As redes sociais podem fazer parte da nossa vida, mas não podem ser a nossa vida. Quando se é criança ou adolescente, ainda se está a desenvolver a personalidade. Por isso, é natural que dês muita importância ao que os outros pensam sobre ti e que queiras que todos gostem de ti.
Assim, não é de estranhar que fiques desanimado quando uma foto que publicaste nas redes sociais tem poucos likes ou que fiques contente quando um vídeo do TikTok, por exemplo, recebe corações de muita gente. Não podes é nunca deixar que o número de likes te faça sentir mais importante e melhor do que os outros ou, pelo contrário, pensares que as pessoas não gostam de ti e não te ligam.
Se voltares ao princípio do texto, está lá a frase de que te deves lembrar: as redes sociais podem fazer parte da nossa vida, mas não podem ser a nossa vida.
Até o Instagram está preocupado com a forma como as pessoas se podem sentir por causa dos likes: em alguns países, o número de corações deixou de estar visível, para evitar «competições» de popularidade. Só quem faz a publicação consegue ver quantas pessoas gostaram da sua fotografia, e assim ninguém saberá o que se passa com os outros. Acabaram-se as comparações.
É natural que queiras ser popular na escola e nas redes sociais, e até que te compares com os teus amigos. O problema é que nas redes sociais nem toda a gente se mostra realmente como é, por isso não
é bom fazermos comparações com vidas que não são exatamente como vemos no telemóvel.
Nem mesmo os influencers digitais (nome que se dá às pessoas que têm muitos seguidores nas redes sociais) ficam sempre bem nas fotografias e estão sempre felizes. Também eles têm dias aborrecidos.
Não penses que só tu é que tens uma vida «chata»: as pessoas com mais seguidores são iguais a ti. Às vezes, passam o fim de semana no sofá e, mesmo tendo muitos seguidores, também há momentos em que se sentem sozinhos. E eles sabem que esses seguidores não são os seus verdadeiros amigos e que as pessoas que realmente importam são aquelas que estão presentes na «vida offline» ou «real».
Os psicólogos e médicos com quem falámos garantem que não é saudável ter só amigos online: isso faz com que te isoles do mundo à tua volta e que a ansiedade aumente quando não estás nas redes sociais. Estar desatento nas aulas, afastar-te dos teus amigos ou perder a ligação com os teus pais é mau para ti. Por isso, prefere a «vida real». É ela que te vai trazer amigos, recordações e fotografias para as redes sociais, e não o contrário.
As redes sociais interferem com o teu cérebro

Os cientistas já provaram que as redes sociais «mexem» com o funcionamento do nosso cérebro. Quando vemos que alguém fez um comentário negativo ou colocou um like, por exemplo, entram em funcionamento as mesmas duas zonas do cérebro que são ativadas quando recebes uma má nota na escola ou alguém te elogia. A diferença é que os elogios e as boas notas não acontecem todos os dias (muito menos várias vezes por dia) e, ao publicares uma foto, podes receber muitos likes em poucas horas… o teu cérebro não está preparado para processar tanta informação em tão pouco tempo.
Se usares muito as redes sociais, isto pode tornar-se um problema, apesar de ainda não se saber ao certo quais as consequências. Por isso, respeita a idade mínima para teres um perfil numa rede social: 13 anos. Antes, o teu cérebro não está apto para lidar com o assunto.
Tu e as redes sociais
Ouvimos a opinião de alguns leitores da VISÃO Júnior sobre as redes sociais e pedimos a psicólogos e médicos para esclarecerem algumas dúvidas.
Sara Claro, 11 anos, Lisboa
«Já aconteceu tirarem-me uma foto sem eu saber e publicarem-na sem eu querer»
Ninguém deve tirar-te fotografias nem publicá-las sem a tua autorização. Existem algumas exceções, como quando estás num espaço público. Ainda assim, podes falar com o autor da publicação e pedir-lhe que elimine a tua fotografia. Além disso, todas as redes sociais têm ferramentas através das quais podes denunciar uma publicação (é como fazer uma queixa à polícia).
«Uma vez, na minha escola, duas raparigas discutiram por telemóvel, porque era mais fácil, não tinham de se ver. Não achei muito normal, penso que é preferível falar sempre cara a cara»P
ara algumas pessoas mais tímidas, falarem num chat pode ser um meio de perderem a vergonha até conseguirem falar pessoalmente. E isso não está errado. Mas, para outras, serve só para se esconderem quando fazem comentários desagradáveis, o que não está certo. Sempre que escreveres algo, pensa se serias capaz de o dizer olhos nos olhos: se achares que não conseguirias, não envies.
Sara Morais, 11 anos, Porto
«Todas as meninas da minha turma têm TikTok e estão sempre no telemóvel. Faz-me um bocado de confusão»
Tenta mostrar-lhes que estar no telemóvel faz mais sentido quando não puderem estar juntas. Podes tentar chamar-lhes a atenção para o seguinte: se continuarem sem conversar, sem partilhar experiências, o que têm depois para mostrar nas redes sociais?

Sofia Brito Alves, 15 anos
«Já bloqueei pessoas porque tiveram comportamentos ou fizeram comentários de que não gostei»
Cem por cento de acordo, dizem os especialistas! Não devemos alimentar comentários nem entrar em conflito. O melhor é bloquear alguém que esteja a incomodar-te. Quando algo não nos faz sentir bem, devemos afastar-nos.
Alexandre Duarte, 14 anos, Castelo Branco
«As redes sociais são uma banalidade, mas acho que iria sentir-me à parte se não as usasse»Este medo de te sentires à parte é muito comum, e os psicólogos com quem falámos garantem que muitos adolescentes se sentem assim. Provoca-te falta de concentração nas aulas e ficas sem vontade de estudar, não te apetece conversar ao jantar nem no intervalo da escola. Cabe a ti decidir, a cada momento, o que é mais importante. Podes definir um horário para ires às redes sociais. Há aplicações que contam o tempo que passaste no telemóvel, o que te ajuda a controlar o que fazes. Não te esqueças: as redes sociais fazem parte da vida, mas não são a vida!
«Acho que uso demasiado o telemóvel. Quando estou a estudar, penso se estarei a perder algo e tenho de ir ver. E até quando vou dormir!»O nosso cérebro é estimulado pela luz azul dos ecrãs e pela novidade, que surge com as novas publicações ou os comentários. Há cada vez mais gente com dificuldade em dormir e em concentrar-se por causa do telemóvel. Não uses ecrãs à noite. E faz uma coisa de cada vez: quando estiveres a estudar, por exemplo, desliga o telemóvel.
«Quem tem mais seguidores é quem se expõe mais, com fotos mais sensuais»É errado e perigoso usar o nosso corpo para chamar a atenção dos outros ou conseguir mais likes. É errado porque estás a perseguir algo que não faz sentido: ter mais ou menos likes não quer dizer que sejas melhor ou pior do que as outras pessoas.É perigoso porque uma fotografia publicada na internet pode ser «roubada» e guardada, sem controlares como vai ser usada depois. Antes de publicares uma foto, pergunta-te: será que daqui a uns anos vou arrepender-me de a ter publicado?
Beatriz Miranda Alves, 10 anos, Torres Vedras
«Se não tiver likes, fico um bocado desanimada. Por isso, quando publico um vídeo, peço aos meus colegas para irem ver e porem likes. Estes foram feitos para sabermos se os outros gostaram ou não»
O facto de teres muitos corações ou muitos seguidores não significa que sejas uma pessoa melhor ou mais importante. Até o Instagram te avisa: não permitas que o número de likes afete a tua autoestima, ou seja, aquilo que pensas sobre ti e a forma como te sentes.
E quando as redes sociais nos fazem sentir mal?

Nas redes sociais, os murros, pontapés e bofetadas têm uma forma diferente. Chegam em modo de comentários, fotografias, vídeos ou mensagens privadas violentas. Chama-se cyberbullying.
Quando há algo que não te faz sentir bem (seja o comentário de uma pessoa ou alguma coisa que viste na internet e que não compreendes), fala com os teus pais ou contacta a Linha SOS Criança através do telefone gratuito 116 111. Podes ainda escrever para o email: iac-soscrianca@iacrianca.pt.
Aqui, na VISÃO Júnior, também estamos disponíveis para te ajudar!
Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 187 da VISÃO Júnior