O crime de assédio sexual não existe assim tipificado no nosso ordenamento jurídico. Está previsto no artigo 172.º do Código Penal, na redação introduzida pela Lei n.º 83/2015, de 5 de agosto, que quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de caráter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
É o crime de importunação sexual.
A anterior redação, introduzida pela Lei n.º 59/2007, de 4 de setembro, era menos abrangente, uma vez que limitava a atuação do crime a quem praticasse perante a vítima atos de caráter exibicionista ou a constrangesse a contacto de natureza sexual.
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Porque esta alteração?
Ora, Portugal, através da Resolução da Assembleia da República n.º 4/2013 de 21 de janeiro, aprovou a Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica, adotada em Istambul, a 11 de maio de 2011 (Convenção de Istambul). Este é importantíssimo instrumento do direito internacional que condena todas as formas de violência, especialmente contra as mulheres. Reconhece, entre o mais, que mulheres e as raparigas estão expostas a um maior risco de violência de género que os homens e que a violência contra as mulheres é uma manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens que conduziram à dominação e discriminação contra as mulheres pelos homens, o que as impediu de progredirem plenamente. Define que a violência contra as mulheres constitui uma violação dos direitos humanos.
O artigo 40.º da Convenção versa sobre assédio sexual, impondo às partes que adotem as medidas legislativas ou outras que se revelem necessárias para assegurar que qualquer tipo de comportamento indesejado de natureza sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o intuito ou o efeito de violar a dignidade de uma pessoa, em particular quando cria um ambiente intimidante, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo, seja passível de sanções penais ou outras sanções legais.
Foi neste contexto que a Lei n.º 83/2015, de 5 de agosto alterou várias diplomas, adaptando a legislação nacional àquela Convenção, incluindo o artigo 170.º do Código Penal, introduzindo aquilo que veio a ser publicamente conhecida como a “Lei do Piropo”.
O crime de importunação sexual é um crime de natureza semipública. Quer isto dizer que o Ministério Público não pode promover o processo penal sem que a vítima apresente queixa, nos termos dos artigos 113.º e 178.º do Código Penal, 48.º e 49.º do Código de Processo Penal.
Para tal, é necessário que o ofendido /vítima dê conhecimento do facto ao Ministério Público ou a qualquer outra entidade que tenha a obrigação legal de transmitir, como é o caso dos órgãos de polícia criminal. Só depois da queixa apresentada é que poderá ser instaurado inquérito para recolher provas com vista a apurar se existiu crime e quem foram os seus agentes.
Contudo, o legislador definiu um prazo de caducidade para o exercício deste direito (como, aliás, para todos os crimes de natureza semipública). O artigo 115.º do Código Penal estabelece que o direito de queixa se extingue no prazo de seis meses a contar da data em que o titular tiver tido conhecimento do facto e dos seus autores.
Como conciliar o direito de queixa da vítima com o direito à honra do presumivelmente inocente suspeito?
Podemos dizer que toda a participação criminal dirigida contra pessoa determinada contém, objetivamente, ainda que a nível de suspeita, uma ofensa à honra e consideração do denunciado, por se traduzir na imputação de factos penalmente ilícitos. E o direito à honra está tutelado também em incriminações no Código Penal, nos artigos 180.º e seguintes.
Contudo, temos de ter presente que a todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegido. É o princípio da tutela jurisdicional efetiva, previsto no artigo 20.º da Constituição da República Portuguesa.
O que deve prevalecer: o direito à honra da pessoa denunciada ou o direito à denúncia como caminho de acesso à justiça e aos tribunais?
Em caso de colisão de direitos que são desiguais, deve prevalecer o considerado superior. Ou seja, o direito de denúncia prevalece como garantia de estabilidade, da segurança e da paz social no Estado de Direito e deve assegurar-se ao cidadão a possibilidade quase irrestrita de denunciar factos que entende criminosos (podemos ler em sentido semelhante o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 12/18/2008, relator Conselheiro Sebastião Póvoas).
Entender-se de outra forma seria limitar a liberdade das vítimas em denunciar os factos e levaria a que sempre que alguém apresentasse queixa crime contra terceiro pudesse vir a ser denunciado por crime contra a honra, o que, manifestamente, não é aceitável.
Porém, o ordenamento jurídico estabeleceu um limite: a participação/denúncia não pode ser feita com a consciência da falsidade da imputação.
Ou seja, a lei prevê que quem, por qualquer meio, perante autoridade ou publicamente, com a consciência da falsidade da imputação, denunciar ou lançar sobre determinada pessoa a suspeita da prática de crime, com intenção de que contra ela se instaure procedimento, seja punido pela prática de crime de denúncia caluniosa, previsto no artigo 365.º do Código Penal, com uma pena até 3 anos de prisão ou multa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
O fenómeno da infiltração e instrumentalização das forças de segurança, e até das forças armadas, por movimentos extremistas promotores da violência, do ódio às minorias e do crescimento de práticas autoritárias constitui uma ameaça para o prestígio de que as polícias gozam em Portugal e um risco para a democracia.
O fenómeno não é original, nem exclusivamente português, mas tem crescido com o aumento da influência de movimentos populistas em muitos países europeus e com a resistência às medidas adotadas durante o período da pandemia de Covid-19.
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A Alemanha, por compreensíveis razões históricas, tem uma especial atenção à monitorização de comportamentos extremistas nas fileiras militares e policiais, com frequentes investigações e estudos sobre a dimensão do fenómeno e o ponto alto que foi a dissolução pelo Governo, em 2020, de uma companhia do Comando das Forças Especiais, a unidade de elite das Bundeswerh, por envolvimento em ações neonazis. Em 2024 foram investigados mais de 400 polícias por radicalização extremista e os movimentos alinhados com a extrema-direita são permanentemente monitorizados.
A União Europeia criou em 2011 a Rede de Prevenção da Radicalização, inicialmente vocacionada para os fenómenos terroristas, mas que desde 2021 passou a dedicar-se igualmente à adesão a ideologias extremistas com elevado potencial de violência.
Entre nós tivemos antecedentes que indiciavam que não estaríamos imunes à vaga de movimentos extremistas que percorriam a Europa, como o clandestino Movimento Zero, destinado à desestabilização das forças de segurança, as greves selvagens no SEF, o espancamento que levou à morte de um cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa ou o dirigente sindical da PSP que foi um dos primeiros vice-presidentes do Chega.
Entre nós, as Forças de Segurança conquistaram um reconhecimento generalizado na última década, pelo seu contributo decisivo para a redução da criminalidade que nos colocou desde 2015 no top de segurança do Global Peace Index, pela ação determinada na garantia da paz social durante a aplicação das medidas restritivas nos períodos de Estado de Emergência devido à pandemia e pela proatividade na mudança de comportamentos, e aumento das denúncias, relativamente à endémica violência doméstica.
Sondagens realizadas entre 2021 e 2024 colocavam a confiança nas Forças de Segurança acima da manifestada relativamente aos decisores políticos e a longa distância dos desacreditados tribunais ou do Ministério Público.
Face ao risco de crescente emergência de fenómenos de radicalização, foi aprovado, em 2021, o Plano de Prevenção de Manifestações de Discriminação nas Forças e Serviços de Segurança, integrando as dimensões do recrutamento, da formação e da prevenção de comportamentos atentatórios dos direitos fundamentais. A PSP e a GNR criaram na altura a função de Oficial de Direitos Humanos reportando diretamente aos Comandante-Geral e ao Diretor Nacional. A repartição de competências do antigo SEF, decidida em 2021, visou autonomizar o controlo mais eficaz das fronteiras, pela PSP e pela GNR, do acompanhamento das questões administrativas dos cidadãos estrangeiros por uma AIMA, que deveria ter sido substancialmente robustecida desde a sua criação em vez de ser afogada em processos por dois anos de adiamento da sua entrada em funcionamento.
Desde então, têm-se sucedido os casos que, ao multiplicarem-se, exigem uma resposta estruturada e decidida dentro das Forças de Segurança e a qualificação pelo Governo como uma prioridade de segurança interna. O caso da promiscuidade entre o bando neonazi 1143, oriundo da cultura de violência das claques de futebol, com o Chega e elementos policiais é só um último caso destes sinais de alarme.
Tivemos, entre casos com menor notoriedade, as torturas a imigrantes em Odemira, que levaram à condenação de 5 militares da GNR, que a Relação de Évora reduziu a penas suspensas em 2023, os dois militares detidos em 2024 por extorsão de imigrantes em Tavira, os agente da PSP de Olhão acusados da morte de um cidadão marroquino em 2025, os agentes da Polícia Municipal de Lisboa detidos em 2024 por tráfico de seres humanos e organização de uma rede de prostituição, os 10 militares da GNR detidos em novembro por indícios de serem “capatazes” numa rede de tráfico e exploração de trabalhadores imigrantes no Alentejo e a recente acusação de dois elementos da PSP em Lisboa por violência extrema, partilhada com gáudio por dezenas de colegas nas redes sociais, contra imigrantes e pessoas sem-abrigo.
Já sabemos que para Montenegro ou Leitão Amaro, que se posiciona bem para ser ministro de um eventual Governo de André Ventura, o silêncio será a regra já que o alarmismo securitário é dedicado a saudar a promoção da xenofobia, anunciando com grande pompa espetaculares ações de fiscalização de documentos na rua do Benformoso, com resultados modestos, mas grande impacto mediático.
Lúcia Amaral tem provas dadas na defesa dos direitos humanos e como Provedora de Justiça combateu os abusos cometidos nas prisões e os casos de violência policial.
A propósito do caso da esquadra do Rato, a ministra fez na Assembleia da República declarações corajosas e sem mácula sobre a existência de problemas no recrutamento e na formação inicial de elementos policiais que propiciam o que apelidou de “cultura de violência” entre os agentes mais jovens.
Mas não retirou das justas preocupações as devidas consequências para a atuação reforçada da IGAI ou o retomar das ações de promoção dos direitos humanos e de prevenção da discriminação nas polícias, atualizando o Plano de Ação de 2021. Igualmente não disse como podem proliferar as práticas agora investigadas, reiteradamente como na GNR de Beja ou até promovidas nas redes sociais como no caso da PSP do Rato, sem a responsabilização dos comandos diretos ou a emissão de orientações claras para os dirigentes máximos das Forças de Segurança.
Lúcia Amaral é um oásis de humanismo perante a neutralidade do Governo Montenegro relativamente aos comportamentos extremistas, mas pela sua inação na defesa da integridade das polícias e na prevenção da “fruta podre” nas Forças de Segurança, merece o prémio Laranja sem Sumo destes tempos perigosos em que não se pode ser equidistante entre a decência e a prepotência.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
A indústria farmacêutica existe para melhorar e prolongar a vida humana. Mas como garantir que essa missão não compromete a saúde do planeta que sustenta todas essas vidas? Este é o grande desafio do nosso tempo e, também, a maior oportunidade para liderar uma transformação necessária.
Hoje, a sustentabilidade deixou de ser uma opção para se tornar uma exigência ética, social e económica. Legisladores, consumidores e parceiros esperam respostas concretas. Cuidar da saúde humana e cuidar da saúde ambiental não são objetivos opostos, mas duas faces da mesma missão: proteger as pessoas no seu todo.
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Nada disto é novo, mas o tema adquire cada vez mais contornos de urgência, o que motiva a adoção de medidas, não só para reduzir a pegada ambiental deste setor, que todos sabemos ser grande, mas para o tornar compatível com a responsabilidade que tem no que diz respeito à saúde das pessoas.
O compromisso é claro: emissões líquidas zero e integração da sustentabilidade em toda a cadeia de valor. Isso significa reduzir emissões de carbono, eliminar resíduos, minimizar o uso de plásticos e otimizar o consumo de energia e água. Significa, também, inovar com química verde, apostar em materiais biodegradáveis, embalagens sustentáveis e garantir fornecimento ético de matérias-primas. Tudo isto aliado à digitalização e à inteligência artificial, que permitem prever necessidades, evitar desperdícios e gerir recursos de forma inteligente.
O futuro exige ação hoje. Não basta reconhecer o paradoxo entre salvar vidas e proteger o planeta. É preciso transformá-lo numa oportunidade para inovar e liderar. A indústria farmacêutica tem conhecimento, tecnologia e responsabilidade para ser protagonista desta mudança.
Neste Dia Mundial da Educação Ambiental, deixamos um apelo: que todos os setores, especialmente os que mais impactam o planeta, assumam compromissos claros e mensuráveis. Porque cuidar da saúde das pessoas e cuidar da saúde do planeta não é apenas possível, é essencial.
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A Associated Press analisou vários vídeos captados no sábado, durante a manifestação contra a política migratória de Trump que terminaria com a morte a tiro de Alex Pretti, um enfermeiro de cuidados intensivos, às mãos da Patrulha de Imigração e Fronteiras dos EUA. Os vídeos mostram um agente do ICE a disparar sobre o enfermeiro, um norte-americano de 37 anos, depois de ter sido imobilizado enquanto gravava com o telemóvel os agentes.
Um dos vídeos analisados foi gravado a partir do interior de um carro estacionado em frente ao local e permite ver Pretti a ser imobilizado antes de ser alvejado, o que contradiz a versão do governo federal, de que os tiros teriam sido disparados à defesa depois de o enfermeiro se aproximar dos agentes com uma arma. Segundo a Associated Press, nas imagens vê-se Alex Pretti apenas com um telemóvel na mão. Foi durante a altercação que os agentes perceberam que o manifestante tinha uma arma (para a qual tinha licença), após o que abriram fogo.
Um outro vídeo mostra Pretti a colocar-se entre um manifestante que foi empurrado pelo mesmo agente. A AP relata que o agente, depois de usar spray de gás pimenta, agarra a mão com que o enfermeiro se tentava proteger para a prender atrás das costas, volta a usar o spray e empurra Pretti, que, em segundos, estaria cercado por vários agentes que o agrediram várias vezes. As imagens mostram, segundo a Associated Press, que os agentes do ICE tentam colocar os braços de Pretti atrás das costas, ele resiste, um dos homens afasta-se com o que parece ser uma arma e, pouco depois, ouve-se o primeiro tiro.
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Na versão do Departamento de Segurança Interna dos EUA, os agentes dispararam “tiros defensivos” depois de Pretti “resistir violentamente”.
O comandante-geral da Patrulha de Fronteiras dos EUA, Gregory Bovino, disse no domingo que há “muita especulação” sobre se os agentes viram Alex Pretti a empunhar uma arma antes de atirar, e que os agentes “tiveram uma fração de segundo para tomar uma decisão”.
Trump afirma que incidente está a ser investigado
Numa entrevista exclusiva publicada esta segunfa-feira pelo jornal Wall Street Journal, o Presidente norte-americano disse que o Governo está a investigar o incidente, no entanto, quando questionado se o agente que atirou em Alex Pretti tinha agido de forma correta, não respondeu.
“Estamos a investigar, a rever tudo e emitiremos uma resolução”, disse Donald Trump.
Na entrevista, o Presidente criticou Pretti por estar na posse de uma arma: “Não gosto de tiros. Não gosto.” “Não gosto que alguém entre num protesto com uma arma muito potente, completamente carregada e com dois carregadores cheios de balas. Isso também não é um bom sinal”, acrescentou.
Sobre uma possível retirada dos agentes do ICE, o dirigente afirmou que “em algum momento” irão sair, mas sem indicar uma data.
Portugal continental já está a os efeitos da depressão Joseph, com chuva, neve, vento e agitação marítima, desde o início desta manhã, no Minho e Douro Litoral.
Os efeitos da depressão Joseph irão estender-se depois, de forma gradual, às restantes regiões de Portugal continental na noite de segunda para terça-feira, “e com a passagem de sucessivas ondulações frontais pelo menos até ao fim de semana”, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
A partir de segunda-feira, o IPMA prevê “períodos de chuva, persistente e por vezes forte”, que na terça-feira passam “a regime de aguaceiros, “que poderão ser ocasionalmente de granizo e acompanhados de trovoada”.
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Além disso, a partir de terça-feira de manhã prevê-se “queda de neve nos pontos mais altos da serra da Estrela, descendo gradualmente a cota para 600/800 metros de altitude nas regiões Norte e Centro e na serra de S. Mamede”.
O vento irá soprar mais forte a partir de segunda-feira, “com rajadas até 80 km/h [quilómetros por hora] no litoral oeste e até 100 km/h nas terras altas”.
O IPMA refere ainda que estão previstas ondas com quatro a cinco metros na costa ocidental, a partir de segunda-feira, que irão aumentando, podendo atingir 12 metros de altura máxima a partir de terça-feira à tarde.
Devido à passagem da depressão Joseph por Portugal continental, os distritos de Aveiro, Beja, Braga, Coimbra, Faro, Leiria, Lisboa, Porto, Setúbal, Viana do Castelo e Vila Real vão passar por fases sob aviso laranja nos próximos dias.
De acordo com o IPMA, o aviso laranja abrangerá agitação marítima em 10 destes distritos – a exceção é Vila Real, cujo aviso laranja, respeitante à precipitação, estará em vigor entre as 12:00 de segunda-feira e as 03:00 de terça-feira.
Assim mesmo, sem inibições ideológicas: ai ni laoji (“amo-te, querido eu”)! Foi uma das expressões mais populares de 2025 entre os jovens internautas chineses, apurou a Sixth Tone, uma publicação online da empresa municipal Shanghai United Media Group. “Ao contrário das gerações mais velhas”, a geração Z (nascida nos primeiros anos do século XXI) “está a optar pelo amor-próprio” e pelo “individualismo”, comentou na semana passada um analista da publicação.
Segundo a mesma fonte, vídeos sob o tema “um primeiro brinde a mim próprio” exibidos desde agosto no Douyin, o TikTok na China, atraíram mais de mil milhões de visionamentos.
O diagnóstico do historiador Xu Jilin confirmou-se: para as novas gerações chinesas, “ideais abstratos e grandes desígnios nacionais já não são importantes”, afirmou há um ano aquele professor da East China Normal University, em Xangai.
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Um comentário publicado no Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês, descreveu o fenómeno como “uma ligeira mudança nos valores sociais” e uma chamada de atenção para os “sentimentos individuais”. Parece mais do que uma “ligeira mudança”.
Oficialmente, o coletivismo ainda é “um importante símbolo da civilização espiritual socialista” e “servir o povo” continua a ser uma divisa do governo. Nas escolas, todas as crianças são ensinadas a “amar o partido, o país e o povo”.
Mais de 200 milhões de chineses são filhos únicos. Fruto da política “um casal, um filho” imposta até 2016, eles cresceram como xiao huangdi (pequenos imperadores), o centro das atenções – e das expectativas – de dois pais e quatro avós. “Afastando-se das redes familiares e de vizinhança outrora próximas, eles agora desfrutam de maior liberdade de escolha – mas também enfrentam a vida por conta própria. Momentos de solidão ou desânimo vêm acompanhados da sensação de que não há ninguém em quem se apoiar”, diz a Sixth Tone. “É neste contexto que ideias como ‘amo-te, querido eu’ ganharam popularidade.”
A China, entretanto, converteu-se à economia de mercado e como escreveu Hu Anyan no livro Entrego Encomendas em Pequim, a sociedade tornou-se “intensamente competitiva”. Cerca de 12 milhões de novos licenciados saem anualmente das universidades chinesas. Apesar do elevado crescimento económico do país, não é fácil encontrar um bom emprego. Não contando com os estudantes, em novembro o índice oficial de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 16,9% – mais do triplo da média nacional (5,1%).
Nascido em 1957, oito anos após a fundação da República Popular da China, Xu Jilin é especialista em História Intelectual Chinesa nos séculos XX e XXI. Assume-se abertamente como “liberal”, o que o distingue das outras duas grandes correntes intelectuais do seu país: a chamada Nova Esquerda e os neoconfucianos. Numa entrevista concedida em janeiro de 2025, salientou: “As gerações mais jovens já não se unem em torno de ideais abstratos. Nos vários movimentos sociais nos quais estão envolvidas, o seu foco está claramente nos direitos individuais específicos. Os seus objetivos são limitados, concretos e ligados à vida pessoal e aos interesses próprios.”
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Os primeiros 12 dias de 2026 atiraram para o desemprego três treinadores da moda. Contratados nos últimos 18 meses para inverterem a crise de resultados – e de identidade – de grandes clubes de futebol, incluindo os dois mais valiosos do mundo e ainda o décimo da mesma lista da Forbes, acabaram demitidos quase de rajada, como se tal desfecho fosse resolução de Ano Novo, daquelas tomadas enquanto se deglutem passas ao ritmo das badaladas.
Na verdade, porém, há algum tempo que poderia antecipar-se o fim dos contratos de Xabi Alonso no Real Madrid, de Ruben Amorim no Manchester United e de Enzo Maresca no Chelsea, um trio na casa dos 40 anos que atingiu cedo a ribalta. Talvez a entrada no novo ano tenha sido apenas o impulso que faltava para clarificar posições.
Logo no primeiro de janeiro, o italiano Maresca, que o Chelsea resgatara ao Leicester ano e meio antes, com estatuto de campeão do Championship (o segundo escalão inglês), recebeu ordem de saída. Tinha acusado a administração do BlueCo, consórcio de capital norte-americano que, em 2022, adquiriu o clube de Londres a Roman Abramovich, de “falta de apoio”, perante a onda de maus resultados – só um triunfo nas sete jornadas anteriores da Premier League, a liga mais cotada da Europa. Não era a primeira vez que se queixava publicamente da direção, quando as vitórias escasseavam, respaldado nas conquistas do Mundial de Clubes e da Liga Conferência.
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Representado desde outubro passado pelo português Jorge Mendes, Maresca desesperava com as interferências constantes em assuntos que considerava da sua competência, apesar de, segundo relatos da imprensa britânica, ter aceitado desde o início que um quinteto de diretores gerisse o departamento de futebol com plenos poderes. Para o lugar do italiano, foi escolhido o inglês Liam Rosenior, que comandava os franceses do Estrasburgo, outro clube detido pelo consórcio BlueCo. É o quinto em três anos e meio com os novos donos.
“Creio que já mais de metade dos clubes da Premier League estão nas mãos de capital americano, e estes fundos ou milionários têm geralmente responsáveis estratégicos que trouxeram uma inversão das relações de poder. Os treinadores começam a perdê-lo para estes executivos, que passam a ser quem define toda ou a maior parte da estratégia para o futebol”, observa António Tadeia, o jornalista português que integra o júri da Bola da Ouro, da revista France Football.
Ruben Amorim foi outra vítima desta mudança de paradigma em curso, como deixou transparecer na última conferência de imprensa ao serviço do Manchester United, cujos acionistas maioritários são os irmãos Glazer, dos EUA, mas que tem a gestão desportiva entregue à empresa INEOS, de Jim Ratcliffe, um dos homens mais ricos do Reino Unido.
Depois de um empate em Leeds, o técnico que revolucionou o futebol do Sporting virou-se contra os dirigentes do colosso inglês, reclamando aos microfones o cargo de manager e não apenas o de treinador principal, alegadamente por causa de ingerências no seu trabalho de campo e de falta de voz na política de contratações. Na manhã seguinte, 5 de janeiro, seria demitido – pouco mais de um ano após ter sido recrutado em Alvalade como o salvador de uma equipa em cacos, e nem dois meses volvidos de o patrão da INEOS ter garantido que ele precisaria de três anos à frente da equipa para ser avaliado.
“Ratcliffe resolveu ter dentro da estrutura gente que exerce, de facto, o poder, casos de Omar Berrada e Jason Wilcox, e são eles que têm o mapa da mina do futebol do Manchester United. Já não é como no tempo de Alex Ferguson, que decidia tudo. “Amorim foi o primeiro treinador do clube que não era manager”, sublinha Tadeia, autor da biografia não autorizada Mister Amorim, substituído no cargo pelo ex-jogador do United Michael Carrick.
A propósito da era em que os treinadores mandavam mais do que os dirigentes em Inglaterra, o hoje comentador de futebol da RTP partilha um diálogo com Bobby Robson, quando o britânico chegou a Portugal, em 1992, para orientar o Sporting (mais tarde, seria bicampeão no FC Porto). “Disse-me que adorava estar cá, porque só tinha de se preocupar com os treinos e com a equipa, enquanto lá, disse-me ele a brincar, até precisava de tratar das encomendas de papel higiénico. Portanto, esta inversão na relação de poderes, de certa forma, veio tornar os treinadores mais descartáveis”, sustenta o jornalista que também assina textos regulares sobre o mundo do desporto-rei na plataforma Substack.
Entre os cinco principais campeonatos europeus, o inglês liderava isolado, até ao início da semana, a tabela de “chicotadas psicológicas” – expressão da gíria futebolística que designa os despedimentos de treinadores –, com um total de seis. O Nottingham Forest, cujo proprietário é o empresário grego Evangelos Marinakis, também dono do Olympiacos e acionista maioritário da SAD do Rio Ave, destaca-se, uma vez que já rescindiu com dois treinadores nesta época de 2025/26, o primeiro dos quais o português Nuno Espírito Santo.
O peso dos craques
No domingo, 18, a Alemanha igualou Inglaterra com seis “chicotadas psicológicas”, enquanto Espanha acumula cinco, Itália tem quatro e França apenas duas. Aqui ao lado, Xabi Alonso não aguentou mais de 34 jogos, ou sete meses, no comando do Real Madrid e saiu a 12 de janeiro, depois da derrota na Supertaça com o Barcelona. Rendido pelo ex-companheiro de equipa Álvaro Arbeloa, parece ter sido mais a falta de mão no balneário a ditar a sentença. Com Vinícius Júnior, uma das estrelas da equipa, há muito que a relação estava quebrada.
Segundo a rádio Cadena SER, na despedida, Xabi terá aconselhado o clube “a não dar tanto poder aos jogadores”, o que leva “à perda de autoridade” do treinador, que nunca conseguiu impor as dinâmicas que tanto sucesso lhe trouxeram no Bayer Leverkusen.
Para António Tadeia, “o poder crescente dos jogadores” é a outra principal explicação para a impaciência de alguns grandes clubes face aos treinadores. “As grandes estrelas não querem andar a correr atrás da bola, querem que a equipa trabalhe para elas”, atira, acrescentando que a prioridade é apostar em craques que conquistem os adeptos, nem que atuem preferencialmente na mesma posição, como Mbappé e Vinícius. “Devem ter mais seguidores nas redes sociais do que muitos clubes, portanto, também comandam o jogo, e isto acaba por tornar os treinadores um pouco mais dispensáveis”, sustenta.
Vem à memória uma célebre frase da autobiografia de Alex Ferguson, na qual escreveu que “nenhum jogador está acima do treinador”, para justificar a necessidade de transferir David Beckham do Manchester United – curiosamente, foi parar ao Real Madrid –, mais tarde adaptada por José Mourinho para “ninguém é maior do que o clube”, também ao serviço do emblema inglês, referindo-se à condição de suplente de Paul Pogba.
Por outro lado, os clubes que arrastam muitos adeptos podem estar a sentir-se mais pressionados a agir. As redes sociais vieram multiplicar as vozes divergentes e aumentar-lhes o volume, alimentadas por maus resultados dos quais os adversários troçam ou por jogadores que manifestam publicamente a insatisfação, o que gera um potencial para servir de rastilho a decisões mais precipitadas.
“Vivemos cada vez mais numa sociedade de discordância”, concede António Tadeia, extrapolando para o facto de “o espaço de comentário nas televisões, e por todo o lado, estar a ser substituído por espaço de debate”. E porquê? “Porque estamos a ficar um bocado viciados em discordar. Por isso, sim, acredito que possa ter a sua influência, uma vez que todos acabamos por nos mover um pouco em função disso.” Na grande maioria dos casos, é mais prático pagar (a)o treinador.
Faz 43 anos que vivo em Portugal e passaram uns bons cinco anos desde que adquiri a nacionalidade portuguesa. Uma vez concluído o árduo processo, em outubro de 2020, esperava-me uma corrida contra o tempo para obter o Cartão de Cidadão antes do fim do prazo de recenseamento para poder votar nas eleições do Presidente da República em janeiro de 2021. Mas venci mais esta batalha e, num domingo de sol, desloquei-me à Cidade Universitária para dar o meu voto antecipado em mobilidade e aperceber-me de que, para ser visto e aceite como cidadão português, precisava de algo mais do que o meu ainda fresco Cartão de Cidadão.
Apresentei o cartão para os membros da mesa poderem verificar que tinha o direito de votar, e a presidenta da mesa entregou-me o boletim de voto com dois envelopes, um branco, um azul. Seguiram mais ou menos as seguintes instruções: “Fold the paper, put it into the white envelope, then put the white envelope into the blue envelope…” Passei-me. “Para poder votar aqui hoje, tive de adquirir a nacionalidade portuguesa, e para isso tive de passar por um exame de conhecimentos de língua, pelo que não preciso que me falem em inglês ou em qualquer outra língua que não a portuguesa.”
Fiz a minha cruz, segui as restantes instruções, depositei o envelope azul na urna e pedi desculpas pela minha reação anterior, algo brusca. Mas lá veio um jovem membro da mesa manifestar alguma compreensão. Contou que, na véspera, tinha ido jantar num restaurante supostamente de especialidades portuguesas onde nenhum elemento do pessoal falava português.
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Com o País a abarrotar de turistas (sendo que, naquele mês de janeiro de 2021, o turismo estava ainda longe de recuperar dos efeitos da pandemia), aprendi que os costumes em Portugal não são gravados em pedra. A velhos bons costumes como a simpatia e a hospitalidade veio somar-se um costume lamentável, o de querer dizer tudo em inglês.
Já temos cafés em Lisboa com ementas só em inglês. E quando há ementas em português, nem sequer a minha filha, nascida em Portugal, de mãe portuguesa, mas loira, escapa à classificação de turista. Não contam as vezes em que, apesar de falar português perfeito, sem qualquer sotaque (eu é que nunca irei perder o meu sotaque), lhe puseram à frente a ementa com o Union Jack, a bandeira britânica. Quantos portugueses não devem sentir-se já estrangeiros na sua própria terra?
Nos restaurantes mais frequentados por turistas, não me parece que seja só a língua a mudar. É impressão minha ou é verdade que se poupa o alho no bife porque nenhum homem com apetite sexual, uma vez satisfeito o apetite culinário, gosta que a mulher lhe vire a cara na cama porque não gosta de beijos com sabor a alho? É impressão minha ou poupa-se o sal no peixe a pensar nas preocupações dos turistas com a tensão arterial? Pai, tinhas razão, disse-me uma vez o meu filho após uns dias passados no Algarve. Quanto mais inglês se falava, menos very typical era a comida.
É estranho ver em Portugal uma elite cultural quase em guerra civil (só de palavras, felizmente) por causa de umas letras, uns acentos e uns hífens que mudaram com o Acordo Ortográfico (que, ao que parece, é visto como algo quase tão lesivo à dignidade nacional como a cedência ao Ultimato Inglês de 1890), mas no momento de impressionar ou ganhar dinheiro, parece que ninguém questiona o recurso ao inglês.
O vírus do inglês até circula na minha vizinhança, e sinto-me com cada vez mais dificuldade de manter a calma. Na fila da caixa no supermercado, uma pessoa dá-me um pequeno empurrão, sem querer, e segue-se logo um “sorry”. Ao que parece, muitas cabeças já estão programadas para a nova subserviência às pessoas de fora (pelo menos, às de pele branca).
Que esforço fazem tantas pessoas de fora para aprender português, quando temos comunidades anglo-saxónicas com pessoas que se gabam de ter vivido 20 anos em Portugal sem necessidade de adquirir sequer uns conhecimentos básicos de português?
As pessoas querem ser simpáticas contigo, dizem-me amigas e amigos, para me consolar. Será assim? “Gosto de praticar o meu inglês”, ouvi dizer várias vezes a empregados de cafés para justificar a sua insistência em falar a língua de Shakespeare. Até em call centres, mesmo que tenha optado por falar em português, rejeitando a opção “for English press 9”, houve assistentes que mudaram para o inglês no meio de uma conversa. Quem diz que o inglês deles é melhor do que o meu português? Nos contactos pessoais, a suposta simpatia até pode ser estigmatizante. Uma amiga organiza um jantar com umas oito pessoas, quase todas de nacionalidade portuguesa, amigas e amigos, que falam português entre si. Uma amiga da amiga teima em falar inglês comigo, e só comigo. Não estará a discriminar-me em vez de me facilitar seja o que for?
Aprender línguas abre horizontes. Facilita não só a comunicação com gentes de outros países, mas também o acesso a outras mentalidades. Quanto mais línguas falamos, melhor, e falar inglês, em particular, é cada vez mais essencial. A disponibilidade e a facilidade de comunicar com pessoas de fora, de desenrascar com outras línguas, é uma habilidade portuguesa. Na minha primeira vida a Portugal, em 1975, a minha namorada de então e eu teríamos ficado perdidos sem tanta gente, mesmo de meios humildes, a falar ou pelo menos a compreender francês, que era, na altura, a primeira língua estrangeira ensinada nas escolas em Portugal e aprendida lá fora, à força, por tantos emigrantes portugueses nos bidonvilles à volta de Paris onde não abundavam propriamente intérpretes para facilitar a vida aos trabalhadores lusos.
Mas esta compreensão não acaba por ser uma via de sentido único? Que esforço fazem tantas pessoas de fora para aprender português, quando temos comunidades anglo-saxónicas com pessoas que se gabam de ter vivido 20 anos em Portugal sem necessidade de adquirir sequer uns conhecimentos básicos de português?
A facilidade de comunicar mistura-se com alguma subserviência. Espanha funciona de forma diferente. Num país onde podemos viajar mil quilómetros por regiões com a mesma língua principal (embora com pronúncias diferentes, e línguas diferentes na Galiza, no País Basco e na Catalunha), vemos alguma relutância em relação à aprendizagem de outras línguas. Mas há algo que falta em Portugal – mais orgulho pela própria língua. Claro que prefiro ver filmes ingleses na versão original, como costumam ser exibidos em Portugal, e não dobrados, como acontece em Espanha. Mas fora do cinema, quero comunicar em português.
Não vamos dificultar a vida a quem nos visita ou a quem decide viver em Portugal. Mas que tal cuidarmos um pouco mais da nossa língua? Ou será que vamos ter, nos próximos tempos, uma versão inglesa do Hino Nacional para ser cantada por turistas em Allbufeira e no resto do Allgarve (lembrando a designação criada outrora para promover o turismo na região)? E se calhar já faltou mais para “Camões” não ser entendido como nome do poeta nacional que se homenageia em cada 10 de Junho, mas sim como plural de camone, espécie cada vez mais abundante e venerada em Portugal.
O Dia Internacional da Educação, que se assinala a 24 de janeiro, obriga-nos a encarar uma realidade desconfortável: o autoritarismo, a misoginia e a violência tornaram-se traços de personalidade de muitos jovens rapazes. O consumo de conteúdos digitais extremos alimenta a intolerância, e a Educação deve travar esta tendência.
Existe hoje uma realidade que é caracterizada pela violência, mas que não surgiu do nada. As narrativas de ódio constroem-se em ecossistemas digitais pouco regulados e são amplificadas por influenciadores digitais com milhares de seguidores.
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Os jovens são expostos todos os dias a discursos extremados que normalizam o ódio, legitimam a violência contra as mulheres e transformam a intolerância em identidade. A pandemia de Covid-19 é frequentemente identificada como um catalisador para o agravamento deste problema. As aulas online e o uso excessivo dos ecrãs potenciaram a transformação do digital numa dependência silenciosa.
As redes sociais foram tomadas por influenciadores que pregam que as mulheres “que namoram não devem sair a noite” e que caso não façam o que são mandadas “devem apanhar”. Estas narrativas têm consequências reais. Em Portugal, os crimes de incitamento ao ódio e à violência aumentaram mais de 200% nos últimos cinco anos, o que acompanha a tendência de 75% dos adolescentes consideram legítimos comportamentos de controlo, perseguição ou violência sexual e psicológica.
É verdade que este tipo de comportamento tem sido popularizado e viralizado nas redes sociais, mas é fora delas que o trabalho de combate a este tipo de ideologias misóginas deve começar: nas escolas.
O impacto destes conteúdos nas instituições de ensino é devastador: assiste-se a um revivalismo da “supremacia masculina” que desafia abertamente a autoridade de professoras e o direito das raparigas à segurança. Docentes por todo o mundo relatam que raparigas chegam a ser removidas de disciplinas por não suportarem a toxicidade e o assédio constante de colegas radicalizados por estas figuras. A “manosfera” deixou de ser uma subcultura marginal para se tornar uma ideologia mainstream que atinge rapazes, e mimetiza discursos que objetificam as mulheres e transformam o “nós contra elas” numa ferramenta de radicalização política.
É também preciso responsabilizar. A extrema-direita sequestrou a identidade masculina, transformando a misoginia numa ferramenta de mobilização política. Ao normalizar o autoritarismo e a agressão, este movimento empurrou discursos antes marginais para o centro do espaço público, alterando radicalmente as fronteiras do que é aceite. Esta instrumentalização do ódio visa converter o ressentimento em combustível para um projeto antidemocrático que procura restaurar uma supremacia masculina arcaica.
Então, é necessário agir. Perante esta “fábrica de ilusões” alimentada por algoritmos que viciam o cérebro, a Educação deve assumir-se como o antídoto fundamental. Não basta proibir; é urgente implementar ferramentas de literacia digital e uma abordagem escolar que ensine os jovens a desconstruir narrativas de ódio e a recuperar a empatia. Deve funcionar como uma verdadeira “vacina social” contra o extremismo antes que este se torne o único modo de estar de uma nova geração.
A Educação deve, portanto, desempenhar o seu papel no combate às narrativas de ódio, discriminatórias ou violentas. É preciso adotar uma estratégia que passe não só pela formação de jovens para o pensamento crítico, como pela capacitação de professores e revisão de conteúdos programáticos. Também a alfabetização mediática e informacional deve ser um foco central da educação dos nossos jovens. Ensinar a compreender como funcionam as plataformas digitais, os algoritmos e as estratégias de manipulação é absolutamente essencial para que saibam reconhecer desinformação, teorias da conspiração e discursos de ódio. Sem esta consciência crítica, os jovens tornam-se mais vulneráveis a narrativas extremistas e à normalização da violência no espaço digital.
Ainda assim, somos demasiado permissivos. Permitimos tudo. Normalizámos o ódio, o controlo e a violência em nome da liberdade e da indiferença. Fechamos os olhos enquanto rapazes aprendem a dominar em vez de respeitar e a odiar em vez de pensar. Se continuarmos a falhar na educação — na escola, em casa e no espaço público — não será o algoritmo o problema, mas a nossa escolha de não agir. Educar para não odiar já não é uma opção: é uma responsabilidade democrática.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Àquela hora, meia dúzia de turistas asiáticos saíam da Casa do Alentejo. Ali, devem ter almoçado uma ou outra iguaria regional, como migas com entrecosto frito, carne de porco à alentejana ou arroz de borrego com cogumelos, servidas nos salões do antigo Palácio Paes do Amaral ou Palácio Alverca, edifício do século XVII.
Algumas pessoas que se vê que ainda trabalham na zona, e são cada vez menos, imbicavam para os restaurantes da Travessa do Forno, uma perpendicular que liga ao Largo de Regedor, nas traseiras do Gambrinus. Nesse dia, n’A Provinciana, Loja com História com pratos do dia a €8,45, servia-se pernil de porco assado no forno e mão de vaca com grão; o cozido à portuguesa é feito à quinta-feira.
Para que o novo 1904 Benfica Hotel pudesse nascer, foi preciso reordenar o comércio de rua do próprio edifício, transformando por completo o quarteirão, embora mantendo a loja oficial do Benfica, com abertura prevista para o fim de janeiro, mas já sem a Frutaria Bristol como vizinha.
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Antiguidade Monograma, Abílio Coelho da Ginjinha Sem Rival, Gonçalo Lima da Guedes – Ferragens e Livraria Bizantina
A Ginjinha Popular, outra Loja com História, trocou a porta virada para as Portas de Santo Antão pela Travessa do Forno, no lugar onde funcionou o restaurante Girasol. Agora, além das sandes de ovo e da frigideira das bifanas a fervilhar na montra, também há pratos do dia, como galinha de cabidela, bacalhau à Brás e alheira com ovo. Entretanto, O Mondego fechou há poucas semanas e, ao fundo, O Marques ainda tem porta aberta e mesas compostas.
De volta à artéria principal, outrora conhecida como a corredoura, “rua direita de palácios e jardins, conventos e igrejas, pátios e eirados”, como escreveu o olisipógrafo Norberto de Araújo, também servia para corridas e no século XIV designava-se “carreira de cavalos”.
Tal como em qualquer zona turística, também nesta rua pedonal são as malas de viagem a rolar na pedra da calçada que fazem a banda sonora.
É grande o contraste entre fachadas recuperadas, como a do prédio do Rossio Garden Suites, e o prédio vazio e fechado ao lado; entre uma farmácia quase devoluta, com os pombos de beiral em beiral onde já crescem ervas, e o Lisboa Wine Hotel, de quatro estrelas.
Ameaças de despejos
De costas para o Largo de São Domingos, vamos demorar várias horas a chegar ao Largo da Anunciada, onde terminam os 350 metros da Rua das Portas de Santo Antão, possíveis de fazer em cinco minutos de caminhada.
Mas vamos mais atentos do que é costume, até porque a maior parte das vezes que aqui vimos é de noite, em dia de concerto, e depois vamos comer croquetes e um preguinho ao balcão do Gambrinus.
Desta vez, os olhos estão alerta, a cabeça mais levantada e a curiosidade afiada. Nada como cumprimentar a equipa da Ginjinha Sem Rival e do Eduardino (licor de plantas e anis), numa homenagem ao palhaço Eduardino, cliente habitual, que atuava ao lado do Coliseu dos Recreios, para saber mais sobre as mudanças na rua ao longo das décadas.
A Ginjinha Sem Rival é mais um caso em que o despejo ameaçou, o processo em tribunal protela o caso e a vida segue em frente. O proprietário do edifício, que ali tem um hotel e um restaurante, ambos por agora encerrados, não quis renovar o contrato de arrendamento com Nuno Gonçalves, bisneto do fundador da Ginjinha de 1890, que também é Loja com História.
Quem nos conta as novidades é Abílio Coelho, 72 anos, há cinco décadas a servir “ginjinha com ou sem?”, com memória de elefante. Lembra-se de todos os que pela rua passaram: as ferragens Francisco Ramos de 1905, tabacaria, pastelaria Castanheira, frutaria, barbeiro, padaria, as cervejarias Berlenga, Solmar, o Come e Bebe até 2020, o restaurante Escorial, de 1968, onde está o italiano Locanda, e a casa dos presuntos que mais não era do que a Manteigaria Londrina, “que fez nome a vender ‘a melhor manteiga’ nacional em bacias de esmalte e hoje tem fama com os seus faisões e as suas carnes fumadas e os seus queijos à ovelheira e os seus Portos de colecção”, assim escreveu Fernando Assis Pacheco, na VISÃO, em janeiro de 1994, quando Lisboa foi Capital Europeia da Cultura. A residencial A Florescente também “era e é uma categoria” – lá chegaremos antes do lusco-fusco.
Se Abílio Coelho tiver de ir almoçar, escolhe a comida tradicional portuguesa servida no Inhaca (1974), que reabre de férias esta sexta, 23.
Manualidades Painel de azulejos com o retrato de Cosme Damião, assinado por Vhils (em cima). Na Arte Popular, José Guerreiro vende artesanato de 138 artistas nacionais
O copinho que hoje custa €1,60, nos seus tempos de juventude começou por custar dez tostões, 15 tostões o médio, 20 escudos um litro vendido a granel. Aberto todos os dias das oito da manhã à meia-noite, é impossível contabilizar os clientes, mas sabemos que as grandes enchentes são nos dias 25 de Abril e 1º de Maio e na noite de Santo António, a 12 de junho.
“Desde a Expo’98, depois com a entrada do euro e a seguir à pandemia, que o turismo não parou de crescer”, refere Abílio Coelho, como os grandes marcos cronológicos para o desenvolvimento da Baixa lisboeta.
As arcadas do Palácio da Independência dividem-se entre a Fundação Inatel, com a sua agência de viagens, a loja de ímanes, t-shirts de Lisboa, cerâmicas, canecas, cachecóis e outras traquitanas turísticas sem grande valor, e a livraria Bizantina, especializada na compra e venda de livros novos e usados.
No mês de janeiro, todos os livros, de edições mais generalistas, custam um euro; os exemplares raros ou sobre História ou heráldica ficam na Rua da Misericórdia, no Chiado, onde existiram mais nove alfarrabistas.
No final de 2022, a Bizantina também esteve para fechar, mas um novo acordo manteve-a de portas abertas na sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
Museu de ferragens
Por entre os pingos da chuva, fomos à procura de uma pedra especial na fachada de um prédio amarelo-clarinho. Soubemos da existência de um monograma do Hospital Real de Todos os Santos na Rua das Portas de Santo Antão com mais de 500 anos numa notícia de 2021, publicada na Time Out Lisboa.
E lá está ele, por cima da Real Casa do Pastel, a vender bolos. O monograma tem as iniciais de Omnium Sanctorum, nome em latim do primeiro grande hospital central de Lisboa, que recebeu os seus primeiros doentes em 1502 e foi destruído pelo terramoto de 1755. O mistério prende-se com a geografia: como é que este emblema inscrito na pedra veio de um edifício da Praça da Figueira para uma fachada nas Portas de Santo Antão?
Continuámos de nariz no ar e por cima da casa que sempre foi depósito de tabaco, ou seja, sempre vendeu volumes de tabaco, ao passo que as tabacarias ficam-se pelos maços, ainda funciona a A. da Costa Limitada (1936), casa especializada em uniformes civis e militares, onde se pode mandar fazer bonés, bandeiras, estandartes, condecorações, emblemas e pins variados.
Figura Jorge Lopes é um dos cinco engraxadores, entre o Rossio e os Restauradores
O 13º Cartório Notarial, por cima da Ginjinha Sem Rival, há muito desapareceu e a oficina de ourives no primeiro andar por cima do Gambrinus também já não existe. Outras duas, a Só Música e a sua vizinha de cintas e soutiens, há muito fecharam.
O toldo azul tapa um pouco o letreiro de mais uma Loja com História, a Guedes – Ferragens e Ferramentas, desde 1922. Depois de entrar, o relógio parece atrasar-se para se ter tempo de visitar o que poderia ser um museu.
Os visitantes estrangeiros costumam dizer a Gonçalo Lima que esta loja, há cinco anos nas suas mãos, parece saída de um filme do Harry Potter. A Guedes conseguiu preservar um rico espólio de ferragens antigas para móveis, portas, tudo feito de latão e em Portugal. Os móveis de madeira escura, com uma imensidão de gavetinhas, servem de expositor dos modelos originais dourados e das réplicas de peças antigas.
Há puxadores tradicionais de portas lisboetas, assim como batentes, latões ornamentais, maçanetas, quinquilharia (rosetas, pregos, dobradiças, chaves, espelhos de fechaduras), coleção de puxadores de designers, como de Lucien Donnat (1920-2013).
Gonçalo Lima também trata dos acabamentos, desde polir as peças a dar cor, bronzeado e cromado. “Fazemos a grande maioria da recuperação de monumentos históricos, como o vizinho Teatro Nacional D. Maria II, por exemplo, com reproduções de peças e com serviço de soldador para arranjos e restauros”, acrescenta o latoeiro.
Vhils no hotel do Benfica
Apesar de várias lojas de alegado artesanato português, com imensos objetos em cortiça, se espalharem por toda a rua, apenas a Arte Popular, que na verdade se chama Guerreiro & Silveira, divulga o melhor do trabalho manual nacional, com especial enfoque nas artes alentejanas, como os bonecos de Estremoz, corais de Vila Viçosa, louça de São Pedro do Corval, decalque de crochet no barro do Redondo.
A convite da Casa do Alentejo, José Guerreiro, natural de Borba, abriu a Arte Popular três semanas antes de ter sido decretada a pandemia, em 2020. Conseguiu sobreviver e, passados seis anos, alargou as suas prateleiras a 138 artesãos de mais regiões do País: caretos de Lazarim, filigrana de Gondomar, lapinhas dos Açores (presépios em miniatura de São Miguel), balões da Guarda, discos de vinil cortados à mão de Vasco Campos.
Agora é tempo de o Santo António voltar a ter destaque na montra que nos últimos meses esteve dedicada aos presépios, para continuar as vendas, 70% a clientela portuguesa.
É a Arte Popular e o engraxador com a sua caixa, onde guarda os cremes, as pomadas, as escovas, os panos e as escalas para proteger as meias, que se vê lá de cima da janela da sala de refeições do Café de São Bento, no lugar do antigo Bristol Club, onde se jogava bilhar e ouvia concertos de jazz e fado.
Jorge Lopes, 63 anos, é um dos cinco engraxadores, entre o Rossio e os Restauradores, que ainda vão puxando o lustro aos sapatos. Mais do que atender quem passa, trata do calçado de quem leva vários pares de sapatos num dia e vai buscar no outro, pagando três euros por par. Jorge Lopes começou a engraxar ainda jovem, quando eram cerca de 40 no Largo de São Domingos e os clientes se encostavam à parede, de pé, a ler o jornal.
Episódios Nos anos 1950, passavam carros em frente à pensão A Florescente; O Pátio do Tronco evoca Luís de Camões e não é pela literatura
O Café de São Bento e o seu toldo vermelho aliam-se em tudo com o 1904 Benfica Hotel. Os novos sofás de veludo bordeaux, os cadeirões, a alcatifa, as mesas de mogno, réplicas das originais feitas em Paços de Ferreira, dão vida onde nos anos 1920 funcionou o Bristol Club. A decoração do teto, espelhado aos quadrados, os nichos, os apliques de parede, os candeeiros de teto e de mesa de latão combinam com as duas estatuetas femininas em tamanho real, de Leopoldo de Almeida, responsável pelas esculturas do Padrão dos Descobrimentos. As duas figuras estão ali há 101 anos, tendo sobrevivido às ruínas e às obras que demoraram cerca de um ano e meio.
Sendo a zona especial, ou não tivesse alguns dos melhores restaurantes de Lisboa na vizinhança, como o Solar dos Presuntos, o Gambrinus e O Pinóquio, Miguel Garcia não tinha como recusar o convite do grupo hoteleiro FLH – Feel Like Home, responsável pela obra (um investimento de sete milhões de euros) e pela gestão do quatro estrelas, pertencente à Fundação Benfica. Este é o 12º hotel do grupo, que como costuma dizer António Quintão, engenheiro civil e dono da empresa, só abre hotéis em ruas do Monopólio.
“A herança histórica da rua e do edifício em primeiro, o bife conta 50%”, diz o empresário de uma marca que se assume como uma forma de estar que privilegia a hospitalidade.
Inaugurado na semana passada, o Café de São Bento tem novidades numa carta com mais pratos típicos dos cafés lisboetas: croquetes (€2,50 cada), camarões al ajillo (€13), amêijoas à Bulhão Pato (€16), peixinhos da horta (€9), ostras (€14/6 un), bife à portuguesa, bife ao molho madeira, chateaubriand (€52/2 pax) cortado na sala, bacalhau à brás (€22) terminado na sala, filetes de peixe-galo com arroz de tomate (€23). Durante a semana, o menu de almoço (€29) propõe entrada e prato ou prato e sobremesa, com água, café ou chá.
São 70 lugares onde também são servidos os pequenos-almoços dos hóspedes, mas Miguel Garcia acredita que a maioria dos clientes será de rua. Por enquanto, só o pub, com mais de 150 fotografias expostas, tem uma televisão. Em breve, quando o tempo melhorar, os adeptos poderão ver os jogos do Benfica na esplanada.
Desengane-se quem possa pensar que o 1904 é uma espécie de museu do clube da Luz, fundado no ano que dá nome ao hotel. Na entrada, lá estão a atual camisola assinada pelos jogadores, um painel de azulejos brancos e vermelhos com o retrato de Cosme Damião, o fundador do Sport Lisboa e Benfica, assinado por Vhils, mais a Taça Eusébio de 25 de setembro de 1973 e um dos 110 livros feitos por ocasião dos 110 anos do clube. De resto, predomina a sobriedade, tanto nos corredores em vermelho-escuro como na decoração dos quartos. Os apontamentos clubísticos ficam nos nichos à porta dos 56 quartos, com objetos de futebolistas e de outros atletas de várias modalidades do clube, um espólio que irá sendo reposto. Algumas medalhas e tarjas são verdadeiras, outras são réplicas, mas mesmo essas estão quase todas autografadas pelos atletas.
Néons apagados
E onde estariam as portas que dão nome à rua? Afinal, era só uma, chapeada de ferro metida num arco, que fazia a ligação entre a Rua do Jardim do Regedor e a Igreja de São Luís dos Franceses de Lisboa, alargada em 1509 e em 1727. O terramoto de 1755 destruiu o arco e a porta foi demolida.
Hoje, com a fila de turistas para comer frango assado no afamado Bonjardim, quem ganha é O Churrasco, restaurante com toalhas e guardanapos de pano, sem filas, e com um apetitoso frango no espeto a rodar na montra. Chegou a ter uma pensão no andar de cima e era aí o famoso Capilé, onde abancavam Almada Negreiros e outros modernistas vindos do Martinho do Rossio, e nos anos 1960 os artistas de circo à espera de contrato, contou também Assis Pacheco.
À medida que a noite vai dando entrada, este lado da rua ganha notoriedade. Ajudam as luzes da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, do Coliseu dos Recreios (1890), da Sociedade de Geografia de Lisboa, com o seu museu etnográfico “temporariamente encerrado”, desde março de 2025, do Teatro Politeama, das esplanadas e d’A Florescente, mesmo em frente ao Coliseu, antiga pensão que só em 2025 passou a hotel de três estrelas, com 63 quartos de três tipologias. Está aberto há 75 anos num edifício pombalino que, como tantos outros, não tendo sido pensado para ser hotel – à semelhança do que hoje acontece com o Alojamento Local –, em cada piso tinha uma pensão, pertencente a diferentes famílias. A Florescente é precisamente o resultado da união do primeiro direito com o terceiro esquerdo, em que Plácido e Adelaide juntaram o negócio até ficarem com o prédio. Hoje, a filha e o genro do casal Antunes, Jacinta e Carlos, preservam tudo o que resta de outros tempos, desde fotografias de 1950, época em que circulavam carros na rua, à escadaria ladeada a azulejo, que chegou a ter um engraxador, dos arcos pombalinos à muralha de pedra no Bistro 99, sala dos pequenos-almoços e restaurante aberto a todos.
Se o encenador Filipe La Féria é das figuras mais conhecidas desta zona cultural da cidade, pela recuperação do Teatro Politeama (1913, arquiteto Miguel Ventura Terra), que devolveu a sala de espetáculos à população em 1991, também Custódio Guerreiro Cambado responsável há 20 anos pelas entradas e saídas da Porta dos Artistas não se fica atrás.
Carismáticos Do bife do Café de São Bento, no lugar onde foi o Bristol Club, a Custódio Guerreiro Cambado, porteiro do Teatro Politeama
Guarda segredos como ninguém e aos 76 anos os olhos brilham quando recorda as cartas escritas na juventude às vedetas preferidas, Ada de Castro e Manuela Maria, primeiras figuras que depois conheceu. Com os musicais Hércules e Carmen Miranda em cena, Custódio vê todas as produções quatro e cinco vezes. Nunca se cansa e está longe de querer deixar de trabalhar.
Ninguém fica indiferente ao vazio da Cervejaria Solmar e à morte do seu emblemático néon. Apesar das grades, consegue ver-se o interior abandonado. O mesmo acontece com o Palácio dos Condes de Povolide, onde funcionou o Ateneu Comercial de Lisboa (1880), até à insolvência em 2012. Virá a ser um hotel de luxo, uma residência sénior? Vários projetos já estiveram em cima da mesa, mas a verdade é que o objetivo do grupo de comerciantes que criou esta associação – promovendo o lema da Grécia Antiga “mente sã em corpo são”, através de aulas de dança, esgrima, natação, xadrez – não verá a sua missão perpetuada.
Mais um contraste neste quarteirão, com o novo e alvo Odeon, edifício de 1927, com as caixilharias de ferro inspiradas na obra de Gustave Eiffel e estilo art déco no interior. Aquele que foi o primeiro teatro de Lisboa, fechado desde os anos 1990, dá lugar a dez apartamentos de luxo e um restaurante e bar no foyer do rés do chão, ainda em fase de venda.
A crescer com a democracia
Até chegarmos ao fim da rua, junto ao Solar dos Presuntos, passamos pelo The One, hotel de cinco estrelas no Palácio da Anunciada, desde 2019, onde morou Madre Teresa de Saldanha, fundadora das irmãs dominicanas de Santa Catarina de Sena. Neste palácio fundado em 1533, também conhecido como Palácio dos Condes da Ericeira, existiu uma biblioteca com mais de 18 mil livros e um museu com obras de Rubens, Ticiano e Correggio.
Por aqui também cirandava Luís de Camões, que a 16 de junho de 1552 acabou na Cadeia Municipal do Tronco depois de se ter envolvido num desacato, a defender dois amigos, no Pátio do Tronco. O painel de azulejos de Leonel Moura, no túnel de acesso ao pátio desde 1992, ajuda a contar o episódio.
As luzes do japonês Saikai Izakaya, aberto ainda nem há um ano, apelam a entrar num mundo tradicional asiático. Seguem-se o Hotel Portuense (1967), a Fábrica Coffee Roasters, o restaurante brasileiro Tempero Gaúcho e a Leitaria da Anunciada (1927), que produzia o próprio leite e a manteiga. A antiga vacaria Andrade tinha três vacas, uma malhada, uma castanha e uma preta, que eram ordenhadas à porta de igrejas e palácios. Deixou de ser pastelaria para, há cinco anos, se transformar num restaurante de comida tradicional portuguesa, com 30 lugares, sendo a sua esplanada a mais cobiçada da rua – de frente para o Elevador do Lavra (1884), encerrado temporariamente, e o Solar dos Presuntos.
Mesas Muitas noites culturais terminam no Gambrinus ou no Solar dos Presuntos, onde José António Almeida trabalha há 34 anos
Nesta noite, Pedro Cardoso, filho de Graça e Evaristo Cardoso, fundadores da casa em 1974, não estava, mas a filha Carlota Cardoso, 22 anos, recebeu-nos comme il faut. Procurámos o chefe de sala José António Almeida, a trabalhar no restaurante há 34 anos, tendo começado como empregado de balcão. Hoje, são servidos 600 jantares em três pisos, com salas que podem tornar-se privadas. É um dos mais clássicos restaurantes de Lisboa, por onde passam figuras públicas nacionais e internacionais, tendo 2026 começado já com a presença do piloto Max Verstappen, tetracampeão de Fórmula 1.
Terminamos o dia de trabalho, onde costumamos ir depois de um concerto, ao balcão de madeira do Gambrinus, onde se empilham pires para contar as imperiais, numa conversa de memória com Paulo Pereira, 53 anos, 30 dos quais a trabalhar neste restaurante de luxo com 90 anos.
As obras de renovação do prédio (serão apartamentos), incluindo a sala de refeições do Gambrinus, ainda vão durar mais alguns meses, o que faz com que as traseiras do Largo do Regedor continuem mal frequentadas, por quem consome drogas. As obras do Teatro Nacional D. Maria II, já na fase final da sua requalificação, com reabertura agendada para o verão, também não estão a ajudar a melhorar a circulação nesta artéria.
Há mais gente nova entre a clientela do Gambrinus, um ritual que foi passando de pais para filhos e netos e, qualquer que seja a idade, os pratos mais pedidos continuam a ser cherne, garoupa, carne do lombo para bifes ou preguinhos, croquetes (nem constam da ementa), rosbife e crepes Suzette, com a flamejante mise en scène.
É verdade que esta rua mudou muito, mas continua a ser a Broadway lisboeta e ainda há lugar para mais e melhores mudanças neste quarteirão.