
Os Prémios de Fotógrafo Europeu do Ano – PEF Awards – são atribuídos pela Federação Europeia de Fotógrafos e, este ano, o grande vencedor na categoria de Reportagem/Fotojornalismo foi o português Luís Godinho, já habituado a subir ao “pódio” deste galardão.
Açoriano, nascido em Angra do Heroísmo, trabalhava em engenharia e gestão do ambiente, mas desde criança que é apaixonado pela fotografia, embora nunca tenha tido qualquer tipo de formação na área da fotografia. Criado numa família grande, Luís tinha como rotina tirar os álbuns de fotos antigos da estante, folhear as páginas amareladas e colar as fotografias descoladas, como pode ler no perfil que a VISÃO lhe traçou quando venceu o prémio de 2024.
Esta é a terceira Câmera de Ouro que Luís Godinho conquista nos últimos 8 anos, a que se somam quatro de prata e uma de bronze.

O que significa ganhar um prémio com esta importância?
Ganhar um prémio desta importância é, acima de tudo, um enorme orgulho e uma honra. Representa o reconhecimento de um trabalho consistente ao longo do ano. São oito anos consecutivos no pódio, com três Câmeras de Ouro, quatro de prata e uma de bronze, penso que isto mostra bem a consistência do meu trabalho.
Num mundo cada vez mais imediato e descartável, onde milhões de fotografias são feitas todos os dias, este tipo de distinção valida uma abordagem mais consciente: olhar o outro com tempo, respeito e verdade. O que me move é precisamente isso, contar histórias reais, dar visibilidade a vidas que muitas vezes passam despercebidas e, através dessas narrativas, criar uma ligação emocional que possa inspirar mudança. Acredito que a fotografia documental tem esse poder: não apenas mostrar, mas fazer sentir e questionar.
Ao mesmo tempo, este reconhecimento traz responsabilidade. Obriga-me a continuar a procurar novas narrativas, a aprofundar o meu olhar e a desenvolver trabalhos que tenham um impacto real. Mais do que um ponto de chegada, é um incentivo para continuar a contribuir, de forma honesta e sensível, para uma maior consciência coletiva.
O que acha que foi valorizado no seu trabalho e que impressionou o júri?
É sempre difícil perceber exatamente o que pesa na decisão de um júri — há uma componente inevitavelmente subjetiva. Mas, no meu caso, acredito que o que foi realmente valorizado não foi apenas a escolha de temas menos mediáticos, mas a forma como me aproximo deles. Não procuro o “menos visto” só porque é diferente. Procuro histórias que me permitam construir uma narrativa com profundidade, proximidade e intenção. Há muito trabalho fora do mainstream que não tem impacto nenhum, por isso, para mim, a diferença está no olhar, na forma como me envolvo com as pessoas e no tempo que dedico a compreender o que estou a fotografar.
As três fotografias que apresentei refletem exatamente isso, consistência no discurso, uma linguagem visual clara e uma preocupação em ir além do imediato. Não são apenas momentos captados, são fragmentos de histórias que pedem ao espectador para parar, olhar com mais atenção e questionar.
Qual foi a maior dificuldade que encontrou quando fotografou o trabalho agora premiado?
A maior dificuldade não foi apenas técnica ou logística, embora fotografar em contextos como São Tomé e Príncipe ou em Moçambique implique sempre desafios de coordenação, adaptação e imprevisibilidade. A maior exigência foi manter um equilíbrio constante entre contar uma história impactante e garantir a dignidade das pessoas fotografadas.
Duas das imagens foram feitas em São Tomé e Príncipe, durante um trabalho com a ONGD HELPO, cujo objetivo era sensibilizar para o apadrinhamento de crianças. Num dos momentos, chovia torrencialmente e as crianças brincavam à chuva, acabando depois por se abrigar debaixo de um telheiro, onde continuavam a brincar bebendo a água da chuva. Era uma cena muito forte visualmente, mas exigia cuidado para não cair numa leitura simplista ou exploratória.
Noutra fotografia, numa sala de aula, um menino segura o irmão ao colo. No fundo da sala, havia uma parede pintada com desenhos, entre eles um astronauta e estrelas, quase como um reflexo silencioso dos sonhos e possibilidades daquelas crianças. Mais uma vez, o desafio foi traduzir essa camada simbólica sem forçar a narrativa.

A terceira imagem foi captada em Pemba, Moçambique, onde várias mulheres, durante a maré baixa, recolhem algas e bivalves. É um trabalho fisicamente exigente e pouco visível, e fotografá-lo implicou ganhar proximidade e confiança num contexto cultural diferente. No fundo, fotografar nestes contextos obriga a muito mais do que técnica, exige respeito, humildade e uma consciência constante do impacto que as imagens podem ter. A dificuldade maior está precisamente aí, em conseguir contar histórias com verdade, sem nunca retirar dignidade a quem está à frente da câmera.
