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Tornou-se a primeira artista em residência da NASA, no início do milénio. Visionária, inventora, performer multimédia, Laurie Anderson continua, aos 68 anos, a produzir obras que surpreendem, fascinam e fazem pensar. No passado dia 14, revisitou Portugal, onde apresentou o seu filme Heart of a Dog, no Lisbon & Estoril Festival. O auditório do CCB, em Lisboa, encheu-se para a ouvir. E ela ensinou-nos o poder do silêncio, do presente, do estar aqui e agora. Dos ensinamentos budistas que procura integrar no quotidiano e nas suas criações, como o do mestre Mingyur Rinpoche: “Aperfeiçoar a capacidade de sentir-se triste sem se ser, na verdade, triste”.
A banda sonora, com excertos de temas antigos e outros inéditos, é uma viagem narrativa sobre o amor, a perda e o desapego, o terrorismo e a vigilância, a empatia e outros estados e mundos que não vemos, mas para os quais podemos despertar tornando a nossa vida mais plena. Para o filme, a artista recuperou filmagens caseiras em 8 mm e combinou-as com animação, reencenando ficção e factos, e palavra escrita (a voz interna que invade a tela a um ritmo tão rápido como o fluxo do pensamento). O espectador (ou ouvinte, no caso do disco) é conduzido pela voz serena de Laurie numa espécie de sonho, meditação guiada, que se inicia a partir da perspetiva de Lolabelle, a rat terrier que tanto a ajudou a superar os trágicos eventos do 11 de Setembro. Uma cadela que “aprendeu a tocar piano” quando cegou e não passou por um processo de eutanásia por vontade expressa do casal Laurie e Lou. “O propósito da morte é a libertação do amor” é o comovente insight da artista para esta obra que dedicou “ao magnífico espírito” do seu marido, Lou Reed. O disco encerra, precisamente, com um tema dele: Turning Time Around.
Veja o trailer do filme Heart of a Dog (que chega às salas portuguesas no dia 17 de dezembro)