Para a maior parte dos grandes museus e instituições culturais, o mês de fevereiro assinala o momento em que se começam a inaugurar as primeiras exposições do ano. Porém, importa não esquecer que nem só de museus vive o tecido expositivo nacional.

As galerias de arte têm vindo a desempenhar um papel determinante na apresentação do trabalho tanto de artistas com uma longa carreira como de artistas emergentes, bem como o diálogo entre ambos. Prova disso são, por exemplo, as duas exposições que, até aos primeiros dias de março, encontram-se patentes na Galeria Francisco Fino e na Kubikgallery Lisboa.

Ressuscitar a arte perdida de mentir

Fundada há 13 anos, e com um portefólio do qual fazem parte nomes como Gabriel Abrantes, João Penalva ou Vasco Araújo, a Galeria Francisco Fino apresenta agora, até dia 8 de março, Holbein Syndrome, uma exposição coletiva dedicada ao trabalho das jovens artistas Joana Coelho, Inês Mendes Leal, Maria Máximo e Inês Raposo, com curadoria de Francisca Portugal.

A mostra vai buscar o nome a Hans Holbein, pintor renascentista imortalizado por inserir uma perturbadora vanitas no seu The Ambassadors, acrescentando camadas de leitura ao que seria apenas um retrato oficial.

A ideia era que, inspiradas por este gesto, as artistas criassem obras capazes de interrogar “os limites da ilusão e da mentira, fazendo uso de perceções e de truques de vocabulário”, explica a curadora.

Em Holbein Syndrome, a ilusão toma formas variadas. Pode ser o Cavalo de Tróia de Maria Máximo, que é completamente transparente, mas também a pintura a óleo de Inês Raposo, que mimetiza uma parede de madeira, as composições em grafite de Joana Coelho, nas quais o desenho nasce do que se apaga da folha de papel, ou ainda a instalação de Inês Mendes Leal, onde o ribombar de trovões, apesar de parecer real, é uma imitação desse mesmo som feita por uma bateria.

Em Forecast, instalação de Inês Mendes Leal, o ribombar de trovões, apesar de parecer real, é uma imitação desse mesmo som feita por uma bateria

Em suma, Francisca Portugal desafiou as artistas a “ressuscitar a arte perdida de mentir”, como diria Oscar Wilde no revolucionário O Declínio da Mentira, fazendo de Holbein Syndrome um espaço onde, inevitavelmente, ecoam algumas das mais importantes ideias da teoria estética do autor de O Retrato de Dorian Gray.

Isto é, “a arte nunca exprime outra coisa que não seja ela própria”, devendo por isso existir livre do contexto histórico, da ditadura do realismo e com permissão para continuar a criar “mentiras” que despertem na vida a vontade e a necessidade de imitá-la.

Uma ode ao Tempo

Já a portuense Kubikgallery, após ter aberto também na capital, em setembro de 2024, com uma exposição que colocava em diálogo artistas portugueses e brasileiros, propõe agora, sempre no espaço lisboeta, um diálogo inter-geracional.

Até 1 de março, a galeria apresenta YEPSEN(S), termo inglês medieval que designa a medida de volume equivalente ao que cabe dentro das mãos quando colocadas em concha, com obras de Pedro Tudela [1962] e Sérgio Fernandes [1985].

“Há uma seleção das obras mais recentes dos dois artistas, mas não é uma seleção curatorial. É algo mais próximo de um ponto de situação de cada um deles, daquilo que estão a viver neste momento”, explica João Azinheiro, fundador da Kubikgallery.

YEPSEN(S) reflete sobre diversas ideias de tempo

Apesar de não haver curadoria, o galerista aponta “uma tentativa de se falar sobre o tempo”. A referência mais evidente será a obra TEMPO, de Tudela, na qual as letras da palavra surgem impressas em cinco bandeiras balneares cuja cor foi comida pelo sol, ou o tempo meteorológico, e as fibras de tecido desfizeram-se com a passagem dos anos, época balnear após época balnear, um tempo muito bem definido dentro dos nossos calendários.

Talvez devido à extensa investigação sonora que pauta a sua prática artística, Pedro Tudela remete-nos depois para uma outra conceção de tempo – o musical – seja através de instalações como % (static), constituída por dois discos de vinil que reproduzem o som do momento em que a agulha está prestes a poisar, ou de desenhos onde se intuem as linhas de uma pauta musical, a qual parece ganhar vida e movimento na escultura ~~~~~.

Os movimentos, ritmos e sons sugeridos pelas obras de Tudela definem uma espécie de partitura invisível, lida por Sérgio Fernandes e interpretada em diversas pinturas a óleo sobre tela.

Como se de numa verdadeira sonata se tratasse, Heartbeat surge qual allegro feito da mistura pujante de encarnados, pretos e castanhos, dando lugar, depois, aos movimentos lentos de Adágio, tela de dimensões contidas e exemplo de um jogo de luz e sombra semelhante ao de certas cenas noturnas de Rambrandt. Triunfante, enérgico, ritmado, o scherzo irrompe, por fim, sob a forma de explosões de preto sobre amarelo, em il n’a pas de mouvement sans rythme.

A conversa, ou peça a quatro mãos, como lhe quisermos chamar, propaga-se pelas paredes da galeria e, quem sabe, pelo tempo que ainda está para vir.

E se o teatro fosse capaz de vencer a morte? Em No Yogurt for the Dead, que se estreia na Culturgest a 19 de fevereiro, e a 27, no Theatro Circo, em Braga, Tiago Rodrigues, ator, encenador, dramaturgo e produtor português, atualmente Diretor do Festival d’Avignon, em França, tenta alcançar esta vitória.

A peça “traz de volta à vida” o jornalista Rogério Rodrigues, pai do encenador, baseando-se no último episódio da sua vida. Tiago imaginou as palavras que, apesar de já não ter conseguido, o pai gostaria de ter escrito nos seus últimos dias, passados num hospital, criando um relato entre a realidade e a ficção, o jornalismo e a poesia, daquilo que é a experiência da doença terminal.

Tiago imaginou as palavras que, apesar de já não ter conseguido, o pai gostaria de ter escrito nos seus últimos dias, passados num hospital

Com uma carreira de 40 anos, ao dar entrada no hospital, pouco tempo antes de morrer, Rogério Rodrigues pediu ao filho que lhe levasse um caderno, pois queria documentar “a sua experiência desumanizante naquele lugar, bem como as histórias dos outros pacientes, médicos e visitas”.

“O jornalismo era a sua forma de morrer”, contou o encenador numa entrevista ao NTGent, co-produtor do espetáculo juntamente com a Culturgest.

Porém, após a morte do pai, ao abrir o caderno, Tiago encontrou apenas o título No Yogurt for the Dead seguido de algumas linhas, pontos e rabiscos impercetíveis.

Misturando factos e ficção, deu forma a um espetáculo que defende ser, mais do que um tributo ao pai, uma tentativa de “encontrar conforto, humanidade e até alegria no ato de recordar aqueles que amamos”.

Num cenário onírico, entre a realidade e a ficção

O cenário assemelha o de um sonho, não demasiado abstrato, não demasiado concreto. Duas camas de hospital, que têm exatamente o aspeto que se espera de uma cama de hospital, encontram-se num vale que tanto poderia ser uma cratera lunar como a dobra de um lençol feito para alguma criatura gigante.

Deitado numa das camas, Rogério passa os dias entre as trivialidades hospitalares e as grandes questões filosóficas que assolam, com igual intensidade, quem está destinado a uma morte a curto prazo. O ritmo é marcado pelas conversas, discussões e recordações trocadas com os médicos, os filhos, o vizinho de cama e “a pior enfermeira do mundo”.

A narrativa corre para frente e para trás, entre passado e presente, até nos esquecermos o que é facto e o que é ficção, o que são recordações dos filhos e o que são recordações da “pior enfermeira do mundo”, o que são histórias contadas pelo próprio Rogério e o que são histórias que os que o conheceram contram sobre ele.

A peça marca o regresso de Tiago Rodrigues à Culturgest, quase um ano após ter feito subir ao mesmo palco Na Medida do Impossível, espetáculo transformado agora num livro editado pela Tinta da China, que será lançado a 20 de fevereiro, às 18h30, no Auditório 2 da Culturgest, com a presença do autor.

Culturgest > R. do Arco do Cego, 50, Lisboa > 19-21 fev, qua-sex 21h, 22 fev, sáb 15h30 e 19h, 23 fev, dom 17h > €20 // Theatro Circo > Av. da Liberdade, 697, Braga > 27-28 fev, qui-sex 21h30 > €15

Palavras-chave:

Aprendi a ler sozinha, comigo mesma, menina magrinha, mãos de fuso no tecer das páginas dos livros indevidos para a pouca idade, que às escondidas, subindo as escadas da biblioteca do meu pai, tirava das estantes, para depois, aninhada no chão, mal soletrando, tentar seguir linha após linha, a querer desvendar histórias a maior parte das vezes para mim sem sentindo, mas das quais, sem saber porquê, ficava suspensa.

“Palavras de manso linho”, ouvia ao longe cantar minha avó, distraindo-se de mim, afinal mais secreta do que eu escondida na penumbra do escritório, ela com os seus segredos de sufragista clandestina, comigo apenas por testemunha calada, sem perceber o significado das reuniões a que me levava: mãos dadas as duas, estugando o passo, vento descendo a querer desfazer os laços das tranças atiradas para trás das costas do meu casaco de fazenda inglesa azul escura com golinha de veludo. Aragem a tornar-se mais forte na subida, a fazer desequilibrar o chapéu de feltro preto mal preso por dois pregos de minúsculas pedrarias negras nos seus cabelos muito brancos.

“Vá Teresinha, que chegamos atrasadas” – apressava-me, baixinha e delgada, olhar de violeta aceso, ao empurrar com os dedos afuselados, parecendo feitos de papel de seda, o portão de ferro forjado da Casa-Jardim, onde se reunia com fascinantes mulheres no início de algumas tardes.

E apesar de curiosa e atenta, de imediato me resguardava na sua anca a defender-me, cara escondida no seu fato de seda com cheiro a alfa- zema. Mas logo elas me disputavam, pegando-me por baixo dos braços, a sentarem-me nos colos macios e perfumados ou nos joelhos luzidios das meias de seda, entoando com riso alto nas vozes ora estridentes ora suaves, “Ó menina, ó menina dos olhos azuis!”

E eu, envergonhada, de imediato os fechava, sentindo-me um pouco tonta e perdida, mas sem susto; enquanto elas continuavam a passar-me de umas para as outras, até que por fim a minha avó me chamava para si, indagando: “Não falas à Maria?”

E quando, anos mais tarde, a Maria Lamas me afirmou “Andei consigo ao colo”, de imediato me lembrei do seu então jovem olhar entornado de mel, e do leve cheiro a pelica das luvas tiradas com vagares de cuidado, para me dar os rebuçados guardados para mim nos seus bolsos.

Era a altura de abrirem as pequenas caixas de cartolina fraca, os embrulhos onde se acomodavam os bolos que algumas traziam para o lanche, e o momento de eu adivinhar qual era o livro da colecção Joaninha que a minha avó me havia comprado.

Em seguida esquecia-me pela berma daquele manso rio, dividida entre a margem maravilhosa da escrita no seu deslindar palavra a palavra e a margem de onde observava subir a maré empolgada das vozes femininas, feita com a espuma do sonho, enquanto elas iam arquitetando o futuro.

Esquecia-me pela berma daquele manso rio, dividida entre a margem maravilhosa da escrita no seu deslindar palavra a palavra e a margem de onde observava subir a maré empolgada das vozes femininas, feita com a espuma do sonho, enquanto elas iam arquitetando o futuro

Se no entanto interpelavam minha avó – “Porquê Camila? Explica!” –, levantava o rosto inclinado para olhá-la, tão delicada e segura no responder, serenidade tranquila e lisa, mas igualmente de conforto e agasalho. Depois, voltava a mergulhar naquele que sempre foi o meu universo, dependente desse vício mágico.

“A menina já lê?” – admiravam-se ao princípio, e eu hesitava na resposta, não destrinçando entre aquilo que lia e aquilo que inventava, numa mistura de prazer infinito im- possível de explicar aos outros.

“Palavras de manso linho”, ouvia cantar à distância minha avó, som abafado pelas carpetes das salas, os tapetes dos quartos, as passadeiras do corredor pequeno e do corredor comprido, ignorando ela assim a minha ausência, enquanto eu espiava no escritório do meu pai, para onde me escapava quando era possível, a deleitar-me quer com o cheiro dos livros, mistura almiscarada de papel e de pele das encadernações, quer com a descoberta dos títulos das lomba- das, instável no cimo da escada de madeira encerada a escolher um deles, para ir enroscar-me no sofá de veludo perto da janela entreaberta, passando e repassando pelo sentido das frases, e assim aprendendo a lê-las, alinhando-as umas a seguir às outras, através da história.

Volumes grossos a custo retidos nas mãos pequenas, dificilmente a mantê-los direitos, apoiados nos joelhos subidos, descalça, pernas encolhidas na maciez do assento. E ainda sei alguns dos seus títulos, nessa altura para mim tão difíceis: Uma Família Inglesa, Olhai os Lírios do Campo, Dom Quixote de la Mancha, A Filha do Regicida, A Cidade e as Serras.

E eu ali me demorava as horas que me olvidavam.

Continuando neste momento a ver surgir minha mãe por entre os cortinados que tapavam a porta, vestido de cetim a moldar-lhe as coxas altas, pele de uma transparência de cristal de rocha, e de tão loura – luz.

A empurrar-me com o tom áspero da sua permanente insatisfação e ressentimento: “Nunca largas os livros? Vai para o quintal brincar com as tuas irmãs rapariga, vai brincar!” Mas ficava satisfeita quando era a minha avó a reclamar-me, num murmúrio baixo, jeito cúmplice a aproximar-nos mais uma da outra – “Depressa Teresinha, é dia de irmos” –, e eu já sabia aonde, coração aos pulos, alvoroçada.

Ficava satisfeita quando era a minha avó a reclamar-me, num murmúrio baixo, jeito cúmplice a aproximar-nos mais uma da outra – “Depressa Teresinha, é dia de irmos” –, e eu já sabia aonde, coração aos pulos, alvoroçada

E lá seguíamos de eléctrico, misteriosas, como nos filmes do Éden ou do Politeama: heroínas enigmáticas a despistarmos quem nos seguia – esmerava-me no imaginar – e quando regressávamos a casa, a horas de roçar o crepúsculo, não me lembro de alguma vez a minha avó ter esclarecido o meu pai, seu filho, sobre o lugar de onde vínhamos. Deixando nebuloso o sítio, a morada, e todos os nomes daquelas surpreendentes amigas.

“Anda, anda, que não começam sem termos chegado”, entusiasmava-me ao transformar-me numa delas, e eu, passo miúdo, quase corria a seu lado, pulso fininho agarrado pela sua mão seca, tépida e terna, num fechar de pulseira.

E desse modo, asinhas, lá nos íamos esgueirando pelo Verão ou pelo Inverno, bolos de creme e baunilha num pacote atado com laço azul celeste, oculto sob uma das abas-asas da sua capa escura, erguendo-se à cadência transparente do andar alado, a reforçar-lhe o ar de fada que na realidade era.

Não me lembro de alguma vez a minha avó ter esclarecido o meu pai, seu filho, sobre o lugar de onde vínhamos. Deixando nebuloso o sítio, a morada, e todos os nomes daquelas surpreendentes amigas […] “Anda, anda, que não começam sem termos chegado”, entusiasmava-me ao transformar-me numa delas, e eu, passo miúdo, quase corria a seu lado, pulso fininho agarrado pela sua mão seca, tépida e terna

E quando nos atrasávamos demais, mal abríamos o portão e o sininho pendurado do lado de dentro tocava num som metálico e alegre, logo elas corriam ao nosso encontro, por entre os jacarandás, as rosas rubras e a magnólia do jardim, reclamando aliviadas: “Ainda bem que chegaram, vêm tão tarde, demoraram tanto”, falando ao mesmo tempo e fazendo-me festas.

Ainda gosto de relembrar aquela agitação, aquela espécie de esvoaçar pela casa, numa confusão harmoniosa de perfumes misturados: gardénia e madressilva, de água de rosas, de colónia, de pó-de-arroz e rouge, onde me perdia escutando o roçagar das écharpes de chiffon e das saias de tafetá escarlate das mais novas, lábios carmim, unhas compridas pintadas de vermelho e cabelos puxados ao alto, à refugiada.

“Porque não trazes a tua nora?”, indagavam admiradas, e a minha avó disfarçava desviando a conversa, sem querer confessar estarmos ambas ali às escondidas, nem o facto de a minha mãe preferir por certo e por hábito ir tomar chá às pastelarias da Baixa, indiferente ao que acontecia no mundo.

E por- que quase todas entendiam o súbito mal-estar, passavam à frente, a iniciarem outra daquelas discussões compridas e melodiosas aos meus ouvidos, apesar de permanecerem difusas nas recordações guardadas.

Nunca porém as reuniões começavam antes de me ser entregue o livro dessa tarde: depois da coleção Joaninha, a Manecas, e meses mais tarde Os Desastres de Sofia e As Meninas Exemplares, da Biblioteca das Raparigas. Um dia deram- me As Pupilas do Senhor Reitor, reclamando outra, condoída: “Coitadinha da menina, não vai perceber nada”.

Mas ao lê-lo, pressenti um dissonante travo adulto, a sobressaltar-me. Por isso, jamais desligo esses inesperados, ousa- dos e arriscados encontros feministas, no auge do Estado Novo, ao singular fusionamento dos universos moralistas da Condessa de Ségur e do Júlio Dinis.

Em perfeita sintonia.

Pelo avesso um do outro.

In JL 918, de 7 de dezembro de 2005

A terra congrega forças, empurra a massa oceânica, explode uma, duas, dezenas de vezes, em chicotadas de magma contra a água que a tenta apagar. De cada vez que tal combate ocorre, não importa o século, a latitude ou a longitude, à laia de cicatriz, nasce uma ilha.

Um lugar feito de fogo e de sal, por vezes monstro, por vezes ninfa, que ainda sem o saber será porto de abrigo de aves migratórias, terreno fértil de mitos e lendas e sonho a arder na alma de todos os  aventureiros.

Mas a que soa uma ilha? Que cor tem? Quem a habita? Quem a visita? Como respira? Que seres a animam e que misteriosas pragas podem atacá-la?

Ciguatera, exposição da compositora e artista visual Diana Policarpo, com curadoria de Chus Martínez, que se inaugura no Espaço Projeto do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM) a 22 de fevereiro, procura conduzir o público até algumas destas perguntas, fazendo-o refletir sem nunca oferecer respostas fechadas, uma vez que a artista acredita profundamente serem as questões “aquilo que realmente dá às pessoas liberdade de interpretação”.

A mostra é uma espécie de mapa a quatro dimensões para uma aventura contemplativa num oceano que, ao invés de água, é feito de ideias, mitos, lendas, descobertas científicas, som e imagem.

Ao som de Breath Movement 1,2 & 3, uma instalação de 10 canais de áudio em que cada coluna tem um som diferente, somos convidados a andar à deriva entre duas enormes esculturas em forma de rochas marinhas.

A paisagem sonora, que envolve a exposição, incorpora sons da natureza e de instrumentos como a flauta, “semelhantes ao vento e à voz”, com o objetivo de enfatizar o ambiente encantado e misterioso das Ilhas Selvagens

Embutidos nas suas paredes, completamente esculpidas à mão, encontram-se diversos ecrãs nos quais são projetados sete vídeos com imagens estáticas e em movimento, em diálogo com o som da paisagem sonora que envolve toda a exposição.

“Breath Movement 1,2 & 3 é uma composição com um movimento circular, onde a ideia de sopro, de respirações e de vento, como componentes que se distribuem muito pelo espaço, está bastante presente”, explica a artista.

Fruto de uma colaboração com Odete, colaboradora e amiga de longa data de Diana Policarpo, a paisagem sonora incorpora sons da natureza e de instrumentos como a flauta, “semelhantes ao vento e à voz”, com o objetivo de enfatizar o ambiente encantado e misterioso das Ilhas Selvagens, ponto de partida para o desenvolvimento de Ciguatera.

Co-produzida pelo CAM e pela TBA21-Academy [centro de investigação da Fundação TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary], em parceria com o Instituto Gulbenkian Ciência, a instalação que chega agora a Lisboa foi apresentada pela primeira vez na Chiesa di San Lorenzo, no âmbito da Bienal de Veneza de 2022.

Traduzir a ciência sob a forma de arte e poesia

Com nome de doença, Ciguatera nasceu de uma viagem de investigação que Diana fez às Ilhas Selvagens, ao abrigo da comissão da TBA21-Academy e do CAM.

Por ser um dos lugares do mundo onde a contaminação por ciguatoxinas é das mais elevadas, desde a Idade Média que há relatos de as populações litorais deste sub-arquipélago madeirense serem afetadas por uma doença sem cura, causada pela ingestão de peixe contaminado com certos tipos de microalgas marinhas.

Ainda que o processo criativo tenha nascido de uma premissa científica, da convivência, ao longo de três semanas, com cientistas e astrobiólogos, bem como do profundo interesse da artista pelas “questões de saúde e de um ecossistema que só há 50 anos é uma reserva natural”, o resultado final é profundamente poético.

Ao procurar respostas que a ajudassem a entender os mistérios do lugar onde se encontrava, a artista foi-se deparando antes, sempre com mais e mais perguntas.

De interrogação em interrogação, entregou-se a um intrincado rizoma de histórias, lendas, factos científicos, dados geológicos, imagens e sons, materializando-o na instalação onde somos agora convidados a mergulhar.

Nela, a possibilidade de esbarramos com referências a treinos que se fizeram com astronautas nas Ilhas Selvagens, a fim de prepará-los para uma hipotética ida a Marte, é tão alta como a de encontrarmos uma fábula, imaginada a partir de dezenas de lendas ancestrais, na qual uma cientista com ciguatera manifesta um dos principais sintomas, as alucinações, acreditando ter sido curada por misteriosos seres marinhos, numa gruta subaquática.

Nos ecrãs, relatos medievais de ilhas que desapareciam quando queriam, convivem, lado a lado, com fotografias de cientistas a dissecarem peixes contaminados, um vídeo de uma ilha a falar de si na primeira pessoa e imagens das diversas espécies que a habitam.

No âmbito das histórias que aqui se contam, interessou-me muito trazer o aspeto da cura e do cuidado e mostrar a flora e a fauna, numa espécie de tentativa de levar o público a um lugar que não tem transporte ou um acesso

diana policarpo

“No âmbito das histórias que aqui se contam, interessou-me muito trazer o aspeto da cura e do cuidado e mostrar a flora e a fauna, numa espécie de tentativa de levar o público a um lugar que não tem transporte ou um acesso”, explica Policarpo.

Embutidos na rocha, soprados ao ouvido ou formulados num lugar invisível da nossa consciência, circulam assim todos os pensamentos, histórias, imagens e reflexões nascidos da jornada de uma amante de paisagens extremas, de botânica, geologia, música, arte, filosofia e, acima de tudo, de perguntas capazes de nos manterem a gravitar em torno dos mistérios da vida.

No limbo entre a ficção e a investigação científica, “com angústia ou alegria”, Ciguatera permite-nos “sonhar ilhas” à maneira de Deleuze. Que é “sonhar que nos separamos, ou que já estamos separados, longe dos continentes, que estamos sós ou perdidos – ou então é sonhar que partimos do zero, que nos recriamos, que recomeçamos”.

Palavras-chave:

“É a junção de todas as artes”, assegura Luís Diamantino, vereador da Cultura da Câmara da Póvoa de Varzim, que organiza o Correntes d’Escritas até ao próximo sábado, 22.

Na sua 26.ª edição, que celebra os 25 anos de existência do encontro de escritores, os convidados são desafiados a comentar uma pintura nas mesas em que participam, em vez do habitual verso ou frase retirada de romances. “Talvez o segredo do Correntes esteja precisamente nesta capacidade de fazer sempre o mesmo festival, mas com muitas novidades. E este anos teremos muitas”, acrescenta o autarca.

Será, portanto, uma edição para pintar a manta, para falar de pintura, mas também para abrir espaço às mais imprevistas intervenções, com licença para todos os desvios. As pinturas escolhidas a isso também convidam.

Começa com A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, que hoje, como ontem, continua a gerar polémica. E passa por Picasso, Dali, Frida Khalo, Paula Rego ou Júlio Pomar. “Serão intervenções certamente diferentes”, sugere Luís Diamantino, responsável pelo festival desde o início, tal como Manuela Ribeiro,  chefe da divisão de cultura da autarquia, coordenadora e grande dinamizadora do Correntes. “E um novo e diferenciado convide à leitura das obras destes autores”.

A presença da pintura nas mesas é também uma forma, lembra o vereador da autarquia, de salientar a importância que as artes plásticas já têm no Correntes, com parcerias com várias instituições, nomeadamente Serralves. “Este ano, vamos mostrar no Diana Bar a coleção de arte do Casino da Póvoa de Varzim, com curadoria de Tomás Carneiro, e integrada nas iniciativas do Museu Internacional de Arte Contemporânea que está a ser criado”.

Este ano, vamos mostrar no Diana Bar a coleção de arte do Casino da Póvoa de Varzim, com curadoria de Tomás Carneiro, e integrada nas iniciativas do Museu Internacional de Arte Contemporânea que está a ser criado

Luís Diamantino – Vereador da Cultura da Câmara da Póvoa de Varzim

Também haverá mostras de fotografia, de Alfredo Cunha, Daniel Mordzinski e Olga Santos, esta com fotografias de sapatos perdidos na praia. As artes plásticas também homenageiam Luísa Dacosta, na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, e Camilo Castelo Branco, nos 200 anos do seu nascimento.

No Museu Municipal recorda-se a ligação do escritor à cidade, em particular no veraneio e no jogo, e Paulo Sérgio BEJu recriará o seu universo nas suas obras feitas com a demora de quem recusa a pressa do tempo contemporâneo.

Vinte e cinco anos de livros

“É a exclamação mais recorrente quando me veem na rua – O Correntes está quase aí!”, diz-nos Luís Diamantino. “Para o autarca, este é um dos muitos sinais de como o encontro de escritores, passados 25 anos, está bem enraizado na cidade e na sua população, com os resultados à vista.

“O Cine-Teatro, onde decorre o Correntes, está sempre cheio, tal como as sessões que organizamos nas escolas e nas freguesias do concelho”, acrescenta. Percorrer todo o território da Póvoa de Varzim, com visitas a todas as freguesias, tem sido uma das grandes apostas da organização.

O Correntes Itinerantes passa este ano por Amorim, Argivai, Aguçadoura, Beiriz, Navais, Rates, Terroso, A Ver-o-Mar, Estrela, Laúndos e Baltasar. 

“A procura de novos público é fundamental”, sublinha o responsável pelo Correntes D’Escritas. “E esse trabalho também tem sido feito na promoção de iniciativas em torno da formação de professores e da tradução.”

A formação de professores é promovida em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares, o Centro de Formação de Professores da Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Com a sugestiva designação “O Encontro como Ponto de Partida, Talvez de Chegada em Escala de Pausa Curta”, tem curadoria Raquel Patriarca e oficinas orientadas por Amélia Muge, Margarida Vale de Gato, Ricardo Fonseca Mota e Natalia Porta-Lopez.

Em comum, a ideia de “encontro enquanto possibilidade, enquanto lugar de ligação numa corrente mais ampla de entendimento, o encontro de linguagens e de línguas, de culturas e de literaturas, de experiências e de gerações, de comunidades imigrantes e comunidades de acolhimento”.

Já o II Encontro de Tradução do Correntes decorre na Fundação Dr. Luís Rainha, com curadoria de Michael Kegler, que também modera as sessões, nos dias 20 e 21, com Alda Rodrigues, Carlos da Veiga Ferreira, Clara Capitão, Gisela Casimiro, Guilherme Pires, Harrie Lemmens, Inês Pedrosa, Margarida Vale de Gato, Michael Kegler, Nuno Quintas, Odile Kennel e Sara Veiga.

Este ano dedicado à poesia, o Prémio Literário Casino da Póvoa, o principal galardão do Correntes e no valor de 25 mil euros, tem como finalistas Aberto Todos os Dias, de João Luís Barreto Guimarães, Atravessar o Frio I, de Luísa Freire, Canina, de Andreia C. Faria, Choupos, de Adília Lopes, Emoção Artificial, de Jorge Gomes Miranda, Exercícios e Linguagens, de João Melo, Lições da Miragem, de Ricardo Gil Soeiro, Órbitas, de Paulo Tavares, Raio, de Eucanaã Ferraz, Sicília, de Bernardo Pinto de Almeida, e Uma Colheita de Silêncios, de Nuno Júdice.

A decisão caberá ao júri constituído por Ana Paula Tavares, João Gobern, Margarida Ferra, Maria de Lurdes Sampaio e Ricardo Marques.

“Vamos comemorar os 25 anos como sempre fazemos: com livros e leitores”, sugere Luís Diamantino. E como muitos motivos para fazer “na Póvoa a festa pela qual se espera todos os anos”.

Agenda de conversas

Não há Correntes sem muitas conversas, sempre no Cine-Teatro Garrett. Além das centrais, no grande auditório, o encontro tem vindo a promover outras, mais pequenas, normalmente com dois ou três convidados, este ano na sala de atos e na sala de ensaios. Como habitualmente, realiza-se ainda uma mesa, em Lisboa, no Instituto Cervantes.

Quarta-feira, 19 de fevereiro

Conferência de Abertura:Luís de Camões: conhecer não ter conhecimento”, por Hélder Macedo, apresentado por José Carlos de Vasconcelos.

Mesa 1: A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, com Álvaro Laborinho Lúcio, António Mota, Germano Almeida, Joana Bértholo, Patrícia Melo e José Carlos de Vasconcelos.  às 17 e 30. 

Quinta-feira, 20 de fevereiro

Mesa 2: O Grito, de Edvard Munch, com Afonso Cruz, Amélia Muge, João Tordo, José Alberto Postiga, Maria Francisca Gama, Marta Pérez-Carboneli e Margarida Pinto Correia, às 10.

Conversas Correntes: Homenagem a Maria Teresa Horta, com Inês Pedrosa e Patrícia Reis, às 12.

Mesa 3: A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, com Amália Bautista, Ana Paula Tavares, Inês Francisco Jacob, Rosa Alice Branco, Yolanda Castaño e Raquel Marinho, às 15.

Mesa 4: A Torre de Babel, de Pieter Bruegel, o Velho, com Ariana Harwicz, Ivo Machado, João Luís Barreto Guimarães, Margarida Ferra, Patrícia Portela e Manuel Alberto Valente.

Conversas Correntes: António Monegal e Luís Caetano, às 18.

Sexta-feira, 21 de fevereiro

Mesa 5: A Coluna Partida, de Frida Kahlo, com Adelino Albano Luís, Alexandre Vidal Porto, Carlos Quiroga, Gonçalo M. Tavares, Helena Vasconcelos, Maria Isaac e José Mário Silva, às 10.

Conversas Correntes: Amélia Muge e Minês Castanheira, às 12.

Mesa 6: De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?, de Paul Gauguin, com Bento Baloi, Luísa Sobral, Marta Bernardes, Possidónio Cachapa, Ricardo Fonseca Mota, Sandro William Junqueira e Uberto Stabile, às 15.

Mesa 7: O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymous Bosch, com Álvaro Curia, Ana Cristina Silva, David Machado, Joana Kabuki, Rafael Gallo, Rodrigo Calderón e Patrícia Portela, às 17 e 30.

Mesa 8: A Refeição do Menino, de Júlio Pomar, com Fernando Pinto do Amaral, Filipe Homem Fonseca, Francisco Mota Saraiva, Lara Moreno, Mempo Giardinelli, Nicolau Santos e Henrique Cayatte.

Sábado, 24 de fevereiro

Mesa 9: A Guerra, de Paula Rego, com Clara Pinto Correia, Jorge Valdés Díaz-Vélez, José Carlos Barros, Ondjaki, Pedro Teixeira Neves e João Gobern.

Mesa 10: Guernica, de Pablo Picasso, com Antonio Monegal, Ignácio de Loyola Brandão, Inês Pedrosa, Minês Castanheira, Onésimo Teotónio Almeida, Raquel Patriarca e Maria Flor Pedroso, às 15 e 30.

Segunda, 26 de fevereiro, no Instituto Cervantes, em Lisboa

Mesa 11: Saturno devorando o seu filho, de Francisco Goya, com Ana Cristina Silva, Cláudia Lucas Chéu, Mempo Giardinelli, Patrícia Portela, Rafael Gallo, Rodrigo Blanco Calderón e José Mário Silva, às 18.

Conheceram-se na escola de cinema, há mais de 30 anos, e têm vindo a trabalhar juntos. Hugo Vieira da Silva, que reside em Viena há décadas, tornou-se um nome destacado da realização em Portugal, com os prémios obtidos para filmes como Body Rice (2006), Swans (2011) e Posto Avançado do progresso (2015). Paulo MilHomens é um destacado montador, habituado a trabalhar com Sérgio Tréfaut e Fonseca e Costa, entre outros.

A meio deste projeto, Hugo Vieira da Silva adoeceu e viu-se impossibilitado de viajar para o Taiti. Entregou então a realização em campo a MilHomens. Diga-se que, anteriormente, MilHomens já tinha tido uma experiência de realização, quando terminou Axilas, adaptação de Rubem Fonseca, que Fonseca e Costa deixara inacabada.

Tal como Alex, em Os Amigos de Alex, ou Godot, em À Espera de Godot, Longe da Estrada tem uma personagem central fisicamente ausente, que é o próprio Gauguin, sendo que Victor Segalen, interpretado pelo francês Antoine de Foucault, serve-nos de guia pelo mapa não figurativo do mítico pintor.

Regressas à temática colonial de Posto Avançado de Progresso, mas num contexto completamente distinto, num filme totalmente falado em francês e filmado no Taiti. Como chegaste aqui?

Hugo Vieira da Silva: Quando estava a terminar o Posto Avançado, passou-me pelas mãos uma BD do Victor Segalen e interessou-me desde logo. A época é quase a mesma, o quadrante completamente diferente, mas foca-se também nas questões coloniais. E havia sobretudo a questão da arte. Interessou-me muito pensar a arte em contexto colonial.

Porquê?

HVS: Eu comecei por fazer documentários sobre artistas. E já nessa altura andava muito à volta da questão de como filmar a pintura, como fazer um filme sobre pintura. Portanto, quando me apareceu esta BD foi de encontro a isso e também ao colonialismo, que é um assunto que tenho abordado nos meus filmes, pois acho que é um tema constitutivo para Portugal.

Além do Gauguin o filme mostra-nos Segalen…

HVS: A BD levou-me a introduzir a personagem do Vítor Segalen e a ler os seus livros. Ele consegue colocar-se do lado de fora e analisar a questão da interculturalidade, pondo o exotismo em causa. Houve depois a ideia de extirpar o Gauguin do filme.

Hugo Vieira da Silva

O Gauguin é uma espécie de Godot ou de Alex, de Os amigos de Alex. Apesar de não aparecer no filme está sempre lá…

Paulo MilHomens: É um fantasma, de que todos falam, que todos querem perceber. Essa é a riqueza do guião do Hugo e da Cláudia. Cada personagem que o Vítor encontra constrói o seu próprio Gauguin, mas não é um patchwork, porque depois não há uma chave mágica, não há uma solução para isto, Mantém-se sempre o enigma. Há os pincéis, a blusa com que ele pintava, os quadros que são tratados de uma maneira muito prosaica, como objetos amontoados que ele tem permissão de recuperar, o atelier, os amigos, o sítio onde ele bebia copos, a montanha onde ele ia. São tudo vestígios de um fantasma.

Falar do Gauguin sem ter o Gauguin é também falar da pintura sem ter a pintura excessivamente figurada, e criar assim um território onde a imaginação do espectador pode produzi-la

Hugo Vieira da Silva

HVS: Falar do Gauguin sem ter o Gauguin é também falar da pintura sem ter a pintura excessivamente figurada, e criar assim um território onde a imaginação do espectador pode produzi-la. Ele acaba por ter um corpo, um sudário, existe enquanto negativo (no sentido fotográfico). O Segalen faz esse papel. É o seu próprio corpo que  integra esta experiência do Gauguin É isto que dá origem também à sua própria poesia.

PMH: Ele já tem esta força e energia quando chega ao que se chama agora a Polinésia Francesa, mas é esta tentativa de aproximação a este fantasma e ele vai fazer isso até pelo seu trabalho de arqueologia, etc. Está presente apenas como um fragmento, uma memória, um registo vago a reconstruir-se. Mas também é um momento de afirmação pessoal do Segalen enquanto artista. Segalen é um escritor formidável da língua francesa, que merecia ser melhor conhecido em Portugal.

No início o Gauguin parece ser não um bom selvagem, mas algo como um bom colono… depois acabamos por perceber que não será bem assim…

PMH: Tem muitas facetas. Agora tenta-se encaixá-lo numa espécie de grelha moral, que tem a ver com estas polémicas que há à volta da figura.

HVS: É uma personagem paradoxal, nas suas múltiplas expressões e também com uma energia provavelmente muito intensa. Mas que é uma personagem que reflete sobre a sua própria condição e sobre a questão do Taiti. Ele tem uma visão muito ácida, escreve coisas dececionadas ou criticamente agudas sobre a questão colonial e sobre o facto de transportar uma ideia de go wild. Portanto, é o europeu quer ir para a pureza e para a natureza intocada, mas que se desilude. No fim descreve uma sociedade haitiana tomada pela  francofonia, que  tomou o lugar da língua local

PMH: Convém lembrar a latitiude da biografia do Gauguin. Tornou-se pintor muito tarde, aos 32 ou 33 anos, depois de ser corretor na Bolsa em Paris, a sua infância é passada no Peru, trabalhou na construção do canal do Panamá, casou com uma dinamarquesa… Fez uma enorme quantidade de viagens.

Passando para a questão da dupla realização. Como é que se trabalha a dois e ainda por cima com uma distância enorme?

HVS: Quando percebi que, por motivos de saúde, não poderia viajar até ao Taiti, pensamos em cancelar o filme, ou adiar para outra altura. Depois pareceu-me que, dado o estado avançado das coisas, a melhor solução era fazer o filme com o Paulo. Há  20 anos que trabalhamos juntos e há uma enorme confiança entre nós. Portanto, convidei-o para entrar no projeto. Tentei criar um processo de imersão aqui em Viena, uma espécie de workshop preparatório do filme, que envolveu várias pessoas, incluindo o ator principal. Criámos um entendimento entre nós todos do ponto de vista artístico, daquilo que queríamos para o filme.

E depois na prática, durante a rodagem?

HVS: Já em outros filmes tive a sensação de que posso deixar tudo em piloto automático e as coisas funcionam. Mas o Paulo teve que tomar decisões e fazer as coisas que eu não pude fazer, embora tivessem sido discutidas entre nós. 

PMH: Muitas vezes esquecemo-nos de que o cinema é um trabalho colaborativo. Os filmes fazem-se com a intervenção de muitas pessoas, na rodagem, na pós-produção, na preparação, etc. Nós fomos conversando. A única maneira de se criar desta maneira é conversando. Durante a rodagem era difícil, por causa do fuso horário… Havia uma certa décalage, porque o Hugo via o material do dia anterior e eu se calhar já estava chateado com coisas que tinham acontecido naquele dia. Depois, o facto de termos trabalhado com o ator foi importante. Ele está em todas as cenas e é ele que nos conduz pelo filme. Essa âncora permite depois construir o resto. E teve que se construir lá, porque quase todos os atores, são do Taiti.

Foi muito difícil filmar no Taiti?

PMH: Foram dias longos e muito duros. Filmamos em três ilhas e as distâncias são muito grandes. O Taiti tem apenas uma estrada circular, com engarrafamentos monstruosos. E filmámos em muitos décors, em sítios diferentes. Lembro-me que um dos décors que estava planeado já não existia, tinha sido levado pelo mar. Aconteceu um bocado de tudo, passando pela imprevisibilidade do clima, porque tanto faz um sol radiante como de repente começa a chover.

Paulo MilHomens

E como é que definiram para captar, de alguma forma, através dos décors, da fotografia, também através daí, algo da pintura do Gauguin?

Segalen é um escritor formidável da língua francesa, que merecia ser melhor conhecido em Portugal

Paulo MilHomens

HVS: Quisemos fugir a isso. Começámos por  recusar os formatos longos que poderiam cair exatamente numa visão mais exótica do Taiti ou numa vontade de filmar e de mostrar em amplitude o esplendor da paisagem. Por isso filmámos em 1.33, que permite jogar com o fora de campo, com a imaginação, justamente com essa pintura que não se vê. Em termos fotográficos a ideia também foi fugir a cores excessivamente saturadas. É claro que em termos de mise-en-scène temos algumas situações que tentam figurar três ou quatro quadros do Gauguin, mas com uma aproximação que evitasse o exotismo. O próprio Gauguin tem uma pintura que é tudo menos exótica. Se compararmos com os autores que nós chamamos exóticos da época, é uma pedrada no charco, porque reduz a palete, introduz elementos inesperados, é uma outra poética.

PMH: Ele está a refletir sobre coisas fundamentais, o contorno, o uso da cor, do símbolo. Especulando, ele se calhar na Bretanha poderia produzir aquela pintura. Na cabeça tinha mais os Irmãos Lumière, do que propriamente o Gauguin.

Já alguma vez se tinham imaginado a fazer um filme francês?

HVS: Não, em absoluto. Eu falo português, depois basicamente sei alemão e inglês. O francês é a minha quarta língua. Mas houve a questão da banda desenhada, com pontos que são absolutamente universais e o próprio Gauguin faz parte do imaginário mundial. Convidei uma colega franco-italiana, Cláudia Bottini, para trabalhar na escrita. Foi importante trabalhar com uma pessoa que dominasse a língua francesa. .

PMH: Eu sou fluente em francês, já montei filmes quase totalmente falados em francês, para mim não foi nenhuma questão. Mas há uma questão de linguagem importante: o filme é em francês e marquesino. As línguas Maui foram proibidas de serem ensinadas na Polinésia durante bastante tempo e agora há a recuperação dessa identidade

Então agora o próximo filme vais filmar para a Antártida?

HVS: Tenho um projeto já está escrito, estou-lhe a dar uns últimos retoques, mas anda em fase de financiamento. Também tem a ver com um espaço extra-europeu, mas não vou dizer mais.

E tu, Paulo, para quando uma longa  realizada apenas por ti? 

PMH: Eu gosto muito de trabalhar em equipa e a montagem tem sido algo muito rico, porque me confronto com pessoas,  opiniões e ideias Mas, sim, é possível que no futuro tenha um projeto só meu.

Ninguém sabe, em Washington, onde está instalado o DOGE (Departamento de Eficiência Governamental), se é que tem sequer uma sede ou funcionários. A confusão estende-se a Musk, que, afinal, não lidera coisa nenhuma. É apenas um assessor especial do Presidente, sem capacidade para tomar decisões ou executar tarefas, esclareceu a Casa Branca junto de um tribunal.

A curiosidade alastra: essa entidade, que tem o nome de uma criptomoeda, de um meme, e do Senhor de Veneza, já despediu milhares de funcionários, cortou biliões em programas de apoio, encerrou a USAID e, agora, exige acesso à base de dados do sistema fiscal americano. Também já se movimenta no Pentágono. E vai auditar as reservas de ouro dos Estados Unidos (por favor o Banco de Portugal que informe o DOGE que 6,2% do nosso ouro está guardado nos EUA, em não vá alguém tomar conta dele!)

Quem manda, afinal, no DOGE? Será Trump, sozinho, à noite, quando não tem nada para fazer? Será uma equipa tão secreta que trabalha num «bunker»? Ou Musk é quem dirige, com os seus engenheiros informáticos, enquanto a Casa Branca finge ignorar? Que raio de entidade é o DOGE?

Desinformação não é, certamente, pois há milhares de funcionários no desemprego e uma garantia de poupança de biliões de dólares. Uma notícia dessa «eficiência» tem sido exemplar: há pessoas inscritas na Segurança Social com 150 anos de idade! E milhares com mais de 100 anos, e por aí acima. Se é assim, então será mais do que necessário um controlo rigoroso dos serviços federais. São tão grandes que ninguém manda em nada.

Mas, então, o que fazia Musk na Sala Oval com o filho às costas e Trump sorridente? A trapalhada adensa-se. O enredo complica-se. O mistério aprofunda-se. Há uma entidade chamada DOGE que tem acesso a tudo. Que detém o poder. Que bate à porta.

E tão eficaz é o acrónimo que, há dias, ordenou o despedimento de centenas de funcionários do mais importante e sensível departamento dos EUA: a Administração Nacional de Segurança Nuclear (NNSA). A verdadeira. A que possui, controla e faz a manutenção de todas as armas nucleares dos EUA. A que enriquece o urânio. A que desenvolve novas armas. A que garante a sua segurança. A que contabiliza e certifica. Está espalhada por vários estados, começando por Los Alamos, no Novo México. Será que o DOGE sabia com quem estava a tratar?

MAIS ARTIGOS DESTE AUTOR

+ Dois por Todos!

O Discípulo JD Vance

Ucrânia em Saldos!

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

De acordo com o Tribunal Central de Instrução Criminal, existem “fortes indícios da prática de crime” contra o deputado eleito pelo Chega, puníveis com pena de prisão até cinco anos. “Nos elementos aportados pelo Tribunal é expressamente referida a existência de fortes indícios da prática pelo Senhor Deputado Miguel Arruda de factos suscetíveis de, em abstrato, configurarem a prática de oito crimes de furto qualificado a que correspondem pena de prisão cujo limite máximo é superior a três anos, requisito constitucional e legal para o levantamento obrigatório da imunidade parlamentar pela Assembleia da República”, pode ler-se no parecer a que a SIC teve acesso.

Com o levantamento da imunidade, Miguel Arruda poderá ser formalmente interrogado pelas autoridades na qualidade de arguido. O deputado foi constituído arguido no final de janeiro por suspeitas do furto de malas no aeroporto de Lisboa.

O levantamento da imunidade ainda terá de ser confirmado em plenário.

É verdade, e no artigo que podes ler na edição de fevereiro explicamos-te porque estes adoráveis filhotes têm de se manter secos.

Apesar de animais marinhos e exímias nadadoras, as lontras vivem parte do tempo em terra. Muito ativas, têm características físicas que lhe facilitam a adaptação aos dois ambientes.

Não percas o artigo no qual te apresentamos este fantástico animal e revelamos 7 factos muito loucos sobre ele.

Diverte-te e… boas leituras!

Um homem sentiu-se mal e caiu a cerca de 20 metros das urgências do Hospital do Espírito Santo, em Évora, durante a manhã desta terça-feira. Várias pessoas que estavam no local, incluindo bombeiros, tentaram prestar auxílio e pedir ajuda à unidade de saúde, que se negou-se a socorrer a pessoa e lhes terá dito para ligarem para o número de emergência, 112.

De acordo com a SIC Notícias, o homem terá tido um início de AVC e ficou caído no chão à espera da ambulância, que chegou cerca de 20 minutos depois e o transportou para o hospital, no outro lado da rua.

O Hospital do Espírito Santo ainda não se pronunciou sobre o caso.