… – que os europeus se comprometeram, cíclica e sucessivamente, com, pelo menos, 2% do PIB, outro dos números de que se tem falado e que o próprio Governo português prometeu acomodar no exercício orçamental já deste ano – sabe Deus com que espécie de contabilidade criativa… Portanto, as tricas entre os membros europeus das NATO e o seu poderoso aliado americano não são de agora, não foram criadas por Donald Trump, nem desaparecerão de cena, por muitos anos que a NATO se aguente.

E o problema é esse: quanto mais tempo se aguentará? É que, se antes, mesmo com todos os desentendimentos, o “inimigo” de europeus e americanos era, ao menos, comum – a União Soviética e, depois dela, uma entidade difusa chamada “terrorismo” ou, de novo, a Rússia, hoje já não sabemos se o inimigo da Europa é o mesmo dos EUA, tão apegados que parecem, volta e meia, Putin e Trump. Não sabemos, até, se o novo inimigo não serão… os Estados Unidos! Este volte-face geopolítico deixa os líderes europeus como moscas a bater nos vidros de uma janela.

Em 1975, durante o gonçalvismo, Portugal, embora se mantendo como membro da Aliança Atlântica, foi posto numa espécie de quarentena, sem acesso a informação sensível, dado o fundado receio de que os segredos passassem, via Lisboa, para Moscovo. Mas hoje os EUA continuam a ser os detentores não só dos segredos, mas de todo o poder, no seio da estrutura militar da NATO. Durante a Guerra Colonial, a Administração Kennedy proibiu que armamento americano fosse usado por Portugal, nas suas guerras em África. Vem daí a opção portuguesa por outros fornecedores: a G3, arma “histórica” do Exército português, era uma espingarda automática de patente alemã, tal como a metralhadora ligeira HK21; a UZI, pistola-metralhadora israelita, coincidia com a sua congénere portuguesa FBP (da Fábrica de Braço de Prata, onde, sob licença, também se fabricavam as armas alemãs e respetivas munições). A pistola Walther, usada pelos oficiais portugueses, era também alemã. Os caças eram os italianos FIAT e os helicópteros PUMA eram de origem francesa.

Esta semana, virá a propósito referir, os EUA terão utilizado a Base das Lajes (ver pág. 48) como apoio logístico para a operação contra o Irão – uma missão completamente fora das atribuições da NATO. A oposição parlamentar portuguesa pediu explicações ao Governo e os esclarecimentos de Nuno Melo, ministro da Defesa, foram prontamente aceites pelo PS. Quer isto dizer que, na hora da verdade, os aliados dizem presente e que os partidos centrais se mantêm alinhados na real politik da Aliança com os EUA. Pode ser um bom sinal.

Aqui há atrasado, fui falar sobre o 25 de Abril a uma escola secundária. Os telemóveis ganharam-me, mas não me golearam: havia quase metade da sala a acompanhar com alguma atenção o que eu ia dizendo.

Quando passámos à fase das perguntas, notei que havia um grupo pequeno que incentivava um dos seus elementos a tomar a palavra. Era um rapaz bem parecido, vestido com roupa de marca e claramente popular na escola. Levantou-se e disse: “Disse essas coisas todas sobre o 25 de Abril, então porque é que o País piorou tanto nos últimos 50 anos? Acha bem o PS e o PSD terem destruído o País?” 

Quando os dirigentes do Chega têm essas declarações, querem conscientemente declarar que durante a ditadura salazarista estávamos melhor. Não me ocorre narrativa tão mentirosa e tão exploradora de ignorância, mas louve-se, ao menos, a franqueza

Percebi algumas coisas: o rapaz não tinha ouvido nada do que eu tinha dito e estava convicto da nova “verdade” criada pelas forças da extrema-direita. Achou-me um agente da extrema-esquerda, claro está.

O slogan está instalado e André Ventura repete-o em todo o lado: nas redes sociais, quando é entrevistado e com o mais distinto descaramento na Assembleia da República: o País foi arruinado nos últimos 50 anos. “Olhamos para trás e o que nos trouxeram 50 anos de PS e PSD? Pobreza, corrupção e miséria” ou “se em 50 anos nada mudou, porquê continuar a confiar nos mesmos?”

Não há dados científicos suficientemente claros que permitam inequivocamente dizer que os últimos 50 anos foram aqueles em que mais portugueses viveram melhor. Mas desafio qualquer historiador a dizer-me em que época tantos viram a sua vida melhorar em termos de qualidade de vida, em termos económicos, de proteção social, de saúde, de educação, de habitação, de saneamento básico, de direitos políticos, de diminuição de corrupção, de igualdade, de diminuição de pobreza, de justiça para as minorias, de dignificação do papel das mulheres, de mobilidade social, de liberdade de imprensa, económica, de expressão e de tantos mais etceteras. 

O Banco de Portugal fez a propósito dos seus 50 anos uma comparação muito resumida desse período, com dados bem estruturados e magníficas fotografias – há mais livros deste tipo e dados estatísticos de todas as formas e feitios. Basta consultar.

Deixo só alguns dados: a escolaridade média era de 4,3 anos, sendo que 26 em cada 100 pessoas não sabiam ler e apenas uma em cada 100 pessoas tinha o Ensino Superior completo, agora apenas três em 100 não sabem ler e 38 pessoas em 100 têm o Ensino Superior completo. Entre os mais jovens, a taxa de escolarização está no topo da União Europeia – é algo de extraordinário vindo de onde viemos.

Fez-se o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Havia 38 mortes por cada mil nascimentos, agora há 2,6 por os mesmos mil; a esperança de vida passou de 68 para 82 anos. Somos dos países com menores taxas de mortalidade infantil.

Lembro-me bem das barracas e da sua erradicação, agora 70% dos portugueses têm casa própria. Em 1974, 52 em cada 100 habitações não tinham água canalizada, agora há 0,6; havia 36 casas em 100 sem luz elétrica, agora 0,5.

Apoios sociais: criação do subsídio de desemprego, proteção à maternidade, subsídio social de desemprego, rendimento social de inserção, pensões de reforma, etc., etc. 

Um terço das mulheres eram analfabetas e a escolaridade média das mulheres acima dos 19 anos era de um ano. Facto: eram pessoas de segunda categoria. 

Não valerá a pena falar do resto. De democracia, de liberdades (económica, por exemplo), de censura, de PIDE, de mobilidade, de direitos face ao Estado, de direitos reprodutivos, etc., etc., etc. 

Uma pequena nota sobre a corrupção. Ditadura e corrupção são sinónimos. Corrupção define-se pela obtenção de vantagens privadas prejudicando o bem comum. Uma ditadura mantém-se pela força para que um privado ou um conjunto de privados não tenham de prestar satisfações sobre o que fazem ao que devia ser de todos. 

Aquele rapaz da escola secundária terá desculpa, é novo, não viveu o tempo que eu vivi, não viu o que este país mudou. Mas confesso que quando o ouvi senti uma enorme sensação de impotência. Disse estes dados e outros, mas ele e o grupo dele sorriam ironicamente. “Mentiroso”, ouvi eu. 

Eu disse que podíamos ter feito melhor, mas arriscava dizer que era quase impossível ter feito melhor num País que era de analfabetos e que tinha tantas deficiências. Sim, ainda somos pobres e era normal que quiséssemos mais, mas não podíamos olhar para trás e dizer que não estávamos melhor.  

Talvez a culpa seja da escola, dos pais, do meio em que vive, do desprezo que há pela História. Não faço ideia. Digamos que ele pode ter desculpa – não tem, mas pronto. 

Já os da minha idade ou próxima que repetem a ladainha dos péssimos 50 anos não têm desculpa, não há ignorância que lhes valha.

Mas quem não tem mesmo desculpa são os indivíduos que andam com a conversa das cindo décadas desgraçadas sabendo que não é verdade e a reproduzem por motivos políticos torpes.  

No entanto, até da mais profunda desonestidade alicerçada na mais desbragada mentira se pode aproveitar alguma coisa. Quando os dirigentes do Chega têm essas declarações, querem conscientemente declarar que durante a ditadura salazarista estávamos melhor. Não me ocorre narrativa tão mentirosa e tão exploradora de ignorância, mas louve-se, ao menos, a franqueza. 

A minha angústia continua, porém: será que vamos a tempo? Será que a vitória da mentira é inevitável, como o foi tantas vezes ao longo da História?

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.