No Mindelo, Cabo Verde, existe o mito de que quem se senta numa determinada pedra, no bairro de Font Flip, torna-se gay. Esta e outras histórias são contadas em Quel Pedra, a exposição de Pauliana Valente Pimentel dedicada aos jovens rapazes transgénero que acompanhou e retratou entre 2014 e 2016, descobrindo os seus sonhos, frustrações, esperanças e receios. Um exemplo, apenas, de como os Encontros da Imagem (EI) têm conseguido revelar comunidades, quotidianos e problemáticas desconhecidos, ignorados e desvalorizados, e de oferecer novas perspetivas sobre temáticas na ordem do dia. What Now?/ E Agora?, é a questão fulcral desta 29ª edição, reclamando o papel social e político da fotografia.
Houve 304 respostas ao open call dos EI, de todo o mundo (sobretudo, da Europa), selecionadas por um júri internacional, a que se juntaram os trabalhos dos artistas convidados. “Os resultados ultrapassaram as expectativas, temos um conjunto muito forte”, sublinha Carlos Fontes, diretor artístico do Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais. Haverá um total de 32 exposições, espalhadas por 11 locais de Braga (para que o visitante parta à descoberta da cidade, do Mosteiro de Tibães à Nova Galeria do Largo do Paço) e ainda extensões nas cidades de Guimarães, Barcelos e Porto. Há imagens belas que têm a capacidade de pôr a descoberto uma realidade dura e cruel. É o caso de Fata Morgana, retrato subtil e poético dos estrangeiros que vivem em Salento, no Sul de Itália, a terra natal da fotógrafa Alessia Rollo, decidida a não os reduzir a estereótipos.
O público terá igualmente oportunidade de conhecer, através do olhar de Johanna-Maria Fritz, a cultura circense em regiões com um difícil contexto político, do Irão à Indonésia, na mostra Like a Bird. Já o belga Nick Hannes, um dos convidados desta edição, viajou pelo Dubai entre 2016 e 2018 e encontrou um país entregue a uma urbanização rápida e transformado em “salão de entretenimento fora do controle”, como descreve na sinopse da exposição Garden of Delight. No que diz respeito ao checo Vladimir Birgus, em So Little, So Much, foi convidado a expor imagens captadas entre 1970 e 1980 nos países de influência soviética, nunca antes publicadas – uma herança fotográfica feita de sombras e a merecer uma reflexão para as gerações futuras. Entre os projetos fotográficos nacionais, destaque-se o de Nelson Miranda, Lar do Emigrante Português no Mundo, incursão pela curiosa e utópica fundação erguida na década de 80 numa zona florestal do Norte de Portugal, hoje entregue ao abandono. Prova de que, em Portugal, também há muito por revelar.
Encontros da Imagem > Museu da Imagem, Nova Galeria do Largo do Paço, GNRation, Museu Nogueira da Silva, Casa dos Crivos, Museu D. Diogo de Sousa, Mosteiro de Tibães, entre outros locais > Braga, Guimarães, Barcelos e Porto > 13 set-27 out > grátis