Em cima da bancada da casa de banho de Bryan Johnson, no primeiro andar da sua mansão em Los Angeles, há um monte de cremes de beleza e um termómetro. Todos os dias, antes de o despertador tocar pelas 5h da manhã, o multimilionário norte-americano levanta-se, toma os três comprimidos deixados de véspera na mesa de cabeceira e mede a temperatura corporal num ouvido, frente a uma caixa de luz que imita a exposição solar.

O termómetro é pequeno, aparentemente vulgar, e dá o resultado em segundos, vemos no início do documentário Imortal: O Homem que Quer Viver para Sempre (2025). Nada de mais, não fosse o protagonista estar em tronco nu para todos nós apreciarmos a sua boa forma física, pouco habitual numa pessoa com 47 anos, e não o acompanhássemos depois até ao rés do chão virado para o jardim, ao estilo californiano, para assistir à rotina diária que segue meticulosamente.

O documentário Imortal… narra a busca obsessiva do multimilionário norte-americano pela longevidade

Na cozinha, Johnson tem uns frascos com mais 54 comprimidos, incluindo metformina e rapamicina (já lá iremos), que engole com uma bebida a que chama “gigante verde”. Só após uma hora de treino no seu ginásio é que come uma grande travessa de legumes variados e temperados. E a última refeição do dia, uma refeição nutritiva à base de frutos frescos e secos, é tomada logo às 11h da manhã, juntamente com mais 34 comprimidos.

Pelo meio, e até se deitar, sempre às 8h30 da noite, o homem que se autodenomina “o ser humano mais comedido do mundo” faz uma série de terapias, obedecendo a um protocolo rígido, desenhado pelo jovem médico e investigador britânico Oliver Zolman, que tem um orçamento anual de dois milhões de dólares para tentar reverter o envelhecimento biológico do seu paciente e parceiro de negócios. “Não poderia existir melhor cobaia”, diz Zolman, e rapidamente se percebe porquê.

Quando Johnson anunciou o projeto Blueprint, em outubro de 2021, disse que já tinha resultados para mostrar porque a sua jornada começara um ano antes, ao “despedir” o “Bryan Notívago”. Multimilionário desde que vendera, em 2013, a Braintree, uma empresa de pagamentos eletrónicos, não estava a gozar a sua fortuna de 100 milhões de dólares porque se sentia a caminho de uma morte prematura. Decidira, então, atingir a idade biológica mais baixa possível e estava disposto a fazer sacrifícios.

RECEBER PLASMA DO FILHO

Os primeiros três anos de Blueprint foram passados a dominar o básico: sono, dieta, exercício. Só depois Zolman avançou com as intervenções menos ortodoxas. No documentário, vemos Johnson a ser constantemente monitorizado pela equipa médica e a fazer a sua primeira terapia genética, afirmando que já reverteu a idade biológica em cinco anos. “A minha velocidade de envelhecimento é de 0,69 – ou seja, a cada 12 meses, envelheço oito meses.”

O dia a dia de Bryan Johnson é assumidamente um projeto científico para ver quantos anos vai conseguir manter-se vivo e saudável. Não tem sequer um limite na mira. Cem anos? Cento e vinte? Há um ano, numa entrevista à revista Fortune, disse que a sua própria mortalidade não está em causa. O seu objetivo é provar que os seres humanos têm uma “cláusula de exclusão para o aparentemente inevitável [a morte]” – se estiverem dispostos a afastar-se da norma. “Não sabemos até onde isto [a vida] pode ir. É um fim em aberto.”

Viver mais anos é naturalmente um sonho perseguido por muitos, já há muito tempo, e a tentativa de travar o envelhecimento esteve durante séculos nas mãos de mentes muito criativas. O rodapé que temos nas páginas seguintes faz uma resenha das teorias da longevidade mais estranhas que foram surgindo, desde comer cérebro de macaco até à vasectomia a que Sigmund Freud se submeteu alegadamente para retardar um cancro no maxilar. Uma linha do tempo que termina nos anos 1930, quando um homem chamado Giocondo Protti anunciou ter conseguido rejuvenescer velhos através de transfusões de sangue de dadores jovens.

Luísa Lopes Dois ou três cafés por dia previnem a disfunção cognitiva, lembra a neurocientista que estuda a neurobiologia do envelhecimento

Quase um século mais tarde, Johnson recebeu plasma sanguíneo do seu filho Talmage, hoje com 19 anos, mas Zolman concluiu que não valia a pena. É possível que algumas substâncias existentes no sangue jovem, como a taurina, possam ter um efeito rejuvenescedor, mas o mais provável é ele dever-se à remoção de detritos. Em 2020, investigadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, verificaram esse mesmo efeito quando substituíram metade do sangue de um ratinho velho por albumina (uma proteína do sangue) e uma solução salina. Talvez haja vantagens em filtrar e diluir o sangue mais velho, sugeriram então.

Entre as teorias estapafúrdias com que o Homem andou a tentar enganar a morte ao longo dos tempos, não encontramos a restrição calórica – severa –, a única intervenção que, entretanto, a Ciência demonstrou que poderá ser capaz de retardar o envelhecimento em vários animais, incluindo nos primatas.

Em experiências realizadas com macacos mantidos em restrição calórica desde a década de 80, na Universidade de Wisconsin e no Instituto Nacional do Envelhecimento, nos EUA, verificou-se que têm menos doenças relacionadas com a idade, como cancro e diabetes, e que vivem até mais 20 anos. Em seres humanos, foi já há uma década que se colocou um grupo de voluntários a comer 25% menos do que seria normal, durante dois anos, e os resultados foram animadores, mas manter pessoas a vida inteira numa dieta tão parca não é exequível nem desejável.

O STRESSE DE PASSAR FOME

O próprio Bryan Johnson aumentou a ingestão de calorias ao fim de dois anos (de 1 950 para 2 250), porque perdera tanta gordura, incluindo na cara, que as pessoas começaram a compará-lo com a atriz Tilda Swinton. “Apesar dos excelentes biomarcadores, olhavam para mim e diziam: ‘Este tipo está velho.’ Era uma questão de perceção. Mas também era doloroso para mim, porque estava sempre em défice e com fome”, admitiu.

É sabido que o stresse mental de se estar sempre com fome pode levar à depressão, o exercício físico pode tornar-se impossível e a libido diminui. “A restrição calórica pode acrescentar alguns anos à vida, mas não será uma vida que valha a pena ser vivida”, acredita João Pedro de Magalhães, professor de Biogerontologia Molecular no Instituto de Inflamação e Envelhecimento da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, onde trabalha na reprogramação e no rejuvenescimento das células.

As 4 linhas de investigação mais promissoras (+ 1)

Entre os vários fármacos e terapias que já demonstraram ter efeitos positivos na longevidade e na qualidade de vida de ratinhos, estes são os que têm mais potencial

RAPAMICINA
É utilizada como imunodepressor para prevenir a rejeição de órgãos transplantados. Estudos realizados em ratinhos de meia-idade aumentaram o seu tempo de vida saudável em 60%. Ela inibe a enzima mTOR, que acelera a divisão celular. Laboratórios e empresas estão agora a tentar atingir zonas a jusante dessa via para desenvolver medicamentos antienvelhecimento que não deixem o sistema imunitário desprotegido, como acontece com a rapamicina.

METFORMINA
É um antidiabético oral indicado para o tratamento da diabetes tipo 2, que foi utilizado pela primeira vez na década de 1950, em França. Chegou aos EUA nos anos 90 e, desde então, os investigadores documentam várias surpresas, incluindo uma redução do risco de cancro. Por ser barato, as farmacêuticas não apostam na investigação que o relacionam com a longevidade. Nos EUA, espera-se financiamento para avançar com o Ensaio TAME, seis anos de ensaios em 14 instituições, envolvendo três mil pessoas, para testar se aquelas que tomam metformina sofrem um atraso no desenvolvimento ou na progressão de doenças crónicas relacionadas com a idade.

REMOÇÃO DAS CÉLULAS SENESCENTES
Em estudos com ratinhos, demonstrou-se que remover as chamadas células zombies, que criam um ambiente inflamatório, pode melhorar o processo de envelhecimento. A senescência é um estado em que as células deixam de se dividir, acabando a segregar substâncias químicas que prejudicam as outras à sua volta. O grande senão de as remover é que essas células também evitam certos tipos de cancros.

NEUTRALIZAÇÃO DE ANTICORPOS MONOCLONAIS
É uma terapia, já usada em várias doenças, que reduz a inflamação de uma maneira considerável. Num estudo publicado na Nature, em 2024, investigadores descobriram que o bloqueio de uma proteína chamada IL-11 pode prolongar significativamente o tempo de vida saudável de ratinhos em cerca de 25%.

OZEMPIC E SEMELHANTES
Os recentes fármacos antidiabéticos, que têm a semaglutida como princípio ativo e atuam também na perda de peso, reduzem a morte por todas as causas. Faz sentido, uma vez que as pessoas ficam drasticamente mais saudáveis, mas ainda não se conhece o seu efeito a longo prazo. A farmacêutica Lilly, que produz um deles, está já a monitorizar várias pessoas, para tentar perceber o seu impacto na longevidade.

E a verdade é que os estudos não são conclusivos. “Existe a hipótese de a restrição calórica não retardar o envelhecimento humano, embora possa ter alguns benefícios para a saúde e proteger contra algumas doenças relacionadas com a idade, em particular o cancro, e possa prolongar ligeiramente o tempo de vida”, escreve o investigador no seu site. “Pessoalmente, só consideraria submeter-me [a ela] se tivesse cancro, e mesmo isso teria de ser cuidadosamente ponderado e discutido com o meu médico.”

RAPAMICINA EM PEQUENAS DOSES

Ainda assim, em cima da mesa dos investigadores encontram-se agora medicamentos que parecem produzir efeitos semelhantes aos da restrição calórica. Não são (ainda?) comprovadamente pílulas milagrosas, mas já há quem os tome off label, por sua conta e risco. É o caso da rapamicina, um imunodepressor utilizado em transplantes de órgãos, e da metformina, um fármaco contra a diabetes tipo 2, que estão a ser estudados com grande afinco [Ver caixa As 4 linhas promissoras (+1)]. 

Foi já em 2009 que se descobriu que a administração de rapamicina a ratinhos de meia-idade prolonga o tempo de vida em 9% a 14%. Dois anos depois, um estudo com ratinhos mais jovens viu o seu tempo de vida prolongado em 10% a 18%. E, em 2014, num pequeno ensaio clínico, melhorou a imunossenescência (processo de deterioração gradual do sistema imunológico decorrente do envelhecimento natural do organismo) em voluntários idosos.

Há um ano, dados preliminares de um estudo realizado na Universidade do Texas, nos EUA, sugeriram que a rapamicina também funciona nos nossos “primos” saguis. Embora o estudo ainda não tenha terminado, o seu autor principal disse na reunião anual da Associação Americana do Envelhecimento que os animais que receberam o medicamento mostraram um aumento de aproximadamente 10% na esperança de vida.

João Pedro de Magalhães tem colegas investigadores que tomam rapamicina, em pequenas doses. “Eu não recomendo, do ponto de vista profilático, porque tem efeitos imunodepressores”, lembra. “E, realmente, há, por exemplo, pessoas que dizem que têm mais úlceras na boca…”

Quanto à metformina, a comunidade científica está suspensa no arranque de um grande ensaio nos EUA, o TAME, que durante seis anos envolverá mais de três mil indivíduos, entre os 65 e os 79 anos. Na Universidade de Wake Forest, na Carolina do Norte, que será o centro coordenador, aguarda-se que a FDA, o regulador norte-americano do medicamento, reconheça o envelhecimento como uma condição tratável. Se isso acontecer em breve, este ensaio marcará uma mudança de paradigma: passa de tratar cada doença médica relacionada com a idade separadamente para tratar essas doenças em conjunto, visando o envelhecimento per se.

Mais recentes, e ainda a serem falados como uma hipotética boa surpresa na área da longevidade, são os medicamentos para a diabetes que começaram a ser usados contra a obesidade, como o Ozempic, que têm o efeito secundário de fazer perder massa muscular, o que leva habitualmente a uma longevidade mais baixa (referidos na mesma caixa sobre as linhas promissoras). Não consta que a cobaia-Johnson tenha tomado o remédio de emagrecimento da moda, mas a verdade é que faz tratamentos regulares para ganhar volume na cara…

+ SAÚDE IGUAL A + LONGEVIDADE

Certo é que são já várias as “empresas da longevidade” a celebrar contratos de prestação de serviços com clientes que assinam termos de responsabilidade e embarcam em tratamentos que ainda não têm evidências claras em seres humanos. “O caso típico são homens com muito dinheiro, a trabalhar na alta finança, que querem um quick fix [uma reparação rápida] e estão dispostos a pagar seja o que for”, ouviu recentemente Filipe Cabreiro, investigador do Imperial College, em Londres, no Reino Unido, e da Universidade de Colónia, na Alemanha, a um médico norte-americano (Ver entrevista).

Olhar para o que já se provou cientificamente funcionar e tentar alcançar um fim idêntico sem sacrifícios associados é um dos caminhos que os investigadores estão a trilhar, como já se viu. Um outro é o desenvolvimento dos medicamentos que sejam capazes de eliminar as células senescentes, corriqueiramente chamadas “zombies”.

Foto: Zerbor/ Dreamstime.com

Com a idade, os mecanismos de reparação e os meios de eliminação enfraquecem, e essas células acabam a prejudicar as que as rodeiam. Já existem medicamentos senolíticos, que as matam, mas, por enquanto, ainda não se descobriu uma maneira de não afetar todas as outras nesse processo. Até agora, os ensaios clínicos com células senescentes em pessoas não correram particularmente bem.

João Pedro de Magalhães lamenta que não haja tanto dinheiro a ser canalizado para a investigação na área da longevidade como há, por exemplo, para o cancro e as doenças degenerativas. “Vai cem vezes mais dinheiro para o cancro, mas não se consegue ter boa saúde sem aumentar a longevidade, porque as pessoas doentes não duram muito”, lembra, não ironicamente.

PESSOAS MAIS FELIZES

“Se conseguirmos abrandar o envelhecimento nem que seja um bocadinho, terá um impacto a nível de várias doenças. E, pelo menos em modelos animais, em minhocas, já se consegue mudar um só gene e aumentar a longevidade dez vezes. Em ratinhos, consegue-se aumentar a longevidade 50%”, sublinha. “É verdade que existe uma diferença grande para os seres humanos – nos ratinhos, os investigadores passam a vida a curar o cancro, é relativamente simples, a toda a hora!”

Poderá persistir um problema de financiamento, mas a sensação que um leigo tem é a de que nunca se falou tanto, nunca se estudou tanto, nunca se investiu tanto nesta área. Os estudos multiplicam-se nas notícias, os eventos acumulam-se no calendário. Em março, até o Vaticano deverá ter uma cúpula dedicada ao envelhecimento.

Claro que outro caminho, que é potencialmente alcançável pelo comum dos mortais, passa por tentar replicar os bons exemplos – mas se o caro leitor está já a pensar naquele seu avô que fumava um maço de tabaco todos os dias e chegou aos 100 anos, pense antes de mais nada nas ditas zonas azuis, regiões do planeta onde os seus habitantes têm uma longevidade invulgar.

O fenómeno foi identificado pela primeira vez há duas décadas por Dan Buettner, um jornalista norte-americano que andou durante 15 anos a visitar populações que vivem mais do que a média. Depois de ter feito reportagens na região de Nuoro, na Sardenha (Itália), nas ilhas de Okinawa (Japão), na Península de Nicoya (Costa Rica), na ilha de Icária (Grécia) e em Loma Linda, na Califórnia (EUA), Buettner concluiu que as zonas azuis são regiões em que as pessoas vivem saudáveis durante muito tempo, sem serem propriamente comedidas.

“Não têm um estilo de vida de restrições. São pessoas felizes, com um nível de stresse muito baixo, relações sociais muito sólidas, dieta alimentar saudável e sem exageros… São o melhor exemplo de compatibilidade entre o ambiente e a longevidade”, acredita Filipe Cabreiro, que se dedica a estudar a relação entre o microbioma intestinal e a forma como envelhecemos.

Sim, a chamada flora intestinal tem influência na nossa esperança de vida. A ligação entre esses triliões de microrganismos com a longevidade foi desenvolvida há mais de cem anos por um microbiologista russo que criou o termo probiótico para as bactérias do ácido lático. Como não tinha provas para a sua tese, em 1908 escreveu um artigo intitulado O Prolongamento da Vida, a que deu o subtítulo de Estudos Otimistas.

Hoje existem provas para as suas suposições, lembra Cabreiro, nomeadamente de que a saúde e o tempo de vida podem ser drasticamente prolongados se transferirmos o microbioma de um animal mais jovem para um mais velho (através do transplante de fezes). O problema com os humanos é que o nosso microbioma está constantemente a mudar.

“Uma pessoa que esteja a consumir vegetais vai ter um microbioma muito diferente de outra pessoa que coma carne. E, se mudar a sua alimentação, o efeito verifica-se em apenas três ou quatro dias”, explica o investigador. “Para já, vamos começar por criar um conjunto de micróbios dos quais saibamos exatamente o que cada um faz e o que produz.”

Uma das boas notícias que os investigadores insistem em repetir é que há muita coisa que pode ser controlada por nós, os comuns dos mortais. O nosso estilo de vida tem influência direta na longevidade – e, sobretudo, na saúde com que eventualmente chegamos aos anos extra. “Gostávamos de ter um medicamento milagroso, porque somos preguiçosos, falta-nos disciplina, mas temos mesmo de estar atentos aos nossos hábitos de vida”, não se cansa de alertar a neurocientista Luísa Lopes, que estuda a neurobiologia do envelhecimento. 

“Vivemos mais anos sobretudo porque conseguimos ganhar às doenças infecciosas, embora tenhamos o cancro e as doenças neurodegenerativas em que o envelhecimento ainda é o maior risco”, lembra a investigadora da Fundação GIMM (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine). Mas, “numa perspetiva otimista”, vale a pena sublinhar que em grande parte está nas nossas mãos evitar algumas dessas doenças.

“Há 45% dos fatores de risco para a demência que são potencialmente modificáveis. Ou seja, temos controlo de quase metade”, frisa Luísa Lopes.

É essa a conclusão do mais recente relatório dos peritos que constituem a comissão da revista The Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados com a demência – que no verão de 2024 acrescentou o colesterol LDL elevado na meia-idade e a perda de visão na idade tardia, representando respetivamente 7% e 2% de risco, caso não sejam tratados (Ver infografia 14 Fatores de risco para a demência potencialmente modificáveis).

Também vale a pena lembrar que na demência o fator hereditário é menos de 5%. E que, se não é possível alterar os fatores de risco genético, podemos tentar controlar os riscos de que fala a Lancet.

DAR SENTIDO À VIDA

Luísa Lopes costuma também falar num outro fator de risco que ainda não está estabelecido, mas que tudo aponta para que o seja em breve: o sono. “Temos de combater a ideia de que dormimos quando morrermos. É seguro dizer que a qualidade de sono diminui o risco de demência, mas como temos muitas variáveis, é dificilmente diagnosticável.” Afinal, o sono tem um papel importante na regeneração celular, ao permitir uma “limpeza” do “lixo” no cérebro.

Na secretária do seu gabinete, reparamos num copo de café e lembramo-nos de que publicou um estudo que demonstra haver um recetor ligado à cafeína que altera o risco para a disfunção cognitiva (dois ou três cafés por dia previnem-na, para quem não tem contraindicação).

Para breve, a sua equipa tem para publicação um artigo sobre a disfunção circadiana (distúrbio do sono) como risco para a demência. “No fundo”, resume a neurocientista, “estamos a tentar perceber como podemos melhorar a nossa trajetória cognitiva. Daí a importância dos hábitos de vida, mas também de fármacos como o Ozempic. Novos estudos mostram que ele parece diminuir diretamente a demência, o que pode ser uma linha promissora.”

Noutra zona do GIMM, encontramos Joana Neves e Pedro Sousa-Victor, que estudam paralelamente a modulação imunitária para desenvolver novas terapias baseadas em células estaminais que melhorem a saúde dos idosos, através da medicina regenerativa. Um exemplo de aplicação prática? Nas cirurgias da anca, frequentes nos mais velhos.

Joana Neves e Pedro Sousa-Victor Fundaram um laboratório conjunto porque as células estaminais precisam de um bom sistema imunitário

Neste joint-lab, em que uma equipa de 12 investigadores trabalha no músculo esquelético, o sistema imunitário e as células estaminais têm de caminhar de mãos dadas, explicam. “A capacidade regenerativa dos nossos órgãos decai com a idade”, lembra Pedro Sousa-Victor. “Temos de corrigir o ambiente para que a célula estaminal funcione”, remata Joana Neves.

Todos estes avanços da Ciência para prolongar a longevidade só têm interesse se houver saúde, sublinham os investigadores entrevistados. As projeções das Nações Unidas são impressionantes (Ver infografia sobre a evolução da esperança de vida na Europa), mas convém que a vida tenha sentido, acrescenta a gerontóloga Lia Araújo.

“Quando se fazem estudos com octogenários ou centenários, um dos principais motivos que apontam para querer continuar a viver não é a saúde, são as relações sociais”, sublinha a professora na Escola Superior de Educação de Viseu e investigadora no CINTESIS, onde integra o grupo AgeingC, dedicado ao envelhecimento. “A fonte de propósito e de significado de vida são as pessoas que as rodeiam.”

No seu estudo Will to Live (vontade de viver), alguns dos centenários entrevistados diziam mesmo: “Por mim, não vivia mais”, lembra Lia Araújo. “E a maioria daqueles que queriam continuar a viver tinham amigos e família, diziam coisas como ‘Gostava de ver a minha neta casar’, o que reforça a ideia de que uma vida com qualidade é uma vida com sentido. Antes, falava-se em dar vida aos anos. Agora, fala-se em dar sentido aos anos. Foi um ensinamento.”

Há uma década, a gerontóloga participou no estudo PT100, com centenários portugueses. Em março, vai avançar o PT100 Social Care, um levantamento dos centenários que estão em todas as ERPPI (estruturas residenciais para pessoas idosas) e centros de dia ou têm apoio domiciliário. Lia Araújo e os seus colegas vão saber quantos são, qual é o género, há quanto tempo se encontram naquela resposta social e qual foi o motivo – solidão, condição frágil de saúde?

“Se cultivarmos as amizades, a probabilidade de ficarmos sozinhos em velhos é menor. Já em relação à família, a incógnita é maior, pode não estar nas nossas mãos, sobretudo se mantivermos as taxas de emigração”, alerta a gerontóloga. “Com quem iremos tomar café? A dimensão online vai ser importante nas nossas vidas. Certo é que viver mais anos, mas sozinhos, não vale a pena.”

Mesmo Bryan Johnson encontrou espaço na sua agenda para estar com amigos e, sobretudo, com o seu filho Talmage, que também começou a seguir um protocolo semelhante ao seu. A polémica mais recente, aliás, envolve a camaradagem pai-filho que muitos veem como exagerada – havia necessidade de o multimilionário revelar ao mundo quem tem mais ereções durante a noite?

Os 8 hábitos para viver mais 20 anos

Adotá-los pode adicionar 21 anos de vida às mulheres e 24 anos aos homens – mesmo na meia-idade, concluiu um megaestudo em 2024

Ser fisicamente ativo
São vários os estudos que tentam provar uma ligação entre o exercício e a longevidade. Em 2017, investigadores da Universidade Brigham Young, no Utah, EUA, descobriram que, pelo menos, 30 minutos de corrida no caso dos homens e 40 minutos no caso das mulheres, cinco dias por semana, podem retardar o processo de envelhecimento celular, ao ponto de uma pessoa parecer biologicamente nove anos mais nova. A falta de atividade física foi associada a um risco de morte 30% a 45% superior.

Não ter dependência de opiáceos
Em causa está um comportamento aditivo e não, por exemplo, a toma de medicamentos para reduzir a dor, por determinação médica. O efeito na longevidade prevista foi estimado entre 30% a 45%.

Não fumar
Num estudo publicado em 2017, em que foram analisados registos de saúde de mais de 600 mil pessoas, investigadores do Instituto Usher, em Edimburgo, no Reino Unido, concluíram que, em média, fumar um maço de tabaco por dia reduz a esperança de vida em sete anos. Quem nunca fumou na vida viu a sua longevidade prevista aumentada em 30% a 45%.

Gerir o stresse
O stresse prolongado leva à libertação contínua de cortisol, uma hormona que, em níveis elevados, contribui para problemas de saúde cardiovascular, diminuição da resposta imunitária e envelhecimento celular rápido. De acordo com um estudo do Instituto Finlandês para a Saúde e o Bem-Estar, publicado em 2020, o stresse pode reduzir o tempo de vida de uma pessoa em cerca de dois anos e oito meses. Conseguir gerir o stresse foi associado a 20% de longevidade adicional.

Ter uma boa alimentação
Um estudo de 2023, liderado por um investigador da Universidade de Bergen, na Noruega, que utilizou a base de dados do Biobanco do Reino Unido, concluiu que a esperança de vida pode aumentar até dez anos após uma mudança sustentada para regimes alimentares mais saudáveis. O efeito foi de 20% na longevidade prevista.

Não beber regularmente álcool em excesso
Alguns estudos sugerem que o consumo ligeiro a moderado de álcool pode ter um efeito positivo na longevidade. Em 2018, a neurocientista Claudia Kawas, da Universidade da Califórnia em Irvine, nos EUA, passou 15 anos a analisar a saúde e os hábitos de 1 500 pessoas com mais de 90 anos e descobriu que aquelas que bebiam um a dois copos de cerveja ou vinho por dia tinham 18% menos probabilidade de ter uma morte prematura. Evitar o consumo excessivo de álcool foi associado a 20% de longevidade adicional.

Ter uma boa higiene do sono
Em 2024, um estudo publicado na revista científica QJM, que envolveu mais de 170 mil adultos norte-americanos, concluiu que os homens que dormem o suficiente vivem cerca de cinco anos mais do que os que não dormem. Para as mulheres, são dois anos. A higiene do sono foi associada a 20% da longevidade esperada.

Ter relações sociais positivas
Qual é uma das principais conclusões de um estudo com mais de 80 anos (e ainda em curso), sobre o desenvolvimento humano na Universidade de Harvard, nos EUA? “A mensagem mais clara que retiramos deste estudo é a seguinte: as boas relações mantêm-nos mais felizes e saudáveis. Ponto final.” Ter boas relações sociais conduziu a um efeito de 5% na longevidade prevista.

Fonte: Impacto de 8 Fatores do Estilo de Vida na Mortalidade e na Esperança de Vida entre os Veteranos dos Estados Unidos, estudo realizado com mais de 719 mil pessoas, publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, em 2024

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Luís Montenegro prometeu fazer um esclarecimento sobre as suspeitas que recaíam sobre a sua vida empresarial, mas acabou por não conseguir ser elucidativo e, muito menos, clarificar o que pretende fazer politicamente.

Perante novas suspeitas sobre a sua atividade empresarial e o avolumar de diversas notícias que precisam de explicação cabal, o que o País esperava do primeiro-ministro era simples e objetivo: uma postura de total e absoluta transparência, através de um discurso claro e direto, sem direito a segundas interpretações, como é exigível numa sociedade democrática, num momento solene como o de um discurso à Nação. Essa exigência aumentou quando, ainda por cima, ele optou por se apresentar nos ecrãs, numa coreografia previamente ensaiada, acompanhado por todos os seus ministros.

Em vez disso, Luís Montenegro optou pela ambiguidade. Ao longo de 20 minutos de comunicação, reafirmou que já deu todas as explicações em relação às suspeitas que o perseguem e anunciou que vai cortar a ligação com as empresas familiares em causa. Depois, falou da família, de forma emocionada, e elencou, pasta a pasta, o que considera serem as maiores “conquistas” do seu executivo. Mas deixou para o fim, naturalmente, a mensagem que queria passar, através de uma frase que é, por si só, quase um lema para uma próxima campanha eleitoral: “A crise política deve ser evitada, mas pode ser inevitável”.

Ao enfrentar uma crise séria de credibilidade, o primeiro-ministro optou por fazer abanar o fantasma da crise política e a possibilidade de novas eleições antecipadas – que, como já se percebeu, não é a solução desejada por nenhum dos partidos com assento parlamentar.

Só que, apesar da tática ter sido muito ponderada e demoradamente avaliada, não deixou de se revelar também muito trapalhona. De tal forma que, no final do discurso, ninguém ficou a saber se Montenegro pretende mesmo apresentar ou não uma moção de confiança ao Governo, no caso de continuarem a avolumar-se as suspeitas a seu respeito.

A ambiguidade não foi, no entanto, inocente. Ela ajuda a criar incerteza e, dessa maneira, a fazer apontar as culpas sobre quem for o responsável por uma nova e suposta crise política. E, com isso, desviar o debate e as atenções. Com uma dúvida que precisa, no entanto, de ser esclarecida nos próximos dias: a moção de confiança esgrimida por Montenegro é uma arma de destruição massiva ou uma simples manobra de diversão?

Luís Montenegro acha que já deu todas as explicações sobre a sua vida patrimonial e a sociedade familiar. E não vê motivos para sair, quando “a crise política deve ser evitada”, mesmo que diga que não ficará “a qualquer custo” e que, por isso, deverá apresentar uma moção de confiança no Parlamento, se a pressão política se mantiver.

Numa declaração feita ao país em São Bento, às 20h, depois de uma muito curta reunião do Conselho de Ministros, Luís Montenegro vincou que está “em exclusividade” como primeiro-ministro, mas falou longamente sobre os serviços prestados pela Spinumviva, dando até muitos pormenores sobre a atividade da Solverde, uma das empresas que mantêm avenças com a sociedade familiar que criou e cuja quota passou à  mulher com quem está casado em comunhão de adquiridos quando chegou ao Governo.

Sem dar novas explicações sobre os clientes da Spinumviva nem apresentar informações que justifiquem a forma como pagou a pronto dois apartamentos no centro de Lisboa por 715 mil euros, mais do que tinha declarado, Montenegro optou por se vitimizar.

Lembrando os dados que revelou no debate da moção de censura, afirmou que “como já se esperava, estes elementos não foram suficientes”.

“Nunca serão suficientes”, declarou o primeiro-ministro, atacando aqueles que, em seu entender, lançaram “insinuações para que o assunto nunca se encerrasse”.

“Este é um círculo vicioso que muitos desejam e de que muitos não desejam sair”, afirmou Montenegro, defendendo a legitimidade de manter em atividade a empresa, embora passando-a para os filhos, deixando a sua mulher de ser sócia.

“Nada disto tem que ver comigo”, insistiu, dizendo ser “trabalho puro” o que foi feito pela Spinumviva, como consultora, para a qual trabalham dois juristas próximos de Hugo Soares, o seu braço-direito”

“Nunca quem não quer perceber vai dizer que entendeu a explicação”, entende Montenegro, que diz que “ninguém descobriu nada” e que “está tudo” nas suas declarações de interesses, mesmo com as dúvidas suscitadas pela manchete deste sábado do Correio da Manhã.

Para Luís Montenegro, o importante é manter “o país em movimento”, com o que considera serem os bons resultados da sua governação, até porque nada lhe pesa na consciência. “Não pratiquei ninhem crime nem tive nenhuma falha ética”.

“Temos de confiar nas pessoas e nas instituições”, defendeu.

O Governo português e os chineses da CALB anunciaram formalmente, esta semana, a construção de uma megafábrica de baterias de lítio para a indústria automóvel. O projeto ficará situado em Sines, terá um investimento total de 2 mil milhões de euros e irá criar cerca de 1 800 postos de trabalho.

Segundo o ministro da Economia, Pedro Reis, a nova fábrica receberá apoios públicos de 350 milhões de euros, no âmbito do regime europeu de incentivos à reindustrialização e aceleração da inovação.

“Isto é um daqueles big bangs de investimento que acontecem de vez em quando e que, neste momento, é tremendamente importante para Portugal”, salientou o governante.

Já para a empresa chinesa, a localização e as infraestruturas existentes em Sines foram um fator-chave para esta decisão. “Escolhemos Portugal para instalar esta megafábrica europeia devido às suas vantagens estratégicas, o forte potencial da economia e à mão de obra qualificada”, explicou Liu Jingyu, presidente da CALB.

Para a gestora, Sines “oferece uma logística excecional” devido ao seu porto de águas profundas, que pode ser operado 24 horas por dia, 7 dias por semana, ligado a uma boa rede ferroviária de carga.

“Estas são características ideais para a distribuição dos nossos produtos no mercado europeu. Além disso, a aposta portuguesa no apoio às energias verdes criam um ambiente perfeito para o sucesso da visão de longo prazo da CALB, pois o nosso objetivo é construir uma fábrica de última geração e com zero carbono de emissões”, salientou a presidente da CALB.

O processo segue agora todos os trâmites legais, nomeadamente a avaliação do AICEP, para verificar se é elegível para receber apoios públicos e deverá entrar em funcionamento em 2028.

“A contratualização tem que ocorrer em 2025, mas estes contratos levam algum tempo, porque temos de estudar, temos de discutir bem tudo o que é e o que não é elegível, as percentagens de apoio, as intensidades de apoio, e só aí conseguiremos ter uma proposta negocial acabada que passe a contratualização”, explicou a administradora da AICEP, Oliveira e Silva, que também esteve presente na cerimónia.

A polémica do lítio

Sendo o lítio a principal matéria-prima para fabricar estas baterias, o ministro adiantou que a empresa chinesa “tem certamente soluções que consideram a extração do lítio em Portugal e de outras fontes”. Mas fez questão de sublinhar que o modelo da CALB  “é autónomo e sustentável”, seja qual for a fonte da matéria-prima.

Por outras palavras, o governante deixou em aberto a possibilidade da CALB ou um dos seus fornecedores poderem iniciar novas explorações deste metal no nosso país  Afinal, trata-se de um investimento de grande dimensão que irá necessitar de enormes quantidades de lítio para abastecer a fábrica.

Segundo o relatório Informação e Estatísticas do Lítio, da US Geological Survey, Portugal tem atualmente a maior reserva da Europa deste metal e a oitava maior do mundo, com um total de 60 mil toneladas.

Existem oito zonas de prospeção de lítio, sendo que Montalegre e a serra de Arga são as regiões com maior potencial. O País tem recebido inúmeros pedidos para a prospeção deste metal, mas, como a extração é feita a céu aberto, tem existido uma forte contestação por parte das populações locais e de grupos ambientalistas.

No final do ano passado, a Galp decidiu travar o projeto de construção de uma refinaria de lítio em Setúbal. Denominado projeto Aurora, esta refinaria iria abastecer a indústria de baterias através do aproveitamento das reservas de lítio portuguesas. A decisão foi tomada após os problemas financeiros da NorthVolt que entrou em processo de falência.

Nos meses seguintes, a Galp tentou encontrar novos parceiros para o negócio, mas não “obteve sucesso”, segundo informou a empresa à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em dezembro último. Este projeto era para estar pronto em 2026. O custo total estava estimado em 700 milhões de euros e contava com vários apoios da União Europeia, nomeadamente do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Uma longa espera

O interesse pela montagem de uma fábrica de baterias para carros elétricos em Portugal já vem de longe, mas, até agora, nenhum dos projetos se tinha concretizado.

A 11 de fevereiro de 2011, chegou a ser lançada a primeira pedra para a construção de uma fábrica de baterias para a Nissan. Tratava-se de um investimento de 156 milhões de euros, em Cacia, Aveiro, que iria criar cerca de 200 postos de trabalho. Em dezembro do mesmo ano, o construtor japonês anunciou o cancelamento do investimento, alegando que, após análise detalhada do plano de negócios, “as quatro fábricas espalhadas por todo o mundo seriam suficientes para os objetivos” da empresa.

Embora não tenha sido admitido por nenhuma das partes, na altura, especulou-se que a decisão tinha sido uma reação à decisão do governo de Passos Coelho de desinvestir na promoção da mobilidade elétrica, um projeto do governo anterior. A Nissan era então liderada pelo português Carlos Tavares, que tinha apostado em Portugal para desenvolver o plano de expansão europeu dos carros elétricos.

Em 2020, a Volkswagen colocou Portugal entre as possibilidades para a instalação de uma das seis megafábricas de baterias que o grupo alemão pretendia ter na Europa. Portugal era um dos destinos privilegiados para a unidade fabril, num investimento total de 10 mil milhões de euros, que serviria para alimentar as linhas de produção de carros elétricos das fábricas espanholas de Martorell, Catalunha, e Pamplona, Navarra.

A decisão acabou por recair sobre Valência. As obras começaram em março de 2023.

A nova fábrica da CALB de baterias de lítio para a indústria automóvel deverá estar concluída em 2028 e irá criar 1 800 novos postos de trabalho

Também o grupo Stellantis, que controla 14 marcas de automóveis, como a Peugeot, Fiat, Citroën, Jeep e Opel, admitiu, em 2023, que Portugal chegou a estar na mira para a instalação de uma unidade de baterias, com uma capacidade de 50 GWh, num investimento total de 4,1 mil milhões de euros. O projeto acabou em Saragoça.

Entre avanços e recuos, Portugal teve de esperar catorze anos desde que foi lançada a primeira pedra para a construção de uma fábrica de baterias para veículos elétricos. Com este investimento da CALB, o cluster automóvel nacional, que representa quase 6% do PIB e cerca de 23% das exportações de bens transacionáveis, dá um passo largo para se renovar e acompanhar a grande revolução que este setor está a atravessar com a transição para a mobilidade elétrica.

Tal como realçou o ministro da Economia, durante a cerimónia de lançamento deste projeto: “Num momento em que o setor automóvel atravessa tantos desafios, são investimentos como este que agarram em Portugal essa cadeia de valor e dão ao setor inteiro competitividade, produtividade e tecnologia.”

Palavras-chave:

A direção do BE passou as últimas semanas a fazer reuniões em concelhias, para dar explicações sobre os despedimentos de trabalhadoras do partido que tinham acabado de ser mães. Vários dirigentes andaram pelo País, em locais como Setúbal, Oeiras, Odivelas, Cascais, Torres Vedras ou Leiria, em encontros que serviram como sessões de esclarecimento. A decisão de falar sobre o tema “cara a cara” revela que a cúpula bloquista percebeu o potencial de estrago de uma polémica que punha em causa os pergaminhos feministas e de defesa dos direitos laborais do partido, mesmo que na direção do BE se garanta, agora, que o caso está sanado e que as justificações foram convincentes. A forma como o partido dispensou, entre 2022 e 2024, quatro mulheres acabou, porém, por levar a uma demissão na Comissão Política do partido de todos os elementos da oposição interna, a Moção E.

Elisa Antunes, Gabriela Mota Vieira, Pedro Soares e Ricardo Salabert saíram da Comissão Política alegando a “indisponibilidade para continuar a ser membros de um órgão esvaziado das suas competências”, depois de terem visto chumbada a proposta de constituição de uma “Comissão de Inquérito para avaliação e apuramento de responsabilidades coletivas e individuais no processo de despedimento de funcionários”.

Francisco Louçã e Pedro Soares O primeiro escreveu no Instagram que este foi o momento escolhido para a corrente de Pedro Soares, “que recusou a posição do Bloco a condenar a invasão da Ucrânia”, avançar para a criação de um novo partido. O segundo nega: “Isso não faz sentido nenhum”

Menos de duas semanas depois, era anunciada a desfiliação de mais de 70 militantes bloquistas em Portalegre, uma distrital até aí controlada por elementos afetos à Moção E. Na carta dirigida à direção, o líder da distrital Higino Maroto anunciava a demissão de toda a estrutura, apontando o dedo à “constante violação” da democracia interna e deixando críticas ao abandono a que o distrito tem sido votado, mas também ao despedimento de trabalhadores do partido, que aconteceu depois de o BE ter visto reduzida quase para metade a subvenção estatal por ter perdido votos nas legislativas. “É com grande mágoa que assumimos a decisão de nos demitirmos de um partido que foi em tempos a esperança e uma referência em termos de ética e de moral política e que os últimos casos vindos a público sobre despedimentos das e dos, suas e seus funcionárias/os nos veio acentuar mais a descrença no Bloco de Esquerda”, lia-se no texto.

Interior abandonado?

À VISÃO, uma fonte de Portalegre conta que o processo de desvinculação de militantes foi acontecendo ao longo de vários meses, com cada vez mais aderentes bloquistas a deixarem de ter atividade partidária no distrito ou a comunicarem informalmente a intenção de se desligarem do partido. “Eram pessoas que ao longo dos meses foram entrando em contacto com dirigentes concelhios e distritais, dizendo que queriam entregar os cartões ou desistir”, esclarece a mesma fonte, explicando com o facto de esta lista já ter sido feita há algum tempo e com a idade avançada de alguns dos militantes que se desfiliaram e acrescentado o dado – apontado em comunicado da direção do BE – que entre os nomes que saíram se encontra alguém que, entretanto, morreu.

“É um subterfúgio para não aceitar a realidade”, comenta o agora ex-militante sobre os erros detetados pela direção na lista de desfiliações, notando que a última vez que um coordenador do BE esteve em Portalegre “foi a Catarina Martins e ainda havia geringonça”. Para quem está no Interior, este “abandono” é visto como uma consequência da quase impossibilidade de eleger aí um deputado, uma vez que o método eleitoral faz com que os dois lugares disponíveis fiquem quase sempre para PSD e PS. “Desde essa altura, só veio a Portalegre um membro do secretariado. Não há investimento nenhum porque não há hipóteses de eleger.” Quando o partido teve de fazer cortes internos, em Portalegre também deixou de haver o trabalhador a meio tempo que aí prestava serviço, e noutros pontos do País as concelhias deixaram de conseguir ter uma sede física.

“Uma ofensiva comunicacional”

Visto da sede nacional do BE, na Rua da Palma, em Lisboa, este anúncio de uma saída em bloco de mais de 70 militantes – sendo que apenas 14 deles efetivaram a sua desfiliação até ao momento – parece “uma ofensiva comunicacional contra o Bloco”, como assume a direção num comunicado da Comissão Política no qual não poupa críticas à Moção E, que acusa de orquestrar saídas de militantes, comunicando-as aos poucos para causar impacto. “Nas próximas semanas, vão multiplicar-se na imprensa anúncios semelhantes”, vaticina a cúpula bloquista, vincando que “nunca uma saída coletiva tinha recorrido à intoxicação política nem ao abuso do nome de aderentes, incluídos em listas de demissão contra a sua vontade”.

Além destas acusações feitas em comunicado à Moção E, vários destacados bloquistas, como Francisco Louçã, Catarina Martins ou José Manuel Pureza usaram as redes sociais para um ataque duro aos críticos internos, tentando colá-los a uma posição de defesa da Rússia na invasão da Ucrânia. “Pensei que, quando Trump e Putin dançam em cima da Ucrânia, a lição ficaria evidente. Ou ainda há quem ache que Putin se opõe a Trump? Pois foi o momento escolhido para a corrente de Pedro Soares, que recusou a posição do Bloco a condenar a invasão, avançar para a criação de um novo partido. O sectarismo nunca aprende nada”, escreveu Louçã no Instagram. “A corrente Convergência optou por não medir-se na Convenção e sair com estrondo. A sua posição de abandono da Ucrânia à Rússia nunca venceu no Bloco e ainda bem. Sair agora é mau, sair assim não faz jus à nossa história”, partilhou Catarina Martins na mesma rede social.

Na direção bloquista, acredita-se mesmo que pode estar em marcha a criação de um novo partido. Uma convicção que é fundada na forma como nos últimos dias tem circulado por WhatsApp um “Manifesto por um Portugal Livre, Justo e Solidário”, que faz “um veemente apelo à participação das portuguesas e dos portugueses na vida pública” e que assume a intenção de “intervir com uma nova resposta política” que sirva para defender “os valores de Abril”.

Há muito tempo que nas alas descontentes do BE se fala na possibilidade de um novo partido de esquerda, mas a VISÃO não conseguiu confirmar qualquer movimentação nesse sentido, para lá deste manifesto que circula sem assinaturas.

Acusações de “ostracismo”

“Isso não tem sentido nenhum”, reage Pedro Soares à VISÃO sobre um alegado plano para formar um partido, assegurando que as saídas de Portalegre não foram orquestradas pela Moção E, repudiando como “uma falsidade” a ideia de que o grupo de que faz parte alguma vez tenha hesitado em condenar a invasão da Ucrânia. “O que sempre dissemos foi ‘Putin fora da Ucrânia, NATO fora da Europa’”, afirma Soares, que explica que a sua corrente defendeu sempre que “o foco não devia ser o armamentismo, mas um processo de paz”.

Um comunicado da Comissão Política denuncia a orquestração
de saídas de militantes
“comunicando-as aos poucos, para causar impacto”

O mal-estar com aquilo a que Pedro Soares chama a “maioria monolítica no secretariado” (um órgão operacional que a Moção E acusa de, ilegitimamente, se sobrepor à Comissão Política) leva estes críticos internos a, desta vez, não irem a votos com uma moção à Convenção do Bloco, marcada para 31 de maio e 1 de junho. A opção de não concorrer aos órgãos não significa, contudo, que estejam de saída. “Vamos continuar a intervir a partir da base, a procurar influenciar a que haja uma mudança de rumo”, garante Pedro Soares, que acusa a direção de “ostracizar” as tendências que são estatutariamente permitidas no BE. “Nenhum de nós participa em listas para nada. Nem legislativas, nem autárquicas, nem grupos de trabalho, nem somos convidados para falar em comícios, nem debates, nem sessões. Nada, mas rigorosamente nada”, critica.

De resto, a Moção E condena a forma como a direção encabeçada por Mariana Mortágua vai levar à Convenção uma moção sem qualquer autocrítica. “Não tem um pingo de reconhecimento de erros, não tira lições dos insucessos eleitorais nem da aproximação ao centro, da incapacidade para polarizar à esquerda, da perda de militância e da deterioração da democracia interna. Demonstra querer que tudo fique na mesma”, escrevem os críticos no texto em que justificam a decisão de não ir a votos e no qual criticam a forma como a direção tem recusado a atualização dos cadernos eleitorais do partido e rejeitado propostas de alteração aos estatutos, o que, segundo a Moção E, “esvazia os órgãos intermédios e nacionais” e garante “lugares ad aeternum”.

No Bloco, as várias moções têm a possibilidade de eleger elementos para os órgãos do partido, de acordo com a sua representatividade, mas a Moção E entende que já não faz sentido ter assento em órgãos liderados por uma maioria com a qual as pontes se têm quebrado. “Para haver uma mudança tem de ser por ação da base. A partir dos órgãos é impossível”, conclui Pedro Soares.

Palavras-chave:

“É importante que o povo ucraniano saiba que não está sozinho, que os seus interesses estão representados em todos os países, em todos os cantos do mundo”, escreveu Volodymyr Zelensky numa publicação na sua conta oficial de Telegram este sábado. “Obrigado pelo vosso apoio durante este momento difícil, por todos os vossos esforços pela Ucrânia e pelos ucranianos, e pela vossa ajuda, não apenas diplomática e financeira, mas também política, e pelas vossas orações”, lê-se.

O líder da Ucrânia esteve reunido esta sexta-feira com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o seu ‘vice’, JD Vance, na Sala Oval da Casa Branca, em Washington, para assinar um acordo sobre minerais. Mas o encontro, com transmissão em direto nas televisões, acabou por terminar mais cedo, após o Presidente norte-americano e o seu ‘vice’ acusarem Zelensky de ser “desrespeitoso”. “Você está a apostar com a Terceira Guerra Mundial e o que você está a fazer é muito desrespeitoso com o país, este país que o apoiou muito mais do que muitas pessoas dizem que deveria ter sido feito”, disse o chefe de Estado norte-americano.

Após o encontro, Donald Trump anunciou que não continuará as negociações com a Ucrânia e que Volodymyr Zelensky poderá regressar a Washington quando “estiver pronto para a paz”.

Zelensky vai encontrar-se com Keir Starmer

O Presidente da Ucrânia vai encontrar-se este sábado com Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, em Londres, no Reino Unido, segundo o porta-voz do líder britânico. Zelensky já está em Inglaterra.

Está ainda marcada uma reunião para este domingo com os líderes europeus com o objetivo de avaliar um acordo de paz na Ucrânia.

Emmanuel Macron foi recebido esta sexta-feira na Câmara do Porto, no último de dois dias de visita de Estado a Portugal. O líder francês foi acompanhado por Luís Montenegro, primeiro-ministro português, e Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, que lhe entregou as Chaves da Cidade. “A França sempre foi e é um defensor incansável do projeto europeu”, defendeu antes da cerimónia.

Macron e Montenegro assinaram uma série de acordos bilaterais, incluindo um acordo de amizade e um acordo de cooperação franco-portuguesa e uma carta de intenções no domínio do armamento. O presidente francês, através de uma conferência de imprensa, agradeceu a hospitalidade da cidade do Porto e salientou a importância dos acordos assinados durante a tarde. “Todos os assuntos que hoje abordámos estão no centro da nossa relação bilateral, mas são também para tornar a Europa mais forte”, referiu, sublinhando que o reforço da ligação entre Portugal e França deverá refletir-se no resto do continente europeu.

O frente a frente no n.º 1300 da Pennsylvania Avenue, em Washington, não foi um grande espetáculo. No primeiro dia de fevereiro, um grupo de homens ao serviço de Elon Musk dirigiu-se à Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a poucos quarteirões da Casa Branca, exigindo acesso total à sua sede. Os funcionários da agência recusaram. Ninguém sacou de armas. Ninguém andou à pancada. Ninguém chamou a polícia. Mas, nestes primeiros dias da Administração Trump, talvez nenhuma outra cena tenha revelado tão claramente as forças que estão a remodelar o governo norte-americano.

De um lado, uma instituição com 64 anos de história, um orçamento de 35 mil milhões de dólares [33,5 mil milhões de euros] e uma missão consagrada na lei federal. Do outro, os membros da equipa de destruição política de Musk. Estes identificaram-se como membros do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), um conjunto de funcionários temporários, sem estatuto, sem site na internet e sem autoridade legal clara, cujo poder emana da pessoa mais rica do planeta [com uma fortuna avaliada em 314 mil milhões de dólares – mais 54 mil milhões desde que Trump chegou ao poder, graças à valorização em bolsa das empresas Tesla e SpaceX, segundo a revista Forbes.]. Elon Musk foi nomeado pelo Presidente para desmantelar vários setores do aparelho burocrático federal – reduzindo orçamentos, esvaziando a função pública e retirando às agências independentes a capacidade de impedir a concretização dos objetivos de Trump.

Ao comando Na Sala Oval, até Donald Trump já tevede dividir o protagonismo com Elon Musk… e o seu filho Foto: Aaron Schwartz/ Pool/ LUSA

A direção da USAID permitiu que a equipa de Musk, um grupo de seguidores, jovens e ambiciosos, passasse vários dias na sede da agência, no final de janeiro. “Os putos do DOGE”, como alguns funcionários a eles se referiram em privado, percorreram os corredores com pranchetas na mão, examinando secretárias e questionando chefias, segundo testemunhas ouvidas pela Time.

No entanto, chegado o fim de semana, as suas exigências – incluindo o acesso a instalações sensíveis que guardam informação confidencial – foram longe de mais para os chefes de segurança da agência. A equipa do DOGE ameaçou chamar os U.S. Marshals para que evacuassem o edifício. Também informaram Musk sobre o problema. Pouco depois, dirigindo-se aos seus 215 milhões de seguidores na rede social X (antigo Twitter), Musk escreveu: “A USAID é uma organização criminosa. Chegou a hora de morrer.”

Ainda se desconhecem as razões da cruzada de Musk. Mas, sejam quais forem, a realidade é que, no dia seguinte, uma agência que todos os anos desembolsava dezenas de milhares de milhões de dólares em todo o mundo, combatendo casos de fome e doença, levando água potável a milhões de pessoas, ficou praticamente paralisada. Em apenas uma semana, foram dispensados quase todos os seus 10 mil funcionários e encerradas as suas bases espalhadas por mais de 100 países.

Todos os outros departamentos governamentais receberam esta mensagem em alto e bom som. Nunca nenhum cidadão comum, e muito menos um cuja riqueza e rede de negócios estão diretamente sujeitas à supervisão das autoridades federais, exerceu um tal poder sobre a máquina do governo dos Estados Unidos da América. Até agora, Musk só parece responder perante Trump, que entregou a este benfeitor da sua campanha eleitoral [de quem recebeu mais de 250 milhões de dólares] um mandato abrangente para alinhar a governação com a sua agenda. O DOGE encaminhou todas as perguntas da Time para a Casa Branca, que se recusou a comentar.

“Deixá-los traumatizados”

[A equipa do DOGE já procedeu a despedimentos em 15 agências federais, segundo o diário The Washington Post e a agência Associated Press. Os cortes abrangeram, nomeadamente, o Departamento de Energia ‒ onde 350 funcionários responsáveis pelos programas de armas nucleares foram obrigados a rescindir os seus contratos, para serem readmitidos horas depois, só 50 terão aceitado regressar ‒; o Departamento de Assuntos dos Veteranos e o Departamento de Educação; o Departamento de Saúde e o Departamento de Segurança Interna; o Departamento de Justiça e o Departamento de Estado. Musk está também a tentar aceder aos dados financeiros e fiscais de milhões de contribuintes guardados, sob sigilo, nos sistemas de informação do Internal Revenue Service (IRS), a autoridade tributária dos EUA.

No dia 20 de fevereiro, o jornal The New York Times revelou que Trump e Musk têm planos para “eliminar, quase na totalidade, o Office of Community Planning and Development, que pertence ao Departamento de Habitação, responsável pela recuperação do território depois de catástrofes, suscitando dúvidas sobre como será a reconstrução depois de furacões, incêndios florestais e outras calamidades agravadas pela alterações climáticas”.]

Elon Musk tem demonstrado que não tolera qualquer oposição, por mais justificada que seja. Dias antes do drama na USAID, um funcionário do Departamento do Tesouro recusou dar ao DOGE acesso ao sistema federal de pagamentos dos EUA. O funcionário foi obrigado a reformar-se e o recém-nomeado secretário do Tesouro, Scott Bessent, deu ao DOGE o acesso que este exigia. No dia 5 de fevereiro, a Administração Trump aceitou restringir o acesso, pelo menos temporariamente, depois de um grupo de antigos e atuais funcionários ter instaurado um processo judicial.

Estas são apenas as primeiras ondas de uma enorme vaga antigovernamental. Orçamentos serão pirateados. Programas valiosos serão eliminados. Funcionários com carreira na função pública serão saneados e substituídos por outros nomeados politicamente, cuja principal qualificação é a aparente fidelidade ao Presidente. Este é o caminho que o eleitorado norte-americano escolheu. E, para muitos, a ideia de um dos empresários mais bem-sucedidos do mundo poder atacar uma burocracia federal esclerosada e em expansão à mesma velocidade e com a mesma determinação que aplicou às suas empresas de automóveis e foguetões é motivo de celebração – não de alarme.

Por todo o mundo, milhões de pessoas que dependem dos EUA para obter alimentos, medicamentos e abrigo ficaram subitamente entregues a si mesmas

“O Governo federal é tão grande que haverá certamente oportunidades significativas para poupança e eficiência”, acredita Robert Doar, presidente do American Enterprise Institute, um think tank conservador de centro-direita. “O facto de o Presidente e a sua equipa estarem a dar muita atenção a este problema é algo bom.” Mas parece que cresce a oposição pública à missão de Musk, e está em jogo muito mais do que o tamanho do orçamento federal, a contagem de funcionários em agências na cúpula do governo, ou os perigos de um homem não eleito deter um poder ilimitado.

Em breve, os norte-americanos vão ficar a saber que quando interagiam com o governo federal havia coisas que desconheciam ou consideravam garantidas. Por exemplo, empresas que exportam produtos tecnológicos para a China poderão deixar de ter funcionários do Departamento de Estado ou do Departamento do Comércio disponíveis para lhes explicar – gratuitamente – como evitar violar o direito penal. Agricultores do Midwest talvez venham a descobrir que compradores antes financiados pela USAID vão deixar de pagar os sacos de farinha que enviavam para campos de refugiados.

Por todo o mundo, milhões de pessoas que dependem dos Estados Unidos da América para obter alimentos, medicamentos e abrigo ficaram subitamente entregues a si mesmos. [Na Etiópia, um parceiro estratégico no volátil Corno de África, o impacto está a ser devastador, destaca o jornal britânico The Guardian. Em 2024, cerca de 16 milhões de etíopes, metade dos quais crianças subnutridas, recebiam cereais comprados a agricultores norte-americanos e fornecidos pela USAID através das Nações Unidas e da ONG Catholic Relief Services. A agência dissolvida por Musk também investia milhões de dólares em hospitais e cuidados de saúde (os casos de malária cresceram, em cinco anos, de 900 mil para 2,4 milhões), na criação de empregos, na promoção da educação e na assistência humanitária a um milhão de refugiados vindos do Sudão e do Sudão do Sul, da Eritreia e da Somália.]

Milhões de funcionários públicos nos EUA estão agora à mercê de Donald Trump. Uma funcionária explicou que a sua equipa no Departamento de Segurança Interna adotou uma “posição defensiva”, enquanto aguardava a visita do DOGE. Para terem uma ideia do seu destino, revelou ela, os colegas recorreram ao livro Character Limit: How Elon Musk Destroyed Twitter, que narra a forma como, em 2022, o multimilionário nascido na África do Sul assumiu o controlo do Twitter e despediu 80% do pessoal, muitas vezes com resultados caóticos e permanentes.

As semelhanças com o ataque de Musk à burocracia federal são estranhas. Em 28 de janeiro, milhões de funcionários públicos de todo o governo receberam um email a oferecer-lhes oito meses de salário em troca da sua demissão. Dois anos antes, Musk propusera o mesmo aos que trabalhavam para o Twitter. Até usou a mesma linha de assunto: “Bifurcação na estrada.”

Nada disto aconteceu sem aviso prévio. Entre os amigos de Musk em Silicon Valley, muitos entenderam a sua compra do Twitter como a preparação para uma causa maior. “O clima é de esperança de que Musk possa fazer a mesma coisa com o governo dos EUA”, confessou um deles à Time, em novembro. Veteranos da primeira Administração Trump também expuseram os seus planos muito antes das eleições, ao publicarem um relatório de 900 páginas designado Project 2025 [“Projeto 2025”]. Um dos seus principais autores, Russell Vought, admitiu, num discurso proferido há dois anos, que desejava ver os funcionários públicos “afetados traumaticamente” pela purga que ele imaginava. “Queremos cortar-lhes o rendimento”, ameaçou. “Queremos deixá-los traumatizados.”

Durante a campanha eleitoral, Trump jurou que não tinha nada que ver com o Projecto 2025. “Não foi correto eles apresentarem um documento destes”, comentou ele, numa entrevista à Time em novembro. “Discordo veementemente de algumas coisas.” Contudo, uma vez na presidência, Trump fez de Vought o responsável pelo Gabinete de Gestão e Orçamento da Casa Branca, agora a trabalhar em estreita colaboração com Musk para aprovar partes cruciais do Projeto 2025. Dois terços das recomendações deste projeto já foram adotadas por Trump assim que regressou ao poder, segundo uma análise da Time.

Aceder a dados cruciais

Elon Musk nunca escondeu as suas intenções. Duas semanas após as eleições de novembro, publicou um artigo no diário The Wall Street Journal [coassinado pelo empresário e político Vivek Ramaswamy, que ele rapidamente afastou da liderança do DOGE], prometendo ajudar Trump a “contratar uma equipa de cruzados a favor de um governo pequeno”, com o propósito de “reduzir em massa o número de funcionários de toda a burocracia federal”.

A ação de recrutamento começou logo após as eleições, recorrendo a acólitos de Musk em Silicon Valley, alguns deles recém-saídos da faculdade, e preparando-os para atuarem em Washington. O homem que Musk encarregou da contratação do pessoal para o DOGE é o engenheiro aeroespacial Steve Davis, que anteriormente conduziu a operação de redução de custos no Twitter.

No final de dezembro, enquanto se organizava a transição presidencial na Casa Branca, Davis participou numa série de reuniões com a Administração Biden. Os funcionários democratas notaram a fixação de Davis num ramo obscuro da Casa Branca chamado U.S. Digital Service [USDS, Serviço Digital dos Estados Unidos]. Ele queria saber como funcionava, a quem reportava e a que é que podia aceder.

Criado em 2014, o USDS trabalhava com as agências federais para melhorar os sistemas informáticos e as bases de dados do país. Possuía um mapa das infraestruturas tecnológicas do governo e tinha pontos de contacto com quem é responsável pela tecnologia em quase todas as agências federais. Seria, pois, o local ideal para acolher o DOGE. Se Musk quisesse amputar as pernas do governo federal, o USDS facultaria as veias que deixariam fluir o veneno.

O empoderamento do USDS começou no dia da tomada de posse de Trump, que, numa das suas primeiras ordens executivas, lhe deu o nome de “United States DOGE Service”, preservando assim o acrónimo do gabinete. A referida ordem também assegura que a nova entidade, entretanto instalada nos departamentos de Estado e do Tesouro, responderá diretamente ao chefe de gabinete da Casa Branca, tendo começado a aceder aos sistemas informáticos do pessoal, a despedir contratados e a bloquear pagamentos de contratos firmados.

Protestos “Não temos um quarto ramo de governo chamado Elon Musk”, dizem muitos manifestantes

Musk também enviou o DOGE para o Office of Personnel Management (OPM), o departamento de recursos humanos que detém os registos de 2,1 milhões de trabalhadores e os endereços de correio eletrónico de quase todos os funcionários federais, que rastreia, por anos, seguros de saúde no valor de 59 mil milhões de dólares e pensões de reformados federais num total de 788 mil milhões de dólares. A primeira proposta para demissões em massa dos funcionários públicos foi feita pela equipa de Musk precisamente no OPM, revelou uma fonte bem informada. (Tanto o DOGE como a Casa Branca recusaram-se a comentar.) A seguir, o DOGE começou a matar à fome o próprio OPE. Brian Bjelde, até recentemente vice-presidente de recursos humanos da empresa aeroespacial de Musk, informou supervisores de carreiras no OPM que o “objetivo” é reduzir 70% do pessoal, uma medida que irá prejudicar quem trata dos benefícios de saúde e do planeamento das reformas, explicou um funcionário atual.

Alguns responsáveis no OPM deixaram de ter acesso a bases de dados importantes, referiu o mesmo funcionário, mas os nomeados políticos têm acesso aos sistemas, incluindo ao Enterprise Human Resources Integration, sem os procedimentos de salvaguarda concebidos para manter privadas estas informações. O sistema inclui informações como escalões salariais, tempo de serviço, números da Segurança Social, datas de nascimento e endereços residenciais.

Dias após a investidura de Trump, a Casa Branca ordenou o congelamento das despesas federais – de ajuda externa a programas de saúde pública, e tudo o que está no meio. O congelamento só seria cancelado, segundo a Administração, à medida que as agências fossem cumprindo a agenda do Presidente: reprimir a imigração; acabar com os programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI); suspender investimentos que reduzem o impacto dos combustíveis fósseis no ambiente. Perante a intervenção de um tribunal, a Casa Branca revogou a ordem.

“Ouvimos histórias bizarras”

Continuou, porém, o plano de Musk de redução de efetivos, com a bênção de Trump. “Elon não pode fazer – e não fará – nada sem a nossa aprovação”, garantiu o Presidente, num encontro com jornalistas na Sala Oval, em 4 de fevereiro. “Terá a nossa aprovação se for apropriado; se não for, não o faremos.” Muitos interpretaram isto como um sinal de que Trump poderá tentar controlar o seu cão de fila. Mas os funcionários públicos não estão à espera que isso aconteça.

Na Virgínia do Norte, onde vivem dezenas de milhares de trabalhadores ao serviço do governo federal e militares, uma reunião municipal na cidade de Leesburg atrai habitualmente algumas dezenas de pessoas. Mas foram centenas as que se reuniram na noite em que Musk encerrou a USAID. [Segundo a agência AP, “só cerca de 20% dos 2,4 milhões de funcionários públicos federais civis estão em Washington: mais de 80% da força ativa vive fora da capital”.]

“Ouvimos histórias bizarras”, disse um dos oradores, Suhas Subramanyam, congressista democrata na Câmara de Representantes do estado. Numerosos funcionários acorrem ao seu gabinete a relatar a entrada em funções do DOGE e Subramanyam instruiu o seu pessoal a gravar estes testemunhos e a ajudar os denunciantes. Muito do que eles observaram “é simplesmente ilegal”, insistiu o congressista, em declarações à Time. “Estamos quase a ser postos à prova e desafiados a processar ou a investigar.”

Algumas ações judiciais resultaram. A Casa Branca cumpriu ordens de tribunais que bloquearam a sua tentativa de congelar biliões de dólares em despesas federais. A decisão de um juiz, a 6 de fevereiro, atrasou o prazo para os funcionários públicos responderem às propostas de rescisões. Sindicatos interpuseram outras ações judiciais relacionadas com o DOGE, em nome de trabalhadores federais. Até admiradores habituais de Musk avisaram-no de que está a exagerar. “Já estão a correr processos judiciais”, advertiu um editorial do Wall Street Journal, em 4 de fevereiro. “Se ele não tiver cuidado, os tribunais vão fazer descarrilar o projeto do Sr. Musk antes mesmo de arrancar.”

Até admiradores habituais de Musk o avisaram de que está a exagerar. “Já estão a correr processos judiciais”, advertiu um editorial do Wall Street Journal

No Capitólio, em Washington, sede do Congresso dos EUA, o ataque de Musk à burocracia federal desencadeou uma batalha com os democratas que poderá determinar o futuro do governo e, aqui, o equilíbrio de poderes. “Não temos um quarto ramo de governo chamado Elon Musk”, realçou Jamie Raskin, democrata de Maryland, perante uma multidão à porta da sede da USAID na tarde de 3 de fevereiro, quando os homens do DOGE tentavam impor as suas exigências no interior do edifício.

Jamie Raskin tem razão, mas os funcionários da USAID que o ouviam na Pennsylvania Avenue, sem saber se ainda tinham emprego, desconhecem quanto poder Elon Musk adquiriu e se irá tentar submeter à sua vontade outros ramos do governo.

Uma funcionária parecia bastante cética. Sim, disse ela à Time, a Constituição dos Estados Unidos da América concede ao Congresso a exclusiva competência de controlar as despesas do governo, mas Musk já demonstrou que tem poder para a retirar. “Os democratas não podem fazer muito”, lamenta ela, que não quis identificar-se para não atrair mais atenção do DOGE. A sua conta de email foi encerrada e já não pode voltar ao seu posto de trabalho na agência. Tal como milhares de colegas seus e milhões de outros norte-americanos, ela assiste às jogadas de Musk, perguntando-se até onde irá ele, e quem ou o quê o poderá, ou não, impedir. 

– Com Eric Cortellessa, Philip Elliott, Nik Popli e Tessa Berenson Rogers, em Washington

O grande demolidor

Milhares de funcionários públicos foram despedidos ou demitidos no primeiro mês da Administração Trump, a maioria por ordem do novo Departamento de Eficiência Governamental, liderado por Elon Musk. Não há ainda números oficiais sobre o total de demissões ou dispensas. Mas conhecem-se os organismos mais atingidos pelo congelamento de biliões de dólares de subsídios federais

Foto: Dreamstime

­— Programade demissão voluntária
Cerca de 75 000 funcionários federais aceitaram a oferta da Casa Branca de se demitirem a troco de uma indemnização equivalente a oito meses de salário. O programa, entretanto suspenso por um juiz, visava reduzir a força de trabalho em 5% a 10% – essa meta, segundo temem os sindicatos, pode ser alcançada através de despedimentos. A Administração Trump também deu ordens para que os vários departamentos e agências afastassem todos os trabalhadores que ainda não completaram um ano de serviço e que estão, por isso, num período de estágio, à experiência. A medida pode afetar 220 mil funcionários.

­— Defesa
A nova liderança do Pentágono prevê reduzir a força de trabalho civil, avaliada em mais de 700 mil funcionários, em 5% a 8%, mas os militares não serão abrangidos. A 13 de fevereiro, o Departamento dos Assuntos de Veteranos anunciou a demissão de mais de mil funcionários.

­— Energia
Centenas de funcionários federais pertencentes aos programas de armas nucleares foram demitidos a 13 de fevereiro, mas depois muitos tiveram de ser reintegrados por questões de segurança.

­— Ajuda externa e desenvolvimento
Logo na primeira semana no cargo, Trump emitiu uma ordem executiva determinando a suspensão, durante três meses, da maior parte da assistência financeira no estrangeiro, decretando, na prática, o fim imediato de milhares de programas humanitários, de desenvolvimento e de segurança financiados pelos EUA em todo o mundo. Sem dinheiro para pagar ordenados, organizações como a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional começaram a demitir centenas de funcionários.

­— Serviço de Parques Nacionais
Segundo a Associated Press, a Administração Trump demitiu cerca de mil funcionários recém-contratados, responsáveis pela manutenção e pela limpeza dos parques naturais, além de outros serviços educativos. Para aumentar a confusão, o serviço de parques anunciou que iria contratar cinco mil trabalhadores a termo certo, para os meses de verão, quando 428 parques, locais históricos e outras atrações do país recebem mais de 325 milhões de visitantes.

­— Saúde
A 14 de fevereiro, autoridades do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças foram informadas de que iriam perder cerca de um décimo dos seus empregados. A razia entre os funcionários com menos de um ano de serviço atingiu também diversas agências de saúde pública, incluindo os Institutos Nacionais de Saúde, a FDA e os Centros de Serviços Medicare e Medicaid.

­— Segurança interna
Departamento de Segurança Interna
Cerca de 400 pessoas foram dispensadas, em especial naAgência Federal de Gestão de Emergências, na Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (que supervisiona a infraestrutura crítica do país, incluindo os processos eleitorais) e no Serviço de Cidadania e Imigração.

­— Agricultura
A responsável da pasta, Brooke Rollins, disse a 14 de fevereiro que a sua agência convidou a equipa DOGE de Elon Musk de “braços abertos” e que as demissões “serão iminentes”, prevendo-se que atinjam cerca de dois mil funcionários. A 19 de fevereiro, o departamento procurou recontratar vários trabalhadores que estavam envolvidos na resposta do governo ao surto de gripe aviária, e que se encontravam entre os milhares de funcionários federais eliminados por recomendações de Musk.

TIME
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Traduzido da TIME Magazine e publicado com a autorização da TIME Inc.

A reorganização das urgências pediátricas arranca este sábado, com um novo modelo que tem em conta que o número de doentes pouco urgentes e não urgentes oscila entre 40% e os 50% dos atendidos nas urgências, mas também que o atual número de especialistas é insuficiente para manter abertas todas as urgências de pediatria das Unidades Locais de Saúde (ULS).

“Claramente que é um novo paradigma. É um projeto-piloto que vamos avaliar em três meses, mas já numa área muito grande e esse é o caminho. Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso”, disse à agência Lusa o coordenador da Comissão Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente.

Segundo Caldas Afonso, os Centros de Atendimento Clínico Pediátrico (CAC-P) destinam-se a doentes com triagem “verde” (pouco urgente) e “azul” (não urgente), com o do Porto a entrar em funcionamento no sábado no Hospital da Prelada, enquanto em Lisboa ainda decorre o concurso para a sua abertura.

O CAC-P do Porto vai abranger os utentes das ULS de São João, Santo António, de Matosinhos e Gaia-Espinho, enquanto o de Lisboa será direcionado para os utentes das ULS de Santa Maria, São José e de Lisboa Ocidental.

Estes novos centros pediátricos terão equipas dedicadas de médicos, enfermeiros e auxiliares, com a presença mínima obrigatória de um pediatra, responsável pela coordenação, funcionando entre as 08:00 e as 23:00 todos os dias da semana e com a disponibilização de exames complementares de diagnóstico.

“Vai haver uma oferta até às 23:00 de altíssima qualidade em que as pessoas têm uma resposta de proximidade nas áreas metropolitanas para as situações mais básicas e mais simples e que não têm de ir a uma urgência hospitalar”, salientou Caldas Afonso.

O projeto-piloto de reorganização envolve os serviços de urgência pediátrica da região de Lisboa e Vale do Tejo, de Leiria e da Área Metropolitana do Porto, assim como várias outras ULS que decidiram aderir à iniciativa, num total de cerca de 20 hospitais do país.

Na prática, o acesso à urgência referenciada passa a ser possível através de uma pré-triagem telefónica da linha SNS Criança e Adolescentes (uma derivação do SNS24), assim como para casos encaminhados pelo INEM, pelos centros de saúde ou por outra instituição de saúde, pública, privada ou social com informação assinada por médico.

Para quem aceder à urgência sem ter uma referenciação prévia, os hospitais devem assegurar um meio de contacto com a linha SNS 24, através do serviço administrativo ou de um telefone instalado no local.

Se o utente recusar ou, se por outra razão, não for possível encaminhamento através do SNS, deve ser assegurada a sua inscrição no serviço de urgência e posterior triagem, de acordo com o definido nesta reorganização, que prevê várias situações em que é obrigatória uma avaliação do doente em serviço de urgência de pediatria.

Todas as crianças com menos de seis meses serão obrigatoriamente avaliadas no serviço de urgência, assim como utentes acamados ou em cadeira de rodas, sem possibilidade de mobilização por meios próprios, vítimas de trauma, situações cardiovasculares agudas, casos de agressão e de quedas, com traumatismo crânio-encefálico e convulsões, entre muitas outras.

Esta reorganização prevê também a disponibilização de consultas aberta nos cuidados de saúde primários para doentes triados como pouco urgentes (verdes) e uma observação diferida mediante agendamento de consulta para os casos não urgentes (azuis).

O novo modelo de funcionamento “é do interesse dos doentes e é do interesse dos profissionais” de saúde, salientou Caldas Afonso, adiantando que se trata de uma solução para responder, com qualidade e previsibilidade, à falta de especialistas no Serviço Nacional de Saúde, que levam cerca de 15 anos a formar.

“As pessoas já estão a perceber que é melhor para elas, porque não vão estar a perder tempo a ir para um sítio com horas de espera e vão ter uma resposta de acordo com a sua situação clínica num ambiente seguro e com qualidade de instalações e de atendimento”, considerou o especialista.

Luís Montenegro disse no Parlamento, durante o debate da moção de censura, que a consultoria em proteção de dados prestada pela Spinumviva era feita com recurso a colaboradores externos. Foi preciso o Expresso revelar que uma das avenças da sua empresa familiar era com o grupo Solverde, no valor de 4500 euros, para serem revelados os nomes desses especialistas.

Em comunicado, emitido poucas horas depois de Luís Montenegro voltar a dizer aos jornalistas que entendia que deviam ser os clientes a revelar a ligação à consultora ou dar autorização para isso, a Spinumviva não só deu uma lista de empresas com as quais mantém avenças, como revelou os nomes dos dois colaboradores externos que prestam o serviço de consultadoria.

André Costa e Inês Patrícia são apresentados com uma breve nota curricular para cada um deles, nas quais ficam claras as competências específicas que lhes permitem prestar o serviço de consultadoria na área da proteção de dados, competências que nem a mulher de Luís Montenegro nem os seus dois filhos – os sócios da empresa – ostentam no seu currículo.

Mas quem são, afinal, estes colaboradores que, segundo os dados financeiros da Spinumviva a que a VISÃO teve acesso ganharam pouco mais de 66 mil euros em 2023, ano em que a empresa faturou 235 216,00 euros, e cerca de 68 mil euros em 2022, quando a empresa faturou 415 100 euros?

Inês Patrícia é, afinal, Inês Patrícia Varajão Borges, casada com João Rodrigues, o candidato do PSD à Câmara de Braga, que foi sócio fundador do escritório de advocacia de Hugo Soares, líder parlamentar do PSD e secretário-geral do partido.

A informação é confirmada à VISÃO pelo próprio Hugo Soares, que diz não ter ideia de que André Costa alguma vez tenha trabalhado para o seu escritório.

A VISÃO contactou o gabinete do primeiro-ministro para perceber se havia algum comentário a fazer sobre estes colaboradores, mas não obteve qualquer resposta.

Dona do Correio da Manhã não consta da lista de clientes

Na lista de empresas que são clientes da Spinumviva, revelada pela própria empresa, estão a Lopes Barata, Consultoria e Gestão, Lda, o CLIP – Colégio Luso Internacional do Porto, a SA; FERPINTA, SA, o grupo Solverde, SA e a Radio Popular, SA.

Não consta dessa lista a Cofina, apesar de o próprio primeiro-ministro ter dito ao Correio da Manhã, que essa empresa tinha sido sua cliente, numa altura em que detinha o diário.

Não foi dada qualquer justificação para essa omissão ou dito se há outras omissões.

 A CNN adiantou, entretanto, que entre as várias empresas que constam na lista fornecida pela Spinumviva, há um elo em comum: a família Violas, uma das mais ricas do País.