“O seu teste Covid-19 deu resultado não detetável”. A mensagem chega ao telefone às 17h05, exatamente 15 minutos após termos deixado o centro de testes à Covid-19 da farmácia Nifo, em Algés, uma das sete que já integram a lista de farmácias aderentes ao programa de testagem em massa gratuito da Câmara Municipal de Oeiras, que se iniciou ontem, segunda-feira 5 de abril.
A visita foi rápida e sem cruzamentos com outros utentes, ainda que Arshad Gafar, o profissional de saúde de serviço, tenha assegurado que o dia foi mais movimentado que o habitual. “Estávamos a testar dez pessoas por dia e hoje foram 17, sete das quais ao abrigo do protocolo com a Câmara”, revela. Para poder realizar de novo um teste rápido antigénio, será necessário esperar 14 dias, já que cada residente no concelho tem direito a fazer dois testes gratuitos por mês. Além das farmácias, a autarquia comunicou ainda que será possível realizar testes numa Unidade Móvel itinerante, que será colocada em locais estratégicos do concelho.
À semelhança de Oeiras, também a Câmara Municipal de Lisboa começou um plano de testagem em massa gratuito, a 31 de março. Os residentes, maiores de 16 anos, das freguesias com mais de 120 novos casos por 100 mil habitantes em 14 dias, podem agendar telefonicamente um teste rápido antigénio numa das mais de 100 farmácias do concelho que já aderiu ao plano.
Quanto mais precocemente identificarmos casos de infeção, maior será a nossa capacidade de resolver as eventuais cadeias de transmissão
ricardo mexia – presidente da associação nacional de médicos de saúde pública
Por agora, são contempladas apenas 10 freguesias (Ajuda, Alvalade, Arroios, Estrela, Marvila, Olivais, São Vicente, Santa Clara, Santa Maria Maior e Santo António), mas a lista será atualizada de 15 em 15 dias, de acordo com a evolução dos números da Covid-19. Também em Lisboa, cada residente tem direito a dois testes por mês.
Já em Portimão, decorre, desde 23 de março, uma operação de testagem em massa, na sequência de um surto de Covid-19 relacionado com o setor da construção civil. Após quatro dias de testagem massiva no drive thru do Portimão Arena e de três dias de testes de proximidade nas freguesias de Figueira, Mexilhoeira Grande, Ladeira do Vau e Montes de Alvor, a autarquia adotou uma estratégia setorial que abrange a construção civil, mercados, serviços municipais, agentes de proteção civil, taxistas, padarias, empresas de apoio ao domicílio, segurança privada, pescadores e comércio.
Detetar precocemente os casos de infeção para melhor controlar a pandemia é o objetivo principal apontado pelas autarquias que já lançaram programas massivos de testagem, e defendido também pelos especialistas. Ricardo Mexia, Presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, assegura que a testagem é fundamental, tanto nas pessoas sintomáticas como nas assintomáticas, pois “quanto mais precocemente identificarmos casos de infeção, maior será a nossa capacidade de resolver as eventuais cadeias de transmissão que surjam e reduzir o potencial de disseminação da doença”.
À espera de uma estratégia nacional
Desde fevereiro que a Ministra da Saúde, Marta Temido, manifesta o desejo de testar em larga escala, gratuitamente e sem prescrição médica todo o País. A 18 de março, foi criada uma task force, justamente para elaborar um Plano de Operacionalização da Estratégia de Testagem em Portugal, mas o grupo, coordenado por Fernando Almeida, presidente do Conselho Diretivo do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), parece não ter ainda uma data definida para apresentar o plano, indicando apenas que será nas próximas semanas.
Ainda assim, citado pelo jornal Público a 26 de março, Francisco Almeida assegurou que, além do milhão e meio de testes de rastreio já disponível na reserva estratégica do país, “vêm a caminho mais 12 a 13 milhões de testes, dos quais entre 750 mil a um milhão chegam já dentro de dias”. Nessa mesma manhã, em conferência de imprensa, a ministra de Estado e da Presidência Mariana Vieira da Silva confirmou “a estratégia de alargamento muito significativo dos testes”, materializada na definição de estratégias para que “em locais onde a incidência supere 120 [novos casos por 100 mil habitantes] existam testes de forma mais massificada”.
À hora da publicação deste artigo, o Ministério da Saúde não respondera ainda às perguntas da VISÃO, nomeadamente qual a data prevista para a apresentação do programa, quais os tipos de testes que serão considerados (PCR, antigénio ou autotestes), se existirão locais de testagem criados especificamente para o efeito, se os custos dos testes estão a cargo de cada autarquia ou serão suportados pelo Executivo e ainda a quantos testes gratuitos, por mês, terão acesso os cidadãos.
À VISÃO, Ricardo Mexia sublinhou algumas das sugestões, que já dera a 23 de março, durante a reunião de especialistas do Infarmed, relativamente à melhor forma de proceder com a testagem em massa. “Deve ser guiada por vários fatores e poderá fazer sentido reforçá-la junto de populações que estão mais expostas, nos cuidados de saúde ou transportes públicos, ou que são mais vulneráveis, como os trabalhadores sazonais, migrantes e sem-abrigo”.
O perigo de esconder resultados positivos
O maior receio dos especialistas prende-se com o acompanhamento e a fiabilidade dos resultados dos testes que serão feitos. Se os programas locais de Oeiras e Lisboa assentam num protocolo com a Associação Nacional de Farmácias, permitindo que todos os resultados sejam automaticamente inseridos no SINAVE, sistema nacional de vigilância epidemiológica, e partilhados com as equipas de saúde pública, nada assegura que tal se replicará nas medidas a definir pela task force.
Caso seja admitida a utilização dos chamados autotestes, vendidos nas farmácias e feitos em casa, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes receia que “comece a haver uma grande percentagem de testes rápidos feitos sem supervisão de profissionais de saúde, comprometendo a fiabilidade dos resultados”.
Para Ricardo Mexia “é importante os cidadãos não retirarem conclusões que estes testes não permitem retirar e evitarem excessos de interpretação”, até porque “um resultado negativo de um destes testes não é uma carta branca para que as pessoas possam fazer coisas que, de outra forma, não fariam”.
Ambos os especialistas concordam que, nestes casos, a existência de um sistema eficiente, que permita agilizar o registo dos resultados, será essencial. Manuel Carmo Gomes defende mesmo que a comunicação dos resultados deste tipo de testes devia ter um sistema à parte. “Assim, podíamos facilmente separar as contas da percentagem de positivos desse universo de testes das contas da percentagem de positivos dos testes feitos com supervisão profissional”.
O epidemiologista refere ainda ter algum receio que, quem tenha resultados positivos nos auto-testes, possa não comunicá-los sequer à linha SNS24. “O ideal seria a testagem em massa ser sempre feita numa farmácia ou num centro de saúde, onde há a garantia de uma correta monotorização dos resultados”, conclui.
Quais os principais riscos de uma testagem em massa?
A resposta evidente, como aponta Ricardo Mexia, seria nenhuns. “Quanto mais se testa mais se identificam novos casos precocemente”, afirma o médico de Saúde Pública. Mas há o risco de resultados negativos infundirem a sensação nas pessoas que “têm uma carta branca para fazerem o que querem”. Sobretudo, porque também podem existir falsos negativos e falsos positivos, mas vamos por partes.
Manuel Carmo Gomes admite que os testes rápidos de antigénio realizados por profissionais de saúde, apesar de serem ideais para estratégias de testagem massificada por serem rápidos, baratos e passíveis de serem feitos com frequência, podem dar falsos negativos. Como são menos sensíveis que os testes PCR de diagnóstico, podem não detetar a presença de vírus, caso a pessoa tenha sido infetada há menos de 48 horas e apresente uma carga viral na nasofaringe muito baixa.
“Mas, ao contrário da PCR, estes testes podem ser feitos uma, idealmente duas vezes, por semana, é essa a coisa boa”, afirma Carmo Gomes. “Mesmo que o teste não identifique nada na primeira vez, daí a dois dias, já deteta a infeção, quando a pessoa está realmente contagiosa e capaz de transmitir a doença”, assegura ainda o especialista
Quanto aos falsos positivos, Manuel Carmo Gomes explica, “os testes antigénio não são 100% específicos e podem identificar um coronavírus que não seja o SARS-CoV2, resultando positivo na mesma”. Nestes casos, “para não estar a isolar em casa pessoas que não necessitam”, o epidemiologista afirma que os resultados têm mesmo de ser confirmados com um teste PCR, até porque, como sublinha Ricardo Mexia, tal confirmação implica uma série de consequências de saúde pública, do isolamento em casa à necessidade de responder a um inquérito epidemiológico.
O intervalo entre dois testes rápidos deve ser, no máximo, uma semana e o que é recomendado são duas vezes por semana”.
manuel carmo gomes – epidemiologista
Quanto ao intervalo de tempo que deve existir entre dois testes rápidos de antigénio, Ricardo Mexia defende que depende muito da situação epidemiológica e aguarda o que será decidido pela task force. Já Manuel Carmo Gomes considera que, por exemplo, 14 dias são demasiados. “Eu defendo que seja, no máximo, uma semana, mas o que é recomendado são duas vezes por semana”.
Maioria dos alunos excluídos da testagem em massa
Se a maior parte do País aguarda indicações da task force, a testagem em massa nas escolas, foi iniciada logo a 20 de janeiro e intensificada a 16 de março. Nos quatro dias que seguiram a reabertura das creches, estabelecimentos de ensino pré-escolar e 1º ciclo foram realizados mais de 82 mil testes a trabalhadores docentes e não docentes dos setores público e privado. Nos restantes níveis de ensino, os rastreios começam entre hoje e decorrem até 9 de abril, para o 2º e 3º ciclos, e de 19 a 23, para o secundário.
Em comunicado, o Ministério da Educação assegura que todo o pessoal docente e não docente, bem como todos os trabalhadores de Atividades de Animação e de Apoio à Família (AAAF) na Educação Pré-Escolar, Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) e Componente de Apoio à Família (CAF) no 1º ciclo do Ensino Básico dos concelhos com taxa de incidência superior a 120 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias, serão testados. No entanto, à exceção do Ensino Secundário, não está prevista a testagem de alunos.
À exceção do Ensino Secundário, não está prevista a testagem de alunos
“Que nós saibamos, em termos de taxa de ataque, ou seja, da probabilidade de as pessoas serem infetadas, a idade não é muito relevante”, afirma Manuel Carmo Gomes que alerta para a importância de testar também os alunos, inclusive os do primeiro ciclo. “Apesar de, muitas vezes, não manifestarem sintomas, podem estar infetados, propagando a infeção entre si, sem se aperceberem, levando-a depois para casa”. A ideia dos testes rápidos é, nas palavras do especialista, “fazer um screening geral da população repetidamente” e, por esta razão, “toda a gente com capacidade de infetar, sejam funcionários, professores ou alunos, deveria ser testada, pelo menos, uma vez por semana”.
Segundo uma orientação conjunta da Direção Geral da Saúde, do Instituto de Segurança Social e da Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares, publicada em março, os testes em creches e escolas serão realizados com intervalos de 28 dias, exceto entre o primeiro e o segundo (14 dias), podendo este intervalo ser encurtado para 14 ou sete dias, consoante o número de casos identificados nos testes realizados.
Toda a gente com capacidade de infetar, sejam funcionários, professores ou alunos, deveria ser testada, pelo menos, uma vez por semana
manuel carmo gomes – epidemiologista
Apesar de considerar a iniciativa de louvar, Carmo Gomes acredita que a periodicidade da testagem com testes antigénio deveria ser semanal e alerta, “não serve de nada fazer esses testes só no primeiro dia de aulas, porque uma pessoa que tenha sido infetada nesse dia ou no dia anterior pode testar negativo e começar a infetar muita gente alguns dias mais tarde”.