Para a maior parte dos grandes museus e instituições culturais, o mês de fevereiro assinala o momento em que se começam a inaugurar as primeiras exposições do ano. Porém, importa não esquecer que nem só de museus vive o tecido expositivo nacional.
As galerias de arte têm vindo a desempenhar um papel determinante na apresentação do trabalho tanto de artistas com uma longa carreira como de artistas emergentes, bem como o diálogo entre ambos. Prova disso são, por exemplo, as duas exposições que, até aos primeiros dias de março, encontram-se patentes na Galeria Francisco Fino e na Kubikgallery Lisboa.
Ressuscitar a arte perdida de mentir
Fundada há 13 anos, e com um portefólio do qual fazem parte nomes como Gabriel Abrantes, João Penalva ou Vasco Araújo, a Galeria Francisco Fino apresenta agora, até dia 8 de março, Holbein Syndrome, uma exposição coletiva dedicada ao trabalho das jovens artistas Joana Coelho, Inês Mendes Leal, Maria Máximo e Inês Raposo, com curadoria de Francisca Portugal.
A mostra vai buscar o nome a Hans Holbein, pintor renascentista imortalizado por inserir uma perturbadora vanitas no seu The Ambassadors, acrescentando camadas de leitura ao que seria apenas um retrato oficial.
A ideia era que, inspiradas por este gesto, as artistas criassem obras capazes de interrogar “os limites da ilusão e da mentira, fazendo uso de perceções e de truques de vocabulário”, explica a curadora.
Em Holbein Syndrome, a ilusão toma formas variadas. Pode ser o Cavalo de Tróia de Maria Máximo, que é completamente transparente, mas também a pintura a óleo de Inês Raposo, que mimetiza uma parede de madeira, as composições em grafite de Joana Coelho, nas quais o desenho nasce do que se apaga da folha de papel, ou ainda a instalação de Inês Mendes Leal, onde o ribombar de trovões, apesar de parecer real, é uma imitação desse mesmo som feita por uma bateria.

Em suma, Francisca Portugal desafiou as artistas a “ressuscitar a arte perdida de mentir”, como diria Oscar Wilde no revolucionário O Declínio da Mentira, fazendo de Holbein Syndrome um espaço onde, inevitavelmente, ecoam algumas das mais importantes ideias da teoria estética do autor de O Retrato de Dorian Gray.
Isto é, “a arte nunca exprime outra coisa que não seja ela própria”, devendo por isso existir livre do contexto histórico, da ditadura do realismo e com permissão para continuar a criar “mentiras” que despertem na vida a vontade e a necessidade de imitá-la.
Uma ode ao Tempo
Já a portuense Kubikgallery, após ter aberto também na capital, em setembro de 2024, com uma exposição que colocava em diálogo artistas portugueses e brasileiros, propõe agora, sempre no espaço lisboeta, um diálogo inter-geracional.
Até 1 de março, a galeria apresenta YEPSEN(S), termo inglês medieval que designa a medida de volume equivalente ao que cabe dentro das mãos quando colocadas em concha, com obras de Pedro Tudela [1962] e Sérgio Fernandes [1985].
“Há uma seleção das obras mais recentes dos dois artistas, mas não é uma seleção curatorial. É algo mais próximo de um ponto de situação de cada um deles, daquilo que estão a viver neste momento”, explica João Azinheiro, fundador da Kubikgallery.

Apesar de não haver curadoria, o galerista aponta “uma tentativa de se falar sobre o tempo”. A referência mais evidente será a obra TEMPO, de Tudela, na qual as letras da palavra surgem impressas em cinco bandeiras balneares cuja cor foi comida pelo sol, ou o tempo meteorológico, e as fibras de tecido desfizeram-se com a passagem dos anos, época balnear após época balnear, um tempo muito bem definido dentro dos nossos calendários.
Talvez devido à extensa investigação sonora que pauta a sua prática artística, Pedro Tudela remete-nos depois para uma outra conceção de tempo – o musical – seja através de instalações como % (static), constituída por dois discos de vinil que reproduzem o som do momento em que a agulha está prestes a poisar, ou de desenhos onde se intuem as linhas de uma pauta musical, a qual parece ganhar vida e movimento na escultura ~~~~~.
Os movimentos, ritmos e sons sugeridos pelas obras de Tudela definem uma espécie de partitura invisível, lida por Sérgio Fernandes e interpretada em diversas pinturas a óleo sobre tela.
Como se de numa verdadeira sonata se tratasse, Heartbeat surge qual allegro feito da mistura pujante de encarnados, pretos e castanhos, dando lugar, depois, aos movimentos lentos de Adágio, tela de dimensões contidas e exemplo de um jogo de luz e sombra semelhante ao de certas cenas noturnas de Rambrandt. Triunfante, enérgico, ritmado, o scherzo irrompe, por fim, sob a forma de explosões de preto sobre amarelo, em il n’a pas de mouvement sans rythme.
A conversa, ou peça a quatro mãos, como lhe quisermos chamar, propaga-se pelas paredes da galeria e, quem sabe, pelo tempo que ainda está para vir.



