As notícias da morte do romance têm sido, como se sabe, um manifesto exagero e A Anomalia, de Hervé Le Tellier, é mais um exemplo desse género literário capaz de se renovar constantemente. A ficção do escritor francês começa por nos parecer um thriller, com os seus códigos de assassinos a soldo e vítimas emboscadas, para logo se transformar numa sequência de contos interligados, cada um retratando um homem ou uma mulher. Mas quando sentimos que já dominamos o registo do autor, ele volta a trocar-nos as voltas, conduzindo a narrativa para o campo da ficção científica. No fim, nova reviravolta, com cada personagem a ter de se confrontar com a sua individualidade e humanidade. Pelo meio, ainda há um livro dentro do livro, também chamado A Anomalia, e do qual se retiraram as epígrafes das três partes do romance.
Com A Anomalia, Hervé Le Tellier foi distinguido com o Goncourt, o prémio literário mais importante de França. O vencedor recebe apenas um cheque de 10 euros, mas tem garantidas traduções em todo o mundo
Se até agora tudo isto se afigura muito confuso, talvez faça mais sentido se se disser que além de escritor, jornalista e linguista, Hervé Le Tellier é presidente do Oulipo. Este movimento fundado e celebrizado por Raymond Queneau, Italo Calvino e Georges Perec defende uma visão lúdica da literatura, com cada texto a representar um desafio para o autor e para o leitor.
A Anomalia (Presença, 280 págs., €15,90) afirma a sua genialidade nessa ideia de jogo, por vezes sério, tantas vezes irónico. É uma narrativa que nos conquista desde a primeira página e nos agita até ao fim, questionando os limites do conhecimento, sem nunca deixar de nos oferecer uma boa história. Tanto nos remete para o universo das séries de televisão, quanto nos confronta com eternas questões filosóficas.
Saído de uma tempestade, um avião vindo de Paris pede permissão para aterrar no aeroporto de Nova Iorque. Seria um pedido normal, seguido dos procedimentos habituais, não se desse o caso desse avião já ter aterrado, com os mesmo passageiros e tripulação, três meses antes. Seremos nós a anomalia?
