Em cima da bancada da casa de banho de Bryan Johnson, no primeiro andar da sua mansão em Los Angeles, há um monte de cremes de beleza e um termómetro. Todos os dias, antes de o despertador tocar pelas 5h da manhã, o multimilionário norte-americano levanta-se, toma os três comprimidos deixados de véspera na mesa de cabeceira e mede a temperatura corporal num ouvido, frente a uma caixa de luz que imita a exposição solar.
O termómetro é pequeno, aparentemente vulgar, e dá o resultado em segundos, vemos no início do documentário Imortal: O Homem que Quer Viver para Sempre (2025). Nada de mais, não fosse o protagonista estar em tronco nu para todos nós apreciarmos a sua boa forma física, pouco habitual numa pessoa com 47 anos, e não o acompanhássemos depois até ao rés do chão virado para o jardim, ao estilo californiano, para assistir à rotina diária que segue meticulosamente.

Na cozinha, Johnson tem uns frascos com mais 54 comprimidos, incluindo metformina e rapamicina (já lá iremos), que engole com uma bebida a que chama “gigante verde”. Só após uma hora de treino no seu ginásio é que come uma grande travessa de legumes variados e temperados. E a última refeição do dia, uma refeição nutritiva à base de frutos frescos e secos, é tomada logo às 11h da manhã, juntamente com mais 34 comprimidos.
Pelo meio, e até se deitar, sempre às 8h30 da noite, o homem que se autodenomina “o ser humano mais comedido do mundo” faz uma série de terapias, obedecendo a um protocolo rígido, desenhado pelo jovem médico e investigador britânico Oliver Zolman, que tem um orçamento anual de dois milhões de dólares para tentar reverter o envelhecimento biológico do seu paciente e parceiro de negócios. “Não poderia existir melhor cobaia”, diz Zolman, e rapidamente se percebe porquê.
Quando Johnson anunciou o projeto Blueprint, em outubro de 2021, disse que já tinha resultados para mostrar porque a sua jornada começara um ano antes, ao “despedir” o “Bryan Notívago”. Multimilionário desde que vendera, em 2013, a Braintree, uma empresa de pagamentos eletrónicos, não estava a gozar a sua fortuna de 100 milhões de dólares porque se sentia a caminho de uma morte prematura. Decidira, então, atingir a idade biológica mais baixa possível e estava disposto a fazer sacrifícios.
RECEBER PLASMA DO FILHO
Os primeiros três anos de Blueprint foram passados a dominar o básico: sono, dieta, exercício. Só depois Zolman avançou com as intervenções menos ortodoxas. No documentário, vemos Johnson a ser constantemente monitorizado pela equipa médica e a fazer a sua primeira terapia genética, afirmando que já reverteu a idade biológica em cinco anos. “A minha velocidade de envelhecimento é de 0,69 – ou seja, a cada 12 meses, envelheço oito meses.”
O dia a dia de Bryan Johnson é assumidamente um projeto científico para ver quantos anos vai conseguir manter-se vivo e saudável. Não tem sequer um limite na mira. Cem anos? Cento e vinte? Há um ano, numa entrevista à revista Fortune, disse que a sua própria mortalidade não está em causa. O seu objetivo é provar que os seres humanos têm uma “cláusula de exclusão para o aparentemente inevitável [a morte]” – se estiverem dispostos a afastar-se da norma. “Não sabemos até onde isto [a vida] pode ir. É um fim em aberto.”
Viver mais anos é naturalmente um sonho perseguido por muitos, já há muito tempo, e a tentativa de travar o envelhecimento esteve durante séculos nas mãos de mentes muito criativas. O rodapé que temos nas páginas seguintes faz uma resenha das teorias da longevidade mais estranhas que foram surgindo, desde comer cérebro de macaco até à vasectomia a que Sigmund Freud se submeteu alegadamente para retardar um cancro no maxilar. Uma linha do tempo que termina nos anos 1930, quando um homem chamado Giocondo Protti anunciou ter conseguido rejuvenescer velhos através de transfusões de sangue de dadores jovens.

Quase um século mais tarde, Johnson recebeu plasma sanguíneo do seu filho Talmage, hoje com 19 anos, mas Zolman concluiu que não valia a pena. É possível que algumas substâncias existentes no sangue jovem, como a taurina, possam ter um efeito rejuvenescedor, mas o mais provável é ele dever-se à remoção de detritos. Em 2020, investigadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, verificaram esse mesmo efeito quando substituíram metade do sangue de um ratinho velho por albumina (uma proteína do sangue) e uma solução salina. Talvez haja vantagens em filtrar e diluir o sangue mais velho, sugeriram então.
Entre as teorias estapafúrdias com que o Homem andou a tentar enganar a morte ao longo dos tempos, não encontramos a restrição calórica – severa –, a única intervenção que, entretanto, a Ciência demonstrou que poderá ser capaz de retardar o envelhecimento em vários animais, incluindo nos primatas.
Em experiências realizadas com macacos mantidos em restrição calórica desde a década de 80, na Universidade de Wisconsin e no Instituto Nacional do Envelhecimento, nos EUA, verificou-se que têm menos doenças relacionadas com a idade, como cancro e diabetes, e que vivem até mais 20 anos. Em seres humanos, foi já há uma década que se colocou um grupo de voluntários a comer 25% menos do que seria normal, durante dois anos, e os resultados foram animadores, mas manter pessoas a vida inteira numa dieta tão parca não é exequível nem desejável.
O STRESSE DE PASSAR FOME
O próprio Bryan Johnson aumentou a ingestão de calorias ao fim de dois anos (de 1 950 para 2 250), porque perdera tanta gordura, incluindo na cara, que as pessoas começaram a compará-lo com a atriz Tilda Swinton. “Apesar dos excelentes biomarcadores, olhavam para mim e diziam: ‘Este tipo está velho.’ Era uma questão de perceção. Mas também era doloroso para mim, porque estava sempre em défice e com fome”, admitiu.
É sabido que o stresse mental de se estar sempre com fome pode levar à depressão, o exercício físico pode tornar-se impossível e a libido diminui. “A restrição calórica pode acrescentar alguns anos à vida, mas não será uma vida que valha a pena ser vivida”, acredita João Pedro de Magalhães, professor de Biogerontologia Molecular no Instituto de Inflamação e Envelhecimento da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, onde trabalha na reprogramação e no rejuvenescimento das células.
As 4 linhas de investigação mais promissoras (+ 1)
Entre os vários fármacos e terapias que já demonstraram ter efeitos positivos na longevidade e na qualidade de vida de ratinhos, estes são os que têm mais potencial
RAPAMICINA
É utilizada como imunodepressor para prevenir a rejeição de órgãos transplantados. Estudos realizados em ratinhos de meia-idade aumentaram o seu tempo de vida saudável em 60%. Ela inibe a enzima mTOR, que acelera a divisão celular. Laboratórios e empresas estão agora a tentar atingir zonas a jusante dessa via para desenvolver medicamentos antienvelhecimento que não deixem o sistema imunitário desprotegido, como acontece com a rapamicina.
METFORMINA
É um antidiabético oral indicado para o tratamento da diabetes tipo 2, que foi utilizado pela primeira vez na década de 1950, em França. Chegou aos EUA nos anos 90 e, desde então, os investigadores documentam várias surpresas, incluindo uma redução do risco de cancro. Por ser barato, as farmacêuticas não apostam na investigação que o relacionam com a longevidade. Nos EUA, espera-se financiamento para avançar com o Ensaio TAME, seis anos de ensaios em 14 instituições, envolvendo três mil pessoas, para testar se aquelas que tomam metformina sofrem um atraso no desenvolvimento ou na progressão de doenças crónicas relacionadas com a idade.
REMOÇÃO DAS CÉLULAS SENESCENTES
Em estudos com ratinhos, demonstrou-se que remover as chamadas células zombies, que criam um ambiente inflamatório, pode melhorar o processo de envelhecimento. A senescência é um estado em que as células deixam de se dividir, acabando a segregar substâncias químicas que prejudicam as outras à sua volta. O grande senão de as remover é que essas células também evitam certos tipos de cancros.
NEUTRALIZAÇÃO DE ANTICORPOS MONOCLONAIS
É uma terapia, já usada em várias doenças, que reduz a inflamação de uma maneira considerável. Num estudo publicado na Nature, em 2024, investigadores descobriram que o bloqueio de uma proteína chamada IL-11 pode prolongar significativamente o tempo de vida saudável de ratinhos em cerca de 25%.
OZEMPIC E SEMELHANTES
Os recentes fármacos antidiabéticos, que têm a semaglutida como princípio ativo e atuam também na perda de peso, reduzem a morte por todas as causas. Faz sentido, uma vez que as pessoas ficam drasticamente mais saudáveis, mas ainda não se conhece o seu efeito a longo prazo. A farmacêutica Lilly, que produz um deles, está já a monitorizar várias pessoas, para tentar perceber o seu impacto na longevidade.
E a verdade é que os estudos não são conclusivos. “Existe a hipótese de a restrição calórica não retardar o envelhecimento humano, embora possa ter alguns benefícios para a saúde e proteger contra algumas doenças relacionadas com a idade, em particular o cancro, e possa prolongar ligeiramente o tempo de vida”, escreve o investigador no seu site. “Pessoalmente, só consideraria submeter-me [a ela] se tivesse cancro, e mesmo isso teria de ser cuidadosamente ponderado e discutido com o meu médico.”
RAPAMICINA EM PEQUENAS DOSES
Ainda assim, em cima da mesa dos investigadores encontram-se agora medicamentos que parecem produzir efeitos semelhantes aos da restrição calórica. Não são (ainda?) comprovadamente pílulas milagrosas, mas já há quem os tome off label, por sua conta e risco. É o caso da rapamicina, um imunodepressor utilizado em transplantes de órgãos, e da metformina, um fármaco contra a diabetes tipo 2, que estão a ser estudados com grande afinco [Ver caixa As 4 linhas promissoras (+1)].
Foi já em 2009 que se descobriu que a administração de rapamicina a ratinhos de meia-idade prolonga o tempo de vida em 9% a 14%. Dois anos depois, um estudo com ratinhos mais jovens viu o seu tempo de vida prolongado em 10% a 18%. E, em 2014, num pequeno ensaio clínico, melhorou a imunossenescência (processo de deterioração gradual do sistema imunológico decorrente do envelhecimento natural do organismo) em voluntários idosos.
Há um ano, dados preliminares de um estudo realizado na Universidade do Texas, nos EUA, sugeriram que a rapamicina também funciona nos nossos “primos” saguis. Embora o estudo ainda não tenha terminado, o seu autor principal disse na reunião anual da Associação Americana do Envelhecimento que os animais que receberam o medicamento mostraram um aumento de aproximadamente 10% na esperança de vida.
João Pedro de Magalhães tem colegas investigadores que tomam rapamicina, em pequenas doses. “Eu não recomendo, do ponto de vista profilático, porque tem efeitos imunodepressores”, lembra. “E, realmente, há, por exemplo, pessoas que dizem que têm mais úlceras na boca…”

Quanto à metformina, a comunidade científica está suspensa no arranque de um grande ensaio nos EUA, o TAME, que durante seis anos envolverá mais de três mil indivíduos, entre os 65 e os 79 anos. Na Universidade de Wake Forest, na Carolina do Norte, que será o centro coordenador, aguarda-se que a FDA, o regulador norte-americano do medicamento, reconheça o envelhecimento como uma condição tratável. Se isso acontecer em breve, este ensaio marcará uma mudança de paradigma: passa de tratar cada doença médica relacionada com a idade separadamente para tratar essas doenças em conjunto, visando o envelhecimento per se.
Mais recentes, e ainda a serem falados como uma hipotética boa surpresa na área da longevidade, são os medicamentos para a diabetes que começaram a ser usados contra a obesidade, como o Ozempic, que têm o efeito secundário de fazer perder massa muscular, o que leva habitualmente a uma longevidade mais baixa (referidos na mesma caixa sobre as linhas promissoras). Não consta que a cobaia-Johnson tenha tomado o remédio de emagrecimento da moda, mas a verdade é que faz tratamentos regulares para ganhar volume na cara…
+ SAÚDE IGUAL A + LONGEVIDADE
Certo é que são já várias as “empresas da longevidade” a celebrar contratos de prestação de serviços com clientes que assinam termos de responsabilidade e embarcam em tratamentos que ainda não têm evidências claras em seres humanos. “O caso típico são homens com muito dinheiro, a trabalhar na alta finança, que querem um quick fix [uma reparação rápida] e estão dispostos a pagar seja o que for”, ouviu recentemente Filipe Cabreiro, investigador do Imperial College, em Londres, no Reino Unido, e da Universidade de Colónia, na Alemanha, a um médico norte-americano (Ver entrevista).
Olhar para o que já se provou cientificamente funcionar e tentar alcançar um fim idêntico sem sacrifícios associados é um dos caminhos que os investigadores estão a trilhar, como já se viu. Um outro é o desenvolvimento dos medicamentos que sejam capazes de eliminar as células senescentes, corriqueiramente chamadas “zombies”.

Com a idade, os mecanismos de reparação e os meios de eliminação enfraquecem, e essas células acabam a prejudicar as que as rodeiam. Já existem medicamentos senolíticos, que as matam, mas, por enquanto, ainda não se descobriu uma maneira de não afetar todas as outras nesse processo. Até agora, os ensaios clínicos com células senescentes em pessoas não correram particularmente bem.
João Pedro de Magalhães lamenta que não haja tanto dinheiro a ser canalizado para a investigação na área da longevidade como há, por exemplo, para o cancro e as doenças degenerativas. “Vai cem vezes mais dinheiro para o cancro, mas não se consegue ter boa saúde sem aumentar a longevidade, porque as pessoas doentes não duram muito”, lembra, não ironicamente.
PESSOAS MAIS FELIZES
“Se conseguirmos abrandar o envelhecimento nem que seja um bocadinho, terá um impacto a nível de várias doenças. E, pelo menos em modelos animais, em minhocas, já se consegue mudar um só gene e aumentar a longevidade dez vezes. Em ratinhos, consegue-se aumentar a longevidade 50%”, sublinha. “É verdade que existe uma diferença grande para os seres humanos – nos ratinhos, os investigadores passam a vida a curar o cancro, é relativamente simples, a toda a hora!”
Poderá persistir um problema de financiamento, mas a sensação que um leigo tem é a de que nunca se falou tanto, nunca se estudou tanto, nunca se investiu tanto nesta área. Os estudos multiplicam-se nas notícias, os eventos acumulam-se no calendário. Em março, até o Vaticano deverá ter uma cúpula dedicada ao envelhecimento.

Claro que outro caminho, que é potencialmente alcançável pelo comum dos mortais, passa por tentar replicar os bons exemplos – mas se o caro leitor está já a pensar naquele seu avô que fumava um maço de tabaco todos os dias e chegou aos 100 anos, pense antes de mais nada nas ditas zonas azuis, regiões do planeta onde os seus habitantes têm uma longevidade invulgar.
O fenómeno foi identificado pela primeira vez há duas décadas por Dan Buettner, um jornalista norte-americano que andou durante 15 anos a visitar populações que vivem mais do que a média. Depois de ter feito reportagens na região de Nuoro, na Sardenha (Itália), nas ilhas de Okinawa (Japão), na Península de Nicoya (Costa Rica), na ilha de Icária (Grécia) e em Loma Linda, na Califórnia (EUA), Buettner concluiu que as zonas azuis são regiões em que as pessoas vivem saudáveis durante muito tempo, sem serem propriamente comedidas.
“Não têm um estilo de vida de restrições. São pessoas felizes, com um nível de stresse muito baixo, relações sociais muito sólidas, dieta alimentar saudável e sem exageros… São o melhor exemplo de compatibilidade entre o ambiente e a longevidade”, acredita Filipe Cabreiro, que se dedica a estudar a relação entre o microbioma intestinal e a forma como envelhecemos.
Sim, a chamada flora intestinal tem influência na nossa esperança de vida. A ligação entre esses triliões de microrganismos com a longevidade foi desenvolvida há mais de cem anos por um microbiologista russo que criou o termo probiótico para as bactérias do ácido lático. Como não tinha provas para a sua tese, em 1908 escreveu um artigo intitulado O Prolongamento da Vida, a que deu o subtítulo de Estudos Otimistas.
Hoje existem provas para as suas suposições, lembra Cabreiro, nomeadamente de que a saúde e o tempo de vida podem ser drasticamente prolongados se transferirmos o microbioma de um animal mais jovem para um mais velho (através do transplante de fezes). O problema com os humanos é que o nosso microbioma está constantemente a mudar.
“Uma pessoa que esteja a consumir vegetais vai ter um microbioma muito diferente de outra pessoa que coma carne. E, se mudar a sua alimentação, o efeito verifica-se em apenas três ou quatro dias”, explica o investigador. “Para já, vamos começar por criar um conjunto de micróbios dos quais saibamos exatamente o que cada um faz e o que produz.”
Uma das boas notícias que os investigadores insistem em repetir é que há muita coisa que pode ser controlada por nós, os comuns dos mortais. O nosso estilo de vida tem influência direta na longevidade – e, sobretudo, na saúde com que eventualmente chegamos aos anos extra. “Gostávamos de ter um medicamento milagroso, porque somos preguiçosos, falta-nos disciplina, mas temos mesmo de estar atentos aos nossos hábitos de vida”, não se cansa de alertar a neurocientista Luísa Lopes, que estuda a neurobiologia do envelhecimento.
“Vivemos mais anos sobretudo porque conseguimos ganhar às doenças infecciosas, embora tenhamos o cancro e as doenças neurodegenerativas em que o envelhecimento ainda é o maior risco”, lembra a investigadora da Fundação GIMM (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine). Mas, “numa perspetiva otimista”, vale a pena sublinhar que em grande parte está nas nossas mãos evitar algumas dessas doenças.
“Há 45% dos fatores de risco para a demência que são potencialmente modificáveis. Ou seja, temos controlo de quase metade”, frisa Luísa Lopes.
É essa a conclusão do mais recente relatório dos peritos que constituem a comissão da revista The Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados com a demência – que no verão de 2024 acrescentou o colesterol LDL elevado na meia-idade e a perda de visão na idade tardia, representando respetivamente 7% e 2% de risco, caso não sejam tratados (Ver infografia 14 Fatores de risco para a demência potencialmente modificáveis).
Também vale a pena lembrar que na demência o fator hereditário é menos de 5%. E que, se não é possível alterar os fatores de risco genético, podemos tentar controlar os riscos de que fala a Lancet.
DAR SENTIDO À VIDA
Luísa Lopes costuma também falar num outro fator de risco que ainda não está estabelecido, mas que tudo aponta para que o seja em breve: o sono. “Temos de combater a ideia de que dormimos quando morrermos. É seguro dizer que a qualidade de sono diminui o risco de demência, mas como temos muitas variáveis, é dificilmente diagnosticável.” Afinal, o sono tem um papel importante na regeneração celular, ao permitir uma “limpeza” do “lixo” no cérebro.
Na secretária do seu gabinete, reparamos num copo de café e lembramo-nos de que publicou um estudo que demonstra haver um recetor ligado à cafeína que altera o risco para a disfunção cognitiva (dois ou três cafés por dia previnem-na, para quem não tem contraindicação).
Para breve, a sua equipa tem para publicação um artigo sobre a disfunção circadiana (distúrbio do sono) como risco para a demência. “No fundo”, resume a neurocientista, “estamos a tentar perceber como podemos melhorar a nossa trajetória cognitiva. Daí a importância dos hábitos de vida, mas também de fármacos como o Ozempic. Novos estudos mostram que ele parece diminuir diretamente a demência, o que pode ser uma linha promissora.”
Noutra zona do GIMM, encontramos Joana Neves e Pedro Sousa-Victor, que estudam paralelamente a modulação imunitária para desenvolver novas terapias baseadas em células estaminais que melhorem a saúde dos idosos, através da medicina regenerativa. Um exemplo de aplicação prática? Nas cirurgias da anca, frequentes nos mais velhos.

Neste joint-lab, em que uma equipa de 12 investigadores trabalha no músculo esquelético, o sistema imunitário e as células estaminais têm de caminhar de mãos dadas, explicam. “A capacidade regenerativa dos nossos órgãos decai com a idade”, lembra Pedro Sousa-Victor. “Temos de corrigir o ambiente para que a célula estaminal funcione”, remata Joana Neves.
Todos estes avanços da Ciência para prolongar a longevidade só têm interesse se houver saúde, sublinham os investigadores entrevistados. As projeções das Nações Unidas são impressionantes (Ver infografia sobre a evolução da esperança de vida na Europa), mas convém que a vida tenha sentido, acrescenta a gerontóloga Lia Araújo.
“Quando se fazem estudos com octogenários ou centenários, um dos principais motivos que apontam para querer continuar a viver não é a saúde, são as relações sociais”, sublinha a professora na Escola Superior de Educação de Viseu e investigadora no CINTESIS, onde integra o grupo AgeingC, dedicado ao envelhecimento. “A fonte de propósito e de significado de vida são as pessoas que as rodeiam.”
No seu estudo Will to Live (vontade de viver), alguns dos centenários entrevistados diziam mesmo: “Por mim, não vivia mais”, lembra Lia Araújo. “E a maioria daqueles que queriam continuar a viver tinham amigos e família, diziam coisas como ‘Gostava de ver a minha neta casar’, o que reforça a ideia de que uma vida com qualidade é uma vida com sentido. Antes, falava-se em dar vida aos anos. Agora, fala-se em dar sentido aos anos. Foi um ensinamento.”

Há uma década, a gerontóloga participou no estudo PT100, com centenários portugueses. Em março, vai avançar o PT100 Social Care, um levantamento dos centenários que estão em todas as ERPPI (estruturas residenciais para pessoas idosas) e centros de dia ou têm apoio domiciliário. Lia Araújo e os seus colegas vão saber quantos são, qual é o género, há quanto tempo se encontram naquela resposta social e qual foi o motivo – solidão, condição frágil de saúde?
“Se cultivarmos as amizades, a probabilidade de ficarmos sozinhos em velhos é menor. Já em relação à família, a incógnita é maior, pode não estar nas nossas mãos, sobretudo se mantivermos as taxas de emigração”, alerta a gerontóloga. “Com quem iremos tomar café? A dimensão online vai ser importante nas nossas vidas. Certo é que viver mais anos, mas sozinhos, não vale a pena.”
Mesmo Bryan Johnson encontrou espaço na sua agenda para estar com amigos e, sobretudo, com o seu filho Talmage, que também começou a seguir um protocolo semelhante ao seu. A polémica mais recente, aliás, envolve a camaradagem pai-filho que muitos veem como exagerada – havia necessidade de o multimilionário revelar ao mundo quem tem mais ereções durante a noite?
Os 8 hábitos para viver mais 20 anos
Adotá-los pode adicionar 21 anos de vida às mulheres e 24 anos aos homens – mesmo na meia-idade, concluiu um megaestudo em 2024
Ser fisicamente ativo
São vários os estudos que tentam provar uma ligação entre o exercício e a longevidade. Em 2017, investigadores da Universidade Brigham Young, no Utah, EUA, descobriram que, pelo menos, 30 minutos de corrida no caso dos homens e 40 minutos no caso das mulheres, cinco dias por semana, podem retardar o processo de envelhecimento celular, ao ponto de uma pessoa parecer biologicamente nove anos mais nova. A falta de atividade física foi associada a um risco de morte 30% a 45% superior.
Não ter dependência de opiáceos
Em causa está um comportamento aditivo e não, por exemplo, a toma de medicamentos para reduzir a dor, por determinação médica. O efeito na longevidade prevista foi estimado entre 30% a 45%.
Não fumar
Num estudo publicado em 2017, em que foram analisados registos de saúde de mais de 600 mil pessoas, investigadores do Instituto Usher, em Edimburgo, no Reino Unido, concluíram que, em média, fumar um maço de tabaco por dia reduz a esperança de vida em sete anos. Quem nunca fumou na vida viu a sua longevidade prevista aumentada em 30% a 45%.
Gerir o stresse
O stresse prolongado leva à libertação contínua de cortisol, uma hormona que, em níveis elevados, contribui para problemas de saúde cardiovascular, diminuição da resposta imunitária e envelhecimento celular rápido. De acordo com um estudo do Instituto Finlandês para a Saúde e o Bem-Estar, publicado em 2020, o stresse pode reduzir o tempo de vida de uma pessoa em cerca de dois anos e oito meses. Conseguir gerir o stresse foi associado a 20% de longevidade adicional.
Ter uma boa alimentação
Um estudo de 2023, liderado por um investigador da Universidade de Bergen, na Noruega, que utilizou a base de dados do Biobanco do Reino Unido, concluiu que a esperança de vida pode aumentar até dez anos após uma mudança sustentada para regimes alimentares mais saudáveis. O efeito foi de 20% na longevidade prevista.
Não beber regularmente álcool em excesso
Alguns estudos sugerem que o consumo ligeiro a moderado de álcool pode ter um efeito positivo na longevidade. Em 2018, a neurocientista Claudia Kawas, da Universidade da Califórnia em Irvine, nos EUA, passou 15 anos a analisar a saúde e os hábitos de 1 500 pessoas com mais de 90 anos e descobriu que aquelas que bebiam um a dois copos de cerveja ou vinho por dia tinham 18% menos probabilidade de ter uma morte prematura. Evitar o consumo excessivo de álcool foi associado a 20% de longevidade adicional.
Ter uma boa higiene do sono
Em 2024, um estudo publicado na revista científica QJM, que envolveu mais de 170 mil adultos norte-americanos, concluiu que os homens que dormem o suficiente vivem cerca de cinco anos mais do que os que não dormem. Para as mulheres, são dois anos. A higiene do sono foi associada a 20% da longevidade esperada.
Ter relações sociais positivas
Qual é uma das principais conclusões de um estudo com mais de 80 anos (e ainda em curso), sobre o desenvolvimento humano na Universidade de Harvard, nos EUA? “A mensagem mais clara que retiramos deste estudo é a seguinte: as boas relações mantêm-nos mais felizes e saudáveis. Ponto final.” Ter boas relações sociais conduziu a um efeito de 5% na longevidade prevista.
Fonte: Impacto de 8 Fatores do Estilo de Vida na Mortalidade e na Esperança de Vida entre os Veteranos dos Estados Unidos, estudo realizado com mais de 719 mil pessoas, publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, em 2024
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