Dar o nome a uma nova rua da cidade não é, garantidamente, tarefa fácil.
Mas foi o objetivo proposto, a todos os cidadãos, pelo Viver a Rua. As candidaturas revelaram as várias camadas do tecido social do Porto. O projeto, criado pelo britânico Joshua Sofaer, partiu do convite do Núcleo de Experimentação Coreográfica (NEC) para deixar a sua marca na cidade.
“Tem uma ligação à live art e à arte participativa, com uma abordagem bastante acessível e inclusiva”, conta Joclécio Azevedo, diretor artístico do NEC. Em 2010, enquanto estrutura convidada do FITEI, lançaram a campanha de recolha de candidaturas.
Receberam 253 válidas. Um júri alargado, onde constam, entre outros, o médico José Pinto da Costa, o escultor José Rodrigues ou a cantora Manuela Azevedo, avaliou as propostas e selecionou cinco nomes para apresentar à comissão de toponímia da câmara municipal do Porto.
“Quisemos questionar as regras rígidas e debater os modelos de vida normalmente reconhecidos pela comissão. Sabíamos, à partida, que alguns seriam chumbados, mas era fundamental espelhar a diversidade e a forte carga simbólica.” A placa já lá está, no cruzamento da Rua Manuel Pinto de Azevedo com a rua do Conde da Covilhã, na freguesia de Ramalde. No passado sábado, dia 4, uma pequena cerimónia revelou o eleito – e lança o catálogo com as escolhas finais do júri e dois ensaios inéditos da autoria de Álvaro Domingues e Gabriela Vaz-Pinheiro.
O VENCEDOR
António Nicolau d’Almeida: Tributo à Cidade e às suas Figuras Históricas (1873-1948)
Fundador e primeiro presidente do Futebol Clube do Porto, o júri quis reconhecer o seu papel na demarcação da identidade da cidade, além de destacar o envolvimento do grupo de estudantes, responsável pela candidatura, num concurso que apela à participação e ao sentido de pertença.
OS FINALISTAS
David Sobral (1978-2007): Tributo à Juventude Interrompida
O designer de luz/som e gestor cultural foi proposto como “símbolo dos jovens que não tiveram futuro, mas que, no tempo que tiveram, idealizaram e realizaram coisas importantes”.
Gisberta Salce Júnior (1960–2006): Tributo à Tolerância
Viveu o estigma da diferença e morreu em condições desumanas. O júri não pretendeu ‘a homenagem da pessoa em si, mas a condenação da violência e da injustiça’.
Maria Natália da Silva Gandra (1953): Tributo ao Cidadão Comum
Conhece as ruas do Porto pelas janelas do autocarro, a saltitar de casa em casa como empregada de limpeza. “Representa, enquanto pessoa desconhecida e aparentemente insignificante, as forças invisíveis que suportam o tecido das grandes cidades.”.
Jorge Vasques (1958-2009): Tributo aos Atores
Faleceu no camarim, após uma representação. Uma homenagem a uma classe esquecida, que alimenta o imaginário da cidade.