Há uns anos, numa conferência sobre saúde, ouvi uma frase que me ficou na memória: “os medicamentos mais impactantes não são apenas os que curam, são os que mudam comportamentos”. Hoje, recupero-a como uma leitura particularmente lúcida do momento que estamos a viver. Quando falamos de inovação farmacêutica, tendemos a pensar numa lógica simples: um medicamento trata uma doença e melhora a vida de quem o toma. Mas essa explicação já não chega para descrever o que está a acontecer com algumas terapêuticas, em particular com os fármacos inovadores para tratar a obesidade.
Há medicamentos que não ficam pelo consultório: entram na rotina das pessoas, mexem nos hábitos, alteram o consumo e acabam por influenciar áreas que, à partida, pareciam afastadas da medicina.
É aí que este fenómeno se torna particularmente interessante. Quando uma terapêutica transforma o apetite, não muda apenas uma variável clínica; muda também a forma como se compra, se cozinha, se escolhe um restaurante ou se pensa uma ida ao supermercado. É nesse movimento, discreto, mas acumulado, que estes fármacos começam a reconfigurar a economia do consumo.
Segundo dados da Circana, em menos de dois anos, a percentagem de agregados familiares americanos com pelo menos um utilizador destas novas moléculas subiu de 11% para 23 por cento. A mesma análise estima que, até 2030, estes utilizadores representarão 35% de todas as vendas de alimentos e bebidas nos EUA.
Um estudo da universidade de Cornell publicado no Journal of Marketing Research mostrou que, nos primeiros seis meses de utilização, os agregados com pessoas a usar estes fármacos reduziram o gasto em mercearia em cerca de 5,3% e os gastos em restauração em cerca de 8%. O dado é económico, mas a mudança comportamental. Supermercados, cadeias de restauração, plataformas de entrega e marcas de conveniência passam a lidar com consumidores que compram menos por impulso e procuram mais qualidade, funcionalidade, porções ajustadas e produtos alinhados com objetivos de saúde.
Assim, nascem novas respostas de mercado: alimentos ricos em proteína, formatos mais pequenos, soluções personalizadas e modelos de subscrição.
O impacto não se fica pela alimentação. À medida que os hábitos se alteram, mudam também as prioridades em viagem e lazer. Refeições mais leves, menor interesse por álcool e maior procura por experiências associadas ao bem-estar podem alterar a forma como restaurantes, hotéis, resorts e destinos turísticos pensam a sua oferta.
A moda é um bom barómetro desta mudança, porque poucas áreas mostram tão depressa como a relação com o corpo se traduz em novas decisões de consumo. Segundo dados da Circana, nos EUA, 80% das pessoas que tomam estes fármacos esperam precisar de roupa nova devido à alteração corporal, enquanto 55% já compraram roupa ou calçado por esse motivo. Para marcas e retalhistas, isto significa rever tamanhos, stocks e devoluções.
No Reino Unido, a revolução já chegou aos ginásios. Alguns grupos estão a trocar parte das passadeiras e das máquinas de “cardio” por mais equipamentos de musculação e pesos livres. É um detalhe aparentemente operacional, mas revelador: quando a perda de peso se torna mais acessível, a conversa deixa de estar apenas na quantidade de quilos perdidos e passa a incluir a qualidade dessa perda. Preservar músculo, força e autonomia torna-se parte da própria ideia de saúde.
Esse desafio também já entrou na agenda da investigação farmacêutica, que procura agora soluções que ajudem a limitar a perda de massa muscular associada à perda de peso. Para a saúde pública, este ponto é decisivo: o objetivo não pode ser apenas ajudar mais pessoas a perder peso, mas garantir que essa perda se traduz em melhor saúde, mais autonomia e melhor qualidade de vida, sem criar novas formas de fragilidade.
Depois de olhar para o impacto destes fármacos nas escolhas de consumo, vale a pena voltar ao ponto essencial: a obesidade não é uma tendência de mercado, é uma doença crónica e um problema de saúde pública.
Em Portugal, esta discussão é particularmente importante. Não basta que a inovação chegue à farmácia ou ao consumo privado. Tem de chegar também à organização dos cuidados, à capacidade de seguir os doentes ao longo do tempo e às políticas que moldam o ambiente em que se come, se trabalha, se circula e se vive. A saúde pública deve acolher estes fármacos sem abandonar a prevenção.
Se os supermercados, os restaurantes e os ginásios começam a responder a novos comportamentos, também as políticas públicas devem responder ao que estes medicamentos tornam evidente: tratar a obesidade exige mais do que reduzir peso. Exige controlar risco, preservar autonomia e criar condições para que a saúde não dependa apenas da capacidade individual de escolher melhor.
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