O cenário é deslumbrante. Uma visão futurista da ideia de paraíso que, como no tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, tem muito de entediante. O paraíso é aqui representado como o interior de uns grandes frascos de vidro; lá fora, a realidade – por oposição à idealidade – está repleta de ferros em riste, de obstáculos, distribuídos por socalcos feitos em metal. Nesta adaptação que o teatro O Bando faz da Divina Comédia, de Dante, reflete-se sobre a ideia de perfeição, mas em que nada se passa.
“Dante está de costas para nós e explica que está à espera. Tem medo de adormecer porque, de cada vez que adormece, tem um pesadelo. E o pesadelo começa sempre da mesma maneira…”, explica o encenador, João Brites, sobre o início do espetáculo. “Sozinho, encontra-se nesse pesadelo. Tudo se passa na cabeça dele.” Aos poucos, vamos percebendo que Dante morre sempre nesses maus sonhos. No fundo, do que tem medo é da morte. E João Brites cita um verso de uma canção de Gilberto Gil: “Não tenho medo da morte, mas sim de morrer.”
Há também uma personagem chamada Beatriz, interpretada pela atriz e cantora Sara Belo. Beatriz – em versão “endiabrada” ou “dantificada”, provocadora ou acatadora – é a encarnação do Amor. E estão ainda em palco nove músicos, que funcionam como figurantes que se exprimem através dos instrumentos (do trompete ao saxofone, da flauta ao clarinete). O Amor interpela Dante, encarnado pelo ator Pedro Gil, acerca do desejo. “O amor conserva a liberdade de eu ir ao outro lado e voltar rapidamente?”, pergunta a dada altura Dante. Ao que Beatriz responde: “Onde? Ao Purgatório? Ao Inferno? À Terra?” Dante elabora então sobre o tempo, e Beatriz dirá que “a carne dos mortais é fraca, não dura nem um instante”.
Paraíso > Teatro Nacional D. Maria II > Pç. D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > 10-20 fev, qua-sex 21h, sáb 19h, dom 16h > €9-€16