O Douro volta a ser o epicentro de uma das celebrações mais completas da cultura portuguesa: o Douro & Porto Wine Festival, de regresso ao Porto Comercial de Cambres, em Lamego, para uma ambiciosa 4ª edição, a começar pelo cartaz musical.

No primeiro dia, nesta sexta, 4, sobem ao palco S. Pedro (19h15), Nena e Joana Almeirante com o projeto 2 Pares de Botas (20h30), a icónica brasileira Vanessa da Mata (22h) e o não menos carismático David Fonseca (23h45). No sábado, 5, atuam Margarida (19h15), João Só (20h30) – acompanhado pelas convidadas Carolina de Deus e Mónica Teotónio –, o britânico James Morrison (22h) e Os Quatro e Meia (24h), a quem cabe este ano o espetáculo de encerramento de um festival bastante diferente dos restantes, por ter como principal objetivo a celebração do território e dos seus sabores.

Mais uma vez, a denominada Wine Village contará com dezenas de produtores e centenas de rótulos para prova, representando a excelência da região vinícola do Douro e do vinho do Porto. Durante dois dias, os visitantes poderão brindar com vinhos icónicos e descobrir novas referências, num ambiente descontraído mas profundamente enraizado na tradição.

Outro dos pilares do festival é, como não poderia deixar de ser, a gastronomia. No espaço Chef’s Court, um coletivo de chefes de cozinha nacionais, sob curadoria de Renato Cunha, irá apresentar diversos pratos confecionados em fogo de chão com produtos da região. Estão confirmados os nomes de António Queiroz Pinto (Taberna Lura, Baião), Álvaro Costa, Nuno Castro (Fava Tonka, Leça da Palmeira), Pedro Machado (Verdial, Rande, Felgueiras), Miguel Cardoso (Restaurante Pena, Amarante), Renato Cunha (Ferrugem, Vila Nova de Famalicão), Rui Martins, António Vieira (Wish, Porto) e ainda o restaurante Adega Escondidinho, de Peso da Régua, liderado pelo chefe Fabrice Alvarez, numa verdadeira celebração da cozinha duriense e da sua capacidade de se reinventar sem perder a autenticidade.

O festival decorre numa localização privilegiada na margem de Lamego, com vistas deslumbrantes sobre o Peso da Régua, as vinhas e o rio Douro. Para facilitar o acesso ao recinto, a organização disponibiliza sistemas de shuttle e transporte fluvial. – Miguel Judas

Porto Comercial de Cambres, Lamego > 4-5 jul, sex-sáb 17h > €30 a €45 (passe)

O alerta para um incidente de poluição foi dado pelas 15h55, levando à deslocação imediata para o local elementos da Capitania do Porto e Comando Local da Polícia Marítima de Lisboa e da Autoridade Portuária, que procederam à contenção do produto poluente, “tendo sido tomadas as medidas possíveis, de forma a mitigar os efeitos do derrame”, como informou esta quinta-feira, em comunicado, a Agência Portuguesa do Ambiente.

“A Polícia Marítima recolheu as amostras de material poluente para preservação da prova e posterior instrução processual, entregues no Laboratório de Referência do Ambiente da Agência Portuguesa do Ambiente”, refere ainda a nota.

Devido ao aparecimento de detritos nos areais da zona do Seixal, a Capitania do Porto de Lisboa restringiu o acesso da população às zonas afetadas, onde seja visível o poluente na água ou na areia.

A entrega de veículos aos consumidores é uma métrica utilizada para avaliar o desempenho dos fabricantes automóveis e, neste capítulo, a situação não está favorável para a Tesla. Pelo segundo trimestre consecutivo, a empresa de Musk registou um declínio no número de entregas, para as 443956 unidades, no segundo trimestre de 2025, menos 13,5% do que em igual período de 2024. Dos veículos entregues, 97,3% eram os populares Model 3 e Model Y.

Os principais analistas estimavam uma quebra de 10% neste segmento, pelo que a queda de 13,5% coloca a Tesla numa posição pior do que a esperada.

A concorrência de rivais como a Ford, General Motors e Rivian ou chineses como a BYD faz-se sentir nas vendas da Tesla. Por outro lado, os consumidores não perdoam a ligação próxima de Musk com Donald Trump, o seu papel no DOGE, o departamento que desencadeou uma série de cortes de fundos e despedimentos em várias organizações nos EUA, bem como a sua aproximação às ideias de extrema-direita, elenca o Gizmodo.

Apesar da quebra das entregas, a Tesla continuou a produzir mais veículos do que antes, nas 410244 unidades neste trimestre, praticamente o mesmo número que no trimestre anterior. Esta produção deixa antever que a Tesla esteja a preparar-se para o regresso da procura a breve prazo.

Por outro lado, Musk continua a estratégia de reposicionar a Tesla, reforçando que a marca está a desenvolver soluções de Inteligência Artificial, robótica e software, tentando eliminar a dependência da venda de veículos elétricos. Nos últimos tempos, a empresa apostou no lançamento de um serviço de táxis autónomos nos EUA, algo que foi recebido com um misto de reações.

Depois de empresas como a Anthropic e a OpenAI terem lançado modalidades de subscrição mensal mais caras e que conferem acesso a ferramentas de IA avançadas, também a Perplexity tem uma solução semelhante. O Perplexity Max custa 200 dólares por mês e permite aos utilizadores acesso ilimitado às ferramentas e produtos mais avançados, estando disponível para iOS e acesso web.

Com esta subscrição, os utilizadores podem usar a Labs de forma ilimitada, uma ferramenta lançada em maio que ajuda na criação de folhas de cálculo, apresentações, aplicações web e muito mais. O Max permite ainda acesso antecipado a novas ferramentas, como o Comet, um navegador web que é descrito como “um parceiro poderoso de pensamento para tudo o que se faz na Internet”. Outros benefícios passam pela prioridade no apoio a cliente e acesso a modelos avançados de parceiros como a Anthropic e a OpenAI, noticia o Engadget.

A empresa vai ainda continuar as subscrições mais baratas, como o plano Pro que custa apenas 20 dólares por mês.

A OpenAI vai receber 4,5 gigawatts de capacidade de computação por parte da Oracle, fruto de um acordo celebrado agora e avaliado em 30 mil milhões de dólares. Para fazer face a esta procura, que equivale a um quarto de toda a capacidade atual dos centros de dados dos EUA, a Oracle vai construir vários novos centros de dados naquele país.

Segundo a Bloomberg, 1 GW está em linha com a capacidade de um reator nuclear, pelo que é fácil perceber a grandeza da dimensão deste acordo. Este projeto está inserido na iniciativa ‘Stargate’, em parceria com a Softbank, e onde se prevê o investimento de até 500 mil milhões de dólares em novos centros de dados. Até agora, foram mobilizados mais de 50 mil milhões de dólares para o efeito.

Texas, Michigan, Wisconsin, Wyoming, Novo México, Georgia, Ohio e Pensilvânia estão na lista dos locais a receber estes novos centros de dados onde será processada a informação fundamental para o funcionamento das plataformas de IA generativa.

Com este anúncio, as ações da Oracle subiram mais de 5% para máximos históricos de 229,98 dólares.

A Honor acaba de anunciar o lançamento do Magic V5, um smartphone que se dobra na lateral e que é descrito como o “mais fino do mundo”. Este modelo mede 8,8 mm quando fechado, o que permite bater os 8,9 mm do Oppo Find N5. Importa realçar que estas dimensões não têm em consideração o alto produzido pela câmara traseira e só se aplicam ao modelo em branco, com as outras versões a medirem perto de 9 mm devido aos acabamentos veganos e à fibra utilizada.

O módulo de câmara tripla na traseira provoca um aumento na espessura total do modelo. Em termos de especificações, esta configuração da câmara permite sensores com resoluções superiores e aberturas mais rápidas em quase todos os parâmetros.

O The Verge revela que o telefone aberto tem uma espessura de apenas 4,1 mm, menos 0,1 mm que o rival da Oppo, mas ainda longe dos 3,6 mm do Huawei Mate XT. Na próxima semana, a Samsung deve anunciar o Galaxy Z Fold 7 que irá atiçar ainda mais esta batalha de milímetros pelos modelos mais finos. A Honor não o afirma publicamente, mas com um peso de 217 gramas coloca o Magic V5 também como o dobrável mais leve, no mesmo patamar que o X Fold 5 da Vivo.

Lá dentro, este modelo tem um Qualcomm Snapdragon 8 Elite, 16 GB de RAM e uma bateria de 5820 mAh, com ecrãs LTPO OLED de 120 Hz, carregamento sem fios e certificações IP58 e IP59 para resistência a pó e água.

O Honor Magic V5 está disponível na China e deve chegar “em breve” ao resto do planeta

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Há quem jure ter visto um porco a andar de bicicleta. Nunca tive essa sorte improvável. Nem o vi a pedalar, nem a gostar de imprensa livre. Os suínos preferem lama. Apreciam terreno movediço, onde tudo se enterra e se esconde, sem que se adivinhe a verdadeira profundidade do engano. Mesmo quando aparenta ser rasteirinha, a aldrabice vai cada vez mais fundo, numa pedalada que ninguém parece capaz de travar.

A bicicleta, companheira das primeiras metas e tombos, arrumada a ganhar pó no exato momento em que o paizinho nos deu luz verde para tirar a carta ou licença de motorizada, passou décadas esquecida em garagens e arrecadações portuguesas. Era coisa de menino de joelho esfolado ou de vizinho de cara gasta e roupa cansada, sem dinheiro para o passe. Era símbolo de duplo sentido: por um lado celebrava a liberdade dos putos, por outro, a prisão de alguns mais velhos, entregues à sua infelicidade financeira. Mas o mundo, como as rodas raiadas, dá muitas voltas.

Entre artérias obstruídas – não por placas de gordura, mas por carros – , o bloqueio teimoso do corrimento que dá vida à azáfama urbana, ginásios a pingar lágrimas de suor como quem chora por um corpo de catálogo na praia, e a crise climática a torrar calorias de preocupação, eis que a velha bicla reapareceu, agora enxuta e com modernismo eletrizante.

Tal como a bicicleta, também a imprensa tem sido encostada à berma. Ultrapassada por infortainment, buzinada e insultada com clickbait, a ver passar avenidas cada vez mais largas de desinformação, onde as mentiras entram em corridas como as da Vasco da Gama, com a impunidade legal das redes sociais. O jornalismo tornou-se para muitos uma chatice respeitável, para outros uma irritação insuportável, para cada vez menos uma necessidade indispensável. É rima que enerva e desanima. É como pedalar de olhos fechados e achar que não vamos acabar a esbarrar em enganos, vigarices e deepfakes. Infelizmente, neste novo paradigma de (des)informação, a peta ganha pernas de Joaquim Agostinho e pedala muito mais depressa do que a verdade.

Pensem agora nos vossos pais e avós, que ainda vos ligam a perguntar sobre a entrada HDMI da televisão da sala, a quem ajudaram a criar as primeiras contas nas redes sociais. Imaginem a desorientação ao serem metralhados com um scroll infinito de novos vídeos hiper-realistas, imagens e vozes disparadas por inteligência artificial, capazes de enganar até a vista profissional mais treinada, o cínico mais desconfiado ou o troll que já andou a testar o engano. Se há uns meses partilhavam deslumbrados imagens do menino africano que fazia esculturas impossíveis com latas de Coca-Cola, hoje estão expostos a uma simples partilha de WhatsApp aldrabada que lhes muda o voto. “Ver para crer” já é palermice desajustada da irrealidade que todos vivemos, diariamente, nos nossos telemóveis. Se ontem metiam acne na cara do Sérgio, amanhã metem um imigrante a apalpar uma menina no metro. Se ontem metiam o Marcelo a cantar “A Cabritinha”, amanhã metem um deputado a conspirar um golpe de Estado.

A etapa está em contrarrelógio. A realidade está a ficar de tal ordem esburacada na universalidade das redes sociais, que pode ser tarde para a verdadeira imprensa se agarrar com força ao guiador e não nos deixar cair na esparrela. Da mesma forma que a bicicleta recuperou importância, desta vez na sua versão elétrica, também a imprensa terá de continuar a deixar para trás o papel, ajustar-se ao novo enquadramento tecnológico e ganhar nova pedalada. E esqueçam os sites com paywall e as esmolas abreviadas no Facebook, Instagram ou X, que já mostraram não saber utilizar ou potenciar.

O que proponho é simples, mas urgente. Em vez de comprarmos zaragatas com as ferramentas que nos estão a maquinar, devíamos usá-las a nosso favor. Imaginem isto: uma nova rede social europeia, criada por consórcio entre imprensa e empresas tecnológicas do velho continente. Uma espécie de Spotify de notícias, mas onde os “artistas” são bem remunerados, porque se é para manter a precariedade, mais vale deixar tudo como está. Nesta rede bem montada, nada entra pela porta do cavalo. Exclusivamente alimentada a notícias, não há espaço para criadores, só profissionais de informação. Jornalistas credenciados, órgãos de comunicação devidamente reconhecidos seriam os únicos a publicar neste sistema. Os restantes utilizadores podem partilhar, comentar e até “seguir e botar like”. Só entram conteúdos verificados, com metadados criptográficos que nos dizem quando e onde aconteceu, quem escreveu ou editou. Nada de screenshots manhosas, nada de vídeos de aparência confiável sem origem comprovada. Tal como na ciência, nesta troca social digital haveria revisão por pares permanente. Fact-checkers de outras publicações funcionariam como colegas cientistas: fiscalizam, disputam, confrontam ou corrigem qualquer notícia que vira publicação. O acesso seria universal e o princípio democrático inegociável, com jornalistas de Portugal à Palestina, de Israel ao Irão, dos EUA à Rússia. O critério seria a carteira profissional e nunca a nacionalidade, cor de pele ou inclinação política. Neste oásis informativo poderia ainda haver uma supervisão de uma nova entidade criada pelas Nações Unidas ou, numa primeira fase, mais próxima de casa, pela União Europeia.

O bom de uma crónica de opinião assinada por alguém que não é jornalista é a liberdade de se atravessar com ideias que, não sendo especializadas, podem

talvez inspirar outras mais fundamentadas por quem faz disto vida. Estou só a plantar sementes. Pode ser que alguma destas sugestões um dia germine e dê frutos.

O jornalismo não se alimenta só de boa vontade e vocação, assim como o curso de comunicação social não foi feito apenas para o sucesso financeiro de assessores de imprensa. Esta nova plataforma digital não teria de ser apenas um enorme museu de notícias, mas poderia tornar-se no ponto de viragem central para resgatar e capitalizar um setor em dificuldades. Neste passeio de ciclovia digital, cada visita permitiria espreitar a paisagem que cada publicação oferece no seu perfil, com a possibilidade de streams em direto, alguns a funcionar 24 horas por dia. Para os utilizadores que quisessem um serviço mais personalizado, bastava ajustar a mudança, com a subscrição de modelos informativos à medida, onde cada tema – da política à cultura, do desporto à ciência – seria feito com curadoria de jornalistas especializados. Este serviço poderia até aceitar o cruzamento de várias publicações, com jornalistas independentes a fazer essa escolha e a prestar essa tarefa. Os utilizadores mais generosos poderiam largar a moedinha na caixinha de gorjetas virtual, na forma de “likes” pagos aos jornalistas e redações, valorizando e incentivando o seu trabalho. Para os mais apressados, não haveria capacetes, mas sim resumos e pontos altos do dia ou da semana, ajustados ao interesse de cada utilizador, como uma espécie de playlist de notícias para a viagem. E porque não adaptar o sucesso do crowdfunding ao jornalismo de investigação, incorporando-o na mesma rede social, com reportagens pedidas e financiadas pelos próprios leitores, mantendo toda a transparência e independência? Cada perfil de jornalista ou jornal teria ainda carta branca para gerir a receita dos anúncios que se atravessam em banners e afins na sua página. No fundo, seria um novo paradigma para lutar contra a precariedade do sector, com novas fontes de rendimento, ancorado num formato que as novas gerações já não dispensam, sem passar pelo funil do atual algoritmo americano. O crescimento da popularidade desta rede inovadora poderia ajudar a exorcizar o fantasma de uma carreira feita só de sacrifícios e promessas tesas de visibilidade, que teima em espantar valor profissional com ordenados miseráveis de mil euros, como os que se praticam em Portugal.

Volto a frisar, não se trata de uma mera plataforma de consulta de notícias. Esta proposta passa pela criação de uma verdadeira rede social, desenhada com os formatos que já funcionam nas redes existentes, mas exclusiva à publicação de jornalismo profissional. Aqui, haveria interação real entre jornalistas e utilizadores, com partilhas comentadas, playlists e listas de interesse personalizadas, remuneração direta e revisão permanente de todos os conteúdos. Uma resposta democrática, que se opõe ao caos das redes atuais e à cada vez maior precariedade do setor da informação. O consumidor de notícias deixa de ser mero espectador e passa a ser parte ativa da solução para um problema que já nos afeta a todos.

Se a bicicleta voltou para nos ajudar a salvar a saúde do planeta, a imprensa deve tentar encontrar uma nova forma de nos pôr a pedalar para a frente. É como dizem os mais velhos: quem aprende não esquece. E nós precisamos urgentemente de nos lembrar que a verdade é o equilíbrio prioritário de qualquer democracia, e que quando ela trava, ninguém se aguenta muito tempo de pé. A desinformação continuará seguramente a circular, porque a via da aldrabice tende a ter prioridade, mas terá nesta rede um radar atento, pronto a tirar fotografia que espelhe a realidade verificada dos factos. Nesta ciclovia tendencialmente blindada só se dará passagem ao jornalismo, sempre com sinalização na berma para o perigo de algum porco que se lembre de se atravessar na estrada, com ou sem bicicleta.

Nota: Um agradecimento muito especial ao artista incrivelmente talentoso Ivan Veliz Villalobos, que, desde o Chile, teve a generosidade de criar e de me enviar a brilhante ilustração que acompanha este artigo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Estamos todos numa praça, no fim de uma manifestação. Aqui e ali, vão aparecendo amigos e conhecidos, com quem se trocam acenos e abraços. A certa altura, um deles comenta. “Somos sempre os mesmos.” Olho-o, concordando. “Sinto que conheço toda a gente que está aqui”, respondo. “Mas ao menos saímos daqui satisfeitos”, contrapõe, com uma gargalhada. A luta política encontrou duas fórmulas: a festa ou o sacrifício. Quando desfilamos numa avenida, cheia de amigos que pensam como nós, há alegria, palavras cantadas, cartazes cheios de ironia, sorrisos cúmplices e uma sensação de se ter cumprido um dever, mesmo que no fundo saibamos que quase nunca nada muda a seguir. Mas também há um sofrimento autoinfligido quando a luta se faz pela greve. Esse sacrifício é evidente quando se fala de uma greve de fome ou dos cordões humanos que resistem à violência, mas pensa-se pouco sobre como cada dia sem trabalhar é um dia de salário perdido.

Essa luta só terá hipóteses de vencer quando se fizer fora das paredes das redações. Quando lá fora houver finalmente uma maioria que entenda porque é que o jornalismo nunca foi tão necessário e como poderia ser tão melhor do que é

“Vai chegar tarde ao trabalho hoje?”, pergunta um jornalista quando há greves nos transportes. “Ficou sem a consulta?”, questiona quando a paralisação é na saúde. “E tem onde deixar as crianças?”, interroga-se quando são os professores que estão em luta. As perguntas desviam a atenção do motor do descontentamento que fez a greve, mas acabam por ser um reflexo do desconforto que é suposto as greves causarem. Sim, porque se a greve não tiver esse efeito, serão só dias de salário perdido e, com isso, quem os paga pode bem.

Estive poucas vezes de greve e não foi por me faltarem os motivos para as fazer. Os jornalistas são quase sempre mal pagos e precários, mas habituaram-se a envergonhar-se das suas lutas. “O jornalista não é notícia, a não ser quando morre”, dizem-nos nas aulas. E nós lá vamos morrendo, devagarinho, sem ser notícia. Sempre prontos para denunciar as injustiças que os outros sofrem, omitindo as nossas. Sempre prontos para relatar as vidas difíceis dos outros, escondendo as nossas.

Mas não é só o pudor deontológico que nos trava as lutas. A notícia morde-nos a pele, precisamos de a dar. As páginas que não escrevemos ficam-nos a arder por dentro. É como se nos faltasse o ar quando, a meio de uma greve, percebemos que há uma história que fica por contar. Como não sei ser outra coisa que não jornalista, não faço ideia se estas aflições atacam professores, médicos ou maquinistas da CP. Admito que sim. Admito que, numa sociedade em que aprendemos a definirmo-nos pelo que fazemos, seja realmente assustadora a ideia de deixarmos de o fazer.

“E tu és o quê?” Eu sou jornalista. E estou em luta. Escrevo estas palavras, não para furar uma greve, que é mais do que justa, mas porque acredito (com a força com que nos convencemos a nós próprios de alguma coisa) que o teclado é a minha arma. Disparo frases enquanto puder, porque o silêncio será a maior derrota.

Que luta é a minha? A de conseguir ter condições laborais dignas para exercer a minha profissão, a começar, claro, pelo mais básico: um salário ao fim do mês. Mas é também a luta de quem acha que o jornalismo é importante para furar as bolhas dos algoritmos que nos isolam uns dos outros, para encontrar espaços comuns onde as diferenças se resolvam pelo diálogo e pela razão e não pela violência, para denunciar injustiças, para escrutinar os poderes, para nos fazer pensar e para nos emocionar.

O jornalismo não se tornará obsoleto enquanto houver quem acredite na importância de um chão comum, que não seja feito de desistência e indiferença, mas que seja o terreiro de uma disputa de ideias, em cima do qual poderão nascer dias melhores. Podem vir mostrar-me ficheiros de Excel, podem vir tentar explicar-me como o mercado condenou o jornalismo, que eu hei de responder com os desmandos de gestão que vi em quatro mãos-cheias que já levo de redações e com a certeza de que a, certa altura, vamos todos perceber que não podemos continuar a viver só aquilo que os mercados desejam.

Essa é a minha luta e é a luta de muitos camaradas (aprende-se no primeiro dia de redação que “colegas” são as senhoras de má vida, “camaradas” é o que somos). Mas essa luta só terá hipóteses de vencer quando se fizer fora das paredes das redações. Quando lá fora houver finalmente uma maioria que entenda porque é que o jornalismo nunca foi tão necessário e como poderia ser tão melhor do que é.

Há uns tempos, uma camarada de outro jornal contou-me uma história interessante. Estava ela, num grupo de amigos menos politizados, queixando-se de como a maior parte das manifestações não dava em nada. Eles, que raras vezes tinham ido a manifestações, contrapuseram com a sua experiência. Sempre que decidiram sair à rua, a luta alcançou vitórias. Um dos exemplos dados era o da TSU, mas tinham outros. Ou seja, depois de muitos protestos feitos pelos tais mesmos de sempre, a dada altura a luta extravasou esses limites e conquistou quem à partida se vê como menos politizado.

Há os que vão levando o barco e os que, saltando lá para dentro já no fim da viagem, chegam ao destino, parecendo-lhes que o percurso foi fácil. O importante, porém, é que todos lá cheguem. Por agora, só quero manter o barco da VISÃO à tona, esperando que ele encontre um bom porto.

Os últimos 50 anos, período que coincide com o regime democrático, foram, provavelmente, aqueles em que o nível de corrupção, em Portugal, terá sido mais baixo. Mesmo contando com as inúmeras falcatruas associadas aos dinheiros que vieram da Europa, o País fez um caminho seguro e constante, sobretudo ao nível das mentalidades, das práticas e do escrutínio. Tudo isto no campo das exigências éticas, da consciencialização coletiva e na censura social contra o “favor”, o nepotismo, o clientelismo e a cunha – que passámos a criminalizar sob a moldura penal atribuída ao “tráfico de influências”. E os comportamentos que antes aceitávamos como normais são hoje condenados, investigados por um poder judicial independente e fiscalizados por uma imprensa livre. Sem contar com os poderes institucionais de oposições que funcionam e têm liberdade para atuar, fiscalizar e denunciar. Os cartazes e os discursos populistas – sim, refiro-me ao Chega – que falam de 50 anos de corrupção são desmentidos pelos factos: houve imensa corrupção, como há, em todos os regimes, mas nunca ela tinha sido tão sistematicamente prevenida, investigada e, no final – o mais difícil e, portanto, ainda com caminho para andar –, punida. Os portugueses mais velhos, com boa memória, lembram-se do País da “atençãozinha”, do “empenho”, do untar as mãos ao fiscal, ao polícia de trânsito ou ao simples manga de alpaca das Finanças. Tudo isto ainda se passa? Sim, pontualmente. Mas é muito mais arriscado. Na pirâmide de favores, cunhas e endogamia sistémicos, a dimensão da metástase corruptiva aumentava consoante crescia a importância do detentor do cargo público ou do servidor do Estado, até à dimensão da oligarquia pura e simples. Antes disso, desde os Descobrimentos, passando pela Monarquia Constitucional e pelos desmandos da I República, é bom nem falar. No Estado Novo, a inexistência de imprensa livre e a ficção de uma separação de poderes que não existia eram sinónimo de inexistência, também, de exemplos de corrupção. Claro, nunca apareciam à luz do dia. E até um escândalo sexual, o caso Ballet Rose, em que altas figuras do regime estiveram comprovadamente envolvidas numa terrível organização de pedofilia, quando foi denunciado, pela oposição, à imprensa internacional, valeu aos seus denunciadores perseguições políticas implacáveis, ordenadas pelo governo e pela polícia de Salazar.

Nesta edição (ver págs. 50-55), um investigador da Universidade de Coimbra, que se debruçou, em livro, sobre os escândalos que abalaram a democracia, afirma que há sempre “algo de podre num regime que não tem escândalos”. O que se percebe: os escândalos deste tipo decorrem da natureza humana. Quando “não existem”, são abafados, escondidos, a imprensa é amordaçada e as autoridades são coniventes.

Se é o regime que vai a julgamento, digamos, desde já, que está absolvido: nenhum outro, desses regimes que são louvados pelas forças que falam de 50 anos de corrupção, aceitaria sujeitar-se a este escrutínio. É essa a superioridade moral dos últimos 50 anos

O próprio António de Oliveira Salazar – segundo os seus saudosistas, o “estadista mais íntegro” da nossa História – não resiste (mesmo, neste caso, sem culpa própria) a um escrutínio mais apertado, o escrutínio da democracia. O que se diria, hoje, se um antigo primeiro-ministro, que já não exerce funções, fosse autorizado a continuar a viver na residência oficial, com todas as despesas pagas e à custa dos contribuintes? Pois foi isso mesmo que se passou com o ditador, depois de, em 1968, ele ter sido destituído. E passou-se de forma vitalícia!

Até fecharmos esta edição, e apesar de tentativas dilatórias de última hora, tudo indicava que José Sócrates começaria a ser julgado, nesta quinta-feira, no âmbito – finalmente! – da Operação Marquês. Sócrates começou por ser indiciado, pelo juiz de instrução Carlos Alexandre, de 31 crimes: três de corrupção passiva na qualidade de detentor de cargo público, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos e três de fraude fiscal qualificada. O antigo primeiro-ministro foi detido (no âmbito de uma investigação que já teria dois anos…) a 21 de novembro de 2014. Esteve em prisão preventiva até 4 de setembro de 2015 e em prisão domiciliária mais um mês e 12 dias. Quando o processo chegou às mãos do segundo juiz de instrução, Ivo Rosa, este fez cair a maior parte dos crimes, uns por insuficiência de provas, outros por estarem prescritos, com duras críticas ao Ministério Público. Mas o recurso deste, junto da Relação, permitiu que as respetivas desembargadoras, por sua vez, criticassem a “ingenuidade” de Ivo Rosa, recuperando quase todos os crimes. Sócrates é acusado de três crimes de corrupção passiva (como inicialmente), 13 de branqueamento e seis de fraude fiscal. Do total inicial de 28 arguidos, sobram 22; e, de 189 crimes, sobreviveram 118. Nomes como os de Carlos Santos Silva, Ricardo Salgado, Armando Vara, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro estão entre os acusados.

Mas a figura principal, José Sócrates, absorve as atenções gerais. A sua personagem daria um filme de Hollywood. Contraditório, na pele de “Dr. Jeckyll”, chefiou um primeiro governo fortíssimo, qualificado e reformista, o último governo reformista que tivemos, depois de Cavaco Silva (que, enquanto Presidente da República contemporâneo desse executivo, chegou a elogiar o ímpeto socrático). Cortando a direito, enfrentando lóbis, reduziu as férias judiciais, retirou privilégios a corporações, iniciou a digitalização da administração pública, impôs o ensino de inglês nas escolas, desde o primeiro ciclo, e aulas a tempo inteiro, providenciou um computador a cada criança em idade escolar, controlou o défice, patrocinou um importante tratado europeu e continuou a construção de vias de comunicação e de outras infraestruturas fundamentais para o desenvolvimento do País. Mas o “Mr. Hide” que havia dentro dele trouxe o autoritarismo, a falta de cultura democrática, mediante o impulso para dominar a comunicação social e silenciar telejornais e, sim, por essa via, exibindo laivos de atentado ao Estado de direito (crime pelo qual terá sido investigado) e pressões sobre a Justiça. Depois de ter saído, ficámos a saber da vida de fausto que levava sem ter meios conhecidos para tal, os pagamentos de despesas astronómicas em numerário, o “amigo” generoso que “lhe pagava” as contas e as explicações estrambólicas sobre casas em Paris e cofres onde nascia dinheiro. Também ouvimos escutas e gravações dos interrogatórios, seus e do “amigo”, que explicitam a desfaçatez, o inverosímil e a fábula. Os tribunais do Estado de direito, dos quais não se esperam preconceitos nem ideias preconcebidas, destrinçarão entre as perceções e a realidade. Mas se é o regime que vai a julgamento, digamos, desde já, que está absolvido: nenhum outro, desses regimes que são louvados pelas forças que falam de 50 anos de corrupção, aceitaria sujeitar-se a este escrutínio. Se Sócrates tivesse os meios de Salazar, ainda estava em São Bento. É essa a superioridade moral dos últimos 50 anos.

“O Alcatraz dos Jacarés vai fazer ‘check-in’ de centenas de imigrantes ilegais criminosos esta noite”, disse na quarta-feira o procurador-geral republicano da Flórida, James Uthmeier, na rede social X. “Próxima paragem: de volta para onde vieram”, adiantou, aludindo à sua deportação dos Estados Unidos.

O centro foi instalado em apenas oito dias, numa pista de aterragem na região pantanosa dos Everglades.

Conta com mais de 200 câmaras de segurança, mais de 8.500 metros de arame farpado e 400 agentes de segurança.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, participou terça-feira na inauguração do centro de detenção, ironizando que os imigrantes que tentem fugir do local correm o risco de serem atacados por animais selvagens. Quando questionado pelos jornalistas sobre se o objetivo do centro de detenção de imigrantes era, em caso de fuga, serem atacados pelos répteis, Donald Trump respondeu: “É esse o conceito.”

“As cobras são rápidas, mas os jacarés (…). Vamos ensiná-los a fugir de um jacaré, ok?”, afirmou Trump, num tom jocoso.

As autoridades estaduais afirmaram que a “Alcatraz dos Jacarés”, centro que descreveram como temporário, contará com tendas e roulottes, permitindo ao estado adicionar 5.000 camas de detenção de imigrantes até ao início de julho e libertar espaço nas prisões locais.

Tal como noutros centros semelhantes no país, as autoridades pretendem deter temporariamente os imigrantes ilegais enquanto aguardam deportação do país.

O nome Alcatraz remete para a histórica prisão ao largo da cidade californiana de São Francisco, num rochedo no mar para onde foram durante décadas enviados alguns dos maiores criminosos do país.

Para o governador da Flórida, Ron DeSantis, e outras autoridades estaduais, o isolamento do aeródromo nos Everglades, rodeado de zonas húmidas repletas de mosquitos, cobras venenosas e jacarés, consideradas sagradas para as tribos nativas americanas, torna-o um local ideal para deter imigrantes ilegais.

“Claramente, do ponto de vista da segurança, se alguém escapar, sabem, há muitos jacarés”, disse DeSantis, que foi um dos principais rivais de Donald Trump na nomeação presidencial pelo Partido Republicano em 2024.