Com 120 anos e reconhecida oficialmente como Monumento Nacional, a Livraria Lello Porto marca o arranque do Babell destapando o véu da expansão das suas instalações. Adquirida em 2015 pelo Grupo Lionesa, a livraria da Rua das Carmelitas – onde entram mais de um milhão de visitantes por ano – tem agora ligação direta ao edifício contíguo, oferecendo a visita não só ao número 144, como também ao 152.
O projeto arquitetónico assinado por Álvaro Siza Vieira duplicou o espaço deste edifício histórico. É a mesma Livraria Lello, apenas maior e renovada. A ala Siza apresenta quatro pisos, à qual acrescentaram também um auditório para programação cultural, e um elevador, que fará a ligação entre pisos, permitindo maior acessibilidade.
A partir de quarta, 24, será possível ver A4, trabalho encomendado a Ai Weiwei. A instalação do artista e arquiteto chinês, a morar em Montemor-o-Novo desde 2020, parte de uma folha em branco – folhas de papel A4 feitas a partir de fibras recicladas – que tanto pode ser símbolo de silêncio e vazio como uma reflexão sobre os limites da expressão e o poder do pensamento.
O Babell quer ser mais do que um festival literário. A ideia de Pedro Pinto, administrador da Fundação Livraria Lello e CEO do grupo Lionesa, que detém a Livraria Lello, posta em prática em conjunto com a Câmara Municipal do Porto, tem um espírito de missão de serviço público, transformando o Porto num território cultural ativo, ao promover também o primeiro contacto com a leitura – a programação infantil, a Bibllioterra, com curadoria de Adélia Carvalho, tem o objetivo de aproximar as crianças da Natureza, sentadas no chão, por oposição aos ecrãs.
Ao criarem este evento literário-cultural, começaram por desenhar uma rede de livrarias aderentes, perfazendo 51 do concelho do Porto, para que todos os intervenientes no mundo dos livros se sentissem parte do projeto. A entrada no Babell é assim cheia de simbolismo: é preciso comprar, pelo menos, um livro numa destas 51 livrarias, e converter o código que traz num bilhete. Um código para cada horário. Além disso, as pessoas devem levar esse ou outro livro na mão

Novo Jardim do Pensamento
Em quatro hectares, ao lado do Mosteiro de Leça do Balio, a atual sede da Fundação Livraria Lello, vai nascer um novo espaço verde, provavelmente, “o maior jardim criado pela iniciativa privada em Portugal nos últimos 100 anos”, segundo Rui Couceiro, escritor e comissário do Babell.
Neste terreno reabilitado nasce agora o Jardim do Pensamento, idealizado por Siza Vieira, em colaboração com o arquiteto paisagista Sidónio Pardal, e contará com esculturas de grande porte do arquiteto natural de Matosinhos.
Será inaugurado (24 jun, qua 15h30) com uma conferência (já esgotada) de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha e autor do livro A Sociedade do Cansaço. Lugar propício ao abrandamento, à contemplação em diálogo com a paisagem.
CONFERÊNCIA
Leitura e Resistência – Alberto Manguel
O ensaísta, editor e antigo diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Alberto Manguel, 78 anos, vem ao Teatro Rivoli para falar sobre a história do livro e da palavra escrita, desde o manuscrito até à era digital, como um conjunto de ruturas, reinvenções e permanências. E, claro, contando a história do livro, conta-se a história dos povos.
24 jun, qua 21h30

DESTAQUES SESSÕES COM ESCRITORES
Conversa-concerto de David Uclés
Assumido fã de José Saramago – recentemente, em Lisboa, David Uclés tatuou a sua assinatura no braço esquerdo –, o escritor espanhol de 36 anos estará à conversa com Pilar del Río, viúva do Nobel da Literatura português, e cantará fado, tal como costuma fazer como músico de rua. Defensor de um território ibérico, o seu livro A Península das Casas Vazias, sobre a Guerra Civil Espanhola e que demorou 15 anos a ficar concluído, tornou-se um best-seller, vendendo mais de 450 mil exemplares, traduzido em 20 idiomas, e com uma adaptação para série de televisão na calha.
Pç. da Estação de Metro da Trindade > 25 jun, qui 18h30
Conceição Evaristo e Milton Hatoum
Nomes maiores da literatura brasileira contemporânea, Conceição Evaristo e Milton Hatoum juntam-se para falar da escrita como gesto de memória e resistência.
Pç. Gomes Teixeira (Leões) > 26 jun, sex 16h
Ana Paula Tavares e Dulce Maria Cardoso
Duas mulheres, uma historiadora e poeta angolana, Ana Paula Tavares, outra escritora portuguesa, Dulce Maria Cardoso, à conversa, vão partilhar vivências dos seus percursos marcados por temas como o colonialismo, o exílio e a reconstrução de identidade.
Pç. Gomes Teixeira (Leões) > 26 jun, sex 18h
Sessão literária com Margaret Atwood
Sem fazer qualquer tipo de previsões, Margaret Atwood é exímia em imaginar o futuro, construindo cenários possíveis, onde as estruturas sociais e políticas são levadas ao limite e reconhecidas. Nesta sessão, a escritora canadiana de 86 anos revisita o seu percurso e o papel da literatura como uma forma de questionar, alertar e resistir.
Pç. Gomes Teixeira (Leões) > 27 jun, sáb 16h
Sessão literária com Olga Tokarczuk
Polaca, formada em Psicologia, Olga Tokarczuk, 64 anos, foi distinguida em 2019 pela Academia Sueca com o Prémio Nobel de Literatura pela sua “imaginação narrativa, que com uma paixão enciclopédica representa o cruzamento de fronteiras como forma de vida”. Ao Babell vem falar sobre a literatura como um lugar onde pensar é também imaginar outras possibilidades de existência.
Pç. Gomes Teixeira (Leões) > 27 jun, sáb 18h

Sessão literária com László Krasznahorkai
Apelidado “mestre húngaro do Apocalipse”, László Krasznahorkai, 72 anos, é o mais recente laureado com o Nobel da Literatura, por construir “uma obra convincente e visionária que, no meio do terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. Anders Olsson, presidente do Comité Nobel, considera-o “um grande escritor épico da tradição da Europa Central, que se estende de Kafka a Thomas Bernhard, e é caracterizado pelo absurdo e pelo excesso grotesco”.
Pç. Gomes Teixeira (Leões) > 28 jun, dom 18h30
Sessão literária com Salman Rushdie
Com moderação do escritor argentino Alberto Manguel, também presença garantida no Babell, Salman Rushdie revisita a sua obra e o papel da ficção em tempos cada vez mais conturbados, em que a realidade é posta em causa.
Aos 79 anos (acabados de fazer) e quase quatro anos depois do atentado à faca de que foi alvo em Nova Iorque, o ensaísta e autor de ficção britânico de origem muçulmana indiana, volta aos textos ficcionais sobre envelhecimento e morte, passados entre a Índia, Inglaterra e os EUA, geografias da sua história pessoal.
Coliseu do Porto > 28 jun, dom 21h30
Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge
Duas gerações, dois pensamentos críticos sobre o atual estado do mundo. Os livros de Gonçalo M. Tavares, romancista, ensaísta e poeta, 55 anos, distinguem-se por uma reflexão constante sobre os limites da razão e da civilização. Prémio Pessoa 2025, Lídia Jorge, que acaba de celebrar 80 anos, tem um percurso literário que interroga as transformações históricas, sociais e culturais do País.
Pç. Gomes Teixeira (Leões) > 29 jun, seg 17h
PERFORMANCES
“A Poesia Está na Rua”
Nesta manhã de sábado, todos os caminhos – a partir das ruas de Santa Catarina, das Flores, de Cedofeita e das Carmelitas – vão dar aos Paços do Concelho do Porto. Pelo caminho haverá 12 declamadores e dezenas de voluntários poéticos, especialmente preparados em workshops de leitura poética. Esta iniciativa de levar a poesia à casa do poder termina na varanda da câmara municipal.
27 jun, sáb 10h30
“One Page”, de Cai Guo-Qiang
Responsável pela sequência de fogo de artifício da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim e por grandes intervenções em instituições como o Centre George Pompidou, em Paris, o artista chinês a viver nos EUA tem um trabalho entre obras sobre papel e intervenções pirotécnicas de grande escala. Cai Guo-Qiang usa a pólvora para pintar no céu desenhos e composições visuais que só existem no momento da explosão. Não é um espetáculo de fogo de artifício, é arte pirotécnica. Em Sky Ladder (2016), documentário na Netflix sobre uma intervenção realizada em 2015 que construiu uma escada de fogo com cerca de 500 metros de altura, é possível conhecer melhor o artista.
Ribeira do Porto-Cais de Gaia > 27 jun, sáb 20h15 > Grátis
“Aparição”
Cabe ao cronista e escritor Luís Osório encerrar o evento literário, com um monólogo idealizado de raiz para a ocasião. São histórias, mais ou menos inusitadas, de escritores portugueses e estrangeiros ao longo das décadas a dar o mote. Alguns episódios menos conhecidos do universo das letras serão apresentados em Aparição no varandim da Torre dos Clérigos.
Esta não é a primeira vez que o antigo jornalista se apresenta ao vivo, sozinho em palco. Em 2022, estreava-se o monólogo Ficheiros Secretos, baseado no seu livro homónimo, em que assumia o papel de narrador da história recente de Portugal.
Torre dos Clérigos, Rua da Assunção/Campo dos Mártires da Pátria > 29 jun, seg 21h30

EXPOSIÇÕES
“Desenhos do Cinismo e Melancolia”, de Ana Vidigal
A obra de Camilo Castelo Branco (1825-1890), a sua escrita em particular, está na origem de cada uma das 22 peças de pequenas dimensões, tal como páginas abertas, trabalhadas nas duas faces com colagem, desenho e pintura. Ao revisitar Camilo, Ana Vidigal, 65 anos, cria um confronto entre palavra e imagem, entre memória literária e interpretação contemporânea.
Museu Nacional Soares dos Reis > Grátis
“Gestures of Love”,de Kelly Santos
Luso-descendente, a morar em Paris, Kelly Santos criou a exposição Gestures of Love com base nos gestos subtis e mínimos das relações humanas, dando visibilidade a pormenores por vezes invisíveis da vida afetiva. O diálogo entre literatura e artes visuais surge através de gestos, equivalentes a palavras, capazes de narrar histórias de afeto, memória e proximidade.
Depois da estreia na Cidade do México, em 2024, seguindo para Nova Iorque, este terceiro capítulo da exposição reinventa-se no Porto.
Biblioteca Municipal Almeida Garrett > Grátis
“Imagens Cativas”,de Daniel Mordzinski
Conhecido internacionalmente como “o fotógrafo dos escritores”, o argentino Daniel Mordzinski revela na antiga Cadeia da Relação, onde fica o Centro Português de Fotografia, um conjunto de retratos que fazem parte de um vasto arquivo visual da literatura contemporânea. Fotografias que transformam o retrato de autor numa forma singular de criação artística. Uma curiosidade: na antiga Cadeia da Relação estiveram detidos presos políticos e figuras da cultura, entre as quais Camilo Castelo Branco.
Centro Português de Fotografia > Grátis
“Poesia Imersiva: Cego Som”, de João Habitualmente
João Habitualmente é o nome literário de Luís Fernandes, poeta e professor catedrático da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto. Tendo perdido a visão há alguns anos, faz muito sentido ser o curador desta exposição dedicada à poesia contemporânea através de uma instalação sonora, em que poemas portugueses, de autores vivos, são ditos por diferentes vozes e ouvidos na escuridão.
Mosteiro de São Bento da Vitória > Grátis
Bibllioterra
Este é o programa dedicado ao público infantojuvenil, os mais jovens de idade e futuros leitores, que vai encher os jardins do Palácio de Cristal e transformar a Avenida das Tílias numa aldeia de histórias ao ar livre.
Entre sessões de histórias, oficinas de ilustração e de construção de brinquedos e outras atividades itinerantes, não existe um palco ou um ponto de partida – os participantes são convidados a explorar “um território narrativo aberto”.
Segundo a curadora, Adélia Carvalho, “as primeiras histórias nasceram da observação do mundo natural: do vento, das árvores, dos animais, do ciclo do dia e da noite. É a esse lugar primordial, onde as histórias ajudavam a explicar o mundo e a aproximar as pessoas, que propomos regressar.”
Haverá Histórias para Explicar o Mundo, para Proteger, para Fazer Rir, para Fazer Adormecer, para Espantar, para Explorar a Natureza, para Viajar, para Cantar e para Ouvir de Olhos Fechados. As narrativas surgirão manuscritas, faladas, datilografadas, desenhadas, feitas à mão, suspensas entre as copas das árvores, em movimento ou sentadas nos bancos de jardim. Contem com a presença de Kiara Terra, Alda Casqueira, Dinis o mini biólogo, Estefânia Surreira, Saphir Cristal, Fábio Superbi, Adriano Reis, Bando dos Gambozinos e Simão Bolívar, entre outros.
27-28 jun, sáb-dom 9h30-13h > 1 livro por família (até 2 adultos e 3 crianças)

CINEMA
Sessões no Batalha
A parceria com o Batalha Centro de Cinema leva à exibição de três filmes, resultantes de obras literárias de escritores que marcam presença no Babell.
Retrato de um Certo Oriente (2024, 93 min), de Marcelo Gomes, a partir do livro do brasileiro Milton Hatoum, conta a viagem de dois irmãos católicos que em 1949 fogem da guerra no Líbano para o Brasil.
25 jun, qui 19h15
The Handmaid’s Tale (1990, 108 min), de Volker Schlöndorff, a primeira realização que adaptou o livro de Margaret Atwood ao cinema. Com Natasha Richardson, Robert Duvall, Aidan Quinn e Faye Dunaway, este eterno futuro distópico – em que a poluição tornou a maioria das mulheres inférteis, tendo as aias como única função gerar filhos para homens influentes – está neste século XXI cada vez mais realista.
27 jun, sáb 11h15
Rastros (2017, 128 min), de Kasia Adamik e Agnieszka Holland, adapta o romance Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk, cruzando o thriller com a fábula ecológica e a sátira social, explorando questões de justiça, da defesa dos direitos dos animais, de violência e da relação entre humanos e Natureza.
28 jun, dom 11h15

MÚSICA
GNR, Pedro Abrunhosa e Rui Veloso
Passados a noite e o Dia de São João, a Avenida dos Aliados volta a encher-se de gente para cantar a uma só voz os maiores êxitos dos músicos portuenses ligados à vida cultural da cidade. Em palco, GNR e Pedro Abrunhosa irão cantar juntos duas canções, mais um tema novo, composto especialmente para a ocasião, a partir de textos de grandes poetas portuenses.
25 jun, qui 21h30
Carminho e Bárbara Bandeira
A canção Onde Vais, lançada em outubro de 2021, juntou as duas artistas, mas nesta noite de música portuguesa cada uma terá a sua atuação – a modernidade pop e urbana de Bárbara Bandeira, o fado tradicional reinventado de Carminho.
26 jun, sex 22h30
AULAS
Ciclo O Porto em 90 Minutos
O auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett será palco de quatro aulas de História do Porto: A História do Porto em 90 Minutos, por Nuno Resende, professor e especialista em História da Arte Portuguesa (27 jun, sáb 9h30); A Arquitetura do Porto em 90 Minutos, por Nuno Valentim, arquiteto e docente (27 jun, sáb 11h30); A História da Música do Porto, por Sofia Lourenço, pianista e musicóloga (28 jun, dom 9h30); A Literatura do Porto em 90 Minutos, por Isabel Pires de Lima, professora emérita e especialista na obra de Eça de Queirós (28 jun, dom 11h30).
24-29 jun, qua-seg > 1 livro equivale a 1 código, convertido em bilhete > 27-28 jun, sáb-dom > Bibllioterra (programa infantojuvenil nos jardins do Palácio de Cristal): 1 livro por família (até 2 adultos e 3 crianças) > Programação completa em babell.fundacaolivrarialello.pt