Há uns anos, numa conferência sobre saúde, ouvi uma frase que me ficou na memória: “os medicamentos mais impactantes não são apenas os que curam, são os que mudam comportamentos”. Hoje, recupero-a como uma leitura particularmente lúcida do momento que estamos a viver. Quando falamos de inovação farmacêutica, tendemos a pensar numa lógica simples: um medicamento trata uma doença e melhora a vida de quem o toma. Mas essa explicação já não chega para descrever o que está a acontecer com algumas terapêuticas, em particular com os fármacos inovadores para tratar a obesidade.

Há medicamentos que não ficam pelo consultório: entram na rotina das pessoas, mexem nos hábitos, alteram o consumo e acabam por influenciar áreas que, à partida, pareciam afastadas da medicina.

É aí que este fenómeno se torna particularmente interessante. Quando uma terapêutica transforma o apetite, não muda apenas uma variável clínica; muda também a forma como se compra, se cozinha, se escolhe um restaurante ou se pensa uma ida ao supermercado. É nesse movimento, discreto, mas acumulado, que estes fármacos começam a reconfigurar a economia do consumo.

Segundo dados da Circana, em menos de dois anos, a percentagem de agregados familiares americanos com pelo menos um utilizador destas novas moléculas subiu de 11% para 23 por cento. A mesma análise estima que, até 2030, estes utilizadores representarão 35% de todas as vendas de alimentos e bebidas nos EUA.

Um estudo da universidade de Cornell publicado no Journal of Marketing Research mostrou que, nos primeiros seis meses de utilização, os agregados com pessoas a usar estes fármacos reduziram o gasto em mercearia em cerca de 5,3% e os gastos em restauração em cerca de 8%. O dado é económico, mas a mudança comportamental. Supermercados, cadeias de restauração, plataformas de entrega e marcas de conveniência passam a lidar com consumidores que compram menos por impulso e procuram mais qualidade, funcionalidade, porções ajustadas e produtos alinhados com objetivos de saúde.

Assim, nascem novas respostas de mercado: alimentos ricos em proteína, formatos mais pequenos, soluções personalizadas e modelos de subscrição.

O impacto não se fica pela alimentação. À medida que os hábitos se alteram, mudam também as prioridades em viagem e lazer. Refeições mais leves, menor interesse por álcool e maior procura por experiências associadas ao bem-estar podem alterar a forma como restaurantes, hotéis, resorts e destinos turísticos pensam a sua oferta.

A moda é um bom barómetro desta mudança, porque poucas áreas mostram tão depressa como a relação com o corpo se traduz em novas decisões de consumo. Segundo dados da Circana, nos EUA, 80% das pessoas que tomam estes fármacos esperam precisar de roupa nova devido à alteração corporal, enquanto 55% já compraram roupa ou calçado por esse motivo. Para marcas e retalhistas, isto significa rever tamanhos, stocks e devoluções.

No Reino Unido, a revolução já chegou aos ginásios. Alguns grupos estão a trocar parte das passadeiras e das máquinas de “cardio” por mais equipamentos de musculação e pesos livres. É um detalhe aparentemente operacional, mas revelador: quando a perda de peso se torna mais acessível, a conversa deixa de estar apenas na quantidade de quilos perdidos e passa a incluir a qualidade dessa perda. Preservar músculo, força e autonomia torna-se parte da própria ideia de saúde.

Esse desafio também já entrou na agenda da investigação farmacêutica, que procura agora soluções que ajudem a limitar a perda de massa muscular associada à perda de peso. Para a saúde pública, este ponto é decisivo: o objetivo não pode ser apenas ajudar mais pessoas a perder peso, mas garantir que essa perda se traduz em melhor saúde, mais autonomia e melhor qualidade de vida, sem criar novas formas de fragilidade.

Depois de olhar para o impacto destes fármacos nas escolhas de consumo, vale a pena voltar ao ponto essencial: a obesidade não é uma tendência de mercado, é uma doença crónica e um problema de saúde pública.

Em Portugal, esta discussão é particularmente importante. Não basta que a inovação chegue à farmácia ou ao consumo privado. Tem de chegar também à organização dos cuidados, à capacidade de seguir os doentes ao longo do tempo e às políticas que moldam o ambiente em que se come, se trabalha, se circula e se vive. A saúde pública deve acolher estes fármacos sem abandonar a prevenção.

Se os supermercados, os restaurantes e os ginásios começam a responder a novos comportamentos, também as políticas públicas devem responder ao que estes medicamentos tornam evidente: tratar a obesidade exige mais do que reduzir peso. Exige controlar risco, preservar autonomia e criar condições para que a saúde não dependa apenas da capacidade individual de escolher melhor.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Existem dois grandes temas na vida que tenho tentado compreender, pese embora sem grande sucesso. Um deles é a morte e todas as suas questões inerentes. Outro é o amor. O que é o amor, no que diz respeito às relações amorosas propriamente ditas, pois é certo que existirão diversas formas de amor.

A ele deverá preceder sempre a paixão, apesar de esta ser frequentemente desvalorizada nas relações amorosas. Deve ser encarada com cautela. É um processo químico, visceral e animal, que vai desaparecer ao fim de 18 meses, na melhor das hipóteses. No entanto, deste estado de alma surgem das coisas mais belas da vida. Parece que ganhamos novamente vontade de viver. Ficamos providos de uma energia revitalizada, colorida, oxigenada. Uma força desmedida, mas simultaneamente inquietante e desgastante. Fosse controlável e conseguiríamos viver assim para sempre.

Veja-se textos de Vinicius de Moraes, como o soneto de fidelidade:

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.

Isto vindo de um homem que viveu em permanente estado de embriaguez. Um boémio, que casou nove vezes. Diz-se que “amava” as mulheres. Talvez tenha sido só um bom exemplo do que a pulsão sexual pode fazer por um homem. Seria esta pulsão a falar, a paixão ou o amor?

Pedro Arrupe , um padre jesuíta escreveu: “apaixona-te, permanece apaixonado, isso decidirá tudo em ti.” Aí, sofregamente, aplaudimos de pé. Tens que viver apaixonado pelas coisas, seja no trabalho, nas relações amorosas e de amizade.

Os profissionais do amor não hesitam em dizer que o amor não tem nada que ver com paixão ou pulsão sexual. Faz parte de outra dimensão, de outro léxico. É a arte de permanecer, mesmo na ausência. É compreensão, admiração e respeito. É calma e plenitude. Parece tratar-se de algo que poucos alguma vez conseguirão alcançar.

Quando o amor já vai longo e as relações perduram no tempo, a narrativa adapta-se gradualmente, e vamos introduzindo palavras como trabalho, esforço e sacrifício . O amor passa a ser aceitação nas contrariedades, compreensão nos tempos maus.

Parece que ficamos presos na fase final de uma maratona, nos últimos quilómetros, sem nunca alcançarmos a meta. Um estado permanente de tentativa de manter a força nas pernas.

As discussões são mais frequentes e quotidianas, o sexo tem que ser combinado, uma espécie de sessão de ginásio, que faz bem ao corpo, mas que perdeu o fulgor, os olhos nos olhos, as tardes na cama, onde nada mais era preciso. Apenas dois corpos entre quatro paredes. O prazer mais barato do universo.

Os homens vão mitigando a sua pulsão sexual frenada dos últimos anos de várias formas. Antigamente compravam carros, agora fazem provas físicas de endurance, mantendo uma certa prova viva de masculinidade e as mulheres vão sonhando com os tempos idos do verdadeiro amor, do desejo, uma nostalgia expectante e reconfortante. Logicamente, também elas procuram as suas compensações, seja nos filhos, no desporto ou noutras atividades recreativas.

Nunca consegui compreender, mas invejo profundamente, as relações de casamento ou não, com 20, 30, 40 ou mais anos. Penso como é possível as pessoas permanecerem juntas tanto tempo. Será o amor de que tanto falam? Serão essas pessoas as iluminadas que alcançaram a verdade?

Será o amor um puzzle e nós as suas peças? Serão os casais resilientes aqueles que de início não faziam parte do mesmo (puzzle), mas que moldaram as suas peças até encaixarem toscamente e o amor o resultado desse maduro esforço? Serão os casais duradouros as peças certas que encaixavam de início na perfeição e que se mantiveram “encaixáveis “ adaptando se às mudanças temporais da forma do puzzle?

Na minha prática clínica, como urologista, vejo muitos casais, mais homens em particular, em todas as fases das suas vidas.

Na generalidade, parece-me que a maior parte das longas relações sofrem de grandes problemas, ocultos ou não, em particular para o sexo masculino. Traem quase garantidamente, com ou sem qualquer importância afetiva , mas na maioria das vezes, permanecem, sólidos, junto da família. Umas vezes fazem-no por tradição familiar, outras vezes por convicções religiosas, porque acreditam que será o melhor para
os filhos, outros porque economicamente seria desgastante e destrutivo destruir um casamento/ relação. As mulheres, muitas delas, resignam-se no seio familiar, vivem na expectativa de que um dia reviverão um grande amor. Naturalmente, a angústia é vivida em silêncio, principalmente nas idades em que ainda acreditam que podem ser felizes (entre os 40-50 anos) . Esta visão pode ser considerada negativa, redutora, fria e generalista, mas apenas pretendo falar do que observo e nunca de forma personalizada. É claro que há inúmeras exceções à regra e ainda bem.

Deparo-me cada vez mais com “novas” famílias, fruto de novas relações, geralmente a partir dos 40-50 anos. Pergunto-me o qual será a razão.

Terão as relações um prazo de validade à partida? Existirá a possibilidade de sermos magnetos que simplesmente deixaram de funcionar e se perderam pelo caminho? Duas pedras gastas cuja fricção já não faz fogo? Estaremos todos incapazes de coabitar e de nos entendermos? Perdemos a resiliência? Somos mais egocêntricos?

Nos dias de hoje, é comum vermos pessoas a terem duas grandes relações ao longo da sua vida. À medida que vivermos mais tempo, estou convicto que passarão a três ou quatro em vez de duas. Talvez não existam mais porque uma segunda longa relação poderá ter um início mais intencional. Pessoas já estabelecidas na vida e no trabalho, com os filhos encaminhados, mais seguras e focadas na outra pessoa. Quando decidimos casar aos 25-30 anos, existe inevitavelmente e de forma inerente algo estratégico no seu ato. O desejo e necessidade de constituir família. Existem muitas distrações e projetos a estabelecer que talvez nos afastem da outra pessoa, que caminha connosco no chamado “projeto “. Mais velhos e amadurecidos, o projeto talvez possa ser apenas e só, a nova relação. Talvez não haja ainda uma terceira relação porque ao 60-70 anos, as pessoas têm como que a aceitação plena de que já não valerá a pena procurar outra pessoa que as possa fazer novamente felizes.

Não consigo deixar de pensar que quando casamos e “prometemos” tentar passar o resto da vida com outra pessoa, estamos a acreditar que para essa outra pessoa só existimos nós. Num universo com biliões de pessoas, é de uma soberba e ingenuidade tremenda acharmos que só existirá uma pessoa capaz de nos fazer felizes e vice-versa. Não estaremos com uma pessoa toda a vida porque por acaso não estamos com outra?

Mais do que trabalho, sacrifício ou dedicação, não existirá uma afinidade quase animal e oculta que nos liga a outra pessoa e é essa base atrativa que nos liga para sempre ou não?

Tradicionalmente achamos que uma relação de sucesso foi a relação que durou para sempre. Não estou certo disso, como não estou certo de nada, apenas da morte e que daqui a duas gerações, quase todos os que estão a ler esta crónica serão esquecidos por completo, tal como eu.

Seja o que for o amor , continuarei a amá-lo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


A proposta de criação da Prestação Social Única nasce com uma promessa simples: tornar mais claro, mais rápido e menos burocrático o acesso a várias prestações sociais não contributivas.

A promessa é apelativa. Mas, em matéria de proteção social, todas as promessas de simplificação devem ser lidas com uma cautela adicional: simplificar pode aproximar o Estado das pessoas, mas também pode concentrar poder, reduzir garantias e tornar invisíveis vulnerabilidades diferentes.

É por isso que há uma pergunta que não quer calar: simplificar para proteger melhor ou simplificar para controlar mais?

A Prestação Social Única ainda não é, neste momento, um regime legal definitivo e em vigor. O que existe é a Proposta de Lei n.º 85/XVII/1.ª, apresentada pelo Governo, destinada a autorizar a criação desta nova prestação no âmbito do subsistema de solidariedade.

Esta precisão é essencial.

Uma coisa é o anúncio político de uma reforma. Outra, bem diferente, é o conteúdo final do diploma que vier a ser aprovado, regulamentado e aplicado às pessoas concretas.

É precisamente nesse intervalo, entre a promessa política e a lei que vier a ser aplicada, que se decide se a simplificação será uma garantia ou um risco.

Portugal tem um sistema de prestações sociais complexo, disperso e muitas vezes pouco compreensível. Mesmo para profissionais que trabalham nesta área, nem sempre é simples articular apoios, condições de acesso, rendimentos relevantes, composição do agregado familiar, deveres de informação e consequências do incumprimento.

Para quem vive numa situação de vulnerabilidade, essa complexidade pode tornar-se uma barreira quase intransponível.

Uma pessoa que precisa de apoio social não precisa apenas de uma prestação. Precisa de compreender que apoio existe, como pode pedi-lo, que documentos deve apresentar, em que prazo deve fazê-lo, que decisão pode esperar e como pode reagir se o pedido for recusado.

Se o sistema é tão difícil que afasta precisamente quem mais necessita dele, então falha antes mesmo de decidir.

Por isso, a ideia de reunir várias prestações sociais não contributivas num modelo mais simples pode fazer sentido. Bem desenhada, esta simplificação pode reduzir a burocracia, evitar duplicações, tornar mais claro o percurso dos beneficiários e aproximar a Segurança Social das pessoas.

Mas simplificar não é apenas juntar.

Quando se agregam prestações diferentes num regime comum, há um risco que deve ser levado a sério: tratar de forma igual situações que são profundamente diferentes.

A velhice não é igual à invalidez. A viuvez não é igual ao desemprego. A parentalidade em situação de fragilidade não é igual à insuficiência económica estrutural. A orfandade não é igual ao Rendimento Social de Inserção.

Cada uma destas situações tem uma razão social própria, uma função jurídica própria e uma vulnerabilidade humana distinta.

É aqui que começa o verdadeiro desafio da Prestação Social Única.

A Constituição reconhece o direito à segurança social e impõe ao Estado a organização de um sistema capaz de proteger os cidadãos em situações de falta ou diminuição de meios de subsistência.

Este direito não é uma simples rubrica orçamental. É uma expressão concreta do Estado social, da dignidade da pessoa humana e da igualdade material.

O Estado pode reorganizar prestações sociais. Pode criar critérios de acesso. Pode exigir prova de rendimentos. Pode fiscalizar abusos. Pode combater a fraude. Pode pedir colaboração aos beneficiários.

Tudo isso é legítimo. Nenhum sistema público é sustentável sem regras, controlo e responsabilidade. Mas esses instrumentos têm limites.

Em matéria de direitos sociais, a eficiência administrativa deve conviver com a proporcionalidade, a igualdade, a proteção da confiança, a transparência e a tutela efetiva das pessoas mais vulneráveis.

O combate à fraude é necessário. O que não pode acontecer é transformar a pessoa pobre, desempregada, doente, idosa ou socialmente frágil numa suspeita permanente.

O Estado não tem de ser ingénuo. Mas também não deve construir políticas públicas a partir da presunção de abuso.

Uma das matérias mais sensíveis da proposta prende-se com a eventual participação dos beneficiários em atividades de inclusão social ou comunitária, nos termos que vierem a ser legalmente definidos.

Em abstrato, esta ideia pode ser defensável.

Há situações em que a participação em atividades úteis, acompanhadas e ajustadas pode promover inclusão, rotinas, autonomia, contacto social e aproximação ao mercado de trabalho.

Mas o problema está sempre no desenho concreto.

Quem define a atividade? Com que critérios? Com que duração? Com que acompanhamento? Com que exceções? Como se avalia a capacidade concreta da pessoa? Que proteção existe para quem está doente, cuida de familiares, tem filhos pequenos, sofre de incapacidade, vive longe dos serviços ou não tem transportes? Que consequência resulta do incumprimento? Que meios de reclamação ou impugnação são assegurados?

Estas perguntas não são meros detalhes administrativos. São garantias jurídicas.

Uma atividade de inclusão social não pode transformar-se, na prática, numa forma encapotada de trabalho obrigatório, mal enquadrado ou sem ponderação adequada da situação pessoal do beneficiário.

Também não pode servir para substituir necessidades permanentes de entidades públicas, autarquias, IPSS ou serviços locais por trabalho associado à manutenção de uma prestação social.

A fronteira pode ser delicada.

Se a atividade tiver finalidade formativa, social, comunitária e de integração, com acompanhamento adequado, limites proporcionais e proteção da situação concreta do beneficiário, pode cumprir uma função legítima.

Se for aplicada de forma automática, rígida ou punitiva, pode abrir espaço a conflito jurídico, injustiça material e litigância futura.

O risco está na diferença entre incluir e condicionar.

Incluir é criar condições reais para que a pessoa recupere autonomia. Condicionar é transformar o apoio social num teste permanente de merecimento.

Em matéria de prestações sociais, esta distinção é decisiva.

A pobreza não é uma falha moral. O desemprego não é sempre uma escolha. A doença não se ultrapassa por decreto. A velhice, a invalidez, na viuvez, a orfandade e a vulnerabilidade familiar não podem ser tratadas como meras variáveis administrativas.

Por isso, qualquer reforma nesta área deve ser avaliada não apenas do ponto de vista financeiro, mas também do ponto de vista humano e jurídico.

A proposta de Prestação Social Única pode ser uma oportunidade para tornar o sistema mais legível, facilitar o acesso, reduzir a burocracia e melhorar a articulação entre serviços.

Mas também pode criar novos problemas se não forem salvaguardadas as diferenças entre prestações, os regimes transitórios, os critérios de elegibilidade, os direitos em formação, as exceções justificadas, os deveres de fundamentação das decisões administrativas e os meios de reação dos cidadãos.

A segurança jurídica será decisiva.

Uma pessoa que depende de apoio social precisa de saber, com clareza, quais são os seus direitos, quais são os seus deveres, que documentos deve entregar, em que prazo, por que razão pode perder apoio e como pode contestar uma decisão.

A Administração, por sua vez, precisa de regras claras para decidir de forma coerente, transparente e fundamentada.

Também as autarquias e as IPSS terão de compreender qual será o seu papel. Serão chamadas a acompanhar beneficiários? A disponibilizar atividades? A validar presenças? Sinalizar incumprimentos? A colaborar com a Segurança Social? Com que recursos? Com que responsabilidade? Com que limites?

Estas questões podem determinar o sucesso ou o fracasso prático da reforma.

Por isso, a discussão não deve ficar limitada à pergunta sobre quantas prestações são agregadas. A pergunta mais importante é outra: que garantias acompanham essa agregação?

Em matéria de proteção social, a simplificação administrativa é valiosa quando torna o Estado mais acessível, mais claro e mais rápido.

Mas deixa de ser progresso se, sob a aparência de eficiência, comprimir garantias, apagar diferenças relevantes ou tornar mais difícil a vida de quem já se encontra numa situação de especial fragilidade.

A verdadeira questão não está apenas em saber se treze prestações passam a caber num regime mais simples.

Está em saber se essa simplificação será acompanhada de critérios justos, decisões fundamentadas, regimes transitórios adequados, exceções proporcionais e meios efetivos de reação para os cidadãos.

Num Estado de Direito democrático, a proteção social não pode ser vista apenas como despesa pública. É também uma expressão concreta da dignidade da pessoa humana, da igualdade material e da solidariedade.

A reforma pode ser necessária. A simplificação pode ser positiva. O controlo pode ser legítimo. Mas nenhum destes objetivos dispensa rigor jurídico, prudência legislativa e respeito pelas pessoas a quem o sistema se destina. A proposta ainda terá de ser discutida, aprovada, concretizada e aplicada.

A pergunta central é simples: queremos um sistema social mais claro para proteger melhor ou um sistema mais concentrado para controlar mais?

Porque simplificar só é progresso quando aproxima o Estado das pessoas sem fragilizar os seus direitos.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A cidade do Porto volta a celebrar o São João com uma programação rica e diversificada, que se estende por vários dias e promete reunir milhares de pessoas naquela que é considerada a noite mais longa e animada do ano.

No dia 23 de junho, Casa da Música acolhe o Palco Juventude, integrado na Capital Nacional da Juventude 2026, através do projeto Nunca Mates o Arraial, que junta música, criatividade e espírito festivo, com atuações de Rapaz Ego, Cedofeita Takeover e Nunca Mates o Mandarim, além de DJ sets e animação conduzida por Beatriz Gosta e David Bruno.

O momento mais aguardado acontece na noite de 23 para 24 de junho, com três grandes palcos espalhados pelo centro da cidade. Na Avenida dos Aliados, os Quinta do Bill sobem ao palco às 22h, seguindo-se, após a meia-noite, o concerto de Tony Carreira. A animação continua pela madrugada com os DJ sets de Fernando Alvim e da dupla Mete Cá Sets. Na Cordoaria, o Largo do Amor de Perdição recebe os Últimos Românticos, os D.A.M.A e o projeto Noz Pimba. Já na Ribeira, os Karetus prometem aquecer o ambiente antes do tradicional espetáculo de fogo de artifício.

À meia-noite, os céus do Porto e de Vila Nova de Gaia serão iluminados por um espetáculo multimédia e de fogo de artifício com cerca de 12 minutos de duração, realizado entre as pontes Luís I e da Arrábida, um dos momentos mais emblemáticos das festividades sanjoaninas.

As comemorações continuam no dia 24 de junho com o tradicional Concerto de São João da Banda Sinfónica Portuguesa, na Concha Acústica dos Jardins do Palácio de Cristal, com entrada livre para toda a população.

Ao longo do mês, as festas estendem-se às várias freguesias da cidade com dezenas de concertos e arraiais populares, reforçando o caráter comunitário desta celebração. Mantêm-se igualmente vivas as tradições da Arruada de Ranchos e das Rusgas, momentos que valorizam a cultura popular e a identidade portuense.

O Mercado do Bolhão associa-se mais uma vez às festividades com a tradicional Cascata Comunitária de São João, oficinas para famílias e um arraial especial. Em vários pontos da cidade, como as Fontainhas, a Foz e Lordelo do Ouro, haverá ainda carrosséis, zonas de restauração, animação de rua e atividades para todas as idades.

O Mundial costuma ser um momento estranhamente poderoso. Durante alguns dias, criamos, instintivamente, a sensação de união em torno da nossa bandeira e da nossa seleção e transformamo-nos num símbolo coletivo. É um daqueles raros momentos em que a ideia de ser “país” parece simples. Mesmo quem não acompanha normalmente o futebol, vibra junto com quem é apaixonado por ele, reconhecemo-nos uns nos outros e todos na nossa seleção.

Há dias, num final de tarde a olhar o nosso mar, dei por mim a pensar: o que é, afinal, um país? O que é uma pátria? Será apenas um território, uma bandeira, um hino, uma seleção? Ou será, antes de tudo, uma comunidade viva de pessoas, construída por valores, história, cultura, diversidade e escolhas éticas sobre como nos relacionamos uns com os outros?

O amor por um país não pode ser confundido com a aceitação passiva de tudo aquilo que é feito em seu nome. Pelo contrário, o vínculo mais profundo revela-se na capacidade de o questionarmos quando o vemos a afastar-se dos valores que diz defender.

Desagrada-me a forma como o meu país tem lidado com as grandes questões do nosso tempo. Em particular, a posição política e diplomática perante o sofrimento do povo palestiniano, a violência em Gaza e o incumprimento do direito internacional e dos direitos humanos.

Desagrada-me a distância entre o discurso e a ação, e a falta de coerência quando estão em causa vidas humanas na sua grande maioria, crianças.

Também me desagrada o modo como se tem moldado o debate público, com a desigual visibilidade de vozes, a normalização de discursos que desvalorizam a dignidade humana e a pouca empatia com migrantes, minorias e pessoas em situação de pobreza. Uma sociedade perde densidade moral quando aceita a desigualdade como uma necessidade rotineira.

Desagrada-me a transformação acelerada das cidades e dos seus hábitos, o impacto da especulação imobiliária e do modelo de investimento desregulado que impossibilitam a permanência de quem lá vivia. Quando uma cidade deixa de pertencer a quem a habita, e passa pertencer a quem a visita, algo essencial se está a perder.

Desagrada-me também a crescente presença de capital estrangeiro na compra de imóveis, terrenos e recursos, nomeadamente florestas, tanto nas cidades como no interior do país. Não ponho em causa a abertura ao mundo, que até é positiva, mas a ausência de regulação que garanta equilíbrio social e direito à habitação. Um país não pode ser só mercado e atividade económica.

Desagrada-me o distanciamento entre as decisões políticas e os valores humanistas e éticos que uma parte significativa da população reconhece como seus e os quais me foram transmitidos: valores de solidariedade, dignidade e respeito pelo outro. Não estou a rejeitar o meu país, mas a interrogar se ele está a ser fiel ao que se diz ser.

No plano simbólico, o desporto deveria ser um momento de união. Desagrada-me, no entanto, a forma como certas figuras públicas, que também representam o nosso país, demonstram uma ausência de consciência ética proporcional à sua influência. A desilusão perante o silêncio ou a ausência de posicionamento face a situações de sofrimento humano, como o genocídio em Gaza, afasta as pessoas desse sentimento de pertença.

No caso do Mundial, que se deveria manter um momento de união, porque a  presença da seleção nacional evoca esse sentimento de pertença, ele torna-se contraditório quando nos confrontamos  com o silêncio e as incoerências éticas de algumas figuras no espaço público. A ausência de demonstração pública de empatia, não é por muitos sentida como neutra, mas sim como um afastamento moral que nos desune.

Temos em Portugal uma história rica, uma cultura plural e uma capacidade única de encontro com outros povos. Mas a nossa história deve ser contada com verdade. Falar do passado implica reconhecer que os chamados “descobrimentos” não foram apenas feitos de navegação e engenho. Foram também processos de dominação, violência, escravatura, exploração de povos e territórios, e apropriação das suas riquezas naturais. Reconhecer isto completa a nossa história e enriquece-a.

Um país ou uma pátria madura não pode viver só de orgulho, mas também de consciência crítica. Da capacidade de olhar para si sem ilusões e de se conseguir transformar.

O verdadeiro amor ao país não se mede pela ausência de críticas, mas pela exigência de que ele seja mais justo, mais coerente e mais humano. Um país digno de ser amado é aquele que não teme olhar para as suas contradições e que escolhe melhorar-se continuamente.

É nesse sentido que o meu sentimento em relação a Portugal se torna confuso. Amar Portugal é também não aceitar que ele se afaste da sua própria humanidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Eram 22h47 quando aquele diretor respondeu ao último email do dia. A equipa já dormia. Os filhos também. No dia seguinte voltaria a reuniões sobre performance, transformação digital e Inteligência Artificial. A organização acelerava. Os resultados apareciam. Os projetos avançavam. E, ainda assim, nunca pareceu tão cansado.

Há algo silencioso a acontecer nas organizações e raramente entra nas conversas estratégicas. Não aparece nos dashboards nem nos relatórios de produtividade. Mas sente-se, nas equipas desgastadas, nos líderes que passaram a gerir reações em vez de criar direção, nas culturas onde existe mais urgência do que reflexão, mais pressão do que presença e mais controlo do que confiança.

Começámos a normalizar sinais que deveriam preocupar, através de equipas defensivas, com menor iniciativa, conversas superficiais e líderes sem espaço para pensar.

Durante demasiado tempo, aceitámos estes sinais como o preço inevitável da performance. Não são.

São o custo invisível de organizações desenhadas para acelerar continuamente, mas nem sempre preparadas para sustentar essa aceleração. Quando a liderança perde humanidade, a confiança deteriora-se. Quando a confiança se deteriora, a velocidade deixa de ser força e passa a ser fragilidade.

Durante décadas, liderança foi associada a controlo, supervisão e rapidez de resposta. Esse modelo podia funcionar em contextos previsíveis. Num mundo de disrupção e mudança acelerada, tornou-se insuficiente.

As organizações prepararam-se para competir através de tecnologia, eficiência e velocidade. Mas, no meio desta corrida, muitas começaram a perder algo essencial, a capacidade de fazer as pessoas sentirem-se humanas no trabalho.

Hoje, a Inteligência Artificial transforma funções, decisões e modelos de negócio. Um dos maiores riscos da IA pode não ser substituir trabalho humano, mas normalizar organizações onde a velocidade cresce mais depressa do que a capacidade humana.

Organizações desgastadas podem continuar eficientes durante algum tempo. Mas perdem capacidade de inovar, colaborar e adaptar-se. Sem confiança, as equipas continuam a executar, mas deixam gradualmente de questionar, desafiar e pensar. E quando as pessoas deixam de pensar, deixam também de transformar.

É aqui que a humanização da liderança deixa de ser apenas preocupação ética e passa a ser questão estratégica. Sem liderança humana, a confiança deteriora-se. E quando a confiança se deteriora, as equipas protegem-se, partilham menos, arriscam menos, questionam menos, colaboram menos. A organização pode manter movimento, mas perde inteligência coletiva.

Stephen M. R. Covey defendia uma ideia simples: quando a confiança diminui, a velocidade abranda e o custo aumenta; quando cresce, a velocidade acelera e os custos diminuem.

A confiança já não pode ser gerida como tema “soft”. É infraestrutura invisível de execução, que determina a velocidade das decisões, a qualidade da colaboração e a capacidade de adaptação.

Quando esta pressão se prolonga, instala-se nas pessoas que lideram. Muitos líderes vivem em modo sobrevivência, transmitem confiança quando sentem incerteza, criam direção na ambiguidade e sustentam equipas quando também estão desgastados. O problema está, muitas vezes, em sistemas que exigem níveis insustentáveis de resiliência.

Quando liderança perde princípios, confiança e significado, a performance pode sobreviver durante algum tempo, mas a cultura começa a deteriorar-se.

Humanizar a liderança não significa reduzir exigência. Significa criar ambientes onde confiança, clareza, responsabilização e bem-estar deixam de competir entre si.

Quanto mais a tecnologia se torna acessível, mais humanas se tornam as competências diferenciadoras, como sejam, escutar, criar segurança psicológica, ter conversas difíceis, decidir na ambiguidade e devolver significado.

O futuro não pertence às organizações que aceleram mais depressa. Pertence às que conseguem acelerar sem perder pessoas pelo caminho.

O problema nunca foi o email enviado às 22h47. Foi começarmos a acreditar que isso era liderança.

A tecnologia continuará a acelerar. Mas continuará a existir uma escolha, a de construir organizações desenhadas apenas para performance ou onde pessoas, confiança e performance conseguem coexistir.

Porque liderar continuará a ser, acima de tudo, um ato profundamente humano.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

De acordo com as estimativas de população residente de 2025, apresentadas esta segunda-feira e que incluem revisões dos números referentes ao período entre 2021 e 2024, a 31 de dezembro de 2025, a população em Portugal tem 11.424.031 pessoas, mais do que os valores apresentados no ano passado, referente a 2024 (10.749.635), que também foram atualizados para 11.387.222.

“A população residente de nacionalidade estrangeira, em 31 de dezembro de 2025, foi estimada em 1.597.539 pessoas, representando 14,0% do total da população residente” e desde 2021, “mais do que duplicaram, correspondendo a um aumento de 849 384 pessoas (mais 6,9 pontos percentuais)”, refere o INE.
Os últimos dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), em outubro do ano passado, indicavam que, no final de dezembro de 2024 estavam registados 1.543.697 cidadãos estrangeiros a residir em território nacional, abaixo de estimativas feitas em abril.

De acordo com o INE, os dados anteriormente divulgados foram atualizados, concluindo que, “entre 2021 e 2025, a população residente aumentou 824.914 pessoas, destacando-se os anos de 2022, 2023 e 2024, nos quais se verificaram fluxos migratórios excecionalmente elevados, traduzindo-se em acréscimos populacionais”, respetivamente, de 330 mil, 275 mil e 183 mil pessoas.


Por outro lado, “o envelhecimento demográfico em Portugal continuou a acentuar-se, ainda que atenuado pelo reforço relativo da população em idade ativa” e em 2025, o índice de envelhecimento atingiu o valor de quase o dobro de idosos do que jovens “19 idosos por cada 10 jovens”, quando em 2021 os valores eram de 18 por 10.

Já a idade mediana da população residente em Portugal passou para 45,8 anos, quando em 2021, data dos últimos censos, era de 46,1, indicando ligeiro rejuvenescimento.

“A medida de uma civilização encontra-se na forma como trata os seus membros mais vulneráveis.” — Mahatma Gandhi

Poucas afirmações traduzem de forma tão clara o verdadeiro significado da justiça.

Numa sociedade democrática, a proteção dos mais vulneráveis não constitui apenas um dever moral, representa também um critério essencial para avaliar a qualidade das instituições públicas e a confiança que os cidadãos nelas depositam.

Durante muito tempo, quando se falava de justiça criminal, o foco concentrava-se quase exclusivamente no crime, na identificação do seu autor e na determinação da pena a aplicar. A vítima surgia frequentemente como uma figura secundária, chamada a depor, a prestar esclarecimentos ou a colaborar com a investigação, mas sem que existisse uma verdadeira preocupação com as suas necessidades concretas, o impacto sofrido ou o acompanhamento de que necessitava.

Felizmente, esta realidade tem vindo a evoluir.

Hoje é amplamente reconhecido que uma justiça eficaz não se mede apenas pela capacidade de investigar crimes e responsabilizar os seus autores. Mede-se igualmente pela forma como acolhe, protege e acompanha aqueles que sofreram diretamente as suas consequências.

Para muitas pessoas, o primeiro contacto com o sistema de justiça ocorre num dos momentos mais difíceis das suas vidas. A linguagem jurídica pode revelar-se complexa, os procedimentos nem sempre são fáceis de compreender e o impacto emocional do crime permanece frequentemente presente. Para uma vítima de violência doméstica, de abuso sexual ou de outro crime grave, cada diligência processual pode representar um momento de particular ansiedade e vulnerabilidade.

É neste contexto que assumem especial relevância os Gabinetes de Apoio e Atendimento a Vítimas (GAV), instalados junto dos Departamentos de Investigação e Ação Penal (DIAP).

Estes gabinetes não substituem a atividade do Ministério Público nem a intervenção dos órgãos de polícia criminal. Complementam-na, assegurando que as vítimas dispõem de apoio especializado, informação clara e encaminhamento adequado para as respostas sociais, psicológicas e jurídicas de que necessitam.

No centro desta missão encontram-se os Técnicos de Apoio à Vítima, profissionais especialmente qualificados.

A sua intervenção vai muito além da mera prestação de informações. Escutam, acolhem e apoiam pessoas que frequentemente chegam fragilizadas, desorientadas ou receosas. Explicam direitos e procedimentos de forma acessível, avaliam situações de risco, colaboram na definição de planos de segurança, promovem o acesso a recursos especializados e acompanham as vítimas ao longo das diferentes etapas do processo criminal.

Mais do que transmitir informação, ajudam a devolver confiança. Confiança nas instituições, confiança nos mecanismos de proteção existentes e, muitas vezes, confiança na própria capacidade da vítima para reconstruir a sua vida após a experiência traumática que enfrentou.

O objetivo é simples, mas fundamental: garantir que ninguém percorre sozinho o caminho da justiça.

A importância desta intervenção reflete-se também na própria eficácia do sistema de justiça. Uma vítima que se sente protegida, compreendida e devidamente acompanhada encontra-se em melhores condições para participar no processo penal, prestar declarações mais completas e consistentes e colaborar de forma mais segura com a investigação criminal.

Por isso, apoiar as vítimas não é apenas uma questão de humanidade. É igualmente uma questão de qualidade institucional e de eficácia na descoberta da verdade.

O papel dos GAV assume particular relevância nos processos de violência doméstica e de violência baseada no género. Nestas situações, a proteção da vítima exige uma resposta articulada entre Ministério Público, órgãos de polícia criminal, serviços de saúde, instituições de apoio social e entidades especializadas.

Os Técnicos de Apoio à Vítima desempenham aqui uma função especialmente importante, funcionando frequentemente como elemento de ligação entre as diversas estruturas envolvidas. Acompanham a vítima, identificam necessidades, facilitam o acesso a recursos e contribuem para uma intervenção integrada, coordenada e centrada na pessoa.

A criação dos GAV corresponde ao cumprimento de compromissos assumidos por Portugal no plano internacional e europeu e integra uma estratégia mais ampla de reforço dos direitos das vítimas e de combate à vitimização secundária — aquela que ocorre quando o próprio contacto com as instituições provoca sofrimento adicional a quem já foi vítima de um crime.

Os resultados alcançados justificam plenamente o investimento realizado. A expansão gradual da rede de GAV pelo território nacional demonstra o reconhecimento da sua utilidade e a crescente consciência de que uma justiça verdadeiramente próxima dos cidadãos deve ser também capaz de responder às necessidades das vítimas.

Naturalmente, persistem desafios. Nem todas as regiões dispõem ainda destas estruturas, os recursos humanos continuam a ser limitados e as novas formas de criminalidade, em particular no espaço digital, mormente em crimes de natureza sexual, colocam exigências acrescidas de especialização e formação contínua.

Contudo, estes desafios não diminuem a relevância do caminho já percorrido.

Num tempo em que a confiança nas instituições públicas é frequentemente colocada à prova, os GAV representam uma das expressões mais próximas e humanas da justiça. Demonstram que o sistema judicial não existe apenas para investigar factos, exercer a ação penal e aplicar a lei. Existe também para proteger pessoas.

Acresce que a efetividade dos direitos das vítimas depende não apenas da existência de estruturas formais de apoio, mas igualmente da consolidação de uma verdadeira cultura institucional centrada na dignidade humana.

A formação contínua de magistrados, funcionários de justiça, órgãos de polícia criminal e técnicos especializados assume, neste contexto, um papel determinante para garantir respostas coordenadas, céleres, qualificadas e humanizadas.

Porque uma justiça verdadeiramente moderna não se limita a investigar crimes nem a tramitar processos. Tem de saber acolher, proteger e acompanhar vítimas.

E essa missão concretiza-se, todos os dias, através do trabalho discreto, especializado e profundamente humano dos Técnicos de Apoio à Vítima, que transformam os direitos consagrados na lei em apoio real para quem mais precisa.

É, muitas vezes, precisamente aí que a justiça começa.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

São seis da manhã e há um homem a apanhar, da berma de um passeio, o saco que alguém atirou de uma varanda às duas da madrugada. Não o vimos atirar e não o vemos apanhar. É essa a regra silenciosa das nossas cidades: o lixo aparece e desaparece como por milagre, e entre uma coisa e outra há sempre alguém, de colete refletor, a fazer o trabalho que fingimos não existir.

Quero começar por esse homem, e pela mulher ao lado dele, porque é deles que menos se fala e são eles que mais aguentam. Chamam-se cantoneiros, varredores, condutores. Levantam-se quando ainda é noite, trabalham com frio e com chuva, lidam com o cheiro e com os perigos que mais ninguém quer, e garantem, sem que ninguém lhes agradeça, a saúde pública de um país inteiro. No fundo da carreira, um assistente operacional de câmara ganha 934,99 euros por mês, 15 euros acima do salário mínimo nacional, e quem trabalha para as empresas contratadas pelas autarquias ganha, não raro, ainda menos. É quanto vale, na folha de pagamentos, manter uma cidade habitável.

E reparem numa coisa: só damos por eles quando param. Na última greve em Lisboa, os serviços mínimos fixados foram de 71 circuitos e 167 trabalhadores, cerca de um terço de um dia normal. Mesmo um terço foi o que separou a cidade de se afogar no próprio lixo. Diz tudo sobre o tamanho destas mãos, e sobre a injustiça de as mantermos invisíveis.

No virar de 2024 para 2025, e outra vez em 2026, pararam em greve em Lisboa, em Oeiras, na Resinorte, na FCC. Não pediam luxos. Pediam que se contratasse mais gente, porque são poucos para o que a cidade despeja; que a profissão fosse reconhecida como de desgaste rápido, porque é o corpo que paga a conta; que o salário acompanhasse a subida dos preços e que se atualizasse o velho suplemento de insalubridade e penosidade. E houve quem fosse contratado a recibo verde para funções permanentes, que é a forma educada de dizer precariedade. Exigimos ruas limpas das mãos de quem mal pagamos e em número a menos.

E aqui entra a outra metade da história, a que custa dizer. Porque sobre essas mãos despejamos, todos os dias, as consequências do que somos. O saco que salta da janela. Os sacos amontoados à volta de um ecoponto cheio, quando bastava abrir o contentor do lado. Os móveis velhos largados na rua, com a recolha gratuita a um telefonema de distância. O lixo posto ao domingo, contra as regras, a apodrecer ao sol até segunda. A beata atirada para a areia, como se o mar fosse cinzeiro. O papel que o vento leva e que ninguém vai atrás, porque ir atrás dele é, mais uma vez, trabalho daquele homem das seis da manhã.

Não é impressão minha. Em Vila Franca de Xira, um morador da Póvoa de Santa Iria descreveu o que via à porta de casa como um retrocesso civilizacional: ecopontos cheios, papel e plástico a voar, ratos. As queixas sobre higiene urbana subiram em todo o País, com casos de ratos e baratas, e não vêm só da capital, vêm de Almada, de Loures, de Vila Nova de Gaia, de Cascais. Em Lisboa, a deposição de entulho e de monos foi a principal queixa de 2025, mais de 14 mil reclamações. Em Sintra, a junta de Algueirão-Mem Martins diz que as descargas ilegais junto aos contentores duplicaram num único ano. E no Algarve, onde o problema ganha outra escala, Albufeira passa de 45 mil habitantes para 400, 500 mil pessoas no Verão, e o lixo quadruplica, quintuplica, e fica dias a transbordar dos ecopontos debaixo de 40 graus. Só num concelho, e num único verão, um programa de jovens chegou a retirar das praias mais de 50 mil beatas. Cinquenta mil, num concelho, numa época.

Cada português produziu, em 2024, cerca de 1,4 quilos de lixo por dia, 519 quilos ao longo do ano, e mais 4% do que no ano anterior. A conta, em vez de baixar, sobe. Multiplique-se por 10 milhões de pessoas e percebe-se a dimensão do que pedimos àquelas mãos, e a dimensão daquilo de que, colectivamente, nos demitimos.

Até aqui, podia estar a escrever a crónica fácil, a do dedo apontado ao cidadão porco. Não é essa que quero escrever, porque seria injusta e seria preguiçosa. O incivismo existe, mas não nasce do nada. Nasce em cima de um sistema que quase parece desenhado para o desculpar. Em Sintra, deixar lixo fora do contentor dá uma coima que pode ir de 250 a 22.000 euros. Na prática, não acontece nada, e a própria junta admite que nem a fiscalização responde. A regra existe no papel, e no papel morre.

E há um nó mais fundo, que para mim, como advogada, é o verdadeiro centro da questão. Em cerca de 80% dos municípios portugueses, o lixo é cobrado em função da água que se gasta, e não do lixo que se produz. Quem separa tudo, recicla tudo, reduz tudo, paga exatamente o mesmo que o vizinho que deita tudo ao chão. E pagamos por este serviço apenas uma fração do que ele custa de verdade, com o resto a sair dos cofres da câmara, de tal modo que nem sequer sentimos o preço daquilo que produzimos. A DECO chama-lhe, com graça e com razão, Lixo não é Água. A lei mandava acabar com este disparate até 2026. Uma alteração de 2024 empurrou o prazo para 2030. Adiámos por mais 4 anos a única medida que ligaria o que pagamos ao que sujamos.

E o desacerto começa logo na raiz das contas. Albufeira, que serve quase meio milhão de pessoas em agosto, é financiada pelo Estado com base no número de eleitores, e não nas pessoas que de facto ali vivem e sujam. Como se o lixo de um turista pesasse menos do que o de um residente. Pede-se aos municípios que limpem uma cidade inteira com o orçamento de uma aldeia.

O retrato nacional confirma o resto. Portugal prepara para reciclagem cerca de 32% dos seus resíduos urbanos, contra os 55% que a Europa nos exigia já em 2025, e mais de metade do nosso lixo ainda acaba em aterro, com o próprio Orçamento do Estado para 2026 a admitir que alguns desses aterros estão à beira de esgotar-se. Falhámos a meta europeia de 2020, e a de 2025 estava perdida antes de começar. A resposta do Estado, no Natal passado, foi uma campanha de 5,3 milhões de euros, com o engenho de lhe chamar Vamos lixar o lixo. Cartazes, mais uma vez, porque o cartaz é mais barato do que a reforma e tem a vantagem de não obrigar ninguém a decidir nada. E quando se tentou mesmo mudar, ouviu-se a desculpa do costume: o presidente da câmara de Aveiro chegou a dizer que pagar pelo lixo que se produz é um projeto que “não pega em Portugal”.

Pega, e há quem o prove. Na Maia, paga-se o lixo que não se recicla, e quem recicla mais paga menos, sem rodeios: recicle mais, pague menos. Guimarães faz algo parecido desde 2016, com saco pré-comprado. Moura, no Alentejo, separou a conta do lixo da conta da água em 2020. Mértola fá-lo no centro histórico. Não são cidades ricas a comprar civismo, são autarquias que decidiram premiar quem se porta bem e cobrar a quem se porta mal. O resultado não é magia, é incentivo. As pessoas reciclam mais quando reciclar lhes poupa dinheiro, e não quando um cartaz lhes pede por favor.

Fica então o paralelo, e fica inteiro. De um lado, quem suja, e quem suja somos quase todos, em maior ou menor grau, acompanhados por um Estado que não cobra a quem devia, não premeia quem merece, e nem sequer se dá ao trabalho de contar bem o problema. Do outro, quem limpa, mal pago e em número a menos, a apanhar às seis da manhã o que atirámos à meia-noite. Entre os dois, a distância não é de educação. É de dignidade.

Uma cidade não se mede pelo lixo que produz. Mede-se pela forma como trata quem o levanta.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

O último Congresso do PSD tinha sido em outubro de 2024, nesse tempo longínquo em que o partido, após mais de 8 anos a penar na oposição, estava fresquinho com o regresso ao Governo, ainda que com o apoio mais minoritário de sempre e com a surpreendente liderança de Luís Montenegro, a quem muitos não prenunciavam grande futuro até à estrondosa operação de Lucília Gago e Marcelo Rebelo de Sousa a 7 de novembro de 2023.

Após um primeiro ano em permanente registo de campanha eleitoral, mas com a vitimização travada pela inesperada disponibilidade de Pedro Nuno Santos para negociar o primeiro Orçamento, o primeiro Governo Montenegro procurou sempre a desejada oportunidade para tentar repetir a senda de Cavaco de regressar ao poder com uma maioria absoluta para governar sem entraves parlamentares. A desilusão foi profunda em 2025, perante a manutenção das condições de governabilidade e uma maior dependência da extrema-direita populista apostada em liderar ideologicamente a maior maioria conservadora de sempre.

Ao fim de dois anos, a paradoxal indefinição estratégica sobre a aliança preferencial, se com os moderados que lideram agora o PS ou com a direita populista, conduziu o PSD a um bloqueio político que afunda a governação num arrastamento em que a única vocação é a de sobreviver tanto quanto possível, invocando um direito natural a governar sem prestar contas a ninguém que só apressa a degenerescência.

Neste momento, Luís Montenegro só tem consigo o entusiasmo dos apaniguados nomeados para alguma coisa ou os beneficiários de alguma tença pública. O antigo PSD que garantia os Congressos mais animados e inesperados encostou a bicicleta na entrada do velódromo de Sangalhos.

Aturdido com as más notícias da economia, o absurdo na forma de tentar permanentemente humilhar o PS, que seria o único interlocutor fiável de uma governação responsável, e ainda surpreso com a “traição” dos populistas com o chumbo do Código do Trabalho, o Congresso do PSD foi um enorme bocejo de elogio mútuo entre ministros, em que até o independente Luís Neves desbaratou prestígio ao discursar num congresso partidário.

O PSD suspirou para que entre as idas à praia e os comentários aos jogos do Mundial de futebol ninguém reparasse na penosa missa ritual do fim de semana, em que se tentou até criar emoção com mais um regresso de Santana Lopes.

O PSD está tolhido pela paralisia do Governo, a contar os dias para o fecho do incómodo ano parlamentar que permitirá reduzir a intensidade do escrutínio e evitar enxovalhos como o da reforma da legislação laboral.

Fora do palco do Congresso estiveram os discursos contraditórios dos militantes que, como Passos Coelho, defendem uma aliança assumida com o Chega, que a maioria dos eleitores do PSD rejeitaram nas eleições presidenciais, mas também a linha que diz que entendimentos preferenciais com a extrema-direita são suicidas porque André Ventura só sonha superar e destruir o PSD e porque assim todo o espaço moderado seria oferecido ao PS.

O Congresso foi um monólogo penoso que ignorou, para além das questões de estratégia governativa, os fracassos nas áreas da saúde, da habitação ou do crescimento económico. As medidas ditas “galvanizadoras” apresentadas no encerramento são uma estafada fuga em frente com o único intuito de se perpetuar nesta esgotada forma de governação sem brilho nem viabilidade parlamentar.

Após dois anos de atraso para iniciar as obras da linha vermelha do Metro de Lisboa, que assim perdeu o financiamento do PRR, anuncia-se com estardalhaço a privatização da linha de Cascais.

Após o fracasso dos objetivos estratégicos do PRR transformado num mealheiro do Banco de Fomento , e com um dos mais baixos níveis de investimento público da Europa, Montenegro anuncia a criação de um Fundo Soberano para investimentos estratégicos em empresas ,mas sem dizer a origem dos recursos, num modelo muito comum em autocracias árabes ou em países com muitos recursos naturais como a Noruega.

Renovaram-se os amanhãs que cantam das reformas legislativas, com anúncios já velhos sobre a simplificação da contratação pública ou a reforma dos tribunais administrativos e fiscais.

As alterações orgânicas dos ministérios não têm tido coerência no modelo nem vantagens visíveis para a qualidade do serviço público, pelo que o anúncio da reestruturação do ministério da Saúde é uma ameaça escusada numa área com um plano de emergência já com dois anos ainda por cumprir.

Quando não é possível renovar o cartão de cidadão nem constituir uma “Empresa na Hora”, soa a ridículo mais uma promessa de avançar com a Amália, a nova IA lusitana.

Finalmente, perante o resultado notável de ter transformado Lisboa na cidade da Europa em que é mais difícil arranjar casa com os rendimentos médios e da gloriosa subida dos preços da habitação até 18 % anuais para gáudio das empresas imobiliárias, parece muito suspeita a ameaça sem qualquer clarificação de voltar a mexer na lei do arrendamento.

Talvez ainda surpreendido com o choque parlamentar de sexta-feira, o PSD não teve tempo para mudar o guião do espetáculo de autoglorificação montado para a Anadia. Os portugueses não ligaram ao Governo, entre dois banhos de mar e a decisão difícil do local para colocar o guarda-sol na praia. As televisões mudaram rapidamente a emissão para as vicissitudes do estreito de Ormuz e a preparação do jogo com o Uzbequistão.

Por ser o rosto da paralisia estratégica e o isolamento do Governo e pela incapacidade de superar uma visão feita de pregões inconsequentes, o prémio Laranja sem Sumo do fim de semana vai para Luís Montenegro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.