Conta-me como foi o 25 de abril

Revolução dos cravos de 25 de Abril de 1974 – Chaimite no Largo do Carmo, soldados na Baixa de Lisboa. FOTO: DR

Conta-me como foi o 25 de abril

O 24 de Abril de 1974 foi o último dia da ditadura.

A Guerra Colonial tinha começado em 1961, e opunha o Exército português aos guerrilheiros que lutavam pela independência dos territórios africanos que Portugal na altura governava: Angola, Moçambique e Guiné.

O governo chamava a esses territórios «províncias ultramarinas» (porque estavam para além do mar) e afirmava que faziam parte de Portugal da mesma forma que o Minho ou o Algarve. Na verdade eram colónias, ou seja, países com populações e línguas próprias que no passado tinham sido conquistados e ocupados pelos portugueses.

Muitos países europeus tinham tido colónias em África, mas em 1973 ou 1974 essas colónias já se tinham tornado países independentes quer dizer, já não dependiam das metrópoles, que era como se chamava aos países colonizadores.

Mas o governo português da altura teimava em manter a posse das colónias, e por isso enviava para a guerra todos os jovens. O serviço militar a tropa, como se costuma dizer durava então quatro anos, os primeiros dois passados na «metrópole», em instrução e os dois últimos no «ultramar», em combate.

Muitos jovens morriam nos combates em África. Durante os 13 anos que durou a guerra perderam a vida quase 9 mil e uns 30 mil ficaram feridos ou estropiados. Quase todas as famílias estavam de luto, pois tinham pelo menos um morto na guerra.

Em 1973, Portugal tinha 150 mil homens a combater. Muitos dos sobreviventes, depois de regressarem, mostravam dificuldade em integrarem-se na vida civil e eram frequentes as doenças psiquiátricas provocadas pela terrível experiência por que tinham passado.

Além disso, Portugal (que era, como agora, um país pobre) dirigia para as despesas da guerra cerca de metade do dinheiro que gastava. Portanto, quase não havia obras públicas; construíam-se poucas estradas, pontes, escolas ou hospitais.

A Guerra Colonial nunca poderia ser ganha pelos portugueses, pois o seu combate era contra a própria História. Quase toda a África era já independente.

Nesse tempo não se podia criticar o governo, mas como a guerra se arrastava, os mortos eram já muitos e as despesas cresciam cada vez mais, as pessoas passaram a estar fartas daquilo tudo. A certa altura, os militares começaram a ser apontados como os culpados por a guerra se arrastar.

Ora, como eles sabiam melhor do que ninguém que uma guerra daquelas nunca poderia ser ganha, resolveram derrubar o governo pela força. Fazer o que se chama um golpe de Estado. Para isso fundaram o Movimento das Forças Armadas (MFA).

O que aconteceu no Dia da Revolução

O dia escolhido para a acção foi 25 de Abril de 1974. De madrugada, militares do MFA ocuparam os estúdios do Rádio Clube Português e, através da rádio, explicaram à população que pretendiam que o País fosse de novo uma democracia, com eleições e liberdades de toda a ordem. E punham no ar músicas de que a ditadura não gostava, como Grândola Vila Morena, de José Afonso.

Largo do Carmo, em Lisboa, no dia 25 de Abril

Ao mesmo tempo, uma coluna militar com tanques, comandada pelo capitão Salgueiro Maia, saiu da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, e marchou para Lisboa. Na capital, tomou posições junto dos ministérios e depois cercou o quartel da GNR do Carmo, onde se tinha refugiado Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar à frente da ditadura.

Durante o dia, a população de Lisboa foi-se juntando aos militares. E o que era um golpe de Estado transformou-se numa verdadeira revolução.

A certa altura, uma vendedora de flores começou a distribuir cravos. Os soldados enfiavam o pé do seu cravo no cano da espingarda e os civis punham a flor ao peito. Por isso se falava de Revolução dos Cravos.

Ao fim da tarde, Marcelo Caetano rendeu-se e entregou o poder ao general Spínola, que, embora não pertencesse ao MFA, não pensava da mesma maneira que o governo acerca das colónias.

Um ano depois, a 25 de Abril de 1975, os portugueses votaram pela primeira vez em liberdade desde há muitas décadas.

Militares da Liberdade

Salgueiro Maia

Além do capitão Salgueiro Maia, que comandou a coluna de blindados saída de Santarém, outros militares desempenharam papéis muito importantes na preparação do 25 de Abril. O major Otelo Saraiva de Carvalho foi o comandante operacional, ou seja, dirigiu as operações todas a partir do quartel da Pontinha, junto de Lisboa.

Mas quem tinha as ideias mais claras sobre a necessidade de democratizar o País era o major Melo Antunes. Outros elementos muito importantes do MFA neste período foram o capitão Vasco Lourenço e o major Vítor Alves. Spínola veio a tornar-se Presidente da República, mas alguns meses depois demitiu-se por não concordar com a entrega das colónias aos seus habitantes. O que ele queria era constituir uma federação da «metrópole» com elas. O Presidente passaria então a ser o general Costa Gomes.

O que mudou com a Revolução dos Cravos

Muitas coisas mudaram. As que indicamos a seguir são apenas algumas das mudanças mais importantes

ANTES DEPOIS
Só havia um partido político, a Acção Nacional Popular, que apoiava o governoPassou a haver muitos partidos políticos
Não havia eleições livresCada um pode votar no partido que quiser
As mulheres só podiam votar se tivessem concluído o curso secundárioToda a gente pode votar
As mulheres não podiam viajar sozinhas para fora do País sem autorização escrita do marido Mulheres e homens têm os mesmos direitos
Havia uma polícia política, com milhares de informadores em toda a parte, que escutava praticamente todas as conversas. As pessoas que tinham opiniões contrárias ao Governo eram presas Não existe polícia política e passou a haver liberdade de opinião
As pessoas casadas pela Igreja não se podiam divorciar
O divórcio estendeu-se a toda a população
Cada patrão pagava o que queria aos seus trabalhadores
Passou a haver um salário mínimo nacional

As notícias só podiam sair nos jornais depois de terem sido lidas e autorizadas pelos Serviços de Censura
A Imprensa é livre
Os jovens passavam quatro anos da tropa, dois dos quais na guerra

Acabou a Guerra Colonial. Uns anos mais tarde, o serviço militar deixou mesmo de ser obrigatório

Agora que leste este artigo, podes tentar fazer um quizz sobre o 25 de Abril! Carrega aqui.

Sabes que houve uma espécie de ‘ensaio geral’ do 25 de Abril que correu mal?
Lê aqui sobre o Golpe das Caldas.

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