
A peça concentra-se em quatro personagens – Hamlet e Ofélia, Gertrud e Claudius, interpretados por Paulo Mota, Júlia Valente, Maria do Céu Ribeiro e Paulo Calatré
© José Caldeira
Há um lugar indistinto, irreconhecível, uma ruína que sublinha a passagem do tempo. Já não se trata do reino da Dinamarca, mas um espaço intermédio, onde tudo começa por estar devidamente arrumado em sacos XXL, mas que, com o desenrolar da ação e o escalar da violência, rapidamente se descompõe, instalando-se o caos. O abismo que tudo arrasta é uma das marcas d’ O dia da matança na história de Hamlet, a reescrita do original de Shakespeare feita por Bernard-Marie Koltès, em 1974, pouco depois de fundar o Théâtre du Quai e antes de se afirmar como um dos dramaturgos mais significativos da segunda metade do século XX. O trágico que habita a condição humana é reforçado nesta versão condensada, “um Koltès antes de Koltès, que funciona como uma boa iniciação à sua obra”, nota António Júlio, convidado pelo Teatro Experimental do Porto (TEP) para encenar esta produção, em cena no Rivoli entre esta sexta, 15, e domingo, 17.

O ator Paulo Mota, no papel de Hamlet, acentua a complexidade e a estranheza da personagem
José Caldeira
Koltès retira o que lhe interessa da tragédia de Shakespeare. Concentra-se em quatro personagens – Hamlet e Ofélia, Gertrud e Claudius, interpretados por Paulo Mota, Júlia Valente, Maria do Céu Ribeiro e Paulo Calatré –, reflexo de um núcleo familiar onde tudo acontece, a uma velocidade tremenda, com a ação a decorrer em apenas um dia. “Ele conta a história, mas o que lhe interessa é o embate entre as personagens”, sublinha António Júlio. O ator Paulo Mota, no papel de Hamlet, de “luto ruidoso” vestido, acentua a complexidade e a estranheza da personagem, ao gosto do dramaturgo francês, conferindo-lhe um recorte muito físico. Na verdade, embora tenham sido eliminadas as restantes figuras shakesperianas, há ecos das suas vozes em cena, assim como de todos os episódios da história de Hamlet. “Durante o processo de criação, ao tentarmos compreender a obra, fomos muitas vezes procurar as referências em Shakespeare… Mas, a um dado momento, o que me pareceu mais justo foi encontrar Koltès em Shakespeare”, conta António Júlio. A questão da família, muito presente na sua obra, as personagens sanguinárias e perturbadoras, o fardo que carregam, os conflitos vertidos nos discursos… e a ruína inevitável.

José Caldeira