
Desde o início da carreira a solo pós-Czars, em 2010, com o aclamado Queen of Denmark, que o norte-americano John Grant tem nas agruras da vida a sua principal fonte de inspiração. Foi assim nesse primeiro álbum, pleno de orquestrações grandiosas, que serviam de fundo sonoro perfeito para exorcizar um passado de consumo de álcool e drogas e com o assumir público da sua homossexualidade. Foi assim em 2013, com Pale Green Ghosts, um disco feito na ressaca de um desgosto amoroso, no qual contou com a colaboração do músico islandês Birgir Þórarinsson, dos Gus Gus, que lhe abriu os horizontes musicais para os encantos da electro-pop. E volta a ser assim com este novo Grey Tickles, Black Pressure. Segundo o próprio explicou, o título combina, numa tradução literal, uma expressão usada na Islândia, onde vive atualmente, aos 47 anos, para crise de meia-idade com o equivalente turco para pesadelo – convenhamos que não é, de todo, o melhor modo de vender um disco, mas com John Grant, já se sabe, não só tudo isto é possível, como é sinónimo de mais um grande álbum. Não serão muitos, aliás, os intérpretes capazes de cantar sobre sida (John Grant soube em 2011 que era seropositivo através de um SMS enviado por um ex-namorado), e fazer-nos trautear e bater o pé com frases como “there are children who have cancer and so all bets are off, ’cause I can’t compete with that“. A grande diferença, porém, em comparação com os discos anteriores, é esta espécie de saída do armário em relação ao seu estilo grandiloquente, de registo mais intimista (que ainda assim se mantém nalgumas das faixas), para um muito mais assumido electro-pop, que transforma todo este drama existencial num exercício de ironia pura. O maior exemplo disto será talvez o single Disappointing, uma canção pop perfeita, cantada a meias com Tracey Horn, dos Everything But The Girl, transformada por Grant numa ode ao amor que tarda em encontrar. Porque, está visto, quem muito dança seus males espanta…
Veja o vídeo de Disappointing (com a participação de Tracey Thorn):