A intensidade, a pujança, o descontrolo dos ritmos africanos, misturados com movimentos contemporâneos, são organizados e amestrados numa espécie de caixa de música com figurinhas mecânicas que dançam como se fossem personagens de um filme de Jacques Tati. O que torna os espetáculos da coreógrafa Marlene Monteiro Freitas quase irrespiráveis – e também geniais. Estreado neste mesmo Teatro Nacional D. Maria II em 2017, Bacantes, Prelúdio Para uma Purga sobe, de novo, ao palco da Sala Garrett nos próximos dias 13 e 14.
Baseada na tragédia de Eurípides As Bacantes, que conta a história do jovem Dionísio a quem é recusada a condição de divindade pelo facto de não acreditarem que a sua mãe engravidou de Zeus (ele jura, por isso, vingança sobre Tebas munido de um exército de bacantes), esta coreografia começa com sons de apitos como música de fundo, a dar a toada. Duas tiras amarelas atravessam o soalho negro de um lado ao outro; como se fossem passadeiras – de linha de montagem, de processo, de trabalho. No nível de cima, sobre fundo branco, destacam-se vários tubos dos tripés, finos, alguns bancos, alguns instrumentos de percussão – quais pequenas flores metálicas a emergir na tela de um teatro de sombras. As personagens parecem araras, a cirandar pelo espaço sem rumo. Junto à boca de cena, passam os músicos, na obscuridade, a tocar trompete. Vem depois o silêncio, ouve-se apenas um murmurar ao longe.
As personagens começam então a movimentar-se como se fossem seres programados, marionetas sem vontade própria – movimentos repetidos, cadenciados. Neste trabalho da coreógrafa cabo-verdiana e portuguesa, premiada na Bienal de Veneza de 2018, o poder dos contrastes é essencial: essas marionetas começam a descarrilar, a descontrolar-se. A fusão de sonoridades, do jazz às mornas, de Ravel a Stravinsky, funciona como gatilho que apela à revolta, ao delírio e à transmutação.
Bacantes, Prelúdio para uma Purga > Teatro Nacional D. Maria II > Pç. D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > 13-14 abr, qua-qui 19h > €9-€16