As autoridades de saúde francesas dizem ter confirmado uma ligação entre os aditivos adicionados à carne processada, nomeadamente os nitratos e nitritos, e o aumento de risco de cancro colorretal. O órgão nacional de segurança alimentar do país, Anses, assegurou que as suas mais recentes conclusões sobre o tópico vão ao encontro de resultados semelhantes apresentados em 2015 pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Num comunicado publicado esta semana, a Anses recomendou “a redução do consumo da gama de nitratos e nitritos, limitando deliberadamente a exposição através do consumo de alimentos”.
“A ANSES analisou os estudos científicos sobre o cancro publicados desde o trabalho de referência da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA, 2017) e da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro (IARC, 2018). Confirma que existe uma associação entre o risco de cancro colorretal e a exposição a nitritos e/ou nitratos, sejam eles ingeridos através do consumo de carne processada ou água potável”, escreveu a organização.
Nitritos e nitratos são os dois tipos de aditivos referidos pela Anses no seu comunicado e são normalmente colocados em carnes processadas, nomeadamente produtos de charcutaria, com o objetivo de os conservar, aumentando a sua vida útil, e de lhes conferir a tonalidade rosada que os caracteriza. De acordo com a organização, são os nitritos que existem predominantes neste tipo de produtos, sendo que “mais de metade da nossa exposição (a nitritos) está relacionada com o consumo de carne de charcutaria”. Os nitratos, por outro lado, embora também adicionados a estes produtos, são menos predominantes e são ingeridos, na sua maioria, a partir do “consumo de produtos vegetais, em particular vegetais folhosos como espinafre e alface”.
O controlo sobre as quantidades de nitritos e nitratos ingeridos é essencial quando se considera que “quanto maior a exposição, maior o risco de cancro colorretal”, como salienta a Anses. Sendo a França uma das maiores produtoras mundiais de produtos de charcutaria, de que são exemplo o presunto e as salsichas, o governo preocupou-se em controlar os efeitos dos aditivos nesta indústria. “Trata-se de limitar (o uso de aditivos) ao estritamente necessário”, anunciaram, numa declaração conjunta, os ministros da saúde e da agricultura franceses.
Os planos do governo incluem reduzir os aditivos em carnes processadas, o que pode ter consequências para a saúde do consumidor que não são unicamente positivas. Como explica a Anses, na “carne de charcutaria, nitratos e nitritos são adicionados principalmente para limitar o desenvolvimento de bactérias responsáveis por doenças como salmonelose, listeriose e botulismo”. Por isso, esta redução deve ser feita de forma controlada, assegurando que não são criados outros riscos para a saúde do consumidor. “A redução deve ser feita de forma equilibrada para que garanta a segurança alimentar do consumidor”, precaveram os ministros franceses.
O governo do presidente Emmanuel Macron já se comprometeu a divulgar um “plano coordenado para liderar a redução ou a supressão do uso de (…) aditivos em alimentos sempre que isso for possível sem impacto na saúde”. A própria Anses alerta para os riscos de uma redução não controlada dos nitratos e nitritos em carnes processadas. “O seu uso [de aditivos] pode ser reduzido a níveis tão baixos quanto razoavelmente atingíveis sob a estrita condição de que outras medidas sejam tomadas para controlar o risco de contaminação por essas bactérias”, anuncia a agência.
Este controlo deverá ainda variar de produto para produto e outras medidas devem ser também tomadas em compensação da redução deste tipo de aditivos. “Por exemplo, para o presunto cozido, níveis reduzidos de nitrito podem levar à antecipação do prazo de validade. Para o presunto curado a seco, os níveis de sal e as temperaturas durante as etapas de salga, descanso e refino do produto devem ser rigorosamente monitorizadas”, exemplificou a agência.
Em 2015, quando a OMS lançou os seus primeiros alertas no que toca aos produtos de charcutaria, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro da ONU advertiu que as carnes processadas deveriam ser classificadas como cancerígenas do grupo um. Este grupo inclui todo o produto ou substância que conta com um extenso corpo de pesquisa científica a provar a sua qualidade cancerígena. Produtos como o tabaco ou as radiações ultravioleta já foram estudados o suficiente para serem considerados, com pouca ou nenhuma dúvida, cancerígenos. É neste grupo que as carnes processadas, onde se incluem também os fiambres, carnes enlatadas, molhos à base de carne, entre outros, devem ser colocadas, de acordo com a OMS. Existem “evidências suficientes de estudos epidemiológicos de que comer carne processada causa cancro colorretal”, disse a organização.
O controlo dos aditivos pode fazer-se sentir em França também a nível económico já que o país conta com uma das maiores indústrias de produção de charcutaria do mundo, valendo cerca de 6,7 mil milhões de euros, de acordo com o The Independent. Apenas em 2020, foram vendidas mais de 687 mil toneladas.
Além do cancro colorretal, a Anses acredita que os nitratos e nitritos podem estar na origem de outros tipos de cancro, embora não haja certezas. “O risco de outros tipos de cancro também é suspeito, mas com base nos dados atualmente disponíveis, nenhuma conclusão pode ser tirada quanto a uma relação causal. A Agência recomenda a continuidade da pesquisa neste campo para confirmar ou refutar tal relação”, explica.
No que toca aos nitratos, concretamente, mais presentes em vegetais e água potável, a Anses aconselha a um controlo dos seus níveis na água e no solo. “Para reduzir a exposição aos nitratos na água potável, e também através do consumo de frutas e produtos hortícolas, a Agência sublinha a importância de continuar a otimizar certas práticas, como a aplicação de fertilizantes e estrume animal, adaptando-as da melhor forma às necessidades das culturas. Esta redução deverá ocorrer também nas instalações de abastecimento de água onde o limite de quantidade dos nitratos tenha sido excedido”, explica a agência.
A Anses deixa, ainda, um conselho direto aos consumidores: “limitar a ingestão de carne de charcutaria a 150g por semana; e seguir uma dieta variada e equilibrada, com pelo menos cinco porções de frutas e vegetais de diferentes fontes por dia”.